role e atravesse a porteira

Uma coleção de crônicas

Celeiro do Sam

Celeiro do Sam, desde 2007

Sobre o autor

Samuel Dias nasceu em São Miguel, no Rio Grande do Norte. Ainda criança, transformou a área de casa em palco e dublou Sandy & Junior para os vizinhos, com uma fita cassete gravada pela tia Auxiliadora.

Estudou em Pau dos Ferros, fez cursinho em Natal e se formou em Comunicação Social em Campina Grande. Lá entrou para o teatro, onde ganhou uma nova família e aprendeu a costurar as túnicas dos fantasmas de Pluft. A habilidade serviu no dia da colação de grau: ele queimou a manga da beca com o ferro de passar, remendou o buraco e foi assim mesmo.

Faz da escrita uma maneira de observar o mundo e de não deixar que certas coisas passem sem registro. O cotidiano, para ele, nunca pareceu pequeno demais para virar história. Numa noite em Natal, com pressa de voltar para o episódio de A Diarista, sacudiu a porta várias vezes para ter certeza de que estava trancada, e o barulho fez uma vizinha jurar que havia um ladrão no prédio. Quando a polícia apareceu, perguntou o que tinha acontecido como quem não sabia de nada, e quando um dos policiais quis saber, por gestos, se o vizinho do lado era doido, respondeu com gestos de quem também não sabia.

Em 2007 abriu o Celeiro do Sam, onde suas divagações transitam entre o humor e a reflexão. Entre uma crônica e outra, inventa histórias, relembra outras e monta listas dos seus preferidos, discutindo cada posição com a seriedade de um júri. O blog começou como um lugar para falar do dia a dia e segue acompanhando diferentes fases e endereços de sua vida.

Sumário

OficinaOs textos do Celeiro em gráficos e brincadeiras. Escolha um recorte.abrir →AventuraNa véspera da formatura, a turma pega a estrada para uma fazenda e o ônibus fica sem combustível no meio do caminho. O filme de 2002 do Samuel.ler →Canto do cháA casinha da Escócia que o Samuel adotou como celeiro. Bata na porta e entre.entrar →De fora do celeiroUm número secreto e uma porta que tinha hora para abrir.ler →Edição impressaO Celeiro diagramado para o papel.baixar ↓

Índice dos textos

Diário de Lucas

  1. Diário de Lucas – Parte I – “O Passeio”8
  2. Seis Anos de Um Epílogo10
  3. Diário de Lucas – Parte II – “A Busca”11
  4. Diário de Lucas – Parte III – “O Casamento”14

Família

  1. Outros Valores18
  2. Um Dia Especial19
  3. O Círculo da Vida21
  4. Aqueles Momentos23
  5. Um Mergulho no Amanhã25
  6. Nada É Por Acaso28
  7. O Embrulho e o Presente32
  8. 24 anos35
  9. Eu!38
  10. Enquanto espero...40
  11. Centésimo desatino42
  12. Um aniversário45
  13. Impressões49
  14. Nas alturas52
  15. Lembrete55
  16. Pragmatizando...!?57
  17. Por que não suporto canto de galo59
  18. Marlon e a bola62
  19. Meu jardim botânico65

Espiritismo

  1. As energias e suas mensagens69
  2. Além das fronteiras73
  3. Tráfego transcendental76
  4. O espelho de alguém80

Faculdade

  1. A cabeça na lua – Primeiro estágio84
  2. O PDF do PageMaker86
  3. A Nova Postagem88
  4. Discurso de Formatura91
  5. Queimei a beca!!93
  6. Menino reconhecido95
  7. O papel do papel97

Fragmentos

  1. Fragmentos · 1100
  2. Fragmentos · 2102
  3. Fragmentos · 3104
  4. Fragmentos · 4106
  5. Fragmentos · 5108
  6. Fragmentos · 6111
  7. Fragmentos · 7113
  8. Fragmentos · 8115
  9. Bem antes do útero117

Comentários

  1. Preciosa Lucidez120
  2. Em Algum Espaço121
  3. Tédio!...122
  4. Perspectiva123
  5. Sobre mar124
  6. Vâmo pulá!125
  7. E já passou!...127

Crônicas Cotidianas

  1. Ventos de Experiência129
  2. Fora da Rotina132
  3. Noite de TOC135
  4. Carta Social138
  5. O Objeto Estranho140
  6. “A ‘psicóloga’ está?”142
  7. Abelha na Janela144
  8. Observando...!146
  9. Detector de estresse147
  10. Bastidores do censo148
  11. Questão de números151
  12. Quando o velho som de novo153
  13. Um hipocondríaco no Rio155
  14. Antes da alvorada158
  15. Esperando o efeito passar160
  16. Os incensos163

Crônicas

  1. De Volta Para O Passado166
  2. Velhos Sonhos169
  3. O que há de novo em nós172
  4. Tatuagens Removíveis174
  5. Paixão de ser brasileiro177
  6. Tudo errado ou eu sou errado179
  7. Tempo182
  8. Nossa própria trilha184
  9. Vamos fugir!186
  10. Yesterday and today188
  11. A arte do coração193
  12. O paradoxo do desenvolvimento196
  13. Nosso eu de coração198
  14. A água que eu respiro200
  15. O resto é mar203
  16. O estranho planeta dentro de mim205
  17. Vai encarar?207
  18. Sem contra-indicações210
  19. Desencanando212
  20. Assumo a culpa215
  21. E no fim... as cinzas217
  22. Onde habita a intimidade?219
  23. Alimente o meu ego221
  24. Me mente uma verdade224
  25. Garantindo o seu posto227
  26. Retrato de alguém229
  27. Cai o pano231
  28. Próxima parada: fim do mundo!234
  29. Estilo alheio236
  30. Mantenha a distância um pouco próximo!238
  31. O verdadeiro celeiro240
  32. A essência que eu respiro242
  33. Entre as molas244
  34. Um 2015 mais molhado!246

Opinião

  1. “Liberdade!” Que liberdade!?249
  2. O Futuro no Pretérito250
  3. Cinco Minutos a Mais253
  4. Poeira na Janela255
  5. A Mente Por Trás Da Emoção257
  6. Depois da Projeção259
  7. E Lá Vem o Trem...261
  8. Até Quando??!264
  9. Epifania267
  10. Uma Tarde e Tanto269
  11. Sei lá... Maneco Tem Sempre Razão271
  12. Agora ele existe!273
  13. Pés Cansados275
  14. A Globo e os seus sete pecados277
  15. A Globo e os seus sete pecados – Parte 2279
  16. Bem-vindo ao Nosso Lar281
  17. A Globo e os seus sete pecados – Parte 3284
  18. Maktub – estava escrito286
  19. Palpite288
  20. Eis o prêmio da tua caridade291
  21. A safra da vez293
  22. Os controladores de foco296
  23. A noite volta a ter lua cheia298
  24. O que fica de Amor à Vida300
  25. Ainda há espaço pra Maneco?303
  26. Pra reinar de novo306
  27. O Golpe se prepara para o Grand Finale309

Natal

  1. E As Luzes Se Acendem...312
  2. O Encanto Está de Volta314
  3. Um olhar pra dentro315
  4. Precipitações de uma manhã317
  5. Natal no mundo319
  6. Registrando321

Prêmios

  1. Prêmio Dardos323
  2. Prêmio Lemniscata324
  3. O Retorno do Primata325
  4. Selo de qualidade328
  5. Sunshine Award330
  6. Temporada de selos331

Miscelânea

  1. “Compromisso é uma palavra que resume”334
  2. Unidos na Alegria e no Empreendedorismo336
  3. Do Outro Lado338
  4. Eternamente Seis340

Retrospectivas

  1. Beatles: álbuns preferidos344
  2. O fenômeno Sandy e Junior: há explicação?351
  3. 12 deslizes de roteiro de Smallville365
  4. Os 10 melhores episódios da série Sandy e Junior373
  5. Ranking dos álbuns de Sandy e Junior381
  6. Ranking das Temporadas da série Smallville390
  7. Os melhores finais de temporada de Smallville399
  8. As melhores estreias de temporada de Smallville408
  9. As melhores temporadas da série Sandy e Junior417
  10. 15 Melhores episódios de Smallville422
  11. 15 Melhores Episódios da 1ª Temporada de Sandy e Junior432
  12. 15 Melhores Episódios da 2ª Temporada de Sandy e Junior439
  13. 15 Melhores Episódios da 3ª Temporada de Sandy e Junior446
  14. 15 Melhores Episódios da 4ª Temporada de Sandy e Junior454
  15. 15 Piores episódios de Smallville462
  16. 10 Melhores Episódios da 1ª Temporada de Smallville470
  17. 10 Melhores Episódios da 2ª Temporada de Smallville477
  18. 10 Melhores Episódios da 3ª Temporada de Smallville484
  19. 10 Melhores Episódios da 4ª Temporada de Smallville490

De fora do celeiro

  1. Na sala de espera497
Tema Diário de Lucas 04 textos

Diário de Lucas – Parte I – “O Passeio”

“Eu estava me for­mando no ensino médio na mesma turma que meu irmão Gus­tavo. Era uma época de gran­des recor­da­ções. De repente tudo aquilo que vive­mos juntos por três anos seria fes­te­jado em uma viagem que pro­me­tia muita aven­tura. E pra ser exato, foi mesmo uma aven­tura. Pare­cia uma excur­são qual­quer. Uma turma de jovens saindo de férias com dois pro­fes­so­res para uma fazenda, ônibus estilo ame­ri­cano e muita cur­ti­ção. Eu e minha namo­rada Amanda na época, está­va­mos bas­tante ansi­o­sos pelo pas­seio. Todos os nossos amigos esta­riam lá. Nossa mãe nos encheu de reco­men­da­ções sobre os cui­da­dos que deví­a­mos ter durante o pas­seio. Mas os pro­ble­mas come­ça­ram ainda na con­cen­tra­ção em frente à escola.

Tati­ana resol­veu levar o seu irmão mais novo com a gente, ou melhor, ele se ofe­re­ceu e creio que ela não teve esco­lha. O garoto era uma pulga, se enfi­ava onde menos espe­rava e não perdia a chance de se meter na vida alheia e infer­ni­zar o humor dos que a sua volta se encon­tras­sem. Ele des­co­briu na namo­rada do meu irmão a cobaia per­feita para as suas arti­ma­nhas. Milena não escon­dia de nin­guém a sua insa­tis­fa­ção em passar um fim de semana em uma fazenda ao lado dos amigos que pouco impor­ta­vam para ela. E isso ali­men­tou o ins­tinto de per­se­gui­ção do nosso temido Rafa. Ainda no ônibus ele mos­trou que estava ali para apron­tar e provar para Milena que a viagem iria valer a pena. E Milena ia ter que agüen­tar muito ainda. Meu irmão já não sentia o mesmo por ela e se apro­xi­mava cada vez mais da doce Carol.

Já eu, curtia tudo de cama­rote. Não havia estresse para o meu lado, só queria curtir o pas­seio e claro, Amanda. Con­tudo, havia um sen­ti­mento oculto naquela época, que eu não contei nem mesmo para o meu melhor amigo, o Ema­nuel. E esse sen­ti­mento me acom­pa­nhou sor­ra­tei­ra­mente ao longo de toda a viagem. Dentre os pro­fes­so­res que nos acom­pa­nha­ram estava Elvira. Uma recém for­mada que encan­tava não só a mim, mas também ao pro­fes­sor Miguel. Eu nutria um cari­nho espe­cial e porque não dizer dife­rente por ela. Pode­ria ser apenas uma leve atra­ção entre aluno e pro­fes­sor, mas eu sabia de longe que o que sentia pela pro­fes­sora Elvira era algo dife­rente do que sentia pela Amanda.

O pas­seio trans­cor­reu como pre­visto por um longo tempo, até que o ines­pe­rado acon­te­ceu. O nosso ônibus resol­veu que não par­ti­ria mais daquele ponto a lugar nenhum. E a notí­cia do Zeca pegou todos como uma bomba. Está­va­mos sozi­nhos, em um lugar total­mente des­co­nhe­cido e sem com­bus­tí­vel para ir nem à esquina (como se hou­vesse). Depois de um longo bate-boca deci­di­mos que o melhor era sair para pro­cu­rar ajuda. Milena ainda quis ficar, mas como o Gus­tavo disse que ia, ela se viu obri­gada a ir também ou o esta­ria entre­gando de mãos bei­ja­das e lam­bi­das a Carol. E assim segui­mos pela mata. Havia muitos mos­qui­tos, mas parece que eles se dedi­ca­vam em atacar apenas a Milena que não parava de se encher de repe­lente.

Nessa hora decidi brin­car de João­zi­nho e Maria com Amanda e a puxei pelo braço. Nós nos afas­ta­mos dos demais e saímos por outros cami­nhos. Con­fesso que ima­gi­nei encon­trar um oásis no meio de toda aquela mata que pudesse ali­viar o nosso can­saço, como nos filmes de aven­tura. Mas o que encon­tra­mos foi um antigo rio de águas bal­dias e sem nenhuma cacho­eira mágica. Não era o que espe­rá­va­mos, mas não dava pra recla­mar. Lava­mos nossos rostos, cor­re­mos pelas águas rasas e depois não resis­ti­mos, caímos de roupa e tudo nas águas sujas daquele pedaço de oásis defei­tuoso. Algu­mas horas depois deci­di­mos retor­nar ao ônibus, o pes­soal já devia estar pre­o­cu­pado. Mas pre­o­cu­pa­dos porém, fica­mos nós quando che­ga­mos lá e só encon­tra­mos o Zeca dor­mindo em um dos bancos. A galera não havia vol­tado ainda e pro­va­vel­mente àquela altura esta­riam per­di­dos.”

Lucas Mendes

Diário de Lucas – Parte II – “A Busca”

“Era quase meio-dia e nós está­va­mos ali há quase 1 hora olhando angus­ti­a­dos para o hori­zonte em busca de alguma luz, ou melhor, algum aluno. Nin­guém apa­re­cia. Zeca, Amanda e eu dis­cu­tí­a­mos sobre o que deví­a­mos fazer. Se per­ma­ne­cí­a­mos no papel de segu­ran­ças do ônibus ou se nos arris­cá­va­mos no des­co­nhe­cido em busca de loca­li­zar a galera. Cada segundo era deci­sivo, mas não con­se­guí­a­mos entrar em acordo. Zeca defen­dia a nossa per­ma­nên­cia no local por acre­di­tar que a mata era des­co­nhe­cida e ter­mi­na­rí­a­mos per­di­dos também. No fundo ele estava certo. Se por acaso algum aluno vol­tasse, seria melhor encon­trar alguém ali do que se depa­rar com o ônibus vazio. Con­tudo, aquela situ­a­ção me angus­ti­ava. Que rumo teriam tomado? Haviam encon­trado abrigo, sinais de pre­sença humana? Onde esta­riam agora?

Minha espe­rança era Amanda, que acre­di­tava na pos­si­bi­li­dade deles esta­rem repou­sando numa linda rede azul na varanda de algum mora­dor da região, enquanto nós ficá­va­mos ali afli­tos e pou­pando man­ti­men­tos. As horas se pas­sa­vam deva­gar e os mos­qui­tos, na falta da Milena, come­ça­ram a nos atacar. Vez por outra nos afas­tá­va­mos e íamos ao rio dar um mer­gu­lho. A noite chegou com toda fero­ci­dade. Nossa tv tinha se trans­for­mado em um esplên­dido cosmo com direi­tos a relâm­pa­gos e tro­vões. Ainda bem que a chuva não caiu. Pas­sa­mos a noite espe­cu­lando todas as pos­si­bi­li­da­des que pode­riam acon­te­cer a nós e ao pes­soal se per­ma­ne­cês­se­mos imó­veis ali. Lá pelas tantas da madru­gada deci­di­mos que era hora de nos embre­ar­mos mata aden­tro.

Bem o sol raiou, nos des­per­ta­mos, arru­ma­mos nossas baga­gens com tudo que seria sufi­ci­ente para nos abas­te­cer uma semana, caso não con­se­guís­se­mos mais voltar e aban­do­na­mos o ônibus na estrada. Nenhuma lagar­tixa atra­ves­sava o nosso cami­nho. Pare­cia que as pes­soas haviam esque­cido aquele pedaço de terra que habi­tá­va­mos agora. Quanto mais andá­va­mos, mais estra­das, tri­lhas e ras­tros sur­giam pelo cami­nho. Era pre­ciso seguir os prin­ci­pais ves­tí­gios dei­xa­dos pela mata para des­co­brir qual cami­nho a galera tinha tomado. A tarefa às vezes se tor­nava fácil quando nos depa­rá­va­mos com as emba­la­gens amas­sa­das das balas de goma do Rafa. Porém, elas que se encon­tra­vam quase uma atrás da outra, come­ça­ram a ficar raras e depois a sumir. Nossas pistas agora pre­ci­sa­vam ser mais deta­lha­das.

Foi uma longa manhã que tive­mos pela frente. Alguns momen­tos, che­guei a pensar que tinha sido uma pés­sima deci­são, mas con­ti­nu­ava cami­nhando. Uma pausa para uma breve refei­ção e logo mais seguí­a­mos pelos ras­tros. Che­ga­mos a encon­trar emba­la­gem de sal­gado e bis­coito reche­ado, fiapos de calça agar­ra­dos em arame far­pado e até um boné de algum esque­cido. Nosso medo era de encon­trar mais adi­ante ves­tí­gios de sangue, mas não tive­mos essa des­ven­tura, ainda bem. Por volta das 2h da tarde che­ga­mos a um resto de fogueira pró­ximo a uma majes­tosa oiti­cica. Lá encon­tra­mos mais sinais da pre­sença da galera e de que está­va­mos no cami­nho certo. Come­ça­mos a seguir mais depressa ainda. Estra­das e mais estra­das até que final­mente escu­ta­mos vozes que não eram as nossas. Era Milena. Ela gri­tava pedindo por socorro. Cor­re­mos até onde vinham os gritos e final­mente num misto de ale­gria e afli­ção, encon­tra­mos a galera.

No alto de um pequeno des­fi­la­deiro, Milena estava pen­du­rada pelos braços enquanto outros ten­ta­vam puxá-la. Fica­mos estar­re­ci­dos com a situ­a­ção. No puxa-puxa, Gus­tavo con­se­guiu subi-la, mas acabou se dese­qui­li­brando e caindo do bar­ranco. Uma nuvem escura tomou conta dos meus olhos. Pas­sa­mos o dia em busca do pes­soal, dese­jando não encon­trar sangue e de repente ele decide se exibir bem na nossa frente. Corri para o local onde Gus­tavo tinha caído e o encon­trei dei­tado com o braço e a perna machu­ca­dos. A mali­nha de pri­mei­ros socor­ros agora ia final­mente nos ser útil. Carol chegou logo em seguida com uma afli­ção visí­vel e o beijou ali­vi­a­da­mente na boca. O quê?! Peraí! E a Milena? Ela chegou depois, toda desar­mada pedindo des­cul­pas pela queda. É, muito mais coisa havia acon­te­cido do que eu pudesse sus­pei­tar durante esses dias pela mata.

Ferido aten­dido, era hora de voltar ao ônibus e nos juntar aos demais. É isso aí! A galera havia se divi­dido em duas equi­pes com o intuito de retor­nar ao ônibus. A outra já havia de ter che­gado. Assim, par­ti­mos em seguida em uma equipe de 10 pes­soas. Três horas depois come­ça­mos a avis­tar o ama­relo vibrante do ônibus. E logo os demais alunos e pro­fes­so­res cor­re­ram ao nosso encon­tro. Eles haviam se comu­ni­cado com a escola e um novo ônibus esta­ria vindo para nos buscar. Final­mente um mere­cido des­canso. Opa! O pro­fes­sor Miguel quis dis­cur­sar. Depois de enfei­tar com belas recor­da­ções os momen­tos tensos que pas­sa­mos por lá, ele fez algo que me abalou pro­fun­da­mente e pelo qual não estava pre­pa­rado. Ele pediu a pro­fes­sora Elvira em casa­mento e ela acei­tou com um beijo agra­de­cido entre os alunos que aplau­diam emo­ci­o­na­dos. O que quer que eu sen­tisse por ela, teria um fim ali se eu não fizesse alguma coisa”.

Lucas Mendes

Diário de Lucas – Parte III – “O Casamento”

“Era o ves­tido mais bonito que já havia visto. E a noiva mais bela que já pude ima­gi­nar. Estava na sala da casa do pro­fes­sor Miguel. Um grande imóvel com um imenso jardim rode­ado de fron­do­sas árvo­res e uma bela pis­cina. Eu obser­vava as mani­cu­ras e cabe­lei­rei­ras pre­pa­ra­rem a pro­fes­sora Elvira para a grande oca­sião. O sor­riso no rosto dela me feria como agu­lhas no peito. Não mere­cia vê-la ir embora assim. E pior que tudo, eu havia sido con­vi­dado para ser padri­nho dela ao lado da Amanda. Decidi deixa-la com as com­pa­nhei­ras e fui ao jardim, onde os últi­mos pre­pa­ra­ti­vos esta­vam sendo feitos. Alguns con­vi­da­dos já cir­cu­la­vam em volta da pis­cina. O padre espa­lhava seus livros e taças sobre o altar impro­vi­sado. Ao lado dele, Carol ten­tava conter a ansi­e­dade do Miguel.

Fui ao encon­tro de Amanda, Edu­arda e Susi. Depois de algum papo-furado, fomos mag­ni­fi­ca­dos com a pre­sença de uma cri­a­tura mais irre­ve­rente que a Ros­si­cléia e mais enig­má­tica que o Zé do Caixão. Era Mãinha! Uma baiana que não levava desa­foro pra casa. Seu par­ceiro não tardou em chegar. Rafa tinha ido passar as últi­mas férias na Bahia e lá encon­trou não só sua cara-metade, como as delí­cias e os cos­tu­mes bai­a­nos, num foi, meu rei? Ainda tive­mos que assis­tir uma demons­tra­ção de suas nuan­ces, antes dos dois saírem agar­ra­dos pelo jardim.

Pouco tempo depois, eu entrava com Elvira e cami­nhava pelo solado ver­me­lho em dire­ção ao padre, ou mais pre­ci­sa­mente a um torto rival. Bem, era hora de enca­rar os fatos. A pro­fes­sora Elvira, embora demons­trasse uma gra­ci­o­si­dade que lhe era pró­pria da sua jovi­a­li­dade, já era uma mulher, com expe­riên­cias pes­so­ais até mais do que pro­fis­si­o­nais. E eu era sim­ples­mente um aluno. Um aluno que levava um namoro com uma garota da turma e dese­java sutil­mente uma pro­fes­sora. Ela estava deci­dida a desa­fiar novos tri­lhos e nem des­con­fi­ava dos inte­res­ses por trás do sor­riso camu­flado, sempre em res­posta à sua sim­pa­tia.

Ainda che­guei a gelar quando o padre per­gun­tou a céle­bre frase ‘alguém contra?’. Pensei em me mani­fes­tar. Mas o que diria? O que meu irmão pen­sa­ria de mim? E a Amanda? A Amanda! Final­mente eu tinha olhado para ela. Está­va­mos juntos há um bom tempo. Mas o que sen­tí­a­mos um pelo outro não pare­cia ser o mesmo. Dessa forma, enca­rei o ‘sim’ e o beijo que pode­ria ser meu. Minhas pernas ainda tre­me­ram, mas não foi pior do que a tal da Mãinha, que se jogou no chão na hora do buquê para agarrá-lo e quem acabou rece­bendo foi Edu­arda.

Decidi que não iria à festa. Comen­tei com a Amanda e o Gus­tavo que estava com enxa­queca e pre­ci­sava ir para casa. Amanda ainda quis ir comigo, mas acabei a con­ven­cendo a ir com o pes­soal. Em casa pude refle­tir sobre todos os sen­ti­men­tos que aca­bara de pre­sen­ciar. Esta­ria mesmo amando a pro­fes­sora ou era apenas paixão de ado­les­cente? Já era por volta das 3 da manhã quando ouvi os passos do Gus­tavo entrando em casa. Ele ainda chegou dedi­lhando as emo­ções e a feli­ci­dade estam­pada no rosto de cada um, em par­ti­cu­lar no de Elvira. Fingi estar com sono e pedi para ele não me narrar os flashes do último capí­tulo.

Na manhã seguinte tomei uma deci­são. Fui à casa da Amanda, saímos até o parque, toma­mos sor­vete e no meio da con­versa decidi pôr fim na nossa rela­ção. Segun­dos após sua per­ple­xi­dade, notei a sua con­for­ma­ção e per­cebi que de certa forma aquilo já não era tão sur­preen­dente quanto ima­gi­nava. Foi uma longa con­versa que se suce­deu a partir daí, e nem o gelo do sor­vete der­re­tendo em nossas mãos, foi sufi­ci­ente para romper nossa con­cen­tra­ção. Ali se encer­rava uma his­tó­ria. E por mais que tivesse cer­teza de que já não terí­a­mos futuro, não fiquei satis­feito com a reso­lu­ção dos fatos. Estava per­tur­bado.

O semes­tre seguinte chegou como uma tem­pes­tade. Entrei na uni­ver­si­dade para o curso de arqui­te­tura e fui morar na capi­tal com três amigos. De recep­ção fomos limpar carros no trân­sito cober­tos de tinta e fari­nha. Era o famoso trote. Uma nova turma estava pres­tes a se formar. Novas aven­tu­ras, emo­ções e claro, pai­xões. No momento estava aberto a tudo. Não queria me enca­nar com nin­guém. Che­guei a ficar com várias garo­tas da facul­dade. Fui a muitas farras com a galera. Pare­cia real­mente que o pas­sado de incer­te­zas e nuvens escu­ras estava dizendo adeus. Curtia com todas as letras o sig­ni­fi­cado da expres­são ‘liber­dade’.

As pri­mei­ras férias che­ga­ram mais rápido do que nunca. Em um momento estava sozi­nho com os amigos na capi­tal e no outro olhava o hori­zonte e as belas praias de Flo­ripa. Resolvi viajar sozi­nho para fugir um pouco da agi­ta­ção de Vitó­ria. Me habi­tuei a cami­nhar des­calço pela areia todas as manhãs, sen­tindo as ondas bate­rem contra as pernas e aque­ce­rem a cir­cu­la­ção. Nada pode­ria me afetar ali, naquele pedaço de édem. Foi quando de repente, avis­tei uma jovem que vinha ao meu encon­tro des­calça, com um ves­tido trans­pa­rente e um grande chapéu, que

segu­rava na cabeça com as mãos. Sua pre­sença me pare­ceu fami­liar. Logo per­cebi que não era o único a pensar assim. Ela me olhava que­rendo me iden­ti­fi­car também e con­se­guiu. ‘Lucas’! Ela excla­mou com um imenso sor­riso, antes de vir cor­rendo ao meu encon­tro. Eu não podia acre­di­tar. Era a pro­fes­sora Elvira. Ela me abra­çou for­te­mente e por um minuto voltei a ser o mesmo Lucas de meses atrás. Cheio de sonhos, pai­xões secre­tas e incer­te­zas”.

Lucas Mendes

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Outros Valores

Uma expo­si­ção no shop­ping Igua­temi aqui em Cam­pina Grande me chamou a aten­ção ontem. Ela mostra atra­vés da foto­gra­fia a his­tó­rica urba­nís­tica da cidade. São diver­sas fotos desde a década de 20 até a década de 50. A mul­ti­dão que olhava admi­rada as fotos não ima­gi­nava as his­tó­rias que se escon­diam por trás de cada flash. O autor da obra, Sóter Farias de Car­va­lho, se dedi­cou a foto­gra­far a cidade no início ainda por hobby e depois se des­co­briu um amante da reve­la­ção. Foi cro­nista, repór­ter, vere­a­dor, mas apenas na foto­gra­fia encon­trou sua voca­ção.

A his­tó­ria me fez lem­brar dois fatos. O pri­meiro a deter­mi­na­ção nos nossos obje­ti­vos. Sóter buscou sua iden­ti­fi­ca­ção e mesmo com os tra­ba­lhos que exer­cia não aban­do­nava sua paixão pela foto­gra­fia. O segundo foi a his­tó­ria da minha famí­lia, dos meus avós para ser mais exato. Os anos difí­ceis do início e meados do século pas­sado. As his­tó­rias que meu avô con­tava e seu jeito de recor­dar as memó­rias me iden­ti­fi­ca­ram com Sóter. Acre­dito que ele con­se­guiu viver numa época em que os telé­gra­fos domi­na­vam e que não havia tanta pre­o­cu­pa­ção com aque­ci­mento global, radi­a­ção, agro­tó­xi­cos e efeito estufa. Uma época mais feliz, acre­dito.

Sou um amante do pas­sado mesmo, das belas praças, dos bondes, da ilu­mi­na­ção fra­qui­nha das esqui­nas, das ruas estrei­tas. Não sei se esta­mos em uma época melhor ou pior no que chamam de desen­vol­vi­mento, mas sei que sinto falta de uma vida mais sim­ples, onde o valor da feli­ci­dade estava mais pre­ci­sa­mente nas peque­nas coisas, na novi­dade de um sin­gelo circo que che­gava à cidade do que nos mode­los mais sofis­ti­ca­dos de vídeo games. Talvez o que nos reste sejam apenas as memó­rias. E que bom que exis­ti­ram alguns Sóters para pre­servá-las e fazer-nos revi­ver ao menos no papel essa época tão sublime e efê­mera.

Um Dia Especial

Há datas que sig­ni­fi­cam muito para a gente por conter algum sig­ni­fi­cado impor­tante, como o nosso ani­ver­sá­rio, o natal, o reveil­lon. Mas exis­tem outras oca­si­ões que nos tocam sem nenhum motivo apa­rente. E assim se deu a minha iden­ti­fi­ca­ção pelo dia de fina­dos. Lembro for­te­mente das vezes que fui ao cemi­té­rio visi­tar fami­li­a­res que nunca che­guei a conhe­cer, e sempre me ani­mava por poder estar lá.

Não sei expli­car o fas­cí­nio que encon­trava em acen­der velas e cami­nhar pelo cemi­té­rio olhando os outros túmu­los. Lembro de estar me curando de uma cata­pora aos nove anos e querer ainda assim ir ao cemi­té­rio, só não fui porque minha mãe não deixou. Talvez as expe­riên­cias raras de ir a um cemi­té­rio pudes­sem expli­car um pouco. Alguns tios meus geral­mente iam a minha cidade pres­tar seus sen­ti­men­tos e com eles minhas primas. Juntos saí­a­mos pelas ala­me­das ten­tando encon­trar os mais boni­tos túmu­los e as mais enig­má­ti­cas covas. Na ino­cên­cia que escon­dia mais uma aven­tura do que sen­ti­men­tos de sau­dade e lem­bran­ças.

O Dia de Fina­dos sempre foi uma rotina lá em casa. Os pre­pa­ra­ti­vos da lim­peza e pin­tura dos túmu­los come­ça­vam uma semana antes. As coroas eram orga­ni­za­das e leva­das ao cemi­té­rio na manhã do mesmo dia. Eu sempre queria ser o res­pon­sá­vel por pregá-las em cima dos túmu­los, mas minha mãe não dei­xava, e algu­mas vezes, quando acor­dava cedo e con­se­guia ir com minha avó, ficava só olhando o menino que fixava as coroas. Era real­mente um dia espe­cial.

À tarde, umas 4 horas, todos nos arru­má­va­mos e íamos ao cemi­té­rio novo, como é conhe­cido até hoje. Lá, a visita era à mãe da minha avó. Acen­dí­a­mos velas e depois minha mãe, minha avó e meus tios reza­vam enquanto eu ia “pas­sear”. Pra mim, podia não ser o cemi­té­rio mais bonito que já havia entrado, mas escon­dia seus mis­té­rios, e minha visita lá só acon­te­cia uma vez ao ano.

À noite era a vez de irmos ao cemi­té­rio velho. Lá, havia mais fami­li­a­res, inclu­sive Cici­nho, meu tio que havia mor­rido ainda cri­ança em um aci­dente e que mexe até hoje com os sen­ti­men­tos da minha mãe. E o ritual con­ti­nu­ava. Velas acesas e ora­ções. Meu olhar se encon­trava com outros enig­mas. Ten­tava enten­der esse mis­té­rio da morte. Fixava meu olhar para toda aquela estru­tura e para as gave­tas onde se encon­tra­vam os corpos e não con­se­guia enten­der a inex­pli­cá­vel viagem que pode­ria ter levado embora aque­las pes­soas. Porém, como cri­ança que era, esque­cia um pouco esses pen­sa­men­tos e saia des­bra­vando os outros túmu­los.

Hoje, pas­sa­dos alguns anos das minhas peri­pé­cias infan­tis, o dia de fina­dos ganhou um outro sig­ni­fi­cado pra mim. Os pas­seios às ala­me­das tor­na­ram-se um encon­tro com a sau­dade. As velas acesas refle­tem uma lem­brança de momen­tos feli­zes. E encon­tro nos túmu­los não mais apenas paren­tes des­co­nhe­ci­dos, mas meu avô, meu pai e minha tia Lúcia. As ora­ções que antes apenas ouvia minha famí­lia rezar, hoje as ela­boro sozi­nho, movido por um sen­ti­mento de eterna sau­dade e memó­rias que nem o tempo será capaz de apagar.

Con­tudo, apesar das mudan­ças, uma incóg­nita per­siste até hoje. Qual o des­tino daque­les que partem e nunca mais retor­nam? Será que eles enten­dem também o sig­ni­fi­cado desse dia? Onde estão real­mente? Con­se­guem rece­ber as ener­gias que as pes­soas dire­ci­o­nam à elas nesse dia ou tudo é apenas uma sim­bo­lo­gia e o resul­tado da sau­dade e da angús­tia dos que ficam aqui? Essas per­gun­tas nem o tempo poderá me res­pon­der. Porém, a cer­teza da impor­tân­cia do dia de fina­dos ficou mais acesa em mim hoje. O que pode­ria ser um inte­resse sem muitas expli­ca­ções pode ter ficado sem res­posta no pas­sado, mas a neces­si­dade e o desejo de estar no cemi­té­rio nesse dia per­ma­ne­cem. Embora com idéias e pen­sa­men­tos dife­ren­tes, o Dia de Fina­dos será sempre um dia espe­cial em minha vida.

O Círculo da Vida

Cres­cer, casar, ter filhos e cons­ti­tuir uma famí­lia. Parece ser o sonho de muita gente, prin­ci­pal­mente de muitas garo­tas. Mas se admi­nis­trar a nossa pró­pria vida já é uma tarefa com­pli­cada, ima­gine então orga­ni­zar uma vida a dois. Lembro de ima­gi­nar quando cri­ança que casa­mento era coisa de gente adulta e que demo­ra­ria muito pra chegar. Mas a pri­meira lição para mer­gu­lhar nesse está­gio, eu des­co­bri semana pas­sada no casa­mento da irmã da minha namo­rada. Quando a marcha nup­cial soou na entrada da igreja e Edi­vâ­nia entrou ves­tida de noiva, a idéia de matri­mô­nio final­mente se con­cre­ti­zou na minha cabeça.

Parece estra­nho. A garota que eu conheci assis­tindo novela mexi­cana e tri­co­tando no sofá com um sor­riso ingê­nuo de menina, agora estava abrindo as portas para um novo mundo. Dei­xando de lado as brigas infan­tis e as mor­do­mias da mamãe para viver sua pró­pria vida. Aquele namoro que pude acom­pa­nhar ao longo de três anos tor­nava-se uma rela­ção eterna, ao menos foi o que pro­me­te­ram diante do padre.

E no car­tó­rio um dia antes, esta­vam eles, ansi­o­sos e feli­zes pelo futuro que se des­do­brava. Eu, junto de Ingridy, minha namo­rada, fomos as tes­te­mu­nhas desse momento, ao lado de Clécio e Eli­sân­gela. Pausa para algu­mas fotos. Fui o fotó­grafo quase ofi­cial. E logo mais sor­ri­sos e regis­tros de momen­tos únicos. Sem muitos dis­cur­sos, esta­vam 50% casa­dos. Agora, a ofi­ci­a­li­za­ção na igreja espe­rava para esse grande futuro.

E eis que entrava Edi­vâ­nia na igreja. Seu noivo Luce­nildo, com um leve sor­riso e uma fir­meza no olhar, escon­dia a ansi­e­dade e o ner­vo­sismo. O sor­riso da noiva exul­tava sua satis­fa­ção e demons­trava seu estado inte­rior. Eu, como fotó­grafo quase ofi­cial fazia a minha parte e não perdia nenhum momento... opa, exceto pela entrega da ali­ança do noivo, quando o filme da máquina acabou.

Ao lado de três outros noivos, o casa­mento seguiu seus requi­si­tos e o grande momento ficava cada vez mais pró­ximo. Final­mente ocor­reu a troca das ali­an­ças e o casal estava unido assim pelos laços do amor. Ué, mas cadê o beijo? Isso deve ser só em novela mesmo. Bom, assim eles par­ti­ram para assi­nar as pape­la­das da igreja. E logo em seguida os momen­tos dos flashes. Agora não era eu. O fotó­grafo ofi­cial os guiou numa sessão de fotos em seu estú­dio.

Ah, natu­ral­mente segui­mos agora para a festa e onde tem festa tem comida. Mas fotó­grafo só come depois de tra­ba­lhar. Tudo bem, eu espero. A festa foi no sítio Bonito, onde o casal iria resi­dir a partir dali. A mãe da noiva que não pode ir à igreja a espe­rava na porta. O encon­tro das duas foi emo­ci­o­nante. Embora, algu­mas mães dese­jem ver suas filhas casa­das e vivendo suas vidas, a sepa­ra­ção sempre é cheia de gran­des recor­da­ções e muita emoção. Flash! Aí fui eu!

E depois de fotos, comida, chur­rasco, bebi­das, pre­sen­tes, o dia che­gava ao fim. O pri­meiro dia de uma nova his­tó­ria. O ter­reiro e a cal­çada pare­ciam já sentir a pre­sença dos novos mora­do­res. Agora era hora de criar suas pró­prias res­pon­sa­bi­li­da­des e expe­ri­men­tar o lado adulto da vida. Real­mente parece que o casa­mento sela a divi­são entre a juven­tude e o mundo adulto. É pre­ciso estar bas­tante certo para saber enfren­tar todos os desa­fios que nos espe­ram a partir dali. Afinal, novas cri­a­tu­ras esta­rão por vir e com elas a reno­va­ção dos laços que jura­mos naquele dia que pare­cia ser o mais impor­tante da vida até a che­gada deles. E assim con­ti­nua o cír­culo da vida, numa eterna volta que fará da noiva de hoje, a mãe que se des­pede da filha amanhã.

Aqueles Momentos

Um ano! Há exato um ano ia embora do nosso con­ví­vio uma guer­reira. Che­gava ao fim uma his­tó­ria de amor e dor, dei­xando sau­dade nos cora­ções de quem ficava. Há exato um ano nós per­dí­a­mos Lúcia, minha tia que sempre esteve em meu cora­ção e que algu­mas vezes até não per­cebi. Eu não pode­ria deixar de escre­ver algu­mas linhas para pres­tar minha home­na­gem nesse novo espaço que criei. Porém, ao con­trá­rio do que fiz ano pas­sado quando pro­duzi uma men­sa­gem na missa de mês falando sobre a dor que sen­tí­a­mos com sua perda, agora quero fazer dife­rente, quero exul­tar sua vida, tentar relem­brar seus momen­tos bons e feli­zes e buscar passar isso aos lei­to­res.

Tia, quero te dizer que hoje não é um dia de tris­teza, pois sei que está sor­rindo como sempre fez. E seu sor­riso... ah, seu sor­riso! Enchia de ale­gria quem estava em volta. E alguém sabe como esse sor­riso cati­vante surgiu? Ah, deixe eu me lem­brar. Eu não era nas­cido, mas eu conheço a his­tó­ria de uma jovem sonha­dora que se apai­xo­nou per­di­da­mente por um rapaz da sua cidade. É, eles vive­ram uma longa his­tó­ria de amor, muitos anos de namoro, cartas, pro­mes­sas. Mesmo tendo que tra­ba­lhar em São Paulo, ele não dei­xava de garan­tir seu retorno e ali­men­tar a pro­messa do casa­mento.

Tá reco­nhe­cendo a his­tó­ria, tia? Acho que sim. Então deve lem­brar o que acon­te­ceu depois. É, pois é, o jovem retor­nou à cidade como pro­me­tido após alguns anos e cum­priu com sua pala­vra. Ele casou com a jovem. Foi o dia mais feliz da vida dela. Ah, depois eles foram morar em São Paulo. E lá vive­ram o ano mais feliz de suas vidas. Os deta­lhes eu não posso contar porque não estava lá, mas sei que lembra de todos. Das músi­cas, dos pas­seios à cidade de Apa­re­cida, das pizzas e dos famo­sos sucos de laranja. Quanta his­tó­ria em um ano, não? E depois vem o ines­pe­rado, a gra­vi­dez, um filho.

A his­tó­ria que se segue daí pode­ria ter tomado vários rumos, mas o des­tino, Deus, o acaso, o dire­ci­o­nou para seu desen­lace. A perca do filho, sua doença, não devem ser enca­ra­dos como um pro­blema e o fim de uma his­tó­ria. Nós esta­mos nesse mundo com uma missão e muitas vezes para cumpri-la, temos que nos sub­me­ter a deter­mi­na­das situ­a­ções, provas que talvez tenha­mos soli­ci­tado antes mesmo de chegar. E se uma parte da sua tarefa foi con­tri­buir para a ins­pi­ra­ção de um pequeno escri­tor pode ter cer­teza que já foi cum­prida. É, ele bebe sem cessar da fonte de vida de uma guer­reira. A dona daquele sor­riso, daquela gar­ga­lhada. Ah, até posso senti-la sor­rindo.

E dos momen­tos seguin­tes que pude pre­sen­ciar da his­tó­ria dessa jovem, me lembro de muitos. Lembra quando eu che­gava das nove­nas do padro­eiro e te encon­trava na porta de casa olhando quem pas­sava? Pois é, você sempre me infor­mava se vovó já havia che­gado. E da bate­ria? Lembro de te ver tapar os ouvi­dos e abrir aquele sor­riso. E quando eu me machu­cava com algo sempre ouvia de você “Ô, Samu­el­zi­nho, cui­dado!” Agora lem­brou! É, esses momen­tos são apenas tre­chos de um longo con­ví­vio que não se perde entre os espa­ços do tempo. Sau­dade? Ela estará sempre pre­sente, mas se ainda der­ra­mar alguma lágrima será de ale­gria por revi­ver esses momen­tos e infe­liz­mente só poder tê-los na mente.

Acre­dito que con­se­gui cum­prir minha missão de hoje. Já que não pode olhar aqui comigo o meu celeiro e sorrir ao meu lado, quero que receba toda a minha emoção e ener­gia que te dedico hoje. A his­tó­ria da jovem seguirá comigo enquanto vida me houver para poder um dia quem sabe revelá-la ao mundo. Sim, porque se nossa vida é uma novela, a sua já ganhou o Troféu Imprensa. Agora sou eu quem abro aquele sor­riso e me des­peço aqui na cer­teza que sempre estará por perto, seja na ino­cên­cia e na inge­nui­dade dos últi­mos anos, seja na ale­gria e exu­be­rân­cia da juven­tude. Porque hoje eu só queria te abra­çar... e abra­çar... e abra­çar...


Minha mãe, minha avó e meus tios (Lúcia, Vila­neide, Auxi­li­a­dora e Dagmar)

Samu­el­zi­nho

Um Mergulho no Amanhã

Outro dia enquanto aguar­dava minha vez de ser aten­dido em um con­sul­tó­rio de oftal­mo­lo­gia, entra­ram duas cri­an­ças com seus pais e fiquei obser­vando os quatro. Eram dois meni­nos, tinham 4 e 6 anos mais ou menos. Ao con­trá­rio de muitas cri­an­ças que por essa idade cos­tu­mam ficar inqui­e­tas em con­sul­tó­rios, eles pare­ciam calmos e tran­qüi­los. A mãe era quem estava mais inqui­eta porque a auten­ti­ca­ção do filho mais novo para a con­sulta não estava sendo con­fir­mada. O pai pouco menos se impor­tava com isso. E eles per­ma­ne­ciam ali, olhando qui­e­tos o ambi­ente, a tv, com poucas e vagas con­ver­sas. O fato me chamou a aten­ção por me fazer mer­gu­lhar na ima­gi­na­ção e me ver em alguns anos casado, com meus filhos e pen­sando se eu e Ingridy serí­a­mos pare­ci­dos com a rea­li­dade daquele casal.

O meu desejo de ser pai sempre foi mais alto do que mesmo o casa­mento. Minha namo­rada e eu sempre brin­ca­mos sobre esse futuro que pode chegar, ide­a­li­za­mos os nomes dos nossos futu­ros filhos e até che­ga­mos a querer ditar seus com­por­ta­men­tos, como se fosse pos­sí­vel. Mas, pelo menos sonhar e tentar enxer­gar como nosso futuro de casa­dos será é razo­a­vel­mente pos­sí­vel. E isso me ins­ti­gou com a pre­sença daquele casal no con­sul­tó­rio. Ima­gi­nei se eu seria des­can­sado com rela­ção a deter­mi­na­dos tipos de assun­tos fami­li­a­res que as mulhe­res geral­mente são mais dedi­ca­das. Achei estra­nho a pre­sença dos dois no con­sul­tó­rio com os filhos, quando a quan­ti­dade de mães que levam os filhos ao médico é supe­rior aos pais no Brasil. Mas logo per­cebi que o pai também ia se con­sul­tar.

Fiquei obser­vando o com­por­ta­mento tanto dos meni­nos quanto dos pais. Em alguns momen­tos real­mente me vi abra­çando e brin­cando com um dos meni­nos. Vi também Ingridy recla­mando com a recep­ci­o­nista sobre a auten­ti­ca­ção e que­rendo ir recla­mar na sede do con­vê­nio logo após sair dali. Pare­cia mesmo que o futuro tinha aberto uma lacuna e estava se des­ven­dando diante de mim. E claro, dois meni­nos como sempre ima­gi­nei. Fal­tava só a menina. E Ingridy faria de tudo para tê-la. Tudo bem. Eu também depois de algum tempo venho dese­jando muito uma garo­ti­nha. E minha aná­lise con­ti­nu­ava. Bus­cava enten­der o com­por­ta­mento deles e com­pa­rar com algum traço tanto meu como de Ingridy.

De repente o mais velho per­gunta ao pai a hora. Talvez para testar o filho ou para mos­trar que ele já conhece as horas, o pai o mos­trou o reló­gio do con­sul­tó­rio e mandou ele mesmo olhar a hora. Para sur­presa geral, o garoto se con­fun­diu e não soube dizer a hora, porém o mais novo se virou no mesmo momento para o reló­gio e infor­mou exa­ta­mente a hora. Aí já me car­re­gou para uma outra visão. Me senti o garo­ti­nho que perdia do mais novo algo tão sim­ples. E por que isso? Sou filho único por parte de mãe e o excesso de amor e cui­dado talvez tenha me tra­vado em algum momento da vida aliado a uma imensa timi­dez. Mas aí também ana­liso. Os filhos mais novos geral­mente são mais esper­tos e con­se­guem desen­ro­lar mais rápido do que os mais velhos. Talvez por apren­de­rem valo­res morais ao mesmo tempo em que o mais velho aprende, e por não serem tão super­pro­te­gi­dos e deten­to­res de todas as aten­ções.

Quando a mulher engra­vida é motivo de festa para toda a famí­lia. O pri­meiro filho, o início de uma outra etapa na vida de muita gente. É a mulher que vira mãe, a mãe que vira avó. É real­mente uma fase de muitas mudan­ças e ale­grias. E quando a cri­ança nasce então, todas as aten­ções são vol­ta­das para ela. É um “nenhe­nhem” pra cá e pra lá o tempo todo. A cri­ança se torna a mais bonita, a única notí­cia da famí­lia para os amigos e as únicas fotos que enchem os álbuns e enchem também a paciên­cia dos vizi­nhos. E até a che­gada de outro, a cri­ança car­rega essas rega­lias, que podem ou não ser bené­fi­cas para ela. Daí quando chega o segundo, o ter­ceiro, a empol­ga­ção acaba, perde a graça e a cri­ança cresce que­rendo buscar dos fami­li­a­res essas aten­ções que não tive­ram. Talvez por isso se dedi­quem em apren­der mais rápido e mos­trem que são até capa­zes de supe­rar o irmão, naque­las famo­sas riva­li­da­des entre irmãos.

E assim trouxe minha ima­gi­na­ção de volta à minha rea­li­dade no con­sul­tó­rio. Per­cebi que embora pare­ci­dos ou supos­ta­mente ide­a­li­za­dos como meu futuro, aquele casal não era a minha rea­li­dade, ao menos por enquanto. E mesmo que um dia chegue em algum con­sul­tó­rio com minha mulher e meus filhos, talvez não seja nada pare­cido com o que ima­gi­nei. Quem sabe ao invés de qui­e­tos, as cri­an­ças sejam impul­si­vas e baru­lhen­tas? Ou eu seja o pre­o­cu­pado e Ingridy a rela­xada. Quem sabe as cri­an­ças sejam cober­tas de mimos de um pai tão babão e minha mulher tente con­tro­lar esses vícios sem sucesso? Quem sabe? Quem sabe? É, o futuro é escuro. Não posso fan­ta­siá-lo e ide­a­li­zar algo que pode nunca acon­te­cer. Só espero ser feliz e con­se­guir cons­ti­tuir uma famí­lia alegre, sau­dá­vel e cheia de dis­po­si­ção e poder acom­pa­nhar cada passo dessa etapa da vida que tanto arqui­teto. Afinal, quem decide se na his­tó­ria da edu­ca­ção e par­ti­ci­pa­ção do cres­ci­mento dos filhos o pai será o mais ausente somos nós, e se depen­der de mim Ingridy terá um forte con­cor­rente.

Nada É Por Acaso

Algu­mas pes­soas dese­jam vee­mente esque­cer e até apagar o pas­sado, se fosse pos­sí­vel, com ver­go­nha de algu­mas peri­pé­cias come­ti­das quando não se sabia ao certo o sig­ni­fi­cado da pala­vra “noção”. Mas por que fugir e negar o nosso pas­sado que já nos trouxe tantas ale­grias em outros inver­nos? Era uma tarde de fim de ano na escola onde estu­dava na cidade de São Miguel. Eu fazia a pri­meira série e me des­ta­cava entre os alunos mais calmos, tími­dos e com­por­ta­dos da escola, daque­les de gran­des elo­gios até para a dire­tora. E ali naquela tarde eu esta­ria a ponto de des­co­brir a fonte que ali­men­ta­ria toda uma ado­les­cên­cia de sonhos e fan­ta­sias. A dire­tora estava orga­ni­zando uma festa de fim de ano na escola e levando alunos para par­ti­ci­par reci­tando, dan­çando e dublando. E no salão dois alunos meio tími­dos imi­ta­vam uma dupla recém-des­co­berta. A dire­tora se esfor­çava para mos­trar a menina como a can­tora fazia. A música era “A Res­posta da Mara­qui­nha” e a dupla era Sandy & Junior.

A prin­cí­pio a música me pare­ceu alheia. Já tinha escu­tado o sucesso ante­rior deles “Maria Chi­qui­nha”, mas como diz o ditado, “não tinha ligado o nome aos bois”. E aos poucos como quase que um fei­tiço fui me inte­res­sando pela música e pela dupla. Em casa sempre enfa­ti­zava os alunos que esta­riam dublando na festa da escola. Meus amigos debo­cha­vam a dubla­gem e eu seguia a onda, mesmo sen­tindo uma certa afi­ni­dade e até um pouco de inveja. O garoto que dublava tinha o cabelo estilo Chi­tão­zi­nho & Xororó, do tipo que sempre dese­jei ter. Me ima­gi­nei no lugar dele imi­tando Junior e assim fui me iden­ti­fi­cando com a música, com o estilo e com a dupla cada vez mais.

E não foi pre­ciso pedir ou dese­jar me apro­xi­mar daquela dupla, uma força oculta os dire­ci­o­na­vam a mim. Acre­di­tando na idéia de que cri­ança canta para cri­ança e que cada uma deve ouvir músi­cas infan­tis, minha tia Auxi­li­a­dora resol­veu gravar em uma fita várias músi­cas de Sandy & Junior dos dois lps e me deu de pre­sente. Pronto! Agora o des­tino estava tra­çado. Com aque­las músi­cas nas mãos e nos ouvi­dos a dupla esta­ria mais perto de mim do que ima­gi­nei. Aque­les garo­ti­nhos que can­ta­vam “A horta”, “Lam­ba­ma­nia” e “Pó pra tapar taio” agora aca­ba­vam de ganhar mais um fã pelo país afora.

Quem deu os pró­xi­mos passos para firmar essa liga­ção foi minha mãe. Numa tarde de domingo enquanto brin­cava com meus amigos na área de casa, ouvi “Splish Splash”, a nova música de Sandy & Junior no Domin­gão do Faus­tão. Como minha tia já havia me abas­te­cido com outra fita dos novos suces­sos, reco­nheci a música e corri para a tele­vi­são. Meus olhos se enchiam de um encanto que eu não sabia de onde vinha. Minha mãe envol­vida e ani­mada com a desen­vol­tura daque­las cri­an­ças e vendo minha con­cen­tra­ção, lançou um desa­fio: “você tinha cora­gem de dublar eles numa fes­ti­nha?”. Eu olhei para ela, sorri e con­cor­dei com um sor­riso aca­nhado e desa­fi­a­dor. Era o que bas­tava para me animar e me lançar ainda mais nesse mundo do show busi­ness, mesmo que só para a minha cidade.

Os shows

E pouco mais de um mês depois a área da minha casa se trans­for­mava no palco da pri­meira festa ou show­zi­nho de dubla­gem da nossa rua. Vários vizi­nhos com­pa­re­ce­ram àquela ino­va­dora apre­sen­ta­ção. E entre as atra­ções Chi­tão­zi­nho & Xororó (eu como Xororó), Lean­dro & Leo­nardo (eu como Leo­nardo), Trem da Ale­gria, uma peça onde eu era um dos pro­ta­go­nis­tas e claro Sandy & Junior can­tando ou melhor dublando “Splish Splash”. Foi o grande momento. A ini­ci­a­tiva foi um sucesso e ao tér­mino já se cogi­tava a data da pró­xima, agora bem mais estru­tu­rada e com figu­rino con­fec­ci­o­nado. A dire­tora da escola foi cha­mada nessa segunda fes­ti­nha. Mas teria sido melhor se não tivesse ido. O menino que ficou no som cortou o fim da música de Chi­tão­zi­nho & Xororó e eu sim­ples­mente dei um grito com ele lá do palco e saí “vexa­di­nho” para recla­mar nos bas­ti­do­res. Bom, esse fato pode ficar esque­cido, assim como a cara da dire­tora.

Os anos foram pas­sando, eu fui cres­cendo e comigo Sandy & Junior e seus novos suces­sos. Agora meu cabelo já era como o de Junior. E depois de quatro fes­ti­nhas em casa fui cha­mado para me apre­sen­tar em uma escola. Lá, numa noite fria e com o audi­tó­rio lotado fui Xororó e Junior. Mais uma vez mos­trei meu semi-pro­fis­si­o­na­lismo e inge­nui­dade infan­til. Adri­ano, quem fazia Chi­tão­zi­nho comigo, espan­tado com a mul­ti­dão, acabou dublando até a minha parte da música e eu mais que depressa tentei baixar a mão dele, mos­trando a todos que tínha­mos errado. É, ainda bem que dessa vez a dire­tora da minha escola não estava pre­sente.

O sucesso mica­e­lense

Bom, depois dessa fase diga­mos que o ‘sucesso’ come­çou a surgir. Fui cha­mado a outras apre­sen­ta­ções. A pri­meira foi em uma mini ten­ta­tiva de pro­du­zir uma fes­ti­nha como as nossas na gara­gem da casa de uma menina. Depois eu e Kati­ane, a Sandy by São Miguel, fomos cha­ma­dos para o ani­ver­sá­rio de uma outra escola, a mais res­pei­tada da cidade. Agora era a época do grande hit “Com Você”. Um mês depois lá está­va­mos nós de novo na mesma escola para o dia das mães. Foi uma festa bem orga­ni­zada, cheia de brin­des e com a par­ti­ci­pa­ção de várias mães da cidade. Enquanto espe­rá­va­mos a hora, nós cor­rí­a­mos pela escola e algu­mas pes­soas diziam “esses são os que imitam Sandy e Junior”. Nessa hora eu me sentia o pró­prio Junior. No palco “Cri­ança Espe­rança” e “Com Você” fize­ram a ale­gria das cri­an­ças, dos jovens e das senho­ras.

Nas ruas as pes­soas já me cha­ma­vam de Junior e per­gun­ta­vam pela Sandy. Não pre­ciso nem dizer que eu ficava todo fofo. Mais três festas ocor­re­ram lá em casa e Sandy e Junior fica­vam cada vez mais mar­ca­dos em mim. Por fim passei a dublar apenas eles. Sandy e Junior pas­sa­ram a ser refe­rên­cia a meu res­peito, tudo o que era novi­dade vinham me avisar, me per­gun­ta­vam se já havia com­prado o novo cd e se já havia apren­dido os novos passos. Mas como tudo tem um fim decidi que era hora de parar com as dubla­gens. Minha última apre­sen­ta­ção foi aos catorze anos em outra escola da cidade. Os suces­sos, “Beijo é bom” e “Em cada sonho”, a do Tita­nic. Depois de oito anos dublando, gra­vando vídeos e deco­rando passos che­gava ao fim minha “car­reira” mica­e­lense.

Os passos hoje

Os anos se pas­sa­ram. O cabelo foi cor­tado e voltou a cres­cer de novo. Mas não aban­do­nei os garo­tos que trou­xe­ram tanta ale­gria à minha infân­cia. Passei a ser um assí­duo teles­pec­ta­dor do seri­ado Sandy e Junior com vinte fitas de vídeo gra­va­das. Além de apre­sen­ta­ções no Faus­tão, Xuxa, Vídeo Show, Cri­ança Espe­rança, shows e tudo mais onde eles esti­ves­sem pre­sen­tes lá estava eu também, de longe, regis­trando tudo. E onde eu pisasse todos fica­vam conhe­cendo Samuel e Sandy e Junior. Era um trio. O pes­soal do ensino médio em Pau dos Ferros, do cur­si­nho em Natal. Enfim, aquela dupla que conheci num fim de tarde na escola lá pelos sete anos de idade, agora era o regis­tro da minha his­tó­ria de vida ado­les­cente. Até que o fana­tismo foi abrindo espaço para outras ideais e aquele apego foi se tor­nando apenas sau­dade do pas­sado. O único show deles que fui em dezem­bro de 2001 em Natal não foi exa­ta­mente o que espe­rava. Não tive a plena visão deles como dese­java e voltei para casa frus­trado.

Hoje assisti a última apre­sen­ta­ção ao vivo deles juntos em um pro­grama de tv e apesar de já não sentir o mesmo que sentia quando escu­tava “Power Ran­gers” ou “Ines­que­cí­vel”, todas as lem­bran­ças de uma época retor­nam com grande sau­dade. As músi­cas que fize­ram não só a minha infân­cia como também minha juven­tude, que emba­la­ram pai­xões e segre­dos. Voltar ao meu pas­sado e não falar de Sandy e Junior é como voltar ao Novo Tes­ta­mento e não falar de Jesus. Por isso, embora afirme que meu envol­vi­mento com a dupla hoje é apenas pas­sado, eu não tenho a menor ver­go­nha de admi­tir que já fui fã, já dublei e que os regis­tros se encon­tram ainda espa­lha­dos em vários cantos da minha casa, basta con­fe­rir a cole­ção de cds, os pos­ters no armá­rio e as inú­me­ras revis­tas. Parece que a sepa­ra­ção deles sig­ni­fica a rup­tura com­pleta do meu pas­sado com o meu pre­sente. A car­reira de cada um agora é um outro cami­nho, do qual não sei se irei acom­pa­nhar. E mesmo que não me ima­gine seguindo o mesmo cami­nho hoje, se eu pudesse voltar no tempo e viver minha infân­cia nova­mente, não me per­gunte duas vezes, eu faria tudo de novo.

O Embrulho e o Presente

Mais um dia das mães se apro­xima. As lojas come­çam a explo­rar os pre­sen­tes para as mamães com pro­mo­ções e ofer­tas “imper­dí­veis”, naquela que já é a segunda maior data de aque­ci­mento do mer­cado, per­dendo apenas para o Natal. Mas será que as lojas sabem mesmo o melhor pre­sente para cada mãe em par­ti­cu­lar? E será que esses pre­sen­tes são mesmo o que toda mãe dese­ja­ria ganhar nesse dia? Mãe é um ser com­pli­cado. Sofre dores ter­rí­veis para nos pôr no mundo. Depois nos enche de cari­nho e pro­te­ção ao longo da vida. Sofre, rir, chora e se deses­pera conosco e com os nossos pro­ble­mas. Nos sur­preen­dem quando acha­mos que já sabe­mos tudo delas. Somos sempre os seus bebês. Os mais boni­tos do mundo. Nos machu­cam para ensi­nar o cami­nho do bem e se muti­lam quando alguém nos faz o mal. Tem como encon­trar nas lojas algo que nem a essên­cia humana ainda con­se­guiu des­ven­dar?

Era junho de 1994, Copa do Mundo dos Esta­dos Unidos. O Brasil fervia na busca pelo tetra­cam­pe­o­nato. Fitas verdes e ama­re­las enfei­ta­vam as ruas sempre a cada jogo. Era época das famo­sas luvi­nhas da vitó­ria, que cobriam apenas os dedos indi­ca­dor e médio com as cores do Brasil. Eu estava na casa dos meus exatos 9 anos de idade. Cos­tu­mava usar uma camisa verde e ama­rela nesses dias e outra branca com estre­las azuis e ver­me­lhas e com o cachor­ri­nho mas­cote da Copa. Nem che­gava a acom­pa­nhar com pre­ci­são os jogos. A minha ani­ma­ção era ver a gri­ta­ria na rua, as come­mo­ra­ções nos bares e res­tau­ran­tes a cada gol e as pas­se­a­tas reche­a­das de ban­dei­ras ao tér­mino de mais uma etapa.

Naquela época, come­cei a sair de casa com os amigos seguindo os con­se­lhos da minha mãe. Os amigos que me acom­pa­nha­vam, Adri­ano e Eusé­lio, eram meus vizi­nhos. Geral­mente saí­a­mos à tar­di­nha, depois de tomar banho e nos per­fu­mar todo. Até pare­cia que íamos nos encon­trar com várias garo­tas. Nós per­cor­rí­a­mos vários pontos da cidade. Andá­va­mos por estra­das de terra, ruas que não tínha­mos o cos­tume de passar com fre­qüên­cia, casas de fari­nha aban­do­na­das e tudo era sempre uma des­co­berta. Che­ga­mos a pene­trar em even­tos de esco­las, festas de ani­ver­sá­rio de algum amigo de Adri­ano sem sermos con­vi­dado. Um dia quando per­cebi está­va­mos explo­rando a vege­ta­ção dos muros do hos­pi­tal.

Nossa aven­tura tinha um des­tino novo da cidade a cada dia e sempre ter­mi­nava na casa da minha avó por volta das 6h da tarde. Já havia se tor­nado um ritual. Todo dia naque­las horas já está­va­mos pron­tos para cami­nhar. Con­tudo, naquele momento de Copa, o clima estava pesado na cidade. O fluxo de carro havia se inten­si­fi­cado e as come­mo­ra­ções eram impre­vi­sí­veis e até agres­si­vas. A pedido da minha mãe, nossos pas­seios foram encur­ta­dos em meia-hora nesse perí­odo, horá­rio em que os jogos eram trans­mi­ti­dos. Porém, certa vez, algo fugiu ao nosso con­trole.

Saímos de casa como de cos­tume. Per­cor­re­mos os luga­res que haví­a­mos esco­lhi­dos para aquele dia, na cer­teza que terí­a­mos que retor­nar cedo. No entanto, o pas­seio foi se esti­cando e fomos des­co­brindo novos luga­res, que­rendo ir sempre mais a fundo. Já era noite quando atra­ves­sa­mos a rua de trás da casa da minha avó. Não que­rí­a­mos ter­mi­nar o pas­seio daquele dia ali. A cidade estava em festa com mais uma vitó­ria do Brasil. Assim, segui­mos na dire­ção da igreja matriz. Nossa inten­ção era per­cor­rer outros cami­nhos, mas para­mos lá e resol­ve­mos explo­rar as esca­da­rias. Subí­a­mos um degrau e sal­tá­va­mos para a rua. Depois dois degraus, três, quatro, até nos apro­xi­mar do último e saltar já a uma altura con­si­de­rá­vel. Essa brin­ca­deira durou algum tempo e quando per­ce­be­mos, já haví­a­mos extra­po­lado o limite de voltar para casa. Dei­xa­mos a igreja e pega­mos o rumo de casa.

Ainda na praça da igreja nos encon­tra­mos com uma amiga da minha mãe que nos infor­mou que ela estava deses­pe­rada atrás de mim. Ace­le­ra­mos os passos e quando che­ga­mos na esquina de um beco da rua da minha avó, avis­ta­mos uma grande mul­ti­dão reu­nida ao fim. Adri­ano me per­gun­tou sobre o que teria acon­te­cido e eu em tom de brin­ca­deira res­pondi: -“é minha mãe atrás de mim”. Sur­presa foi a minha quando che­ga­mos ao fim do beco e vi minha mãe falando deses­pe­rada, porém um pouco ali­vi­ada, no meio de toda aquela gente que olhava pra mim como se eu aca­basse de ser res­ga­tado de um prédio em chamas.

Real­mente tinha sido minha mãe a res­pon­sá­vel por todo aquele fuzuê na rua. Eu só a ouvia me per­gun­tar onde eu tinha me enfi­ado, enquanto olhava assus­tado. Ela já tinha rodado várias ruas, batido na porta de várias pes­soas, pro­cu­rado a polí­cia e soli­ci­tado carro para sair atrás de mim seja onde fosse. E para aumen­tar o ter­ro­rismo, alguém dizia ter visto cri­an­ças que tinham sido atro­pe­la­das por perto. O deses­pero era evi­dente em seu rosto. Mas ao invés de uma surra, um abraço e um beijo acal­ma­ram a situ­a­ção.

Depois desse dia, meus pas­seios foram per­dendo a força e aca­ba­ram alguns meses depois. Entre­tanto, des­co­bri que nada pode ser maior para uma mãe do que se sentir impo­tente quando acre­dita que o filho está em perigo. Per­cebi que o melhor pre­sente de uma mãe no dia das mães é ter a cer­teza que seu filho está bem, se ali­men­tou direito, dormiu tran­qüilo e con­ti­nua res­pi­rando. Sua maior satis­fa­ção nesse dia é saber que por ser mãe, pode come­morá-lo. Então, o pre­sente não é o que chega embru­lhado no papel com várias fitas colo­ri­das e um cartão em volta, mas as mãos que entre­gam e os braços que envol­vem, mesmo que algum dia a tenham feito arran­car os cabe­los e passar o maior vexame na rua. Afinal, o que é vexame a quem tenta pro­te­ger um ser com toda sua força, como se ainda o gerasse no mais íntimo do seu útero?

24 anos

Hoje decidi agra­de­cer! Vive­mos pedindo e cobrando tanto. Resolvi parar um pouco e agra­de­cer a tudo que já tive e àquilo que acre­dito torna o mundo mais diver­tido. Agra­de­cer à Deus pelo uni­verso. À evo­lu­ção humana. À essa terra mara­vi­lhosa que nos faz res­pi­rar e se ins­pi­rar mais a cada dia. À famí­lia Rêgo por ter dei­xado Por­tu­gal e vindo tentar a vida no Rio Grande do Norte. Agra­de­cer a Manoel José de Car­va­lho por ter fun­dado o muni­cí­pio de São Miguel. A Mari­ana Ricar­dina do Rêgo por ter ao lado de Thomé Ribeiro Machado jun­tado meus bisa­vós José Vicente do Rêgo e Olím­pia Maria da Anun­ci­a­ção que trou­xe­ram pra mim uma das cri­a­tu­ras mais aben­ço­a­das deste mundo, minha linda avó Josefa de Souza Rêgo. Obri­gado pelo imenso amor ao longo de tantos anos.

Quero agra­de­cer também a Julio Fer­reira de Oli­veira e Maria Emília de Oli­veira por darem vida a um homem de sabe­do­ria e cora­gem inten­sas, Altino Fer­reira de Oli­veira. Obri­gado vô pelo exem­plo e pelo apoio! Obri­gado Eli­siá­rio Dias e Augusta Honó­rio Dias por darem vida a Sele­don Dias da Cunha, muito obri­gado, painho, pelas pala­vras que me guiou em alguns momen­tos de minha vida, e até pelas que não segui. Obri­gado vovó e vovô mais uma vez por terem tra­zido tantas cri­a­tu­ras boas ao mundo, dentre elas, aquela a quem sou res­pon­sá­vel por res­pi­rar agora. Obri­gado, mami­nha, acima de tudo pela vida, mas também pelo amor incon­di­ci­o­nal, pelo apoio infi­nito, com­pa­nhei­rismo, pelas festas de ani­ver­sá­rio, pelos shows de dubla­gens, pela pre­sença sempre cons­tante. Obri­gado por acre­di­tar em mim e supor­tar todos os meus pro­ble­mas.

Agra­deço a tia Auxi­li­a­dora pela dedi­ca­ção, pelos infi­ni­tos pre­sen­tes, mas antes de tudo obri­gado pelo amor e cari­nho tão trans­pa­rente. Obri­gado, Ingridy, por tantos anos com­par­ti­lha­dos, pela dedi­ca­ção, por dar colo­rido e tornar espe­ci­ais muitos momen­tos de minha vida. Obri­gado Pau dos Ferros por me pro­por­ci­o­nar incon­tá­veis his­tó­rias. Obri­gado Edu­can­dá­rio, Vastí, Thiago, Jor­dâ­nia, Eliene, Sincos, tia Vila­neide, Assis, tio Dagmar, Avani, Andréa, Ana Carla, Viní­cius, Larissa, Pollyana. Obri­gado, Agda, por me apre­sen­tar ao ritmo da lam­bada e pelas memo­rá­veis tardes de rebo­lado lá em vovó. Valeu mesmo! Obri­gado Kaoma! Obri­gado Clau­di­vâ­nia imen­sa­mente pela cum­pli­ci­dade de uma irmã. Obri­gado Globo pelo Xou da Xuxa! Ari­gatô Japão, pelos Flashman, Cha­ge­man, Jas­pion e Cava­lei­ros do Zodí­ado. Obri­gado, Ran­yere, pelos incrí­veis anos de aven­tura. Obri­gado King por todos os com­pa­nhei­ros lati­dos.

Agra­deço ver­da­dei­ra­mente a Cas­si­ano Gabus Mendes por Que Rei Sou Eu?, a Whal­ter Negrão por Top Model, Bene­dito Ruy Bar­bosa por Pan­ta­nal, Renas­cer e O Rei do Gado, Ivani Ribeiro por A Viagem e Mulhe­res de Areia. Obri­gado Glória Perez por O Clone e por seu exem­plo de força de mãe. Obri­gado doce Dani­ella Perez. Manoel Carlos, Por Amor e Mulhe­res Apai­xo­na­das. Silvio de Abreu, A Pró­xima Vítima e Torre de Babel. Walcyr Car­rasco por Xica da Silva. Obri­gado Warner Bros por Small­ville. Obri­gado anos 60, 70, 80, 90, 2000. Obri­gado movi­mento hippie! Obri­gado gran­des deuses do rock mun­dial, John Lennon, George Har­ri­son, Paul McCart­ney e Ringo Starr, eter­nos Bea­tles. Obri­gado Sandy e Junior, por emba­lar uma juven­tude de sonhos, ale­grias e muita diver­são. Obri­gado Mamo­nas Assas­si­nas por tentar buscar um mundo mais irre­ve­rente.

Ah, ainda tenho que agra­de­cer a Natal, essa cidade encan­ta­dora por tudo que me pro­por­ci­o­nou, pelas suas praias azuis que em algu­mas horas foram meu bál­samo nas dúvi­das e incer­te­zas da vida. Obri­gado bairro de Lagoa Seca! Rua São João! Obri­gado Cris­tina por sua fiel ami­zade e apoio em todas as horas. Obri­gado Dona Seve­rina por seus deli­ci­o­sos cachor­ros-quen­tes. Obri­gado Neide pelo por­tu­guês da vida e por con­fiar em mim e me enco­ra­jar na minha cami­nhada. Miss Lene e Sarah, muito obri­gado pelos ver­da­dei­ros sor­ri­sos de ami­zade. E Miss Lene, obri­gado por me intro­du­zir ao espi­ri­tismo. Ah, obri­gado a Allan Kardec por con­se­guir espa­lhar pelo mundo os prin­cí­pios de uma dou­trina tão rica e con­creta.

Como não pode­ria deixar de ser, obri­gado apai­xo­nante Cam­pina Grande. Muito, mas muito obri­gado mesmo por me ofe­re­cer o encon­tro com o quar­teto mágico, Isa­beli, Ana Célia, Kárem e Lea. Aprendi com vocês que o amor amigo existe. Obri­gado Miss Cou­ti­nho por exis­tir em minha vida. Obri­gado também, Izabel, Vanessa, Sil­mara, Clara. Obri­gado Sebrae! Obri­gado Pro­fes­sor Cus­tó­dio pelas expe­riên­cias nas difu­so­ras do Cen­te­ná­rio, Liber­dade e Con­cei­ção e a todos aque­les pro­fes­so­res que dei­xa­ram um pouco de si.

E agora aquele agra­de­ci­mento espe­cial ao palco mais cheio de vida e de sig­ni­fi­cado na minha his­tó­ria: obri­gado teatro por exis­tir! Obri­gado Chico, Regina, Cha­lena, Guto, Emilia, Elio, Álvaro, Renato, Haen­del por con­tri­bu­í­rem seus vastos conhe­ci­men­tos comigo. Valeu Yama­moto! E aque­les que se uniram a mim pelo palco, mas o cora­ção agar­rou pra si. Obri­gado Luci­ene, Julio, Sami Izu, Ellen, Adri­ano, Maísa, Mônica, Tibé­rio, Tupi, Mirian e Edi­naldo. Ran­gers, esta­mos liga­dos pelo cordão da vida e esses laços não se per­de­rão nem nessa e nem nas pró­xi­mas exis­tên­cias. E pra fina­li­zar, obri­gado terra, ar, fogo, vida, pelos 24 anos de exis­tên­cia e his­tó­ria.

Eu!

Para aque­les que acham que sou um menino de ouro!

Já roubei per­fume da casa de amigos da minha mãe. Já menti quando acha­vam que era ver­dade. Já enga­nei. Já aper­tei a cam­pai­nha e corri. Já escrevi cartas de amor. Já gritei com quem amava. Já chorei ouvindo música. Já dancei lam­bada até cair. Já dublei Junior, Leo­nardo, Xororó, Latino, Roberto Carlos e Mar­celo Augusto. Já corri pela cidade pra não tomar inje­ção. Já mandei gente se lascar. Já sonhei com uma casa grande e três filhos. Já beijei sem von­tade. Já me apai­xo­nei. Já fiz escân­da­los. Já fugi de com­pro­mis­sos. Já “fiquei” sem querer. Já dis­cuti com médi­cos. Já fui impar­cial aos sen­ti­men­tos dos outros. Já dese­jei ser famoso, ser um super-herói. Já quis matar também e escon­der o corpo. Já dese­jei voltar no tempo e salvar John Lennon e Dani­ella Perez. Já saí sem cueca. Já nadei pelado. Já me mas­tur­bei no banheiro. Já com­prei revista pornô. Já morei sozi­nho. Já dividi apar­ta­mento. Já passei mico na rua. Já quis fugir de casa. Já senti ver­go­nha de abra­çar meu pai. Já quis escre­ver nove­las. Já me esco­rei nos outros. Já tomei as rédeas. Já fingi doença pra não ir à escola. Já dese­jei conhe­cer Sandy e Junior. Já quis ir a um show dos Bea­tles. Já dei foras. Já levei também. Já fiz chan­ta­gem emo­ci­o­nal. Já des­pre­zei. Já sofri calado. Já quis ir pra Lua. Já quis ser monge, arqui­teto, bió­logo mari­nho e astro­nauta. Já chorei olhando a chuva. Já joga­ram balde d’água em mim. Já me empur­ra­ram na lama. Já passei mal em exames. Já quis morrer. Já acre­di­tei em mim. Já caí das nuvens.

Enquanto espero...


Sozi­nho no apar­ta­mento espe­rando minha mãe e minha avó che­ga­rem de viagem. Elas vêm em um carro da famí­lia, e por isso seria a pri­meira vez que nosso amigão de quatro patas Marlon iria conhe­cer o solo parai­bano, mas minha mãe se sentiu mal ainda no início da viagem e o deixou na casa da minha tia em Pau dos Ferros. Pena! Eu tava louco pra vê-lo. As horas correm, mas o carro nada. Pensei que só che­ga­riam à noite, mas saíram mais cedo e já estão quase che­gando. Por enquanto, o tic tac irri­tante do reló­gio é a minha única com­pa­nhia. O céu nublado me lembra chuva, e a chuva me lembra calça molhada e PDA, nos dias que recen­seei embaixo d’água. Fechei meu pri­meiro setor, tô espe­rando o paga­mento do IBGE.

Hoje também dei entrada na minha car­teira de tra­ba­lho, ainda não tinha uma. E dia 18 tem ava­li­a­ção para reti­rada de drt de ator. Apos­tila pra ler e monó­logo pra apre­sen­tar, que ainda não decidi. Às vezes não sei se devo per­ma­ne­cer inves­tindo nessa car­reira, mas um drt na car­teira não atra­pa­lha. E ainda tem o de jor­na­lista depois, se eu tirar. Ontem foi 7 de setem­bro, e o mês ainda me lembra a festa de São Miguel Arcanjo no dia 29, que não sei se irei mais uma vez par­ti­ci­par. Queria com­prar um pequi­nês, mas não encon­tro por aqui. Agora não tô podendo tomar leite, refri­ge­rante e café, nem comer fri­tu­ras, toma­tes e carne gorda devido uma eso­fa­gite ero­siva. Resul­tado que obtive atra­vés de uma endos­co­pia diges­tiva que fiz depois de anos fugindo dela. E até agora não sei se saí com minhas pró­prias pernas da sala de exame até a de repouso. Nada de minha mãe e minha avó.

Terça que vem tem ensaio de Última Esta­ção, os per­so­na­gens estão defi­ni­dos, e me sinto bem com os que farei. Talvez o cená­rio de Pluft venha aqui pra casa. Tenho que reno­var minha con­sulta de vista. A lente de con­tato tá pior que o óculos de 2004. O cabelo pre­cisa de um corte, mas cansei do mesmo modelo, queria algo novo. Queria ganhar na Sena, conhe­cer Gra­mado, fazer um Cru­zeiro. Cansei da posi­ção dos móveis no quarto, mas não tenho muita opção de mudança. A fiti­nha do Senhor do Bonfim, o TOC, o reló­gio velho, a mochila, coisas que me iden­ti­fi­cam. Minha mãe vai trazer um chu­veiro elé­trico e não vou mais pre­ci­sar ferver água pra tomar banho no frio. E me vem cada deta­lhe. O roteiro que não ter­mi­nei, o cama­rão que não posso comer, as elei­ções se apro­xi­mando e Marina me con­quis­tando, o nome de uma pomada Omci­lon-A 1 grama no porta-reca­dos, o com­pri­mido em jejum e antes do almoço e jantar, essa pos­ta­gem que não ter­mina, o carro que não chega, as nuvens se dis­si­pando, o pequi­nês fal­tando, o tic tac inco­mo­dando, o celu­lar cha­mando. São elas. Che­ga­ram! Vou descer pra recebê-las.

Centésimo desatino

Pare­cia ontem. Não! Já faz quase 4 anos. Essa seria mais uma sim­ples pos­ta­gem não fosse o deta­lhe que ela é a publi­ca­ção número 100 do Celeiro. Noventa e nove ideias, opi­ni­ões, sonhos, recor­da­ções e momen­tos hila­ri­an­tes da vida desse cara aqui estão espa­lha­dos nesse espaço. O ano era 2007, outu­bro. A inten­ção: criar um blog para escre­ver crô­ni­cas sobre o ponto de vista do meu dia-a-dia maluco no ter­ceiro ano da facul­dade de Comu­ni­ca­ção Social. Pri­meiro devo agra­de­cer ao talen­toso fotó­grafo, Tareb Edson, que por perda de con­tato não sei se enve­re­dou para outra pro­fis­são, de modo que pra mim ficou a imagem do fotó­grafo. Foi por des­co­brir o seu blog, as crô­ni­cas bem-humo­ra­das e as refle­xões que fazia que me ins­pi­rei a criar minha pró­pria página. Tanto que até hoje ainda tenho o link dele, mesmo não havendo atu­a­li­za­ções há cinco anos. Naquela época, dava para abrir uma página e se admi­rar com o que encon­trava, hoje de cada dez perfis no Twit­ter, oito tem um link de um blog, parece que já vem no pacote.

Meu pri­meiro texto não pode­ria ser outro, foi sobre o pro­cesso que me levou ao está­gio do Sebrae durante a Feira do Empreen­de­dor. O pri­meiro comen­tá­rio que recebi foi da minha amiga Kárem, em 9 de outu­bro, um dia depois de publi­car a pri­meira his­tó­ria. Bem, extraindo um trecho do seu enorme a cari­nhoso comen­tá­rio, ela escre­veu: “É um can­ti­nho bas­tante acon­che­gante e que pro­mete muitas risa­das e fortes emo­ções!!”. Não sei se con­se­gui cor­res­pon­der a pro­fe­cia, mas ana­li­sando alguns dos 318 comen­tá­rios que cons­tam no Celeiro até então, pude per­ce­ber que ao menos alguns sor­ri­sos fui capaz de arran­car. Com o passar dos anos, o Celeiro foi se modi­fi­cando, ganhando moder­nos layouts, novas aven­tu­ras em cada publi­ca­ção e obtendo reco­nhe­ci­mento ao mesmo tempo em que seu dono se des­co­bria, cres­cia e com­par­ti­lhava com ele suas con­quis­tas e frus­tra­ções.

Hoje, 20 de março de 2011, três anos, cinco meses e doze dias após a pri­meira pos­ta­gem entrar no espaço ciber­né­tico e o nome Celeiro do Sam come­çar a ser difun­dido, eu chego ao meu cen­té­simo texto. Pode­ria já ter escrito duzen­tos, qui­nhen­tos ou mil his­tó­rias, ou pode­ria estar na qua­renta, na setenta. Não! Estou na cem! Só escrevo quando sinto neces­si­dade de exter­nar alguma inqui­e­ta­ção ou rela­tar outras peri­pé­cias da vida desse jovem irre­qui­eto aqui, embora essa neces­si­dade tenha sido bem mais cons­tante nos últi­mos tempos. Não por acaso, ou total­mente por­ven­tura, atinjo essa meta numa data curi­osa. Ontem foi ani­ver­sá­rio da minha avó. Um ser que sempre irra­dia luz à minha vida. Temos uma liga­ção tão intensa que aos que acre­di­tam na reen­car­na­ção, há quem diga que esse moço aqui deve­ria ter vivido de perto toda a febre da bea­tle­ma­nia, pois eu pode­ria ter sido o filho mais novo da minha avó que morreu atro­pe­lado no auge de Ticket to Ride.

Curi­o­sa­mente, na mesma data de hoje em 1969, John Lennon se casou com Yoko Ono no ter­ri­tó­rio bri­tâ­nico de Gibral­tar. Aos olhos de “todo” bea­tle­ma­ní­aco, ela seria a grande vilã da sepa­ra­ção da banda e por isso con­de­nada a eterna expi­a­ção de seus peca­dos. Já não parto desse pres­su­posto. Quem conhece a his­tó­ria do quar­teto a fundo, sabe que o fim dos Bea­tles seria ine­vi­tá­vel com ou sem Yoko. Tudo bem, ela pode ter ante­ci­pado um pou­qui­nho, mas foi o des­co­mu­nal amor da vida de John Lennon. As lou­cu­ras que esse cara fazia com ela eram ini­ma­gi­ná­veis. A canção The Ballad of John and Yoko narra esses momen­tos dos dois, que mais pare­ciam uma brin­ca­deira com o mundo. Não sei se isso é baba­quice de fã, mas se meu ídolo está feliz, devo embar­car junto na feli­ci­dade dele. E a con­tra­par­tida se mos­trou sig­ni­fi­ca­tiva com uma década de memo­rá­veis com­po­si­ções em sua car­reira solo.

Mas 20 de março também cos­tuma ser o dia do equi­nó­cio de outono no hemis­fé­rio sul. E a partir de amanhã, na astro­lo­gia, o sol entra no signo de áries e o ano astro­ló­gico tem início. Áries tem como ele­mento o fogo e entre suas carac­te­rís­ti­cas, a cora­gem, o pio­nei­rismo, o entu­si­asmo, e também a impa­ciên­cia, a impul­si­vi­dade e a raiva. Bem, e eu sou ariano. Então o sol entra na minha casa a partir de amanhã e todas as minhas mani­fes­ta­ções esta­rão mais acen­tu­a­das, ou não, não domino a lógica da astro­lo­gia. Mas aprendi pes­qui­sando que áries é regido por Marte, pla­neta que tem o poder da con­quista e da busca pela rea­li­za­ção pes­soal. Uma dica para inves­tir nesse ter­ri­tó­rio? Um ariano que cruzou meu cami­nho em dois momen­tos foi Junior Lima. Na infân­cia e ado­les­cên­cia ao emba­lar minhas aven­tu­ras ao lado de sua irmã Sandy, quando ainda não era devassa, e ano pas­sado ao ler um texto meu no Celeiro sobre o seri­ado da dupla e indicá-lo em seu Twit­ter. Meu blog ficou mais popu­lar que o clipe de Stef­hany Abso­luta. Com a dife­rença que con­ti­nuei a pé.

Quem quase nasce ariano também é o autor de nove­las Manoel Carlos. Mais uma semana e ele her­da­ria todo o tem­pe­ra­mento impul­sivo dessa espé­cie. O que talvez inter­fe­risse na cons­tru­ção de suas Hele­nas e de suas nar­ra­ti­vas cheias de sen­si­bi­li­dade e roman­tismo, pala­vra-chave no pis­ci­ano. Mas seguindo os acon­te­ci­men­tos de 20 de março que marcam a data da minha cen­té­sima pos­ta­gem, em 1815 Napo­leão entrou em Paris depois de esca­par de seu exílio na ilha de Elba dando início ao Governo dos Cem Dias; Albert Eins­tein publi­cou sua teria geral da rela­ti­vi­dade em 1916; os EUA ini­ci­a­ram a inva­são ao Iraque em 2003; e em 2006 o Museu da Língua Por­tu­guesa foi inau­gu­rado na Esta­ção da Luz em São Paulo. Tudo isso não tem nada a ver comigo, nem com o Celeiro, mas achei que se encai­xa­ria no con­texto de alguma forma. Afinal, aqui tem espaço sufi­ci­ente para tantas pro­e­zas, que não esta­ria ainda nem pró­ximo de encer­rar o pri­meiro ato. Tenho bas­tante dis­po­si­ção para escre­ver e muitos delí­rios ainda na alma que pre­ci­sam se trans­for­mar em pala­vras e ideias absur­das. Que mara­vi­lha um ser pen­sante e a lou­cura de se julgar normal em meio a luci­dez da insa­ni­dade. E aí quem sabe o Celeiro seguirá uma outra pro­fe­cia e será imenso do tama­nho do amor que um dia alguém ousou sentir por mim.

Um aniversário

Um flash de vida nunca se esvai das entra­nhas de um cora­ção

Nem lembro como acor­dei. Só me recordo dos pre­pa­ra­ti­vos. Das minhas primas Agda, Ana Carla, Larissa, Pollyana e Andréa cir­cu­la­rem pela casa. De sen­tar­mos na cal­çada incli­nada da gara­gem com o portão aberto. Ah, o portão! Ele nunca era aberto. Não havia carro e sempre entrá­va­mos pelo portão menor. Deixá-lo total­mente aberto como naquele dia era uma com­pleta rea­li­za­ção. Era como se nossa casa pas­sasse a ser uma exten­são da rua, onde não havia limi­tes. Na cozi­nha um entra e sai. Muita gente ocu­pada cor­rendo de um lado pro outro. O cheiro de doce ati­çava o pala­dar. Ten­tava sur­ru­piar algum, mas tinha aque­las mulhe­res também que eu não conhe­cia, e ficava enver­go­nhado. Na sala outras pes­soas enchiam bexi­gas. Vez por outra se ouvia o pipo­car de alguma e o riso de alguém. Minha mãe sempre apa­re­cia pedindo para terem cui­dado. Ela estava real­mente agi­tada com todo aquele movi­mento na casa, a cabeça em tantos con­vi­da­dos e sempre a sus­peita que não have­ria comida sufi­ci­ente para todos. Eu apenas obser­vava todo o ambi­ente e ten­tava me diver­tir com tantas pes­soas se dedi­cando em tornar aquele dia ines­que­cí­vel em minha vida.

Quando a tarde se fez pre­sente, eu já estava pronto. Roupa feita na cos­tu­reira da minha mãe. Uma camisa qua­dri­cu­lada de ver­me­lho e branco com um colete e uma ber­muda jeans. Minha mãe também havia pre­pa­rado algo espe­cial para ela. Um short marrom da moda de cin­tura alta acom­pa­nhado de um cinto, uma blusa de cetim rosa e para com­ple­tar, um colar estilo idade da pedra que descia até os seios. Saí do quarto e cir­cu­lei pela sala, agora toda deco­rada com balões. Na parede atrás da mesa, um isopor em for­mato de casa com a frase: “Uma tarde no circo com Samuel e amigos”. Nem pre­ciso dizer que o bolo era um palhaço. O nariz ver­me­lho e redondo sal­tando para cima. Pare­cia deli­ci­oso! O rapaz encar­re­gado de filmar o evento em VHS já se fazia pre­sente, assim como os vizi­nhos mais che­ga­dos e boa parte da famí­lia. Afinal, meus tios e primos tinham vindo à cidade só para me pres­ti­giar. Na área de entrada ficou uma caixa grande onde eu colo­ca­ria os pre­sen­tes, e claro, na parede outro palhaço com a cabeça enorme de isopor  e os braços e pernas feitos de bexi­gas.

Aos poucos a casa foi se enchendo. Os con­vi­da­dos me olha­vam sem parar e isso come­çou a me pre­o­cu­par. Não sabia mais para onde olhar e aos poucos já nem sabia como cami­nhar. Parece que rou­ba­vam cada expres­são minha toda vez que me obser­va­vam. Final­mente minha avó chegou. Me abra­çou, me beijou e ali em seus braços me senti seguro e pro­te­gido. Com ela che­ga­ram também meu tio e minha prima Agda, que trazia o pre­sente da minha tia Auxi­li­a­dora. Eu sabia de ante­mão que ela me daria um robô preto de meio metro que andava e mexia as mãos. Agar­rei o pacote e, apesar da ansi­e­dade, colo­quei na caixa, queria sabo­reá-lo sozi­nho depois. Um carro então esta­ci­ona lá fora, e dele sai paci­en­te­mente um homem de calça jeans, camisa branca e cabelo gri­sa­lho. Sua entrada desvia os olha­res dos con­vi­da­dos sobre mim. Ao menos até ele se apro­xi­mar, passar a mão no meu cabelo sor­rindo e pro­fe­rir sua sau­da­ção: “diga, coman­dante”.

Meu pai era um mili­tar do exér­cito apo­sen­tado. Em seu ofício, per­cor­rera o país par­tindo também o cora­ção de muitas jovens. Não era seu pri­meiro filho e nem seria o último, assim como minha mãe não deti­nha o título de exclu­si­vi­dade. Aliás, esta­vam sepa­ra­dos há quase dois anos. Com essa situ­a­ção perdi a rela­ção de inti­mi­dade, e uma onda de medo e res­pon­sa­bi­li­dade asso­la­vam meu ser, incons­ci­en­te­mente, sempre que o via. Meu pai era dado a mágico também nas horas vagas, e numa festa com o tema circo, sua mesa já estava posta e o pica­deiro armado. Todo mundo se aper­tava para ver o grande mágico Sele­don. A área ficou lotada. Gente em pé, gente sen­tada. Várias cri­an­ças com olha­res curi­o­sos agar­ra­dos ao portão do lado de fora. E eu? Bom, eu fiquei meio que escon­dido entre as pes­soas. Tinha medo dele querer rea­li­zar alguma mágica com o ani­ver­sa­ri­ante. Me fazer urinar ou botar ovo em cena como fez com um menino. Não. Naquela hora eu queria ser mais um sim­ples con­vi­dado do que qual­quer anfi­trião.

Inex­pli­ca­vel­mente, gos­tava de estar em cena, de estar em evi­dên­cia em um palco. E basta rebo­bi­nar um pou­qui­nho a fita antes do show de mági­cas do meu pai, para me encon­trar dan­çando lam­bada na sala com minha prima Agda aos olha­res atô­ni­tos de todos. Sim. É ver­dade. Minha prima cinco anos mais velha apren­deu a dança “proi­bida” do Kaoma e resol­veu que pre­ci­sava de um par para pra­ti­car em casa. E lá estava eu, dan­çando no meio da minha festa de ani­ver­sá­rio. E mesmo com a expres­são fechada, não de raiva, mas de inse­gu­rança, ainda dancei com outra colega da escola, essa da minha idade, e a cozi­nha lite­ral­mente fez um break. Foram todos assis­tir o desem­pe­nho daque­las duas cri­an­ças ousando ser gente grande. Minha avó olhava fas­ci­nada. Minha mãe dire­ci­o­nou toda sua agi­ta­ção naquela cena, focou e con­ge­lou por alguns minu­tos. Nem eu sabia por que impulso estava levando à praça um hábito cor­ri­queiro da infân­cia. Talvez um anseio de me mos­trar capaz de algo que poucas cri­an­ças naquela idade ousa­riam fazer.

As horas foram pas­sando. A festa ganhando a noite. O time da cozi­nha dedi­cado em servir os con­vi­da­dos e cer­ti­fi­car que todos esta­vam pro­vi­dos, e como minha mãe previu, as igua­rias come­ça­ram a faltar. Mas nada de deses­pero. Hora de cantar para­béns e cortar o bolo. Todos se reu­ni­ram em volta da mesa. Muito baru­lho. No som Sacri­fice de Elton John. Algu­mas cri­an­ças colo­ca­vam a cabeça nas lan­che­ri­nhas para ver o que tinha dentro. Colo­ca­ram um ban­qui­nho para que eu ficasse numa altura razo­á­vel. Eu obser­vava tudo espe­rando que alguém me dis­sesse o pró­ximo comando. De repente o dis­paro e todos can­ta­vam e batiam palmas sor­ri­den­tes para mim. Naquela hora não sabia o que fazer. Me perdi com­ple­ta­mente. Batia palmas junto com todo mundo ou só ficava olhando aquela cele­bra­ção? Nin­guém me passou a infor­ma­ção. Então sor­ra­tei­ra­mente do impulso de bater palma, fui escor­re­gando as mãos deva­gar até elas con­ge­la­rem na altura da cin­tura. Olhos esbu­ga­lha­dos. Pare­cia que eu é que seria devo­rado ao final ao invés do bolo. E quando a can­tiga cessou, veio o pior. Tive que apagar a vela. Foram três ten­ta­ti­vas, várias vozes me enco­ra­jando, meu pai me pedindo força e só aí a chama eva­po­rou. Mas nem fui eu o res­pon­sá­vel. Um menino, pro­va­vel­mente impa­ci­ente com a situ­a­ção e louco pelos doci­nhos, se ante­ci­pou e con­tri­buiu com seu sopro.

Des­feita as for­ma­li­da­des, todos foram se dis­si­pando e as cri­an­ças for­mando filas para rece­be­rem as lem­bran­ci­nhas, enquanto a sessão de fotos tinha início em frente ao bolo. Bate­ram uma foto­gra­fia minha com minha avó e depois a famí­lia toda queria uma foto exclu­siva com ela. Em seguida minha mãe mandou chamar meu pai para a foto da famí­lia. Embora sepa­ra­dos, ela ainda nutria uma remota espe­rança de recon­ci­li­a­ção. Nos pre­pa­ra­vam para o flash quando só então repa­rei que a vela de 6 anos do bolo estava vol­tada para mim e não para os con­vi­da­dos, como seria o cor­reto. Com essa cons­ta­ta­ção, olhei para a câmera e a cena foi regis­trada. A mesma foto que agora olho aqui sobre a escri­va­ni­nha do meu apar­ta­mento e que todos os dias me encara com desa­fio. Faz exatos 20 anos. Minha mãe não voltou mais com meu pai. Ele teve outra famí­lia, outros filhos e hoje já nem se encon­tra mais entre nós. Eu fui cres­cendo, ten­tando supe­rar os fan­tas­mas da inse­gu­rança, enca­rar o mundo sem medo de falhar, embora aqui acolá busque nas fobias e ino­cên­cia daquele garo­ti­nho a grande razão de con­ti­nuar seguindo sempre. Encon­tro naque­las raízes o fruto do cara de 26 anos que me torno hoje.

Impressões

E aque­las tardes tinham um sabor espe­cial, eram ver­da­dei­ras reu­ni­ões invi­o­lá­veis. Entre a diver­são e o com­pro­misso, ami­za­des des­pon­ta­vam e des­co­ber­tas pra­ze­ro­sas emer­giam para um mundo ainda inex­plo­rá­vel de pré-ado­les­cen­tes. Os encon­tros eram sempre no meu quarto. Os móveis eram afas­ta­dos, a galera se espa­lhava pelo chão, o toca-fitas era ligado e pela sequên­cia gra­vada na fita K-7 come­çá­va­mos a nos apre­sen­tar. Em meio à garo­tada, minha mãe, que na função de pro­du­tora mais pare­cia outra cri­ança. Geral­mente esse perí­odo de ensaio durava apenas uma semana antes da apre­sen­ta­ção. Tempo rela­ti­va­mente curto para assi­mi­lar passos, tre­jei­tos e a pró­pria música dos artis­tas esco­lhi­dos, mas não está­va­mos tão pre­o­cu­pa­dos em acer­tar todas as core­o­gra­fias, e sim em acre­di­tar que éramos aque­les can­to­res e dan­ça­ri­nos famo­sos. Não impor­tava se seria uma Débo­rah Blando morena, uma Sandy loira ou um Jacaré branco desde que a dedi­ca­ção e a inten­ção fossem as melho­res.

E dedi­ca­ção se encon­trava mesmo no capri­cho dos con­vi­tes feitos à mão, em peda­ci­nhos de car­to­lina, e entre­gues de porta em porta entre os vizi­nhos e amigos pró­xi­mos; e até na con­fec­ção do figu­rino, nor­mal­mente uma repro­du­ção meio pirata de algum modelo de roupa famosa, só que em tecido bem mais modesto. As espe­cu­la­ções sobre os núme­ros a ser apre­sen­ta­dos agu­ça­vam a curi­o­si­dade de algu­mas cri­an­ças que se debru­ça­vam sobre a janela do meu quarto nos horá­rios dos ensaios, a fim de con­fe­rir em pri­meira mão o que está­va­mos pre­pa­rando dessa vez. Sempre após os encon­tros no início da noite, saí­a­mos todos juntos con­ver­sando em grande empol­ga­ção até a pre­fei­tura da cidade, de onde cada um tomava seu rumo até nos reu­nir­mos de novo no dia seguinte. Eu me diri­gia habi­tu­al­mente à casa da minha avó, onde quase sempre jan­tava miojo feito por mim mesmo, que à época era um grande achado da culi­ná­ria infan­til. De algum modo me sentia res­pon­sá­vel, vivo, senhor do meu cami­nho. Era o garoto que tra­ba­lhava em algo pro­du­tivo e ainda pre­pa­rava seu pró­prio ali­mento. Não era pouca coisa.

Quando o grande dia final­mente che­gava, eu des­per­tava com os pri­mei­ros sinais de luz a fim de não perder um segundo sequer as emo­ções que aquela oca­sião pro­por­ci­o­nava. E o dia era real­mente cheio. Pri­meiro tínha­mos que deco­rar a área de entrada de nossa casa. Uma cor­tina grande cobria toda a parede onde ficava a porta e alguns balões eram colo­ca­dos em torno do ambi­ente. Inqui­eto para estar ocu­pado em alguma tarefa, olhava agi­tado todos que se ocu­pa­vam no único ofício que não con­se­guia rea­li­zar, encher aque­las bexi­gas com ar. Era ridí­culo, parece que só con­se­guia soprar pra dentro. Mas não fica­ria deso­cu­pado por muito tempo, era hora de reco­lher o máximo de cadei­ras entre os vizi­nhos para os con­vi­da­dos sen­ta­rem. E com minha sede de pare­cer útil, nunca dei­xava de ir buscar assento nos luga­res mais dis­tan­tes, como a casa da minha avó. E lá seguia eu atra­ves­sando a cidade num domingo enso­la­rado com uma cadeira de fiti­lho ver­me­lha contra o peito e um sor­riso no rosto.

Como em qual­quer evento, alguns impre­vis­tos estão sujei­tos a acon­te­cer. E me lembro de uma vez que faltou ener­gia na cidade na manhã de uma apre­sen­ta­ção. Falta de ener­gia em cidade pequena é sempre um trans­torno, nunca se sabe quando a força vai voltar, e quando ines­pe­ra­da­mente chega não há quem não fique sabendo com a ovação de um grande gol pelas ruas. Pois desde que sem ener­gia, sem espe­tá­culo, uma vez que sem ener­gia não há som, e sem som não há apre­sen­ta­ção. Incon­for­mado com a ideia de ver o grande dia vir abaixo, pre­ci­sava encon­trar alguma solu­ção. Decidi que usa­rí­a­mos pilhas no meu apa­re­lho de som pequeno, mas onde encon­trar pilhas gran­des no comér­cio fechado de domingo? Depois de fuçar todos os bura­cos aber­tos da cidade, acabei encon­trando, mas o volume do apa­re­lho não se mos­trou muito satis­fa­tó­rio para a rea­li­za­ção do evento. Fiquei matu­tando, como encon­trar uma solu­ção pos­sí­vel? De onde arran­car ener­gia? Sol? Gera­dor da igreja? Por que não? Não foi pre­ciso tanto. Per­dido em meus raci­o­cí­nios escu­tei aquela ovação. Estava salvo.

Tomar banho, sepa­rar os figu­ri­nos pela ordem de apre­sen­ta­ção, espe­rar os con­vi­da­dos, tudo era um ritual seguido com a maior satis­fa­ção. As meni­nas fica­vam no meu quarto e os meni­nos faziam de cama­rim o quarto da minha mãe. Quando a nossa apre­sen­ta­dora che­gava (minha ex-pro­fes­sora de alfa­be­ti­za­ção), eu lhe pas­sava a lista com os núme­ros a ser exi­bi­dos. Em pouco tempo a área estava tomada por vizi­nhos e curi­o­sos que pas­sa­vam. Sen­tada sempre na pri­meira fila, minha avó, que nunca perdia a opor­tu­ni­dade de ver o neto em ação. E enfim come­çava. O corre-corre era grande na troca de roupa após uma apre­sen­ta­ção. Eu com um olho no con­trole do som, o outro na área e ainda atento aos meus horá­rios de entrar e mudar o figu­rino. A sen­sa­ção de con­quista ao final se mis­tu­rava com vazio. Meta cum­prida e não mais músi­cas, tardes ani­ma­das, cami­nha­das até a pre­fei­tura, miojo com sabor de com­pro­misso. Lamen­ta­vel­mente tudo acaba, mas esses momen­tos já mor­riam um pou­qui­nho no silên­cio da noite vazia de um dia tão fer­vi­lhante de vida.

Nas alturas

Ela estava ali diante de mim, como sempre esteve. Mas dessa vez algo novo se fazia pre­sente. Algo vivo, interno, pul­sante, mais psí­quico do que físico. Eu acom­pa­nhava a fila e sentia a hora se apro­xi­mar. Apesar de alguma inse­gu­rança, não titu­beei nova­mente; entre­guei o bilhete e sentei na cadeira reser­vada a mim. Preso ali, come­cei a per­ce­ber nos pri­mei­ros movi­men­tos, por que aquele lugar sempre foi sinô­nimo de apreen­são em minha vida. Desde cri­ança quando os par­ques de diver­sões che­ga­vam à cidade para a festa do padro­eiro, comu­mente evi­tava os brin­que­dos peri­go­sos que envol­viam velo­ci­dade e altura. Era bem mais seguro ficar rodando em um cava­li­nho colo­rido do car­ros­sel ou nos avi­õe­zi­nhos a um metro do chão. Mas de longe a pri­meira imagem que se tinha do parque era dela, sun­tuosa, impo­nente, sobe­rana entre todos, a roda-gigante. Era ine­vi­tá­vel não olhá-la. Ficava atô­nito com tama­nha engre­na­gem girando com tanta pre­ci­são, e mais per­plexo ainda com as pes­soas que se dis­pu­nham a girar naque­las alti­tu­des. Ah, aí estava a razão.

Não sei neces­sa­ri­a­mente quando per­cebi que algum medo de altura havia em mim. Mas a cada novo degrau uma falta de equi­lí­brio maior. A gra­vi­dade dizia que meu lugar era a terra firme, o céu era para os pás­sa­ros. O medo era real e se mos­trava evi­dente nas minhas opções no parque, e pode ter se somado pos­te­ri­or­mente a uma labi­rin­tite que só com­pli­cou ainda mais a esta­bi­li­dade no ar. Lembro de uma única vez que tentei desa­fiar esse medo, era o último dia do parque e depois de tanto ouvir as decla­ra­ções entu­si­as­ma­das de meus amigos, fui con­ven­cido a embar­car no Twist, uma espé­cie de car­ros­sel de cadei­ras numa modu­la­ção bem mais ace­le­rada e que subia durante o pas­seio for­mando um ângulo de quase 90 graus. Não sei a que sen­sa­ção eles se refe­riam, porque a única que senti foi deses­pero agar­rado ao cabo de sus­ten­ta­ção, vendo a qual­quer momento a cadeira ou o meu sapato voar até os fundos da rodo­viá­ria. Atur­dido entre os gritos de eufo­ria e as ima­gens do parque, que haviam se trans­for­mado em vultos, não fazia ideia se a altura ou a falta de esta­bi­li­dade era a pior impres­são.

Con­tudo, apesar de toda essa insa­tis­fa­ção, a alti­tude sempre me ins­ti­gou. Mais novo queria ser astro­nauta, acho que não visu­a­li­zava a viagem, apenas o dese­nho do pla­neta de cima. Man­ti­nha ainda uma rela­ção de cum­pli­ci­dade com o super-homem, que voava. Gos­tava também de subir nas esca­das da caixa d’água da casa de minha avó, apesar de todos os aler­tas da famí­lia. E quando morei em um prédio de dez anda­res em Natal, o meu pas­sa­tempo pre­di­leto era subir no telhado à noite e olhar a cidade. Absurda con­tra­di­ção. Mas quem falou também que temos que ser tão lógi­cos? Acre­dito que o meu medo estava ligado ao domí­nio. Se o lugar era alto, mas me per­mi­tia ter o con­trole da situ­a­ção, então era diver­tido, do con­trá­rio: “mai­nha­aaa!” Hoje avalio como um medo sau­dá­vel. Todos têm medo de alguma situ­a­ção apa­ren­te­mente fora de con­trole. Algo seme­lhante ao medo de fan­tas­mas. Eu, como a mai­o­ria das cri­an­ças, ficava assus­tado ao ouvir his­tó­rias de assom­bra­ção, embora sempre insis­tisse em escu­tar, dei­xando o medo para me per­tur­bar depois embaixo dos len­çóis.

Talvez por essas con­tra­di­ções eu tenha ficado rece­oso do desa­fio de enca­rar uma roda-gigante pela pri­meira vez aos 24 anos. Mas eu havia deci­dido supe­rar esse trauma de infân­cia e fui um dos pri­mei­ros a incen­ti­var o pas­seio no majes­toso cír­culo. Bateu aquele fri­o­zi­nho na subida, a sen­sa­ção de cair no nada durante as des­ci­das, um esforço tre­mendo para manter o foco em algo e não perder o eixo, e no final ao olhar para ela nova­mente, achei imen­sa­mente maior do que antes e me jul­guei um insano por ter girado naquela altura. Ah, mas a sede de um parque estava apenas come­çando. Para res­sar­cir a ausên­cia dele em todos os anos per­di­dos, fui em car­ri­nhos, avi­õe­zi­nhos, trem fan­tasma, e me arris­quei a ir em uma mini mon­ta­nha-russa, depois de uma roda-gigante aquele tri­lhi­nho era fichi­nha. Basta infor­mar que na saída perdi um pouco da coor­de­na­ção motora das pernas, depois de acre­di­tar que iria des­pen­car do vagão em cada des­cida. Com esses testes de adre­na­lina, achei melhor não arris­car a barca viking e muito menos o tal do Samba, rodando sem parar. Ainda surgiu um con­vite pra repe­tir a roda-gigante. Não, pen­sando bem, outro dia, quem sabe.

Nova­mente não sei se o medo ou a falta de esta­bi­li­dade pro­vo­cando uma ânsia de vômito era a sen­sa­ção que domi­nava ao final da expe­riên­cia. Con­tudo, penso que foi pro­pí­cio o resul­tado alcan­çado. Embora não tenha supe­rado com­ple­ta­mente esse medo, con­se­gui rever­ter uma situ­a­ção que me inco­mo­dava desde a infân­cia. Ao olhar uma roda-gigante agora, eu lembro que já estive ali. Penso que é impor­tante o des­blo­queio de qual­quer meca­nismo que trave o nosso pro­gresso. O medo em dema­sia con­gela o ser humano e o impede de viver livre­mente. Uma fobia vai levando a outra e do nada esta­mos encur­ra­la­dos em uma cerca de pâni­cos. A altura passa longe de ser o meu maior medo na vida, temo muito mais alguma doença grave, que me leva a temer deter­mi­na­dos com­por­ta­men­tos para evitar ter alguma, então fico con­di­ci­o­nado ao limite que esse medo me reserva na vida. Por isso, é bom correr riscos algu­mas vezes, pular de para-quedas, fazer rapel (ainda faço um dia ), saltar no nada. Voar sim­ples­mente sem se pre­o­cu­par a que altura está do chão. Enfren­tar os medos é cruzar os limi­tes, ir além de onde acre­di­ta­mos ser capaz e tornar o ini­ma­gi­ná­vel, fac­tí­vel.

Lembrete


Como iden­ti­fi­car os sinais que a vida nos dá? Não é normal... uma leveza no corpo, ou seria um peso? Não sei como des­cre­ver ao certo, algo seme­lhante ao estado de alguém que fez uso de tran­qui­li­zante para dormir, mas numa hora impro­vá­vel. Não havia tomado nada ainda. Era cedo, queria assis­tir a novela das nove. Mas cedi ao des­canso e em pouco tempo estava dor­mindo. Acor­dei duas horas depois. Como perdi a novela, con­ti­nuei a assis­tir a segunda parte do epi­só­dio da série Ghost Whis­pe­rer que tenho acom­pa­nhado online. O seri­ado ame­ri­cano sobre a vida de uma mulher que con­se­gue manter con­tato com espí­ri­tos presos à Terra. Cada dia me fas­cina mais des­ven­dar os mis­té­rios da vida na lógica espí­rita. Só lem­brar que che­guei a essa série atra­vés do livro do co-pro­du­tor exe­cu­tivo e médium James Van Praagh.

Exa­ta­mente à meia-noite meus olhos foram atra­í­dos pelo reló­gio digi­tal do com­pu­ta­dor. Pouco tempo depois me vi escre­vendo em uma comu­ni­dade no orkut sobre um rapaz que morreu recen­te­mente. Seus amigos cri­a­ram uma comu­ni­dade, e na des­cri­ção falava-se sobre a sobre­vi­vên­cia da ami­zade entre as intem­pé­ries da vida. Senti que devia escre­ver algo, já que sei o que é ver amigos ir pra longe, sem deixar de ser o que sempre foram. Até aqui tudo não fazia muito sen­tido, até eu con­fe­rir a data das pos­ta­gens dos fóruns: 02 de julho. A ficha caiu! Cinco anos da morte de meu pai.

Não posso dizer que tudo o que acon­te­ceu foi inter­fe­rên­cia dele, mas pre­ciso admi­tir que fiquei sur­preso quando cons­ta­tei que era real­mente o dia. Dife­rente da minha mãe, não sou muito ligado em datas, e havia esque­cido com­ple­ta­mente. Seria ele, de certa forma, que­rendo me lem­brar? E sim, por quê? Já parei em muitas opor­tu­ni­da­des para pensar sobre o des­tino do meu avô, da minha tia e do meu pai. Será que encon­tra­ram logo a luz? Será que me aju­da­ram todas as vezes que pedi pro­te­ção antes de subir em um palco? Ou será que eles é que pre­ci­sam da minha oração? Já os senti dis­tan­tes, pró­xi­mos, mas ainda não tive essa cer­teza.

É ine­bri­ante a sen­sa­ção de ima­gi­nar um mundo invi­sí­vel a nossa volta, capaz de nos influ­en­ciar tanto para o bem como para o mal. Sempre senti uma liga­ção muito íntima com o espi­ri­tual desde cri­ança. As his­tó­rias de alma penada me assus­ta­vam, e des­per­ta­vam minha curi­o­si­dade. No fundo queria ser médium. As missas de domingo na igreja nunca tive­ram um sen­tido mís­tico de ver­dade. Jamais fui a uma com o intuito de ali­men­tar a alma, como nos encon­tros nos cen­tros espí­ri­tas. Uma hora ou outra nossa alma pro­cura o seu equi­lí­brio. Hoje as his­tó­rias de fan­tas­mas não me assus­tam mais, e fica­ria muito feliz se des­co­brisse, em mais alguns anos, que teria mesmo a capa­ci­dade de me comu­ni­car com os mortos. Sei que é um tra­ba­lho difí­cil, porque na falta de pre­paro, espí­ri­tos per­tur­ba­dos podem inter­fe­rir nega­ti­va­mente em nossa vida, con­tudo, era algo que gos­ta­ria de arris­car, já que isso é o que mais tem me movido nos últi­mos tempos. Penso que traria um grande alívio a minha alma irre­qui­eta. Tudo faz tão mais sen­tido.

Não sei se con­se­gui captar a men­sa­gem que recebi do meu pai essa noite. Se é que foi uma men­sa­gem, e se é que foi dele. Mas tenho abso­luta cer­teza que alguma comu­ni­ca­ção se esta­be­le­ceu aqui. Não acre­dito em coin­ci­dên­cias. Elas exis­tem pela ajuda de alguém. Se foi real­mente meu pai que­rendo que eu me lem­brasse dele, ou sim­ples­mente sua maneira de se mos­trar pre­sente em minha vida, então a inten­ção foi alcan­çada, porque dire­ci­o­nei meus pen­sa­men­tos a ele e vim escre­ver aqui, depois de alguns dias sem “ins­pi­ra­ção”. Vim cele­brar a mara­vi­lha da per­pe­tui­dade da vida e a graça de poder sentir a pre­sença dos que se foram atra­vés de cami­nhos que só a alma pode com­preen­der.

Pragmatizando...!?

Por muito tempo fui per­se­guido pela pala­vra ‘prag­má­tico’. Esbar­rava com ela sem nunca enten­der com­ple­ta­mente o sig­ni­fi­cado de alguém prag­má­tico, mesmo con­sul­tando dici­o­ná­rios, fóruns yahoo e todo tipo de ‘pédias’. Talvez porque eu nunca tenha sido uma pessoa prag­má­tica. Minha vida foi ali­men­tada de ide­o­lo­gias nada prá­ti­cas. Uma amiga sempre me dizia que dava a solu­ção e eu arran­java o pro­blema. Eu gos­tava de acre­di­tar em um ideal de feli­ci­dade e não abdi­cava de viver essa fan­ta­sia. Mas quem sonha demais em um mundo que valo­riza a pra­ti­ci­dade, parece estar sujeito a virar sonâm­bulo na soci­e­dade. Ide­a­li­zar a vida é uma tarefa válida, é acre­di­tar nas pos­si­bi­li­da­des de mudança do mundo, per­mi­tir ser român­tico, cafona, piegas! Mas sonhar, sonhar... querer, querer não basta. Sem um pouco de agi­li­dade parece que nada sai do abs­trato e entra no con­creto.

Fazendo uma aná­lise das pes­soas ao meu redor, depois que con­se­gui des­ven­dar o mis­té­rio por trás dessa pala­vra, des­co­bri que sempre tive um exem­plo clás­sico de alguém assim. A pala­vra que me seguia pelas esqui­nas estava dentro da minha pró­pria famí­lia sin­te­ti­zado na figura da minha tia Auxi­li­a­dora. Se alguém pode exem­pli­fi­car o que é o prag­ma­tismo é ela. Posso fazer um mau jul­ga­mento, mas tenho a impres­são de que ela nunca se agar­rou em nenhuma nuvem. Claro, ela até pode ter suas fan­ta­sias, mas nunca deixou que elas fossem a sua vida. Pra­ti­ci­dade é com ela mesmo! Não me vem à mente nenhuma oca­sião em que ela não tenha che­gado a solu­ção de algum pro­blema com o qual se depa­rou. É a ver­da­deira desa­ta­dora dos nós, sim­ples­mente porque onde vemos um grande obs­tá­culo atra­vés da neblina das nossas ilu­sões, ela vê o prá­tico, o ágil e o pos­sí­vel.

Mas não é uma tarefa fácil aban­do­nar as con­vic­ções adqui­ri­das ao longo dos anos para se entre­gar à pra­ti­ci­dade. Afinal, se os sonhos nos movem, como deixá-los de lado em nome de uma vida mais prá­tica? Será que todas as pes­soas ide­a­lis­tas virão a se tornar prag­má­ti­cas algum dia? Se é um cami­nho para tornar a vida mais fácil, perde-se um pouco o sen­tido do ser, já que uma saída prá­tica quase nunca é a que ide­a­li­za­mos. E o que fazer? Frus­trar-se com o mundo diante da impos­si­bi­li­dade das con­quis­tas ou acei­tar a solu­ção pali­a­tiva suge­rida? A vida nos força a ser prag­má­ti­cos. Dia­ri­a­mente situ­a­ções nos obri­gam a deixar de lado certos anseios e nos con­for­mar com o que pode ser ofe­re­cido. O con­for­mismo e o como­dismo são outras arma­di­lhas que nos dis­tan­ciam ainda mais do ideal. Em um dia tenho total con­fi­ança em mim e quero desa­fiar o mundo, no dia seguinte o mundo parece um rival grande demais, e um bura­qui­nho é o melhor local para se abri­gar.

Pro­va­vel­mente se tivesse sido uma pessoa prag­má­tica, teria feito uma facul­dade visando uni­ca­mente o mer­cado de tra­ba­lho e o dinheiro no bolso. O ide­a­lista, pois, cria o seu mundo ideal e segue pelos mais diver­sos cami­nhos para chegar nele, sem a garan­tia que um dia che­gará, ao passo que o prá­tico enxerga as garan­tias futu­ras e a esta­bi­li­dade finan­ceira e bata­lha por isso. Mas não sei se seria melhor ter uma vida prá­tica, que a meu ver parece uma vida sem muito brilho ou feli­ci­dade alguma. É como se quem par­tisse para uma “facul­dade prá­tica” fosse des­pro­vido de voca­ção e enxer­gasse no dinheiro o único cami­nho do sucesso. Então o que fazer hoje? Con­ti­nuar insis­tindo nas pos­si­bi­li­da­des incer­tas daquilo que ide­a­lizo ou partir para algo útil, rápido e seguro, aban­do­nando todo aquele uni­verso ima­gi­ná­rio? Às vezes, sonhar demais cansa, e um atalho pelo cami­nho surge quase como um oásis em um deserto tão infér­til de rea­li­za­ções, infe­liz­mente.

Por que não suporto canto de galo

Dife­rente do latido do cachorro, que inco­moda sim­ples­mente pelo baru­lho, o canto do galo traz uma melan­co­lia, um des­con­ten­ta­mento, um pres­sá­gio fúne­bre. Talvez porque o galo já vá dormir anun­ci­ando o des­per­tar. E a sua pressa me inco­moda. Quem mora perto de algum entende o que eu falo. Parece que ele passa a madru­gada inteira avi­sando que o dia vai ama­nhe­cer, só que ainda não ama­nhe­ceu, então por que ele não cala o bico e vai dormir? Quem sofre de insô­nia ver o dia se apro­xi­mar a cada canto. É um pesa­delo!

Me lembro quando ainda cri­ança, de acor­dar pelas três ou quatro horas da madru­gada pra viajar para a cidade vizi­nha. O ônibus saía muito cedo porque seu des­tino final era a cidade de Mos­soró, 4h de dis­tân­cia, então era pre­ciso chegar o quanto antes na parada. Essas via­gens para a casa da minha tia eram sempre uma festa, mesmo que o motivo fosse uma con­sulta médica ou um exame, afinal, o encon­tro com as primas era farra garan­tida. Porém, levan­tar cedo e se pre­pa­rar para a viagem ainda era uma tor­tura. Entre luzes acesas, sono­lên­cia e len­çóis sendo puxa­dos, aquela can­to­ria infer­nal rom­pendo a madru­gada: o galo!

Além da sen­sa­ção de estresse por acor­dar àquela hora, obri­gando a pupila a se con­trair a cada pis­cada em con­tato com a luz do quarto, ainda era for­çado a escu­tar aquela ave avi­sando que o dia não tar­dava a chegar, embora não tivesse che­gado ainda. Na parada esque­cida por todos, menos pelos galos, minha mãe, minha avó e eu aguar­dá­va­mos de braços cru­za­dos o ônibus passar. Esses minu­tos eram os mais tedi­o­sos. Podia sentir  no ar o des­con­forto daquela espera. O frio, o sono, os olhos puxa­dos, a impa­ciên­cia, tudo pedia para que aquele momento pas­sasse logo. E como demo­rava!

Alguns anos mais tarde, voltei a madru­gar toda semana quando passei a morar na casa dos meus tios para estu­dar. Nova­mente o mesmo estresse pra levan­tar, a sen­sa­ção de vazio, o desejo de ficar, a obri­ga­ção de ir... e o velho galo nos ouvi­dos. O frio, o silên­cio e o aperto na estrada inva­diam minha mente. A espe­rança de um dia não ser mais neces­sá­rio repe­tir aquela viagem se somava aos con­se­lhos do meu avô de que tudo na vida tem seu pro­pó­sito. Isso tudo enquanto ten­tava mover algum membro do meu corpo de lugar, antes que ficasse dor­mente.

Ine­vi­ta­vel­mente, tive que repe­tir muitas vezes aquela viagem, não só enquanto morei na casa dos meus tios, como depois ao fazer facul­dade. Devido a con­tra­mão entre a minha cidade e Cam­pina Grande onde estu­dava, o único horá­rio dis­po­ní­vel para pegar todas as con­du­ções até lá era saindo de madru­gada. Não havia alter­na­tiva. Com o celu­lar pra des­per­tar, encos­tava a cabeça no tra­ves­seiro e logo estava de pé, só não dava pra ter cer­teza se o que me acor­dava era mesmo o alarme ou o canto do ben­dito galo.

Hoje estou de certo modo livre dessa jor­nada, mas não total­mente livre do chefe do gali­nheiro. Toda noite antes mesmo que a madru­gada tenha início, lá o escuto ento­ando seu canto de supe­ri­o­ri­dade, ainda bem que os cachor­ros urinam ao invés de uivar pra demar­car ter­ri­tó­rio. Há quem apre­cie uma boa sin­fo­nia de galo, quem relem­bre seus tempos no mato, no sítio ou na fazenda, mas no meu caso essa can­to­ria sempre foi cons­tante, e acre­di­tem, por mais lem­bran­ças boas que possam trazer, todo dia não há quem aguente.

Posso estar sendo rigo­roso demais com nosso amigo tenor, con­tudo, não posso desas­so­ciar seu canto dos momen­tos de insa­tis­fa­ção que vivi. Ele estava lá, e incons­ci­en­te­mente, toda a melan­co­lia daque­les dias retorna ao seu sinal. A noite perde um pouco sua exten­são, já que aquele que só deve­ria entrar em cena ao nascer do sol, fica a madru­gada inteira ensai­ando. E olha que nem estou con­si­de­rando a cren­dice de que canto de galo fora de hora é indí­cio de má sorte. Até porque se assim o fosse, ele já esta­ria extinto.

Marlon e a bola

Escu­tava Fagner na sala com minha mãe. Marlon corria pra lá e pra cá com sua boli­nha de deso­do­rante roll-on, seu objeto sagrado. Vez por outra, minha mãe cha­mava sua aten­ção para ele tirar a bola de perto dos móveis, antes que ela rolasse pra baixo de algum. Quando isso acon­te­cia, ele tra­çava em sua cabeça todas as estra­té­gias pos­sí­veis para retirá-la de lá, e em última alter­na­tiva, quando sentia que não seria capaz de fazê-lo, supli­cava nossa ajuda da única maneira que conhe­cia: latindo! E nesse dia não seria dife­rente. Em pouco tempo o vimos com o foci­nho encos­tado no canto da estante e a bunda pra cima, em sua típica posi­ção de herói fare­ja­dor. Como per­ce­be­mos que seria impos­sí­vel ele reti­rar a bola dali, come­ça­mos a contar quanto tempo demo­ra­ria até ele pedir ajuda. Não deu outra! Come­çou com um pequeno gru­nhido, um cho­ri­nho, em seguida olhou para a gente e latiu. Era o sinal. Sua sal­va­ção depen­dia de nós. Minha mãe foi até lá e reti­rou sua boli­nha.

Con­tudo, como já era de se espe­rar, pouco tempo depois, já estava ele de novo, foci­nho no chão e bunda pra cima. Só que dessa vez ele con­se­guiu a proeza de fazer a bola entrar em umas das cavi­da­des exter­nas da caixa de som. Meu apa­re­lho de som é daque­les anti­gos, cujas caixas são bem mai­o­res e sepa­ra­das do con­junto. Ainda tem toca-discos nele. Uma rari­dade! Brinco com meu primo de 13 anos que ele tem a idade do meu apa­re­lho. E claro que com as caixas no chão, era de se admi­rar que Marlon ainda não tivesse inse­rido a bola lá. Mas o dia chegou! Minha mãe ainda foi lá, pro­cu­rou por trás da estante ima­gi­nando que esti­vesse por ali, mas nada. A dire­ção do foci­nho dele só indi­cava um lugar, a bola estava dentro da caixa. E foi o que cons­ta­tei quando che­guei lá. Con­se­guia até tocar nela, sentia correr de um lado a outro, mas era pra­ti­ca­mente impos­sí­vel retirá-la de lá. “Esqueça, Marlon! Essa boli­nha você perdeu!”.

Marlon, no entanto, não iria abrir mão de seu objeto pre­ci­oso assim de cara. Fincou raiz ao pé da caixa e ali ficou. Não adi­an­tava chamá-lo ou tentar fazer esquecê-lo. Ele não queria papo! Con­se­gui­ria sua boli­nha a qual­quer custo. Não tardou muito e come­ça­ram os lati­dos, os cho­ra­min­ga­dos, uma pata for­çando inu­til­mente o buraco, outra arra­nhando a tela. Minha avó encon­trou a outra boli­nha dele e antes de entre­gar, eu tentei subes­ti­mar a inte­li­gên­cia canina. Peguei a bola, colo­quei no bolso, fui até a caixa, fingi que estava ten­tando reti­rar a outra, passei secre­ta­mente aquela entre minhas mãos e mos­trei a Marlon como se fosse a que estava presa. Ele come­çou a pular de ale­gria, eu joguei então a bola no chão e ele correu até ela. Pronto! Pro­blema resol­vido! Foi o que pensei. Não deu dois segun­dos, Marlon chei­rou a bola e olhou para mim, espe­rando que eu lhe entre­gasse a bola ver­da­deira. Como per­ce­beu que eu não a tinha, voltou a seu lugar em frente a caixa e lá deitou.

Seu tor­mento con­ti­nuou ainda ao longo da tarde. Todo mundo saía da sala e ele con­ti­nu­ava lá. Se por acaso saísse para beber água ou lam­bis­car sua ração logo estava de volta. Quando alguém pas­sava, ele olhava supli­cante e latia. Mas não havia como reti­rar a bola dali. Joguei várias vezes a outra boli­nha contra o chão, na ten­ta­tiva de animá-lo a correr atrás, sem sucesso. Impa­ci­ente com a insis­tên­cia de Marlon em obter aquela ben­dita bola, fiz minha última ten­ta­tiva. Des­co­nec­tei os fios do apa­re­lho de som, reti­rei a caixa do local, enfiei os dedos na aber­tura do buraco e balan­cei a caixa até sentir a bola rolando em torno da saída. A mano­bra durou alguns segun­dos, até que em uma das voltas, a boli­nha passou pela cavi­dade, encon­trou meus dedos e mer­gu­lhou saindo. Meu sor­riso não era de vitó­ria, ao menos não minha. Marlon era quem ver­da­dei­ra­mente tinha con­se­guido reti­rar a bola atra­vés da sua eterna dedi­ca­ção, afinal, na sua esper­teza canina, o que entrou devia sair. Soltei a bola no chão, ele agar­rou apres­sa­da­mente e saiu des­fi­lando com seu troféu na boca.

Meu jardim botânico

Quando todos os bene­fí­cios e tec­no­lo­gias do mundo moderno não con­se­guem saciar nossa sede inte­rior, só resta pedir auxí­lio à velha inqui­lina natu­reza. Só ela com sua impo­nente e modés­tia paciên­cia con­se­gue aca­len­tar as lamú­rias mais ínti­mas da nossa alma. Nada mais gos­toso do que divi­dir con­fi­dên­cias ao pé de uma jaqueira, trocar remi­nis­cên­cias com um ipê ama­relo ou mesmo par­ti­lhar as horas com um bambu. A natu­reza nos acolhe na sua majes­tosa sim­pli­ci­dade para nos lem­brar, quiçá, de alguns valo­res per­di­dos na huma­ni­dade. Foi assim que me senti esses dias ao rever um dos luga­res mais exu­be­ran­tes do Rio de Janeiro. O Jardim Botâ­nico é uma pequena porção do para­íso inse­rida no cora­ção de uma metró­pole. O silên­cio, a paz e a qui­e­tude só que­bra­dos pelo ruído da água nas fontes e cór­re­gos. Um pri­vi­lé­gio para poucos. E pensar que toda a costa bra­si­leira já foi um dia assim.

É nessas horas que me reporto aos por­tu­gue­ses quando aqui che­ga­ram. Quando con­fun­di­ram uma limpa e espe­ta­cu­lar baía com a foz de um grande rio. A mara­vi­lha da natu­reza em sua per­feita mani­fes­ta­ção. O para­íso par­ti­cu­lar dos índios. Como o homem foi capaz de devas­tar tama­nha riqueza? Um pequeno pas­seio pela Estrada da Mata Atlân­tica, um cami­nho que con­torna uma boa parte do jardim, ser­pen­te­ando a Flo­resta da Tijuca, é sufi­ci­ente para se render por inteiro ao poder da cri­a­ção. Árvo­res gigan­tes­cas que se perdem à vista, fron­do­sas e pro­te­to­ras som­bras, o solo macio da terra molhada, o ruído das folhas secas, o canto de algum pas­sa­ri­nho, o lodo úmido em algu­mas pedras... me senti iso­lado do resto do mundo, a dez minu­tos de Copa­ca­bana.

Ali, mer­gu­lhado os pen­sa­men­tos na mais pro­funda sin­to­nia de espí­rito, recor­dei um pequeno jardim que fez his­tó­ria na minha infân­cia. Na casa dos meus tios-avós exis­tia um grande ter­reno ao fundo e em volta da casa com algu­mas árvo­res e plan­ta­ções. O muro da casa era colado com o da minha avó e não era alto. Meu avô pulava fre­quen­te­mente por lá para ir tomar café e bater papo com os irmãos. A casa era bem antiga. Pare­des largas, chão de barro em alguns cômo­dos, fogão a lenha, sótão e vários quar­tos escu­ros. Tinha um certo medo de entrar lá. Mas esse medo não era empe­ci­lho para me afas­tar da pequena “flo­resta” que era o jardim do lado direito da casa. Havia muita planta, flores e ervas medi­ci­nais lá, divi­di­dos em dois ou três cor­re­do­res. O ambi­ente era úmido, pois os galhos altos das plan­tas impe­diam que a luz solar che­gasse até o chão. Apesar de ir pouco, eu ado­rava aquele lugar. Me sentia numa flo­resta. Fan­ta­si­ava his­tó­rias e aven­tu­ras nas quais eu me perdia, impro­vi­sava abrigo, fugia dos ani­mais. Ganhava a ima­gi­na­ção.

Era um ambi­ente único, inco­mum a tudo que eu estava acos­tu­mado. Infe­liz­mente, minha diver­são tinha sempre prazo de vali­dade bas­tante curto. Meus tios não se mos­tra­vam recep­ti­vos à minha pre­sença lá, aliás, à de nin­guém. Mas cri­ança e jardim era sinal de desas­tre pra natu­reza. E parece que eles tinham radar. Eu pulava o muro dis­cre­ta­mente, atra­ves­sava o ter­reno em ponta de pés e quando aden­trava os pri­mei­ros passos no jardim, eles me repreen­diam. Algu­mas vezes fingia sair e me escon­dia entre algu­mas plan­tas. Era quando eles me dela­ta­vam ao meu avô, que paci­en­te­mente vinha me pedir para não tornar a per­turbá-los. Mas o lugar era fas­ci­nante demais para aban­do­nar assim. Che­guei a bancar o bom menino com meus tios para ganhar a con­fi­ança deles. Ia tomar café à tarde lá, con­ver­sava sobre assun­tos de inte­resse de ambos, ganhava elo­gios, mas apesar do esforço, o jardim per­ma­ne­cia ina­ces­sí­vel.

Das poucas lem­bran­ças que me res­ta­ram dele, fica­ram as his­tó­rias, o aroma do ambi­ente, a umi­dade, o perigo (de ser des­co­berto), a tran­qui­li­dade. Acho que che­guei a brin­car de se escon­der, uma ou duas vezes, no máximo, com minhas primas. Não mais que isso. O para­íso não pode­ria ser vio­lado. E apesar das inter­fe­rên­cias dos meus tios, a pequena flo­resta acabou aban­do­nada e des­tru­ída quando a casa foi ven­dida. Apa­ren­te­mente, de nada adi­an­tou tantos cui­da­dos. Mas se eles não pre­ser­vas­sem o pre­ci­oso jardim enquanto estava sob os seus cui­da­dos, ele não seria aquele pro­di­gi­oso espe­tá­culo da natu­reza, nem des­per­ta­ria a minha con­tem­pla­ção. Bom mesmo se mais gente esti­vesse plan­tando, cui­dando e dedi­cando um tem­pi­nho do dia para a pre­ser­va­ção da maior dádiva do pla­neta. Pos­si­bi­li­tando mais jar­dins e flo­res­tas à nossa volta, rea­pro­xi­mando a natu­reza do homem, ree­qui­li­brando o meio ambi­ente, tor­nando nosso ar mais puro e esti­mu­lando as endor­fi­nas dos sonhos.

Tema Espiritismo 04 textos

As energias e suas mensagens

Os “acasos” da vida estão sempre nos indi­cando o cami­nho que nos levará a cum­prir a nossa missão e con­ti­nuar a jor­nada para a nossa evo­lu­ção. Era mais uma quinta-feira inte­di­ante e eu resolvi ir ao shop­ping para me dis­trair. Com­prei um lanche na praça de ali­men­ta­ção e fui até o cinema ver quais filmes esta­vam em cartaz, mas não me inte­res­sei em assis­tir nenhum. Cami­nhei um pouco pela Ria­chu­elo, Lojas Ame­ri­ca­nas e quando já estava para sair resolvi entrar no Hiper Bom­preço. Fui ao depar­ta­mento de cd e dvd, mas nada me agra­dava, já ia saindo quando passei pela livra­ria.

O pri­meiro livro que peguei nas mãos foi o Alma­na­que dos Seri­a­dos de Paulo Gus­tavo Pereira, folheei-o por alguns ins­tan­tes e me dirigi à sessão de livros espí­ri­tas. Dei uma volta em torno da estante e repa­rei em um livro que estava embaixo, num estilo meio rús­tico. Logo que peguei, olhei a contra-capa e não tive dúvida, era o livro que havia me inte­res­sado em com­prar uma outra vez. “Até Que a Vida os Separe” de Mônica de Castro, ditado por Leonel, falava sobre troca de ener­gias e abor­dava o amor e a rejei­ção de filhos pelos pais. Pre­ci­sava com­prar aquele livro. Peguei-o con­victo de levá-lo e con­ti­nuei olhando os outros, foi quando encon­trei uma ótima pro­mo­ção da escri­tora Agatha Chris­tie. Três livros por apenas R$ 14,00. Já ouvira falar muito a seu res­peito, mas nunca tinha lido nada dela. Achei que seria inte­res­sante e levei-os também.

Naquela hora olhei para os últi­mos lan­ça­men­tos na outra estante, aque­les livros bem mais impor­tan­tes que todos devem ler nem que seja um na vida e me senti meio idiota gas­tando dinheiro em um livro espí­rita e outros poli­ci­ais, quando podia me enri­que­cer mais cul­tu­ral­mente com aque­les clás­si­cos. Mas mesmo me sen­tindo mais atra­sado fui ao caixa e levei pra casa aque­les quatro novos amigos. Na mesma noite resolvi conhecê-los e come­cei pelo espí­rita. Logo quando per­cebi já estava domi­nado pelas emo­ções dos per­so­na­gens e mer­gu­lhado inten­sa­mente naquela his­tó­ria que com cer­teza me leva­ria a algum lugar, pois os livros espí­ri­tas têm uma par­ti­cu­la­ri­dade que faz com que cada fato pre­sente no início da his­tó­ria tenha sempre uma expli­ca­ção e tudo se encaixe no final. Ansi­ava cons­tan­te­mente para saber onde aquela sim­ples his­tó­ria e aque­les sim­ples per­so­na­gens iriam chegar.

Cada dia ao chegar em casa, jogava a mochila na cama e já me agar­rava no livro que­rendo saber onde Fabrí­cio, Selena, Adri­ano e os outros me leva­riam naquele dia e o que teriam a me dizer. Eu que vinha me ente­di­ando nos últi­mos tempos por ficar sozi­nho em casa, agora encon­trava moti­vos para querer chegar logo. Eu havia me enga­nado, mas tinha feito a coisa certa. Os outros livros até podiam ser mais impor­tan­tes, mas “Até que a vida os separe” estava se mos­trando uma grande esco­lha. Há seis anos li pela pri­meira vez um livro espí­rita e come­cei a me inte­res­sar mais pelos con­cei­tos dessa dou­trina. Na época estava quase des­crente da exis­tên­cia de Deus e de uma sobre­vi­vên­cia da alma, con­tudo as idéias que aca­bava de des­co­brir me trou­xe­ram novo alento e uma ver­da­deira crença. Ainda não che­guei a fre­qüen­tar nenhum centro espí­rita, porém, o espi­ri­tismo passou a ser mais pre­sente em minha vida que até o levei para o tema de minha mono­gra­fia. Quando meu pai fale­ceu com­prei “O Livro dos Espí­ri­tos” de Allan Kardec e agora seis anos após “Esme­ralda” de Zíbia Gas­pa­retto, me encon­trava via­jando pelas linhas de um romance espí­rita.

A cada página uma nova des­co­berta, uma nova curi­o­si­dade, um novo mis­té­rio, a mesma fé se reno­vando. Dois dias antes havia escu­tado da minha amiga Luci­ene que fal­tava mais reli­gião na vida de outra amiga. Per­cebi que fal­tava na minha também. Mas talvez não reli­gião, mas crença, fé em algo. Ando meio afas­tado do cato­li­cismo e embora não encon­tre muitas res­pos­tas lá, estava sem fé na minha vida, pois também não havia me dedi­cado ao espi­ri­tismo nos últi­mos tempos. O livro estava rea­fir­mando a minha crença e me fazendo muito bem. Em alguns momen­tos me senti extre­ma­mente tocado e algu­mas lágri­mas cor­re­ram pelo meu rosto. Pare­cia que aque­les per­so­na­gens exis­tiam real­mente e esta­vam me con­vi­dando a aden­trar ainda mais pelo uni­verso do espi­ri­tismo. Alguma men­sa­gem ou mesmo algo de espe­cial havia naquele livro, mas não sabia o quê.

Foi quando cinco dias após ter come­çado a lei­tura, che­guei ao seu fim, fechei o livro e um incon­tro­lá­vel pranto tomou conta de mim. As lágri­mas caiam como cacho­ei­ras e uma dor que me roia por dentro parece que obri­gava ainda mais as lágri­mas a saírem. Não sabia o que estava acon­te­cendo, só queria chorar. Olhava para o livro e sentia mais von­tade de mer­gu­lhar naquele oceano. Era como se elas esti­ves­sem presas em mim por muito tempo e agora con­se­guiam se liber­tar. Seja qual tenha sido a men­sa­gem que o livro quis passar, com cer­teza havia me atin­gido. Um misto de impo­tên­cia e poder toma­vam conta de mim, poder de trans­for­ma­ção, me senti dono do meu des­tino e para­do­xal­mente me senti maior ao me ima­gi­nar tão insig­ni­fi­cante na imen­si­dão do uni­verso.

Alguns minu­tos depois come­çava a me con­tro­lar com a ajuda da á

gua cor­rente da pia do banheiro e da água mine­ral do filtro. Água! Sempre a água. O alívio dos neces­si­ta­dos. De repente me sentia melhor, mais con­for­tante, mais ali­vi­ado, como se um grande peso saísse de minhas costas, res­pi­rava mais fundo e sentia o ar entrando pelas nari­nas. Já não era o mesmo. Embora recen­te­mente esti­vesse mais sen­sí­vel a deter­mi­na­das emo­ções e cho­rado à bessa assis­tindo Marley & Eu, eu sabia que aquele livro tinha sido o res­pon­sá­vel por aquela inex­pli­cá­vel sen­sa­ção e que ele não entrou à-toa na minha vida. Não sei aos que não acre­di­tam em espi­ri­tismo, mas sinto que alguém me fez com­prar o livro naquele dia como inje­ção de ânimo e uma grande men­sa­gem foi cap­tada incons­ci­en­te­mente pelo meu espí­rito, assim como acre­dito que tantas vezes desisti de com­prar algo supér­fluo por inter­fe­rên­cia de alguém que me soprou de que eu não o pre­ci­sava. Como fala o livro, a troca de ener­gia entre nós e os desen­car­na­dos é cons­tante e muitas vezes agimos sem nos dar conta que ela existe e que está ali ao nosso lado. Estou agora no pri­meiro livro de Agatha Chris­tie e até sinto-me atra­ído por ele, mas a cum­pli­ci­dade e a har­mo­nia pre­sente na lei­tura ante­rior, Agatha que me perdoe, mas só Mônica con­se­guiu atin­gir.

Além das fronteiras

Quem nunca olhou para o céu e se per­gun­tou o que have­ria além daquela imen­si­dão de estre­las? Ontem me vi per­plexo diante de uma cons­ta­ta­ção acerca da exis­tên­cia de vida inte­li­gente em outros pla­ne­tas. A revista Época divul­gou o rela­tó­rio do exér­cito de 1997 sobre o caso do ET de Var­gi­nha. Como consta no docu­mento, o caso mais famoso da pre­sença ali­e­ní­gena no nosso país não passa de mais um mito da popu­la­ção. O que já era de se espe­rar. As inú­me­ras his­tó­rias sobre OVNIs e ETs no nosso pla­neta ali­men­tam a fan­ta­sia de muitos curi­o­sos e aumenta a pes­quisa dos ufó­lo­gos em todo o mundo, em busca de captar algum sinal que prove a exis­tên­cia desses seres no nosso solo. Par­ti­cu­lar­mente, não acre­dito que o pla­neta Terra já tenha sido visi­tado por extra­ter­res­tres e só não con­si­dero o fato uma perda de tempo, por acre­di­tar na exis­tên­cia de vida inte­li­gente em algum ponto fora da nossa galá­xia.

Seria bas­tante difí­cil alguma espa­ço­nave entrar na nossa atmos­fera sem ser detec­tada pelos rada­res, saté­li­tes ou qual­quer agên­cia espa­cial. E have­ria de ser uma espé­cie extre­ma­mente evo­lu­ída pra con­se­guir criar uma nave capaz de trans­por­tar tri­pu­lan­tes por tama­nhas dis­tân­cias pelo uni­verso. Um ufó­logo da repor­ta­gem do ET de Var­gi­nha afir­mou que não há nenhum regis­tro cien­tí­fico até hoje que prove a exis­tên­cia de vida fora do nosso pla­neta. De certa forma, essa afir­ma­ção me pegou de súbito. Há tempos que tenho essa pos­si­bi­li­dade como algo con­creto em minha vida. E longe de acre­di­tar nisso por influên­cia do Super­man. É algo sim­ples, basta olhar para o céu e ver a sua imen­si­dade de estre­las. Não dá pra pensar que temos o pri­vi­lé­gio de viver no único pla­neta habi­tado dentre infi­ni­tas galá­xias. É apenas uma ques­tão evo­lu­tiva até o homem chegar em con­tato com civi­li­za­ções de outros globos. A prin­cí­pio achá­va­mos que o sol girava em torno da Terra, depois o homem atra­ves­sou os oce­a­nos e chegou à Amé­rica, cons­truiu um foguete e alcan­çou o espaço, a lua e hoje já lança sondas em Marte. Ainda nem conhe­ce­mos a nossa galá­xia por com­pleto. O pró­ximo passo é só uma con­se­quên­cia.

O inte­res­sante quando se fala de vida extra­ter­res­tre é a asso­ci­a­ção que as pes­soas fazem a seres bizar­ros, mons­truo­sos, com super­po­de­res e que querem des­truir o nosso pla­neta. E o mito chega ao cinema rea­fir­mando ainda mais essas teo­rias. Em Sinais e ET o Extra­ter­res­tre, encon­tra­mos seres assus­ta­do­res, esque­lé­ti­cos, de olhos gran­des, boca e nariz peque­nos, e que em Sinais ainda têm medo de água. Em Inde­pen­dence Day e Guerra dos Mundos, os ETs são máqui­nas ou con­tro­lam máqui­nas super­po­de­ro­sas que des­troem o ser humano em fração de segundo. E por aí seguem vários outros filmes: A Inva­são, MIB Homens de Preto, Alien, Tropas Este­la­res, O Dia em que a Terra Parou, Marte Ataca, Star Wars, Pla­neta dos Maca­cos. Em meio a tanta bar­bá­rie temos Kal-el de Krip­ton. Mas não vejo as civi­li­za­ções extra­ter­res­tres com essa sede de matança, pelo con­trá­rio, penso que devem ter soci­e­da­des orga­ni­za­das como a nossa, tec­no­lo­gia simi­lar ou mais ou menos avan­çada. Aliás, devem exis­tir desde mundos pré-his­tó­ri­cos a civi­li­za­ções alta­mente indus­tri­a­li­za­das.

Ima­gi­nem por um momento se alguma agên­cia espa­cial divul­gasse ter encon­trado vida inte­li­gente fora da Terra. Seria um fre­nesi. Os olhos da popu­la­ção esta­riam vol­ta­dos para o espaço mais do que nunca. A curi­o­si­dade em torno dos seres, de como farí­a­mos o con­tato, a língua local, a amis­to­si­dade ou não deles e o receio de expor o nosso pla­neta ao des­co­nhe­cido. A nossa missão seria com cer­teza de paz, de esta­be­le­cer con­tato e conhe­cer outras fron­tei­ras do espaço. Pode­mos pensar que eles teriam a mesma reação, mas não pode­rí­a­mos afir­mar, afinal, é um outro mundo dis­tante da nossa rea­li­dade. E nesse con­tato só pode­rí­a­mos ter a cer­teza de um fato: o pla­neta mais evo­lu­ído iria querer impor a sua domi­na­ção, a menos que esti­ves­sem em níveis seme­lhan­tes. Con­tudo, seria ten­ta­dor ima­gi­nar dois pla­ne­tas vivendo em har­mo­nia, com­par­ti­lhando conhe­ci­men­tos, tec­no­lo­gias, recur­sos mine­rais e tendo até via­gens e migra­ções de habi­tan­tes para cada pla­neta. Há também quem acre­dite que cada esfera do espaço e mesmo os pla­ne­tas hostis da nossa galá­xia sejam habi­ta­dos por seres de natu­reza etérea, imper­cep­tí­veis aos nossos olhos. Mas aí já entra­ria no campo da espi­ri­tu­a­li­dade e pre­firo deixar os mis­té­rios do uni­verso aos limi­tes do vôo da mente de cada um.

Tráfego transcendental

Sempre me ques­ti­o­nei a res­peito da exis­tên­cia humana no mundo. Por que eu sou eu e não outra pessoa? O que me faz ser quem sou? Um pla­neta vagando na imen­si­dão do espaço, com seres pen­san­tes, capa­zes de cons­truir mundos de novas inven­ções a cada ciclo e uma sede insa­ci­á­vel pelo des­co­nhe­cido. Qual nossa influên­cia e ver­da­deira impor­tân­cia nessa área deli­mi­tada à nossa sobre­vi­vên­cia? Como des­cen­dente ori­gi­nal de uma famí­lia cató­lica, ir às missas aos domin­gos fazia parte das incu­bên­cias de um pra­ti­cante devoto do cato­li­cismo, ao menos no com­pro­misso pre­sen­cial. Porém, esse hábito nunca sig­ni­fi­cou nada além de uma obri­ga­ção de minha parte, sem me vin­cu­lar às cren­ças que ouvia repe­ti­da­mente a cada cele­bra­ção, a ponto de chegar em um está­gio de quase ate­ísmo na ado­les­cên­cia. Essa fase chegou ao fim quando vis­lum­brei algo “tan­gí­vel” e con­creto, fun­da­men­tado na razão e não apenas em cren­ças infun­da­das e dis­tor­ci­das ao longo dos tempos. O espi­ri­tismo me abriu as portas para o inex­pli­cá­vel, para o que repre­sen­ta­mos genui­na­mente, e o melhor, para os cami­nhos que enfren­ta­re­mos após essa tra­ves­sia.

Não é minha inten­ção con­ver­ter nenhum cató­lico, evan­gé­lico, budista, pagão ou ateu ao espi­ri­tismo. Quero apenas diva­gar alguns pen­sa­men­tos acerca da exis­tên­cia humana e ousar lançar uma fagu­lha de incer­teza na mente de algum leitor. Um dos prin­ci­pais, senão o maior prin­cí­pio que per­meia o espi­ri­tismo é a crença na reen­car­na­ção da alma. Algo com­ple­ta­mente abo­mi­nado para os cris­tãos cató­li­cos ou pro­tes­tan­tes. Ora, muito como­dismo usu­fruir de uma única vida e depois alcan­çar a sal­va­ção divina ou o cas­tigo sepul­cral. Uma única vida é pouco para evo­luir uma alma e deter­mi­nar sua posi­ção no “para­íso” ou no “inferno”. Ima­gi­nem todas as provas que são neces­sá­rias ser alcan­ça­das numa cons­tante evo­lu­ção espi­ri­tual, com tantos apren­di­za­dos, conhe­ci­men­tos que numa única exis­tên­cia seria impos­sí­vel de se atin­gir. Por isso o espí­rito retorna quan­tas vezes forem neces­sá­rias até con­se­guir se elevar espi­ri­tu­al­mente. Esco­lhendo muitas vezes quais provas deseja se sub­me­ter em sua nova jor­nada.

Alguém já se ques­ti­o­nou o que pode­ria ter sido em uma exis­tên­cia ante­rior? Sempre há uma intui­ção que cada um car­rega con­sigo como algo intrín­seco sobre o que tenha come­tido e que influ­en­cia até as deter­mi­na­das ati­vi­da­des com que tenha fami­li­a­ri­dade. Por isso vez por outra tenho con­clu­sões excên­tri­cas e até assus­ta­do­res sobre o que rea­li­zei em outras situ­a­ções. Já che­guei a pensar que fui um assas­sino e conheci as pri­sões de perto, ou que me dedi­quei a vidas des­re­gra­das, ao mesmo tempo em que me sinto ligado a mos­tei­ros e pode­ria facil­mente ter tido uma vida reclusa da soci­e­dade, dedi­cada às ora­ções e ao jejum. Bom, eu posso não ter a cer­teza do que fui no pas­sado, mas o pequeno James Lei­nin­ger, do estado da Loui­si­ana nos EUA, hoje com 12 anos de idade, sabe desde seus 2 anos que o fas­cí­nio pelos aviões da Segunda Guerra Mun­dial  não era apenas admi­ra­ção, mas uma simi­la­ri­dade com os pilo­tos dos porta-aviões ame­ri­ca­nos, mais espe­ci­fi­ca­mente com o jovem piloto morto em com­bate em 1945 James M. Huston Jr.

A envol­vente e enig­má­tica his­tó­ria con­tada meti­cu­lo­sa­mente no livro A Volta, narra a saga alu­ci­nada dos pais de James, Bruce e Andrea Lei­nin­ger, em busca de expli­ca­ções para os estra­nhos pesa­de­los que pas­sa­ram a fazer parte da rotina da famí­lia a partir de maio de 2000, quando a cri­ança ainda con­tava com seus 2 anos de idade. Acom­pa­nhado dos pesa­de­los que envol­viam fortes agi­ta­ções durante o sono, com chutes e impres­si­o­nan­tes gritos de socorro, o garoto passou a des­cre­ver com ardi­losa pre­ci­são deta­lhes sobre os tipos de aviões que deco­la­vam dos navios de guerra nos anos 40. Recor­dou o nome do homem, que seria ele mesmo, o qual se deba­tia em um avião em chamas em seus sonhos, e ainda o nome de um amigo Jack Larsen. Ima­gens de aci­den­tes aéreos e muita bomba eram cons­tan­tes entre seus dese­nhos. E suas lem­bran­ças não para­ram por aí, mais três amigos foram lem­bra­dos e ganha­ram home­na­gem em sua cole­ção de bone­cos. Quando ques­ti­o­nado pelos pais o porquê de tais nomes, ele saiu com a ines­pe­rada res­posta: “foram eles que me rece­be­ram quando che­guei ao céu”.

Já tinha lido um livro da escri­tora ame­ri­cana Sarah Hinze, A Vida Antes da Vida, onde ela aborda a expe­riên­cia de muitas cri­an­ças que con­se­guiam ainda nos pri­mei­ros anos recor­dar suas expe­riên­cias em vidas pas­sa­das, mas nada tão envol­vente quanto a nar­ra­tiva da famí­lia Lei­nin­ger. Aos poucos as peças do quebra-cabeça vão se encai­xando, e aquilo que pare­cia um delí­rio de início, ganha força e evi­dên­cias irre­fu­tá­veis de que o pequeno James era de fato a reen­car­na­ção do fale­cido piloto de guerra James M. Huston Jr. Em alguns anos de busca inces­sante, de con­tato com inú­me­ros vete­ra­nos de guerra e fami­li­a­res de mili­ta­res mortos, a famí­lia Lei­nin­ger não havia mais como negar o incon­tes­tá­vel. James com sua ino­cente matu­ri­dade, des­pe­java dia­ri­a­mente de maneira natu­ral fatos e infor­ma­ções inad­mis­sí­veis para uma cri­ança de sua idade. Ele “reen­con­trou” a irmã de James Huston Jr, agora uma senhora com mais de 80 anos e a cum­pli­ci­dade entre os dois era algo inex­pli­cá­vel. “Reviu” seus anti­gos com­pa­nhei­ros de com­bate, e lamen­tou esta­rem tão enve­lhe­ci­dos. Seu caso chegou à TV, e acabou levando-os ao Japão e ao local onde o avião de James Huston havia caído no mar.

O fas­ci­nante no livro é mos­trar atra­vés dos fatos como o espí­rito de um piloto da Segunda Guerra pode­ria habi­tar o corpo de uma cri­ança mais de meia década depois. A ideia de reen­car­na­ção ficou tão evi­dente que con­ven­ceu muitos ex-com­ba­ten­tes, a irmã do fale­cido piloto e o pró­prio pai de James Lei­nin­ger, um cético incor­ri­gí­vel e defen­sor de suas cren­ças reli­gi­o­sas. A his­tó­ria que daria tran­qui­la­mente um belo filme, chega ao fim quando o pequeno James “reen­con­tra” o local de sua tra­gé­dia na outra vida e escuta de sua mãe que aquele homem embora tenha feito parte de suas lem­bran­ças por um longo tempo, havia che­gado o momento de deixá-lo ir e seguir em frente. Com lágri­mas nos olhos, James se des­pede dele e bate con­ti­nên­cia. Ou seja, apesar do garoto abri­gar o espí­rito daquele ex-piloto, sua vida agora era outra, ele tinha uma nova famí­lia, outras mis­sões a cum­prir na sua escala evo­lu­tiva e pre­ci­sava tocar o navio, agora como James Lei­nin­ger e não mais como James M. Huston Jr. Tudo o que suas lem­bran­ças pode­riam ter con­tri­bu­ído nessa nova emprei­tada che­gara ao fim. Vete­ra­nos se reu­ni­ram, uma nova placa com os nomes dos sol­da­dos mortos que não haviam sido inclu­í­dos como baixa de guerra foi inau­gu­rada, fami­li­a­res tive­ram acesso a regis­tros até então des­co­nhe­ci­dos sobre o des­tino dos mili­ta­res mortos, e Anne Huston pôde final­mente rece­ber o seu irmão que a deixou espe­rando por mais de 60 anos. Nos novos dese­nhos de James agora a tran­qui­li­dade, aviões sobre­vo­ando paci­fi­ca­mente os céus e gol­fi­nhos mer­gu­lhando ao lado de navios, sem mais aci­den­tes ou bombas. Assim como seus pesa­de­los, as memó­rias pas­sa­das foram se apa­gando e cedendo lugar ao que de fato ele era agora: apenas um garoto com mais uma vida cheia de desa­fios e metas a cum­prir.

O espelho de alguém

Quando eu era mais novo, fã de Sandy e Junior, natu­ral­mente, queria ser como Junior. Dei­xava o cabelo igual, usava roupas seme­lhan­tes, ten­tava repro­du­zir seu jeito de se portar, bus­cando me espe­lhar ao máximo, naquela figura que para mim era um ícone, um modelo a ser seguido. Mas mesmo com todos os esfor­ços, era impos­sí­vel me igua­lar por com­pleto. O cabelo não tinha o mesmo cai­mento, o pes­coço dele pare­cia ser mais com­prido, o sor­riso era mais espon­tâ­neo. Con­tudo, a dife­rença mais cru­cial estava nos ombros. Os meus sempre foram muito largos, ombros de nada­dor, como me diziam, mesmo sem pra­ti­car o esporte. Junior, por sua vez, tinha a espá­dua curta, des­cendo numa nítida incli­na­ção a partir do pes­coço. Aquilo era real­mente uma dife­rença ana­tô­mica que eu não pode­ria cor­ri­gir. Incon­tá­veis vezes sonhei ter seus ombros cur­ti­nhos para que as roupas ganhas­sem em mim o mesmo con­torno que ganha­vam nele. Mas nem tudo pode­ria ser per­feito.

Certa vez, durante uma entre­vista no pro­grama da Xuxa, Junior foi ques­ti­o­nado por ela, sobre algum pos­sí­vel defeito que gos­ta­ria de cor­ri­gir em seu corpo. E ines­pe­rada foi a minha reação quando des­co­bri que Junior dese­java ter ombros mais largos. Era isso mesmo! Aquilo que para mim sempre foi um empe­ci­lho para me “igua­lar” a ele, era exa­ta­mente o que Junior gos­ta­ria de ter. Foi só aí que me dei conta da ideia absurda que estava ali­men­tando. A per­fei­ção que eu bus­cava não existe, porque nunca nin­guém será una­ni­me­mente per­feito. A ana­to­mia de Junior era a ideal aos meus olhos, porque era a que estava nele, a que fazia parte do ídolo que ido­la­trava. Mas não tinha me ligado ainda que ele também pode­ria ter seu pró­prio ícone a se espe­lhar. Come­cei então a dar valor aos meus ombros, afinal, não eram os de Junior, mas eram os que ele dese­ja­ria ter, e sabe lá quem mais.

Esse epi­só­dio me voltou à mente essa semana durante uma reu­nião no centro espí­rita que fre­quento. Sempre ao chegar, rece­be­mos um pan­fleto com algu­mas frases, geral­mente extra­í­das do livro Vida Feliz, de Divaldo Pereira Franco, pelo espí­rito Joanna de Ânge­lis. E nesse dia, uma das frases dizia o seguinte: “mesmo que não saibas, és exem­plo para alguém. Sempre exis­tem pes­soas que estão obser­vando os teus atos, mesmo os equi­vo­ca­dos, e se afinam com eles. Desse modo, és res­pon­sá­vel, não só pelo que rea­li­zes, como também, pelo que as tuas ideias e ati­tu­des ins­pi­rem a outros”. Nunca tinha me ques­ti­o­nado ser exem­plo para alguém. Eu que sempre busco o espe­lho do outro. Quem iria querer me ter como modelo para qual­quer coisa? Nunca faço nada de inte­res­sante. Sou um tipo tão normal que beira a anor­ma­li­dade. Só um desa­vi­sado pode­ria enxer­gar algo útil em mim. Mas... e se existe mesmo esse alguém? Se real­mente estou ser­vindo de base para outra pessoa traçar suas ati­tu­des e com­por­ta­men­tos? Há um perigo então aqui.

São tantos rostos cru­zando nosso cami­nho dia­ri­a­mente. Tantos passos apres­sa­dos em ruas que nunca pisa­mos, pes­soas que jamais tor­na­re­mos a rever. Será que durante uma tra­ves­sia numa cal­çada, não esta­mos sendo obser­va­dos e ins­pi­rando alguém a nos copiar? Um sim­ples gesto, um bater de cabelo, o andar, um sor­riso. Qual­quer deta­lhe pode des­per­tar o inte­resse do outro. Afinal, invo­lun­ta­ri­a­mente, somos a per­fei­ção de alguém. Nossa vida pode real­mente influ­en­ciar as deci­sões do pró­ximo, e ainda atrair seme­lhan­tes das vari­a­das esfe­ras. Encosto, arrimo, obses­sor, estão todos liga­dos a quem de alguma forma faci­li­tou o acesso à pessoa. Quem sabe não temos o sor­riso, a roupa, o cabelo ou o ombro per­feito para algum desen­car­nado? Já li um caso de um espí­rito que se ligou a uma atriz famosa para garan­tir que ela não dei­xasse de inter­pre­tar deter­mi­nado papel. Pro­va­vel­mente, ele estava mais envol­vido com a vida da per­so­na­gem do que com a da atriz.

E exa­ta­mente como Junior não fazia ideia da fixa­ção que eu tinha em me asse­me­lhar a ele, essa atriz não pode­ria ima­gi­nar os trans­tor­nos que sua per­so­na­gem cau­sara nesse fã. É cor­reto então atri­buir aos dois a res­pon­sa­bi­li­dade dos atos come­ti­dos pelos fãs? Tenho minhas dúvi­das. Não havia uma inten­ção direta dos artis­tas para os fãs toma­rem deter­mi­na­das ati­tu­des. Por outro lado, inde­pen­dente da inten­ção, foi atra­vés do con­tato indi­reto entre eles que os fãs agiram. Há sim, alguma res­pon­sa­bi­li­dade, com cer­teza, em todos os nossos atos, mas não há como saber de onde pode surgir a pró­xima iden­ti­fi­ca­ção, que tipo de pen­sa­mento ou ati­tude pode desen­ca­dear essa afi­na­ção. Mesmo os mais sin­ge­los com­por­ta­men­tos, podem des­per­tar bizar­ras situ­a­ções. É impre­vi­sí­vel! Por isso, o impor­tante mesmo é saber que obser­va­mos e somos obser­va­dos todos os dias, por quem menos ima­gi­na­mos. E não pode­mos esque­cer nunca, que enquanto bus­ca­mos um espe­lho no outro, também esta­mos sendo o espe­lho de alguém.

Tema Faculdade 07 textos

A cabeça na lua – Primeiro estágio

É comum ouvir de amigos, namo­rada e até de conhe­ci­dos que vivo no mundo da lua, não sei se isso tem a ver com meu jeito de ser ou se algu­mas vezes pareço mesmo um astro­nauta em órbita espa­cial. Bom, o que sei é que essa minha habi­li­dade move fre­qüen­te­mente a minha vida e me leva para hori­zon­tes jamais conhe­ci­dos. Era mais um dia de aula na uni­ver­si­dade e tudo pare­cia seguir sua rotina cor­ri­queira, acor­dei às 6h30, peguei o ônibus depois de uma espera infe­liz e che­guei atra­sado como sempre na facul­dade. Lá, encon­trei minha trupe e fiquei sabendo da ins­cri­ção para um está­gio no jornal A União, acho que nem dei muita impor­tân­cia. Kárem, uma das minhas fiéis escu­dei­ras disse que iria fazer o teste, Léa e Izabel dis­se­ram que também fariam, logo um con­tin­gente de alunos esta­vam dis­pos­tos a fazer, pensei então: “-ah, é impor­tante, acho que vou fazer também, tenho que me esfor­çar pra ser um menino culto, e nessa altura da facul­dade sem está­gio o que vier é lucro”. Então peguei a cane­ti­nha e me ins­crevi junto dos meus amigos, com a cabeça mais em Anta­res do que na ati­tude que estava tomando.

Eis que o ben­dito dia chega e pra variar nem estava me dando conta que era o dia. Queria assis­tir aula de Page­Maker quando de supe­tão a minha escu­deira kárem me avisa do teste, Kárem, sempre ela. Entrei na sala e a pri­meira coisa que me veio à cabeça foi a torta de frango da lan­cho­nete Sula­vit no centro da cidade. Olhava em volta e via um bando de gavi­ões loucos para abo­ca­nhar o pri­meiro e único lugar do está­gio, enquanto o pobre de mim não con­se­guia parar de pensar no meu estô­mago. Bom, pra embru­lhar ainda mais o intes­tino, a prova era a pro­du­ção de uma maté­ria sobre o preço do álcool. Ihh, álcool e frango, nem o suco de mara­cuya do Sula­vit perdia. Bom, mas vamos lá!! Tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá!! Ufa! Tá tá tá tá!!! Uma hora e meia depois o filho nasce. Até que ficou legal­zi­nho, talvez não digno de um pri­meiro lugar, mas na bata­lha.

Acho que o maior medo não foi fazer o teste e sim a dúvida: “serei capaz de exer­cer a função no jornal?”. Sei que já estou no ter­ceiro ano de jor­na­lismo, mas as dúvi­das e incer­te­zas sobre o cami­nho e todo o pro­cesso de uma car­reira de sucesso pare­cem aumen­tar ainda mais. A falta de um exer­cí­cio prá­tico dentro do campus e até mesmo de um jornal que cir­cule entre nós é bas­tante angus­ti­ante, embora isso seja em parte culpa de nós alunos que não toma­mos uma ati­tude e dei­xa­mos as coisas ao des­caso. Bom, mas vol­te­mos ao meu teste da União que vida polí­tica não com­bina comigo.

Pois é, o resul­tado saiu alguns dias depois. E como eu espe­rava não fui o esco­lhido, mas faltou pouco. Tudo bem, fica pra pró­xima. E que pró­xima!? Eu não espe­rava que ela fosse tão rápida assim. Mais uma vez assis­tindo aula do ado­rado Page­Maker, a por­ta­dora de boas notí­cias, a pro­fes­sora Cássia entra e avisa que cinco alunos que fize­ram o teste para o jornal A União foram rea­pro­vei­ta­dos para um outro está­gio no Sebrae, ou seja, reci­cla­ram os alunos numa nova sele­ção já que não teriam tempo de fazer outra. E adi­vi­nha quem estava no meio desses sele­ci­o­na­dos?! O cara de bobo aqui olhando para a meia da pro­fes­sora. “-Hã?” “-Eita, caiu a ficha? É você mesmo, cara, você foi esco­lhido” “Caramba, será que eu sei pra onde tô indo?”
Pode­ria não saber, mas em meio a tantas dúvi­das eu tinha uma cer­teza, meu texto tinha ficado legal, então o que quer que eu fosse fazer, só faria o que estava ao meu alcance e afinal era hora de testar esse lado jor­na­lís­tico escon­dido aqui dentro.

E assim fui eu para o meu pri­meiro está­gio. E pensar que tudo isso come­çou quando fui levado pelos meus amigos a fazer um teste movido mais por um sen­ti­mento de culpa e ina­ti­vez do que por von­tade pró­pria. É... eu e minha cabeça no mundo da lua. Mas aí eu me per­gunto, se ela tivesse na Terra, em Júpi­ter ou em Saturno teria mudado alguma coisa? Talvez o preço do álcool e da gaso­lina do texto dis­pa­ras­sem e enfren­tasse tur­bu­lên­cia no cin­tu­rão de aste­rói­des. Mas isso não vem ao caso. Ah... e quanto ao está­gio, isso já é capí­tulo de uma outra his­tó­ria.

O PDF do PageMaker

Às vezes quando con­se­gui­mos ser bom em alguma coisa que­re­mos que os quatro ventos do hemis­fé­rio tomem conhe­ci­mento, muito embora esses quatro ventos sejam apenas alguns poucos amigos e conhe­ci­dos. A pri­meira vez que bati os olhos no pro­grama de dia­gra­ma­ção de peri­ó­di­cos Page­Maker eu não ima­gi­nava que con­se­gui­ria adqui­rir tanta afi­ni­dade com ele. Tenho que con­fes­sar que achei o pro­grama legal e prá­tico, mas jamais pensei em me tornar um fã, por assim dizer, do pro­grama. E esse meu fana­tismo foi resul­tado de elo­gios de tra­ba­lhos pro­du­zi­dos e con­fi­ança dos amigos e acima de tudo a minha, pois se eu não acre­di­tasse em mim não con­se­gui­ria mesmo dia­gra­mar uma única página.

Aos poucos os resul­ta­dos do meu tra­ba­lho come­ça­ram a se expan­dir pela facul­dade e ganhei ao lado de outra colega Fer­nanda a opor­tu­ni­dade de dia­gra­mar um jornal comu­ni­tá­rio ide­a­li­zado pelo pro­fes­sor de Téc­nica de Entre­vista e Repor­ta­gem. O Olhar Comu­ni­tá­rio foi o reco­nhe­ci­mento da nossa capa­ci­dade como dia­gra­ma­do­res, não que os outros alunos da turma fossem inca­pa­zes de tal fato, mas que dentre 22 nomes na sala de aula os nossos foram os cita­dos.

É, isso mexe com o ego de qual­quer um, mas talvez um ‘expert’ em Page­Maker ficasse na sua e não resol­vesse divul­gar sua satis­fa­ção em uma comu­ni­dade vir­tual no maior site de rela­ci­o­na­men­tos da inter­net, o orkut. Dois dias depois do ponto final na dia­gra­ma­ção do jornal comu­ni­tá­rio surge a comu­ni­dade Só Dá “Eu” No Page­Maker. Con­ven­cido, pre­po­tente e ego­cên­trico foram algu­mas defi­ni­ções que ouvi de amigos na facul­dade. Mas, pensei eu, exis­tem tantas comu­ni­da­des fúteis e sem con­te­údo na inter­net que não have­ria mal algum em ali­men­tar essa dema­si­ada alti­vez. Engano! Mal sabia eu onde aca­bara de me enfiar.

Já dizia meu avô, “aprenda de tudo um pouco na vida para usar do que pre­ci­sar”, mas eu esqueci de anotar que era pre­ciso saber uma quan­ti­dade sufi­ci­ente para poder usar. E algu­mas sema­nas depois de cir­cu­la­ção da comu­ni­dade na inter­net, recebo um recado de uma garota cha­mada Lilian. Ela dizia estar com difi­cul­dade em con­ver­ter um arquivo de Page­Maker para PDF e pedia minha ajuda enca­re­ci­da­mente, já que eu me dizia ser tão bom. Pronto!! Agora ajude a menina e mostre que você é capaz. !?%*$# Ai! Ai! Como se faz isso mesmo? Será que um espe­ci­a­lista esque­ce­ria algo tão sim­ples assim? Lembro vaga­mente de ter con­ver­tido uma vez. Des­cul­pas! Des­cul­pas! Acho que é porque deve ter outro pro­grama para isso. É, o Acro­bat. Ih!! Adi­anta não, viu? Devia ter escu­tado o con­se­lho do pes­soal da facul­dade. Bom, hora de esten­der a ban­deira branca.

Me rendi e pedi ajuda a Kárem pelo bate-papo vir­tual. Pia­di­nhas à parte. Eu mere­cia. Onde foi parar toda aquela pre­sun­ção que de repente o deixou inca­paz de resol­ver um sim­ples pro­ble­mi­nha? Pobre Lilian, não ima­gi­nava que o super­do­tado aqui ainda era um mero apren­diz e que seu pro­blema era apenas um reflexo de uma pseu­do­do­mi­na­ção que eu exer­cia sobre o pro­grama. Ten­ta­ti­vas aqui, ten­ta­ti­vas ali. Kárem e eu fica­mos numa inves­ti­ga­ção noite afora para tentar solu­ci­o­nar o apa­rente pro­blema de Lilian, que na ver­dade era nosso também. Nada! Caramba! Como se modi­fica isso? Final­mente achei uma frecha no pró­prio tópico de ajuda do pro­grama. Aliás, encon­trei várias dicas de se con­ver­ter, mas não con­se­guia nenhuma ten­ta­tiva. Bom, minha parte eu tinha feito e quem tinha que con­ver­ter o pro­grama urgen­te­mente era Lilian e não a gente. Enviei todas as dicas que encon­trei para os reca­dos dela no orkut. Deram três reca­dos com­ple­tos. Missão cum­prida. Ou quase.

Toda a difi­cul­dade que encon­trei para solu­ci­o­nar esse pro­blema mexeu com minha segu­rança e me fez ana­li­sar até onde sou mesmo “bom” na dia­gra­ma­ção. A vida é cheia de novi­da­des e vive nos sur­preen­dendo. Talvez por isso tenha me dado essa raba­nada para eu colo­car a cabeça no lugar e enten­der que nin­guém é melhor do que nin­guém, no mínimo se des­taca em algo e só. Na manhã seguinte recebi outro recado de Lilian agra­de­cendo minha aten­ção e infor­mando que havia con­se­guido a tão “difí­cil” con­ver­são do arquivo para PDF. Bom, se foi com minha ajuda eu não sei, mas agora eu serei bem mais cau­te­loso quando lidar com assun­tos que ainda não domino por com­pleto. A comu­ni­dade con­ti­nua lá, mas a res­pon­sa­bi­li­dade da idéia que criei aumen­tou. E muito.

A Nova Postagem

Quando criei o blog do celeiro ima­gi­nei um espaço onde eu pudesse expor todas as minhas idéias sem nenhuma obje­ção. Levan­tar pautas coti­di­a­nas, flashes que pas­sas­sem sobre a minha mente e me ins­pi­ras­sem em mais uma pos­ta­gem. A prin­cí­pio acre­di­tei que ela­bo­rar e orga­ni­zar essas idéias seria algo fácil e de grande prazer. Os comen­tá­rios que rece­bia me dava novo fôlego para con­ti­nuar escre­vendo sem parar. Con­tudo não contei com as cir­cuns­tân­cias do can­saço e da falta de tempo. O blog passou a ficar con­ge­lado em algu­mas pos­ta­gens por mais tempo do que eu ima­gi­nava ou qui­sesse.

As pautas que criei se aglo­me­ra­vam na cader­neta e eu ten­tava em vão lutar contra a cor­ren­teza. Quando pla­ne­java escre­ver algo, outra coisa acon­te­cia e me fazia adiar aquela pos­ta­gem. Agora final­mente havia me deci­dido retor­nar ao ofício, porém des­co­bri que nem tudo eu posso falar no Celeiro. Sempre acre­di­tei que nossa vida é feita de etapas, fases ou até numa lin­gua­gem mais rotei­rís­tica, tem­po­ra­das. E a cada fim dessa jor­nada nos depa­ra­mos com o medo da nova e a sau­dade da antiga. É uma fase de tran­si­ção e mudan­ças, porém feliz, onde a con­fra­ter­ni­za­ção reina e pede mais que carona.

Sempre fui bas­tante reser­vado quanto à demons­tra­ção pública dos meus sen­ti­men­tos. A manter uma fria e dis­tân­cia satis­fa­ção na frente dos outros e a pular e a gritar sozi­nho no quarto. Talvez tenha levado mais que a sério o ditado “ale­gria de pobre dura pouco” e se durasse muito pouco mesmo a decep­ção seria mais fácil se eu não tivesse mani­fes­tado nenhum sen­ti­mento. É uma fuga da desi­lu­são, do sofri­mento. E tomando como par­tida o “pouco” do ditado popu­lar, eu acabei me con­ven­cendo que minha vida seria melhor se eu a divi­disse por curtas fases.

E assim come­cei a enxer­gar meus dias e meus anos. Foi a fase da infân­cia, do ensino fun­da­men­tal no CEDOC lá em São Miguel, do ensino médio no Edu­can­dá­rio em Pau dos Ferros, a fase de Natal e até agora a fase da facul­dade. Dentro de cada fase dessa eu encon­trava outra maneira de dividi-las em etapas meno­res. O 1º e o 2º ano do ensino médio, 1º e o 2º ano em Natal, cada ano da uni­ver­si­dade. E o sim­ples fato do início de um novo ano que eu tomo como o começo de uma nova tem­po­rada. Cada fase tinha que ser curta o sufi­ci­ente para deixar sau­dade até dos piores momen­tos. Base­ado também em um outro dito popu­lar “tudo o que é bom dura pouco”. Assim, não tor­na­ria a vida monó­tona e dei­xa­ria uma trilha de sau­dade pelo cami­nho.

E foi assim que che­guei ao fim de mais uma fase na minha vida. O pro­grama “A Voz da Comu­ni­dade” que fazia ao lado de outros amigos em duas difu­so­ras na cidade chegou ao fim essa semana. Ele seria a nova pauta para o Celeiro, mas dife­rente do fim das nove­las bra­si­lei­ras que sempre buscam a feli­ci­dade dos per­so­na­gens, ele tomou gancho nos finais das tem­po­ra­das de Small­ville dos Esta­dos Unidos, que sempre ter­mi­nam com gran­des desas­tres como tor­na­dos, chuva de mete­oro, aci­den­tes e até um suposto fim do mundo. Des­co­bri que as catás­tro­fes que se aba­la­ram sobre essa minha última fase me impe­di­riam de escre­ver sobre todas as expe­riên­cias que vivi ao longo dela. Ela fugiu do meu con­trole e as mani­fes­ta­ções públi­cas de sen­ti­mento sal­ta­ram com grande ímpeto. Porque se por um lado os bons sen­ti­men­tos con­se­guem ficar guar­da­dos comigo, por outro, os maus me fazem explo­dir diante de qual­quer um.

A paciên­cia que algu­mas vezes con­se­gue reinar no meu peito e na minha cabeça, se trans­forma em um misto de ani­mo­si­dade e fúria diante da injus­tiça e do des­gaste mental. É o vômito de todos os sapos engo­li­dos ao longo do per­curso. Gos­ta­ria de ter feito um belo texto de des­pe­dida de uma grande e impor­tante etapa da vida uni­ver­si­tá­ria, mas o único que posso fazer é lamen­tar o ines­pe­rado e ana­li­sar como um sim­ples fato pode mudar os rumos de toda uma his­tó­ria. É enten­der que nunca encer­ra­mos algo sem antes nos cer­ti­fi­car­mos que ele já não existe mais. Que até o último segundo tudo pode mudar. E como uma tem­po­rada de Small­ville, espero que novos acon­te­ci­men­tos se desen­ro­lem na pró­xima tem­po­rada, con­si­gam resol­ver esses impas­ses e reser­vem novas e sur­preen­den­tes emo­ções, porque a vida não pára e as tem­po­ra­das con­ti­nu­a­rão até quando todos os fãs já as tive­rem aban­do­nado e a audiên­cia não se sus­ten­tar mais no canal.

Discurso de Formatura

Pre­za­dos senho­res, é comum ouvir de nossos pais e pro­fes­so­res que quando man­te­mos um foco no nosso obje­tivo, temos muito mais chan­ces de ser um pro­fis­si­o­nal de sucesso. Acre­dito que seja ver­dade. Talvez por isso uma grave miopia me impe­diu de focar no jor­na­lismo. Nunca sonhei ou ide­a­li­zei essa ceri­mô­nia, como acre­dito que muitos aqui fize­ram. Aliás, nem deve­ria estar aqui, já que devendo o Tra­ba­lho Aca­dê­mico Ori­en­tado, não é esse o ano que me fará jor­na­lista.

A pri­meira vez que olhei para mim diante de um espe­lho e pensei num misto de satis­fa­ção e inse­gu­rança “vou ser jor­na­lista”, foi aos 19 anos, quando recebi o resul­tado de que havia pas­sado no ves­ti­bu­lar. Quatro anos depois olho nova­mente para o espe­lho e mal posso ver um cami­nho atrás das gran­des mon­ta­nhas do mer­cado de tra­ba­lho. O único con­solo que tenho é saber que terei cela espe­cial caso cometa um dia algum crime.

Durante esses quatro anos tive muito tempo para refle­tir se estava no cami­nho certo, se deve­ria ter optado por outra car­reira e che­guei a muitas con­clu­sões. Uma delas é que defi­ni­ti­va­mente correr atrás da notí­cia foi um dos gran­des vaci­los da minha vida. Não tenho o menor talento para a imprensa. Con­tudo, já que estava aqui, iria até o fim, até porque essa expe­riên­cia me ajudou a des­co­brir o teatro, minha ver­da­deira paixão.

Acho que nada saiu como pen­sava ou ima­gi­nava o uni­verso aca­dê­mico. Não teve trote no pri­meiro dia de aula. Que uni­ver­si­dade que se preza dis­pensa um bom trote com os calou­ros? Ao invés disso fomos rece­bi­dos com sal­ga­dos e refri­ge­rante. Já come­ça­mos mal acos­tu­ma­dos. Pri­meira semana sem pro­fes­sor e alguns alunos já desis­tem do curso. Já pensou se todos tives­sem feito o mesmo? Não esta­rí­a­mos agora nesse salão com os nossos pais, amigos e usando trajes finos.

Nossa turma foi um grupo difí­cil de se defi­nir. Aliás, defi­ni­ção era o que mais fal­tava, desde a cor da cami­seta ao nome da placa. E os ânimos também foram bas­tante acir­ra­dos. A cada ano, novas des­co­ber­tas, novos ini­mi­gos e novos amigos, graças a Deus. Dis­pu­tas de poder, de inte­li­gên­cia, de supe­ra­ção. Tem­pe­ra­men­tos fortes e pes­soas intran­si­gen­tes. Ciúmes, inveja, cobiça. Acho que nesses quatro anos fomos leões e gaze­las. Nin­guém esca­pou! Per­se­gui­mos e fomos per­se­gui­dos. Abra­ça­mos e nos apu­nha­la­ram. Apu­nha­la­mos e fomos abra­ça­dos. Não dava mais para saber quem sorria com o cora­ção ou quem sorria com o fígado. Éramos estra­nhos e ínti­mos ao mesmo tempo. Não era maluco?

Porém, sobre­vi­ve­mos e supe­ra­mos todas as desa­ven­ças em busca de uma causa maior, o futuro. Ama­du­re­ce­mos! Apren­de­mos a viver com as dife­ren­ças. Gran­des amigos con­quis­tei, outros aprendi a res­pei­tar, mas todos sairão com pelo menos ‘um’ que ficará pra sempre. Se isso fosse teatro, diria que vive­mos da tra­gé­dia a comé­dia, mas não é teatro, é jor­na­lismo, e assim nada mais vive­mos do que man­che­tes de jor­nais.

Ah, não posso esque­cer dos mes­tres, os nossos gran­des for­ma­do­res. Alguns mere­cem agra­de­ci­men­tos espe­ci­ais. Tão espe­ci­ais, que se eu citasse seus nomes aqui, talvez pudesse até ser pro­ces­sado. Porque apren­de­mos na uni­ver­si­dade que jor­na­lista tem que saber a ver­dade, mas nem sempre pode revelá-la, senão alguém tapa nossa boca. Aqui é igual­mente. Mas cada um sabe na cons­ciên­cia os que mere­cem real­mente o nosso res­peito e aque­les que só se pre­o­cu­pa­vam com seu salá­rio no fim do mês, e às vezes nem isso, porque não apa­re­ciam. Quan­tas cadei­ras inú­teis! Não pelo con­te­údo, mas por quem estava à frente.

Agora esta­mos aqui quatro anos após o pri­meiro encon­tro pres­tes a sermos lan­ça­dos na vida. Os ensi­na­men­tos fica­ram, as con­quis­tas aca­dê­mi­cas iremos levar para o cur­rí­culo, uma baga­gem cul­tu­ral nos torna mais dignos do que pre­ten­de­mos exer­cer, embora um mundo de inse­gu­ran­ças e incer­te­zas ainda nos rodeie. Estou certo de que todos bus­ca­rão o seu melhor para mos­trar na prá­tica aquilo que apren­de­ram na aca­de­mia. Afinal a aca­de­mia da vida é mais dura de vencer. E mesmo aque­les que tri­lha­rem outros rumos leva­rão sempre alguma lição desses anos. Enfim, está tudo só come­çando. Muita estrada a per­cor­rer e um mundo de pos­si­bi­li­da­des ainda por vir.

Queimei a beca!!

Final­mente acon­te­ceu a última sole­ni­dade da con­clu­são do meu curso, a “grande” cola­ção de grau, que ser­vi­ria de fato para a entrega do diploma de gra­du­a­ção, o que não é bem assim na minha uni­ver­si­dade. Bom, como não pode­ria deixar de ser, o grande dia não passou em branco, na ver­dade passou bem pas­sado até demais. Depois de minha colega de turma descer ao som das minhas cola­gens de música no baile de for­ma­tura, e o apre­sen­ta­dor me chamar de Fran­cisca Samuel, eu tinha que marcar esse outro dia de alguma forma. E eis que o mar­quei a ferro quente.

Um dia apa­ren­te­mente normal até então. Fuçava na inter­net até umas 3h da tarde, quando resolvi que era hora de desa­mas­sar a beca da uni­ver­si­dade que havia alu­gado a R$ 5,00. A ceri­mô­nia de cola­ção era dali a 2 horas. Pego então a beca, ligo o ferro, pro­curo a gra­du­a­ção cor­reta do tecido, que na minha cabeça era linho, afinal era uma beca, tinha que ser um tecido bom, e deixo esquen­tar enquanto volto ao com­pu­ta­dor. Alguns minu­tos depois, me lembro do ferro e corro pro quarto, pego o ferro, que a essa hora já estava mais do que na tem­pe­ra­tura cor­reta, e enfio na manga com tudo. Com tudo mesmo, porque quando o reti­rei, a manga veio junto, e o que sobrou foi um buraco em for­mato de tri­ân­gulo na linda beca da uni­ver­si­dade.

É, o estrago estava feito a pouco menos de 2 horas da cola­ção. O que fazer? Ligar pra uni­ver­si­dade e tentar pegar outra beca? Mas num sábado à tarde? Ainda tentei, mas nin­guém aten­deu. E olha que tentei vários núme­ros que encon­trei no site. Nada! Bom, estava deci­dido a não ir mais, quando liguei para minha amiga Ana Célia, que iria colar grau também, con­tando a situ­a­ção. Incen­ti­vado por ela, resolvi ir assim mesmo, afinal o que era um buraco em uma beca no meio de tanta gente ves­tida igual? Peguei linha e agulha e juntei as pontas do buraco, dis­far­çando a sujei­rada. Nessas horas eu agra­deço os vários dias que passei cos­tu­rando as túni­cas dos fan­tas­mas para a peça de Pluft.

O local do evento estava lotado. Eu pen­sando que seria uma ceri­mô­nia sim­ples com os alu­ni­nhos, me deparo com uma grã-finada se exi­bindo com suas becas sem buraco. Bom, tomei fôlego e fui. Fiquei meio que escon­di­di­nho, que­rendo fugir dali. Quanto à ceri­mô­nia se resu­miu ao seguinte: um aglo­me­rado de alunos ves­ti­dos de preto sen­ta­dos num salão enorme com os padri­nhos do lado, ouvindo o vice-reitor, os dire­to­res dos cen­tros aca­dê­mi­cos tece­rem elo­gios à uni­ver­si­dade e um bocado de babo­sei­ras. Me deu fome. Mas num dava nem pra sair e com­prar uma pipo­qui­nha porque todo mundo ia olhar pro meu buraco – no bom sen­tido. Depois de todo o blá blá blá, teve lá o jura­mento, que eu par­ti­cu­lar­mente não estendi a mão e nem jurei nada. Pra quê? Já minto demais na minha vida.

Logo depois come­çou o tal ato da cola­ção de cada centro. Um só aluno subia ao palco em nome de todos, enquanto os outros fica­vam sen­ta­dos espe­rando a vari­nha de condão invi­sí­vel os coroar gra­du­a­dos. Ah!! Palmas, mais blá blá blá e con­fe­tes. Con­fesso que não senti nada de dife­rente depois. De repente, surge uma mulher no meio daquela tinta preta com uma lista e uma caneta na mão: “assine aí seu nome”. Pronto? Me formei? Acabou a tal cola­ção? E pra que diabos a gente tinha que estar ves­tido com essas becas, se nem fomos cha­ma­dos um a um ao palco pra rece­ber o diploma, como deve­ria ter sido? Se era só pra assi­nar uma lista de pre­sença, eu deve­ria ter ido com minha roupa normal e dei­xado aquela beca quei­mada em casa, ou melhor, nem deve­ria ter alu­gado.

Bom, o des­fe­cho dessa his­tó­ria se deu nos dias seguin­tes quando com­prei um outro tecido lá, bem dife­rente do linho, e levei a uma cos­tu­reira pra refa­zer a manga. Ah, e claro, quando se trata de uni­ver­si­dade e fim de curso, tudo tem que com­pli­car um pou­qui­nho mais pra mim. Jus­ta­mente o dia que esco­lhi pra ir à uni­ver­si­dade devol­ver a beca, agora sem buraco, dou de cara com a inter­ven­ção do vigia me impe­dindo de entrar: era feri­ado na uni­ver­si­dade naquele dia, sabe Deus de quê. Então só na semana seguinte con­se­gui devol­ver a beca e dá entrada na pape­lada do diploma, que só tem prazo de ficar pronto em no mínimo três meses.

Menino reconhecido

Há pouco menos de um ano, eu não teria cer­teza se con­clui­ria o meu curso de comu­ni­ca­ção social. Longe da uni­ver­si­dade desde 2008, estava empur­rando a mura­lha da mono­gra­fia com a bar­riga. A meta era sair das 10 pági­nas que fiz em um único feri­ado e que nunca foram revi­sa­das por nenhum ori­en­ta­dor. O tema entre espi­ri­tismo e tele­no­vela me empol­gava, mas não o sufi­ci­ente para escre­ver mais umas 30 pági­nas. Um desa­fio maior ainda surgiu quando em março desse ano, Ana Célia e Kárem resol­ve­ram me chamar para inte­grar o time na pro­du­ção de um vide­o­do­cu­men­tá­rio. O obje­tivo era entre­gar o tra­ba­lho até o mês de julho a tempo de con­cluir­mos o curso no meio do ano. Acei­tei o desa­fio. Afinal filmar era bem melhor do que escre­ver pági­nas de um tra­ba­lho que já estava fadado ao fra­casso antes mesmo de come­çar.

Um artista plás­tico auto­di­data da cidade de Sumé era o tema do nosso vídeo. Miguel Gui­lherme deixou uma incrí­vel obra de toda sua his­tó­ria de pintor, escul­tor, músico, poeta e tea­tró­logo. Era sem dúvida nenhuma um grande artista. Mas com o tempo nas costas, só me pre­o­cu­pava em encon­trar os entre­vis­ta­dos, filmar as obras, o seu museu, e correr de um lado ao outro, foto­gra­fando, pro­du­zindo ofí­cios e fazendo alguns con­ta­tos. Real­mente foi um tra­ba­lho árduo, e eu tinha cons­ciên­cia que seria, se qui­sés­se­mos algo com o mínimo pos­sí­vel de qua­li­dade, ou então seria muito fácil fazer qual­quer coisa. Via­ja­mos, lemos, nos apro­fun­da­mos a cada dia. Tentei brin­car com o Pre­mi­ere, mas ele não quis assunto comigo. Então parti para o Vegas. Noites de dor de cabeça e muito moto-táxi edi­tando os 15 minu­tos do docu­men­tá­rio.

Com o prazo esgo­tado, con­se­gui­mos apre­sen­tar o tra­ba­lho e garan­ti­mos não só a nota máxima, como a con­clu­são do curso supe­rior. Ale­luia! Mesmo não sendo a gra­du­a­ção dos sonhos, era gra­ti­fi­cante saber que aque­les anos puxa­dos à car­roça dei­xa­riam algum mérito agora. Final­mente pude apre­ciar a obra de Miguel Gui­lherme sem me pre­o­cu­par com tempo, câmera ou entre­vis­tas. Agora sim­ples­mente podia tomar cons­ciên­cia do grande gênio que a Para­íba pos­suiu. E Ana Célia foi mais adi­ante. Resol­veu ins­cre­ver nosso vídeo no Fest Aru­anda, o fes­ti­val de cinema de João Pessoa. Ins­crito no último dia, fiquei feliz em saber que ele havia sido sele­ci­o­nado. Só o fato de estar sendo exi­bido a pes­soas de diver­sos esta­dos já seria uma maneira de pro­mo­ver o acervo tão esque­cido de Gui­lherme. Ganhar algum prêmio seria pedir até demais. Era só um vídeo de con­clu­são de curso. Toda­via, o nosso vide­o­do­cu­men­tá­rio Menino Artí­fice ganhou na cate­go­ria de melhor docu­men­tá­rio parai­bano e na vota­ção do júri popu­lar também. Posso pensar que fize­mos um tra­ba­lho pro­fis­si­o­nal o bas­tante para tal reco­nhe­ci­mento, mas acre­dito que dentre as falhas de ini­ci­an­tes no uni­verso audi­o­vi­sual, o tema esco­lhido e sua rele­vân­cia no cená­rio parai­bano e naci­o­nal foi o grande des­ta­que e o ver­da­deiro ven­ce­dor desse prêmio. Mais um reco­nhe­ci­mento pelo esforço e dedi­ca­ção, Miguel.

O papel do papel

O papel em minhas mãos. Seis anos após colo­car os pés pela pri­meira vez na rei­to­ria da Uni­ver­si­dade Esta­dual da Para­íba, senti que seria a última vez ali. O curso durou quatro anos, meu dilema com a mono­gra­fia mais um e meio e eis que final­mente recebo em mãos aquele papel que vai me garan­tir ter con­clu­ído um curso supe­rior. No papel a rei­tora me con­fere o título de bacha­rel em comu­ni­ca­ção social e outorga-me o pre­sente diploma, a fim de que eu possa gozar de todos os direi­tos e prer­ro­ga­ti­vas legais. Folha boni­ti­nha, assi­na­tura da rei­tora e da pró-rei­tora de gra­du­a­ção, um espaço para eu assi­nar meu nome (de caneta preta), como enfa­ti­zou a senhora res­pon­sá­vel que me entre­gou o diploma, e ainda me adver­tiu que não se “emplas­ti­fica” diploma, caso eu qui­sesse passar na pri­meira xerox, emol­du­rar e pen­du­rar na parede do meu apar­ta­mento como um troféu. E olha que diploma de jor­na­lista já teve seus dias de mais valor.

Che­guei em casa, tro­quei de roupa, fiz um suco de polpa de pinha, tomei dois copos, entrei na inter­net e só aí me lem­brei que tinha de reti­rar o diploma da mochila e guar­dar. Abri o enve­lope, que tinha se amas­sado um pouco dentro da mochila, reti­rei o diploma, colo­quei-o sobre a cama e fiquei olhando aquele papel. Ana­li­sei cada deta­lhe. Não como um for­mando estu­pi­di­fi­cado, mas com uma mente que voa além daquela página e pro­cura enten­der a lógica e a mágica pre­sente nas entre­li­nhas daquela folha. No centro lá no alto, o brasão da Repú­blica Fede­ra­tiva do Brasil, logo abaixo o nome da uni­ver­si­dade e o nome “diploma” quase que dese­nhado à mão; meu nome, minha data de nas­ci­mento, meu RG, a cidade onde nasci e as pala­vras “bacha­rel” e “comu­ni­ca­ção social” em mai­ús­cu­las e em negrito. Abaixo das assi­na­tu­ras, o brasão do estado da Para­íba e o logo da UEPB. Ah, e atrás ainda havia uns seli­nhos garan­tindo que o curso era reco­nhe­cido pelo decreto fede­ral 82673 e a assi­na­tura do chefe do setor.

Hones­ta­mente, o que eu faço com isso? Onde coloco? Mando plas­ti­fi­car só de pir­raça com a senhora? Guardo numa gaveta, num livro? Pen­duro no espe­lho do banheiro? Talvez con­ti­nue dentro do enve­lope. O bom vai ser não ter amné­sia de onde colo­quei quando um dia o pro­cu­rar. De fato, esse papel não passa de mais uma folha em meio a tanto pape­lada que cruza nossa vida. Não des­me­re­cendo o curso e a pro­fis­são de nin­guém. Mas o que esse papel atesta além de dizer que somos for­ma­dos em tal curso e uni­ver­si­dade “a” ou “b”? Nada. Pode­mos adqui­rir muitos na vida, fazer cole­ções de diploma. Se não desem­pe­nhar­mos bem a nossa função, o banheiro é um des­tino melhor para esses papéis. Não somos o diploma. Somos o que apren­de­mos e des­co­bri­mos ao longo da cami­nhada. No papel pode­mos ser o doutor em enge­nha­ria da bio­fí­sica nuclear, mas se na prá­tica não cor­res­pon­der­mos ao que está escrito, já era. Do mesmo modo, outros não neces­si­tam de títu­los para se des­ta­car.

A grande ques­tão que quero enfa­ti­zar é o amor e a dedi­ca­ção de cada um com o ofício que foi tomado como seu. Se há ver­dade, se há paixão, com cer­teza será um pro­fis­si­o­nal além da folha de papel. Caso con­trá­rio, pas­sará a vida em busca de mais títu­los que o tornem o que jamais será. Como escuto cons­tan­te­mente dos meus dire­to­res de teatro, não basta inter­pre­tar, tem que acre­di­tar. No meu caso, que nunca tentei nem inter­pre­tar um jor­na­lista o que dirá acre­di­tar ser um, a situ­a­ção se com­plica um pouco. Se con­ti­nuar seguindo a onda peri­cu­losa da imprensa na ten­ta­tiva de ser o grande repór­ter, tra­çando mais títu­los que um recor­dista olím­pico no intuito de me fazer crer nessa ver­dade, não dará certo nunca. Porque não serei um bom jor­na­lista nem aqui, nem na lua. Aliás, pre­fe­ri­ria estar lá, explo­rando o uni­verso, se tivesse estu­dado pra ser um astro­nauta, ou cos­mo­nauta, quem pre­fe­rir dar cré­dito aos russos. Gosto de escre­ver, não há dúvida. Mas como diria Lepo­relo, o “fiel” escu­deiro de Don Juan, que com seu dimi­nuto bom senso e seu parco enten­di­mento ver as coisas melhor do que todos, sei que me falta a desen­vol­tura essen­cial para um bom jor­na­lista, e per­cebo que o que escrevo está mais pró­ximo de Rubem Braga e Manoel Carlos do que de Heraldo Pereira ou José Mar­ques de Melo. Por­tanto, vou guar­dar meu diploma, na espe­rança de um dia poder fazer uso dele. Não com a habi­li­ta­ção em jor­na­lismo, mas como bacha­rel em comu­ni­ca­ção que me per­mite escre­ver rios sem fim de ima­gi­na­ção.

Tema Fragmentos 09 textos

Fragmentos

Colégio. Interior. Dia.

Matheus, Elisa e Ryan cami­nham con­ver­sando pelos cor­re­do­res.

Matheus — Crise de iden­ti­dade?

Elisa — É sério! Acho que eu tô pas­sando pela ter­rí­vel fase da típica ado­les­cente rebelde.

Ryan — Por que acha isso, Elisa?

Elisa — Ah, eu não con­sigo mais dá conta de nada. Não con­se­gui ter­mi­nar as ati­vi­da­des de classe, meu pai me deu bronca por chegar tarde em casa e eu não con­sigo nem chegar perto da sala do jornal.

Ryan — É, real­mente essa não é a Elisa que a gente conhece.

Matheus — Já pensou que isso pode ser estresse? Você tem se dedi­cado muito às ati­vi­da­des esco­la­res e tido pouco tempo pra se dis­trair. Talvez uma semana na praia pudesse tirar essa sua agi­ta­ção.

Elisa — Ai, era tudo o que eu queria agora. Mas viajar para o lito­ral agora na reta final seria sui­cí­dio.

Ryan — Bom, você pode usar minis­saia preta e entrar pra banda.

Eles param de andar e olham os inte­gran­tes da banda “dark free­dom” dando autó­gra­fos a algu­mas meni­nas mais adi­ante.

Elisa — Num sei o que esses caras têm. Vestem preto, usam um monte de biju­te­rias pelo corpo e fazem o maior sucesso pelo colé­gio.

Ryan — O estilo deles é legal! E abri­ram agora mais uma vaga pra um novo inte­grante.

Elisa — Eles vivem abrindo vagas. Essa é bem a quinta só nesse ano.

Ryan — É a sétima! (Matheus e Elisa o olham) É que eu me can­di­da­tei nas duas últi­mas vezes, mas não con­se­gui entrar.

Matheus — Você, Ryan, usando preto e can­tando lou­cu­ras?

Ryan — Foi depois que a Marie foi embora. Eu me senti um pouco aban­do­nado e achei que a banda podia me ajudar.

Elisa — É, muda­riam com cer­teza o seu nome pra algum fenô­meno da natu­reza.

Ryan — Eu não acho isso tão ruim. Eu podia me chamar Vulcão. (ri)

Matheus (ri) — Por que o último que entra nunca passa muito tempo na banda?

Ryan — Num sei. Vai ver não se adapta ao estilo. Me parece que o Mete­oro não curtia muito a banda.

Elisa (repreen­dendo) — O Eric você quer dizer! Pois pra mim ele era fis­su­rado na banda. O que será que acon­te­ceu com ele?

Ryan — Parece que voltou pra capi­tal.

Elisa — Curi­oso! A gente nunca fica sabendo o que acon­tece com os inte­gran­tes da banda após saírem. Parece que eva­po­ram!

Os cinco inte­gran­tes da banda se apro­xi­mam deles. O líder Tor­nado olha para Matheus.

Tornado — E aí, Matheus, tudo tran­quilo? Num tá a fim de fazer parte da banda, não? Abriu uma vaga.

Matheus — Obri­gado, mas não faz o meu estilo.

Tornado (rindo) — Ah, saquei! O seu estilo seria mais “Cai­pi­ras Free­dom”, né? Mas quando quiser fugir da vidi­nha que leva, é só pro­cu­rar a gente. Vamos tá por aí. Vamos nessa! (os inte­gran­tes saem)

Elisa — “Vidi­nha”? (sorri) É melhor eu voltar pro jornal.

Ryan — Não estava insu­por­tá­vel pisar lá?

Elisa — É, mas essa banda me ins­ti­gou a escre­ver de novo. Ela é uma ver­da­deira oli­gar­quia aqui dentro do colé­gio. Eu pre­ciso fazer uma maté­ria!

Matheus — Que bom que ainda tem pes­soas nor­mais aqui nessa escola.

Saem rindo.

Fragmentos

Colégio. Interior. Dia.

Ander­son passa apres­sado pelos cor­re­do­res com livros nas mãos. Cíntia o vê e corre atrás dele.

Cíntia — Ander­son! Ander­son! (acom­pa­nha-o)

Anderson — Eu tô apres­sado, Cíntia. Tenho dois testes pra apli­car e ainda tenho que passar na secre­ta­ria.

Cíntia — Eu só queria saber por que você não me pro­cu­rou mais.

Anderson — Eu ando com muito tra­ba­lho acu­mu­lado.

Cíntia — Cus­tava dá um tele­fo­nema? Ontem eu passei horas ten­tando ligar pro seu celu­lar, mas só dava caixa postal. E na sua casa a empre­gada podia ser mais dis­creta e não dizer “eu vou saber se ele está em casa” toda vez que eu ligava.

Anderson (pára de andar e a olha) — Tudo bem. O que é que você quer, Cíntia?

Cíntia — Aten­ção! Cari­nho! Eu sou sua namo­rada, Ander­son. Eu pre­ciso disso! Ulti­ma­mente parece que você não me enxerga mais. Eu que fico te pro­cu­rando, insis­tindo sempre com você pra gente sair, se diver­tir. Mas você parece que não per­cebe isso ou força a barra pra não per­ce­ber. Até nos espor­tes você vai e não me chama mais. Você está me dei­xando de lado aos poucos.

Anderson — É que eu tenho andado cheio de pro­ble­mas e eu tenho estado um pouco con­fuso.

Cíntia — E por que não se abre comigo? Meu Deus, pra que a gente está namo­rando então, se um não serve pra escu­tar os pro­ble­mas do outro? Eu tô aqui, Ander­son! Poxa! Esse seu afas­ta­mento não tá sendo bom pra nin­guém. Você sabe há quanto tempo nós não faze­mos... ‘sexo’? (olha para os lados)

Anderson (a olha) — Tá! Eu vou tentar não me dis­tan­ciar tanto. Você quer sair hoje pra jantar?

Cíntia — É, pode ser um bom começo.

Anderson — Então tá. A gente sai à noite. Agora eu tenho que ir. (sai)

Cíntia — Ander­son! (ele olha) Meu beijo!

Anderson — Hã!

Ele olha de lado, volta, dá um seli­nho nela e sai.

Fragmentos

Colégio. Interior. Dia. Gabinete do diretor.

Julio tra­ba­lha em seu com­pu­ta­dor à mesa. Batem à Porta.

Julio — Entre!

Elisa (abre a porta) — Licença, dire­tor! Eu posso falar um minuto com o senhor?

Julio (debo­chado) — Outro aluno? Se eu for parar meu dia pra aten­der aluno, eu não faço mais nada aqui hoje. Estou mais soli­ci­tado do que pre­feito em dia de posse.

Elisa — É... É rápido! Eu só quero trocar umas idéias.

Julio — “Trocar umas idéias”? Claro! Entra!

Elisa Fecha A Porta E Senta — SE DIANTE DELE.

Elisa (tensa) — Licença!

Julio (encosta-se na pol­trona e olha para ela) — Então?

Elisa — É sobre o jornal do colé­gio.

Julio — Hum!

Elisa — Eu fui até lá e a sala estava fechada. Não tinha com­pu­ta­dor, mesa, nada.

Julio (sur­preso) — Você abriu a sala?

Elisa (con­fusa) — Abri!

Julio (curi­oso) — Como?

Elisa — Ah, é que eu guar­dei uma cópia da chave da época em que eu tra­ba­lhei lá.

Julio (debo­chado) — Ah, então você deve ser Elisa Medei­ros.

Elisa (sorri) — Sim! Sou eu! O Afonso falou ao senhor sobre mim?

Julio — Não, Elisa! Eu nem che­guei a con­ver­sar com o Afonso. Eu li o seu his­tó­rico do jornal.

Elisa (rindo) — Foi? E o senhor gostou?

Julio — O que você per­gunta se eu gostei? Eu acre­dito que eu tenho uma cópia do rela­tó­rio aqui. (pro­cura em algu­mas gave­tas) Você mesma pode con­fe­rir.

Elisa olha desa­pon­tada. Julio encon­tra o rela­tó­rio E folheia.

Julio — Aqui! Veja­mos! Parece que você tinha um gosto sin­gu­lar por maté­rias bas­tante sen­sa­ci­o­na­lis­tas, não é? Por três vezes as suas repor­ta­gens cau­sa­ram um tumulto no colé­gio.

Elisa — Mas eu só expus a ver­dade!

Julio — Algu­mas ver­da­des devem per­ma­ne­cer enter­ra­das. Você não con­corda, Elisa? Bom, con­ti­nu­ando o seu his­tó­rico, ele alega aqui aban­dono de posto perto do final do ano pas­sado.

Elisa — Não! Eu não aban­do­nei o jornal! Eu estava um pouco aba­lada com... (olha para ele) É...

Julio (com um sor­riso sar­cás­tico) — O seu sen­sa­ci­o­na­lismo, não é?

Elisa (o olha atô­nita) — Mas o Matheus ficou lá no meu lugar!

Julio — Sei! O Matheus que diz aqui que também deixou o jornal várias vezes na mão. É lamen­tá­vel!

Elisa (pre­o­cu­pada) — O que o senhor vai fazer?

Julio — O jornal está fechado até que apa­reça um outro repór­ter inte­res­sado em assu­mir o cargo. Alguém que veja o jornal apenas como um meio de divul­gar as ati­vi­da­des esco­la­res e como veí­culo de res­pon­sa­bi­li­dade social, não como cen­tral de fofo­cas e intri­gas pelo colé­gio. Fui claro, senho­rita Medei­ros?

Elisa con­firma sub­missa com A cabeça, se levanta E vai saindo.

Julio — Elisa! (ela olha) A cópia da chave, por favor!

Ela abre A bolsa, pega A chave E entrega A Julio.

Julio (sar­cás­tico) — Obri­gado! Pode ir!

Ela o olha indig­nada E sai. Ele sus­pira E volta ao com­pu­ta­dor.

Fragmentos

Teatro municipal. Interior. Noite

Uma expo­si­ção de peças anti­gas de lin­coln é a atra­ção da noite. Muitos curi­o­sos cir­cu­lam. Matheus entra um pouco sem jeito e olha a movi­men­ta­ção. Moisés o vê e vai até ele.

Moisés — Matheus, que bom que acei­tou o meu con­vite.

Matheus — Pois é. Não se tem muita alter­na­tiva num sábado à noite em Pouso Belo.

Moisés — Tenho cer­teza que vai adorar a expo­si­ção. Já viu a cole­ção de moedas do século XVIII?

Matheus — Ainda não.

Moisés — Ao fim daquele cor­re­dor. Cada gale­ria que passar vai se sur­preen­der com o que irá encon­trar. Veja! (aponta) Aquela indu­men­tá­ria ali per­ten­ceu ao Duque de Orlé­ans, quando assu­miu o trono da França depois da morte de Luís XIV. Meu pai fez ques­tão de con­se­guir a peça ori­gi­nal.

Matheus — Tem muita coisa cara aqui.

Moisés — Cara e ‘rara’! Se ainda con­se­guir res­pi­rar até o fim da expo­si­ção, eu te mostro a carta que Napo­leão entre­gou a Edmond Dantes na ilha de Elba.

Matheus — Não é só um romance de Ale­xan­dre Dumas?

Moisés (sorri) — É! Mas meu pai gosta de viver a fan­ta­sia.

Mila, Matt, bia e oscar passam sor­rindo e olhando as peças. Matheus olha sur­preso e Moisés per­cebe.

Matheus — Eu não sabia que eles esta­riam aqui.

Moisés (com ar sor­ri­dente) — É! Eu os con­vi­dei. Des­culpe, não sabia que ele viria também.

Matheus — Hã?... Não! Eu não me importo com a pre­sença do Matt.

Moisés — Mesmo?

Matheus — A gente é amigo agora.

Moisés — Olha! Que novi­dade!

Mila vê Matheus, sorri, mostra a Matt e eles se apro­xi­mam.

Mila — Matheus, eu não sabia que vinha. Tudo bom?

Matheus — Tudo! Oi, Matt!

Matt — E aí, Matheus? (olha para moisés) Moisés!

Moisés — Olá, meu jovem! Cur­tindo a noite?

Matt — Muito. Seu pai tem uma bela cole­ção.

Moisés — Não diga isso a ele. (sorri)

Mila — E então? Aonde você vai depois daqui?

Matheus — Pro­va­vel­mente pegar a estrada e voltar pra casa.

Mila — Nós vamos jantar no Gibral­tar. Eles têm um exce­lente car­dá­pio de frutos do mar. O risoto de cama­rão é uma delí­cia. Você não quer vim com a gente?

Matheus (des­lo­cado) — Não! Eu pre­ciso voltar. Mas obri­gado pelo con­vite.

Mila — Ah, que pena!

Bia e oscar seguem por outra gale­ria e bia acena para eles.

Matt — A Bia tá cha­mando.

Mila — É! A gente vai estar por aqui. Apa­rece antes de ir embora.

Matheus — Certo!

Mila — Até mais, Moisés.

Moisés — Fiquem à von­tade.

Mila e Matt saem. Matheus olha sem jeito. Moisés per­cebe e sorri.

Moisés — O que foi, Matheus? Pensei que tinha dito que não se impor­tava com a pre­sença deles.

Matheus — Eu pre­ciso tomar um ar. (sai)

Fragmentos

Casa de Ryan. Interior. Dia.

Elisa cami­nha pelo cor­re­dor.

Elisa — Ryan! Ryan, eu tô entrando! Olha, é meio cons­tran­ge­dor vim aqui depois do que acon­te­ceu, mas eu não sou mulher de fugir. Como você nunca vai à minha casa, eu achei que queria algo impor­tante. Então eu... ô Ryan!

Ela entra no quarto dele e não o vê. Escuta baru­lho de chu­veiro vindo do banheiro do quarto.

Elisa (sorri) — Ah!! Tomando banho? Eu sempre duvi­dei da jus­tiça, mas num é que às vezes ela acon­tece.

Ela cami­nha até o banheiro, abre a porta e vê uma sombra atrás da cor­tina.

Elisa — É, é isso aí. (sorri)

Ela puxa a cor­tina e encon­tra outro rapaz tomando banho. Os dois gritam.

Elisa — Ahh!!

Charles — Ahh!!

Elisa sai cor­rendo e encon­tra Ryan entrando no quarto.

Ryan (sur­preso) — Elisa! O que você tá fazendo aqui?

Elisa — O que ‘você’ tá fazendo aqui fora? Quem é ele?

Ryan — Ele quem?

Char­les sai do banheiro enro­lado na toalha.

Ryan — Char­les!?

Charles — Ryan, quando disse que eu podia usar o seu banheiro eu pensei que teria pri­va­ci­dade.

Ryan (con­fuso) — Bom... e você tem.

Charles — Tinha! Até a sua namo­ra­di­nha inva­dir o box.

Elisa (enver­go­nhada) — Oh!

Ryan — Elisa!?

Charles — Bom, na ver­dade eu acho que ela estava pro­cu­rando você. Sabe, eu também curto esses rela­ci­o­na­men­tos moder­nos, mas será que ela não podia espe­rar você tomar banho pra te agar­rar?

Elisa — Oh, oh, oh, espera aí.

Ryan — Ela não é minha namo­rada.

Charles — Não? (ri) Então ela tem uma que­di­nha muito forte por homem nu.

Elisa — Ei, vamos com calma. Olha só, eu não sei quem você é e você não sabe quem eu sou. Por­tanto, vamos limi­tar as nossas con­ver­sas e deixar de inti­mi­dade.

Charles (riso­nho) — Con­cordo!

Elisa (tensa) — Ótimo!

Ryan — Elisa, o que veio fazer aqui?

Elisa — Bom, apesar de você ter ido lá em casa e inva­dido a minha pri­va­ci­dade sem o meu con­sen­ti­mento, eu pensei que você queria algo impor­tante.

Ryan — Bom, sim, é que eu queria usar o seu com­pu­ta­dor, o meu foi pro con­serto.

Elisa — Era só isso? Então já vi que perdi meu tempo e o seu também. Meu com­pu­ta­dor tá com vírus.

Ryan — O quê!

Elisa — Eu já falei com o Afonso, mas acho que ele não tá que­rendo des­co­lar a verba. Lamento!

Ryan — É, já vi que vou ter que limpar a des­pensa de novo.

Charles — Eu posso dá uma olhada no seu com­pu­ta­dor.

Elisa (irô­nica) — Foi comigo?

Charles — Eu passei seis anos em São Paulo dedi­cado à infor­má­tica. Os pcs são minha vida! Acho que con­sigo remo­ver um sim­ples viru­zi­nho. (sorri debo­chado)

Elisa (irô­nica) — Uau!

Ryan — Por que nunca me contou isso, Char­les? Você podia ter con­ser­tado meu laptop.

Charles — Você nunca me per­gun­tou, Ryan.

Elisa — É, tô impres­si­o­nada.

Charles (riso­nho) — Eu sei, é que eu tenho outras qua­li­da­des além da beleza.

Elisa (riso­nha) — E da modés­tia, claro!

Charles — Olha, eu sei que come­ça­mos com o pé esquerdo, mas eu acho que ainda pode­rí­a­mos nos dar super­bem. Você não acha?

Elisa olha para Ryan e para Char­les.

Charles (estende a mão) — Char­les Mou­ti­nho. Primo do Ryan.

Elisa (aperta a mão de char­les) — Elisa Medei­ros!

Fragmentos

Colégio. Interior. Dia. Sala dos professores.

Apenas Ander­son e Cíntia se encon­tram dis­cu­tindo enquanto Gorete ter­mina De reti­rar as xíca­ras da mesa.

Anderson — Por que você não me contou?

Cíntia — Contar o quê? Eu fui pega de sur­presa tanto quanto você.

Gorete Observa De Rabo — DE-OLHO.

Anderson — Ele disse que esta­vam juntos. Que deci­di­ram isso em comum acordo.

Cíntia (se exalta) — Não! Não é ver­dade! Ele tomou essa deci­são sozi­nho!

Gorete der­ruba uma xícara sem querer e Ander­son a olha. Ela fica ini­bida, pega as ban­de­jas e sai da sala. Ele se volta para Cíntia.

Anderson — Você quer me dizer que nunca con­ver­sa­ram sobre isso?

Cíntia — Não!... Quer dizer, outro dia ele me falou a res­peito disso, mas era apenas uma hipó­tese. Havia um “se”, e eu não con­cor­dei em nada com ele.

Anderson — Pra cima de mim, Cíntia? Eu já te vi várias vezes con­ver­sando sabe lá o quê com o Julio pelos cantos do colé­gio.

Cíntia — Ele que sempre me pro­cura pra con­ver­sar asnei­ras.

Anderson — Uma dessas asnei­ras acabou a levando para o cargo de vice-dire­tora do colé­gio.

Cíntia — Olha, quer saber? Eu nem sei se vou assu­mir esse cargo.

Anderson — Por que não? Só falta agora dizer que não está feliz. Você sempre alme­jou esse posto, Cíntia. Por favor, não humi­lhe a minha inte­li­gên­cia!

Cíntia — É, eu sempre quis chegar aí sim, mas não dessa forma.

Anderson — Que forma? Não foram os seus méri­tos que a leva­ram a isso? Ou será que tem algo mais que eu não tô sabendo?

Cíntia — Não tem nada, Ander­son! Nada! Eu te amo e pre­firo você a assu­mir qual­quer cargo com des­con­fi­an­ças e men­ti­ras. Por favor, (põe as mãos no rosto dele) não duvida da minha leal­dade! Não per­cebe que é isso que o Julio quer? Que bri­gue­mos!

Anderson — Eu pre­ciso pensar, Cíntia!

Ele sai da sala.

Fragmentos

Casa de Moisés. Interior. Dia.

Moisés sen­tado no sofá do escri­tó­rio escuta impa­ci­ente o dis­curso de Lin­coln em volta dele.

Lincoln — Então você me enga­nou todo esse tempo? Como você teve cora­gem, Moisés?

Moisés — O senhor me pre­sen­teou as caver­nas.

Lincoln — Sim, mas eu não sabia da exis­tên­cia de pedras de dia­mante lá dentro. E você tinha a obri­ga­ção de me contar isso!

Moisés — Pra quê? Pra ficar com os dia­man­tes pro senhor? Além do mais a porção das nossas terras é limi­tada e está quase se esgo­tando. A maior reserva está na pro­pri­e­dade dos Torres.

Lincoln — Por isso a ami­zade com o Matheus. Eu sabia! Você não cons­trói ami­za­des sem um inte­resse por trás. É bom tomar cui­dado, Moisés! Desse jeito você vai acabar sozi­nho. Sem amigos, sem nin­guém.

Moisés (levanta-se) — Olha quem fala! Quando foi que o senhor teve a casa cheia de amigos sem nenhum inte­resse finan­ceiro, hein? Eu cresci ouvindo os seus dis­cur­sos hedo­nis­tas, o seu ceti­cismo vulgar e a sua má-fé na bon­dade alheia.

Lincoln — Ora, Moisés, não venha jogar a sua falta de sorte nos negó­cios em cima de mim. Você sim, é o único res­pon­sá­vel por tudo que está lhe acon­te­cendo. Se tivesse feito um tra­ba­lho mais bem ela­bo­rado, seu amigo Matheus não teria des­co­berto nunca o seu esquema. A culpa é toda sua!

Moisés (irô­nico) — É, acho que deve ser minha mesmo. O senhor não me ensi­nou o sufi­ci­ente, né?

Lincoln — Por que con­ti­nua a pro­cu­rar um cul­pado quando na ver­dade basta se olhar no espe­lho?

Moisés — Tem razão! Não posso ficar aqui lamen­tando o ocor­rido. (vai saindo)

Lincoln — Aonde vai?

Moisés — Vou lutar pelo meu ouro antes que aque­les esga­na­dos caiam em cima.

Lincoln — Que seu ouro! Aquele dia­mante não lhe per­tence!

Moisés sai.

Fragmentos

Acampamento. Exterior. Dia.

Elisa se afasta um pouco das bar­ra­cas e cami­nha entre algu­mas árvo­res. Ela apro­veita a luz do sol para tirar algu­mas foto­gra­fias. Sócra­tes se apro­xima e a observa.

Sócrates (sor­rindo) — O para­íso foto­gra­fando o para­íso.

Elisa (ri e o olha) — Que can­tada ridí­cula! Olha, com essa eu posso até dizer que você ganhou o troféu das piores can­ta­das dos últi­mos seis meses.

Sócrates — Pelo menos eu ganhei alguma coisa. (sorri) Ah, cola­bora, gati­nha! Eu não sei impro­vi­sar.

Elisa — Jura? Achei que Sócra­tes Mello sou­besse mais do que afogar os com­pa­nhei­ros no rio.

Sócrates — Olha, eu sei que você ficou com uma má impres­são a meu res­peito, mas eu gos­ta­ria de mudar isso.

Elisa — Sei! Deixa ver se eu adi­vi­nho. Pra mudar você me propõe um beijo e meia hora de sarro atrás de alguma árvore. Ah, pega outra, Sócra­tes!

Sócrates — Não, gati­nha! Não é nada disso. Eu tô a fim mesmo de você. Ainda não per­ce­beu? Eu tô amar­ra­dão!

Elisa — Diz isso pra todas as garo­tas?

Sócrates — Você é difí­cil, hein?

Elisa — Eu? Ima­gina! É que você real­mente não faz o meu estilo.

Sócrates — E qual seria o seu estilo?

Elisa — Vai por mim. Não iria querer saber.

Sócra­tes sorri. Ana chega e olha des­con­fi­ada.

Ana — Sócra­tes! O que faz aí? Vão come­çar a trilha. Vem!

Elisa (sor­rindo) — Vai com ela. Garanto que ela tem bem mais chance de te dar o que você pro­cura.

Sócrates — Eu ainda volto.

Elisa — Acha que esta­rei aqui?

Sócra­tes sorri e se apro­xima de Ana. Elisa observa.

Ana (enciu­mada) — O que ela queria com você?

Sócrates — Nada! Ela só me pediu umas dicas de foto­gra­fia.

Ana — E desde quando você entende disso? Eu já te falei que eu não quero você de gra­ci­nha com aquela César Tralli de saias. (bate de leve no ombro dele)

Sócrates — Para! Não bate!

Elisa sorri e volta a foto­gra­far.

Bem antes do útero

E naquela tarde, Pablo cruza com Mar­celo na entrada do Pavi­lhão da Reen­car­na­ção.

– Oi! Você por aqui... Vai reen­car­nar também? – per­gunta Pablo.

– Não. Vim só pegar alguns dados do pla­ne­ja­mento do meu primo – res­ponde Mar­celo.

– Ah, tá. Tenho te visto pouco aqui. O que anda fazendo? Ainda ajuda na pro­du­ção do setor de ali­men­tos?

– Só meio expe­di­ente. Sou con­cur­sando agora.

– Como?

– Estudo pra con­curso público. Minha turma tem mais de cem alunos. Não viu os out­do­ors? É aquele Apro­va­ção Master com os pro­fes­so­res que che­ga­ram da Colô­nia Bom Jesus do Sucesso.

– Não, eu nem sabia que havia con­curso aqui no astral.

– Não. Não há.

– Então...

– É que pre­tendo pres­tar con­curso pra ana­lista da Receita Fede­ral em 2035 no Brasil. Os pro­fes­so­res con­se­gui­ram ter acesso à maior parte dos con­te­ú­dos que pro­va­vel­mente irão cair nessa época e nos pas­sa­ram.

– Nossa! Mas tá um pouco adi­an­tada essa sua pre­pa­ra­ção, não? E se você resol­ver seguir outra pro­fis­são quando encar­nar?

– Não, não tá não. Minha futura tia se pre­pa­rou com duas encar­na­ções de ante­ce­dên­cia pra ana­lista do senado. Dom Pedro Segundo ainda gover­nava o Brasil e ela já estu­dava aqui numa turma inten­siva pra esse cargo. E eu já pla­ne­jei tudo. Com os conhe­ci­men­tos que já obtive aqui, pro­va­vel­mente eu con­sigo ter­mi­nar o ensino médio com 14 ou 15 anos. Faço facul­dade de eco­no­mia ou admi­nis­tra­ção – porque não tenho muita afi­ni­dade com direito -, para­le­la­mente a um bom curso pre­pa­ra­tó­rio, e em seguida presto o con­curso. Se eu tiver sorte, passo no pri­meiro.

– Com toda essa pre­pa­ra­ção, é impos­sí­vel não passar.

– Não é garan­tido. Só na minha sala tem uns qua­renta que querem o mesmo cargo que eu. E a ten­dên­cia é a con­cor­rên­cia ficar cada vez maior. Mas eu tô me pre­pa­rando, se não for no pri­meiro, tento o segundo, o ter­ceiro... E você? O que pre­tende ser dessa vez?

– Ah... bom... Eu tô me pla­ne­jando pra fazer filo­so­fia, que é uma ciên­cia que tenho inte­resse.

– Eu não acon­se­lho o setor pri­vado. Ele é até bom pra quem tem deter­mi­na­ção, mas os resul­ta­dos são a longo prazo, você só começa a ganhar bem lá pelos qua­renta, e ainda assim pode ir pra rua a qual­quer hora. No ser­viço público além da esta­bi­li­dade, você tem a chance de ganhar bem antes dos vinte e cinco. A gera­ção que anda reen­car­nando agora tá toda focada nos con­cur­sos. Se eu fosse você inves­tia também. Bom, deixe eu ir. Minha aula começa em uma hora. Sucesso pra você.

Mar­celo sai. Pablo pensa um pouco e o chama.

– Mar­celo! Se eu entrar na sua turma agora, será que eu ainda tenho chance de con­se­guir téc­nico admi­nis­tra­tivo nessa encar­na­ção?

Tema Comentários 07 textos

Preciosa Lucidez


Queria eu ter essa luci­dez o tempo inteiro. Luci­dez que me leva pra frente, que me mostra um cami­nho, uma saída, uma solu­ção. Luci­dez que me invade por pre­ci­o­sos minu­tos e me torna mais res­pon­sá­vel, sen­sato, seguro, con­fi­ante. Se essa luci­dez me fosse mais cons­tante, tro­ca­ria os minu­tos de vazio, o caos do nada e das horas per­di­das, em cres­ci­mento e pro­du­ti­vi­dade. Mas ao passo que a luci­dez se dis­sipa, o vazio exis­ten­cial e a inér­cia da cri­a­ti­vi­dade entram em ação mano­brando meus movi­men­tos e enges­sando a minha dis­po­si­ção para o pro­gresso. Que ela fique e dure o máximo que puder quando vier e me erga do fim ao começo, da des­cida a subida, do tro­peço a cami­nhada.

Em Algum Espaço

Aqui parado no meu apar­ta­mento, o ven­ti­la­dor ligado balan­çando a cor­tina e soprando as minhas costas, alguns papéis sobre a escri­va­ni­nha, escrevo a pró­pria meta­lin­gua­gem da sen­sa­ção e dos dese­jos, as angús­tias, os anseios escon­di­dos no mais pro­fundo buraco da minha car­caça. Elton John curte esse momento comigo. Há pouco lavei a louça que eu mesmo cozi­nhei. Começo a com­preen­der esse uni­verso da culi­ná­ria. Não sou ainda um expert, mas já con­sigo fazer um arroz com sabor e um feijão que me abre o ape­tite. Acho que pode­ria ter cul­ti­vado esse hábito há mais tempo. Acos­tu­mado a ter a comida pronta da quen­ti­nha todos os dias, não me inte­res­sava em apren­der. Antes comia pouco e sobrava comida. Agora como tudo e quase nada se estrói.Passei o ferro em algu­mas roupas que lavei outro dia. Lembro de minha avó sempre que o faço. A obser­vei pas­sando com tanta deli­ca­deza e pre­ci­são um pano de prato um dia, que às vezes tento imitar. O apar­ta­mento ainda não viu a vas­soura essa semana. Mas ao menos a pia da cozi­nha está limpa e não há roupa suja pra lavar.

Alguns galhos de árvo­res se movi­men­tam lá fora pela janela. A conta do con­do­mí­nio e do banco me acenam da escri­va­ni­nha. Ao lado alguns peque­nos retra­tos meus, da minha mãe e da minha avó comigo no meu ani­ver­sá­rio de 6 anos. Elton John também emba­lou essa data. A música sempre pre­sente. A amiga que nos leva longe e nos mantém aqui, segu­ros e inse­gu­ros do amanhã.

Por um momento parece que o tempo para. A sujeira na parede pelas marcas dos anti­gos calen­dá­rios, o terço que meu avô fazia balan­çando no arma­dor, o tapete no chão ao lado da cama, frag­men­tos de ideias numa cader­ne­ti­nha, poeira pelo chão. Só momen­tos. Apenas flashes de ins­tan­tes per­di­dos na imen­si­dão do tempo.

Tédio!...

Nave­gar... nave­gar... nave­gar... tédio! Orku­tar... orku­tar... orku­tar.... tédio! Deitar... dormir... des­can­sar... tédio! Música... e-mails... msn... celu­lar... tédio! Filmes... livros... tv... pipoca... con­trole remoto... tédio! Espe­lho... cama... janela... cor­tina... tédio! Sol... nuvens... lua... estre­las... tédio! Frio... calor... fome... sono... boce­jar... tédio!! tédio!! tédio!!

Três domin­gos segui­dos!! E nada pra fazer. Ainda bem que amanhã é segunda... digo, quarta, e a vida volta ao normal. Se o mundo fosse inter­mi­ná­veis domin­gos, seria uma eterna cha­tice.

Perspectiva

E naquele dia fui ao banco. Fila cheia. Mais de cem na minha frente. Ausên­cia de cadei­ras vazias. Me acos­tei no chão ao lado da porta. Fiquei ali. De repente, algu­mas pernas come­çam a passar. Pernas gordas, pernas magras. Pernas curtas e com­pri­das. Pernas apres­sa­das, pernas lentas. Deter­mi­na­das e con­fu­sas. Pernas em jeans, saias, ber­mu­das, ves­ti­dos. Pernas em botas, san­dá­lias, chi­ne­los, sapa­tos, tênis. Pernas claras, pernas escu­ras. Silen­ci­o­sas, baru­lhen­tas. Pernas lisas e pelu­das. Apenas pernas pra lá e pra cá. Um mundo de pernas. Uma infi­ni­dade de passos. Pernas que reve­la­vam no cami­nhar o inte­rior e o anseio de cada ser.

Sobre mar

As ondas do mar encon­tram as areias da praia e chocam-se contra as minhas pernas. O impacto frio e ine­bri­ante me atiça os sen­ti­dos, me tor­nando parte daquela vas­ti­dão. A água, o sal, as espu­mas... O sol a me tingir. Alguns barcos dis­tan­tes da costa, entre os súbi­tos e inós­pi­tos agitos das águas do oceano. A força e a vio­lên­cia do mar me tran­qui­li­zam o ser. Entre os abalos e a agi­ta­ção encon­tro o equi­lí­brio da reto­mada, a vál­vula de escape dos medos e incer­te­zas. Encon­tro o prumo.

Vâmo pulá!

Vim aqui agra­de­cer a todos os comen­tá­rios da minha última pos­ta­gem “A arte do cora­ção”, e claro, a Junior Lima que chegou até o Celeiro, só Deus sabe como, e ainda o indi­cou em seu Twit­ter. Pre­pa­rava uma outra pos­ta­gem quando colo­quei para visu­a­li­zar, e de repente o con­ta­dor de esta­tís­ti­cas online saltou de 2 para 734. Achei que deve­ria ter alguma coisa errada. O con­ta­dor tinha enlou­que­cido. Subiu pra 973 e alguns comen­tá­rios come­ça­ram a surgir. Só podia ser vírus. Como pode­ria ser real que toda aquela gente esti­vesse no meu blog, quando nas esta­tís­ti­cas nor­mais não passa de 3 online? Foi aí que des­co­bri atra­vés de um dos comen­tá­rios, que o Celeiro tinha sido indi­cado pelo pró­prio Junior no seu Twit­ter. Só mesmo uma indi­ca­ção dele pra fazer chover tanta gente no meu blog. E ina­cre­di­ta­vel­mente o Celeiro marcou o record de 1606 pes­soas online. Meus segui­do­res até aumen­ta­ram.

Con­fesso que foi um ver­da­deiro pre­sente de natal que Junior me deu. Talvez mere­cido, depois de tantos anos de dedi­ca­ção. Fiquei para­li­sado por alguns ins­tan­tes, sem acre­di­tar. Quando escrevi a pos­ta­gem sobre o seri­ado Sandy e Junior não tinha a menor pre­ten­são de que Sandy, Junior ou qual­quer outro ator lesse. Na minha cabeça só minha mãe e mais uns três ou quatro amigos iriam ler, como de cos­tume. Sur­presa foi a minha quando per­cebi que milha­res de pes­soas esta­vam lendo e comen­tando suas impres­sões. Alguns anos atrás, eu teria feito qual­quer coisa pra chegar perto de Sandy e Junior, ou mesmo lhes enviar uma linha de carta, só para sabe­rem que exis­tia. Mas eu era um pequeno grão de areia, como canta Sandy. E hoje, sem nenhum esforço, eu con­se­gui chegar até Junior, a ponto dele se dar ao tra­ba­lho de fazer um comen­tá­rio na sua página pes­soal.

Fiquei mara­vi­lhado pelas men­sa­gens que recebi de tantos fãs da dupla. Per­cebi que como eu, exis­tem muitos pelo país, e até fora dele, que com­par­ti­lham as mesmas sen­sa­ções, pensam seme­lhante, cole­gas de cha­co­tas por divi­dir um pas­sado de dedi­ca­ção tão intenso à dupla. Saber que con­se­gui levar um pou­qui­nho de feli­ci­dade, nos­tal­gia ou mesmo a mais insig­ni­fi­cante sen­sa­ção a quem lia, foi gra­ti­fi­cante. Li todos os comen­tá­rios. Con­cordo com Giu­li­anna quando disse que viver a rea­li­dade Sandy e Junior e ter seguido o seu padrão de com­por­ta­mento, a sua ino­cên­cia, a sua defi­ni­ção de famí­lia foi muito impor­tante para nossa for­ma­ção, ao passo que pode­rí­a­mos ter vivido outra rea­li­dade e ter sim um motivo hoje de nos enver­go­nhar. Minha amiga Kárem me lem­brou hoje pelo msn, depois que eu dividi minha ale­gria com ela, do final da pos­ta­gem “A arte do cora­ção”, quando falo que o nosso ver­da­deiro des­tino pode estar escon­dido no pas­sado e que só pre­ci­sa­mos ir lá buscá-lo. Vejam só o que acon­te­ceu depois que eu fui ao meu pas­sado e res­ga­tei a minha paixão pelo seri­ado. Lite­ral­mente sinto uma sen­sa­ção louca de pular.

P.S.: Acabei de des­co­brir que a atriz Fer­nanda Paes Leme também leu.

E já passou!...

Foto: Flávio Alves

De repente me vem aque­les flashes, um dia nublado, uma rua tran­quila, os tri­lhos de uma fer­ro­via, um tênis sur­rado, chuva, frio, cober­tor, o arco entre as nuvens, um banho de pis­cina, uma cami­nhada na areia, alguém numa ofi­cina, praia vazia, gra­va­ções daquele filme, tri­lhas pelo mato, banho de man­gueira, casa entre as árvo­res, camisa xadrez, lama no fute­bol, pas­seio de canoa, mano­bra no skate, buraco na areia, rapel, esca­lada, cor­re­dei­ras, o ban­qui­nho de uma praça, pega-pega na cal­çada, guarda-chuva e pés molha­dos, rede na varanda, fotos com os amigos, pas­seios no Jeep, corte de cabelo, pipoca e fita cas­sete, exer­cí­cios no parque, mer­gu­lho com gol­fi­nho, ber­muda e pés des­cal­ços, barro ver­me­lho, novas ami­za­des, jeans ras­ga­dos, tarde na fazenda, cozi­nha no domingo, bica no telhado, banho gelado, meia pra dormir, roupa molhada, barba por fazer, boina, óculos, sus­pen­só­rio, alon­ga­mento... Tudo isso por um ins­tante me lem­brou feli­ci­dade.

Tema Crônicas Cotidianas 16 textos

Ventos de Experiência

É difí­cil fugir do pas­sado quando este segue dei­xando uma trilha de sau­dade. Expe­riên­cias vão e vêm. Mas sempre é gos­toso relem­brar momen­tos feli­zes. Quando eu passo pelo Parque do Povo sempre que venho da facul­dade e vejo ope­rá­rios e máqui­nas pondo a baixo a estru­tura do que foi a maior feira já rea­li­zada na cidade, é ine­vi­tá­vel a lem­brança dos dias que mer­gu­lhei em um uni­verso de gran­des pos­si­bi­li­da­des e des­co­bri as opor­tu­ni­da­des que a vida ofe­rece a quem se arrisca em seu pró­prio negó­cio. E como eu fui parar na Feira do Empreen­de­dor?

Tudo come­çou numa tarde de segunda-feira quando os bons ventos da vida sopra­vam para uma tene­brosa e espe­rada reu­nião no Sebrae. Era o início de um está­gio de um mês para Saskia, Sil­mara, Clara, Edi­míl­son e eu. Fomos apre­sen­ta­dos a Eri­aldo Pereira, o grande jor­na­lista do estado e deten­tor de uma sábia expe­riên­cia. Também conhe­ce­mos os com­pe­ten­tes Valter e Renata. Era nosso pri­meiro con­tato e o que fosse sair dali, a ansi­e­dade e a expec­ta­tiva nos olha­res de cada um enco­bria qual­quer apreen­são ou inse­gu­rança. Final­mente sou­be­mos nossa missão. O Sebrae esta­ria pro­mo­vendo na cidade a Feira do Empreen­de­dor e nossa missão era criar um bole­tim com casos de sucesso empreen­de­dor de Cam­pina e fazê-lo “girar” durante a feira. Uau! Que fan­tás­tico! Mas será que alguém sabe ao certo o sig­ni­fi­cado da pala­vra “empreen­de­dor”? Sabendo ou não entra­mos de cabeça nessa. Ou melhor, de ima­gi­na­ção.

Para nossa tarefa con­ta­mos com a ori­en­ta­ção da pro­fes­sora Fátima Luna. E a saga em busca dos ven­ce­do­res da cidade tomou fôlego no dia seguinte. Em uma mesa redonda uma chave da manga de Eri­aldo abriu a sessão. Foram muitas idéias, várias dis­cus­sões, joga­das, “compra e venda” de pautas. E uma lista de 10 pro­fis­si­o­nais de sucesso da cidade se formou. Parte II: divi­são das empre­sas, pauta, entre­vista, texto. Eh, vamos à luta! Fiquei res­pon­sá­vel por duas empre­sas. A escola de infor­má­tica Info­ge­nius e a agên­cia de segu­rança ele­trô­nica Insiel (os textos na ínte­gra estão nas pos­ta­gens logo abaixo). Para minha sorte a empreen­de­dora da Info­ge­nius, Jean­nine Figuei­redo era um doce em pessoa e a entre­vista trans­cor­reu melhor que o espe­rado. Agora era hora de colo­car a cabeça pra fun­ci­o­nar e criar um texto agra­dá­vel da his­tó­ria de vida de sucesso da minha entre­vis­tada. Logo as idéias se for­ma­ram e saiu a pri­meira versão do texto. Entre­tanto, como diz Eri­aldo, nosso pri­meiro texto nunca é o defi­ni­tivo, sempre pode­mos aper­fei­çoá-lo e melho­rar. E assim refiz uma! Duas! Três vezes! E perdi as contas de quan­tas vezes o reli.

Alguns dias depois, com quase todos os textos pron­tos era hora de deci­dir o nome do “garoto” que leva­ria nossas his­tó­rias ao público. Mais uma vez em volta de uma mesa vários nomes sur­gi­ram. Ventos de sucesso; Ati­tude empreen­de­dora; Empreen­de­do­rismo em pauta; Bons Flui­dos. E nin­guém pode­ria ima­gi­nar que o nome esco­lhido seria um tão sim­ples e que resu­mia tudo que a feira repre­sen­tava. Foi assim que surgiu o Cata­vento. Com nome defi­nido e textos aca­ba­dos, era hora de partir para as fotos. Tareb foi o fotó­grafo encar­re­gado disso e saiu com Saskia, Sil­mara e Clara para foto­gra­far os esta­be­le­ci­men­tos. Para minha infe­li­ci­dade, os donos da Info­ge­nius esta­vam via­jando e a tão fan­ta­si­ada foto de Jean­nine sen­tada no colo de Fábio entre os com­pu­ta­do­res só ficou na ima­gi­na­ção. Porém, a galera teve que escu­tar esse meu dis­curso até o último minuto da feira.

Ah, e a feira!! Ela chegou e foi embora mais rápido do que ima­gi­nei. Como dizia seu slogan “Bons Ventos para o seu Negó­cio”, os ventos sopra­ram rápido demais e leva­ram a feira para outros hori­zon­tes. Lá, no Parque do Povo, eu e Clara tra­ba­lha­mos com a equipe de Kamille e Arthur para a TV Sebrae. Conhe­ce­mos o grande jor­na­lista Amim e os repór­te­res Morib e Syusk. Aliás, ficá­va­mos impres­si­o­na­dos com a desen­vol­tura de Syusk durante as maté­rias. Nós sim­ples estu­dan­tes ima­gi­ná­va­mos quando serí­a­mos capaz de tal pro­fis­si­o­na­lismo. Ao mesmo tempo em que brin­cava, ela mos­trava sua com­pe­tên­cia e res­pon­sa­bi­li­dade. Enquanto isso, Sil­mara, Saskia e Edi­míl­son cor­riam atrás de notí­cias para ali­men­tar o site da feira. E cá entre nós, correr ali dentro era uma aven­tura a parte. Tantas empre­sas expondo, pales­tras, des­fi­les, comida. Nossa! Tinha de tudo ali dentro. Até prá­tica de esco­tismo surgiu no Açude Novo. Tareb estava lá para não deixar de exer­ci­tar o clique do dedo e Saskia para viver a emoção da maté­ria. E emoção foi o que não faltou nesses quatro dias de feira.

É, mas a brisa passou. A cor­re­ria se foi. Os cole­gas de tra­ba­lho vol­ta­ram a se espa­lhar. Mas novas ami­za­des sur­gi­ram e con­ti­nu­a­ram. Por isso passar em frente ao Parque do Povo e olhar o fim de uma his­tó­ria é dolo­rido e pra­ze­roso. Sen­ti­mos falta daque­les dias agi­ta­dos e de todos que esti­ve­ram conosco. Embora também temos a cer­teza de ter feito algo útil, além da expe­riên­cia pro­fis­si­o­nal e de vida que adqui­ri­mos. Cada viga, lona e stand que se des­monta conta um deta­lhe daque­les dias. His­tó­rias que só quem esteve lá pode contar. A última reu­nião com nossa equipe acon­te­ceu há dois dias e o clima de des­pe­dida rei­nava sem cessar na sala. O bom de viver uma expe­riên­cia é que sempre fica­mos mais segu­ros e mais madu­ros de conhe­ci­mento. Sabe­mos onde pode­mos acer­tar e onde melho­rar nas pró­xi­mas opor­tu­ni­da­des. Afinal, se hoje sabe­mos mais do que ontem, amanhã sabe­re­mos mais do que hoje e assim se cons­trói a his­tó­ria. Num é isso, Eri­aldo?

Fora da Rotina

Situ­a­ções novas e curi­o­sas que que­bram a rotina diária da soci­e­dade são sempre dignas de grande inte­resse público, bus­ca­mos nela o dife­ren­cial para aquele dia, até mesmo o gás para nos manter fortes e com o papo em dia. O pro­blema é quando isso envolve valo­res como res­peito e soli­da­ri­e­dade. Vinha de mais um dia de tra­ba­lho no Sebrae por volta do meio-dia, quando passei em frente à cate­dral da igreja cató­lica e me depa­rei com o deses­pero. Uma mul­ti­dão se for­mava em torno da cal­çada do super­mer­cado Bom­preço e tomando boa parte do asfalto. Alguns carros buzi­na­vam.

Me apro­xi­mei curi­oso e per­gun­tei a uma senhora o que havia acon­te­cido. Ela me res­pon­deu que um rapaz em uma moto tinha atro­pe­lado uma garo­ti­nha que cru­zava a rua. Olhei para a cal­çada e pude ver a menina cho­rando ensangüen­tada e sen­tindo muitas dores. Um homem de apa­rên­cia jovem falava cons­tan­te­mente com ela ten­tando mantê-la cons­ci­ente. Outra senhora pro­te­gia a menina do sol com seu guarda-chuva. Me afas­tei um pouco e fui até a pista onde o garoto que havia atro­pe­lado a menina estava dei­tado no chão. Lá encon­trei outra con­fu­são. Um homem queria levan­tar o garoto e levá-lo para o hos­pi­tal, enquanto que uma mulher gri­tava eufó­rica dizendo que ele devia per­ma­ne­cer ali, que não podiam movê-lo ou pode­ria com­pli­car seu estado.

Fiquei obser­vando a situ­a­ção. O garoto se con­tor­cendo no asfalto quente e aque­las pes­soas em volta dis­cu­tindo. Che­ga­ram até a chamar a senhora de louca. No fundo acre­dito que ela tinha mais razão do que os outros. Mas logo a uni­dade do SAMU chegou e a situ­a­ção se acal­mou. Eles agora resol­ve­riam a pro­blema. E cada vez mais gente se apro­xi­mava. Havia aque­les que apenas olha­vam curi­o­sos, como se esti­ves­sem diante de uma atra­ção de circo, tinha aque­les soli­dá­rios, que bus­ca­vam o que fosse pre­ciso para ajudar os para­mé­di­cos e aque­les como eu, que olha­vam com um inte­resse por trás: divul­gar! É, um repór­ter chegou lá e foto­gra­fou o garoto dei­tado na pista como se fosse o grande “furo” do dia. E o garoto o olhava estra­nho como quem dis­sesse: “eu não acre­dito que esse cara tá me foto­gra­fando nessas con­di­ções”, e ao mesmo tempo ima­gi­nava: “eu vou sair no jornal”.

Minu­tos depois outra uni­dade do SAMU chegou e pre­pa­rou a maca para imo­bi­li­zar o garoto. Enquanto isso, a menina era aten­dida pelos outros para­mé­di­cos. De repente notei que ela segu­rava a mão de uma mulher sem soltar, foi quando ouvi uma senhora pro­nun­ciar atrás de mim que se tra­tava de sua mãe. E logo per­cebi um homem extre­ma­mente zan­gado e recla­mando em alto tons que a mãe da menina quase a matava dei­xando-a correr solta pela rua. Era o pai ten­tando encon­trar um cul­pado para a fata­li­dade. E o tempo pas­sava. Nessas altu­ras o trân­sito já estava com­ple­ta­mente para­li­sado. Algu­mas pes­soas ten­ta­vam conter a aglo­me­ra­ção de gente sem gran­des resul­ta­dos.

Foi quando decide me afas­tar e seguir meu des­tino. O rapaz já entrava na ambu­lân­cia e logo mais a menina também. A vida segui­ria seu curso e mais alguns minu­tos apenas as con­ver­sas de curi­o­sos res­ta­riam no local. Então olhei por mais alguns segun­dos e fui embora. Cer­ta­mente um grande acon­te­ci­mento na cidade, coisas que não se vê todo dia. Fui ao shop­ping sacar dinheiro no caixa do banco e minu­tos depois saí e me dirigi a um res­tau­rante para almo­çar. Des­cendo em busca da praça Cle­men­tino Pro­có­pio per­cebi que havia uma outra mul­ti­dão atra­pa­lhando o trân­sito ao lado do Shop­ping Edson Diniz. Pensei: “outro aci­dente? Seria pos­sí­vel?”. Corri mais que depressa para o local e vi outra uni­dade do SAMU parada na contra-mão e várias pes­soas em volta. Per­gun­tei a uma mulher o que se pas­sava. E fiquei mais sur­preso com a res­posta. Uma uni­dade do SAMU que vinha socor­rer as duas víti­mas do aci­dente de moto mais acima, saiu na contra-mão para esca­par do engar­ra­fa­mento pro­vo­cado pelo aci­dente e acabou atro­pe­lando uma senhora.

Real­mente, era algo raro na cidade. Daque­les tipos de coisas com efeito dominó. Uma senhora que seguia sua vida e não tinha nada a ver com o aci­dente de mais cedo, agora sofria as con­se­qüên­cias da des­cons­tru­ção de uma rotina diária. Essa senhora eu já não pude ver. Quando che­guei já haviam a colo­cado dentro da ambu­lân­cia, mas como aquela uni­dade não pode­ria sair dali porque a perí­cia tinha que fazer o reco­nhe­ci­mento, tive­ram que espe­rar outra uni­dade. Quatro uni­da­des des­co­la­das para um mesmo local em um único dia. Agora não me con­tro­lei, tirei o celu­lar e bati uma foto. Pre­ci­sava regis­trar algo. Porém, a memó­ria do meu celu­lar estava cheia e só con­se­gui regis­trar uma cena.

Quando a outra ambu­lân­cia chegou, trans­fe­ri­ram a mulher para ela. O momento da trans­fe­rên­cia foi como se o papa saísse na janela do Vati­cano e ace­nasse. Todos cor­re­ram para olhar e se espre­me­ram para con­se­guir ver pelo menos a maca que estava com a senhora. Nessa hora tentei subir no prédio do shop­ping para con­se­guir uma foto de cima, mas os imen­sos galhos de árvo­res não tor­na­ram a visão muito pri­vi­le­gi­ada. Depois disso, fui almo­çar. E não con­se­gui deixar de pensar em tudo o que vi. Claro, aci­den­tes acon­te­cem dia­ri­a­mente, e mesmo que não sejam tão fre­qüen­tes em deter­mi­na­das cida­des, fazem parte do ritmo fre­né­tico de vida que vive­mos. Mas o que me chamou a aten­ção foi a ati­tude de cada um em rela­ção ao fato. Pude pre­sen­ciar pes­soas que real­mente sabem o sig­ni­fi­cado das pala­vras doação e com­pai­xão. Vi pes­soas que tra­ta­vam tudo com muita natu­ra­li­dade e com grande deses­pero. E havia quem até risse com tudo aquilo. Somos muito impre­vi­sí­veis e a vida cons­trói dia­ri­a­mente nossas ati­tu­des e emo­ções. Só um deta­lhe não pode­mos fugir. Em situ­a­ções como essas todos des­fru­ta­mos do mesmo desejo incons­ci­ente e ins­tin­ti­tivo: ver e divul­gar!

Noite de TOC

Quem sofre de TOC (Trans­torno Obses­sivo Com­pul­sivo) sempre vive pas­sando por situ­a­ções inu­si­ta­das e emba­ra­ço­sas, mas algu­mas vezes elas chegam a ser diver­ti­das. Fazia pouco mais de um ano que eu havia me mudado para aquele apar­ta­mento no bairro de Lagoa Seca em Natal e lá eu tinha poucos conhe­ci­dos. No meu andar lembro de uma morena alta que morava quase a minha frente e sempre saía de salto alto e muito per­fu­mada. Eu sabia exa­ta­mente a hora que ela che­gava toda noite porque o som dos seus sapa­tos subindo as esca­das anun­ci­ava a sua che­gada desde o pri­meiro andar.

Havia também uma jovem meio pro­ble­má­tica que morava com seu pai. Quase todas as noites ela ficava com o namo­rado nas esca­das que davam para o ter­ceiro andar. O pai dela chegou uma vez a ligar uma panela no fogão e cair de bêbado na cama. Os vizi­nhos que tive­ram que inter­vir para que não acon­te­cesse o pior. E lá também tinha o seu Wilson, o meu vizi­nho da esquerda. Ele era como um porta-voz do pro­pri­e­tá­rio do prédio. Sempre que alguma coisa estava fora de ordem ele era o pri­meiro a falar com o dono. Minha mãe foi muitas vezes bater na porta dele quando fal­tava água no prédio ou atra­sava a conta de luz. E ainda tinha o seu banho per­fu­mado que enchia o nosso apar­ta­mento com o per­fume dos xampus e sabo­ne­tes que usava.

Mas seu Wilson tinha uma pecu­li­a­ri­dade que os outros não tinham. Ele era inse­guro e apreen­sivo. Morava sozi­nho e cum­pri­men­tava todos do prédio sempre apres­sado e pare­cendo escon­der um certo ner­vo­sismo. Certa noite, acon­te­ceu algo que ficou com­pro­vado a sua inse­gu­rança. Era por volta de 10h30 da noite e A Dia­rista diver­tia o meu fim de noite. Durante um inter­valo saí para esco­var os dentes e apagar as luzes. Quando estava apa­gando a luz da cozi­nha o pro­grama retor­nou e eu mais que depressa passei a chave na porta, e para não perder nada do seri­ado, fiz a cer­ti­fi­ca­ção básica do TOC, ou seja, sacudi a porta para lá e para cá algu­mas vezes para ter cer­teza que estava fechada. Só que fiz muito rápido e o baru­lho também foi maior.

Alguns minu­tos depois o pro­grama ter­mi­nou e eu fiquei pro­cu­rando algo para assis­tir em outros canais, até que de repente ouvi uma estra­nha movi­men­ta­ção no cor­re­dor do prédio. Como diria Márcia do Zorra Total, era “um vucu-vucu”, e eu me apro­xi­mei da porta, olhei pela frecha da cozi­nha e vi um homem passar com um uni­forme onde estava escrito “Polí­cia Mili­tar”. Pensei: “polí­cia? O que houve?”. Só aí notei outro poli­cial e uma vizi­nha na porta de seu Wilson que enfa­ti­zava com pre­ci­são para o poli­cial: “estava aqui, eu ouvi, eu estava dor­mindo quando alguém forçou a porta ali do vizi­nho e depois forçou a minha”. Eu disse: “pronto, foi meu TOC!”.

Eu não sabia o que fazer. Dois poli­ci­ais revis­ta­vam o prédio à pro­cura de um ladrão que morava ao lado e sofria de trans­torno obses­sivo. Um engano! Um ter­rí­vel engano que movi­men­tava a noite dos mora­do­res do edi­fí­cio. Pensei se saía ou se ficava ali. Resolvi abrir a porta e per­gun­tar o que estava acon­te­cendo como se não sou­besse. Seu Wilson olhou para mim assus­tado e me infor­mou que um ban­dido tinha ten­tado entrar no apar­ta­mento dele. Um dos poli­ci­ais me per­gun­tou se eu havia visto alguma coisa e eu disse que não. Os poli­ci­ais pro­cu­ra­vam em todos os locais pos­sí­veis e não viam nada. Claro, não tinham mesmo como encon­trar. Foi quando um deles passou por mim e me per­gun­tou em gestos se seu Wilson era doido. Fiquei sem ação e fiz gestos como se não sou­besse.

Fiquei acom­pa­nhando as inves­ti­das dos poli­ci­ais pelo escape de acesso ao ter­raço, con­fe­rindo as fecha­du­ras das portas para ver se tinham sido for­ça­das e ouvindo os c0men­tá­rios assus­ta­dos da minha vizi­nha morena que dizia: “meu Deus, ladrões aqui no prédio, e eu pensei que aqui era tão seguro”. Eu não podia contar a ver­dade ali. Afinal até eu já estava acre­di­tando que um ban­dido tinha for­çado mesmo a porta de seu Wilson. E como uma his­tó­ria sempre gera outra, a vizi­nha da direita infor­mou que o portão de baixo estava aberto mais cedo e que viu uns garo­tos estra­nhos dentro do prédio. Pronto, a inva­são já tinha até sus­peito. Os poli­ci­ais per­gun­ta­ram como eram os garo­tos e ela ficou lá des­cre­vendo. Fiquei me enco­lhendo ali naquela his­tó­ria e pen­sando que eu não podia ter gerado tudo aquilo com uma sim­ples veri­fi­ca­ção de TOC.

Pas­sa­dos alguns minu­tos os poli­ci­ais se cer­ti­fi­ca­ram que não havia nada de errado e foram embora. Eu entrei e fui tentar dormir. Na manhã seguinte acor­dei e fiquei pen­sando na lou­cura da noite pas­sada. Me encon­trei com o seu Wilson no cor­re­dor e ele me per­gun­tou nova­mente se eu não tinha escu­tado nada porque os poli­ci­ais esta­vam achando que ele era maluco. Ele veio me dedi­lhar todos os deta­lhes e me fazer sentir mais cul­pado ainda. Foi quando soube o mais absurdo de tudo. Os poli­ci­ais esta­vam pas­sando de moto pelo local quando seu Wilson gritou da janela por eles. Dis­far­ça­da­mente saí dali e fui para o meu curso.

Con­tudo, des­co­bri que peque­nos deta­lhes podem movi­men­tar o mundo. Um gesto cor­ri­queiro e pes­soal meu pode­ria deter­mi­nar o futuro do con­do­mí­nio. Ele agora pode­ria ficar conhe­cido como um prédio inse­guro, o que afu­gen­ta­ria novos mora­do­res, como também pode­ria fazer os atuais mora­do­res serem mais cui­da­do­sos ao passar e tran­car o portão de baixo. Mas nem assim con­se­gui deixar de me cer­ti­fi­car de fechar a porta todas as noites, só que agora lembro sempre do que acon­te­ceu naquela noite e para evitar um pos­sí­vel “vucu-vucu” com resul­ta­dos bem piores, eu tento não fazer tanto baru­lho e penso que podem exis­tir outros seu Wilson por aí que não sejam tão amis­to­sos e não levem fama de malu­cos para salvar minha pele.

Carta Social

Alguém já parou para pensar porque existe o termo carta social nos Cor­reios e qual a sua função espe­cí­fica? Basi­ca­mente, ela existe para aten­der as cama­das soci­ais que não detém meios de pagar pelo envio de uma carta. Mas ainda exis­tem regras que deter­mi­nam quando uma carta pode ou não ser envi­ada como social. Ques­tões de pesos, reme­ten­tes físi­cos e não jurí­di­cos. Claro, que exis­tem aque­las pes­soas opor­tu­nas que uti­li­zam o termo “social” na cor­res­pon­dên­cia para enviar uma carta ao valor de um cen­tavo. Minha namo­rada pode-se dizer que já entrou nessa onda.

Não é de hoje que Ingridy cos­tuma ter ati­tu­des que me sur­preen­dem e que fariam minha prima Ana Carla enfiar a cabeça no pri­meiro buraco que encon­trasse. Numa dessas vezes, ela ousou brin­car com o maior pombo-cor­reio bra­si­leiro, os pró­prios Cor­reios. Quando eu estu­dava em Natal entre os anos de 2003 e 2004 cos­tu­mava escre­ver sempre para ela. A inter­net ainda não domi­nava as nossas vidas e os Cor­reios era parada obri­ga­tó­ria pelo menos uma vez ao mês. Cos­tu­mava escre­ver aos domin­gos e quase sempre ficava a tarde toda rela­tando os meus dias e sonhando com futu­ros inde­fi­ni­dos. Ela cos­tu­mava dizer que eu escre­via livros a cada carta. Eu cha­mava de jor­nais. Enfim, era muita vida nos papéis.

Certa vez, na fila dos Cor­reios de São Miguel, enquanto espe­rava para res­pos­tar uma de minhas cartas, Ingridy ficou atenta para um fato que ocor­reu com uma Irmã que estava à sua frente. Na ver­dade a Irmã dese­java enviar uma carta com a defi­ni­ção “social”, mas como estava pos­tada com o pré-nome Irmã, ela não pode­ria enviar assim. Isso ativou os olhos e os ouvi­dos de Ingridy. Ela des­co­brira ali a mina da for­tuna dos Cor­reios.

Sempre que­rendo desa­fiar o sis­tema, a pri­meira coisa que fez quando chegou sua vez de ser aten­dida, foi pedir uma caneta ao aten­dente. Ela escre­veu “carta social”, olhou sor­rindo para ele e entre­gou a carta com uma per­gunta mais que retó­rica: “quanto te devo?”. Sem troco para ela, Ingridy o infor­mou que ele esta­ria devendo 4 cen­ta­vos a ela e que ainda iria cobrar.

Assim a carta chegou ao seu des­tino, ou seja, eu!! Ingridy então me contou numa empol­ga­ção só que eu também pode­ria enviar cartas pra ela pagando “um cen­tavo”. Eu já havia ouvido falar sobre esse tipo de cor­res­pon­dên­cia, mas nunca ousara enviar, até porque com a quan­ti­dade de papel que escre­via, seria bar­rado na hora. Mas ainda assim, resolvi arris­car. Então na minha pró­xima cor­res­pon­dên­cia escrevi “carta social”, che­guei aos Cor­reios, olhei para a aten­dente e entre­guei a carta. Depois de olhar e con­fe­rir a defi­ni­ção, ela não só passou a carta como me devol­veu os 4 cen­ta­vos. Isso mesmo! Ela me devol­veu os 4 cen­ta­vos em forma de selos. Bom, que­rendo ou não, se eu pou­passe os papéis, teria dinheiro garan­tido para mais quatro cartas.

Já Ingridy em São Miguel pre­pa­rava sua diver­tida brin­ca­deira comigo atra­vés dos Cor­reios e que me faria ver que dela não se pode duvi­dar nada. Assim ela escre­veu 10 cartas com o mesmo des­tino, apar­ta­mento 203, Lagoa Seca, Natal e foi aos Cor­reios. Todas esta­vam assi­na­das como “carta social”. Seu sor­riso na fila já dizia o que apron­ta­ria. Ela entre­gou as cartas e lem­brou ao aten­dente dos quatro cen­ta­vos da última carta. Sua estra­té­gia a fez enviar as 10 cartas por menos de 10 cen­ta­vos.

Enquanto eu des­per­tava numa bela manhã e abria a porta do apar­ta­mento para sair, Zezi­nho, o zela­dor do prédio, me infor­mou que havia che­gado algu­mas cartas para mim. Estra­nhei o termo no plural, mas fui con­ven­cido quando o vi retor­nar com 10 cartas nas mãos. Fiquei espan­tado. Não mais que ele quando olhou para mim. Sua pri­meira per­gunta foi se eu havia me tor­nado famoso e ele não sabia. Eu sorri e entrei. As cartas esta­vam assi­na­das em nomes dife­ren­tes. Na ver­dade eram os nomes dos pares român­ti­cos das his­tó­rias que escrevi.

Foi uma situ­a­ção inu­si­tada, diver­tida e desa­fi­a­dora. Ingridy havia se uti­li­zado de um recurso dos Cor­reios para brin­car. Quem não gos­ta­ria de abrir a sua caixa de cor­res­pon­dên­cia numa deter­mi­nada manhã e encon­trar 10 cartas de uma mesma pessoa para você? Pelo menos um sor­riso elas con­se­gui­riam nos arran­car. Seria uma prova, uma lou­cura de amor. Dessas que a gente guarda apenas com o cora­ção e com um sor­riso. Sua inten­ção era enviar uma carta a cada manhã, para que cada manhã uma carta che­gasse para mim, mas como os malo­tes têm dias defi­ni­dos para sair de São Miguel, enviou as 10 de uma só vez. Ainda assim, a brin­ca­deira virou his­tó­ria e entrou para o baú das aven­tu­ras secre­tas de Ingridy e Samuel.

O Objeto Estranho

Uma sin­fo­nia dos céus me levava pelas ondas tran­qüi­las dos oce­a­nos. Olhei do lado e vi o azul fechado que escu­re­cia o dia. De repente o per­fume da terra sobe pelas minhas nari­nas e me faz con­trair os mús­cu­los numa ten­ta­tiva de fuga e ao mesmo tempo de per­ma­ne­cer ali, entre aque­las mon­ta­nhas de prazer, por um longo tempo. Mas era hora de descer das nuvens e enca­rar o piso gelado. Que nada! Dane-se o mundo! Vamos vele­jar mais um pou­qui­nho. Quem sabe até uma outra eter­ni­dade. Seria incrí­vel. Mas, ela durou exatos cinco minu­tos, quando fui arran­cado da brisa das mon­ta­nhas e jogado nas pedras duras, des­fi­la­deiro abaixo.

Era outra sin­fo­nia que me trazia à rea­li­dade, mas dessa vez não vinha dos céus, estava ali ao meu lado. O som per­ma­ne­cia como quem insiste para sair­mos de algum transe. Não devo retor­nar. Não hoje! É meu dia. Mereço subir outras mon­ta­nhas ao som das gotas da satis­fa­ção e do acon­chego da liber­dade. O som não parava. Era pre­ciso des­co­brir de onde vinha e lutar contra ele. Minha mão atin­giu for­ça­da­mente a placa que pro­tege os alga­ris­mos que não param de rodar. Por que o baru­lho não some? Vou des­truí-lo! Pára! Depois de algu­mas ten­ta­ti­vas falhas, per­cebi que o som não vinha da placa.

Um objeto de for­mato retan­gu­lar com bordas arre­don­da­das gri­tava deses­pe­rado sobre o rochedo da afli­ção. O que ele queria? O que aquele baru­lho queria me dizer? Uma luz branca saía de uma cavi­dade no centro do objeto. Esta­ria com fome? E de onde vinha aquele baru­lho? Aos poucos minha mão se arras­tou até pró­ximo daquele ele­mento que já não pare­cia tão gigante e sumia com­ple­ta­mente entre a palma da minha mão. Pare­cia ter vida pró­pria e se mexia entre meus dedos. De repente passei a sentir leves cho­ques e per­cebi que ele estava irri­tado. Que tipo de força mais teria? De onde veio aquele ser? De alguma ilha escon­dida entre os oce­a­nos?

O baru­lho agora pare­cia maior e inva­dia todo o espaço. Já quase não ouvia mais a sin­fo­nia dos céus, nem sentia o per­fume da terra. O que afinal estava aos poucos me for­çando a aban­do­nar minhas mon­ta­nhas e perder a brisa das águas claras? Arris­quei encos­tar minha mão nova­mente naquele ser. Fui tomado por outras ses­sões de eletro-choque. Tor­tura! Era isso o que ele estava fazendo comigo. Mas tinha que me deci­dir. Já estava quase des­cendo as mon­ta­nhas e pre­ci­sava parar aquele som se qui­sesse per­ma­ne­cer na cal­ma­ria. Foi quando o arran­quei vio­len­ta­mente do rochedo e o apro­xi­mei de mim.

O baru­lho ficou quase insu­por­tá­vel. Sua luz branca da cavi­dade cen­tral queria me ofus­car. Mas não me inti­mi­dei. Encon­trei uma aber­tura e come­cei a abri-lo sem dó. Foi quando encos­tei meu dedo em outra luz verde que pare­cia ser seu veneno e de repente come­cei a escu­tar bem dis­tante a voz da minha namo­rada. O quê? Ela está aqui? O ser emitia sons de pes­soas. Apro­xi­mei-o do meu ouvido e escu­tei: “Bom dia, mo, feliz ani­ver­sá­rio!”. Ah, final­mente como a fração de um mete­oro caindo no espaço, retor­nei ao meu quarto, à minha cama, me dei conta do celu­lar que estava em minhas mãos e não só agra­deci como também a para­be­ni­zei também pelo dia que é nosso. Em seguida me levan­tei, olhei a chuva que caía da janela e fui tomar banho para ini­ciar mais um dia de jor­nada.

“A ‘psicóloga’ está?”

Os com­ple­xos meca­nis­mos que compõem a lógica da vida moderna, inter­fe­rem dire­ta­mente na vida pes­soal de cada um. O des­gaste físico e psi­co­ló­gico afeta o equi­lí­brio do ser humano e por isso, não rara­mente, são evi­den­ci­a­das crises de estres­ses de altos níveis. Nessas horas recor­re­mos às mais inu­si­ta­das saídas para dri­blar a tensão e con­ti­nuar na “roda-dança”. Daí a sobre­vi­vên­cia de um pro­fis­si­o­nal que admiro de cora­ção: o psi­có­logo. Ele entra em cena para acal­mar os ânimos e dizer: “ei, você não está sozi­nho no mundo”.

Quando cri­ança escu­tava dos mais velhos que psi­có­logo era médico de doido. Uma rela­ção leiga que se esta­be­le­ceu pelo tra­ba­lho do pro­fis­si­o­nal vol­tado para a mente. Porém, o psi­có­logo nem é quem lida espe­ci­fi­ca­mente com os doen­tes men­tais. Nesses casos surge a figura do psi­qui­a­tra, que trata atra­vés de medi­ca­men­tos, ao con­trá­rio do tera­peuta que apenas tra­ba­lha ao longo dos anos, a mente e as emo­ções do paci­ente. Bem, essas teo­rias perdem logo as face­tas quando nos depa­ra­mos per­tur­ba­dos com os con­fli­tos soci­ais.

Havia per­dido mais de 10 kg em 3 anos e 3 kg em apenas dois meses. O des­gaste emo­ci­o­nal, oca­si­o­nado pelas mudan­ças brus­cas de mora­dia, esta­vam me des­vi­ando dos prin­ci­pais obje­ti­vos daquele ano. Era ano de ves­ti­bu­lar, o cur­si­nho aper­tava o juízo e os pro­ble­mas par­ti­cu­la­res me per­tur­ba­vam ainda mais. Me vendo naquela situ­a­ção depri­mente, minha mãe deci­diu pro­cu­rar um psi­có­logo para mim. A idéia me pare­ceu bas­tante con­for­ta­dora, apesar do “money” que íamos desem­bol­sar.

Pouco tempo depois, estava eu para minha pri­meira con­sulta com a dou­tora... Pronto! Aqui que começa o pro­blema. Foi uma fração de segundo e a dou­tora pro­nun­ciou pela única vez o seu nome. Algo seme­lhante a Gemima, Ger­mina, Ger­mana, Age­mima, assim. Enca­bu­lado com tanta situ­a­ção me pre­o­cu­pando e ansi­oso demais para pro­nun­ciar um “A” naquele dia, não per­gun­tei nova­mente o nome dela, nem encon­trei nenhuma pla­qui­nha que me aju­dasse a escla­re­cer as idéias.

Nossas con­sul­tas não dura­ram mais que 4 meses, uma vez por semana. E nesse perí­odo evitei ter que chamá-la ou mesmo per­gun­tar nova­mente o seu nome. E quanto mais o tempo pas­sava, mais difí­cil ficava de fazer essa per­gunta. Quando tinha que ligar algu­mas vezes para a clí­nica para saber se pode­ria trocar de horá­rio, per­gun­tava sempre pela “psi­có­loga”. E quando me encos­ta­vam na parede para saber de qual estava falando, bal­bu­ci­ava algo do tipo: “ggg­gi­i­i­mima”. E mesmo quando elas pro­nun­ci­a­vam o nome cor­reto naquela – “ah, fulano?”, eu não con­se­guia enten­der. Minha mãe a cha­mava de Arge­mira.

Uma vez tentei pro­cu­rar o nome dela na lista de con­sul­tas da recep­ci­o­nista, esqui­vando o olho a ponto de o virar quase em um ângulo de 180º. Mas nem toda essa acro­ba­cia visual per­mi­tiu deci­frar esse mis­té­rio que me asso­lava o juízo. Che­guei a puxar con­versa com outros paci­en­tes para saber se também se con­sul­ta­vam com ela para que pudes­sem citar seu nome, mas não tive a sorte de encon­trar nin­guém que fizesse tera­pia com ela naque­les horá­rios.

Assim, os meses foram se pas­sando. Fui con­se­guindo desa­ba­far, expor as minhas maze­las, os meus abor­re­ci­men­tos e ale­grias, mas só não con­se­guia dizer que não sabia o seu nome. Na ver­dade, acho que essa aven­tura serviu para me des­con­trair um pouco mais e me ajudar na saída do poço. Uma vez levei uma cópia da fita do filme que fiz “A Aven­tura Está Lan­çada” para que ela pudesse assis­tir e comen­tar comigo as emo­ções que passei na época. Bem, isso ainda foi quase no início das ses­sões e até a última semana ela ainda não havia assis­tido todo.

O ano acabou e minhas ses­sões também. Não passei no ves­ti­bu­lar naquele ano. Acho que os pro­ble­mas acu­mu­la­dos ao longo dele foram mai­o­res do que o conhe­ci­mento assi­mi­lado. Enfim, mas estava recu­pe­rado para um novo desa­fio. Quando as aulas retor­na­ram ainda fui falar com Gemima, Ger­mima, Age­mima... , acre­di­tando que ela iria me devol­ver o filme. Ela havia esque­cido. Bom, depois desse dia não há vi mais. A fita ficou com ela. Se ainda a tem hoje e ter­mi­nou de assis­tir algum dia, não faço idéia, mas também não tenho nem mais cara de ligar para a clí­nica para per­gun­tar nova­mente pela “psi­có­loga” e me enro­lar outra vez em um novelo de lã quando elas me per­gun­ta­rem –“qual?”.

Abelha na Janela

Reco­me­çar! Abrir nova­mente as portas para o futuro. Dar-se uma nova chance. Tentar ousar. Buscar novos desa­fios. Se encon­trar. Aprendi e espero nunca mais esque­cer, que após uma noite de tem­pes­tade, o sol sempre brilha pela manhã. E a tem­pes­tade pode durar uma noite, uma semana, um mês, um ano, não importa, no final sempre se dis­si­pará. Algu­mas vezes as tem­pes­ta­des são essen­ci­ais na cami­nhada, nos guiam para o rumo certo, nos dis­tan­cia um pouco também, mas já não somos os mesmos aos pri­mei­ros raios do sol.

Não se per­cebe da noite para o dia quando a mudança acon­tece, nem deter­mi­na­mos que a partir do dia seguinte sere­mos outra pessoa. Exis­tem movi­men­tos exter­nos e prin­ci­pal­mente inter­nos que nos impul­si­o­nam na dire­ção da reto­mada. De repente, sente-se uma neces­si­dade de buscar novos sen­ti­dos, de viven­ciar novas emo­ções, de cami­nhar sozi­nho ao lado dos que te cercam e em busca dos ver­da­dei­ros ideais.

Certa vez estava pen­sa­tivo na cama do meu quarto, quando obser­vei uma abelha que entrou pela janela rapi­da­mente. Ela deu um vôo pelo quarto e partiu em busca da janela nova­mente, porém, acabou se esbar­rando no vidro e passou a lutar insis­ten­te­mente em busca da saída. A liber­dade estava ali, bem na sua frente, mas ela não con­se­guia atra­ves­sar aquele obs­tá­culo que a impe­dia de ser livre. Fiquei obser­vando. Ela ten­tava ir por todos os lados, mas quando se apro­xi­mava da base de alu­mí­nio, onde mais adi­ante pode­ria encon­trar a saída, ela vol­tava, achando que por ali não sairia.

Essa mara­tona durou alguns minu­tos. Eu então me levan­tei e me apro­xi­mei da janela. Come­cei a bater pelo vidro de fora, ten­tando indi­car o cami­nho da saída, falava com ela como se ela pudesse me com­preen­der, queria lhe devol­ver a liber­dade, mas não pode­ria fazer sozi­nho ou ela me pica­ria, e por mais esfor­ços que eu fizesse, depen­dia somente dela sair dali. Ainda tentei pegar um copo, encos­tar no vidro com ela dentro, fazê-la cami­nhar por ele e levá-lo até o vento. Mas não obtive muito sucesso. Ela cami­nhava um pouco pelo copo e quando eu ia tirar para levá-lo até a saída, ela voava e vol­tava para o vidro.

Final­mente, depois de todo o estresse que eu havia lhe pro­vo­cado, ten­tando tirá-la de lá, a abelha cami­nhou na dire­ção certa pelo alu­mí­nio e ao encon­trar o vento desa­pa­re­ceu como um foguete, des­fru­tando de sua liber­dade nova­mente. Aquilo me deixou feliz. No momento não entendi bem direito, mas depois com­preendi que aquela cena repre­sen­tava mais do que uma sim­ples abelha per­dida encon­trando a saída. Há momen­tos na vida em que fica­mos presos como a abelha, sem encon­trar uma saída, e por mais esfor­ços que faça­mos não con­se­gui­mos trans­por a bar­reira que nos impede de alcan­çar a nossa liber­dade, que muitas vezes está bem ali atrás do vidro.

A nossa esperta abe­lhi­nha con­se­guiu encon­trar o cami­nho certo porque não parou um segundo sequer de tentar buscá-lo. Seus esfor­ços ali­a­dos às minhas ten­ta­ti­vas a gui­a­ram no rumo cor­reto. Assim, a saída dela não é apenas a sua saída, é o resul­tado de todo um esforço con­cen­trado nesse obje­tivo. Então, como havia dito, quando deci­di­mos mudar, reto­mar algo, reco­me­çar uma his­tó­ria, não é uma deci­são ale­a­tó­ria, é fruto de uma intensa luta que tra­va­mos conosco, sem a qual jamais encon­tra­rí­a­mos de novo a liber­dade. É pre­ciso ser uma abelha, dese­jar sempre a saída, mesmo com os desa­fios encos­ta­dos no nosso rosto, para quando alcan­çar­mos o vento, sair for­te­mente voando em busca do infi­nito.

Observando...!

Um mundo de pedri­nhas bran­cas ao longe. Alguns carros para­dos em fila indi­ana logo abaixo. O verde das plan­tas e o azul da pis­cina se des­ta­cam entre o branco e o ver­me­lho das telhas. Um carro passa e der­ruba um rolo de pape­lão vazio. Outro em seguida passa por cima e o lança na rua abaixo. Dois rapa­zes se apro­xi­mam e um, olha com o pé. Um ônibus atra­vessa uma ave­nida dis­tante à direita. Um garoto cruza a rua de bici­cleta. Uma mulher passa apres­sada com uma sacola nas mãos.

Aqui dentro, o ele­va­dor abre. Dois homens ele­gan­tes saltam con­ver­sando. Uma mulher com cri­ança no colo espera o pró­ximo. Duas moças da lim­peza saem pela porta de emer­gên­cia e reco­lhem o lixo do cor­re­dor e dos banhei­ros. O ele­va­dor abre e a mulher com a cri­ança entra. O ele­va­dor fecha.

Uma car­roça com um homem e um garo­ti­nho atra­vessa a rua prin­ci­pal. Um fla­ne­li­nha ajuda um senhor a esta­ci­o­nar o carro. Do outro lado, um fogo acom­pa­nhado por uma intensa fumaça se espa­lha nos limi­tes da mata. Um homem se movi­menta pró­ximo. Outra car­roça passa no local. Muito lixo perto. A pis­cina con­ti­nua silen­ci­osa lá embaixo.

O ele­va­dor abre nova­mente. Nin­guém desce. Uma mulher sai de uma sala do outro lado com uma menina. A garo­ti­nha corre na frente até o ele­va­dor e aperta o botão. Lá embaixo, um senhor pára no meio da pista sem rumo. Ele olha para os lados, pensa e final­mente toma uma dire­ção. Uma moto passa com uma garota de capa­cete rosa na garupa. O fogo cessa. Um avião cruza o céu ao longe. Uma moça rega o jardim de sua casa.

Aqui dentro uma mulher fala ao celu­lar e depois acende a luz. As estre­las come­çam a bri­lhar nas pedras. O céu ainda cla­reia, mas na terra muitas estre­las ama­re­las já bri­lham. Carros con­ti­nuam a passar. Cor­re­dor vazio. Silên­cio.

Detector de estresse

Odeio portas-ele­trô­ni­cas de bancos, e parece que elas me odeiam também. Não há uma única vez que tente passar por elas, sem que aquela voz irri­tante da máquina diga: “objeto metá­lico, por favor, volte e colo­que ao lado”. Acho que eu pode­ria passar pelado que ela ia dizer a mesma coisa. E lá vamos nós. Deixa celu­lar, trava, volta; deixa chaves, trava, volta; deixa óculos, trava, volta. Estava com a mochila car­re­gada de com­pras que tinha feito antes no super­mer­cado. O gerente me olha como um sujeito sus­peito. A mulher atra­vessa a porta e me pede pra abrir a mochila pra ver o que tem dentro. Claro, né? De repente eu pode­ria ter uma bazuca e sair ati­rando em todo mundo lá em cima, inclu­sive em todos os segu­ran­ças arma­dos, depois de roubar todo o dinheiro do banco, né? A von­tade era de jogar a mochila contra aquela porta de vidro e esfre­gar tudo que tinha dentro nas fuças daque­les segu­ran­ças, que se acham os “mai­o­rais” por por­ta­rem uma arma na cin­tura e um colete à prova de balas. Mas como tinha que entrar lá, abri a mochila e mos­trei minhas poten­tes armas de última gera­ção: um pacote de bis­coito cream-cracker, duas latas de leite des­na­tado, oito poti­nhos de Yakult, um guarda-chuva, uma gar­ra­fi­nha d’água, uma boina, um estojo de lente de con­tato, estava dis­posto a reti­rar tudo das saco­las e até abrir as emba­la­gens, tama­nha era minha revolta, quem sabe dentro de uma lata de leite eu não escon­dia quilos de muni­ção, e o guarda-chuva era na ver­dade um fuzil M16.

Con­tudo, vendo que nenhum desses obje­tos era sufi­ci­ente pra rea­li­zar um mega assalto, a segu­rança libe­rou o sus­peito. Era hora de cruzar nova­mente a alfân­dega. Fui pela porta de saída pra não haver risco dela travar de novo, con­tudo... porém... toda­via... entre­tanto... ela travou!! Novi­dade seria se não o fizesse. Final­mente depois de voltar e entrar de novo, con­se­gui pene­trar o solo “sagrado” daquele recinto e seguir a minha dire­ção. Na volta, claro, ela nem se impor­tou comigo. Óbvio, se eu não usei a bazuca lá dentro, saindo é que não iria usar.

Bastidores do censo

O Censo 2010 acabou. Quem foi recen­se­ado, foi. Quem não foi vai ter que se somar às esta­tís­ti­cas do IBGE. Me lembro de que quando cri­ança devo ter pre­sen­ci­ado alguma entre­vista do censo em minha casa. Olhos curi­o­sos ao que per­gun­ta­vam. Achava boni­ti­nho a gente ter que res­pon­der de que cor era, quan­tos cômo­dos havia na casa, se tinha gela­deira, tele­vi­são, vide­o­cas­sete... De alguma forma sabia que esta­vam con­tando o país. Cresci ligado à geo­gra­fia, aos atlas, vendo as esta­tís­ti­cas que o IBGE for­ne­cia desde a vege­ta­ção ao turismo. Mas nunca havia eu mesmo res­pon­dido ao censo. E de uma maneira ou de outra, sempre sim­pa­ti­zei com o tra­ba­lho dos recen­se­a­do­res. Achava inte­res­sante ir de casa em casa fazendo per­gun­tas pes­so­ais aos mora­do­res. Então eis que o Censo 2010 não só me pos­si­bi­li­tou res­pon­der sozi­nho ao IBGE, como fui a campo, ou melhor, aos domi­cí­lios par­ti­cu­la­res per­ma­nente ocu­pa­dos entre­vis­tar os mora­do­res.

O com­pro­misso que tomei comigo mesmo era de ser sim­pá­tico, colher as infor­ma­ções cor­re­ta­mente, escla­re­cer os mora­do­res e dar o melhor de mim para ajudar na cons­tru­ção de um novo retrato do país, que eu pode­ria ver no pró­ximo atlas e saber que fui con­tri­bu­inte com as infor­ma­ções daque­les dados. Bom, com esse pen­sa­mento teve início minha cami­nhada. Come­cei me atra­pa­lhando nas pri­mei­ras entre­vis­tas, ficando rece­oso de veri­fi­car certos dados e cons­ta­tando que lidar dire­ta­mente com as pes­soas seria mais com­pli­cado do que o ima­gi­nado. A sim­pa­tia durou até a segunda esquina e o pri­meiro domi­cí­lio fechado. E havia horas que sentia von­tade de dar uma sacu­dida no mora­dor pra ver se o escla­re­cia. Des­co­bri que a cor do bra­si­leiro é o “moreno”, moreno claro pra ser exato, como afir­mou insis­ten­te­mente uma senhora que não se encai­xava nas cores que o IBGE suge­ria. Alguns recla­ma­vam das per­gun­tas serem demais, outros de serem de menos. Ques­ti­o­na­vam a neces­si­dade de certos que­si­tos: “sane­a­mento básico? Tá muito ultra­pas­sado”, recla­mou uma mora­dora.

Des­cul­pas eram fre­quen­tes. Falta de tempo. “Volte outra hora”. “O que é isso?”. “E o que é IBGE?”. “Isso serve pra quê?”. Tentei ser pres­ta­tivo e per­su­a­sivo o sufi­ci­ente para não ter que voltar outro dia, nem perder a paciên­cia. “Essa hora?”. “Des­culpe, mas durante o dia não tem nin­guém em casa”. Entre­vis­tei por inter­fone, com mora­dor na janela do pri­meiro andar, bati palmas, bati em portas até minhas falan­ges muda­rem de cor, berrei em pré­dios fecha­dos, aper­tei cam­pai­nha pra toda uma infân­cia de tra­ves­su­ras, deixei bilhe­tes embaixo de portas, peguei gente de toalha, de pijama, pelado, segu­rei bebê no colo, recebi cuspe de cri­ança falando em cima de mim, entrei em ambi­en­tes som­brios, me con­fun­di­ram com ladrão e fui recep­ci­o­nado por muitos ami­gui­nhos pelu­dos. Fazendo jus­tiça, muitos cães se mos­tra­ram bem mais evo­lu­í­dos que seus donos no que­sito recep­ção. Fiz até ami­zade com alguns que me avi­sa­vam se seus donos já esta­vam em casa. No meio disso tudo estava apenas um recen­se­a­dor que pre­ci­sava con­cluir seu setor.

Depois de algum tempo as per­gun­tas saíam auto­ma­ti­ca­mente. Eu aci­o­nava o piloto auto­má­tico e seguia: “o domi­cí­lio é pró­prio? quan­tos banhei­ros exis­tem? morava alguém no exte­rior...? 31 de julho de 2010?...” E por aí seguia. Peguei muitas famas no ser­viço de moto-táxi, já que em várias oca­si­ões quando tive que tra­ba­lhar à noite, dava pontos dife­ren­tes como refe­rên­cia. A prin­cí­pio fui o evan­gé­lico devoto da Uni­ver­sal do Reino de Deus. Cada noite era mora­dor de um edi­fí­cio novo. Às vezes pedia que me pegas­sem em postos de gaso­lina ou em esqui­nas. Batendo ponto? Deviam pensar, tendo em vista o ambi­ente em volta ter sua fama pró­pria. Vi um pouco a cara do país nas pes­soas que me rece­biam. Encon­trei gente hos­pi­ta­leira, sim­pá­tica, dedi­cada em con­tri­buir para as esta­tís­ti­cas e encon­trei gente inde­li­cada e arro­gante que res­pon­diam àquele pobre recen­se­a­dor como a um favor. Diver­sos tipos pas­sa­ram pelo meu cami­nho. Diver­sas situ­a­ções. Me sur­preendi uma noite quando des­co­bri que a mulher alta que entre­vis­tava, na ver­dade era um “meni­ni­nho”, como se defi­niu ao se refe­rir ao seu nome mas­cu­lino.

Aos poucos, na cor­re­ria, na impa­ciên­cia, na pres­são do tempo, fui des­co­brindo que o tra­ba­lho dos recen­se­a­do­res não era sim­ples­mente entrar nas casas per­gun­tando isso e aquilo. Con­sis­tia na ver­dade em um grande apa­rato que envol­via não só a minha dis­po­si­ção em per­gun­tar, como a dis­po­si­ção dos mora­do­res em con­tri­buir. A falta de escla­re­ci­mento das pes­soas em rela­ção ao censo e ao IBGE foi bem maior do que pensei. Des­co­bri um mundo que a mídia e a soci­e­dade con­si­de­ram extinto, mas na rea­li­dade ele ainda existe. Per­gun­tar se as pes­soas sabem ler... “Claro” era a res­posta da mai­o­ria. Mas ainda exis­tem anal­fa­be­tos, mais do que deve­ria. E o sane­a­mento básico falta em muitos luga­res ainda.

Toda­via, foi gra­ti­fi­cante entrar assim mesmo na casa de muitos bra­si­lei­ros, pes­soas que nunca havia visto, sentir as ener­gias de cada local, os sor­ri­sos com­par­ti­lha­dos, as caras fecha­das, as ajudas, as lam­bi­das. Des­co­bri que exis­tiam pes­soas que alme­ja­vam também res­pon­der ao censo pela pri­meira vez, cri­an­ças curi­o­sas me olhando mexer na maqui­ni­nha, como eu olhava para o recen­se­a­dor ano­tando no papel. Pouco antes de ter­mi­nar meu último setor, me vi dis­cu­tindo com o dono de um blog que postou algo falando mal do censo. Tomei as dores do IBGE. Acho que vesti a camisa e isso sig­ni­fica no mínimo, que se acre­dita naquilo que se faz, ou resu­mindo, um tra­ba­lho bem feito. Pois não acho que toma­ria as dores do Sebrae quando estive lá, ou de uma empresa de comu­ni­ca­ção. E de certa forma, ter feito um tra­ba­lho, onde a prin­ci­pal fer­ra­menta era a entre­vista, me trouxe de volta ao uni­verso do jor­na­lismo, e me fez ava­liar minhas pos­sí­veis defi­ciên­cias na área. E do censo leva­rei mais um apren­di­zado: tratar bem o recen­se­a­dor que à minha casa for, no censo de 2020.

Questão de números

E naquela noite eu pre­ci­sava deixar uma cópia do nosso docu­men­tá­rio com a colega de tra­ba­lho da minha amiga Ana Célia, antes de pegar o ônibus pra casa. Cha­ma­vam essa colega popu­lar­mente de Galega, e fui infor­mado que ela resi­dia no mesmo con­do­mí­nio que eu, era apenas uma ques­tão de letras e núme­ros. Aban­do­nei o U404 em dire­ção ao E101. Ao chegar cons­ta­tei que o inter­fone não fun­ci­o­nava. Have­ria de espe­rar alguma alma cari­dosa surgir ali com uma chave que me per­mi­tisse entrar no bloco. Mas o tempo era meu ini­migo também. Como o apar­ta­mento que pro­cu­rava era no térreo, decidi dar a volta e chamar pela Galega na varanda. Ao passar pela janela do quarto, notei que havia uma moça no com­pu­ta­dor. Deduzi que seria a filha dela, já que haviam me infor­mado que tinha uma. Che­gando à varanda, rapi­da­mente come­cei a bater palmas, porém, nin­guém apa­re­ceu. Bati de novo. E de novo. Nada! Como assim? Havia gente no quarto.

Retor­nei à janela do quarto. Não havia mais nin­guém lá. Só um com­pu­ta­dor ligado e uma cor­tina voando na janela. O que pode­ria ter acon­te­cido? Voltei a varanda. A menina deve ter ido pra lá. Mas nada! Também não havia nin­guém lá. Foi quando me aco­me­teu que a garota pode­ria ter se escon­dido de mim. Sim! Agora eu era visto como um ban­dido dentro do meu pró­prio con­do­mí­nio. Não! Mas eu pre­ci­sava deixar o dvd ali antes de viajar. Ela have­ria de me rece­ber. Voltei à janela, onde a cor­tina voando era o único movi­mento que se via no quarto, e come­cei a chamar pela Galega. Infor­mei que estava ali para deixar algo à mãe da garota, e que ela deve­ria entre­gar a minha amiga na agên­cia ban­cá­ria onde tra­ba­lha­vam. Pra­ti­ca­mente implo­rei que a moça apa­re­cesse e só não afir­mei que não era nenhum ban­dido, porque achei pre­vi­sí­vel demais. E se ela resol­vesse ligar pra sín­dica ou pra polí­cia?

Retor­nei ao meu U404, peguei o celu­lar e liguei para minha amiga enquanto vol­tava ao E101. A deixei a par da situ­a­ção. Infor­mei que a Galega não estava no apar­ta­mento e que sua filha havia me con­fun­dido com um ladrão. Mais que depressa, Ana Célia des­liga o celu­lar e liga para a Galega. Porém, nin­guém atende. Óbvio! A Galega havia saído e pro­va­vel­mente não tinha escu­tado o celu­lar tocar. E no apar­ta­mento só estava a ator­men­tada de sua filha, que a essa hora, ou já teria ligado pra alguém, ou teria petri­fi­cado de tanto medo. Resolvi cons­ta­tar. O quarto per­ma­ne­cia no mesmo silên­cio, e a pro­te­ção de tela do com­pu­ta­dor avi­sava que nin­guém havia tocado aquele solo há algum tempo. Se ao menos pudesse entrar no bloco, toca­ria a cam­pai­nha e ten­ta­ria expli­car mais uma vez a situ­a­ção. Que menina com­pli­cada!

Foi quando retor­nando à entrada do bloco, vi uma alma cari­dosa cir­cu­lando dentro. Corri e a mulher abriu a porta. Mal tive tempo de agra­de­cer. Ela olhou pra mim, eu olhei pra ela. Não sei quem per­gun­tou pri­meiro. Eis a Galega a minha frente. Atô­nito, tentei enten­der o que havia acon­te­cido. Mas logo com­preendi quando vi a porta do E103 aberta. Por algum motivo, me infor­ma­ram o número do apar­ta­mento errado. Não sei se agra­de­cia por ver final­mente a Galega e poder entre­gar o vídeo, ou se esga­nava quem havia me pas­sado a infor­ma­ção errada. Mais uma espi­ada dentro do apê dela, encon­trei a sua filha, uma garo­ti­nha bem menor do que a moça do E101. Entre­guei o dvd e saí dali. Pensei na garota do outro apar­ta­mento. Esta­ria ainda escon­dida espe­rando seus pais che­ga­rem para lhes rela­tar em solu­ços, o perigo que havia lhe ocor­rido àquela noite? Pensei em ainda ir lá na janela e escla­re­cer que tudo não passou de um engano e que ela pode­ria voltar ao com­pu­ta­dor tran­quila, mas achei que ela não acre­di­ta­ria e já tinha sido trau­ma­ti­zada demais pra uma noite.

Quando o velho som de novo

E dei pra ouvir Elis Regina. Sabe quando somos cri­an­ças que sonha­mos em ter um deter­mi­nado brin­quedo, fica­mos amo­le­cendo os cora­ções dos nossos pais para ganhar aquele jogo, aquele boneco, numa fixa­ção que só passa depois que temos o rebento em nossas mãos? E aí depois que temos per­de­mos o inte­resse em poucos dias. Pois é, comigo acon­te­ceu o con­trá­rio. Em um amigo secreto não con­ven­ci­o­nal, e o que eu chamo de não con­ven­ci­o­nal? Aquele onde cada um leva um pre­sente unis­sex de um valor padrão e lá na hora cada qual vai esco­lhendo o seu, até nin­guém poder mais trocar, e você ficar na dúvida se levou a melhor ou se foi sor­te­ado com um bichi­nho de pelú­cia ou uma caixa de bombom da Bis. Então, entre o troca-troca de pre­sen­tes, acabei ficando com uma caixa que pare­cia conter uma camisa mas­cu­lina, apesar do peso e do cri­té­rio unis­sex já acusar que não seria. E assim no meio de muito papel picado dentro da caixa, encon­trei um cd de Elis Regina.

Amigo oculto não con­ven­ci­o­nal é mesmo uma grande pega­di­nha. Eu havia com­prado um cd de Ana Caro­lina pen­sando na minha amiga Luci­ene, que por sua vez, havia com­prado o de Elis Regina pen­sando em outra amiga. Resul­tado: nem Luci­ene ter­mi­nou com o cd de Ana Caro­lina, nem Suel­len com o de Elis, que acabou caindo nas minhas mãos. Nunca fui che­gado nas can­ções de Elis Regina, mas achei inte­res­sante ter ganhado um pre­sente que eu não com­pra­ria pra mim. Agora teria a opor­tu­ni­dade de conhe­cer melhor as músi­cas dessa can­tora tão acla­mada pelo público. Fui pra casa, colo­quei o cd pra tocar e juro que tentei gostar das com­po­si­ções, mas as melo­dias me soavam muito for­ça­das, des­co­ne­xas. Salvo algu­mas que já conhe­cia, como Fas­ci­na­ção, Atrás da Porta e Como Nossos Pais, não con­se­gui pegar gosto pelas demais. O cd ficou lá entre as pilhas de cds de segundo esca­lão, aque­les que deixo pra ouvir quando perco o inte­resse nos pre­fe­ri­dos.

E ano vai, ano vem, pensei até em me des­fa­zer daquele ele­mento, dá-lo de pre­sente a quem real­mente mere­cia. Afinal, Suel­len faria mais uso dele do que eu. Mas era um pre­sente, e de uma amiga que hoje mora lá no Amapá, entre os índios e a selva ama­zô­nica (brin­ca­dei­ri­nha). Ainda vou aí, Lu! Então per­ma­neci com ele. E essa semana, dois anos depois de ter ganho o cd, resolvi colocá-lo no som e pela pri­meira vez pude apre­ciá-lo de uma maneira dife­rente. Não sei exa­ta­mente o que se passou, mas come­cei a gostar do que estava ouvindo. E de repente pensei: puxa, isso é bom, por que não vi antes? E a cada música ia des­co­brindo um novo gosto, um novo estilo. Sempre achei que quem escu­tava Elis eram pes­soas de um gosto musi­cal refi­nado. Será que eu ama­du­reci a tal ponto?

Não posso garan­tir que fiquei mais culto por ouvir e gostar das músi­cas de Elis, mas alguma coisa mudou em mim nesses dois anos para que eu pudesse rever a minha opi­nião sobre suas músi­cas. Nem que tenha sido a paciên­cia e a dis­po­ni­bi­li­dade para apre­ciar um estilo dife­rente do que estava acos­tu­mado. Talvez no momento atual suas melo­dias con­si­gam chegar até mim. Como há alguns anos, a imagem de jovens que tentam mudar o mundo e no fim, apesar de todos os esfor­ços, per­ma­ne­cem iguais aos pais, chegou até mim em Como Nossos Pais. Agora, depois da fase de desin­te­resse do pre­sente, che­guei ao perí­odo de êxtase e de curtir adoi­dado, con­tra­ri­ando a ordem natu­ral da ansi­e­dade ao des­pren­di­mento na infân­cia. Só sei que há três dias o cd não sai do som e quem passa lá só me vê escu­tando Elis Regina.

Um hipocondríaco no Rio

Fazia alguns meses que havia tomado essa deci­são. Quero ir ao Rio. Pre­ciso conhe­cer essa cidade que sempre me des­lum­brou e me atrai como um ímã. E a opor­tu­ni­dade de embar­car com uma turma do curso de filo­so­fia em um con­gresso em Nite­rói era quase que ina­cre­di­tá­vel pra me acor­dar pra vida. Mas poucos dias antes da viagem que não seria nada con­for­tá­vel, no mínimo uns dois dias dentro de um ônibus atra­ves­sando o país, come­cei a me sentir dife­rente. Uma can­seira do nada, pal­pi­ta­ções, vista can­sada. Sem falar na crise de gar­ganta que ace­nava sua che­gada. Talvez a tensão, a ansi­e­dade. Na vés­pera de viajar fui ao meu psi­qui­a­tra e rela­tei o que sentia. Receita na mão, medi­ca­mento com­prado e embar­que garan­tido no dia seguinte. E claro, como bom hipo­con­drí­aco que se preze, uma far­má­cia inteira dentro da mochila. Entre estra­nhos, qui­e­tos e excên­tri­cos, eu, Suel­len e Cris, que irí­a­mos apre­sen­tar uma esquete (pequena peça) sobre os textos de Medeia e Gota D’água, durante a apre­sen­ta­ção do tra­ba­lho de Suel­len. Apesar do enfado, foi uma viagem tran­quila, por momen­tos até diver­tida. Só tinha que ficar atento aos horá­rios dos anti-infla­ma­tó­rios e anti­bi­ó­ti­cos para a gar­ganta. E quando o cora­ção dis­pa­rava um pouco mais, res­pi­ra­ção pro­funda e com­pri­mi­dos para rela­xar. Se batesse aquele enjôo, sacava um Dramin e tudo resol­vido.

Com todo esse reforço far­ma­co­ló­gico, che­ga­mos ao tão sonhado Rio de Janeiro. Todos os sin­to­mas que eu pudesse ter sen­tido durante a viagem se esva­í­ram quando vi ainda de Nite­rói aquela imagem peque­nina do acla­mado Cristo Reden­tor. Olha! O Pão de Açúcar! É, real­mente está­va­mos ali. Desci com cui­dado do ônibus para poder pisar pela pri­meira vez em solo flu­mi­nense. Uau! Che­ga­mos ao para­íso. Um pouco mais quente do que se pen­sava, mas ainda assim, des­lum­brante. Fomos enca­mi­nha­dos de mala, cuia, bacia e ben­gala (ser ator tem seus vexa­mes) ao nosso alo­ja­mento. Não era o Copa­ca­bana Palace, mas pra mim já estava de bom tama­nho. A cada momento che­gava mais gente de todo buraco do país. Era um car­na­val de sota­que. Até quis brin­car de “advi­nha de onde eu sou?”, mas rolou um certo pre­con­ceito com quem não for­çasse o “r” ou chi­asse no “t”. Teve uma dis­cus­são inte­res­sante acerca do orga­ni­za­dor do evento ser gay, porque des­ti­nou os melho­res banhei­ros aos homens com direito a espe­lho e ducha pri­vada, enquanto as mulhe­res sofriam em duchas cole­ti­vas e aper­ta­das. Mas no fim chegou-se a con­clu­são que a orga­ni­za­dora era que deve­ria ser lés­bica, porque pode­ria ver toda a mulhe­rada nua tomando banho.

No mesmo dia, depois de atra­ves­sar a Baía de Gua­na­bara de barca e fazer uma visita à famosa praia de Copa­ca­bana, caímos num sono mere­cido e final­mente livre do des­con­forto das pol­tro­nas do ônibus, apesar de termos dor­mido com a luz acesa, pois nos avi­sa­ram que se apa­gas­sem a luz os ven­ti­la­do­res também des­li­ga­vam, e no meio da noite acor­dei der­re­tendo com a danada da luz acesa e os ven­ti­la­do­res para­dos zom­bando de mim. Ama­nheci já tenso com tudo isso. Depois enfren­ta­mos uma fila do tama­nho da ponte Rio-Nite­rói para com­prar o ticket do nosso almoço no res­tau­rante uni­ver­si­tá­rio, e outra maior ainda para entrar. O calor e a mul­ti­dão come­ça­ram a me inqui­e­tar. Uma can­seira nas pernas, cora­ção ace­le­rou. Olhava o Cristo e a sen­sa­ção aumen­tava. E no dia seguinte ainda teria a nossa apre­sen­ta­ção da esquete. Almo­cei e de volta ao alo­ja­mento tentei dormir um pouco. Inútil. Acor­dei pior. O cora­ção ia sair pela boca, uma tre­me­deira. “Vou ter um infarto, uma parada car­dí­aca”. Lá fomos eu, Suel­len e Cris de táxi ao hos­pi­tal mais pró­ximo evitar que o ônibus retor­nasse com um pas­sa­geiro a menos.

Nossa pri­meira parada foi no Hos­pi­tal das Clí­ni­cas de Nite­rói. Requinte até no lixeiro. Ainda bem que plano de saúde serve para isso. Ao menos no nor­deste. Não acei­ta­ram minha Unimed. De volta à rua com um paci­ente à beira de um colapso, saímos sem des­tino em busca de outro hos­pi­tal ou um táxi. Nessas horas é que acre­dito na inter­ven­ção divina. Aca­ba­mos nos des­lo­cando exa­ta­mente ao hos­pi­tal que uma moça do alo­ja­mento havia indi­cado. Che­ga­mos e a notí­cia é que a situ­a­ção era pre­cá­ria, e nem a emer­gên­cia estava fun­ci­o­nando, só em casos extre­mos. Mas o meu era extremo! Saí do nor­deste pra morrer em Nite­rói, sem conhe­cer o Cristo, Ipa­nema, Leblon, o Jardim Botâ­nico? Fomos avi­sa­dos de outro hos­pi­tal duas esqui­nas dali, mas que a situ­a­ção também era seme­lhante. Resol­ve­mos arris­car. Fomos na recep­ção, fize­mos uma ficha e pouco tempo depois um moço des­con­tra­ído nos aten­deu. Tinha uma tran­qui­li­dade na voz que até rela­xei um pouco. Ele então nos enca­mi­nhou a uma médica em outra sala. Uma moça jovem também, sim­pá­tica, mas não tanto quanto o rapaz, me exa­mi­nou, per­gun­tou o que eu sentia, segu­rou meu braço, que não parava de tremer e sentiu o pulso por alguns segun­dos. Diag­nós­tico: crise ner­vosa! Medi­ca­mento: 10mg de dia­ze­pam.

Saber que não estava em pro­cesso de infarto e que meu cora­ção fun­ci­o­nava bem foi tran­qui­li­zante. Sentei na enfer­ma­ria à espera do meu medi­ca­mento. Foi aí que Suel­len resol­veu pensar alto: vai dormir por uns dois dias. “O quê?! Como assim? Não! Não vou dormir por dois dias aqui. E a esquete amanhã? E o Rio todo ainda a conhe­cer?” Para com­ple­tar uma senhora come­çou a se tremer toda numa cadeira a minha frente. Outros gemiam. Saí de fini­nho em dire­ção a saída, enquanto Suel­len ten­tava tran­qui­li­zar a senhora. Quando a enfer­meira chegou com o meu medi­ca­mento, cadê o senhor Fran­cisco Samuel? Cris queria sumir em meio àquilo tudo. Lá Suel­len me pro­cura pelo hos­pi­tal, até me encon­trar do lado de fora. “Entra já e vai tomar aquele remé­dio, ou eu não apre­sento a esquete amanhã”. – “Mas se eu tomar e dormir, não vamos apre­sen­tar do mesmo jeito”. A dis­cus­são rolou ainda alguns minu­tos até que ter­mi­nei entrando e tomando. Ela foi con­vin­cente. Fica­mos ainda um tem­pi­nho por lá e fomos embora. Até boa parte da noite, as pal­pi­ta­ções sumi­ram. Mas algu­mas horas depois retor­na­ram. Tentei dormir, mas o efeito cola­te­ral do remé­dio ficou no mito. Passei a noite em claro.

Saímos para a apre­sen­ta­ção pela manhã e eu só rezava para não cair no meio dela. Res­pi­rava fundo, ten­tava manter o equi­lí­brio, meio difí­cil para quem sofre também de labi­rin­tite. Mas enfim, con­se­gui­mos apre­sen­tar o tra­ba­lho, e olha, não passei mal durante a apre­sen­ta­ção. Na ver­dade, me senti extre­ma­mente dis­posto ao final. Tanto que já queria atra­ves­sar a Baía de novo e sair explo­rando o Rio. O que aca­ba­mos fazendo nos dias seguin­tes. Conheci tudo que dese­java, fui até guia de Suel­len em algu­mas para­das, sem nem per­gun­tar ao cobra­dor onde descia. Resolvi o pro­blema da luz acesa, des­co­brindo onde apa­ga­vam as luzes sem des­li­gar os ven­ti­la­do­res. E aquele mal estar? “Qual?” Me senti tão bem nos outros dias que enfren­ta­ria mais um mês ali. Na volta pra casa estava tão exul­tante com tudo que tinha conhe­cido que esqueci até dos horá­rios dos anti-infla­ma­tó­rios. Fui um dos mais ani­ma­dos, enquanto boa parte da galera vol­tava com gripe, crise de gar­ganta, febre. Aí nesses momen­tos que é bom ter um amigo hipo­con­drí­aco por perto. A far­má­cia da minha mochila foi o ban­quete e a sal­va­ção de todos.

Antes da alvorada

Luz apa­gada no quarto. Apenas o brilho do com­pu­ta­dor ilu­mina o ambi­ente. Os incen­sos de cravo e sete ervas quei­mando no para­peito interno da janela. A noite aba­fada não per­mite que o ar cir­cule. A cama pre­pa­rada para dormir. O canto dos galos à dis­tân­cia. Lati­dos de cachor­ros do outro lado da ave­nida. Nuvens em for­mato de gol­fi­nhos per­cor­rem o céu. O silên­cio! E o ran­gido da cadeira gira­tó­ria. Cada coisa em seu lugar. A mochila encos­tada à parede. A coberta da cama no tapete. O tênis no canto do chão. A toalha molhada esten­dida na porta. Vou à janela. Os carros esta­ci­o­na­dos. As luzes apa­ga­das nos apar­ta­men­tos. O mur­mú­rio da noite. A cidade dorme. O cheiro do repouso per­cor­rendo as nari­nas. Final­mente uma brisa em meu rosto. A por­ta­ria, o esta­ci­o­na­mento. O mesmo ponto de vista. A mesma alti­tude. O mesmo anseio: pular! Pular não! Voar!

Aqui dentro o vazio, a qui­e­tude, o aban­dono. Na cabeça o medo, a dúvida, a inse­gu­rança. Lá fora, o leão des­cansa. Em poucas horas o agito, a mudança, a per­se­gui­ção. A cama a me agar­rar, o ensaio daquela peça, o filme a assis­tir no dvd, o sham­poo que acabou, o com­pri­mido a engo­lir, a conta da pada­ria, as lei­tu­ras a apre­sen­tar. Ani­ver­sá­rios vêm. Ani­ver­sá­rios vão. Pro­mes­sas, sonhos, fan­ta­sias, olho gordo, sim­pa­tias. A moti­va­ção que chega. A cora­gem que leva embora. O tédio! Baru­lho lá embaixo. O portão se abre. Um carro em movi­mento. Mais alguém a par­ti­lhar as horas. No Twit­ter já não há quem cir­cule. Aos poucos tudo se aco­moda. E pelo quarto só os incen­sos con­ti­nuam a se redu­zir dese­nhando sua fumaça pelo ar.

Já não há o que pensar. Fome, sono, insô­nia e nin­guém a des­de­nhar. Nenhuma men­sa­gem no e-mail, nenhum comen­tá­rio no blog, nenhuma notí­cia que não conheça, nenhum amigo online, nenhum vento na cor­tina. Só os incen­sos e eu! O nevo­eiro ine­bri­ante que sai das hastes e per­corre os con­tor­nos da janela, encon­trando a saída e sumindo na cegueira da noite. Aquela chama ver­me­lha libera uma torre de cinzas que se espa­lha até o chão. Agora somos só eu e ela, preen­chendo o meu vácuo como a bruma de um atre­vido cigarro ou um deri­vado da can­na­bis sativa aden­trando os pulmões e entor­pe­cendo os sen­ti­dos.

Aspiro o seu aroma e a jacente melan­co­lia se irrompe numa intensa gar­ga­lhada. Não con­sigo repri­mir. Posso acor­dar as pare­des, os apar­ta­men­tos, os e-mails, as nuvens e o vento. Amanhã terei uma multa na porta e uma dor late­jante no juízo. Tudo é diver­tido. Sopro mais cinzas e abo­ca­nho as laba­re­das. Quero mer­gu­lhar no mis­ti­cismo da noite. O vazio é preen­chido e o medo se tra­veste de ousa­dia. Tudo posso antes dessa alvo­rada. Sorrir, xingar, bater, pular, chei­rar, saltar, voar. E por fim com a queda dos últi­mos resí­duos, também caio e salto exausto no recon­forto da cama.

Esperando o efeito passar

– Você faz enge­nha­ria?

Havia aca­bado de assis­tir a mais um filme das come­mo­ra­ções do cen­te­ná­rio de Chico Xavier, e ainda envolto de emo­ções cami­nhava em busca da saída do shop­ping. Pes­soas pas­sando por mim e minha mente ainda nos 110 minu­tos que fica­ram na tela. Che­guei à saída, mas não podia ir embora ainda, pre­ci­sava res­pi­rar um pouco o ar fresco daquela noite. Olhei em volta, todos os ban­qui­nhos esta­vam ocu­pa­dos. Fiquei parado por alguns segun­dos na espe­rança que alguém aban­do­nasse um deles e eu pudesse me sentar. Ao olhar mais ao lado per­cebi que em um dos bancos havia somente uma moça sen­tada. Resolvi ir até lá e ocupar o espaço res­tante. Da maneira sor­ra­teira que me apro­xi­mei, atra­ves­sando até alguns galhos de pal­meira, me sur­preendi pela moça não pensar que iria assaltá-la. Sentei, colo­quei a mochila em meu colo e fiquei revi­vendo todas as sen­sa­ções que o filme tinha me pro­por­ci­o­nado. Olhei para a moça do meu lado enquanto ela olhava na outra dire­ção e tudo pare­cia tão sem impor­tân­cia tama­nha a dimen­são do que aca­bara de assis­tir. Ela então se voltou para o meu lado e eu des­viei o olhar.

Mais alguns minu­tos, um rapaz apa­re­ceu e come­çou a con­ver­sar com ela sobre uma moto. Parece que a moto dele estava com pro­blema e seria pre­ciso levá-la até a ofi­cina mais pró­xima. Ele não pare­cia abor­re­cido. Pelo horá­rio a ofi­cina esta­ria fechada, mas ele havia tele­fo­nado ao pro­pri­e­tá­rio que auto­ri­zara levar o veí­culo até lá. Ele saiu então e logo o vi pas­sando por nós empur­rando uma Biz. A moça pegou o celu­lar e ligou para alguém. Queria con­fir­mar com uma amiga se iriam sair mais tarde, e enquanto nar­rava o pro­blema com a moto do namo­rado, lamen­tava pro­va­vel­mente não poder ir. Des­li­gou o celu­lar, olhou para os lados e entrou nova­mente no shop­ping. Eu, porém, nem pude me esten­der um pou­qui­nho mais no banco. Logo uma senhora e um rapaz se apro­xi­ma­ram como se encon­tras­sem os últi­mos ingres­sos para um show de rock. Com sua baga­gem bas­tante espa­çosa, fiquei bem mais expri­mido no espaço que me restou do banco. Puxei meu braço debaixo de sua axila, quando ela se virou para mim, me exa­mi­nou e saiu com essa: – Você faz enge­nha­ria?

Pensei: “quem é essa mulher? Será que está me con­fun­dindo com alguém?” Então a olhei sur­preso, e neguei sua per­gunta. Sua expli­ca­ção era óbvia. Quando vê alguém da minha idade com uma mochila nas costas já sabe que faz enge­nha­ria na UFCG. Afinal, que outro curso alguém que usa mochila pode­ria fazer, não é ver­dade? Não, minha senhora, eu uso mochila sim­ples­mente porque gosto. Claro que ela não se con­ten­tou com o fato de ter errado seu pal­pite e o inter­ro­ga­tó­rio teve início.

– Ter­mi­nei jor­na­lismo. – res­pondi.

– Na UEPB? O curso é bom? Quer dizer que tudo depende do aluno. Se fizer um curso bem feito vai ter algum futuro, agora se for como eu fiz Ser­viço Social, aí já era, não con­se­gue nada. Ô “cur­so­zi­nho” difí­cil e mal feito esse que eu fiz. Você é daqui?

– Não. Rio Grande do Norte.

– Ah, então a gente pode falar mal da cidade. Porque pense numa cidade sem nenhum lazer e cheia de gente metida. Eu aguento porque não tenho outra opção. Olha esse trân­sito! Já viu coisa mais absurda? Todo mundo quer passar na frente. Tá cheio demais aqui pra mim. Lá no Ceará também é assim? Eu penso que é só aqui.

– Rio Grande do Norte. – enfa­ti­zei.

– Ah, é. Natal!

– Não. Eu sou do inte­rior.

– Ah, então não deve ter nem trân­sito, né?

– Olha que incrí­vel. Tem! – afir­mei numa ironia que não sei de onde arran­quei.

– E tem? (numa admi­ra­ção impres­si­o­nante). Mas garanto que não é como esse inferno aqui. E espere aí, você saiu de lá e veio fazer facul­dade aqui? Não tinha nenhuma por lá, não? Ah, é porque é inte­rior, né? Tá certo.  Eu já fui ao Rio Grande do Norte. Natal é mara­vi­lhoso. Natal! – enfa­ti­zou bem no final.

Fiquei cá comigo. Claro, minha senhora! Que outro lugar no Rio Grande do Norte pode­ria ser tão exu­be­rante quanto a capi­tal? Se até Cam­pina Grande era ínfima aos anseios daquela cidadã, ima­gi­nem todo o inte­rior de um outro estado que a seu ver deve­ria ser igual ou pior ao que nos encon­trá­va­mos.

– Você gosta daqui? – con­ti­nuou inves­ti­gando para saber se pode­ria pros­se­guir o tricô e ainda fazer um babado.

– Gosto!

– É, a gente se acos­tuma com o que tem. Já conheci muita gente que diz só sentir falta daqui depois que sai.

– A senhora é de onde? – agora quem não aguen­tou de curi­o­si­dade fui eu.

– João Pessoa! Meu marido que é cam­pi­nense.

Ah, tá. Agora entendi. Pri­meiro mundo. Outra cul­tura. Tem­pe­ra­tura amena. Cento e vinte qui­lô­me­tros de uma rea­li­dade bem dis­tante da nossa. O rapaz ao seu lado, que pare­cia seu filho, trans­pa­re­cia o incô­modo que aquela con­versa estava gerando ali atra­vés da faci­li­dade daquela mulher em esta­be­le­cer diá­lo­gos tão “agra­dá­veis” com estra­nhos. Ainda bem que o carro de seu marido chegou e ela saiu cor­rendo com o garoto entre o trân­sito caó­tico que des­cre­veu. Ainda escu­tei seu “tchau”. “Tchau, senhora! Cui­dado com os raios UV mesmo à noite, afinal a senhora não está acos­tu­mada com um clima tão mir­rado”. Ainda tentei redi­re­ci­o­nar meus pen­sa­men­tos nova­mente ao filme, mas um novo casal se apro­xi­mou do banco com um filho pequeno.

A mulher e a cri­ança sen­ta­ram e o homem per­ma­ne­ceu em pé. Esses ao menos não eram dados a coló­quios com estra­nhos. E depois de acen­de­rem um cigarro cada, e do homem afir­mar que dese­ja­ria passar mal toda vez que iria fumar na ten­ta­tiva de parar, se levan­ta­ram e foram embora. Agora o banco era só meu. Nenhuma ameaça de inva­são. Só eu e meus pen­sa­men­tos. Foi quando lá dis­tante come­cei a escu­tar a música A Whiter Shade of Pale da banda bri­tâ­nica Procol Harum que vinha de não sei onde. A canção famo­sís­sima na década de 60, deten­tora de uma nos­tal­gia sem igual e que recen­te­mente esteve na série Afinal, O Que Querem as Mulhe­res? da Rede Globo, sendo a música pre­fe­rida do per­so­na­gem prin­ci­pal. Com essa defi­ni­ti­va­mente des­per­tei de qual­quer estado que o filme As Mães de Chico Xavier pudesse ter me dei­xado. Voltei rapi­di­nho ao mundo real, peguei minha mochila, colo­quei nas costas e fui embora dei­xando o banco vazio, enquanto a canção con­ti­nu­ava soando ao fundo como uma trilha sonora. Minha ou do banco?

Os incensos

E mais uma vez me pegava com­prando mais de dez paco­ti­nhos de incenso na loja. Sempre que isso acon­te­cia, algum fun­ci­o­ná­rio me dava uma rápida olha­dela para con­fe­rir a figura que estava se pre­pa­rando para uma grande sessão de des­car­rego. Isso não me inco­mo­dava. Minha ami­zade com os incen­sos teve início quando eu ainda era cri­ança e minha mãe apa­re­cia aqui acolá com algum, que ganhava como brinde de uma revista. Depois quando via­já­va­mos para Natal nas férias, sempre com­prá­va­mos alguns na loji­nha Arte Final do shop­ping. O chei­ri­nho que exa­lava de lá era tão bom, tão agra­dá­vel, que nunca pas­sá­va­mos sem com­prar ao menos um paco­ti­nho. Era um ver­da­deiro alu­ci­nó­geno.

Quando fui para Cam­pina Grande, vez por outra, minha mãe levava algum para o apar­ta­mento. Eu também com­prava quando estava sozi­nho. Mas foi depois do teatro que passei a apre­ciar mais a essên­cia deles. A cada ensaio, Chico acen­dia um ou dois, espa­lhava pelo ambi­ente e dei­xava quei­mando enquanto a gente se aque­cia. Nas apre­sen­ta­ções eles também esta­vam pre­sen­tes, afas­tando qual­quer inter­fe­rên­cia nociva e equi­li­brando o espaço com boas ener­gias. O resul­tado final era sempre bom, se era con­tri­bui­ção dos incen­sos, eu não sei, mas era melhor con­ti­nuar com eles.

Por fim, eu mesmo já os estava levando para os espe­tá­cu­los. Enquanto todo mundo se pre­pa­rava para a apre­sen­ta­ção, eu acen­dia alguns pelo cama­rim e pelo palco e dei­xava a fumaça tomar conta. O aroma, a chama e as cinzas que caíam, me tran­qui­li­za­vam, me leva­vam con­forto, trans­for­ma­vam aquele lugar num peda­ci­nho do meu lar e estrei­ta­vam os laços entre mim e o palco. A partir daí passei a com­prar gran­des quan­ti­da­des e espa­lhar ao menos um em cada cômodo do apar­ta­mento. Me banhava de sân­dalo, cravo, mirra, flor de laran­jeira, ben­joim, canela. Muitas vezes dava para se sentir o per­fume ainda das esca­das.

Até que uma vez, ao rece­ber a visita de um amigo, que se mos­trou curi­oso com a quan­ti­dade de vare­ti­nhas quei­ma­das sobre um pequeno jarro na janela, fui cha­mado a aten­ção para uma curi­o­si­dade. Como eu, ele também gos­tava de incenso, mas me disse que não acen­dia muito porque os vizi­nhos podiam pensar que ele chei­rava mari­ju­ana. Sim! Eu não sabia, mas os che­ga­dos na can­na­bis, cos­tu­mam acen­der incen­sos para camu­flar o cheiro da maco­nha em volta.

Nesse momento, eu me lem­brei das vezes que os fun­ci­o­ná­rios das lojas me olha­vam quando eu pas­sava com toda aquela quan­ti­dade de incenso no caixa. Vai ver eles não pen­sas­sem que eu iria fazer um des­car­rego, mas a con­fra­ter­ni­za­ção dos amigos da folhi­nha. Lem­brei também das minhas ses­sões de puri­fi­ca­ção e dos vizi­nhos que pas­sa­vam me olhando quando eu saía do apar­ta­mento e o aroma me acom­pa­nhava. De repente tudo ganhara uma outra dimen­são. Eu era o novo maco­nheiro do con­do­mí­nio. De hippie é que eu não tinha cara. Foi um epi­só­dio engra­çado, mas de uma coisa eu tenho cer­teza, deixar de com­prar meus bas­tõe­zi­nhos por fama de maco­nheiro ou macum­beiro é que não vou mesmo.

Tema Crônicas 34 textos

De Volta Para O Passado

Esse aqui é pra recor­dar! Pra quem viveu uma das melho­res épocas do mundo. Estava dando uma olhada nos meus arqui­vos no com­pu­ta­dor e por sorte acabei encon­trando um slide que minha prima Agda havia me envi­ado há algum tempo. O nome do slide era “Melho­res Momen­tos da Vida”. A cada página uma volta aos anos 70 e 80. As séries, os dese­nhos, os brin­que­dos e carros que fize­ram sucesso, enfim, deta­lhes de quem teve a sorte de passar a infân­cia em um mundo de cons­tante trans­for­ma­ção. Tudo bem que eu não tenha estado pre­sente nos anos 70, mas muitas de suas carac­te­rís­ti­cas se esten­de­ram até os anos 80 e as destes até início dos 90.

Para come­çar, que tal calçar um tênis All Star, pegar carona no pri­meiro che­vete que passar, parar na bodega da esquina e com­prar um tablete de Chi­clets ou mesmo um Cho­co­late Sur­presa e seguir para a Caverna do Dragão? Seria uma aven­tura de outro mundo. Quem sabe De Volta Para o Futuro? Pode­rí­a­mos conhe­cer outros seres como uma tal de For­miga Atô­mica, He-man, Shirra. Ah, ouvi falar de um grupo de defen­so­res japo­ne­ses que usam roupas colo­ri­das e capa­ce­tes para lutar contra mons­tros, eles são cha­ma­dos de Flashman e Cha­ge­man. Tem ainda outro mais conhe­cido como Jas­pion.

Essa viagem parece que não tem fim. Quanto mais se anda, mais recor­tes e figu­ras são des­co­ber­tos no cami­nho. Vejam só aquele grupo de duen­des pedindo carona ali na frente. Todos azuis com toucas bran­cas e ver­me­lhas. São os Smurfs. Eles estão fugindo da sua aldeia nos cogu­me­los dis­tan­tes para esca­par do fei­ti­ceiro Gas­ga­nete e do seu gato Azarel. Se olhar­mos para o leste, vamos ver a casa dos Muppet Babies. Vários ani­mai­zi­nhos de brin­quedo com uma ima­gi­na­ção muito ativa, que só se dis­persa quando a dona Nanny apa­rece. Olha aquele jar­di­neiro de boche­cha gorda e cabelo de pano ace­nando pra gente ali na frente. Ele é um Fofão!

E o mundo dos brin­que­dos se apro­xima. Vejam essa mon­ta­nha enorme de Cigarro de Cho­co­late. Dizem que ela foi cons­tru­ída pelos Play­Mo­bil e que atrás dela existe um Banco Imo­bi­liá­rio. Nossa! Olhem só aquele labi­rinto de pega-vare­tas. E aquele bate-bumba da Estrela brin­cando com um vai-e-vem. O che­vete agora pega outra dire­ção. Vamos mudar de auto­mó­vel. Vamos embar­car num Corcel e seguir pela estrada de tijo­los ama­re­los em dire­ção ao mundo Mágico de Oz. Vejam aque­les quatro atra­pa­lha­dos ali na frente. Ah, são Os Tra­pa­lhões se pre­pa­rando para pro­du­zir mais um filme. Olha! O Zaca­rias acenou. Ei, vejam ali aquele cavalo roxo e aquela menina loira mon­tada nele subindo em dire­ção a um portal no céu. Ela grita: Cavalo de Fogo!

Nossa! Estão ouvindo essa música que chega aos pou­qui­nhos vindo lá de longe? É um ritmo bem dan­çante. Agora escuto per­fei­ta­mente. É o Kaoma! Vamos descer e nos juntar a eles “...e o sol nos levar pelas águas do mar, nessas ondas dourar um pedaço de nós, hey, venha pra dançar, dançar, mexa sem parar, deixa o corpo lambar, deixa a hora passar, passar...”. Como eles são sim­pá­ti­cos!

É, parece que está ficando tarde. Melhor voltar pra casa. Vamos pegar uma Belina e nos diri­gir aos nossos apo­sen­tos. “Que­rida, che­guei!”. Opa! Acho que errei de ende­reço. Estou vendo uma famí­lia de dinos­sauro dis­cu­tindo na cozi­nha. O pai tenta expli­car a cadeia ali­men­tar ao filho rebelde, a filha passa exi­bindo sua calda recém-che­gada, a mãe tira comida de uma gela­deira cheia de ani­mais, enquanto um bebê joga panela no pai dizendo “não é a mamãe”. Que Famí­lia Dinos­sauro maluca!

Agora sim, vou pegar minha Calói, ir para casa, ligar a TV e assis­tir ao Xou da Xuxa. “Bom, estar com você, ficar com você, deixar correr solto o que a gente quiser...”. Pra encer­rar esse Trem da Ale­gria, só mesmo algo bom­bás­tico como toda a década. Opa! Inva­di­ram a minha porta. O que houve? É um homem loiro com uma arma na mão pedindo para sair de casa porque tem uma bomba aqui. Seu nome? Macgy­ver!

É, parece que fomos longe mesmo! Pena que só na ima­gi­na­ção. São tantos signos que marcam essas déca­das, que torna quase impos­sí­vel lem­brar de todos. Mas espero ter feito real­mente um breve pas­seio na memó­ria de algum sobre­vi­vente desse perí­odo. Algu­mas das séries e dos dese­nhos clás­si­cos que trans­for­ma­ram a ima­gi­na­ção de milha­res de cri­an­ças nas últi­mas déca­das, con­se­gui­ram ser res­ga­ta­dos hoje, mas outros só exis­ti­rão mesmo para sempre na memó­ria de cada um que viveu e ainda vive no cora­ção, os ritmos, os esti­los, as his­tó­rias e as fan­ta­sias desses anos. Afinal não dá mais pra dizer “bei­ji­nho, bei­ji­nho, tchau, tchau” e muito menos “de novo!”.

Velhos Sonhos

O que um per­fume, uma música ou uma ‘novela’ não são capa­zes de fazer. Por mais que as pes­soas tentem me con­ven­cer do con­trá­rio, me chamem de nos­tál­gico, de baú, é ine­vi­tá­vel o fas­cí­nio que desen­volvo e a liga­ção que ainda pre­servo com o meu pas­sado. Somos hoje o fruto neces­sa­ri­a­mente das nossas esco­lhas, dos cami­nhos toma­dos, enfim, do nosso pas­sado. Desde muito pequeno fui encan­tado pelos mais de seis meses de aven­tu­ras e desen­la­ces das tramas da tele­vi­são bra­si­leira. Me inte­res­sava bas­tante as mudan­ças que deter­mi­na­dos per­so­na­gens sofriam, o seu estado ini­cial, as pes­soas que conhe­cia e não conhe­cia no início; e o seu estado final, com as pes­soas que passou a conhe­cer e as que fica­ram pra trás.

Ima­gi­nava que a nossa vida era exa­ta­mente assim. Hoje esta­mos aqui, amanhã ali, hoje conhe­ce­mos algu­mas pes­soas, amanhã outras que nunca vimos esta­rão no nosso cir­culo de ami­za­des. A grande dife­rença é que na tele­no­vela existe o Vale a Pena Ver de Novo para poder­mos embar­car em todos os está­gios como se vivês­se­mos tudo nova­mente. Na vida real, isso não acon­tece. O que passou, passou. No máximo fica alguma foto­gra­fia, um pequeno vídeo, mas todas as etapas nunca mais serão recu­pe­ra­das. O tempo corre, as pes­soas mudam, os sonhos se perdem, os momen­tos são esque­ci­dos. Por quê?

Essa semana acom­pa­nhando alguns capí­tu­los da atual reprise do Vale a pena Ver de Novo, Mulhe­res Apai­xo­na­das, des­co­bri que se liga­mos nossos sonhos, nossos momen­tos a um per­fume, uma música ou mesmo uma tele­no­vela, pode­mos sim revi­ver muita coisa. Esse é o poder mágico que deter­mi­na­das subs­tân­cias têm sobre algu­mas de nossas per­cep­ções. O cheiro atra­vessa o corpo e leva a alma aos luga­res mais remo­tos do tempo, assim como a melo­dia nos faz voltar dez anos em apenas 3 minu­tos. Desse modo, encon­trei outro túnel do tempo que nos faz viajar sem sair de onde esta­mos: a tele­no­vela.

Quem nunca tentou se lem­brar onde estava, o que fazia e até os deta­lhes da sua vida no ano da novela que está sendo repri­sada? É sempre assim, basta passar a pro­pa­ganda da rea­pre­sen­ta­ção que já começa “ah, nessa época eu morava em tal lugar”, “eu lembro que eu sempre perdia o pri­meiro bloco porque estu­dava à noite”, “eu ado­rava dizer tal bordão”. É o pas­sado dizendo “olá” de maneira bem sutil. Do mesmo modo acon­te­ceu comigo.

E M

ulhe­res Apaixo­na­das tem uma impor­tân­cia muito grande quando falo de nove­las que nos lem­bram o pas­sado. Ela foi ao ar no meu pri­meiro ano de cur­si­nho em Natal, um garoto de 18 anos, cheio de sonhos e acre­di­tando fir­me­mente que todos eles pode­riam acon­te­cer. Suas músi­cas eram como trilha sonora dessa minha fase. E assim, sem per­ce­ber, Mulhe­res Apai­xo­na­das se trans­for­mou em um grande deta­lhe da minha vida em 2003. Hoje, escu­tando a melo­dia, vendo os per­so­na­gens, con­sigo até sentir o cheiro do apar­ta­mento, das revis­tas, do bairro, das roupas, o cheiro dos sonhos, de uma fase ines­que­cí­vel.

Quando alguém me pega hoje acom­pa­nhando a novela em alguns momen­tos que tenho para assis­tir, pensa que se trata apenas do gosto por ela, dos con­fli­tos, da his­tó­ria. Não! Acom­pa­nhar Mulhe­res Apai­xo­na­das é como tentar res­ga­tar aque­les momen­tos per­di­dos, aque­les sonhos que enchiam de ale­gria os meus dias. E como gos­ta­ria de poder vivê-los nova­mente, de poder ter outra vez 18 anos, de sonhar... ah, sonhar!!

Sempre com­pa­rando as nove­las com a nossa vida, nem sempre esta­mos satis­fei­tos com o estado final de deter­mi­na­dos per­so­na­gens, pre­fe­rindo até mesmo seu estado ini­cial. Na vida acon­tece o mesmo. Eu tinha bem mais força e paixão pela vida em 2003 do que agora. Res­pi­rava fiel­mente todos os sonhos que hoje a uni­ver­si­dade con­se­guiu des­truir quase total­mente. Posso até estar mais rico em sabe­do­ria do que antes, mas tro­ca­ria tudo pela con­vic­ção e anseio de outrora. Con­tudo, fico feliz que ainda possa recor­dar esse e outros pas­sa­dos mági­cos atra­vés de ele­men­tos incrí­veis que o tempo não pode jamais apagar.

Outro dia baixei pela inter­net o cd Meu Jeito de Ser de Angé­lica de 1993, uma outra grande recor­da­ção. Escutá-lo enquanto dou minha geral no apê uma vez por mês, me trans­forma, eu viajo, grito, tento for­te­mente retor­nar àque­les momen­tos, àque­les luga­res. Nossa! Algu­mas vezes até con­sigo, e q

uando isso acon­tece, a emoção é ine­vi­tá­vel. Não sei como as outras pes­soas pensam, mas o que me faz agüen­tar a sau­dade dessas épocas e só viajar de vez em quando, é a sen­sa­ção de que um dia elas irão voltar, é uma cer­teza de que pode­rei revi­ver algo seme­lhante de novo no mesmo lugar, mesmo que algu­mas vezes parece impos­sí­vel. É como se ainda esti­vesse cons­tru­indo a novela para que um dia ela seja repri­sava nova­mente no Vale a Pena Viver de Novo.

O que há de novo em nós

Ano novo!! Fogos no céu!! Ano novo! Dia de reis! Ano novo! Famí­lia reu­nida! Ano novo! Viagem à Cam­pina! Ano novo! Ensaios de Pluft! Ano novo! Caro­nas com Julio César! Ano Novo! Marley & Eu no cinema! Ano novo! Pipoca e Imagem e Ação em casa com a turma. Ano novo! Pri­meira vez em João Pessoa!! Ano novo!!...

Nem sempre o ano novo é sinô­nimo de vida nova, como afirma esse bordão tão usado a cada ano, em busca de novas espe­ran­ças, de uma reno­va­ção física e espi­ri­tual. Mas o que será que nos faz crer que tudo muda do 31 de dezem­bro ao 1º de janeiro? Talvez o desejo que algo que não foi pos­sí­vel acon­te­cer no último ano possa se rea­li­zar nesse outro. A reno­va­ção dos sonhos, da fé. Con­tudo, um fator será deter­mi­nante para mudar­mos real­mente as expec­ta­ti­vas e os pro­je­tos do novo ano: nós mesmos!

2009 chega pra mim com a pro­messa de ser um ano lite­ral­mente novo na minha vida. A uni­ver­si­dade acaba de me jogar na rua, só não fui atro­pe­lado ainda porque empa­quei na cal­çada com a danada da mono­gra­fia. O teatro me acena dizendo que esse será meu segundo ano dedi­cado a ele. Como garra para isso tenho os resul­ta­dos obti­dos no último ano de esfor­ços no palco.

A cada ano vai ficando mais difí­cil passar o mês de janeiro inteiro em casa. Se em 2008 o Sebrae puxou o meu lençol e me chamou pra labuta, esse ano os ensaios de Pluft, O Fan­tas­mi­nha me fize­ram desem­bar­car mais cedo em Cam­pina. Bom, alguma coisa nova ao menos já me acon­te­ceu. Depois de 4 anos morando a pouco mais de 100km da capi­tal parai­bana, final­mente eu conheci João Pessoa, pus meus pés nas ondas calmas e verdes do lito­ral da Para­íba. Meu per­so­na­gem também foi mudado, do sono­lento Tio Gerún­dio fui esca­lado ao mari­nheiro bebum Julião.

É, talvez ano novo seja sinô­nimo mesmo de vida nova. Mas nem tanto! Con­ti­nu­a­mos ensai­ando o que já está­va­mos ensai­ando no ano pas­sado. Con­ti­nuo pegando carona com Júlio pra voltar pra casa. Sou o mesmo bea­tle­ma­ní­aco de antes. Con­ti­nuo no mesmo apar­ta­mento e pagando o mesmo valor, ainda bem!! A mochila nas costas é a mesma. Já o fogão não é o mesmo ‘mesmo’ e agora torra pipoca. A cama ao lado do pc parece dife­rente, mas pelo menos com­bina com a cor da mesi­nha. A lei­tura de Marley & Eu se tornou ima­gens novas de uma rea­li­dade já conhe­cida. Os encon­tros diá­rios do quin­teto mágico na uni­ver­si­dade agora se resu­mem a scraps no orkut e cari­nhas no MSN. É, as coisas andam muda­das mesmo!!

Pela pri­meira vez começo um ano sem a res­pon­sa­bi­li­dade de aulas diá­rias e uma inter­ro­ga­ção do tama­nho dos meses do ano surge na minha vista. Parece um imenso oceano que tenho a atra­ves­sar sem saber ao certo onde vou chegar e o que encon­tra­rei no cami­nho. Se por um lado tenho mais amigos que me for­ta­le­cem e me enco­ra­jam, por outro me vejo afun­dando sozi­nho em uma canoa no alto-mar, sem nin­guém a me socor­rer ou escu­tar.

As res­pon­sa­bi­li­da­des! As incer­te­zas! Os sonhos! Os medos! Os dese­jos! A idade! Acho que tudo isso se renova também a cada ano e fica igual ao mesmo tempo. É nessas horas que seria mais fácil colo­car uma mochila nas costas, pedir carona na estrada e sair por aí sem rumo certo, per­cor­rendo os mais diver­sos luga­res, conhe­cendo as mais dife­ren­tes pes­soas, sonhando, crendo, vendo, sen­tindo, res­pi­rando, dese­jando, conhe­cendo, expe­ri­men­tando, via­jando... fugindo e enca­rando!!! Hoje aqui, amanhã em Cocha­bamba, Bogotá, Ata­cama, Pata­gô­nia... Afinal, tem momen­tos que parece que é para isso que espe­ra­mos tanto. Sim, porque tanta espera não pode ser pelo dinheiro. Ah, quer saber, como diz Arnolpho Lima Filho, Samuel Rosa e Gil­berto Gil, “vamos fugir desse lugar, tô can­sado de espe­rar que você me car­re­gue”. Vamos viver cada momento e fazer de cada dia um novo ano, pois não é a virada de 31 a 1º que muda, somos nós e as nossas ati­tu­des!! Feliz vida nova a todos!!

Tatuagens Removíveis

Quem nunca bebeu da fonte que ousou dizer jamais bebe­ria? Pois é. Desde pequeno venho rene­gando muitas fontes. Aliás, parece que quanto mais renego, mais sinto sede dela no futuro. Quando cri­ança não podia ver cheiro-verde no feijão que saía catando todas as folhi­nhas, caso con­trá­rio, não come­ria. Cebola então, nem pensar. Che­guei a jurar que jamais faria um orkut, que nunca sairia satis­feito de um cabe­lei­reiro, que não apren­de­ria a cozi­nhar em hipó­tese alguma. Não gos­tava de música clás­sica, nem tinha paciên­cia com os clás­si­cos do cinema. Achei que sempre teria náu­seas ao viajar, que nunca tro­ca­ria um almoço por um chee­se­bur­ger e que não iria jamais tomar uma vacina sozi­nho.

Mas o que acon­tece na cabeça da gente com o passar dos anos? Ama­du­re­ce­mos nossos con­cei­tos, nossas ideias, nosso pala­dar? O bom é que por neces­si­dade ou cres­ci­mento, con­se­gui­mos mudar e des­co­brir novos sabo­res, novas cores, novas expe­riên­cias. Hoje o cheiro-verde é indis­pen­sá­vel no feijão. Pizza sem uma rodela de cebola não tem graça. Não só fiz meu orkut, como con­se­gui que minha mãe e minha tia fizes­sem um. Já saio do cabe­lei­reiro satis­feito. Con­sigo comer o que cozi­nho. Já tro­quei almoço por chee­se­bur­ger, viajei sem vomi­tar. Alugo os clás­si­cos do cinema. Lavo louça ao som de Chopin e o mais incrí­vel, fui por deter­mi­na­ção pró­pria tomar vacina no braço sozi­nho.

Ainda exis­tem algu­mas teo­rias que con­ti­nuo defen­dendo, como a dis­tân­cia do alho, ir ao cinema sozi­nho e a pre­fe­rên­cia pela soli­dão. Talvez con­siga supe­rar algum dia, mudar de opi­nião, assim como tem acon­te­cido com a tatu­a­gem. Sempre afir­mei que odiava tatu­a­gem, que era feio, de mau gosto e que nunca faria uma em mim. Bom, mais uma vez me sur­preendo com a sede dos poços rejei­ta­dos. Ainda não che­guei a fazer uma tatu­a­gem, mas a ideia de “nunca” já ficou bem pra trás e abre cami­nho para “por que não?”. Hoje já penso na pos­si­bi­li­dade de tatuar sim alguma parte do corpo, não tão radi­cal como alguns, mas algu­mas tatu­a­gens seriam inte­res­san­tes.

Pen­sando nessa ideia, acabei des­co­brindo um site que dis­po­ni­bi­liza tatu­a­gens vir­tu­ais para serem cola­das nas nossas fotos. Assim, pode­mos ver como fica­rí­a­mos se nos sub­me­tês­se­mos a alguns dese­nhos. Apro­vei­tando o ensejo, criei várias tatu­a­gens em algu­mas fotos minhas. Colo­quei no braço, na perna, nas costas, no rosto. Logo abaixo estão algu­mas das fotos em que colei as tatu­a­gens. De repente, aquele monte de dese­nho que me pare­ciam hor­rí­veis pelo corpo, ganham uma nova cor e sen­tido aos meus olhos. Deve ser a neces­si­dade de busca pes­soal, de mudança, de trans­for­ma­ção. Um anseio de explo­rar e des­co­brir os sabo­res que há tanto agra­dam a diver­sos pala­da­res. Vez por outra escuto alguém me dizer: “mas você num disse que não gos­tava disso?”, e aí é que per­cebo que algo em mim mudou com rela­ção àquilo. Quando vejo hoje meu primo de 11 anos catando o cheiro-verde no seu prato, penso logo que aque­las lindas folhi­nhas verdes serão um ingre­di­ente essen­cial pra ele também no futuro.

O link do site que tatua as fotos: http://www.tatmash.com/

Paixão de ser brasileiro

Mais uma Copa do Mundo começa para cada um bra­si­leiro. A emoção, o corre-corre nas ruas pra não perder o jogo. O comér­cio fecha. As ruas ficam vazias. Um silên­cio só que­brado pela bola entrando na rede. Fogos no céu anun­ciam o momento. Todos, inde­pen­dente de acre­di­tar ou não na sele­ção, torcem, vibram, dese­jam os gols, a vitó­ria. E o Brasil saiu contra a Coreia. Não foi uma grande par­tida, ralen­tou o pri­meiro tempo, recu­pe­rou o fôlego no segundo, deixou esca­par uma jogada do adver­sá­rio, mas venceu. 2 a 1, não foi lá grande coisa, mas também não é o fim do mundo. Ainda tem várias par­ti­das pela frente. E olha que não sou muito oti­mista.

Mas não há como não sentir, se envol­ver, parar a cada quatro anos pra viver esses dias de amor à pátria. A Copa do Mundo não é só fute­bol, ela vai além. A Copa do Mundo é paixão pelo país, é bater no peito orgu­lhoso “eu sou bra­si­leiro”, apesar de todas as des­gra­ças. É se emo­ci­o­nar com o Hino Naci­o­nal. É com­prar uma cami­seta verde e ama­rela. É o momento do Brasil se des­ta­car no mundo, chegar nos mais diver­sos luga­res pra mos­trar a sua cara atra­vés do fute­bol. É gritar! É ser feliz! É esbra­ve­jar! É reunir os amigos, a famí­lia. É ser bra­si­leiro.

A pri­meira copa de que me recordo foi a de 1994. Eu não acom­pa­nhava os jogos, mas gos­tava daquele clima de eufo­ria e união que sentia nas ruas. Quanto ao jogo, estava mais pre­o­cu­pado em não haver aula no dia seguinte se o Brasil ganhasse. E não houve!! Bom, a copa da França em 98, que muitos afir­mam ter sido com­prada, foi a pri­meira que acom­pa­nhei, torci pra valer, me emo­ci­o­nei e chorei qui­e­ti­nho em cima da trouxa de roupa pra lavar, naquela final desas­trosa. Mas vibrei em 2002, e voltei a chorar em 2006, não pela der­rota do Brasil, mas pela perda do meu pai.

É difí­cil não torcer pelo Brasil, não xingar os joga­do­res, o téc­nico, o árbi­tro. É difí­cil não sonhar com o Hexa porque somos bra­si­lei­ros. Nos iden­ti­fi­ca­mos pela pele, pela música, pela culi­ná­ria, pela ale­gria, pelas praias, cida­des, artis­tas, lutas e até pelos polí­ti­cos. Nos des­co­bri­mos não mais nor­des­ti­nos, pau­lis­tas, cari­o­cas, mas um povo só com uma his­tó­ria comum, os mesmos sonhos, dese­jos. Uma nação, um único povo diante do mundo.

Tudo errado ou eu sou errado

Queria morar numa ilha deserta ou per­dido no meio do mato. A vida tida em soci­e­dade parece cada dia mais insu­por­tá­vel. Por que acei­tar tanta buro­cra­cia, “ordens” e deve­res que só nos fazem mal? No final de tudo se ana­li­sar­mos o grande prin­cí­pio dessa vida não temos mais, a liber­dade. Esta­mos presos no sis­tema, presos no pla­neta. Já extra­po­lou o limite de clichê, o meu dizer que está tudo errado, então agora quero ques­ti­o­nar os erros, des­co­brir se mais alguém os enxerga ou eu estou num deva­neio soli­tá­rio. Pra estou­rar a bomba, me res­pon­dam por que todo ser do sexo mas­cu­lino tem que se alis­tar no exér­cito, mari­nha ou aero­náu­tica quando faz 18 anos? Cadê a liber­dade de esco­lha aí? E se eu não quiser? Se não quiser ser reser­vista? Quem vai me obri­gar? Onde está escrito, quando vim ao mundo, que eu sou obri­gado a matar e a morrer numa guerra inven­tada pelos inte­res­ses dos “gran­des” homens? Mas a soci­e­dade obriga. Caso con­trá­rio o jovem ine­xiste no sis­tema, não faz ves­ti­bu­lar, não presta con­curso, não tra­ba­lha, vegeta.Já que estou falando de con­curso, emprego, uma exi­gên­cia que não con­sigo enten­der é o indis­pen­sá­vel “com­pro­vante de resi­dên­cia”. Alguém me explica pra que exigir esse docu­mento no ato de assi­nar um con­trato de emprego? Então eu só posso tra­ba­lhar se eu tiver uma casa? Se eu morar embaixo de uma ponte eu não pode­rei tra­ba­lhar ou terei que levar o com­pro­vante do via­duto? É ridí­culo! Já não bastam os núme­ros de RG, CPF, título de elei­tor, car­teira de tra­ba­lho e moto­rista que fazem do ser humano um chip do governo. E por falar em governo, não há piada maior em um país que se inti­tula demo­crá­tico, do que exigir voto obri­ga­tó­rio da popu­la­ção. Eu voto se quiser, quando quiser e sentir von­tade. Só que mais uma vez irei vege­tar se não com­pa­re­cer às urnas ou jus­ti­fi­car a ausên­cia. “Jus­ti­fi­car a ausên­cia!” é pior do que obri­gar a votar.

Aliás, as obri­ga­ções con­ti­nuam fora do país. Ai de quem tente cruzar qual­quer fron­teira de um país sem um pas­sa­porte e um visto de auto­ri­za­ção. Se somos livres, se o pla­neta é um só, por que tanta buro­cra­cia e difi­cul­dade de tran­si­tar de um lugar a outro? Nunca pode­ria pegar uma mochila, uma moto e tentar cruzar a amé­rica espa­nhola sem ter que me depa­rar com uns dez poli­ci­ais me enca­rando estra­nho. O que dirá então de tirar as roupas e nadar na pri­meira cacho­eira que encon­trar pelo cami­nho. Aos olhos do pri­meiro ser vivo que me encon­trasse, a polí­cia sur­gi­ria para pre­ser­var a decên­cia e o bom com­por­ta­mento. Como se a nudez fosse sinô­nimo de pro­fano. Essa é talvez a maior hipo­cri­sia da soci­e­dade. Por que todos têm que andar ves­ti­dos? Eu esta­ria agre­dindo alguém só por mos­trar o resto do meu corpo a ele? Se vemos mãos, braços, pernas e rosto de uma pessoa, o que uma nádega, um pênis ou uma vagina tem de tão dife­rente e agres­sivo que se torna crime exibir? E não me falem em sexo e libido, porque antes de servir a essas fina­li­da­des, usamos esses órgãos pra mijar e cagar. Feli­zes são os que vivem nas soci­e­da­des indí­ge­nas. Mais cren­ças e menos pudo­res. Mais ritu­ais e menos buro­cra­cia.

As leis são engra­ça­das. E cada país que esta­be­leça a sua mais louca que a outra. As drogas por exem­plo. Tem país que se mata só por portar alguma subs­tân­cia. Garanto que se eu fosse con­de­nado a morte num país desses por chei­rar uma plan­ti­nha, eu me matava antes, mas não dava a eles o prazer de me mata­rem. Se o cara gosta de viajar vez em quando numa plan­ti­nha, deixa, o pro­blema é dele, às vezes deve tá pre­ci­sando mesmo. Algu­mas tribos indí­ge­nas cos­tu­mam ter suas subs­tân­cias alu­ci­nó­ge­nas em ritu­ais de pas­sa­gem e mesmo entre os mem­bros mais anti­gos. E cá volto eu aos índios. De fato seria bom mesmo aban­do­nar tudo e viver numa tribo indí­gena no meio da ama­zô­nia, no con­tato com a natu­reza, os seres vivos e outros valo­res, a mim, bem mais sig­ni­fi­can­tes. Mas até pra morar numa tribo, eu teria que ter auto­ri­za­ção da FUNAI e expli­car o motivo de querer ir morar lá. E acre­dito que eles nunca acei­ta­riam a minha jus­ti­fi­ca­tiva de não supor­tar a vida na nossa soci­e­dade. Parece que a única saída seria mila­gro­sa­mente encon­trar um pedaço de terra sem dono, no lugar mais remoto do mundo e esta­be­le­cer o meu lar. Porque até do outro lado, onde eu achava que todos eram real­mente livres, se a vida con­ti­nua segundo os ensi­na­men­tos de André Luiz no livro Nosso Lar, eu tô é per­dido, porque tem mais uma soci­e­dade hie­rár­quica me espe­rando.

P.S.: Quando passei esse texto pro Word pra salvar uma cópia nos meus arqui­vos, ele suge­riu que eu tro­casse a expres­são “mijar” por “urinar”. Eita, hipo­cri­sia!!

Tempo

Tempo! Dizem que vivo per­dendo tempo, que não sei o que é bom, que o tempo corre, que eu pre­ciso do hoje. Talvez seja ver­dade. O que mais terei per­dido desde que vi a luz na sala de parto até os 25 anos? Gosto de pensar que vivi expe­riên­cias fora do comum, que não joguei bola, mas subi em palcos, que pre­fe­ria “mira­bo­lar” his­tó­rias sozi­nho com os cava­lei­ros do zodí­aco a per­mi­tir a inter­fe­rên­cia de alguém nas minhas ideias, não joguei vídeo game, mas dei vida a vidros de per­fume e laços de pre­sen­tes des­fi­a­dos. Criei filmes com os bone­cos e repri­sava de vez em quando. Fiz isso até os 13 ou 14 anos quando os tro­quei pelos rotei­ros. Já senti escre­vendo, a mesma sen­sa­ção de quando brin­cava. Já deixei de lado, como quem enjoa aquele brin­quedo. Já voltei a subir no palco. Já reas­sisti os Cava­lei­ros do Zodí­aco e não senti o mesmo de antes. É o tempo!

Demo­rei a sair da infân­cia. Será que já saí? Che­guei tarde à ado­les­cên­cia e mais tarde ainda saí dela. O que eu fiz a esse tempo colado a mim como uma sombra? Sonhei, ide­a­li­zei, ima­gi­nei, mas não me pro­je­tei. Quis ser, quero ser, mas ainda não sou e quando serei? Nunca estou pronto e quando penso que esta­rei, já estive. Fujo do mundo ou de mim? A quem temo? A quem escu­tar? Tempo per­dido sonhando ao invés de agir. Chan­ces per­di­das me subes­ti­mando. Até onde sou capaz de ir? Ir pra onde? Buscar o tempo esque­cido.

Ainda não fui a uma aca­de­mia. Desde os 18 ela briga comigo: “pre­cisa defi­nir seus mús­cu­los”, “massa mus­cu­lar faz bem à saúde e embe­leza o corpo”. É, daqui a pouco não terei mais o que defi­nir. O tempo! Muitas outras coisas tidas nor­mais ainda não fiz. Nem sei quando farei. Gosto de me isolar. A soli­dão não me parece uma prisão ou me apri­si­one mais do que tudo. Eu quero, desejo, anseio, mas no fundo não sei se almejo. Quero e não quero. Pre­ciso e des­carto. Alguém pode viver assim? E o tempo avança. Logo, logo, de mim é que nin­guém vai mais neces­si­tar.

Sou um labi­rinto cheio de túneis que levam a nada. A cada tempo cons­truo mais pas­sa­gens e a saída ver­da­deira torna-se sempre inex­pug­ná­vel. Tô nadando contra a maré do tempo. Talvez tenha ini­ci­ado esses cor­re­do­res há sécu­los, em outros mundos e talvez a saída esteja anos luz daqui. Sendo assim, ainda tenho muito tempo. Se nada fiz, se nada sou em 25 anos, será que farei ou serei em mais 25? Minha mãe tinha 27 anos quando nasci, meu pai 55. Eu tinha 8, 10, 11, 14, 18, hoje 25. Me arre­pendo de algo? Do que não fiz? Do que deixei que me fizes­sem? Pre­ciso cami­nhar e tirar a sombra das minhas costas. O tempo é uma ilusão. Se esqueço os anos e olho pra trás como um longo dia, ainda estou pela manhã ou já che­guei ao pôr do sol?

Nossa própria trilha

Vou expli­car porque sempre coloco uma música para cada pos­ta­gem que escrevo, embora alguns pro­ve­do­res nem exe­cu­tem o gadget. É sim­ples! A música torna a pos­ta­gem mais densa, mais leve, mais diver­tida. As can­ções têm esse poder. Elas são capa­zes de nos tirar do poço e de nos atolar também. Ima­gi­nem o que seria de 2001: Uma Odis­seia no Espaço sem a sua trilha sonora? Dos seus 139 minu­tos, 99 estão emba­la­dos por suas melo­dias. E assim muitos outros filmes. É só pensar um pouco que a pró­pria trilha sonora con­se­gue nos portar até algum. Ghost, E o Vento Levou, O Fan­tasma da Ópera, Guerra nas Estre­las, Tita­nic. Como pensar em Indi­ana Jones sem lem­brar de sua trilha? O mesmo com E.T. O Extra Ter­res­tre, Juras­sic Park, 007, Can­tando na Chuva, Os Into­cá­veis. Os gran­des clás­si­cos do terror como Psi­cose, Sexta-feira 13 e Tuba­rão também guar­dam seus regis­tros. O tema de Rocky Balboa virou sinô­nimo de boxe. E não há quem não viaje pelos céus na trilha do grande homem de aço.

A trilha sonora é um ele­mento de grande impor­tân­cia na cons­tru­ção de um filme, tor­nando-se em alguns casos até um per­so­na­gem à parte. Aque­les sons que emba­lam a vida dos per­so­na­gens são res­pon­sá­veis por regis­trar na nossa memó­ria a men­sa­gem de cada filme. E acre­dito que um bom filme tem que obri­ga­to­ri­a­mente ter uma majes­tosa trilha sonora, capaz de levar­mos pra casa e con­ti­nu­ar­mos exta­si­a­dos por ao menos algum tempo. Sou apai­xo­nado por música. Só con­sigo lavar louça ouvindo algo. Sinto que ela torna o mundo mais diver­tido, mais colo­rido. Um beijo pode ser apenas um beijo, mas expe­ri­mente soltar uma trilha român­tica na hora, que antes do beijo, o olhar já será outro.

Outro dia cami­nhava sozi­nho pelo shop­ping. Estava naque­les dias de amar­gura, olhando pra cada um com von­tade de esga­nar. Cami­nhava apres­sado pra lugar nenhum, mal olhava o rosto de alguém. Daí me sentei, peguei o celu­lar, o fone de ouvido, liguei o mp3 e come­cei a ouvir algu­mas can­ções. A agi­ta­ção e a amar­gura foram se aqui­e­tando. Come­cei a olhar as pes­soas. Um casal con­ver­sando, uma menina mimada puxando a blusa da mãe. Já não pare­cia tão irri­tante. Olhei em volta como se a música fosse o mais impor­tante e todos ao redor meros figu­ran­tes. O mundo ou a praça de ali­men­ta­ção já não era mais o mesmo. Come­cei a cami­nhar, agora deva­gar, olhava as pes­soas, sentia meus passos, con­se­guia sorrir da agi­ta­ção das pes­soas, da falta de tempo, eu tinha o tempo ali a meu favor. A vida trans­bor­dava aos meus olhos como o atlân­tico engo­lindo o Tita­nic. (Pro­fundo, não?)

Bom seria se pudés­se­mos sempre estar emba­la­dos por alguma canção no nosso dia-a-dia. Nas filas dos bancos, no trân­sito, nos super­mer­ca­dos, no corre-corre, nas brigas, nos medos, nas dúvi­das, nas ale­grias. Sempre ali com uma trilha sonora nos ace­nando sobre o que nos é impor­tante na vida. Mas como ainda não temos um editor de áudio ao nosso dispor, vou abrindo meu mp3 e sen­tindo a vida pelas ruas e ave­ni­das de vez em quando. Devo dizer que escrevi esse post emba­lado por Kenny G e alguns temas de filmes român­ti­cos, então se pare­ceu piegas demais a alguém, sugiro que o leia de novo escu­tando o mesmo. Afinal, temos o direito e por que não dizer o dever de ser piegas em alguns momen­tos. Nos per­mi­ti­mos ser crí­ti­cos, céti­cos, ego­ís­tas, ambi­ci­o­sos por tanto tempo, então relaxe alguns minu­tos e se entre­gue ao “melo­sismo”. Sua vida vai voltar ao normal ao fim da canção.

Vamos fugir!

Sempre tive um espí­rito anda­ri­lho. Mesmo que muitas vezes tenha me ima­gi­nado em algum lugar fixo, levando uma vida regrada. Quando cri­ança ado­rava viajar, sair da minha cidade, aden­trar luga­re­jos dife­ren­tes, e muitas vezes, a viagem em si, o pas­seio de ônibus pare­cia bem mais empol­gante do que o des­tino final, quando eu não enjo­ava dentro do carro. Porém, sempre queria seguir, nunca ficar pelos novos luga­res. No fundo, sair com uma mochila nas costas pedindo carona pela estrada, sem rumo, sem des­tino, sempre foi um desejo repri­mido da minha alma. Pensar que não temos lugar no mundo pra ir nem pra voltar, que nossa esta­dia é aqui e ali, seguindo em frente sempre, des­co­brindo novos luga­res, conhe­cendo outras pes­soas, vivendo cada emoção e aven­tura, nos torna para­do­xal­mente mais donos do nosso des­tino. Não é à toa que eu man­tive, por vezes até incons­ci­ente, uma afi­ni­dade muito grande por filmes ame­ri­ca­nos de anda­ri­lhos, pes­soas que estão sempre per­cor­rendo de carro aque­las estra­das ame­ri­ca­nas imen­sas e deser­tas. Hotei­zi­nhos bara­tos em beira de estrada, postos de gaso­lina e fast-food.

É uma estra­nha e con­tra­di­tó­ria sen­sa­ção, como se por aque­les fins de mundo eu pudesse encon­trar um sen­tido maior na vida, uma saída, um reco­meço. Não quero filo­so­far nem diva­gar em pen­sa­men­tos con­fu­sos e soli­ló­quios, mas a onda de bem estar que me inva­dia a ponto de querer me trans­por­tar a esses luga­res, era como um anún­cio de que a mim só o essen­cial era neces­sá­rio. Por que quar­tos de luxo em um hotel em Toronto, se me bas­ta­ria um lugar sim­ples e con­for­tá­vel para passar a noite e seguir cami­nho no dia seguinte? E uma sen­sa­ção de desa­pego a bens mate­ri­ais, a pes­soas, a luga­res estava sempre pre­sente. Ainda hoje não con­sigo raci­o­ci­nar cor­re­ta­mente pra enten­der e repas­sar o que sinto às pes­soas. Por isso filmes como Cinema, Aspi­ri­nas e Urubus, Cen­tral do Brasil, Diá­rios de Moto­ci­cleta, Per­se­gui­ção – A estrada da morte, Vencer ou Morrer estão entre os meus pre­di­le­tos.

E o que me mantém ainda aqui atado espe­rando que as caro­nas venham até mim? Com­pro­mis­sos que me fazem sempre pro­to­co­lar esse futuro. O ensino médio, o ves­ti­bu­lar, a facul­dade, a famí­lia, a namo­rada, e sempre alguma tarefa, res­pon­sa­bi­li­dade que me impede de viver de espí­rito. Hoje real­mente me sinto livre de qual­quer com­pro­misso ou obri­ga­ção, posso final­mente ousar seguir os cami­nhos de um des­tino sem des­tino. Mas será que irei? Terei forças para assu­mir e seguir? O momento é agora, ou logo mais outros com­pro­mis­sos me pren­de­rão. O tra­ba­lho, por exem­plo. Não sei de fato o que me prende hoje, talvez a ausên­cia de algo a me pren­der. Espero o momento certo. Mas esse momento é agora. Sinto que se con­se­guisse passar o pri­meiro reveil­lón longe de casa e da can­to­ria da igreja, em uma praia, uma mon­ta­nha, um deserto, uma cabana, um nada no nada já seria sen­sa­ci­o­nal.

Talvez eu não tenha a cora­gem e o dinheiro de Eli­za­beth Gil­bert, a escri­tora norte-ame­ri­cana, autora de Comer, Rezar, Amar, que se desfez dos bens mate­ri­ais, pediu demis­são e saiu em uma viagem de um ano pela Itália, Índia e Indo­né­sia. Posso sair pedindo carona, mas pre­ciso de grana pra comer e per­noi­tar no mínimo. Talvez se ganhasse na lote­ria. Mas aí obvi­a­mente opta­ria por voar pelo mundo de pri­meira classe, hos­pe­dado nas suítes mais caras e osten­si­vas dos prin­ci­pais car­tões-pos­tais do globo. E não seria a mesma coisa nunca. Só sei que o tempo avança e a minha única carona é viver à espera de uma mudança que pode nunca acon­te­cer. E enquanto não acon­tece, viajo pela estrada do logo do Celeiro, como quem cai em um sonho, onde a gente nunca lembra como come­çou e nunca sabe onde irá ter­mi­nar.

Yesterday and today

O que faz uma banda per­ma­ne­cer viva qua­renta anos após o seu tér­mino?  Quais cri­té­rios defi­nem o sucesso de um grupo de rock? A música? Os fãs? Os can­to­res? Os com­po­si­to­res? Qual o ingre­di­ente uti­li­zado por John, Paul, George e Ringo nas suas can­ções, capaz de con­ti­nuar con­quis­tando novos admi­ra­do­res a cada ano? Acho que não seria capaz de resol­ver tal ques­tão. Talvez suas bati­das She Loves You, From me To You, Can’t Buy me Love, ou suas bala­das If I Fell, In My Life, Some­thing, talvez o estilo psi­co­dé­lico, as ino­va­ções em Revol­ver, Sgt. Pep­pers Lonely Hearts Club Band, os filmes, a Índia, as drogas. É muita vida para uma década apenas. O deta­lhe curi­oso nos shows de Paul McCart­ney no Brasil foi a gigan­tesca mul­ti­dão que esgo­tou ingres­sos poucas horas depois de postos à venda. Uma mul­ti­dão que não acom­pa­nhou a febre da bea­tle­ma­nia, que não viu os garo­tos ine­bri­a­dos com o sucesso se trans­for­ma­rem em ícones, não pre­sen­ciou o cres­ci­mento, as desa­ven­ças e até o rom­pi­mento em estilo Abbey Road, mas seguiu o cantor em todas as suas can­ções ao delí­rio.

Não sei desde quando, mas em algum momento da minha infân­cia, eu tomei conhe­ci­mento de que exis­tiu uma banda cha­mada The Bea­tles que fez muito sucesso no pas­sado e de que todos fala­vam exta­si­a­dos. Con­tudo, era algo dis­tante de mim, uma rea­li­dade para os que vive­ram duas déca­das antes de eu nascer. Che­guei a des­co­brir que havia um John Lennon, que pare­cia ter sido o cabeça do grupo e que havia feito muito sucesso também após o fim da banda, prin­ci­pal­mente com uma música que todos acla­ma­vam cha­mada Ima­gine, mas que ele havia sido assas­si­nado. Sabia que outro grande cabeça cha­mado Paul McCart­ney ainda estava vivo, mas des­co­nhe­cia alguma música solo de refe­rên­cia. Os demais não sabia sequer o nome. Bem, também por algum motivo que eu des­co­nheço, sempre man­tive uma liga­ção de encanto e nos­tal­gia por músi­cas dos anos 60, 70 e 80. Gos­tava do ritmo, das lem­bran­ças que eu nunca tive e que elas me reme­tiam, e muitas escu­tava nas ruas, nos sons altos dos carros insis­ten­tes em bares até tarde da noite.

Havia algum fas­cí­nio na música Feche os Olhos de um tal de Renato e Seus Blue Caps, que me envol­via, apesar de minha mãe dizer que a música era antiga e brega. Tinha outra também cha­mada Menina Linda que eu me fis­su­rava, mas não tinha conhe­ci­mento do nome da música, do cantor e muito menos do com­po­si­tor. Achava a melo­dia de outra incrí­vel, mas muita gente gra­vava e eu che­guei a pensar que a música não tinha dono. Aos 15 anos fui morar na casa da minha tia pra estu­dar e des­co­bri que o marido dela tinha um cd duplo do famoso grupo The Bea­tles, inti­tu­lado Antho­logy 3. Deduzi que deve­ria haver o 1 e o 2. Era música pra não acabar mais. Minha prima só gos­tava de uma canção e vez por outra colo­cava pra tocar, era Let it be. Soava inte­res­sante. Mas eu queria ouvir mesmo era Ima­gine que todos diziam ser per­feita, só que era da car­reira solo de John Lennon. Ah, tinha outra bem conhe­cida desse grupo, Yes­ter­day, mas não cons­tava no cd da casa da minha tia.

Final­mente pude escu­tar Ima­gine com­pleta quando Paulo Ricardo regra­vou e eu com­prei o cd. Não enten­dia o inglês, mas a men­sa­gem pare­cia ser bonita. No mesmo ano, escu­tei uma versão, agora em espa­nhol, da música que eu gos­tava e que todos regra­va­vam. Cha­mava-se Mi Grand Amor Le Di, de José Alberto El Caná­rio, título ori­gi­nal: And I Love Her, com­po­si­ção: Lennon/McCart­ney. Ah, achava que eles só can­ta­vam rock pesado e musi­qui­nhas bron­cas. Depois escuto uma Sgt. Pep­pers na voz de Cássia Eller e uma Here, There and Everyw­here de Rita Lee, de auto­ria dos mesmos. Mas o grande insight só acon­te­ceu sete anos depois, no último ano da facul­dade, na cadeira de cinema, quando o aben­ço­ado e bea­tle­ma­ní­aco Rômulo Aze­vedo me apre­sen­tou defi­ni­ti­va­mente a John Lennon, Paul McCart­ney, George Har­ri­son e Ringo Starr no auge de uma lou­cura que teve início na Ingla­terra dos anos 60 conhe­cida como bea­tle­ma­nia, retra­tada no filme A Hard Days Night pelos pró­prios reben­tos.

A partir daí foi um Love me Do, Please Please me, Twist and Shout, All My Loving, I Should Have Known Better, I Want to Hold Your Hand, Ticket to Ride, Help, Penny Lane, Day Trip­per, Ele­a­nor Rigby, Hey Jude, All You Need Is Love, Yellow Sub­ma­rine, Paper­back Writer, Revo­lu­tion, Across the Uni­verse, Straw­berry Fields Fore­ver, A Day in the Life, Lucy in the Sky with Dia­monds, Ob La Di Ob La Da, Dear Pru­dence, Golden Slum­bers, Come Toge­ther, Here Comes the Sun, Get Back. Um mer­gu­lho cada dia mais intenso em busca de “novas” can­ções, “novas” melo­dias. De repente me vi revi­vendo uma época que nunca vivi. Conheci Liver­pool, The Quarry­men, o clube Caverna, Ham­burgo, Pete Best, Stuart Sut­cliffe, Brian Eps­tein, George Martin, a gri­ta­ria nas ruas, a recep­ção em Nova York, os cine­mas de A Hard Days Night e Help, o título do MBE, o LSD, o Shea Sta­dium, o sar­gento Pepper, Maha­rishi Yogi e a medi­ta­ção trans­cen­den­tal, Yoko Ono, o ter­raço da Apple, a faixa da Abbey Road, o acervo do Bea­tles Antho­logy. E quanto mais eu pudesse pene­trar.

Somente uma banda capaz de con­quis­tar uma mul­ti­dão de novos fãs 40 anos após deixar de exis­tir, pode se con­si­de­rar con­sa­grada mun­di­al­mente. O poder e o alcance dos Bea­tles ultra­pas­sa­ram não só a fron­teira da Grã-Bre­ta­nha, mas a do tempo, e con­ti­nuam influ­en­ci­ando gera­ções, trans­for­mando com­por­ta­men­tos, revi­rando as cabe­ças de jovens, adul­tos e dei­xando um rastro de obses­são aonde chegam. Paul McCart­ney e Ringo Starr hoje são rela­tos vivos de uma página da His­tó­ria do pla­neta, tipo como se Colombo, Napo­leão, Cle­ó­pa­tra ou Hitler esti­ves­sem ainda aqui. A ener­gia ema­nada de suas can­ções chegou até mim incons­ci­en­te­mente desde muito cedo, já era um fã dos Bea­tles em estado latente, e quando vis­lum­brei diante de mim tudo o que bus­cava, foi como um flash de memó­ria per­dida res­sur­gindo. Ainda enga­ti­nho pelo uni­verso gigan­tesco de com­po­si­ções, bas­ti­do­res e curi­o­si­da­des do quar­teto, mas ando absor­vendo sua essên­cia tão forte quanto a ina­lada de John em Girl. E sei que as par­tí­cu­las da explo­são cós­mica The Bea­tles con­ti­nuam che­gando a galá­xias cada vez mais anos luz de nós, yes­ter­day and today.

A arte do coração

Não é novi­dade pra nin­guém que tenho um pas­sado Imor­tal reche­ado de fan­ta­sias juve­nis, Música e Paixão. Não é novi­dade também que já fui de Splish Splash a Dig Dig Joy e Vâmo Pulá com grande ímpeto. Cantei, vibrei, sonhei, dese­jei e vivi Dias e Noites de intensa dedi­ca­ção. Sandy e Junior fize­ram minha infân­cia e ado­les­cên­cia mais diver­tida, acre­dito. Muitos me con­de­nam hoje por isso. Como o cara gosta de Bea­tles e de Sandy e Junior? É muita dis­cor­dân­cia, não? Penso que cada fase de nossa vida é cer­cada de des­co­ber­tas, de momen­tos únicos, e cada uma delas serve de ali­cerce para sermos o que somos hoje. Sandy e Junior con­tri­bu­í­ram com uma fase de minha vida bem antes de While My Guitar Gently Weeps ou Straw­berry Fields Fore­ver. Foram impor­tan­tes na cons­tru­ção de um garoto que queria subir no palco, escre­ver e inter­pre­tar. Hoje, ambos, Bea­tles e Sandy e Junior não exis­tem mais. Não, como banda e dupla. Paul McCart­ney, Ringo Starr, Sandy Leah e Junior Lima seguem suas vidas sepa­ra­da­mente. O sonho acabou, já dizia John Lennon. O que sobra são cole­tâ­neas de cds, dvds, can­ções e lem­bran­ças per­di­das na nossa memó­ria.

Talvez a grande dife­rença entre The Bea­tles e Sandy e Junior na minha vida seja o fato de que enquanto ainda vivo hoje os Bea­tles como um ver­da­deiro bea­tle­ma­ní­aco, Sandy e Junior só exis­tem no meu pas­sado. Não Dá Pra Não Pensar em toda rele­vân­cia da dupla na minha cami­nhada, con­tudo, não teria mais o mesmo pique de 10 anos atrás. Já vinha per­dendo o entu­si­asmo de outrora em seus últi­mos discos. Parece real­mente que o Ines­que­cí­vel fana­tismo havia cedido lugar e cra­vado seu espaço nas pági­nas da memó­ria Samuel. Mas vez por outra é bom recor­dar situ­a­ções, esta­ções, lendas... É sempre gra­ti­fi­cante viajar nas nossas recor­da­ções e nos per­mi­tir viver a sau­dade. Nos faz bem. Foi isso que acon­te­ceu quando o novo canal de assi­na­tura da Glo­bo­sat, Viva, anun­ciou o retorno do seri­ado Sandy e Junior, que esteve no ar de 1999 a 2003 nas tardes de domingo da Rede Globo.

Naquela época eu estava em pleno apogeu do meu fana­tismo pela dupla. Ao longo dos quatro anos do pro­grama, cole­ci­o­nei 20 fitas VHS gra­vando os epi­só­dios. Me Apai­xo­nei pelas his­tó­rias, pelos per­so­na­gens, pelo colé­gio CEMA, pela pro­fes­sora Elvira, pela can­ti­neira Irene, Etc... E Tal. Tinha um cari­nho muito grande pela série, e ainda tenho. Outro dia tive a opor­tu­ni­dade de rever alguns epi­só­dios pelo You­Tube - já que meu vide­o­cas­sete não fun­ci­ona mais, as fitas estão se estra­gando e eu não tenho TV por assi­na­tura – e foi mara­vi­lhoso rever as intri­gas, as pai­xões, os obje­ti­vos e lutas da tur­mi­nha do Centro Edu­ca­ci­o­nal Mário de Andrade. Era como se com Gus­tavo, Patty, Clara, Boca, eu vol­tasse a ser o mesmo Samuel de 14, 15 e 16 anos e tivesse os mesmos dese­jos de volta, que­rendo estu­dar numa escola como a deles ou até estu­dar com eles, par­ti­ci­par de um epi­só­dio, escre­ver outro... Nossa! Quanta Ilusão!

De alguma maneira maluca, o seri­ado me conec­tava a um ideal de vida, seja estu­dando em um Liceu, tendo amigos unidos, atu­ando ou escre­vendo. Gos­tava da sen­sa­ção que os epi­só­dios me pro­vo­ca­vam. Sen­sa­ções que talvez nem os pró­prios atores com­par­ti­lhas­sem. Me sentia um Super-Herói. Sei que Sandy e Junior hoje não mantêm o cari­nho pela série, que eu e tantos outros fãs man­te­mos. Foi apenas mais um tra­ba­lho, e Junior chegou a afir­mar, em entre­vista a Marí­lia Gabri­ela, que sente ver­go­nha em se ver no início da ado­les­cên­cia. Mas quem se importa? Só que­rí­a­mos o con­junto de his­tó­rias com a maior dupla pop bra­si­leira até então. Nomes como Mari­ana Xime­nes, Paulo Vilhena, Fer­nanda Paes Leme, Marcos Mion e Dani­ele Suzuki foram reve­la­dos no pro­grama. No Fundo do Cora­ção eu gos­ta­ria de ter toda a série em dvd, e atra­vés dela, nadar nova­mente pelos meus sonhos, rever os con­cei­tos, bagun­çar meus planos, afinal, somos sen­sí­veis às emo­ções e esta­mos sujei­tos à mudança. Quem garante que o nosso ver­da­deiro des­tino não está per­dido em algum momento do pas­sado, e só pre­ci­sa­mos ir lá res­gatá-lo? É só estar aberto e enten­der os meca­nis­mos que compõem A Arte do Cora­ção.

O paradoxo do desenvolvimento

Cidade de inte­rior, tran­qui­li­dade, pes­soas nas cal­ça­das, pas­sa­ri­nhos can­tando, vacas sendo con­du­zi­das pelas ruas, certo? Nem tanto. Na busca pela moder­ni­za­ção, as cida­des peque­nas passam a copiar deter­mi­na­dos padrões de cida­des mai­o­res. Umas das gran­des carac­te­rís­ti­cas de uma cidade inte­ri­o­rana é o seu cal­ça­mento, ou seja toda a malha urbana em para­le­le­pí­pedo, o que de certo modo, nos asso­cia a uma rea­li­dade dis­tante dos agitos das metró­po­les. Antes de ontem mesmo me van­glo­ri­ava das pedras sim­ples da nossa rua e agra­de­cia por não ser asfal­tada como a rua de baixo. Pois só foi eu me admi­rar desse fato, que ontem três carros dife­ren­tes e um trator come­ça­ram um pro­cesso de des­pejo de betume pela rua, pro­vo­cando a admi­ra­ção de todos. Sem aviso prévio, nossa rua per­dera seus carac­te­rís­ti­cos para­le­le­pí­pe­dos e ganhara uma pista preta, que mais me lem­brava a Ave­nida Flo­ri­ano Pei­xoto em Cam­pina Grande, do que uma cida­de­zi­nha pacata do inte­rior.

Per­tur­bando a cal­ma­ria de outrora, e a chuva que caía até ante­on­tem, o baru­lho das máqui­nas e o cheiro forte do asfalto me gerou uma típica dor de cabeça. A pre­sença de toda aquela para­fer­ná­lia e daque­les homens cir­cu­lando pelas cal­ça­das me inco­mo­dou. Nin­guém me per­gun­tou se eu queria aquele deri­vado de petró­leo cobrindo os sin­ge­los para­le­le­pí­pe­dos que tor­na­vam nossa rua mais inte­ri­o­rana e sim­pá­tica. De repente tomei as dores de todas aque­las pedri­nhas, o que esta­riam pen­sando sendo subs­ti­tu­í­das assim como qual­quer coisa? O ar que per­cor­ria entre seus espa­ços sendo sufo­ca­dos pelo alca­trão e aque­cendo o solo, tor­nando nossa rua mais quente, mais espessa, mais indus­tri­a­li­zada, menos cida­de­zi­nha. E nem estou falando do aque­ci­mento global que toda aquela mis­tura espa­lhada pelas ruas está con­tri­bu­indo. Por que será que as pes­soas não enten­dem que tornar uma cidade de inte­rior mais desen­vol­vida não é neces­sa­ri­a­mente implan­tar os mesmos padrões dos gran­des cen­tros, mas expan­dir o que o muni­cí­pio tem de sin­gu­lar, sem perder nunca sua carac­te­rís­tica char­mosa de uma cidade pequena.

O per­curso da malha asfál­tica seguiu desde a rua de baixo, indo em dire­ção à igreja e se encon­trando na pista seguinte que dá acesso aos muni­cí­pios de Coro­nel João Pessoa e Venha-Ver. Era a emenda final para com­ple­tar o per­curso que segue desde a entrada da cidade no sen­tido de Pau dos Ferros. Assim quem passa pela cidade vindo de Pau dos Ferros a Coro­nel João Pessoa segue direto pelo asfalto. Tudo bem, liga­ção per­feita. Con­tudo, não seria mais inte­res­sante deixar os limi­tes da cidade fora do per­curso asfál­tico? Afinal, o muni­cí­pio não é apenas mais um pedaço da pista, é um lugar habi­tado, com suas pecu­li­a­ri­da­des. E esse é o intuito a quem entra, que dimi­nua a velo­ci­dade e apre­cie os deta­lhes da região. Quanto mais se cuida daquilo de que a cidade tem de carac­te­rís­tico, maior ela se torna, e quanto mais seme­lhante à rotina e aos agitos dos gran­des cen­tros urba­nos, menor ela será.

Nosso eu de coração

Último dia do ano. Hora de virar a página de mais uma etapa em nossas vidas. O que 2010 tinha a nos mos­trar, nos ensi­nar, já nos foi reve­lado. Agora vamos ao encon­tro de novas des­co­ber­tas, novas chan­ces, opor­tu­ni­da­des, sonhos e rea­li­za­ções, espero. A cada ano os dias correm mais depressa, os meses passam e quando menos per­ce­be­mos, uma década se passou. Parece ontem que entra­mos no século XXI e já fina­li­za­mos seus pri­mei­ros 10 anos. Nunca fui che­gado em retros­pec­tiva, prin­ci­pal­mente do ano que aca­ba­mos de encer­rar. Afinal, o que acabou de acon­te­cer todos sabe­mos e rever tudo no fim de ano, quando deve­mos estar nos refa­zendo para seguir adi­ante, soa meio nos­tál­gico. Mas parei outro dia para ler uma maté­ria sobre a retros­pec­tiva da década. Aquilo que me pare­cia tão pró­ximo, num momento me refle­tiu léguas de dis­tân­cia. 2001 é uma rea­li­dade com­ple­ta­mente avessa ao que vivo no momento. Pode não pare­cer e até não trans­pa­re­cer em alguns pontos, mas o garoto de 16 anos que conheci em 2001 já não existe mais. Aos poucos, ele ganha con­fi­ança, deter­mi­na­ção, anseios ver­da­dei­ros e cer­te­zas abso­lu­tas na vida.

Uma década quando eu era cri­ança lem­bra­vam sécu­los. Se hoje pare­cem mais curtas, não sei expli­car, porém, são sufi­ci­en­tes para ama­du­re­cer o fruto mais verde de uma árvore. De um garoto cheio de fan­ta­sias, medos e cer­te­zas infun­da­das, mer­gu­lhei por cida­des, cons­truí sonhos, cai em rios de dúvi­das, inse­gu­ran­ças, perdas, mas encon­trei cacho­ei­ras de amigos e dedi­ca­ção. Vis­lum­brei hori­zon­tes de feli­ci­dade, liber­da­des emba­ça­das pela neblina, chuvas de ins­pi­ra­ção e cór­re­gos de rea­li­dade. Se já não sou o garoto que ousou pro­du­zir filmes, sonhou em escre­ver nove­las, sorriu e chorou sozi­nho em apar­ta­men­tos, desis­tiu de sonhos, encon­trou outros e voltou aos pri­mei­ros, sou o resul­tado de toda essa pro­cura e des­co­ber­tas. Sou a sequên­cia das pega­das, mais forte, con­fi­ante e con­victo de um futuro pró­ximo ao que cha­ma­mos feli­ci­dade.

Se ainda não entrei pelos cami­nhos que meu cora­ção conhece de ante­mão, já des­co­bri a entrada e posso visu­a­li­zar meus passos por lá. Hoje tenho a con­vic­ção do que é impor­tante a cada um de nós. E essa cer­teza me faz crer que nin­guém tem o poder de deter­mi­nar o cami­nho que se deve seguir, por mais íngreme, des­co­nhe­cido ou obs­curo que soe. Apenas cada um pode saber aquilo que aquece o cora­ção e preen­che o nosso ser, seja no campo pro­fis­si­o­nal, nas rela­ções de ami­zade ou no amor. Por isso, desejo que nesse ano que se inicia, todos encon­trem seu ver­da­deiro eu, e não per­mi­tam que nin­guém os obri­gue a perder, escon­der ou fugir do que o seu cora­ção vibra. Só assim, cada qual escu­tando a sua voz inte­rior é que encon­tra­re­mos a feli­ci­dade de ver­dade e tere­mos a chance de olhar o pró­ximo com mais ter­nura, com­pai­xão e afeto, sen­ti­men­tos que nos levam a viven­ciar real­mente a paz e a ale­gria tão dese­ja­dos a cada ano. Um 2011 ver­da­dei­ra­mente vivo no cora­ção de cada um.

A água que eu respiro

Dizem que o homem pode ser da terra, da água, do ar ou do fogo. Eu, indis­cu­ti­vel­mente, sou da água em todas as suas mani­fes­ta­ções. Água de rio, cacho­ei­ras, ribei­rões, chuva, mar, água, água, água... Decidi falar sobre a água nessa pri­meira pos­ta­gem de 2011 por sentir que ela repre­senta vida, e vida em abun­dân­cia. Nas ale­grias, vitó­rias, decep­ções, desa­ba­fos é ela quem nos socorre man­chando nosso corpo com as gotas do suor e das lágri­mas. A mesma que cai do céu e ger­mina a terra, fazendo flo­res­cer a vida. A água que lava o corpo can­sado, limpa as man­chas da cami­nhada, revi­gora a alma, nos ali­menta o ser. Água que separa mundos, que esconde segre­dos pro­fun­dos, que se agita e se aqui­eta. Água que sacia a sede, que per­corre nosso inte­rior e per­mite a sobre­vi­vên­cia.

Demo­rei algum tempo para per­ce­ber como eu e a água éramos inse­pa­rá­veis. Embora ela sempre tenha me acom­pa­nhado como uma fonte de reno­va­ção. Na infân­cia a conheci além do filtro e do chu­veiro do banheiro. Come­cei a esta­be­le­cer con­tato com suas cor­ren­tes na pis­cina da casa do meu pai. Embora não sou­besse nadar, ficava horas pro­te­gido nos braços dele mer­gu­lhado naquela vas­ti­dão. E mal­vado aquele que fosse me tirar e me enro­lar em uma toalha. Geral­mente sobrava para minha mãe. A partir daí tracei um elo de ami­zade com a água. E sempre que podia ela vinha me visi­tar pelo céu, caindo sobre o telhado da minha casa, for­mando bicas fortes que esco­a­vam pela cal­çada. Sua che­gada era sempre uma festa. Jogava a camisa fora e saía cor­rendo com os amigos pelas ruas feito um mole­que sem dono no meio daquele agua­ceiro. Abria a boca e dei­xava os pingos caírem dentro, como se com isso fizesse parte daquela tota­li­dade.

Havia algo mágico naquele espaço entre o início das gotas no céu e as poças que se for­ma­vam no chão. Não sabia exa­ta­mente o que era, mas sentia que uma pode­rosa ener­gia caía junto com toda aquela água e me fazia bem, que já nem me impor­tava em ter que ir para casa quando minha mãe cha­mava. Agora aque­cido e aga­sa­lhado, obser­vava a chuva cair e o acú­mulo de água ao pé das cal­ça­das cor­rendo como um rio. Quando ela ces­sava, per­ce­bia uma mudança no ar, e as goti­nhas que pin­ga­vam das árvo­res em mim eram sua des­pe­dida. Fui cres­cendo e a água con­ti­nuou minha amiga. Sempre que podia inven­tava uma brin­ca­deira com os bone­cos na pia de lavar roupa. Enchia o tanque d’água e ficava mer­gu­lhando-os, me ima­gi­nando nadando ali. No fim do dia os dedos eram só rugas, mas pare­ciam bem mais vivos. Na casa da minha avó sempre tive­ram muitos tan­ques para reser­va­tó­rio de água, e uma da minhas mai­o­res ale­grias era, vez por outra, poder cair dentro de um. Pena que cresci depois e já não cabia na entrada.

E nada pode­ria ser mais gra­ti­fi­cante do que viajar para a capi­tal e ir ver o mar. Aque­las ondas batendo contra as pedras, a arre­ben­ta­ção lá dis­tante, pró­ximo a algu­mas embar­ca­ções... era imen­su­rá­vel. Corria sen­tindo as ondas nas pernas e sua força me puxando para dentro, enquanto ficava ali parado vendo meus pés se ato­la­rem na areia. E peguei amor por todas as pala­vras que lem­bras­sem mar, como reci­fes, corais, cais, encos­tas, naus, reben­ta­ção. Hoje, a água e eu somos velhos amigos. Aqui, acolá ela me passa um e-mail numa tarde quente, desem­baça a vista, me beija. Outras vezes sou eu que a visito e caio de abra­ços em suas molé­cu­las. Ine­bri­á­vel sen­sa­ção quando estou em con­tato com ela ou sim­ples­mente sinto a sua pre­sença. Suas gotas são minha maior ins­pi­ra­ção. É quem me ali­menta, me arranca sor­ri­sos e gar­ga­lha­das, me aquece a alma e renova o gás. Quem sabe um dia pos­sa­mos com­par­ti­lhar do mesmo espaço, divi­dir outras his­tó­rias e res­pi­rar sempre esse ar que me sus­tenta? Por pura coin­ci­dên­cia ou não, come­çou a cair aqui uma chuva fini­nha agora.

O resto é mar

Somos movi­dos a quê? O que nos faz levan­tar e seguir uma rotina exaus­tiva todos os dias? Há quem diga que o dinheiro move o mundo. Somos escra­vos do poder das cédu­las. Mas pre­firo acre­di­tar que os sonhos movem o uni­verso. São eles que nos impul­si­o­nam, nos arras­tam qui­lô­me­tros e reme­xem nosso eu interno em busca de uma saída que há muito já sabe­mos onde existe. Sem os sonhos, entra­mos quase num auto­má­tico e dei­xa­mos o corpo nos coman­dar a um ir e vir sem fim à espera de um fim que nunca chega. Com a exi­gên­cia de um pro­fis­si­o­nal cada dia mais com­pe­tente, qua­li­fi­cado, expe­ri­ente, a com­pe­ti­ção, a cor­re­ria, as cobran­ças, somos for­ça­dos a esque­cer o que nos impul­si­ona, e nos jogar nesse tur­bi­lhão a fim de exis­tir. O bom de quando aden­tra­mos muito nessa zona, é que pode­mos chegar ao centro e parar, ficar obser­vando o mundo girando a nossa volta, como no olho de um fura­cão. Só aí pode­mos per­ce­ber que pre­ci­sa­mos de mais, que pre­ci­sa­mos deixar de rodar com os outros e criar nossa pró­pria rota.

Há muito deixei de acre­di­tar em sonhos. O mundo pare­ceu mais cruel e foi con­se­guindo cor­roer todos com o passar dos anos. Pulava de galho em galho na ten­ta­tiva de me agar­rar a algo que me desse satis­fa­ção e ao menos que fosse capaz de me sus­ten­tar em pé. Sacava cartas da manga que pode­riam me fazer virar o jogo, mas logo eram des­car­ta­das e fui ficando sem saída, sem chão. Talvez entrar no fura­cão fosse a res­posta do enigma. Mas por esses acasos da vida, ou sinais que nos des­per­tam por alguns minu­tos, uma viagem ines­pe­rada caiu no meu colo com uma pis­cada de olho. Desde não sei quando exa­ta­mente, eu sinto que algo me chama ao sudeste do país, espe­ci­fi­ca­mente ao Rio. Por inú­me­ras intem­pé­ries fui adi­ando essa ida, sonhando com a cidade e nunca a pos­si­bi­li­dade de ao menos conhe­cer. Durante quatro anos na uni­ver­si­dade de comu­ni­ca­ção, nunca saí da minha cidade a nenhum con­gresso, então se eu con­tasse a mim mesmo que esta­ria em janeiro de 2011 no Rio em um con­gresso de filo­so­fia, cer­ta­mente eu não acre­di­ta­ria.

Uma esquete que come­çou por render uma gra­ni­nha extra para um tra­ba­lho de grupo de uni­ver­si­dade, me rendeu um pas­sa­porte para a vida. Quando Suel­len me comu­nica que have­ria um con­gresso de seu curso de filo­so­fia em Nite­rói e que ela estava pen­sando em escre­ver nossa esquete no seu tra­ba­lho, eu fui o pri­meiro a incen­ti­var. Essa opor­tu­ni­dade eu não per­de­ria. Com todas as adver­si­da­des, embar­ca­mos nessa aven­tura. Dois dias dentro de um ônibus. Dor­mindo pouco, comendo o mínimo e pagando muito, tomando banho aqui e ali, cru­zando uma Bahia sem fim, tor­ci­colo, tudo pare­cia não impor­tar quando fomos mara­vi­lha­dos com a vista do Cristo ainda pequeno lá no alto do Cor­co­vado, e aque­les cine­ma­to­grá­fi­cos morros do Pão de Açúcar. Não havia pisado ali antes, mas como lembra Gil­berto Gil, o Rio de Janeiro con­ti­nua lindo.

Nem toda a desor­ga­ni­za­ção do con­gresso, as con­di­ções do alo­ja­mento, a falta d’água, os banhos de cuia, as luzes acesas de madru­gada, os ven­ti­la­do­res para­dos e o calor nos eva­po­rando, con­se­gui­ram estra­gar o meu humor. Afinal, a cidade exis­tia, e eu estava nela. Havia dei­xado de olhar o Rio de cima e des­lo­cado meu eixo para dentro. A cada passo uma lem­brança, uma rea­li­dade. Era a bossa nova, Tom Jobim, Manoel Carlos, tudo me ace­nava. Pela pri­meira vez numa cidade grande não me sentia per­dido, onde quer que esti­vesse. Afinal, tinha a noção do mapa e da loca­li­dade dos bair­ros na minha cabeça como se nunca hou­vesse saído dali. Per­cebi com essa expe­riên­cia, que os sonhos podem real­mente se tornar rea­li­dade, e quando isso acon­tece nos sen­ti­mos em casa, como se apenas tivés­se­mos che­gado de uma longa viagem e esti­vés­se­mos pron­tos para viver uma vida que sempre foi nossa. Tenho gás para voltar a acre­di­tar que a feli­ci­dade ainda é pos­sí­vel.

O estranho planeta dentro de mim

Não sei se pre­firo me isolar porque não gosto de gente, ou se gosto de gente e por isso pre­firo me isolar. O que importa é que cos­tumo fazer sozi­nho deter­mi­na­das ati­vi­da­des que, habi­tu­al­mente, se fazem em con­junto. Ir ao cinema é uma delas. Se eu reti­rar a vez em que fui assis­tir a Super­man O Retorno com minha mãe, a Marley & Eu com meu primo e a Código Da Vinci com a turma da facul­dade – embora tenha che­gado atra­sado e tate­ado um lugar dis­tante de todos da turma – eu sempre fui ao cinema sozi­nho. Pre­firo os dias de pouca movi­men­ta­ção, quanto menos gente na sala melhor, menos baru­lho, menos celu­lar tocando, menos rea­ções de riso e medo, menos cochi­chado, menos lati­nhas de Coca estou­rando... Se pudesse reser­var uma sessão par­ti­cu­lar só pra mim seria per­feito. Pro­curo sempre os luga­res mais iso­la­dos, nem que seja colado a tela, só para não ter nin­guém do lado comen­tando o filme ou che­gando a con­clu­sões mira­bo­lan­tes antes mesmo do cére­bro pro­ces­sar o que está assis­tindo.

E nada mais chato do que aquele entra e sai, porta aberta, gente che­gando meia hora depois e demo­rando mais outra meia pra entrar na his­tó­ria. Não enten­dem que a sala de cinema não é uma exten­são da praça de ali­men­ta­ção do shop­ping, onde nin­guém se escuta, mas todos abrem a boca. Ou entra com o intuito de acom­pa­nhar um filme ou faça exi­bi­ção de sua figura do lado de fora. Vez por outra me deparo com alguns vaga­lu­mes dentro da sala. Todo tipo de inseto acen­dendo suas ante­nas para checar a hora. Vão sair da sala antes do filme ter­mi­nar? Porque do con­trá­rio, não há neces­si­dade de ficar de ins­tante em ins­tante che­cando a hora no celu­lar ban­cando o lan­ter­ni­nha. E outro deta­lhe irri­tante é a quan­ti­dade de trai­ler cada vez maior antes do filme ini­ciar. Outro dia teve tanto que quase acabo o saco imenso de pipoca antes mesmo de apa­re­cer o nome da pro­du­tora do filme que ia assis­tir. E se por um lado exa­ge­ram no começo, redu­zem no final. Mal surgem os pri­mei­ros cré­di­tos e as luzes já se acen­dem. Alguns segun­dos depois já cortam o filme e somos quase expul­sos da sala.

Por isso que às vezes pre­firo ficar em casa, com­prar um dvd ou baixar algum filme de graça e poder assis­tir sem nenhum abor­re­ci­mento. É quando bate aquela soli­dão, aquela falta de gente e vou ao shop­ping, de pre­fe­rên­cia sozi­nho, me mis­tu­rar a toda aquela mul­ti­dão. E aí não sei se esta­ria mais sozi­nho em casa com os meus pen­sa­men­tos ou ali cir­cu­lando ao lado de todas aque­las pes­soas. Estou para des­co­brir outro ser vivo que saia de casa para passar uma tarde peram­bu­lando soli­tá­rio pelo shop­ping, entrando em lojas, vendo muito, com­prando pouco ou quase nada, sempre comendo, ouvindo música no mp3 e obser­vando o vai e vem dos fre­quen­ta­do­res com cara de pai­sa­gem. Real­mente é um pro­grama anor­mal, típico de seres atí­pi­cos que fazem uso de alu­ci­nó­ge­nos para per­ma­ne­cer “on” e se manter no meio-fio ou para não des­per­tar pondo fim à “paz social”.

Apenas quinze minu­tos sen­tado em um banco qual­quer do shop­ping, para encon­trar desde o curi­oso às mais aber­ra­ções desse pla­neta. Gru­pi­nhos de ado­les­cen­tes que dis­pu­tam com as mara­cas quem faz mais baru­lho. Casais de namo­ra­dos de mãos dadas olhando as vitri­nes e exi­bindo o outro como troféu aos amigos. Gente andando engra­çado. Uma moça com o short ras­gado exi­bindo o forro dos bolsos como quem indica a última moda. Outra num salto tão alto que até pra andar inven­tou um novo cami­nhar. De repente algu­mas cores ofus­cam minha visão. Dois cida­dãos, ou pode­ria chamar per­so­na­gens de algum mangá que sal­ta­ram pra fora do gibi, com calças verde e ama­rela, tênis azul e rosa, camisa lilás e óculos qua­dri­cu­lado, sem men­ci­o­nar o cabelo emo vazando num boné espa­lha­fa­toso. Aí eu olho do lado, tudo muito tran­quilo e me sinto um ali­e­ní­gena no pla­neta dos huma­nos. Real­mente devo ser. Não vou ao cinema com os amigos e fico no fundão, onde a mai­o­ria fica pra ver melhor, nem saio por aí com nin­guém exi­bindo meu look Res­tart. Quem é mais estra­nho nessa brin­ca­deira agora? De fora somos todos habi­tan­tes alheios de uma galá­xia per­dida na poeira cós­mica, mas cada um no seu pla­neta e nin­guém vira macaco.

Vai encarar?

“Me olha no olho!” “Eu tô falando com você! Me encara!” “Olha pra mim!” Por que as pes­soas querem tanto que alguém esteja sempre as olhando enquanto falam? Eu sempre tive difi­cul­dade de enca­rar o olhar do outro quando estou con­ver­sando, prin­ci­pal­mente se minha inti­mi­dade com o outro não for além do habi­tual “tudo bom?”. Eu fujo do olho alheio. Sempre fugi. Na escola ten­tava ser o mais invi­sí­vel pos­sí­vel, me esguei­rava pelos cantos para não ser visto, mas parece que quanto mais me esfor­çava, mais era per­ce­bido. Nas festas, nas praças, igre­jas e cal­ça­das era sempre o cara de cabeça baixa seguindo seu des­tino teme­roso aos olhos alheios. Dedi­quei grande parte de minha vida a me reclu­sar em casa, me fechando do mundo e do que a ele per­ten­cesse por medo do poder escon­dido nas cór­neas de cada um. Bas­tava um olhar, e uma inqui­e­ta­ção subia pelas pernas, as mãos não sabiam onde se manter, os olhos gira­vam mais que ven­ti­la­dor no nível 3, e nunca de encon­tro ao olhar que me diri­giam, ou caso isso ocor­resse a rota­ção do olhar sal­tava para o nível 7.

Uma certa timi­dez acom­pa­nhada de uma boa dose de inse­gu­rança mar­ca­ram esses meus dias. Nada que o majes­toso tempo não pudesse inter­fe­rir com seu sopro. Con­tudo, as para­noias que o tempo varreu dei­xa­ram algu­mas cica­tri­zes, e ainda hoje tenho difi­cul­dade de con­cen­tra­ção quando tento argu­men­tar olhando no olho de alguém. As ideias fogem como eu fugia dos olha­res na infân­cia. Sinto a expec­ta­tiva do outro em mim, enquanto per­ma­neço ali per­dido sem foco, rou­bando a aten­ção alheia e con­tando os segun­dos para reor­ga­ni­zar as peças e não ser aba­tido como um porco. Se eu quiser real­mente ela­bo­rar uma teoria e expla­nar sobre ela com as pes­soas, não me peçam para encará-las. Sim­ples­mente perco o foco. O olhar do outro leva embora a minha con­cen­tra­ção. E por que os olhos mais do que tudo inco­mo­dam tanto? Acre­dito que eles sejam os órgãos do corpo humano que melhor expõem as nossas fra­que­zas e nos mos­tram muito mais do que as ima­gens do mundo, nos per­mi­tem chegar a fundo na natu­reza almá­tica de cada um.

Indis­cu­ti­vel­mente, é uma tarefa que exige um esforço imen­su­rá­vel de minha parte, mas que con­se­gue obter um sig­ni­fi­ca­tivo resul­tado ao final. É neces­sá­rio apenas olhar. Fixar a visão no olho do outro, como se dese­jasse se ver atra­vés de sua imagem refle­tida num espe­lho. Com cer­teza será pos­sí­vel chegar até o outro, nu, livre de qual­quer jul­ga­mento, desar­mado. Vai encon­trar o outro. Entre­tanto, inde­pen­dente do meu trauma de infân­cia, enca­rar o olhar de um des­co­nhe­cido é sempre um desa­fio a qual­quer um. Pode­mos obser­var uma pessoa em um ponto de ônibus, numa praia, num super­mer­cado, mas é só essa pessoa nos lançar seu olhar que já des­vi­a­mos e fin­gi­mos apenas cuidar da nossa vida. Afinal, quem vai per­ma­ne­cer enca­rando um estra­nho até ele se invo­car e sair com no mínimo um “que é”? O olhar inco­moda. Todos querem ver, mas nin­guém quer ser visto. Ou quase nin­guém. Há quem faça desses olha­res seu ver­da­deiro quin­tal.

Nesse aspecto, não há nin­guém que supere os recém-nas­ci­dos no que­sito enca­rar. Eles são os únicos que enca­ram de ver­dade o outro e ainda fazem careta ou choram se não forem com a cara. As cri­an­ças já não são nem tão deter­mi­na­das assim. Por influên­cia da soci­e­dade que evita o cara a cara, elas já come­çam a desen­vol­ver uma auto-crí­tica quanto a não con­ti­nuar obser­vando o outro quando nota­das. Algu­mas tentam, mas acabam escon­dendo o rosto enver­go­nha­das ou em deses­pero, como se algum espião da KGB tivesse sido iden­ti­fi­cado. Outro dia, enquanto aguar­dava meu ônibus no ter­mi­nal de inte­gra­ção, um recém-nas­cido come­çou a me olhar, daí não me con­tive e passei a observá-lo também sor­rindo. Ele se man­ti­nha sério, ana­li­sando cada ponto do meu rosto e do meu corpo, indi­fe­rente ao meu sor­riso. Depois se virou e passou a olhar o car­ri­nho de picolé. Ainda voltou o rosto na minha dire­ção, mas a mãe per­ce­beu e o mexeu para que ele dei­xasse de me olhar. Já come­çam as inter­fe­rên­cias.

Se o olhar nos diz quem somos, ima­gi­nem o mundo inteiro cego. Um único defi­ci­ente visual pode contar com o auxí­lio do outro para pegar uma con­du­ção, mas numa cegueira uni­ver­sal nem trân­sito have­ria. É um caos seme­lhante ao que se encon­tra no filme Ensaio sobre a Cegueira, base­ado na obra de José Sara­mago. É a degra­da­ção do ser humano aos seus ins­tin­tos mais pri­mi­ti­vos, uma luta pela sobre­vi­vên­cia em um local pla­ne­jado para ser visto. De certo modo, somos esses cegos quando nega­mos o nosso direito de enxer­gar e fugi­mos aos olhos do outro. O que nos inti­mida tanto? Talvez a saída da super­fi­ci­a­li­dade e o conhe­ci­mento do outro a fundo. Temos medo do que encon­trar, de nos perder ou de nos reco­nhe­cer? Afinal, somos todos oriun­dos da mesma maté­ria e par­ti­cu­lar­mente dis­tin­tos. E por que não encaro as pes­soas, e pro­va­vel­mente con­ti­nu­a­rei a agir assim? Porque no fundo temos medo de nós mesmos, sabe­mos que jul­gando, sere­mos jul­ga­dos, sabe­mos que se olhar­mos dire­ta­mente até no olho de um cego, encon­tra­re­mos uma chama acesa lá dentro, acha­re­mos o outro e encon­tra­re­mos a nós mesmos.

Sem contra-indicações

Outro dia enquanto fazia um dos meus pas­sa­tem­pos pre­di­le­tos, ler a bula de um entre tantos remé­dios aqui de casa, me depa­rei com um fato curi­oso. Na ver­dade são dois. Mas igno­rem o pri­meiro que seria ler bula de medi­ca­mento. Quem em sã cons­ciên­cia perde seu tempo com isso? Mas indo ao fato curi­oso, repa­rei que no que­sito “contra-indi­ca­ção” havia somente a seguinte frase: hiper­sen­si­bi­li­dade a qual­quer com­po­nente da fór­mula. Real­mente quem des­con­fiar que é sen­sí­vel a esse ou àquele com­po­nente nem deve chegar perto da medi­ca­ção, mas como o indi­ví­duo vai saber antes de ter con­tato com tal fór­mula se é sen­sí­vel ou hiper­sen­sí­vel? Dedu­ção? Tele­pa­tia? Hip­nose? Pre­mo­ni­ção? Só expe­ri­men­tando mesmo. Aí depois se tiver tudo ok, con­ti­nua tomando, senão, vai des­co­brir da pior maneira quais são suas aler­gias.

Tem gente que não come carne de porco, leite, ovos, amen­doim, nozes por saber que tais ali­men­tos lhes pro­vo­cam rea­ções alér­gi­cas na pele ou no orga­nismo. Enfim, todos des­co­bri­ram que tipo de ali­mento os pre­ju­di­cam após terem seu con­tato com ele, assim como des­co­bri de maneira bem ino­cente que minha faringe pre­fere se fechar inteira a engo­lir um pedaço de crus­tá­ceo da ordem dos decá­po­des, com cinco pares de patas, popu­lar­mente conhe­cido como cama­rão. Sem comer o mag­ní­fico arroz mari­nho de um belo res­tau­rante em João Pessoa, eu não sabe­ria jamais que esse tipo de caran­guejo me faz mal. De fato, não che­ga­mos ao mundo com uma bula expli­cando que tipo de ali­mento deve­mos comer e a quais com­po­nen­tes quí­mi­cos somos alér­gi­cos. Seria bas­tante eficaz se junto do cordão umbi­li­cal viesse uma cáp­sula com indi­ca­ções de todo tipo de ali­mento que for­ta­lece e pre­ju­dica o recém-nas­cido, e ainda algu­mas infor­ma­ções extras do tipo: esse bebê terá rinite alér­gica a partir dos 9 anos, miopia aos 14, vai desen­vol­ver uma esco­li­ose con­gê­nita na ado­les­cên­cia e sofrer de labi­rin­tite depois dos 20.

Aju­da­ria muito se pudés­se­mos des­co­brir tudo de ruim que iria nos acon­te­cer, antes de acon­te­cer. Mas temos que passar pela expe­riên­cia. Senão não terí­a­mos his­tó­rias pra contar. Eu não esta­ria aqui argu­men­tando o fato de que nesse exato momento exis­tem aí milha­res de ali­men­tos que nos pre­ju­di­cam e não temos conhe­ci­mento. Se eu vou sentir náu­seas, ter ver­ti­gens, vomi­tar, perder o ar é boba­gem. Todo mundo vai encon­trar na vida algum ali­mento que faça mal, fora os que come­mos todos os dias e nos des­troem à pres­ta­ção. Aí vamos lem­brando os dias que exa­ge­ra­mos no pecado da gula, como a vez que me esbal­dei num prato de maca­xeira na casa do meu pai e tive um dejà-vu duas horas depois com o mesmo prato, só um pouco mais pas­toso pelo chão. E quando bebi mais de duas taças de vinho tinto seco no meu baile de for­ma­tura e espe­rei apenas sair do carro de Samira pra banhar a cal­çada com aquela deli­cada bebida. Ah, e teve a viagem de São Miguel a Pau dos Ferros à noite no ônibus da Jar­di­nense, que após a intensa degus­ta­ção de doce de leite caseiro na minha avó, eu pintei o cor­re­dor do ônibus com uma tex­tura bege que desa­gra­dou a todos os pas­sa­gei­ros. Bem, mas acho que esse assunto já está dando náu­seas.

Reto­mando um pouco a teoria do início da pos­ta­gem, como sou um apre­ci­a­dor nato das novas fór­mu­las e com­po­nen­tes quí­mi­cos pre­sen­tes em cada medi­ca­mento, não me inco­modo de ir tes­tando qual remé­dio é contra-indi­cado ou não a mim. Até o pre­sente momento não me recordo de nenhum que tenha rejei­tado meu orga­nismo. Com exce­ção do Rivo­tril que inten­si­fi­cou minhas crises de labi­rin­tite, nem a água oxi­ge­nada que eu bebi por engano na ado­les­cên­cia me fez mal. Acho que tenho uma boa rela­ção com os fár­ma­cos. Nunca tive­mos sérias brigas, e às vezes que dis­cu­ti­mos logo nos recon­ci­li­a­mos. Somos quase que ele­men­tos de uma mesma fór­mula. Por herança de meu avô, repas­sada a minha mãe, curto uma boa lei­tura de bula e todas suas indi­ca­ções, rea­ções adver­sas, poso­lo­gias e super­do­sa­gens. Pode­ria até con­ce­der uma pales­tra sobre os bene­fí­cios da nime­su­lida, ou os efei­tos cola­te­rais do alpra­zo­lam. Se de médico e louco todo mundo tem um pouco, acho que erra­ram na dis­tri­bui­ção da minha medida e não sei se sou mais médico ou mais louco, ou a soma dos dois ao qua­drado, mas adoro uma auto­me­di­ca­ção. E agora se me per­mi­tem, vou me reti­rar, está na hora da minha dose diária de dafo­rin e finas­te­rida.

Desencanando

Con­fesso que pensei muito sobre qual tema iria dis­cur­sar dessa vez. Quem sabe o retorno da minha car­teira de tra­ba­lho com o DRT de ator, ou a impres­são do meu pri­meiro roteiro pro­fis­si­o­nal, talvez o cd duplo dos Bea­tles que não resisti na pro­mo­ção das Ame­ri­ca­nas. Mas, o dia real­mente foi bem devasso comigo e não me deixou outra alter­na­tiva a não ser tecer algu­mas linhas sobre o polê­mico comer­cial de Sandy como a nova musa da cer­veja Devassa. O grande trunfo publi­ci­tá­rio não está em fazer da can­tora uma “sex symbol”, mas na ousa­dia em levar uma garota com fama de “cer­ti­nha” para estam­par um pro­duto com ape­la­tivo teor sen­sual. Claro, e o resul­tado não pode­ria ser outro. Foi o assunto mais comen­tado nas redes soci­ais do dia. Entre aplau­sos e toma­tes, todos fize­ram ques­tão de deixar sua opi­nião, sur­presa, admi­ra­ção ou incre­du­li­dade. E o obje­tivo maior já foi alcan­çado. Nin­guém se ouviu falar tanto na cer­veja Devassa como agora.

Real­mente a novi­dade me pegou de supe­tão. Sandy loira e sendo garota pro­pa­ganda de cer­veja? Que lou­cura foi essa? Duvi­dei da capa­ci­dade dela em se sub­me­ter a esse tipo de tra­ba­lho, prin­ci­pal­mente agora que reco­me­çou sua car­reira num estilo mais inti­mista. Li algu­mas maté­rias antes, vi os pri­mei­ros comen­tá­rios no Twit­ter, mas tudo me pare­cia meio sem sen­tido ainda. Só quando vi a pro­pa­ganda pelo You­Tube foi que entendi a jogada da empresa. Meu pas­sado con­dena e por isso não deve­ria opinar, mas foi real­mente bri­lhante. Quem acom­pa­nhou a car­reira de Sandy ao lado de Junior não teve como não se sur­preen­der. Admito, assisti ao vídeo umas dez vezes. Afinal, não é todo dia que pode­mos ver o lado des­con­tra­ído de uma can­tora como Sandy subir ao palco, mos­trar sen­su­a­li­dade e jogar bebida para a pla­teia. Nessas horas é que pen­sa­mos quais outras face­tas ela terá escon­dida e só Lucas Lima tem conhe­ci­mento.

Mas dei­xando o mítico e indo ao fac­tual, o que vemos repre­sen­tado na pro­pa­ganda é nada mais que uma cena coti­di­ana que pode e deve acon­te­cer a cada um, ao menos uma vez na vida. Quem nunca tomou umas a mais e exce­deu na come­mo­ra­ção em público? Eu mesmo, um ere­mita con­tem­po­râ­neo, des­po­jado do álcool e das bala­das notur­nas, quase a versão mas­cu­lina de Sandy, já ban­quei o ridí­culo dan­çando e can­tando Des­li­zes de Fagner nas altu­ras em um bar. E o mais diver­tido, é que não há nada de errado nisso. Eu apre­cio uma vida reclusa, me manter dis­tante das farras que a mai­o­ria da galera da minha idade curte, o que não me impede ou me con­dena a per­ma­ne­cer eter­na­mente assim. Há momen­tos que é neces­sá­rio extra­va­sar, se per­mi­tir ser ousado, liber­tino, insen­sato. Reve­lar o lado devasso mesmo que existe em cada um. Afinal, nin­guém é um bloco de gesso imu­tá­vel, que nunca tenha suas nuan­ces.

A deci­são de Sandy em par­ti­ci­par dessa cam­pa­nha publi­ci­tá­ria revela que apesar de sempre ter tido uma pos­tura bas­tante reser­vada, ela pode ser uma mulher como outra qual­quer, que quebra a rotina, sai com os amigos, bebe um pouco no bar e pode abusar algu­mas vezes. Nada melhor do que usar do con­tra­di­tó­rio para chamar a aten­ção. Se tives­sem colo­cado uma Clau­dia Leite, Dani­elle Winits ou Vivi­ane Araújo que impacto teria no teles­pec­ta­dor? O impro­vá­vel é mais ins­ti­gante. Ainda vi por aí quem postou uma entre­vista ante­rior de Sandy comen­tando que não apre­cia o sabor de cer­veja por achar amargo. E daí se ela não bebe do pro­duto que faz pro­pa­ganda? Garanto que Xuxa não usa Monange. E nin­guém caiu em cima de Zeca Pago­di­nho quando fez a pro­pa­ganda da Nova Schin enquanto é um degus­ta­dor assí­duo da Brahma. O que falta é uma maior aber­tura e com­pla­cên­cia das pes­soas para burlar certos pre­con­cei­tos e este­re­ó­ti­pos que se criam na mídia em torno de alguém ou algum objeto. Se Sandy vai con­ven­cer de devassa ou não, a quem importa? O que a fabri­cante de bebi­das quer é vender, e olha que até me deu uma von­tade de aban­do­nar meu tarja preta e expe­ri­men­tar essa cer­veja, ou quem sabe mis­tu­rar os dois, ficar “doidão” e sair aí pelo mundo bem devasso.

Assumo a culpa

Alguém em um deter­mi­nado momento da his­tó­ria do mundo esta­be­le­ceu que a culpa é algo peca­mi­noso e que deve­mos sempre arre­messá-la no tambor de lixo mais pró­ximo. Nin­guém nunca quer ser o res­pon­sá­vel por que­brar o vaso de por­ce­lana da vovó, bagun­çar as fer­ra­men­tas do pai, arra­nhar o cd do irmão, perder o livro pre­di­leto do amigo ou esque­cer de passar na pada­ria. “Não, o vaso caiu sozi­nho”, “eu nem che­guei perto das fer­ra­men­tas, deve ter sido meu irmão”, “eu te devolvi o livro, não está mais comigo”, “você não me lem­brou dos pães”. Por que a culpa é sempre alheia? Por que não dizer que que­brou, mexeu, esque­ceu, perdeu ao invés de ficar bus­cando algo ou alguém como res­pon­sá­vel por uma situ­a­ção que foi gerada uni­ca­mente pela pró­pria pessoa? O medo de falhar, de assu­mir os erros e vaci­los diante do outro? Não somos seres dota­dos de per­fei­ção abso­luta, errar é tão humano que já virou clichê, no entanto, assu­mir esse erro aos olhos do outro é uma ati­tude dig­na­mente humana.

Desde cri­ança já apren­de­mos a apon­tar o outro como cul­pado de qual­quer erro que come­te­mos. É o medo da bronca e repreen­são dos pais, ou às vezes até da chi­ne­lada. Esta­mos pron­tos a qual­quer momento para fazer uso desse ins­tinto natu­ral de defesa quando nos sen­ti­mos ame­a­ça­dos. Cres­ce­mos com o con­ceito de que se alguma merda acon­te­ceu, a culpa é de alguém ou de alguma bur­rada que o outro fez, e nunca nossa. Há quem até opte por deixar suas deci­sões nas mãos alheias para no caso de come­ter uma esco­lha errada, ter quem apon­tar como cul­pado. E de quem é a culpa afinal de tanta culpa? Como culpar quem tenta se defen­der em um mundo que não admite erros? Nin­guém é per­feito, mas a soci­e­dade exige a per­fei­ção. Assu­mir uma falha é assu­mir uma inca­pa­ci­dade, um erro, uma imper­fei­ção. E nin­guém está pre­pa­rado para esse tipo de repreen­são.

Ainda hoje me deparo com situ­a­ções curi­o­sas que acon­te­cem na minha famí­lia. Minha mãe até hoje tem difi­cul­dade de assu­mir sua culpa ao menor equí­voco que cometa. Está sempre pre­pa­rada para culpar a maça­neta da porta, a quina da cama, o celu­lar que des­car­re­gou, a pessoa que amar­rou errado a caixa do isopor, e na cozi­nha sobra até para as pane­las. Por vezes per­gunta a minha opi­nião sobre algo que pre­tende fazer, e quando a situ­a­ção desanda, de quem é a culpa? Em uma cir­cuns­tân­cia de deses­pero então, melhor sair de perto que faísca para todo lado. E quando ine­vi­ta­vel­mente não con­se­gue negar a res­pon­sa­bi­li­dade do ato que come­teu, passa horas numa auto-tor­tura psi­co­ló­gica de “mea máxima culpa”. E não esca­pei imune a con­vi­vên­cia diária da fuga do cul­pado. Vez por outra me pego apon­tando o atraso dos trans­por­tes cole­ti­vos quando na ver­dade dormi demais e perdi a hora.

Será que nessas oca­si­ões não seria o momento de assu­mir a nossa culpa, parar de lamen­tar o ocor­rido e pensar em como rever­ter a situ­a­ção? Cada ati­tude nossa implica uma con­se­quên­cia e pre­ci­sa­mos estar pre­pa­ra­dos para enfrentá-las. Desde um prato que escor­re­gou da mão aos rumos que se deve tomar na vida é pre­ciso assu­mir a res­pon­sa­bi­li­dade. Se errou, se o cami­nho está difí­cil, é hora de mudar a situ­a­ção e seguir em frente. Afinal, errar faz parte do apren­di­zado. E se aprende muito mais com os erros do que neces­sa­ri­a­mente com os acer­tos. Antes que alguém tenha a opor­tu­ni­dade de nos olhar e nos lançar seu dedo indi­ca­dor apon­tando a culpa por algo, levante o indi­ca­dor pri­meiro e mostre o seu cará­ter e hones­ti­dade ao assu­mir o erro que come­teu e se dispor a con­sertá-lo. Não é uma pos­tura fácil de adqui­rir na vida, mas agindo com ver­dade, ali­men­ta­mos nossa força para enfren­tar todas as adver­si­da­des que sur­gi­rem pelo cami­nho. Bom seria se desde pequeno fôs­se­mos ensi­na­dos a não negar nossas faltas, res­pon­dendo pelas nossas culpas sem susto, pois não há porque temer as falhas, e sim a falta de cora­gem de enfrentá-las.

E no fim... as cinzas

Quarta-feira de cinzas! Para muitos ainda uma exten­são do feri­a­dão de car­na­val. No Rio de Janeiro a apu­ra­ção das esco­las de samba. De certo modo a vida vai se enca­mi­nhando à nor­ma­li­dade. Há quem acre­dite que o ano começa pra valer agora. Porém, uma curi­o­si­dade asso­lou meu juízo esses dias. Não que já não hou­vesse per­tur­bado antes, mas resolvi pes­qui­sar e ainda bem que nossa amiga inter­net está sempre a postos para nos escla­re­cer qual­quer dúvida. Por que o car­na­val acom­pa­nha sempre a data da quarta-feira de cinzas? E por que uma festa tão espa­lha­fa­tosa, colo­rida, com direito a bebida e nudez gra­tuita esta­ria asso­ci­ada a uma data reli­gi­osa? Foi aí que tive que inves­ti­gar o sen­tido das cinzas na reli­gião cató­lica. A partir dessa data, onde as cinzas sim­bo­li­zam um con­vite à refle­xão sobre a efe­me­ri­dade da vida humana, dá-se início a Qua­resma no calen­dá­rio cris­tão oci­den­tal, ou seja, qua­renta dias antes da Páscoa, sem contar os domin­gos. E como a ceri­mô­nia da Páscoa é rea­li­zada sempre base­ada na pri­meira lua cheia após o equi­nó­cio de outono no hemis­fé­rio sul, quando o dia e a noite tem a mesma dura­ção, sua data tran­sita entre março e abril.

Até aí tudo tran­quilo. Mas onde entra o car­na­val no meio disso tudo? Para enten­der, é pre­ciso saber que o perí­odo da Qua­resma é reser­vado a refle­xão, a con­ver­são espi­ri­tual e ao jejum, um momento no qual os fiéis se apro­xi­mam de Deus em busca de um cres­ci­mento espi­ri­tual, ou seja, nada de festas e bada­la­ções. Não que todos os cató­li­cos levem esse ritual ao pé da letra, mas quando a Igreja Cató­lica implan­tou a Semana Santa no século XI, algum engra­ça­di­nho achou esses qua­renta dias de pri­va­ção muito longo e resol­veu que os dias que ante­ce­dem a quarta-feira de cinzas deve­riam ser mar­ca­dos por muita fes­ti­vi­dade e ani­ma­ção, para com­pen­sar mais de um mês de peni­tên­cia. Daí surgiu o car­na­val. E ao con­trá­rio do que muitos pensam, o car­na­val não é uma festa genui­na­mente bra­si­leira, cons­ta­tando que quando ele apa­re­ceu, o Brasil ainda era um mundo conhe­cido apenas pelos indí­ge­nas em seu habi­tat natu­ral.

Nos car­na­vais de outrora havia muita comida, bebida e gran­des cele­bra­ções numa busca inces­sante dos pra­ze­res. A ani­ma­ção durava sete dias pelas ruas, praças e casas da Roma Antiga. Ati­vi­da­des eram sus­pen­sas, escra­vos ganha­vam liber­dade pro­vi­só­ria, pes­soas tro­ca­vam pre­sen­tes, reis eram elei­tos por brin­ca­deira e coman­da­vam cor­te­jos, e as fitas que amar­ra­vam os pés do deus Saturno eram reti­ra­das num con­vite à folia. Quando o perí­odo do Renas­ci­mento chegou, o baile de más­ca­ras, as fan­ta­sias e os carros ale­gó­ri­cos foram incor­po­ra­dos às come­mo­ra­ções. Assim não fica difí­cil per­ce­ber o des­tino que essa festa tomou ao longo dos tempos. Paris foi a prin­ci­pal cidade no século XIX a expor­tar o modelo car­na­va­lesco conhe­cido hoje. E o Brasil ganhou o mundo com sua fama, quando o Rio criou o estilo dos des­fi­les de esco­las de samba, tendo entrado já para o Livro dos Recor­des como o maior car­na­val do mundo.

Dessa maneira, caro leitor, é que fiquei sabendo porque essa tra­di­ci­o­nal festa está sempre mudando de data entre os meses de feve­reiro e março, e porque acon­tece sempre antes da quarta-feira de cinzas. Pro­va­vel­mente essa minha des­co­berta não seja novi­dade para muita gente, mas ainda assim achei que deve­ria com­par­ti­lhar com aque­les que como eu se ques­ti­o­na­vam o que a Sapu­caí tem a ver com a missa. Agora faz sen­tido tanta alga­zarra nas ruas e no fim... as cinzas. Movi­dos ou não pelos sen­ti­men­tos de reclu­são e retiro espi­ri­tual do perí­odo que segue a Qua­resma, as pes­soas come­çam a se dedi­car de ver­dade a seus afa­ze­res e esque­cem as festas que tive­ram início ainda no natal do ano ante­rior. O ano ver­da­dei­ra­mente tem início. Se o car­na­val fosse em junho então, o ano seria lite­ral­mente divi­dido ao meio. Agora pre­pa­ra­dos para o jejum das folias e a entrega à con­ver­são desejo a todos um feliz 2011!

Onde habita a intimidade?

O que é mais íntimo numa rela­ção? Um beijo na boca ou o ato sexual de fato? O que des­perta mais pra­ze­res e sen­sa­ções pelo corpo? É pos­sí­vel alguém chegar ao orgasmo apenas com um beijo? Mas não seria um beijo qual­quer. Seria ‘aquele’ beijo! Existe ainda a famosa “lenda” sobre os pro­fis­si­o­nais do sexo não bei­ja­rem seus cli­en­tes para evitar inti­mi­dade. Mas que tipo de inti­mi­dade esta­mos falando afinal? Quer rela­ção mais íntima do que com­par­ti­lhar o pró­prio corpo com outra pessoa? Bem, esse é o ponto de vista moral quando asso­ci­a­mos inti­mi­dade às partes do corpo que não cos­tu­mam ser vistas no dia-a-dia. Entre­tanto, se trans­fe­ri­mos esse cri­té­rio de apro­xi­ma­ção para o lado afe­tivo de cada um, as rela­ções ínti­mas vão depen­der do está­gio de entrega emo­ci­o­nal que uma pessoa con­se­gue extrair do âmago da outra. Nesse caso um beijo pode­ria causar bem mais estrago do que uma bem suce­dida cópula.

Na falta de sono numa dessas madru­ga­das, resolvi assis­tir um filme pela inter­net. Um garoto de pro­grama e sua noite de aven­tu­ras em um prédio. “Strap­ped“, amar­rado em inglês, nos con­vida a conhe­cer a vida de um jovem à medida que ele aden­tra em uma noite de prazer e dinheiro em meio ao des­co­nhe­cido e muitos pseu­dô­ni­mos. Não sabe­mos onde habita o ver­da­deiro ser que cir­cula pelos cor­re­do­res vazios à pro­cura de grana. Mas aos poucos, entre um cli­ente e outro que arranja ao acaso, é pos­sí­vel ir pene­trando no autên­tico ter­ri­tó­rio desse per­so­na­gem. O seu envol­vi­mento é sempre sexual, como uma máquina pre­pa­rada apenas para satis­fa­zer o desejo do pró­ximo, enquanto se mantém na mai­o­ria das vezes dis­tante das emo­ções alheia. E uma vez feito, se veste e parte para outra.

O deta­lhe curi­oso acon­tece já no fim de sua mara­tona pelo prédio, quando seus olhos quase ven­ci­dos pelo sono e seu corpo can­sado de pra­ti­car todas as moda­li­da­des de sexo com os cli­en­tes, o jovem se depara com um rapaz que lhe faz um único pedido em troca do valor que ele con­se­guiu durante toda a noite: um beijo na boca. Con­tra­ri­ado, ele até tenta argu­men­tar que não beija em ser­viço, que o seu tra­ba­lho é sexual e não afe­tivo. É aí então que o outro ela­bora uma expla­na­ção genial. Olhando fundo nos olhos do garoto de pro­grama, ele diz que não quer ser tocado nos seus órgãos sexu­ais, não é sexo que ele pre­cisa no momento, ele quer ser tocado no cora­ção, e quer que o outro esteja pre­sente com ele no momento. Con­ven­cido mais pelo dinheiro do que pela argu­men­ta­ção, o rapaz aceita, a prin­cí­pio rece­oso, mas ter­mina por se entre­gar e depois de um intenso, longo e exta­si­ante beijo, atinge o orgasmo sem nem ao menos tocar em seu pênis.

Há quem diga, “ah, é filme”. Mas será que alguém já tentou? Esta­mos acos­tu­ma­dos a asso­ciar prazer e orgasmo dire­ta­mente aos órgãos sexu­ais, mas muitos não se aten­tam para o fato que outras regi­ões do corpo humano podem pro­du­zir efei­tos seme­lhan­tes de maior, menor ou igual inten­si­dade. E as pes­soas que sofrem danos na coluna ver­te­bral e perdem a sen­si­bi­li­dade abaixo da cin­tura nunca terão mais prazer? O filme que a prin­cí­pio pare­cia não dizer nada, me chamou a aten­ção pela minú­cia e sen­si­bi­li­dade que tratou a rela­ção de inti­mi­dade entre duas pes­soas, além do sexo. Enquanto sim­ples­mente rea­li­zava seu tra­ba­lho pro­por­ci­o­nando deleite nos outros, o rapaz não se envol­via e não estava junto na rela­ção. No momento que divi­diu um beijo passou a sentir o outro e se deixou levar pelas sen­sa­ções que aquela expe­riên­cia mútua pro­du­zia.

Daí me ques­ti­ono onde está o maior grau de inti­mi­dade numa rela­ção a dois. Será que o corpo tem mais domí­nio que o sen­ti­mento nisso tudo? Existe um maior que o outro ou ambos se com­ple­tam? Só a rela­ção sexual torna duas pes­soas mais ínti­mas do que aque­las que apenas se bei­ja­ram? Talvez seja mais fácil jogar com o corpo do que com a emoção. Não digo que o beijo possa pro­por­ci­o­nar mais prazer que o sexo, com ver­dade e afei­ção um pode levar ao outro, ou não, mas que nessa liga­ção de inti­mi­dade, o segundo ganha na cate­go­ria de melhor foto­gra­fia, enquanto o pri­meiro leva a dire­ção de arte.

Alimente o meu ego

Sempre que­re­mos mais! Que­re­mos ser alguém. Que­re­mos ser vistos. Que­re­mos mos­trar. Que­re­mos ser! De todas as carac­te­rís­ti­cas da per­so­na­li­dade humana, o ego é aquela capaz de abrir uma fenda na estrada tor­nando a pas­sa­gem ina­ces­sí­vel. Somos escra­vos do espe­lho, e não apenas o de vidro, mas o nar­ci­sismo pre­sente em cada um em dife­ren­tes inten­si­da­des. Sen­ti­mos a neces­si­dade do elogio alheio, do incen­tivo amigo, do cari­nho do pró­ximo. Como sabe­mos, alguns afagos faz bem ao ego. Eis o intré­pido ego! Nada de mau buscar nos olhos dos outros o mérito por algo rea­li­zado. É uma carên­cia humana a busca cons­tante pela pró­pria supe­ra­ção, dese­jar ser rele­vante na vida de alguém. Um arqui­teto já disse uma vez em uma pales­tra que até um tijolo quer ser mais do que ele é, afinal, nenhum tijolo foi feito pra ser apenas um tijolo. E onde pode­mos chegar, quan­tos edi­fí­cios sere­mos capa­zes de erguer, vai depen­der do quanto dei­xa­mos que esse traço da nossa per­so­na­li­dade deter­mine o nosso ali­cerce.

Se o ser humano busca sua impor­tân­cia no mundo, seu nome reco­nhe­cido ou até imor­ta­li­zado, por quê não?, nada mais vin­cu­lado ao ego do que a fama. O reco­nhe­ci­mento público que pode ir do por­teiro do prédio a um monge do outro lado do pla­neta, pode gerar mais estrago que uma úlcera no duo­deno. Não é difí­cil ganhar noto­ri­e­dade nos dias de hoje e con­quis­tar um número razo­á­vel de admi­ra­do­res pelo mundo. É só ana­li­sar a quan­ti­dade de cele­bri­da­des ins­tan­tâ­neas que sur­gi­ram do nada e ganha­ram fama nos últi­mos anos, muitos moti­va­dos apenas pela perda do ano­ni­mato, sem qual­quer con­te­údo para acres­cen­tar ou ofe­re­cer ao público. O Big Bro­ther Brasil é a mais influ­ente fábrica desse artigo, porque trans­forma anô­ni­mos em cele­bri­da­des a cada ano. Há uma neces­si­dade alu­ci­nante pelo reco­nhe­ci­mento, ludi­bri­ado pelo gla­mour que essa expo­si­ção repre­senta na soci­e­dade e na vida de cada um.

E por que cada vez mais pes­soas partem em busca desse estre­lato? É só a fama, a per­se­gui­ção dos papa­raz­zis e a par­ti­ci­pa­ção nas colu­nas de fofo­cas? De certo não. Depois de assis­tir ao filme de outra cele­bri­dade auto­ge­rada na mídia, Bruna Sur­fis­ti­nha, pude refle­tir melhor acerca da situ­a­ção. Não é a nota­bi­li­dade que faz tantos buscar a fama. É a neces­si­dade de ser amado, de se sentir que­rido e ido­la­trado por inú­me­ras pes­soas. Ina­cre­di­tá­vel con­cluir que um dos maus do novo século é a falta de afeto ou a demons­tra­ção dele. Num uni­verso cada dia mais indi­vi­du­a­lista, é para­doxo pensar que o ali­mento do ego está na doação alheia. Eis aí mais outra ilusão desse status: a ado­ra­ção gerada pela calo­rosa mul­ti­dão de fãs não cobre a carên­cia afe­tiva que cada um neces­sita. Só neu­tra­liza tem­po­ra­ri­a­mente os efei­tos da escas­sez de estima; e quando esse indi­ví­duo cai no esque­ci­mento da fre­né­tica mídia, entra nova­mente na briga de ego e dessa vez com a agra­vante da des­va­lo­ri­za­ção pes­soal.

Como então con­se­guir ser alguém e manter a posi­ção depois de ser exposto ao jul­ga­mento do mundo? Quem sabe não se afo­gando no rio de Nar­ciso. O con­trole do ego é tão com­pli­cado e impre­ciso quanto o fluxo aéreo. Quem tra­ba­lha com arte, prin­ci­pal­mente atores, bai­la­ri­nos, can­to­res, pin­to­res, escri­to­res, entre outros, estão sempre expondo sua imagem e pre­ci­sam saber dosar os tipos de crí­ti­cas que rece­bem, os elo­gios ou até mesmo a ausên­cia total deles. Quem atua, dança, canta, pinta, escreve, não quer apenas fazer o seu tra­ba­lho, quer que o outro se apro­xime e des­creva as sen­sa­ções que aquela arte des­per­tou. E até estar pre­pa­rado e soli­di­fi­cado o sufi­ci­ente para enca­rar todos os tipos de reação, um irri­só­rio comen­tá­rio pode des­truir a auto­es­tima, levar à depres­são e pôr fim numa car­reira pro­mis­sora.

Talvez por esse des­pre­paro muitos jovens não saibam o que fazer do futuro e se percam nas opi­ni­ões alheias. Eu mesmo. Há momen­tos que me per­gunto por que nin­guém me enxerga. Se Geisy Arruda virou his­tó­ria por usar minis­saia na facul­dade, Felipe Neto e PC Siqueira foram pra TV depois que vira­ram cele­bri­dade na inter­net, outra ganha um Cross­Fox por colo­car um clipe no You­Tube, e até um gato que parece com o vilão da série Harry Potter ganha os jor­nais, por que também não posso? Há ins­tan­tes que queria poder erguer um cami­nhão com o dedo min­di­nho pro mundo inteiro se voltar pra mim. Ser alguém no mundo a todo custo! Mas será que vale? Será que já não sou? A popu­la­ri­dade não equi­vale neces­sa­ri­a­mente a rele­vân­cia de alguém no mundo. O que que­re­mos de fato é ser admi­rado pelo que faze­mos, e será que a quan­ti­dade de pes­soas que irá per­ce­ber esse valor é mais impor­tante do que as rea­ções sin­ce­ras e os sen­ti­men­tos que bro­ta­rão de quem nos cerca? Pro­va­vel­mente não, se nosso eu esti­ver em har­mo­nia. Do con­trá­rio alguma voz vai con­ti­nuar sus­sur­rando no ouvido que é pre­ciso sempre subir mais e mais, alcan­çar o Empire State, o Burj Kha­lifa*, o Eve­rest e não sos­se­gar enquanto metade do pla­neta não con­se­guir per­ce­ber e aplau­dir a pre­sença mag­ní­fica daquele ser dotado de uma neces­si­dade exaus­tiva de satis­fa­zer a sua larva interna vul­câ­nica cha­mada ego.

* Maior arra­nha-céu do mundo com 828 metros loca­li­zado em Dubai.

Me mente uma verdade

Hoje acor­dei e me depa­rei com as seguin­tes man­che­tes: Pico de dengue no Rio pode durar mais três sema­nas. Bebê é achado com quei­ma­du­ras nas costas e na perna direita. Ado­les­cente usa seringa para agre­dir colega em São Paulo. Pais rejei­tam ter­ceira gêmea após inse­mi­na­ção. Moto­ci­clista é arre­mes­sado de via­duto em Sal­va­dor. Rebel­des tentam reto­mar pólo petro­lí­fero na Líbia. Vendas de carros no Japão têm a maior queda desde 1974. Pro­tes­tos anti­go­verno espa­lham-se pela Síria e sete pes­soas morrem. Duas tone­la­das de presas de ele­fan­tes são apreen­di­das na Tai­lân­dia. Oito mil ani­mais sil­ves­tres mor­re­ram atro­pe­la­dos no Pan­ta­nal no ano pas­sado. Petró­leo atinge pin­guins em ilha bri­tâ­nica. Moto­rista é fla­grado levando cavalo no banco tra­seiro. ONU con­firma oito mortes de fun­ci­o­ná­rios em ataque no Afe­ga­nis­tão. Carro banhado a ouro é exposto na China. Depu­tado fede­ral depre­cia aber­ta­mente negros e homos­se­xu­ais em seus dis­cur­sos. Ex-menudo é acu­sado de agres­são. Pastor vê podri­dão em gays e mal­di­ção sobre afri­ca­nos. E hoje é o dia da men­tira. Infe­liz­mente é essa a ver­dade nossa de cada dia.

Bom seria se cada notí­cia dessas fosse um trote que um amigo passou a outro hoje. Tantos infor­tú­nios em apenas um único dia. Nenhuma men­tira. Somente a ver­dade rís­pida e nua a nos olhar des­pro­vida de qual­quer fan­ta­sia. Vamos mentir um pouco então para apla­car a rigi­dez do homem e a sucção da vida no mundo. Vamos com­ba­ter todos os focos de dengue. Encon­trar uma famí­lia ao bebê aban­do­nado. Res­pei­tar as leis de trân­sito. Con­si­de­rar a impor­tân­cia da vida animal para­lela à nossa exis­tên­cia. Exer­cer a igual­dade social. Extin­guir a fome. Saciar a sede. Viver a liber­dade de expres­são, per­mi­tindo o direito de cada um. Abor­tar as guer­ri­lhas, os con­fli­tos de inte­res­ses e os aten­ta­dos. Par­ti­lhar a paz. Irra­diar o amor. Exter­mi­nar pre­con­cei­tos. Olhar o pla­neta como uma única resi­dên­cia na qual todos devem coo­pe­rar pela sua lim­peza e orga­ni­za­ção, na busca pela con­vi­vên­cia pací­fica e har­mo­ni­osa. Uau! Isso sim parece o dia da men­tira.

Há algo errado na sime­tria da rea­li­dade. Onde se encon­tra o dia da ver­dade então? O dia em que todas as men­ti­ras serão fatos? Onde sonhar já não será neces­sá­rio e a utopia se fará pre­sente? Penso que hoje, 1º de abril, seja o dia de buscar viver uma rea­li­dade lon­gín­qua da nossa. Mentir equi­vale a ide­a­li­zar uma ver­dade cobi­çada e ine­xis­tente. Hoje pode­ria ser o dia em favor dos sonhos. – Mente e me faz crer que é pos­sí­vel. – Me ilude com uma falsa ver­dade e por alguns segun­dos até meus fan­tas­mas serão gente. Alguém já disse que acre­di­tar feroz­mente numa men­tira pode torná-la ver­dade. Então vamos con­fiar na espe­rança de um amanhã mais justo, demo­crá­tico, soli­dá­rio e humano, e quem sabe trans­for­mar esse dia da men­tira na nossa futura rea­li­dade. E para não perder o momento e já come­çar a acre­di­tar no impos­sí­vel...

... Eis as novas man­che­tes do dia: O salá­rio mínimo subiu para R$ 1.000. Cin­quenta bilhões de reais são des­ti­na­dos a moder­ni­za­ção de hos­pi­tais públi­cos e capa­ci­ta­ção de novos pro­fis­si­o­nais no país. Pro­fes­so­res tem rea­juste sala­rial de 250%. Medi­das de inclu­são social dimi­nuem o crime orga­ni­zado no Rio. A baía de Gua­na­bara e o rio Tietê ganham pro­jeto de des­po­lui­ção das águas. O Brasil assume a posi­ção de nova potên­cia mun­dial. Flo­resta ama­zô­nica recu­pera 80% de sua área devas­tada. Mobi­li­za­ção global dos países reduz o nível de CFC na camada de ozônio. Esta­dos Unidos e Ori­ente Médio assi­nam cessar fogo. Judeus e pales­ti­nos criam novo tra­tado e deter­mi­nam paci­fi­ca­mente suas divi­sões ter­ri­to­ri­ais. O casa­mento gay é lega­li­zado na maior parte do mundo. A maco­nha tem seu uso apro­vado na medi­cina. A Agên­cia Espa­cial Inter­na­ci­o­nal esta­be­lece seu pri­meiro con­tato com vida inte­li­gente fora da Terra e des­co­bre defi­ni­ti­va­mente que Elvis não morreu, estava apenas de férias com James Dean, Marilyn Monroe, John Lennon e George Har­ri­son numa colô­nia hare krishna anos-luz daqui.

Garantindo o seu posto

Quem inven­tou a com­pe­ti­ti­vi­dade? ... Algum pri­mata inve­joso que não con­se­guiu a caça maior? Desde os micró­bios da origem da evo­lu­ção de Darwin que existe a com­pe­ti­ção e a sele­ção dos mais hábeis. Me lembro dos livros de ciên­cias da 7ª série e das gira­fas de pes­coço mais curto. Para sobre­vi­ver numa região onde os ali­men­tos esta­vam no topo das árvo­res, só usando uma vara, e assim as pes­co­çu­das evo­lu­í­ram e dei­xa­ram pra trás uns pos­sí­veis primos dos cava­los. A com­pe­ti­ção esti­mula a qua­li­dade e a cri­a­ti­vi­dade, mas pode ser muito cruel também hoje em dia, uma vez que só per­ma­ne­cendo os pes­co­çu­dos, a con­cor­rên­cia vai ficando cada dia pior. Gosto de pensar que nem sempre os esco­lhi­dos são os melho­res, que uma boa leva fica pelo cami­nho. Quem garante que as gira­fas de pes­coço mais curto não eram melho­res? As coi­ta­di­nhas só não tive­ram muita sorte. E sorte também é fun­da­men­tal durante uma com­pe­ti­ção.

Quem saiu na frente na cor­rida espa­cial durante a Guerra Fria? Os sovi­é­ti­cos quando lan­ça­ram em 1957 a inde­fesa Laika a bordo da Sput­nik e Iuri Gaga­rin em 1961 para dar uma volta com­pleta na órbita da Terra, ou os ame­ri­ca­nos com a che­gada do homem à Lua em 1969? Refe­rente à Laika, gosto de enfa­ti­zar que a cade­li­nha acabou mor­rendo seis horas após o lan­ça­mento, vítima do supe­ra­que­ci­mento da nave e do estresse cau­sado por não ter sido avi­sada que iria sozi­nha para o espaço. Ainda assim, tenho uma forte incli­na­ção pelos russos, e par­ti­cu­lar­mente acho a pala­vra cos­mo­nauta mais expres­siva e gar­bosa do que astro­nauta, apesar de crer que a NASA deve ter uma apa­re­lha­gem bem mais sofis­ti­cada, ou tudo não passa de mer­chan­di­sing? Ah, a publi­ci­dade! O que seria dela sem a com­pe­ti­ção?

Não sei se posso con­si­de­rar a peleja da Rede Record contra a Globo como com­pe­ti­ção de fato, tendo em vista que a pri­meira não esta­be­lece uma con­cor­rên­cia real, já que pro­cura se igua­lar e não com­pe­tir pro­pri­a­mente com a outra. Mas já posso con­si­de­rar a mais nova cor­rida da tele­dra­ma­tur­gia bra­si­leira, e agora entre Globo e SBT. Quem iria pensar que a emis­sora de Sílvio seria a pri­meira a trans­mi­tir o pri­meiro beijo gay femi­nino da tele­vi­são bra­si­leira. E depois de dada a lar­gada, a dis­puta agora é em torno das pri­mei­ras carí­cias mais ousa­das entre dois homens. O SBT já divul­gou: em julho sairá o pri­meiro beijo gay mas­cu­lino entre os atores Carlos Thiré e Lui Mendes também em Amor e Revo­lu­ção. Bem, isso se Edu­ardo e Hugo não forem pra cama antes. Sim! Insen­sato Cora­ção, a novela com mais homos­se­xu­ais assu­mi­dos até então, desde o início criou polê­mica sobre um suposto beijo entre alguns dos seus per­so­na­gens, o que já até havia sido des­men­tido pelos auto­res, mas será que a con­cor­rên­cia anda inco­mo­dando e eles agora não querem que o SBT tenha o título da pri­meira emis­sora libe­ral do país?

Em um momento de inten­sas con­quis­tas homos­se­xu­ais, com o reco­nhe­ci­mento da adoção por casais gays e a apro­va­ção da união está­vel pelo Supremo Tri­bu­nal de Jus­tiça, parece real­mente o momento mais favo­rá­vel para mais essa virada. No entanto é cedo para con­si­de­rar a quebra do tabu na tele­vi­são aberta, prin­ci­pal­mente porque dife­rente do beijo entre as atri­zes Gisele Tigre e Luci­ana Ven­dra­mini, o autor Tiago San­ti­ago já infor­mou que irá colo­car um locu­tor anun­ci­ando o beijo gay. Se partir por esse cami­nho, a Globo tem chance de recu­pe­rar a dis­puta. Gil­berto Braga e Ricardo Linha­res divul­ga­ram essa semana que os per­so­na­gens de Rodrigo Andrade e Marcos Damigo terão cenas já escri­tas de beijo e sexo pre­vis­tas para ir ao ar também em julho. Claro que se apro­vado pela dire­ção da Globo tudo deverá ser bas­tante sutil, mas a com­pe­ti­ção entre as emis­so­ras no pró­ximo mês será cabe­çuda. E quem irá garan­tir a sobre­vi­vên­cia da espé­cie dessa vez? Ouso dizer que é pre­ciso ter muito peito, ou melhor, pes­coço para alcan­çar o galho mais alto e que­brar esse cír­culo de medos e con­ven­ções que assom­bra os bas­ti­do­res da tele­vi­são bra­si­leira.

Retrato de alguém

Um pé na frente do outro. Nunca exa­mi­nei com tanta pre­ci­são os meus passos ao cami­nhar. O azul do tênis desa­pa­rece entre o ama­relo cin­zento do pó da estrada. Nenhum sinal de espe­rança, além dos arbus­tos e do meu suor escor­rendo pela face, cada vez mais, como uma cer­veja fria vazando num copo cheio. As gotas gela­das con­tras­tam com a secura dos lábios e a chapa quente da cabeça. Can­saço, medo, inse­gu­rança, fôlego. Sinto a dor fus­ti­gar os últi­mos esfor­ços das minhas pernas em se manter firmes. O sol me insulta ao abusar de sua inten­si­dade sobre as minhas costas fati­ga­das com os 5kg da mochila, que agora somam 20. Uma pequena sombra embaixo do que já foi um grande umbu­zeiro me pro­tege agora contra o calor. Sen­tado num toco já apo­dre­cido, bebo os últi­mos goles da água que me resta no cantil, e limpo o suor da testa com a mão. Nada! O iso­la­mento com­pleto! O aban­dono da alma. O encon­tro com o demô­nio pri­vado. Neste resto de mundo, o resto do que seria um homem.

Já não há mais razão para remorso ou culpa. O que é fato não pode ser modi­fi­cado, nem apa­gado. Enca­rar as ati­tu­des com resig­na­ção é tudo que pode ser feito. Recordo-me uma vez ao visi­tar a casa de um amigo no sítio de um senhor muito intri­gante: cabe­los bran­cos, barba com­prida e um olhar vazio. Ele era conhe­cido pelo trato gros­seiro ao reba­nho da região. E os ani­mais res­pon­diam na mesma linha a sua pre­sença. Uma rela­ção mútua de desa­feto se esta­be­le­cia. Certa noite, encer­rado seus ser­vi­ços, o encon­trei ao pé de uma can­cela obser­vando o gado. Ele não pare­cia mais o senhor agi­tado de antes, tinha uma expres­são de pesar no rosto. Foi então que entre uma con­versa e outra, ele me contou que a vida toda sonhou em ser caubói e par­ti­ci­par de rodeios, mas sempre teve medo de enca­rar o desa­fio, dei­xando suas vitó­rias apenas para a ima­gi­na­ção, até quando per­ce­beu que o objeto de seu sonho havia se trans­for­mado na razão de seu dis­sa­bor. Se afas­tou dizendo que pensar demais em como as coisas podem ser, não sobra tempo pra elas real­mente serem. Então foi um pouco o que fiz. Decidi não mais pensar. E aqui estou, a olhar o nada do meu pen­sa­mento.

Algu­mas aves escu­ras cruzam o céu a me obser­var. Mas não serei seu ali­mento. Não ainda! Reco­lho a mochila e sigo cami­nhada. Mais alguns qui­lô­me­tros e a pri­meira visão de algo pul­sante a se mexer. Uma iguana atra­vessa a estrada apres­sada como a fugir. De mim? Mais alguns passos e escuto vozes, uma música dis­tante que se apro­xima mais e mais. Avisto então um jumen­ti­nho amar­rado a uma árvore e mais ao lado um case­bre de taipa, mais pare­cendo um bar. Ali no meio do nada. Algu­mas mesi­nhas e ban­qui­nhos de tronco de árvore do lado de fora. Agora posso ouvir niti­da­mente a canção. De um toca-fitas de pilha fixado sobre uma base de madeira ao lado da porta sai: São Tantas Coisas, de Roberta Miranda. Fico está­tico diante de inu­si­tada situ­a­ção. Um homem então sai do case­bre e me encara. Um sujeito retra­ído, calça bege enve­lhe­cida e dobrada no cal­ca­nhar, cami­seta que um dia foi branca aberta até o peito e botina preta. Sua expres­são sutil e desin­te­res­sada revela o des­gaste de uma fisi­o­no­mia que parece bem mais gasta do que real­mente é. Uma alma cas­ti­gada pela sorte? Entre o clima tenso entre nós dois, o refrão de Roberta Miranda: “vou con­fes­sar, renun­ciei você de tanto louco amor...”

Ainda me enca­rando, ele leva a mão direita ao bolso da calça e puxa um velho maço de cigar­ros, pega um isqueiro no outro bolso, acende e senta-se em um dos ban­qui­nhos, sem mais se impor­tar comigo. Resolvo entrar naquele lugar. Uma mulher de meia-idade, rosto alheio e pele quei­mada do sol limpa um sim­ples balcão e pouco caso faz com a minha pre­sença. Quando volta o olhar em minha dire­ção, pro­nun­cio a única pala­vra que con­se­gue sair de meus lábios: água! Minu­tos depois me esbaldo em um bife de panela com arroz e feijão tro­peiro. Saci­ada a sede e a fome, sou infor­mado onde pode­rei lavar o rosto. Do lado de fora, vou até um poço de onde puxo em um balde de alu­mí­nio amas­sado, a água para banhar a face e os pés. Hora de reto­mar a cami­nhada. Nem o jumento, nem o homem estão mais em frente ao case­bre. Reco­lho minha mochila e pego a estrada revi­go­rado.

Cai o pano

Escrevi esse texto no fim de julho, mas por alguma razão não o publi­quei. Con­si­de­rei-o piegas demais ou não quis com­par­ti­lhar meus sen­ti­men­tos e ele ficou entre os ras­cu­nhos. Hoje ao reler não me pare­ceu tão ruim assim e aqui está:

Os mesmos passos de antes subindo os baten­tes, a mesma dire­ção, os mesmos movi­men­tos. O fim de mais um dia, não fosse a cer­teza que esses últi­mos passos fecham um ciclo. Não mais aquela por­ta­ria, não mais as esca­das, o can­saço pelo cor­ri­mão, não mais essas pare­des que me foram com­pa­nhia em incon­tá­veis epi­só­dios. E no entanto, tudo parece uma fini­dade per­pé­tua. Con­sigo olhar o quarto que me foi abrigo e tem­pes­tade, e con­sigo fixar em minha memó­ria que serão os últi­mos ins­tan­tes de uma agra­dá­vel e dolo­rida lem­brança do pas­sado. Mas não fossem as caixas espa­lha­das pela sala, as camas e os armá­rios des­mon­ta­dos, o vazio do caos, eu pode­ria jurar que tudo con­ti­nu­a­ria como está. Não faço ideia da dimen­são que a minha ati­tude pode alcan­çar. Do oco que me dei­xará aban­do­nar um espaço onde vis­lum­brei alguns dos momen­tos mais sig­ni­fi­ca­ti­vos dessa jor­nada. Mas creio estar pre­pa­rado para o por vir.

Não quero falar do que passou, mas do que fica. Daquilo que car­rego inde­pen­dente dos móveis e ele­tro­do­més­ti­cos. Ao pene­trar uma cidade des­co­nhe­cida seis anos atrás, sem amigos, cole­gas e poucos conhe­ci­dos jamais pode­ria ima­gi­nar quão grande minha rede de con­ta­tos pode­ria se trans­for­mar. Depois de vege­tar três anos em uma facul­dade que a cada dia arran­cava um pouco de minha essên­cia, resolvi agir me matri­cu­lando no curso de teatro. E essa foi real­mente uma das melho­res deci­sões que já tomei em minha vida. Ganhei não só o fôlego de volta, como uma nova famí­lia. O teatro é exta­si­ante! Des­co­bri nesse pouco tempo de expe­riên­cia, o ver­da­deiro valor de repre­sen­tar, e acre­dito que des­co­bri a linha que mais condiz com os meus ideais e habi­li­da­des, o que não garante que irei seguir. Por muitos anos me per­gun­tei se deve­ria ter escu­tado a opi­nião do meu pai que Artes Cêni­cas tinha muito mais a ver comigo que Jor­na­lismo. Hoje não tenho a menor dúvida que fiz a esco­lha certa no momento. Sempre acho que nin­guém cruza o cami­nho de nin­guém sem uma razão, embora no momento pos­sa­mos des­co­nhe­cer com­ple­ta­mente.

Com a mesma con­vic­ção que decidi trocar Natal por Cam­pina Grande, e per­cebi o momento de agir ao entrar no teatro, vejo que chegou a época de tomar novos rumos, e se isso sig­ni­fica deixar algu­mas con­quis­tas para trás, será o preço a pagar. Sou um espí­rito livre, sempre fui. Nunca me ima­gi­nei preso a nada. Embora criado em uma bolha, sempre ansiei trans­por os mais dis­tan­tes limi­tes. Gosto dos reco­me­ços, das mudan­ças – prin­ci­pal­mente se forem radi­cais. Gosto de des­co­brir o novo, e de desis­tir também – de pre­fe­rên­cia de última hora – a sen­sa­ção de auto­no­mia é ini­gua­lá­vel. Sou um pouco metó­dico em orga­ni­zar minha vida por fases, acho que con­sigo assi­mi­lar melhor sepa­rando “em pastas” a minha infân­cia, ado­les­cên­cia, fase cur­si­nho, uni­ver­si­dade, teatro... para recor­dar com maior faci­li­dade as lem­bran­ças. E o mais curi­oso de tudo é que mesmo cur­tindo a fase atual, sempre busco um ponto final para deixar o gos­ti­nho de retorno no ar. Aquele velho ditado: “o que é bom dura pouco”, cos­tumo seguir à risca.

Assim, Cam­pina Grande vira mais uma notá­vel página da minha vida. E como Natal, a incer­teza de voltar um dia se mis­tura com a sau­dade. Olhar o apar­ta­mento pre­pa­rado para me deixar é mais forte do que pode­ria supor. E não é ele quem vai me deixar, sou eu quem irei aban­doná-lo. Se bem que o vendo todo bagun­çado assim, aos poucos já não vai pare­cendo o palco da minha vida. Ele já não me per­tence mais, ou eu já não per­tenço aqui. Somos dois per­so­na­gens de uma tra­gi­co­mé­dia de muitos atos. O mais tene­broso de tudo é que um ato sempre leva a outro, e a peça vai a cada cena se apro­xi­mando mais do seu fim, até che­gar­mos ao último ato e as cor­ti­nas se fecha­rem de vez. Cam­pina, dina­mé­rica, 263B, TMSC, Sesc, UEPB e todos os per­so­na­gens que con­tra­ce­na­ram comigo nessa esquete da vida, saibam que vai embora comigo um pouco de vocês, e creio que ficará um pouco de mim por aqui também. Toda­via, não se esque­çam que quando uma cor­tina se fecha, é sinal que ela pode se abrir nova­mente a qual­quer momento e o espe­tá­culo reco­meça.

Próxima parada: fim do mundo!

É melhor apro­vei­tar o dia de hoje o máximo pos­sí­vel, porque segundo o pre­ga­dor evan­gé­lico ame­ri­cano Harold Cam­ping, o fim do mundo tem data: é amanhã! Nossa! O que posso fazer ainda hoje que não fiz em toda a vida? Tenho tantos luga­res que gos­ta­ria de conhe­cer, mas não dá pra viajar pra todos em um só dia, então acho que esco­lho o Eve­rest, com cer­teza vai dá pra assis­tir o espe­tá­culo do apo­ca­lipse de cama­rote. Não sei exa­ta­mente em que se baseia esse pre­ga­dor para anun­ciar pela segunda vez no mesmo ano o fim dos tempos. Pri­meiro ele disse que o mundo aca­ba­ria às 20h do dia 21 de maio, mas eis que o sol renasce no dia 22. Uma intensa divul­ga­ção com direito a car­ta­zes espa­lha­dos nas ruas pelos fiéis de Cam­ping anun­ci­a­vam o grande dia, mas como ele não veio, os segui­do­res fica­ram se per­gun­tando o que teria acon­te­cido por ainda esta­rem vivos. A cena me recorda um epi­só­dio que assisti ainda cri­ança da Famí­lia Dinos­sauro, quando Dino acre­di­tava que o mundo ia acabar porque Bob tinha que­brado uma tra­di­ção mile­nar, e todos se reu­niam na sala envol­tos em len­çóis espe­rando a hora final. A sur­presa dos fiéis deve ter sido pare­cida com a da famí­lia dinos­sauro aos pri­mei­ros raios do alvo­re­cer.

Um erro de cál­culo! Foi o que anun­ciou Cam­ping depois do mundo con­ti­nuar exis­tindo após sua pre­vi­são. O mais impres­si­o­nante é que muita gente aban­do­nou mesmo suas casas, desfez de bens, largou empre­gos e quando o juízo final não apa­re­ceu tive­ram que assu­mir as con­se­quên­cias de seus atos. Teve até um fun­ci­o­ná­rio apo­sen­tado que gastou mais de 140 mil dóla­res da sua pou­pança em publi­ci­dade para a pro­fe­cia. Com o fim do mundo remar­cado para 21 de outu­bro, Cam­ping ava­liou que não será neces­sá­rio tanta divul­ga­ção como em maio. Por que será? Essa não é a pri­meira vez que somos comu­ni­ca­dos de um suposto “dia do jul­ga­mento”. Quem não se lembra das pro­fe­cias de Nos­tra­da­mus sobre o fim do mundo para 11 de agosto de 1999? Uma pro­pa­ga­ção em massa ganhou a mídia de todo o pla­neta. Olhos curi­o­sos fixa­dos para o céu daquela noite que nada visi­vel­mente acon­te­ceu. Mas há quem defenda um suposto eclipse no mês de julho daquele ano como algo refe­rente à pre­vi­são de Nos­tra­da­mus, jus­ti­fi­cando o erro de cál­culo pela mudança de calen­dá­rio Juli­ano para Gre­go­ri­ano.

Mais recen­te­mente temos as pre­vi­sões maias sobre 2012, que já virou até temas de filmes, ante­ci­pando a catás­trofe mun­dial que ainda nos aguarda. De acordo com o pre­nún­cio, 2012 mar­cará o fim de um ciclo cós­mico no pla­neta. O calen­dá­rio maia ter­mina de repente entre os dias 21 e 23 de dezem­bro de 2012 do nosso tempo. A causa física seria uma intensa chama radi­o­a­tiva, oriunda do centro da galá­xia, que seria trans­mi­tida à Terra e a todo Sis­tema Solar. Vio­len­tos ter­re­mo­tos, erup­ções vul­câ­ni­cas e fura­cões devas­ta­do­res esta­riam entre alguns dos efei­tos res­pon­sá­veis pela des­trui­ção na nossa era. Fala-se também de inun­da­ções catas­tró­fi­cas e chuvas de fogo. Bem, se ana­li­sar­mos os últi­mos anos pode­mos dizer que o fim dos tempos já chegou mesmo. Bomba atô­mica, tsu­na­mis na Ásia, aviões contra pré­dios, efeito estufa, aque­ci­mento global. Não é neces­sá­rio espe­rar 2012 para cons­ta­tar isso. Se os anti­gos pre­viam o pla­neta em colapso para a nossa época, então eles não erra­ram os cál­cu­los.

Mas e se o mundo for mesmo acabar amanhã? Alguém já fez seus planos para o último momento? Eu não con­sigo ima­gi­nar um local melhor para espe­rar o fim dos tempos do que  no Cor­co­vado, aos pés do Cristo Reden­tor, ao lado da famí­lia e dos melho­res amigos. Difí­cil seria não morrer antes de asfi­xia tama­nha seria a quan­ti­dade de pes­soas no local. Toda­via, se os cál­cu­los de Cam­ping se con­fir­ma­rem dessa vez, muita gente verá o juízo final da janela do tra­ba­lho, longe dos que amam e sem fazer as malas para a grande par­tida. Mas não é exa­ta­mente assim que as pes­soas morrem mesmo? Quem é que está pre­pa­rado quando a morte chega? Não existe aquela figura de manta preta e foice na mão que vem anun­ciar a hora de partir. Por­tanto, já que a morte não avisa quando irá dar às caras, é muito pouco pro­vá­vel que o mundo ter­mine amanhã. Quando os pri­mei­ros raios do dia 22 sur­gi­rem no céu, não gos­ta­ria de ser um dos fiéis de Cam­ping incré­du­los por per­ce­ber que con­ti­nuam vivos mais uma vez.

Estilo alheio

As pes­soas que não ambi­ci­o­nam nada e não arris­cam nada, não servem para nada. O que se cons­truiu em sécu­los se des­trói num dia. Diga o que diga Aris­tó­te­les e toda sua filo­so­fia, não há nada que se com­pare ao rapé. Nenhuma das frases ante­ri­o­res são minhas. A pri­meira é da ópera As Bodas De Fígaro de Mozart, a segunda é de Gota D’água de Paulo Pontes e a última é de Don Juan de Molière. Mas já fiz uso delas cor­ri­quei­ra­mente. É um hábito, nada sau­dá­vel, que car­rego desde muito. Apro­priar-se de certas frases e pala­vras com as quais me deparo em per­so­na­gens de livros, filmes, nove­las e as tornar minhas. Creio que acon­teça muito a prá­tica de copiar certos bor­dões das tele­no­ve­las e levar para a rua. No meu caso geral­mente faço uso dessas expres­sões quando me iden­ti­fico com o per­so­na­gem. Teve uma época em que era comum eu emen­dar uma frase na outra e ficar res­pon­dendo ideias pre­con­ce­bi­das. Quando assis­tia dia­ri­a­mente seri­a­dos ame­ri­ca­nos como Small­ville, era auto­má­tico, aca­bava a série e as frases já se for­ma­vam na minha cabeça. Na pri­meira opor­tu­ni­dade, des­pe­java ‘meu’ con­te­údo pro­gra­mado.

Esse cos­tume não era um capri­cho sem fun­da­mento. Estava base­ado num cunho psi­co­ló­gico maior. Repe­tir frases que via na tevê era uma ten­ta­tiva de me igua­lar àque­las figu­ras que me ser­viam de espe­lho. Na ver­dade gos­ta­ria de ser eles, de pos­suir sua lin­gua­gem, suas roupas, seus hábi­tos. E sempre foi assim. Bus­cava ser o outro e nunca eu. Os outros eram bem mais inte­res­san­tes, tinham um corte de cabelo mais moderno, se expres­sa­vam com mais fir­meza, dan­ça­vam mais atra­en­tes. Se pudesse esco­lher, seria todos os per­so­na­gens que já me iden­ti­fi­quei de James Dean a Orlando Bloom, mudando a apa­rên­cia ao meu menor cri­té­rio de beleza e har­mo­nia do momento. Ser o mesmo sem graça sempre era um tédio! E repro­du­zir as frases que escu­tava, me trans­por­tava um pouco àquele mundo ideal. Nunca foi uma ati­tude acon­se­lhá­vel. Indi­ca­ção de inse­gu­rança e falta de per­so­na­li­dade pró­pria, mas ainda assim aumen­tava a auto­es­tima.

Antes essa ins­ta­bi­li­dade se res­trin­gisse apenas ao com­por­ta­mento. O meu dese­qui­lí­brio era com­pleto, ao ponto de influ­en­ciar deci­sões impor­tan­tes. Não quero dizer que fiz jor­na­lismo por algum ideal midi­a­ti­zado, passa longe daí. Mas não posso deixar de admi­tir que a opi­nião que tenho da car­reira fica mais sim­pá­tica quando vejo Clark e Lois na reda­ção do Pla­neta Diário. Lamen­ta­vel­mente sou influ­en­ci­á­vel. Mas quem não o é hoje, com tanta expo­si­ção de padrões de beleza, com­por­ta­mento e feli­ci­dade na mídia? Algu­mas vezes me vejo fuçando as carac­te­rís­ti­cas de deter­mi­na­das car­rei­ras, que­rendo quem sabe cursar uma outra uni­ver­si­dade, dar novos rumos à vida, tudo, claro, com uma certa influên­cia ao que estou exposto. Já me peguei ana­li­sando os cursos de bio­lo­gia mari­nha, astro­no­mia, psi­co­lo­gia e turismo. Em outras oca­si­ões pes­qui­sei sobre con­tro­la­dor de trá­fego aéreo, mari­nheiro mer­cante e piloto de avião, os dois últi­mos soma­dos a minha labi­rin­tite seriam uma piada. Até o pro­fis­si­o­nal para­mé­dico andei fuçando, influ­en­ci­ado pelo per­so­na­gem da série Ghost Whis­pe­rer, quando tenho ver­ti­gem só de ima­gi­nar sangue.

E a grande ver­dade é que não pre­ciso inves­ti­gar pro­fis­são alguma, nem repe­tir testes voca­ci­o­nais, porque já sei qual será o resul­tado. Eu sei no que devo inves­tir porque nossa alma nos mostra aquilo a que temos apti­dão, mas é pre­ciso acre­di­tar nisso e não se deixar tomar pelas ideias midi­a­ti­za­das de per­fei­ção e sucesso. No meu caso ainda oscilo entre quem quero ser e quem sou, se ambos são o mesmo, se mis­tu­ram, ou se há sepa­ra­ção. Talvez o pri­meiro passo seja enxer­gar a pró­pria indi­vi­du­a­li­dade e se per­mi­tir ser, para depois ter capa­ci­dade de agir com pro­pri­e­dade. Repe­tir frases feitas não é o ideal, mas se auxi­lia na busca do auto­co­nhe­ci­mento é válido. Ao menos é uma dica que ganhei de uma pro­fes­sora sobre reda­ção: “comece copi­ando o estilo dos outros e logo estará pro­du­zindo o seu”. Então é o que faço, incons­ci­ente ou não. O pro­blema é que até agora não con­se­gui afir­mar minha iden­ti­dade e con­ti­nuo seguindo o estilo alheio.

Mantenha a distância um pouco próximo!

Dei­xando de lado a minha hipo­con­dria, talvez eu tenha des­co­berto o mal de todos os meus fra­cas­sos. Nem é pre­ciso ir muito longe no meu his­tó­rico com­por­ta­men­tal para encon­trar traços de uma des­re­gu­la­ção emo­ci­o­nal, raci­o­cí­nio extre­mista e rela­ções caó­ti­cas. Não seria lá grande coisa, se eu não tivesse des­co­berto que essas par­ti­cu­la­ri­da­des fazem parte de um diag­nós­tico maior, que talvez tenha me acom­pa­nhado desde muito sem que eu pudesse iden­ti­fi­car. Me refiro ao Trans­torno de Per­so­na­li­dade Bor­der­line ou Limí­trofe, também conhe­cido pelas siglas TPB ou TPL. Ih, lá vem Samuel de novo com outra doença pro reper­tó­rio! Não, não dessa vez! Ou sim! O fato de eu dizer que tenho deter­mi­nado trans­torno é porque eu sinto que tenho, e não porque acho inte­res­sante e quero ter. Acom­pa­nhe o raci­o­cí­nio! Se eu quase nunca ou só a muito custo con­sigo ter­mi­nar o que come­cei, afasto aque­les de quem mais pre­ciso enquanto cobro para­do­xal­mente sua aten­ção, tenho ten­dên­cia a para­noia, julgo as pes­soas sempre pela última inte­ra­ção, e todas essas carac­te­rís­ti­cas estão pre­sen­tes nos sin­to­mas do TPB, o que devo pensar?

Em mais uma nave­gada dessas que leva a outra pela net, acabei caindo na imensa página do TPB da Wiki­pé­dia. Fui lendo por curi­o­si­dade e aos poucos me encon­trei por lá. Des­co­bri que uma das prin­ci­pais carac­te­rís­ti­cas do bor­der­line é a into­le­rân­cia à rejei­ção. Os bor­der­li­nes são extre­ma­mente caren­tes de aten­ção, e quando falo carente não sig­ni­fica que nin­guém lhe dê aten­ção, é que nunca é o sufi­ci­ente. E como con­se­quên­cia, sentem-se igno­ra­dos quando perdem os holo­fo­tes. Escon­dem também pro­fun­dos traços de maso­quismo e sadismo. São muito ima­tu­ros emo­ci­o­nal­mente, impa­ci­en­tes, buscam sempre recom­pen­sas ime­di­a­tas, daí a falta de per­sis­tên­cia em con­ti­nuar os pro­je­tos, não tole­ram frus­tra­ções e tendem a colo­car a culpa sempre em outros por suas pró­prias falhas.

Com um bor­der­line não há meio-termo, ou ele gosta de alguém ou alguma coisa ou não. O que não quer dizer que o “não” de hoje não será o “sim” de amanhã, suas opi­ni­ões são facil­mente incons­tan­tes e con­tra­di­tó­rias, assim como seu com­por­ta­mento osci­lante entre adulto e infan­til. E aqui mais uma grande carac­te­rís­tica minha: irri­tam-se facil­mente por coisas banais, e apesar de con­se­guir demons­trar certa “nor­ma­li­dade” em várias situ­a­ções tri­vi­ais, exibem escan­da­lo­sa­mente a inca­pa­ci­dade em con­tro­lar sua raiva. Quem já pre­sen­ciou meus exces­sos, sabe do que digo. Outras par­ti­cu­la­ri­da­des do bor­der­line são os pro­ble­mas com a iden­ti­dade, sen­sa­ções de irre­a­li­dade e des­per­so­na­li­za­ção (sen­sa­ção de não ser real, de ine­xis­tir), o que gera uma forte ten­dên­cia sui­cida aliada a sen­ti­men­tos crô­ni­cos de vazio e tédio. Como vál­vula de escape é comum a auto­mu­ti­la­ção, a troca de uma dor emo­ci­o­nal por uma física. Isso explica a sen­sa­ção de deleite em arran­car a pele da sola do meu pé, e mais recen­te­mente, dos lábios.

O indi­ví­duo bor­der­line é geral­mente visto ainda como geni­oso, tem­pe­ra­men­tal ou “de lua”, como já afir­mava meu amigo Júlio, mas também super­fi­ci­al­mente ado­rá­vel e sim­pá­tico. No entanto, pelas pes­soas de sua grande inti­mi­dade, prin­ci­pal­mente a famí­lia, com quem entra sempre em con­flito, são vistos como agres­si­vos e mal-humo­ra­dos. Essa na ver­dade é a maneira que encon­tram para demons­trar seus medos e se pro­te­ge­rem, e nisso são árduos mani­pu­la­do­res, embora não admi­tam (foi difí­cil incluir esse traço aqui) e con­si­de­ra­dos até “paci­en­tes impos­sí­veis” por alguns tera­peu­tas, conhe­cendo o ponto fraco das pes­soas e abu­sando das chan­ta­gens.

Só até aqui já pode­ria me encai­xar com per­fei­ção no trans­torno, mas esta última infor­ma­ção é o meu ates­tado final. O bor­der­line não sabe esta­be­le­cer limi­tes sau­dá­veis entre suas rela­ções com as pes­soas, de modo que se alguém se apro­xima demais, ele começa a se sentir sub­ju­gado, com medo de estar per­dendo o con­trole ou de que o outro fique eno­jado ao conhecê-lo de ver­dade e o aban­done. Ele começa então a se dis­tan­ciar, mas quando faz isso, sente-se soli­tá­rio e se apro­xima nova­mente, rei­ni­ci­ando o ciclo. Essa inin­ter­rupta con­tra­di­ção é uma cons­tante na vida do bor­der­line e pode ser uma boa defi­ni­ção dos extre­mos do TPB, além de con­se­guir me des­cre­ver em uma lógica que antes só exis­tia na minha cabeça. Por­tanto, se alguém ainda duvida que faço parte desse notá­vel grupo, tenta contra-argu­men­tar, eu não tenho mais obje­ção. Só um con­se­lho! Pra tentar buscar um certo equi­lí­brio, man­te­nha sempre a dis­tân­cia sem deixar de ficar pró­ximo.

O verdadeiro celeiro

Loch Stack, Arkle – Escó­cia

Alguém já se per­gun­tou onde fica a casa que serve de imagem ao Celeiro? Ou mesmo se ela existe, não é a sim­ples pro­je­ção de uma natu­reza exu­be­rante? De fato ela existe sim e eu até des­co­bri onde está loca­li­zada. Con­fesso que quando a encon­trei pela pri­meira vez e decidi usá-la como cená­rio no blog, não me fiz tantas per­gun­tas sobre sua origem. A pai­sa­gem era sim­ples­mente o que impor­tava e que con­se­guia refle­tir a atmos­fera entre mim e o espaço que havia criado. Posso dizer que havia encon­trado o celeiro. E mesmo que não fosse a fachada típica de um abrigo para cere­ais e outras pro­vi­sões, aquela casa iso­lada, fechada e apa­ren­te­mente ina­bi­tada sim­bo­li­zava um ideal de bem-estar. Repre­sen­tava meu porto seguro, minha for­ta­leza.

Mas tudo é uma ques­tão de ângulo. Nesse post há uma foto em que a casi­nha aban­do­nada não parece tão des­lum­brante assim. Na margem de um lago e com sua vege­ta­ção um pouco escassa, não lembra muito a figura que leva o título do blog. Mas aí sim ela parece mais real, sem gran­des encan­ta­men­tos, viva de fato. A casi­nha deve ter um dono, mas não con­se­gui obter muita infor­ma­ção além do seu exato ende­reço. No noro­este da Escó­cia, em uma das mais belas mon­ta­nhas do con­dado de Suther­land (assim des­cre­ve­ram e parece ser) cha­mada Arkle, à beira do lago Loch Stack, ela se des­taca entre a pai­sa­gem quase into­cá­vel pela inter­fe­rên­cia humana na região. Se alguém chegou real­mente a morar ali não tenho como saber, é pos­sí­vel que sim, e os moti­vos que os leva­ram a aban­do­nar esse pedaço de para­íso podem ser muitos. Mas ele não deixa de ser, no mínimo, um con­vite à refle­xão.

Desde que criei o blog, o layout da página passou por algu­mas modi­fi­ca­ções, mas nunca colo­quei a imagem de um celeiro de ver­dade. Sempre foi o mar, as mon­ta­nhas, as nuvens, alguns balões, praias, estra­das... porque a figura uti­li­zada não tinha o com­pro­misso de ser fiel ao nome do blog, afinal, o celeiro em si era o espaço reser­vado às minhas diva­ga­ções, e por­tanto, não pre­ci­sava colo­car um abrigo cheio de feno para ilus­trar isso. Daí encon­trei a casa soli­tá­ria da Escó­cia, e de repente me senti ligado. Achei que ela podia repre­sen­tar bem o papel do Celeiro do Sam sem se reme­ter à figura tra­di­ci­o­nal. Sim, ela podia! Sua parede de pedra, seu sin­gelo telhado, suas duas cha­mi­nés, a natu­reza em volta, a água que tanto res­piro, ali pode­ria sim ser meu can­ti­nho, pode­ria sin­te­ti­zar um pouco da minha utó­pica filo­so­fia de vida. Eu vive­ria tran­qui­la­mente ali, por quê não? Ao menos vir­tu­al­mente. E que bom que o lugar quase dese­nhado para acom­pa­nhar a pai­sa­gem real­mente existe. Traz uma sen­sa­ção de cum­pli­ci­dade, como se aquela peque­nina e escon­dida habi­ta­ção me per­ten­cesse um pouco. Assim me sinto, como dono e amigo dela. Talvez um dia pos­sa­mos nos encon­trar de fato, e em meio às des­co­ber­tas do encan­ta­mento, os regis­tros de uma par­ce­ria.

P.S.: No final da página tem outra foto de um ângulo mais pri­vi­le­gi­ado. Uma ver­da­deira pin­tura!

A essência que eu respiro

Assim como dei início às pos­ta­gens de 2011 escre­vendo sobre o sig­ni­fi­cado espe­cial da água em minha vida, como fonte de reno­va­ção e ins­pi­ra­ção, quero abrir o Celeiro 2012 tecendo o valor de outro ele­mento a mim tão vital como ao ar. De longe, é a maior sin­to­nia que esta­be­leço com a essên­cia pro­funda da alma. Diante da absurda quan­ti­dade de ideias e pen­sa­men­tos que cir­cu­lam todos os dias na minha mente, o papel em branco é a melhor via que encon­tro para con­ver­ter bor­rões em algo tan­gí­vel. Ah, a vida não teria a menor graça não fossem as formas tri­di­men­si­o­nais das pala­vras, as reti­cên­cias dos textos, as entre­li­nhas. A vida ganha, sem dúvida, mais colo­rido no papel. É nisso que acre­dito. É por isso que vivo cada dia. Pin­ce­lando o ar com o per­fume das expe­riên­cias, o sabor da meni­nice, a melo­dia dos cora­ções. Oh, crip­to­gra­mas de pala­vras que vagueiam pelos campos tão fér­teis da mais legí­tima feli­ci­dade. Vastas mar­gens de sonhos em cris­ta­li­nas fontes de conhe­ci­mento e cri­a­ção. Que prazer te nave­gar!

Recordo que na escola quando regres­sá­va­mos às aulas, a pro­fes­sora sempre nos cobrava uma reda­ção sobre as nossas expe­riên­cias durante as férias. Eu não enten­dia por que a mai­o­ria dos alunos recla­mava da tarefa e a cum­pria como o pri­meiro fardo daquele ano que tinha início. A meu ver, era uma das melho­res ati­vi­da­des da pri­meira semana. Ado­rava des­cre­ver e narrar os fatos que haviam trans­cor­rido comigo, sempre encon­trando uma maneira de tornar cada deta­lhe mais diver­tido do que até real­mente fora. Como era gos­toso refa­zer os acon­te­ci­men­tos, tendo agora todos em minhas mãos, ao meu con­trole. A sen­sa­ção de comando sempre foi algo intrín­seco ao meu ser. Se durante um tra­ba­lho em grupo eu esti­vesse à frente da tarefa, o esforço era nítido, e o resul­tado eu domi­nava por com­pleto. Por outro lado, se eu fosse apenas mais um peão no tabu­leiro, não con­se­guia desen­vol­ver nem 10% da minha capa­ci­dade. Me encos­tava. E não era pre­guiça, apenas não con­se­guia me envol­ver por inteiro se não esti­vesse na dire­ção.

O domí­nio que me fal­tava lá, eu vertia na vida dos bone­cos, meus melho­res amigos e brin­que­dos. Fui o dire­tor de suas vidas, suas his­tó­rias, seus des­ti­nos. Era seu deus. Sozi­nho na sala, no quarto ou no quin­tal, tra­çava as linhas de cada ser que pas­sava a exis­tir em minhas mãos. Criei alguns filmes que repri­sava em outros momen­tos. Até uma novela surgiu nesse perí­odo. Meu quarto ficava arru­mado (ou bagun­çado) com os ambi­en­tes e os núcleos da trama, e toda noite das sete às oito horas eu exibia um capí­tulo, com direito a vinheta de aber­tura e comer­ci­ais. E como a novela foi um grande sucesso, repri­sei também algum tempo depois. Era ine­fá­vel alçar voo à ima­gi­na­ção e se deixar levar pelos cami­nhos que a pró­pria alma desde cedo reve­lava tão autên­ti­cos.

Quando os anos tor­na­ram invi­á­veis as aven­tu­ras com os bone­cos, trans­feri meu mundo para a folha de papel. As pri­mei­ras his­tó­rias que me recordo escre­ver envol­viam roman­ces con­tur­ba­dos, aci­den­tes, mis­té­rios, rela­ções des­tro­ça­das pela guerra, e até pes­soas abdu­zi­das por OVNIs. Não pou­pava esfor­ços à ima­gi­na­ção. Acho até que hoje sou bem mais mode­rado que naquela fase. Não me pre­o­cu­pava tanto com formas e con­tex­tos, o impor­tante era o que vinha na cabeça e eu queria explo­rar. Desde essa época eu já per­ce­bia que a arte, a fan­ta­sia, a ficção, era muito mais exu­be­rante que a rea­li­dade. Hoje con­ti­nuo me ali­men­tando dessa fonte que não seca. Sempre que pre­ciso me encai­xar, com­preen­der a lógica dos acon­te­ci­men­tos, revi­ver o pas­sado, é na escrita que encon­tro o amparo certo. É nela que ganho a sus­ten­ta­ção e a con­fi­ança no porvir. Seja na intré­pida per­so­na­gem de um seri­ado, na nar­ra­ção de um flashback da vida ou na sim­ples des­cri­ção de um palito de fós­foro. Escre­ver... levar as minú­cias do meu mundo ao conhe­ci­mento do pró­ximo é, sem dúvida, o meu grande alento.

Entre as molas

Esses dias andei pen­sando... O tempo é uma estrada feita de mola que só tende a esti­car. E quanto mais se estica um lado, mais dis­tante fica­mos da sua outra ponta. Ele não pode­ria ser uma reta porque pre­cisa ama­ciar os per­cal­ços da vida. Mas o que vai ficando nesse meio? Ou melhor, o que vai sur­gindo e desa­bro­chando enquanto ela cresce? Quando mais novo, eu cos­tu­mava ana­li­sar o quanto mais dis­tante eu estava ficando de um deter­mi­nado ano. Épocas e momen­tos espe­ci­ais iam se alon­gando sempre mais. De repente, aquele ano mágico ia se tor­nando velho e mais velho, até virar apenas uma pequena sombra dis­tante. Era a mola dis­ten­dendo-se e fazendo do garo­ti­nho, um ado­les­cente; e desse, um homem.

Hoje cruzam por mim dia­ri­a­mente Edu­ar­das, Luanas, Tha­lias, que, não fosse um sim­ples deta­lhe, me pare­ce­riam meros nomes de jovens ado­les­cen­tes. Porém, alguns anos atrás não era comum encon­trar por aí uma garota cha­mada Thalia ou mesmo Edu­arda – o mas­cu­lino sim era o comum -, assim como o femi­nino de Mar­celo também soava estra­nho e só a Machado de Assis e a seu Brás Cubas reme­tia-se tal refe­rên­cia. Daí que olhando a idade dessas meni­nas, entre seus 16 e 18 anos, a expli­ca­ção é bas­tante óbvia. Em 1996 a Rede Globo exibia – como agora vol­tará a exibir – um dos seus mai­o­res suces­sos da tele­dra­ma­tur­gia, a novela O Rei do Gado, cuja moci­nha se cha­mava Luana, uma boia-fria bronca, mas de cora­ção doce, que cati­vou não só Bruno Mezenga, mas o público bra­si­leiro. E haja Luanas a nas­ce­rem naquele ano, filhas do poder de influên­cia da mídia.

O mesmo acon­te­ceu no ano seguinte, quando Manoel Carlos arre­ba­tou o público com sua Helena que sacri­fi­cou seu bebê vivo em troca do filho morto da filha, para não vê-la sofrer diante da impos­si­bi­li­dade de voltar a engra­vi­dar, em Por Amor. A filha mimada e ego­ísta, apesar de sofrer forte rejei­ção do público, parece que con­quis­tou o cora­ção de alguns futu­ros papais, que bati­za­ram suas filhas naquele ano de Edu­arda, nome da moci­nha da his­tó­ria. E quem não se lembra do fenô­meno das três Marias da atriz e can­tora mexi­cana Thalia? Maria Mer­ce­des, Mari-Mar e Maria do Bairro con­sa­gra­ram Thalia no Brasil e a fez visi­tar o país, pela pri­meira vez, em 1997, quando todos pas­sa­ram a conhe­cer não só a atriz, mas também a can­tora, e seu nome virou sen­sa­ção.

São meras cons­ta­ta­ções, mas que me fize­ram refle­tir sobre essa mola que se dis­tende mais a cada dia, fora do nosso con­trole. Não penso melan­có­lico sobre os bebês que nas­ciam bati­za­dos com os nomes da época e hoje estão às portas da uni­ver­si­dade, de onde parece que saímos ontem. Apenas me divirto com as mudan­ças que acon­te­cem. Não há como des­cre­ver o tempo, como segurá-lo, ou mesmo observá-lo, ele sim­ples­mente passa, e só depois o sen­ti­mos, ou sen­ti­mos as mudan­ças que ele nos deixa. O tempo é o hoje, é o agora, é o sol que se põe no fim da tarde, é o garo­ti­nho atra­ves­sando a rua, a folha de papel picada caindo da sacada, o tempo é o ins­tante, é o momento que nos cerca, o que fica atrás dele é essa estrada per­cor­rida sem sina­li­za­ção de retorno. Sendo uma mola, às vezes nos apro­xi­ma­mos de algum cami­nho per­cor­rido, quando nos vem alguma sau­dade ou quando uma Edu­arda te faz lem­brar que já temos algu­mas estra­das cons­tru­í­das, não muito longas, mas que já nos mos­tra­ram algo a mais e nos tor­na­ram mais fle­xí­veis.

Um 2015 mais molhado!

Último dia do ano. Con­ta­gem regres­siva para 2015 e hora de con­ta­bi­li­zar os ganhos e perdas do ano que ter­mina. Dentro de poucas horas um novo ciclo tem início e 365 novos desa­fios nos aguar­dam nessas pró­xi­mas pági­nas que escre­ve­re­mos. 2014 – assim como ima­gi­nei na virada de 2013 -, foi um ano de ganhos para mim. Desde seu início obtive gran­des bên­çãos. Saí de uma fase de reces­são e voltei a cami­nhar com minhas pró­prias pernas. Aprendi a con­du­zir o banco do moto­rista e con­quis­tei minha habi­li­ta­ção. Mudei de cidade. Conheci pes­soas novas e fiz novas ami­za­des. Passei a ganhar final­mente o meu dinheiro. Vi minha prima de longas datas dar um passo a mais em sua vida e senti a emoção de ver aquela garo­ti­nha que dan­çava lam­bada comigo 20 anos atrás subir ao altar e dizer “sim” para um novo futuro.

Na famí­lia con­ti­nu­a­mos unidos, com saúde, feli­zes e cheios de espe­rança. Espe­rança em um amanhã cada vez melhor, com mais har­mo­nia, soli­da­ri­e­dade e prin­ci­pal­mente amor em todos os cora­ções. Mas além disso tudo, que 2015 nos traga algo que faltou em 2014: água. Que a fonte da vida retorne aos cór­re­gos, rios, ria­chos, açudes, bar­ra­gens, que pos­sa­mos ter um 2015 molhado de chuva e água em abun­dân­cia. É triste ter­mi­nar 2014 e per­ce­ber que uma crise geral de falta d’água tomou conta do país. Triste saber que o açude, que mais me pare­cia um oceano e muito me banhei na infân­cia, hoje é um lago de terra seca e capim. Que a atmos­fera nos pre­sen­teie e os céus nos aben­çoem com muitas pers­pec­ti­vas de chuva em 2015 e que sai­ba­mos cuidar e pre­ser­var esse bem tão essen­cial a toda huma­ni­dade.

Que a água venha e volte a brotar nas nas­cen­tes, a encher os rios, a escor­rer pelas bicas, a molhar o pasto, a saciar o gado, a for­ti­fi­car as lavou­ras, a irri­gar as plan­ta­ções, a desa­bro­char as flores, a ger­mi­nar a terra, a reno­var a vida. Que venha 2015, e que ele nos livre desse mundo vazio e esté­ril que começa de fato a nos ame­a­çar. Um 2015 mais molhado a todos nós! Mere­ce­mos.

Tema Opinião 27 textos

“Liberdade!” Que liberdade!?

Ontem assis­tindo ao Jornal da Globo vi um pre­si­diá­rio que ganhou alvará de sol­tura, mas que pre­fere per­ma­ne­cer na cadeia ao invés de usu­fruir sua liber­dade. Parece con­tra­di­tó­rio. Quem em sã cons­ciên­cia pedi­ria para não voltar às ruas? Mas aí é onde entra a lei que governa nosso car­na­va­lesco país. O sis­tema peni­ten­ciá­rio bra­si­leiro nunca foi um dos melho­res do mundo, se brin­car está entre um dos piores. A pre­ca­ri­e­dade do ser­viço é tão grande que não se res­tringe apenas às depen­dên­cias dos pré­dios, mas prin­ci­pal­mente ao pre­si­diá­rio enquanto cida­dão após seu retorno à soci­e­dade.

Não há a menor pre­o­cu­pa­ção do poder legis­la­tivo e nem do pró­prio governo em rea­bi­li­tar esse preso para voltar às ruas. Acabou seu perí­odo de cati­veiro e rua. O que se pode espe­rar de um ex-pre­si­diá­rio à pro­cura de emprego no país onde poucos dos engra­va­ta­dos con­se­guem? No mínimo ele vol­tará a come­ter crimes e em pouco tempo estará de volta de onde saiu. E isso é um pro­blema que vem de longe, da época da utó­pica Lei Áurea, que pro­me­tia a carta de alfor­ria aos escra­vos quando sua “liber­dade” já era algo evi­dente e os deixou à margem da soci­e­dade, acen­tu­ando o cami­nho da desi­gual­dade social no país.

O caso de Fabrí­cio do Jornal da Globo é apenas o retrato de um país que parece ter parado no tempo desde então. Tantas mudan­ças tec­no­ló­gi­cas, avan­ços comer­ci­ais e o ser­viço básico para a cons­tru­ção de uma soci­e­dade mais civi­li­zada ainda é motivo de piada. A dire­ção da Apac, onde Fabrí­cio está, disse que fará de tudo para que ele reen­con­tre a feli­ci­dade aqui fora. Será que con­se­guem? Vamos espe­rar.

O Futuro no Pretérito

Feli­ci­dade! E existe pala­vra mais abran­gente e alme­jada? Esta­mos sempre em busca dela. Pode­mos dizer que camu­fla­da­mente é ela o nosso obje­tivo diário. E o que vem a ser feli­ci­dade? Um estu­dante de ensino médio talvez diga que é passar no ves­ti­bu­lar. Algum fun­ci­o­ná­rio de uma firma afirme que seria uma mudança de cargo. A uma mulher esté­ril pode­ria ser a pos­si­bi­li­dade de engra­vi­dar. Para algum jovem casal seria sim­ples­mente o casa­mento. Mas é pos­sí­vel afir­mar que esses dese­jos são mesmo feli­ci­dade? Pode­rí­a­mos enten­der que a feli­ci­dade então depende de pessoa a pessoa ou que ela pode ser o fruto dos dese­jos e dos sonhos de cada um. Mas feli­ci­dade não é isso.

Quan­tas vezes não olha­mos para trás e dis­se­mos: “como eu era feliz e não sabia”. Se feli­ci­dade são frag­men­tos, momen­tos, ins­tan­tes, então esta­mos sendo feli­zes a todo tempo e não per­ce­be­mos. Feli­ci­dade pode ser uma risada gos­tosa com os amigos; uma situ­a­ção inu­si­tada com a namo­rada; uma viagem de fim de ano; aquele pas­seio ao sítio do amigo; e a fuga de um reba­nho de vacas. Feli­ci­dade é sim­ples­mente um sor­riso vago que mostra a expres­são da sau­dade, da lem­brança, do momento. O que atri­bu­í­mos à pala­vra feli­ci­dade é na ver­dade o que a soci­e­dade impõe. Que­re­mos o carro do ano, um emprego que nos dê boa ins­ta­bi­li­dade e dinheiro porque isso é feli­ci­dade, ou no mínimo o pas­sa­porte para ela.

Esque­ce­mos que dinheiro não traz feli­ci­dade. Pode ser um clichê, mas esta­mos tão acos­tu­ma­dos ao con­su­mismo que só enxer­ga­mos a feli­ci­dade como o resul­tado da posse e do poder de adqui­rir tudo o que muitas vezes nem neces­si­ta­mos. Se entra­mos nesse pen­sa­mento, nenhum pobre é feliz ou vive sua feli­ci­dade de sonhos e dese­jos que nunca se rea­li­za­rão. Quando na ver­dade a feli­ci­dade pode estar muito mais pre­sente nesse meio do que em volta de todo o luxo do mundo. O que é feli­ci­dade na favela e o que é feli­ci­dade nos con­do­mí­nios de luxo? Mundos dife­ren­tes, sonhos pare­ci­dos, rea­li­da­des desi­guais. Nem assim é pos­sí­vel afir­mar que os mora­do­res do con­do­mí­nio são mais feli­zes do que os da favela.

Quando che­ga­mos ao mundo somos apenas um ser, uma nova cri­a­tura que busca apoio, cari­nho e pro­te­ção. Não somos tão dife­ren­tes dos filho­tes de uma vaca, uma cadela, uma leoa ou uma girafa. O que muda depois são as impres­sões que adqui­ri­mos com o con­ví­vio entre os seres huma­nos e prin­ci­pal­mente a soci­e­dade. A partir do momento que abri­mos os olhos, pas­sa­mos a enxer­gar o mundo em que vive­mos e as pes­soas que estão em volta. Se somos bem edu­ca­dos, bem amados e já nas­ce­mos res­pi­rando o luxo, pas­sa­mos a ter uma noção de mundo e dos valo­res que repre­sen­tam as coisas em volta com um olhar, mas se não somos bem amados e nas­ce­mos com o cheiro do esgoto na cara, a vida ganha outro sig­ni­fi­cado. A linha da feli­ci­dade é a mesma a cada um, mas a soci­e­dade diz que apenas o dinheiro irá fazer todos serem feli­zes.

Erro­ne­a­mente, acre­di­ta­mos nas pala­vras da soci­e­dade e caímos na ten­ta­ção do con­su­mismo, outra faceta do capi­ta­lismo. Por valo­res mate­ri­ais pes­soas morrem todos os dias. Pes­soas que buscam em um tênis, em um celu­lar, a feli­ci­dade que a soci­e­dade prega. Esta­mos per­dendo a dire­ção do mundo e caindo cada vez mais no abismo. Somos obri­ga­dos a fazer o que não gos­ta­mos, a ouvir o que não deve­mos, a viver sem sen­tido. E não pen­sa­mos. É pre­ciso tirar a más­cara que enco­bre a vida dos robôs soci­ais. A vida está aí. E nós esta­mos nela para ser feliz, ajudar uns aos outros e buscar a nossa pró­pria feli­ci­dade, mas não a feli­ci­dade externa, e sim a interna. Deve­mos tra­ba­lhar para ser feliz e não para enri­que­cer o sis­tema e des­truir aos poucos nossa saúde e nossa pró­pria vida com os estres­ses diá­rios. Somos livres. Por que não para­mos um pouco de querer o futuro e dei­xa­mos que ele chegue tran­qüi­la­mente?

Desde que nas­ce­mos come­ça­mos uma mara­tona que só acaba no leito de morte, vive­mos alu­ci­na­da­mente em busca do futuro e não para­mos para olhar o pre­sente. Pro­cu­ra­mos a feli­ci­dade futura, aquela que acre­di­ta­mos exis­tir. O pro­blema é quando ela chega e des­co­bri­mos que já não somos tão feli­zes, que a ver­da­deira feli­ci­dade já passou e nem nota­mos, estava lá atrás conosco o tempo todo, mas não vimos porque está­va­mos ocu­pa­dos olhando para o futuro.

“...e aquela sau­dade dos bons momen­tos, daque­les amigos ines­que­cí­veis e das risa­das com­pa­nhei­ras que não se esvaem no tempo e ainda assim roem o cora­ção e a mente quando as folhas do tempo às trazem de volta...”

Cinco Minutos a Mais

Quão ine­vi­tá­vel é a sen­sa­ção de des­prezo e dis­tan­ci­a­mento que o ser humano é capaz de ter antes mesmo de se conhe­cer a outra face da laranja. É certo que vive­mos em “soci­e­dade” e que temos direi­tos e deve­res a serem cum­pri­dos, mas um dos direi­tos que talvez não che­ga­mos a deci­dir foi a neces­si­dade de iso­la­mento de deter­mi­na­das cama­das soci­ais. Desde muito antes da cons­tru­ção de uma soci­e­dade civil, o iso­la­mento de pes­soas por­ta­do­ras de algum mal que pode­riam pre­ju­di­car os demais foi a prin­ci­pal causa do pre­con­ceito e aver­são ao estra­nho. Lepro­sos eram iso­la­dos, loucos presos e os con­de­na­dos iam mais adi­ante, eram sacri­fi­ca­dos em praça pública.

Estu­dar isso na escola, ler em livros ou ver na tele­vi­são não abala mais a nossa soci­e­dade, esta­mos acos­tu­ma­dos com o erro e nem ques­ti­o­na­mos. Porém, ao se depa­rar cara a cara com a rea­li­dade que ainda per­siste é real­mente per­tur­ba­dor. Não é pos­sí­vel exis­tir situ­a­ções seme­lhan­tes ao Impé­rio Romano em pleno século XXI. Pois acre­di­tem, existe! Fazendo uma visita a uma clí­nica psi­qui­á­trica para um tra­ba­lho da uni­ver­si­dade, me depa­rei com a situ­a­ção de maior iso­la­mento social a que uma pessoa pode se encon­trar. Aglo­me­ra­dos, vagando, curi­o­sos, teme­ro­sos, ale­gres, dis­tan­tes. É um mundo à parte que se esconde por trás de uma porta. Uma porta! Apenas uma porta separa a rea­li­dade da fan­ta­sia. Como segre­ga­mos as pes­soas ao nosso inte­resse e as iso­la­mos sem direito ao que temos por natu­reza, a liber­dade?

Será que sabe­mos ao certo o que é peri­goso aos nossos olhos e o que não nos faz mal? É óbvio que alguém que sofre de algum tipo de trans­torno mental merece cui­da­dos espe­ci­ais, mas será que esses cui­da­dos devem neces­sa­ri­a­mente ser atra­vés do com­pleto iso­la­mento? Vive­mos em um mundo que acha­mos o certo, um por­ta­dor desses trans­tor­nos também vive em um mundo que con­si­dera o certo, e qual de nós pode­mos julgar e opinar sobre o ver­da­deiro mundo, se é que existe um ver­da­deiro? E se exis­tir quem garante que não esta­mos no errado? O “louco”, como dizem, pode enxer­gar muito mais do que vemos e encon­trar a sabe­do­ria da vida bem antes de nós. É uma linha tênue que separa a ver­dade da fan­ta­sia, mas se vive­mos uma fan­ta­sia dia­ri­a­mente e acei­ta­mos, por que não pode­mos enten­der quem vive sua pró­pria rea­li­dade?

E eis que vem o famoso pre­con­ceito. E aí não vou tirar o corpo fora. Somos cri­a­dos e acos­tu­ma­dos a viver nessa sepa­ra­ção social, que sen­ti­mos medo ao que nos parece estra­nho. A pri­meira impres­são que tive ao entrar na clí­nica e ver aque­las pes­soas iso­la­das do mundo, sonhando em ir embora, ide­a­li­zando his­tó­rias que nunca exis­ti­ram, foi de espanto mesmo. Ima­gi­nei como somos frá­geis e imper­fei­tos. Esta­mos na soci­e­dade que des­carta seus fun­ci­o­ná­rios. Se temos algum defeito que não cor­res­ponde às suas neces­si­da­des somos joga­dos fora e con­de­na­dos ao esque­ci­mento. E esse pre­con­ceito afeta a pró­pria famí­lia que não sabe como lidar com a situ­a­ção e ter­mina bus­cando as piores alter­na­ti­vas por falta de escla­re­ci­mento.

Durante a visita à clí­nica, conheci entre tantos inter­nos uma garota na ala femi­nina que me chamou a aten­ção. Seu jeito espon­tâ­neo de falar e sua iden­ti­fi­ca­ção conosco nos chamou a aten­ção. Mas um deta­lhe era mais gri­tante do que todos, sua juven­tude. Em meio a tantos casos mais avan­ça­dos em termos de idade, ela pare­cia querer fugir da sua rea­li­dade com toda a ener­gia que deti­nha. Tremia sem parar e demons­trava uma enorme ale­gria com a nossa pre­sença, como alguém que recebe visita em casa de sur­presa e não sabe o que faz para agra­dar. Acho que esco­lhi esse tema entre tantos pro­pos­tos pela pro­fes­sora, pela iden­ti­fi­ca­ção que já tinha pre­sen­ci­ado com minha tia. Ali era como conhe­cer o ter­ri­tó­rio que ela pisou por muito tempo. Além de revi­ver a his­tó­ria, esta­ria enten­dendo e ten­tando com­preen­der a vida vista pelos olhos e pela mente dela.

Foram poucos os minu­tos que per­ma­neci lá dentro com Lea e Isa­beli, mas foram inten­sas as expe­riên­cias que vive­mos. O valor de um abraço ganha outro sen­tido, o con­tato com as pes­soas se tornam momen­tos de curi­o­si­dade e des­co­ber­tas. Se somos capa­zes de mer­gu­lhar de cora­ção nesse mundo que parece estra­nho aos nossos olhos, pode­mos des­fru­tar e des­ven­dar os mis­té­rios que a vida nos esconde e conhe­cer e apre­ciar a vida atra­vés de outros valo­res, pelos olhos de quem con­se­gue ver o que não per­ce­be­mos e podem com­preen­der muito mais do que ima­gi­na­mos. Afinal, se todos temos nossos cinco minu­tos de insa­ni­dade, o que cinco minu­tos a mais fariam de dife­rença?

Poeira na Janela

Quando somos cri­an­ças dese­ja­mos ficar em casa e passar o maior tempo do mundo brin­cando com os amigos. Na ado­les­cên­cia os papos e as con­quis­tas domi­nam os espa­ços e as idéias de cada um. E talvez só na casa dos vinte comece a surgir uma leve pre­o­cu­pa­ção com o amanhã. Estou falando de futuro? Não exa­ta­mente. Falo de edu­ca­ção e res­pon­sa­bi­li­dade. E edu­ca­ção no Brasil tem sido meio com­pli­cado. Tanto o ensino como as estru­tu­ras físi­cas estão debi­li­ta­das. Se quando cri­an­ças temos a opção de ficar em casa e brin­car com os amigos ou ir para a escola, os estu­dan­tes das esco­las públi­cas de Inhapi em Ala­goas, Nossa Senhora do Livra­mento no Mato Grosso e Taru­mi­rim em Minas Gerais não tem nem o direito de esco­lher.

Em repor­ta­gem ao Fan­tás­tico há algu­mas sema­nas, foi mos­trado a pre­cá­ria situ­a­ção em que se encon­tra­vam várias esco­las públi­cas bra­si­lei­ras, onde a falta de um prédio digno e decente for­çava pro­fes­so­res e alunos a impro­vi­sa­rem uma sala de aula em palho­ças e pas­ta­gens de bovi­nos, sem dispor sequer de uma porta que pudesse evitar a entrada do reba­nho e con­se­qüen­te­mente a des­trui­ção do mate­rial esco­lar. Os repas­ses de verba do governo são altís­si­mos, mas pare­cem não atin­gir e alcan­çar seus obje­ti­vos pro­pos­tos, o fundo da edu­ca­ção desa­pa­rece no espaço e as esco­las e as cri­an­ças se depa­ram sempre com a mesma e dura rea­li­dade.

Se a nossa edu­ca­ção pública já é defi­ci­ente por natu­reza, com uma edu­ca­ção básica e fun­da­men­tal que não con­se­gue aten­der a todas as neces­si­da­des dos estu­dan­tes, um ensino médio que não cor­res­ponde às expec­ta­ti­vas de um pré-ves­ti­bu­lando e muito menos pre­para jovens para o mer­cado de tra­ba­lho, agora as ins­ta­la­ções dos ambi­en­tes esco­la­res é mais um motivo de pre­o­cu­pa­ção e até cha­cota, como é pos­sí­vel um país que busca o desen­vol­vi­mento eco­nô­mico e social não ser capaz de suprir o ali­cerce desse pro­gresso, as con­di­ções míni­mas para se buscar o pro­cesso de apren­di­zado?

Ine­vi­ta­vel­mente, somos víti­mas do sis­tema, “e isso não pode”, como diria a dou­tora Lorca. É uma rea­li­dade um tanto con­tra­di­tó­ria. Enquanto estu­dan­tes cres­cem que­rendo até fugir da escola, reser­vando a ela as piores horas do dia e tor­cendo para que acabe logo, outras cri­an­ças como Val­di­rene da Con­cei­ção de Inhapi daria tudo para poder usu­fruir um espaço digno e mini­ma­mente divi­dido por turmas. É pre­ciso se espe­lhar nos exem­plos de quem sonha com um futuro prós­pero e enxerga nas esco­las a porta ou até a janela para isso. Quando será que dei­xa­re­mos de nos uti­li­zar de polí­ti­cas assis­ten­ci­a­lis­tas e vamos buscar melho­rar a base de tudo? Somente uma edu­ca­ção básica for­ta­le­cida pode mudar a sinopse dessa novela bra­si­leira. E enquanto lápis e papel tiver­mos nas mãos é pos­sí­vel enca­mi­nhar os pró­xi­mos capí­tu­los ao seu desen­lace feliz.

A Mente Por Trás Da Emoção

Uma garota corre pela praia de braços aber­tos e seu namo­rado a per­se­gue sor­rindo. Um rapaz abre uma lata de cer­veja e come­mora com os amigos sua con­quista no esporte. E aquele cachorro que salva o seu dono e ganha o dia? Pois é, todos esses momen­tos podem ser apenas traços do dia-a-dia de qual­quer pessoa, mas podem também ser cenas de um filme, novela ou seri­ado. Há um deta­lhe, no entanto, que muitos não param para se atinar. Por trás de toda a pro­du­ção, per­so­na­gens, dire­to­res há um texto, alguém que pensou e ide­a­li­zou tudo o que se vê. Esse é o rotei­rista.

Nos Esta­dos Unidos a greve dos rotei­ris­tas colo­cou pelo menos um pouco em evi­dên­cia a car­reira desses pro­fis­si­o­nais. Há algum tempo venho dese­jando escre­ver algo sobre isso, mas o tempo e os com­pro­mis­sos me impe­di­ram de fazê-lo. Con­tudo, ainda quero mani­fes­tar meu pen­sa­mento tendo em vista a rele­vân­cia do assunto para mim.

Escre­ver e ima­gi­nar situ­a­ções, fan­ta­siar, vivê-las no papel e na mente são algu­mas das emo­ções dessa pro­fis­são tão soli­tá­ria. E soli­tá­ria por dois moti­vos. Pri­meiro porque a arte de escre­ver é por si só soli­tá­ria, embora alguns rotei­ris­tas optem pela cola­bo­ra­ção e par­ce­ria com outros, na hora de pôr as idéias no papel é um encon­tro con­sigo mesmo. E segundo porque a pro­fis­são de rotei­rista ainda não tem o mere­cido valor que ela deve­ria ter.

Quando se produz um filme, um seri­ado ou algo do gênero o nome de des­ta­que não é o do rotei­rista, quem brilha é o dire­tor. É total­mente acei­tá­vel e mere­cido o tra­ba­lho do dire­tor, foi ele quem deu vida e buscou o melhor de si para trans­for­mar aquela his­tó­ria agra­dá­vel ao público. Entre­tanto, esque­cem que sem o tra­ba­lho daquele que escre­veu todos os passos que o dire­tor devia tomar não have­ria honra alguma. Não seria pos­sí­vel des­ta­car o tra­ba­lho dos dois com a mesma impor­tân­cia? De quem é o filme afinal, de quem escre­veu ou de quem diri­giu? Muitas vezes, quando o pró­prio rotei­rista não produz o filme também, ele passa a ser de quem diri­giu.

No Brasil o papel do rotei­rista só ganha grande ênfase nas pro­du­ções das tele­no­ve­las. O autor de nove­las é sem dúvida aquele que detém o grande está­gio de um pro­fis­si­o­nal dessa área. Talvez pela longa jor­nada que é manter uma novela no ar ele seja tão reco­nhe­cido. O mesmo não acon­tece com auto­res de sit­cons e filmes bra­si­lei­ros. E ainda sendo a única refe­rên­cia em termos de sucesso pro­fis­si­o­nal, o espaço da tele­no­vela é bas­tante fechado. A Rede Globo que con­trola a grande pro­du­ção da tele­dra­ma­tur­gia bra­si­leira mantém um núcleo em torno de dez auto­res fixos alter­na­dos nos três horá­rios de exi­bi­ção da casa. Mas nos bas­ti­do­res escon­dem-se cerca de 200 rotei­ris­tas com tra­ba­lhos secun­dá­rios, enga­ve­ta­dos e con­ge­la­dos à espera de uma apro­va­ção quase que irreal de sua sinopse.

A nova janela que se abre do outro lado do muro parece cami­nhar na mesma dire­ção. A Rede Record tra­ba­lha com auto­res que esta­vam enga­ve­ta­dos na Rede Globo e já são reco­nhe­ci­dos tanto no tra­ba­lho como no finan­ceiro. Tiago San­ti­ago, autor de nove­las como Escrava Isaura e Prova de Amor já recebe o mesmo que o con­sa­grado Gil­berto Braga da Globo. Con­tudo, uma nova ninhada de rotei­ris­tas entra­rão na emis­sora e terão que se pre­pa­rar para o frio do novo con­ge­la­dor.

Apoio a ini­ci­a­tiva dos rotei­ris­tas ame­ri­ca­nos que lutam por uma fatia mais do que justa das vendas dos DVDs dos filmes e dos seri­a­dos, um grande mer­cado que se abre mais a cada dia. Quem se dedica em ficar horas inter­mi­ná­veis diante do com­pu­ta­dor escre­vendo, vivendo, mer­gu­lhando e fugindo do mundo merece uma aten­ção mais espe­cial. Afinal, nós que escre­ve­mos, escre­ve­mos porque gos­ta­mos, escre­ve­mos porque que­re­mos com­par­ti­lhar nossa visão de mundo com as pes­soas e tentar quem sabe mudar um pouco a con­cep­ção que a soci­e­dade faz dele. Abrir os olhos para uma nova rea­li­dade e fazer sonhar, ima­gi­nar, pla­ne­jar e dese­jar estar em um lugar melhor, onde tudo seja pos­sí­vel. E só assim, atra­vés das teclas do com­pu­ta­dor, uma letra se junta a outra e con­se­gue levar espe­rança, brotar emo­ções e trans­for­mar o que pare­cia fan­ta­sia na mais pura rea­li­dade. Porque se uma cri­ança passar por um men­digo ao tér­mino de um filme e o olhar dife­rente, já fize­mos a nossa parte.

Depois da Projeção

Quando as luzes se apagam começa a emoção nas salas de cinema. Mais de 90 minu­tos de um mer­gu­lho no ima­gi­ná­rio, nos sonhos e no incons­ci­ente de cada um. Durante esses mais de 90 minu­tos de escu­ri­dão acom­pa­nha­mos vidas intei­ras dentro de uma tela. Quando as luzes voltam a se acen­der é o fim da viagem e o reco­meço da cami­nhada. Nossa vida é como um filme que começa ansi­oso e cheio de expec­ta­ti­vas, mas pode ter­mi­nar sem aviso prévio. Antes de nos pre­pa­rar­mos para os cré­di­tos, somos ofus­ca­dos com a luz do último ins­tante e pre­ci­sa­mos sair da sala, mesmo que ainda dese­jás­se­mos per­ma­ne­cer nas ima­gens do que aca­ba­mos de viver. Não temos domí­nio sobre nosso futuro, a qual­quer hora podem acen­der as luzes e des­li­gar os pro­je­to­res e o filme ter­mina para cada um de nós.

Assim foi o último foto­grama da vida do ator aus­tra­li­ano Heath Ledger. Uma car­reira pro­mis­sora e bem suce­dida inter­rom­pida por alguns com­pri­mi­dos para dormir. Algo tão banal, que pode­ria ter sido evi­tado, pôs cré­di­tos no único filme que não pode­ria ter­mi­nar agora. Uma morte pre­ma­tura que chocou o mundo. Sem dúvida o cinema está de luto. Quem sabe quan­tos planos ele ainda fazia para sua vida? Quan­tos pro­je­tos? Se na cabeça dos milhões de fãs espa­lha­dos pelo mundo inteiro nunca passou a idéia de vê-lo tão cedo em um plás­tico preto empur­rado pelos para­mé­di­cos, ima­gi­nem o pró­prio Ledger, no auge de uma car­reira que já lhe ren­dera indi­ca­ções ao Oscar e diver­sas pre­mi­a­ções? Esse filme real­mente acabou cedo e arre­ma­tou todos de supe­tão. Ima­gi­nem chegar em casa, pegar alguns remé­dios a mais para con­se­guir des­can­sar e dormir, e acabar encon­trando a última cena da his­tó­ria.

Apren­de­mos ainda no jardim de infân­cia que a vida é feita de ciclos e que todos, mais cedo ou mais tarde, irão chegar ao ine­vi­tá­vel ciclo final, onde os mis­té­rios que o cercam são des­co­nhe­ci­dos e apenas bus­ca­mos ori­en­ta­ções nas mais diver­sas cren­ças, para encon­trar con­forto e uma expli­ca­ção plau­sí­vel para o que nos espera depois da última pro­je­ção. Mas é ine­vi­tá­vel a sen­sa­ção de impo­tên­cia e fra­gi­li­dade humana diante das letras “The End”. A par­tida de alguém sempre mexe com os sen­ti­men­tos dos que ficam, mesmo que ima­gi­nem o que irão encon­trar também algum dia. E quando quem encurta o filme é alguém tão jovem, parece que fica­mos inju­ri­a­dos com o enredo da vida. Porque apren­de­mos também na escola que todos temos que passar por cada um dos ciclos da vida, e não acei­ta­mos a rup­tura dessa série, não admi­ti­mos que o filme acabe no clímax da his­tó­ria.

Mas não pode­mos con­tro­lar os nossos passos. Deter­mi­na­das pes­soas arris­cam a vida dia­ri­a­mente acre­di­tando num ilu­só­rio pen­sa­mento de que somos inven­cí­veis, que temos a vida nas mãos, quando a rea­li­dade é mais cruel e sor­ra­teira que um câncer. Que pena que nessa his­tó­ria já não pode­mos fazer edição e cortar o que não seria legal. Que pena que já não pode­mos mudar o roteiro e refa­zer a his­tó­ria, alte­rando os fatos e tor­nando melhor o que pode­ria ser dife­rente. Mas esse é o filme da vida e só Deus cons­trói o roteiro e edita as seqüên­cias. Embora gran­des dos melho­res filmes já pro­du­zi­dos no cinema ter­mi­na­ram de forma trá­gica e ainda assim ganha­ram prê­mios e elo­gios da cri­tica. Que o diga “Broke­back Moun­tain”, o filme que con­sa­grou Ledger e o tornou tão imor­tal quanto o seu cáuboi Ennis Del Mar.

E Lá Vem o Trem...

Mais um novelo vai come­çar a se des­man­char a partir de segunda-feira na Rede Globo. Dessa vez trata-se de Ciranda de Pedra, de outro senil da tele­dra­ma­tur­gia bra­si­leira, Alci­des Nogueira. A novela vem subs­ti­tuir a atual Desejo Proi­bido de Walter Negrão. Base­ada na obra de Lygia Fagun­des Telles, as cha­ma­das de Ciranda de Pedra tentam mos­trar que vem mais uma novi­dade no ar. Ou seja, Força de um Desejo parte 12. Desde 1999 quando a Globo des­co­briu que voltar a pro­du­zir nove­las de época no horá­rio das 18h era um bom negó­cio, ela vem inves­tindo maci­ça­mente.

Só para reca­pi­tu­lar. Desde Força de um Desejo até agora foram 11 nove­las de época que se alter­na­ram quase que segui­da­mente no horá­rio. Na lista temos Esplen­dor, O Cravo e a Rosa, A Padro­eira, Cho­co­late com Pimenta, Cabo­cla, Alma Gêmea, Sinhá Moça, O Pro­feta, Eterna Magia e Desejo Proi­bido salvo algu­mas exce­ções como Estrela-Guia, Cora­ção de Estu­dante, Sabor da Paixão, Agora é Que São Elas e Como Uma Onda. Agora vem mais outro “trunfo” da emis­sora. Uma estra­té­gia que já vem sendo uti­li­zada desde 2004 com Cabo­cla, o remake de tramas de épocas. Ah, mas Ciranda de Pedra não é um remake, é só uma “nova” adap­ta­ção do livro homô­nimo.

Não sou contra as nove­las de época, pelo con­trá­rio, sou muito fã de obras que se passam em outros sécu­los, acre­dito que elas servem de res­gate his­tó­rico e enri­que­cem o nosso conhe­ci­mento a res­peito de cos­tu­mes, hábi­tos e com­por­ta­men­tos. No entanto, não é isso que eu tenho encon­trado nos folhe­tins ditos de época da Rede Globo. Só pra come­çar, todas as moci­nhas que se apai­xo­nam nas his­tó­rias são ver­da­dei­ras Mias Coluc­cis. Enfren­tam os pais, saem de casa, moram sozi­nhas, se entre­gam aos amores. Não des­me­re­cendo as jovens daque­las épocas, mas os pais exer­ciam uma pres­são muito forte nas famí­lias para os filhos serem tão rebel­des como os que são repre­sen­ta­dos. Tem dias que até parece um capí­tulo de Pági­nas da Vida ou da maçante Rebelde.

O encanto que domi­nava as ver­da­dei­ras nove­las de época se perdeu no espaço. Bons tempos aque­les em que podí­a­mos mer­gu­lhar na São Paulo de 30 com a sim­pló­ria, porém rica Éramos Seis, podí­a­mos viven­ciar a força das espa­das e a magia dos bruxos na França do século XVIII em Que Rei Sou Eu?, ou mesmo a escra­va­tura e a vida pudica dos arrai­ais em Xica da Silva. Quando novela de época se tornou pura­mente negó­cio, sua essên­cia desa­pa­re­ceu.

E agora vem o Vale a Pena Ver de Novo repri­sando a chata e aguada Cabo­cla que mal disse fim. Se é pra repe­tir nove­las das 6 que não fazem jus ao título do pro­grama, é pre­fe­rí­vel repri­sar clás­si­cos como Mulhe­res de Areia, Bar­riga de Alu­guel, Feli­ci­dade ou até mesmo suces­sos recen­tes como Estrela-Guia e Esplen­dor. Cora­ção de Estu­dante foi um segundo de luci­dez de algum gênio do Projac.

O que falta de ver­dade para tornar novela de época, real­mente novela de época é cri­a­ti­vi­dade. E não acre­dito que seja pos­sí­vel a Bene­dito Ruy Bar­bosa, Alci­des Nogueira, Walcyr Car­rasco e tantos outros, buscar novi­da­des a essa altura do cam­pe­o­nato. Só Walcyr Car­rasco que escre­veu a céle­bre Xica da Silva na extinta Man­chete, se espe­ci­a­li­zou em dramas à la Maria del Barrio na Globo, e ainda con­se­gue gaba­rito quando escre­ves absur­dos que dis­tor­cem a filo­so­fia espí­rita como Alma Gêmea.

Quando Desejo Proi­bido ia come­çar até me animei um pouco. Pare­cia ser uma his­tó­ria dife­rente com um autor que não tem muitas refe­rên­cias em tramas anti­gas. Mas bastou chegar na cena do trem no pri­meiro capí­tulo, quando Lau­ri­nha conhece o padre Miguel que já me remeti a Sinhá Moça, Cabo­cla, Cho­co­late com Pimenta e tantas outras. É incrí­vel como o mesmo ganha sen­tido de novo, quando é mos­trado numa nova rou­pa­gem.

Admiro muito os gran­des auto­res como Bene­dito Ruy Bar­bosa, Manoel Carlos, Glória Perez, Gil­berto Braga, Sílvio de Abreu, Agui­naldo Silva, o pró­prio Alci­des Nogueira, mas eles já deram sua cota de con­tri­bui­ção para a tele­dra­ma­tur­gia bra­si­leira. É pre­ciso surgir uma nova fase com nomes que mar­quem toda uma nova gera­ção. O gru­pi­nho de auto­res da Globo pre­cisa urgen­te­mente passar por uma faxina. Abrir as portas para as novas mentes, como já vem sendo feito com João Ema­nuel Car­neiro, que inovou em Da Cor Do Pecado de forma sim­ples e já con­se­guiu espaço no horá­rio nobre. Espero que não seja o mesmo resul­tado da sua segunda e inós­pita inves­tida Cobras & Lagar­tos.

É uma tarefa difí­cil e nem todos os nova­tos con­se­guem se dar bem. A estre­ante Andréa Mal­ta­rolli tenta fazer algo dife­rente mexendo pra aqui e pra lá na insossa Beleza Pura, que de beleza não tem nada. O jeito, enquanto a galera não muda, é con­ti­nuar não espe­rando muito do que vai come­çar. Con­tudo, acre­di­tando que Alci­des Nogueira foi autor de suces­sos como as minis­sé­ries JK e Um Só Cora­ção ao lado de Maria Ade­laide Amaral, é pos­sí­vel que saia alguma coisa decente a partir de segunda-feira. É só espe­rar e con­fe­rir a estréia de Ciranda de Pedra. Mas se eu encon­trar logo no pri­meiro capí­tulo algum futuro casal que se conhe­cem numa viagem de trem, des­ligo a TV na mesma hora.

Até Quando??!

É só virar as pági­nas dos jor­nais ou ligar a tele­vi­são que encon­tra­mos: o menino João Hélio, o caso Isa­bella, João Roberto, Cara Marie. Crime atrás de crime. É por atro­ci­da­des como essas que outra linda jovem não está mais aqui para come­mo­rar o seu ani­ver­sá­rio. Com uma vida bri­lhante pela frente, mas inter­rom­pida aos 22 anos por dois psi­co­pa­tas, a encan­ta­dora atriz Dani­ella Perez faria hoje, 11 de agosto, 38 anos. Os anos correm e parece que a rea­li­dade e a jus­tiça bra­si­leira con­ti­nuam para­das no tempo. Há mais de 15 anos do brutal crime, onde os per­so­na­gens cen­trais eram cole­gas de tra­ba­lho de uma novela bem suce­dida no horá­rio nobre da tele­vi­são, ainda encon­tra­mos pais que passam pela mesma dor e des­caso judi­cial da autora Glória Perez.

Se já é revol­tante e ater­ro­ri­za­dor des­co­brir que aquele ser que um dia você car­re­gou no colo foi arran­cado de você de uma maneira tão abrupta e mons­truosa, como é então con­vi­ver com a incer­teza da cor­reta puni­ção ao cul­pado? Isso quando ele ainda é loca­li­zado. Vi o depoi­mento da mãe de Cara, no Fan­tás­tico ontem e me comovi. Pri­meiro pelo des­tino trá­gico da sua filha e segundo por sentir que ela real­mente acre­dita na enga­nosa jus­tiça bra­si­leira, que diz ter pena máxima de 30 anos e o con­de­nado nunca chega aos 20 anos no júri. Passar então esse tempo todo na prisão, nem pensar.

E temos o exem­plo clás­sico da jus­tiça bra­si­leira do nosso país. Os assas­si­nos con­fes­sos de Dani­ella Perez, con­de­na­dos a 19 anos, já esta­vam nas ruas pouco mais de 6 anos após o tene­broso ato. Eu era apenas um garo­ti­nho de 7 anos que acom­pa­nhava todas as noites as intri­gas, as pai­xões e os rolos dos per­so­na­gens que com­pu­nham a novela De Corpo e Alma, mas já tinha entre os meus per­so­na­gens pre­fe­ri­dos, Yasmin, a per­so­na­gem que a Dani vivia com grande rea­lismo. O impacto do crime foi tão grande que con­se­guiu pene­trar fundo o meu inte­rior.

Era real­mente ini­ma­gi­ná­vel. O que leva­ria um rapaz de 23 anos a arqui­te­tar um plano dia­bó­lico com a sua mulher grá­vida, para tirar a vida da sua colega de tra­ba­lho, filha da autora da novela em que ele mesmo tra­ba­lhava e desem­pe­nhava um papel de des­ta­que em seu pri­meiro folhe­tim? Con­fesso que essa é uma per­gunta que leva­rei sempre comigo. Porque não dá pra ima­gi­nar que o ego­ísmo e a inveja foram as fer­ra­men­tas-chefe que cul­mi­na­ram nessa ação.

O pior de tudo foi a versão que ele apre­sen­tou na época de que Dani teria um caso com ele. Versão que ainda hoje é a válida para muitas pes­soas desin­for­ma­das. Outro dia, con­ver­sando sobre o caso com uma colega da uni­ver­si­dade, des­co­bri que era essa a versão que ela tinha sobre o crime. Depois do espanto, des­trin­chei todo a ver­dade dos fatos e sur­presa ficou ela por des­co­nhe­cer há tanto tempo o que real­mente acon­te­ceu na noite de 28 de dezem­bro de 1992.

A luta de Glória Perez na jus­tiça para acabar com as rega­lias dos presos e incluir os homi­cí­dios qua­li­fi­ca­dos na lista dos crimes hedi­on­dos foi memo­rá­vel. Um exem­plo de força e cora­gem de mulher e mãe indis­cu­tí­vel. Mas acre­dito que deve­ria ser uma luta cons­tante de todos nós bra­si­lei­ros. Outro dia entrei no site do MRC (Movi­mento de Resis­tên­cia ao Crime) e encon­trei uma lista enorme de vidas inter­rom­pi­das pelo crime. Jovens, pais de famí­lia, uma infi­ni­dade de homi­cí­dios come­ti­dos contra ino­cen­tes que como diz no site, não sabiam que esta­riam ali ilus­trando aquela página. No ranking da Orga­ni­za­ção Mun­dial de Saúde, o Brasil é o 3º colo­cado com 48,5 óbitos por grupo de 100 mil ado­les­cen­tes e as chan­ces de um jovem morrer assas­si­nado são mais altas do que as do res­tante da popu­la­ção.

É pre­ciso tentar agir para mudar­mos a rea­li­dade bra­si­leira quando ainda é tempo. Afinal eu, você, nossos fami­li­a­res, todos esta­mos sujei­tos a ser o pró­ximo da lista da cri­mi­na­li­dade. E como diz o slogan do MRC, “junte-se a nós por amor, antes que alguém o faça pela dor”, não dá para ficar mudando de canal ou virando a página de jornal para fingir que isso não acon­tece e nem ficar apenas se como­vendo, enquanto a cri­mi­na­li­dade corre solta e corta o fio da vida, dos sonhos e dos pro­je­tos de vida de milha­res de pes­soas pelo país. Quem quiser entrar em con­tato com os res­pon­sá­veis pelo Movi­mento de Resis­tên­cia ao Crime é só enviar um e-mail para: escuta@ate­quando.com.br, ou aces­sar o site http://www.atequando.com.br/ e par­ti­ci­par de um abaixo-assi­nado para a rea­li­za­ção de um ple­bis­cito para alte­ra­ção do artigo 228 da Cons­ti­tui­ção Fede­ral para redu­zir a mai­o­ri­dade penal, e come­çar a dar a nossa par­cela de con­tri­bui­ção na luta por uma vida digna e des­cente para todos nós bra­si­lei­ros.

Epifania

Legal você está aqui no Celeiro lendo esse texto, escu­tando a música de hoje, ou des­li­gando esse som desa­gra­dá­vel, rindo, refle­tindo ou ficando impa­ci­ente com o tama­nho de cada pará­grafo. Mas você só pode entrar no Celeiro, ler, escu­tar e sentir porque temos ao nosso favor, ele­men­tos como as mãos e os dedos que digi­ta­ram esse link, a visão que pos­si­bi­li­tou a lei­tura, a audi­ção que o fez escu­tar ou querer parar a música e a mente que libera as mais vari­a­das sen­sa­ções pelo corpo. Já parou pra pensar quanta coisa boa temos todos os dias ao nosso dispor e não nos damos conta?

Curi­o­sa­mente, pude redes­co­brir esses valo­res ao acom­pa­nhar três pro­gra­mas de tele­vi­são essa semana. Em meio ao tema baru­lhento do Pro­fis­são Repór­ter da última terça-feira, redes­co­bri atra­vés do silên­cio do agri­cul­tor Wilson Alves, o valor de cada batida, de cada voz, de cada som que é cap­tu­rado todos os dias pelos nossos ouvi­dos. Devido uma into­xi­ca­ção com agro­tó­xi­cos há 9 anos, Wilson perdeu total­mente a sua audi­ção e passou a fazer lei­tura labial pra con­se­guir enten­der as pes­soas. Depois de todo esse tempo de silên­cio total, um implante coclear traz o som de volta a sua vida.

O momento em que a fono­au­di­ó­loga gera os pri­mei­ros ruídos atra­vés do equi­pa­mento, parece que Wilson renasce. Ele fica lite­ral­mente abes­ta­lhado por estar ouvindo nova­mente. E quando ele passa então a escu­tar sua pró­pria voz é um êxtase que eu não pude deixar de trans­cre­ver suas pala­vras: “Eu tô ouvindo! Nossa! Eu tô ouvindo a minha voz”, e cai na gar­ga­lhada. Um pas­seio pela rua e cada baru­lho era uma ale­gria nova. O vento batendo nas árvo­res, a buzina de uma bici­cleta, um carro de som anun­ci­ando pro­mo­ções, o trân­sito, o canto dos pás­sa­ros. E eu cá na minha sala, dei­tado, assis­tindo tv, des­fruto, como inú­me­ras pes­soas, esse dom todos os dias sem pre­ci­sar de equi­pa­mento nenhum, e não per­ce­be­mos quão sig­ni­fi­ca­tivo ele nos é. Nos irri­ta­mos tanto com o baru­lho do trân­sito diário, da música alta, dos cachor­ros latindo à meia-noite, mas que fan­tás­tico escu­tar­mos tudo isso. E que gritem mais, façam fuzuê. Quero ouvi-los mais e mais.

Coin­ci­den­te­mente ou não, o SBT Repór­ter desta quarta-feira trouxe uma viagem pelo cére­bro humano, acom­pa­nhando neu­ro­lo­gis­tas nas cirur­gias pelos cére­bros dos paci­en­tes. O caso mais intri­gante foi da menina Ele­nice de 8 anos que sofria de ata­ques cons­tan­tes de epi­lep­sia e no intuito de parar os ata­ques faria uma cirur­gia de reti­rada do lado direito do cére­bro. Foram 4 horas só para chegar ao cére­bro da menina, depois de passar pelo couro cabe­ludo, per­fu­rar o crânio, a mem­brana interna e final­mente atin­gir o cére­bro. E o mais impres­si­o­nante é ima­gi­nar que essa cirur­gia era feita há 30 anos com o paci­ente acor­dado.

Mais uma região deli­cada e tão fun­da­men­tal à nossa vida. Pensar que cada pon­ti­nho daquela massa é res­pon­sá­vel por inú­me­ras fun­ções do nosso corpo é espe­ta­cu­lar. Refle­ti­mos, nos move­mos, guar­da­mos lem­bran­ças, nos emo­ci­o­na­mos tudo graças a essa engre­na­gem super­pro­te­gida do nosso corpo. Tão fun­da­men­tal como aquela que faz pulsar o nosso sangue. No quadro Trans­plante, O Dom da Vida do Fan­tás­tico de domingo, foi mos­trado o ins­tante exato em que um cora­ção trans­plan­tado começa a bater num outro peito. É incrí­vel a capa­ci­dade que o homem tem de fazer aquele órgão vital con­ti­nuar vivo o sufi­ci­ente para salvar outras vidas. E a pre­ci­são de cada ponto, saber que aquela arté­ria se jun­tando àquela veia e isso àquilo vai fazer tudo fun­ci­o­nar de novo. Fosse eu entra­ria em pânico. “Ai, meu Deus, onde isso entra agora!?”. Por isso não sou médico. Ainda bem! E ainda bem que eles exis­tem e são capa­zes de fazer.

Cada um com a sua função! Assim como o nosso orga­nismo nos quais cada órgão tem o seu papel para fazer fun­ci­o­nar o todo, na soci­e­dade cada um faz a sua parte. O médico opera, melhora a qua­li­dade de vida de diver­sas pes­soas, o repór­ter vai lá, colhe a infor­ma­ção, repassa a nós e ins­tiga garo­tos como eu a escre­ver sobre essa fas­ci­nante enge­nhoca da vida. Ah, e como é bom poder raci­o­ci­nar, enxer­gar, ouvir, sentir, res­pi­rar e con­ti­nuar tendo um cora­ção bom­be­ando o sangue nas nossas veias e tocando sempre sua canção favo­rita: tum tum, tum tum, tum tum...

Uma Tarde e Tanto


Mudava de canal por acaso na última quarta-feira à noite, em busca de algo que pudesse entre­ter minha mente até pegar no sono, quando parei no Pro­grama do Jô. Devo con­fes­sar que não é um dos meus pro­gra­mas pre­fe­ri­dos, embora seja a opção da mai­o­ria da elite, e um dos pri­mei­ros que sai quando se per­gunta sobre o pro­grama pre­fe­rido a alguém que quer se dizer culto. Às vezes apa­re­cem algu­mas entre­vis­tas legais, mas geral­mente não aguento ver os famo­sos falando de suas pito­res­cas aven­tu­ras casei­ras de uma vida regrada.

Entre­tanto, con­se­gui me fixar numa entre­vista que rolava com Denise Fraga. A leveza da atriz e seu bom humor asso­ci­ado ao papo, me pren­de­ram por ali. Me sur­preendi com seu jeito solto de falar, de sentir a vida, seu jeito de se vestir. Lem­brou-me muito Emília, uma grande com­pa­nheira e atriz do teatro. Denise res­sal­tava a impor­tân­cia do seu novo filme que está em cartaz “As Melho­res Coisas do Mundo”. Já havia visto o pôster no cinema, mas não me inte­res­sei o sufi­ci­ente para assis­tir. Con­tudo, ela falava tão bem do filme e com tanto sen­ti­mento e ver­dade, que meu inte­resse foi aumen­tando. Jô até passou um trecho do filme.

Não deu outra, na tarde seguinte fui ao cinema con­fe­rir de perto o que Denise havia dito. E não me decep­ci­o­nei. Como sempre, fui sozi­nho, entrei na sala e a dividi com mais umas quatro ou cinco pes­soas. Mas pre­firo assim, detesto ir ao cinema lotado com um monte de gente fofo­cando, aten­dendo celu­lar, zuando. Nesses casos, o vazio é mais bem vindo. O filme foi um encanto. De maneira sim­ples res­ga­tou a alma de uma escola de ensino médio, com todos os lances, agi­ta­ção, rebel­dia, encren­cas e aza­ra­ções como uma Malha­ção nunca con­se­guiu fazer. Falou de amor, de des­co­ber­tas, de pre­con­cei­tos, de sonhos, de frus­tra­ções e não perdeu o tom ver­da­deiro da his­tó­ria.

Se o roteiro, a dire­ção e o elenco esta­vam afi­a­dos, a trilha sonora não pode­ria deixar a dever. De con­tra­ponto ao tur­bu­lento mundo jovem da trama, a clás­sica Some­thing dos Bea­tles vinha na voz do pró­prio per­so­na­gem Mano, aca­len­tar os ânimos. Era como se ela con­se­guisse inva­dir aquele espaço como um para­doxo tão grande quanto a mente da juven­tude. A agi­ta­ção e a tran­qui­li­dade lado a lado cons­tru­indo um mundo de des­co­ber­tas e con­tra­di­ções. Foi uma bela expe­riên­cia. Valeu Denise pelo incen­tivo e pela opor­tu­ni­dade de além de curtir um bom filme, viajar numa das mais belas can­ções do quar­teto de Liver­pool. E você me per­gunta se meu amor vai cres­cer, eu não sei, eu não sei.

“You’re asking me wiil my love grow, I don’t know, I don’t know!!!”

Sei lá... Maneco Tem Sempre Razão

Maneco! Maneco das Hele­nas, do Leblon, da famí­lia. Maneco da Regina Duarte, do Doutor Moretti. Maneco do amor de mãe incon­di­ci­o­nal, das mulhe­res e suas pai­xões. Maneco do sin­gelo. Maneco da Bossa Nova, do Tom Jobim e da Miúcha. Maneco, Maneco, Maneco... Eis um homem que con­se­gue um dos mai­o­res feitos da tele­dra­ma­tur­gia bra­si­leira, quiçá do mundo. Com seus folhe­tins reche­a­dos de rea­lismo, de uma vida como a minha, como a sua, con­se­gue manter por mais de 200 dias no ar uma his­tó­ria sem vilão. Tudo bem, alguns podem se quei­xar pela ausên­cia dele, mas na busca de uma ver­dade pró­xima ao dia-a-dia da soci­e­dade, Maneco con­se­gue criar uma trama, na qual todos podem ser os vilões e os moci­nhos, afinal, nin­guém é per­feito e todos esta­mos sus­cep­tí­veis a falhas, a come­ter erros e a mudar.

Me lembro da pri­meira novela de Manoel Carlos que assisti. Ainda tinha 6 anos, quando me envolvi nas aven­tu­ras das cri­an­ças Bia e Alvi­nho, e nas arma­di­lhas de Débora. Ainda havia a figura forte da vilã em Feli­ci­dade, o que não demo­rou muito a se esfa­ce­lar como foi em His­tó­ria de Amor e Por Amor, sua pri­meira novela no horá­rio nobre. As vilãs de Por Amor eram tão fortes como frá­geis. Se Laura era obce­cada por Mar­celo, a ponto de come­ter lou­cu­ras, era também sen­sí­vel e sonha­dora; e Branca, uma mulher de per­so­na­li­dade forte e infe­liz no casa­mento, não supor­tava a soli­dão e sonhava viver seu antigo amor. Figu­ras huma­nas.

Pre­firo assim. Ao invés de vilões capa­zes de tudo sem o menor escrú­pulo ou fra­gi­li­dade, gosto de tipos huma­nos, com suas qua­li­da­des e seus defei­tos, suas forças e suas fra­que­zas. Um feito memo­rá­vel acon­te­ceu em Mulhe­res Apai­xo­na­das, quando todos, ou quase todos os per­so­na­gens, tive­ram seus momen­tos de pro­ta­go­nista e os de figu­rante também. E como Maneco fez isso? Bom, o nome da novela já dizia, se a trama era sobre as mulhe­res e suas pai­xões, nada mais justo do que enfo­car cada his­tó­ria no seu devido tempo. E assim, a paixão de Helena teve seu momento, a de Helo­ísa, a de Luci­ana, a de Edwi­ges, de Clara e Rafa­ela, de Raquel, de Estela... Quando uma his­tó­ria se des­ta­cava, as demais se afas­ta­vam, até chegar o seu momento. Foi uma novela incrí­vel. A minha pre­fe­rida do Maneco.

Viver a Vida se foi. Um final justo. Nada de espe­cial. Por momen­tos pas­sava a sen­sa­ção de ser apenas mais um capí­tulo da novela e que no dia seguinte a terí­a­mos de novo. Bem Maneco. Olha, já fui bas­tante nove­leiro, acom­pa­nhei nove­las de diver­sos auto­res, e digo que só teve um, ou melhor, uma autora que me encan­tou tanto quanto o Maneco. Ivani Ribeiro. A res­pon­sá­vel pela sen­sa­ci­o­nal A Viagem, a melhor novela com abor­da­gem espí­rita até hoje. Quem quiser atirar pedra, fique à von­tade, tem todo o direito, muitos até o cri­ti­cam por apa­re­cer somente a elite do Leblon em suas his­tó­rias, que seja! Porque pra mim, podem-se passar anos, se eu souber que uma novela de Manoel Carlos vai estrear, não duvi­dem que reser­va­rei meu lugar em frente à pri­meira tv que apa­re­cer.

Agora ele existe!


Outro dia entrei no You­Tube pra ver como ia a minha conta e encon­trei um vídeo cur­ti­nho de Zaca­rias, um dos Tra­pa­lhões, nos vídeos indi­ca­dos pra mim, pro­va­vel­mente porque eu já tinha assis­tido algum vídeo dos tra­pa­lhões. Resolvi assis­tir. Ao ter­mi­nar, vi entre os vídeos rela­ci­o­na­dos ao tema, outro vídeo de Zaca­rias, mas agora era sobre a morte dele. A imagem parada era de um homem dando depoi­mento ao Fan­tás­tico, com o olhar triste. Nem me dei ao tra­ba­lho de assis­tir. Pri­meiro porque já sei o que o homem iria dizer: que Zaca­rias era um grande humo­rista, que o Brasil perdeu um grande nome do humor e que ele foi impor­tante na his­tó­ria do humor no cinema nas últi­mas três déca­das. Blá, blá, blá.

Con­cordo que Zaca­rias foi tudo isso. Sempre foi o meu tra­pa­lhão favo­rito. Entre­tanto, não aguento essas inten­sas home­na­gens pós-vida. Depois que morre todo mundo é santo, é o bon­zi­nho, era o melhor, tinha talento, capa­ci­dade, ia longe, e blá, blá, blá, blá. Se a pessoa era tão impor­tante assim, então aque­les que ficam horas dis­cur­sando para que todos saibam quem foi o morto, deviam fazê-lo enquanto o home­na­ge­ado ainda vive. Quando alguém morre na tele­vi­são, já começa, fulano foi isso, tinha isso, aquilo. Me dá enjôo, porque na vida nin­guém estava se impor­tando com o que a pessoa era ou dei­xava de ser. Aí depois que morre, todos se voltam para o ser invi­sí­vel até então. Eis real­mente A Hora da Estrela de Cla­rice Lis­pec­tor.

Por isso, que eu não quero nin­guém no meu enterro dis­cur­sando que eu fui isso, deixei de ser, tinha aquilo ou podia ter. Se alguém quiser me dizer alguma coisa, me elo­giar, me cri­ti­car, dizer o que tenho de bom ou ruim, o faça enquanto eu estou aqui, porque depois pouco vai me impor­tar. Exis­tem muitos momen­tos na vida, em que pre­ci­sa­mos ouvir de alguém uma pala­vra de incen­tivo, de enco­ra­ja­mento, pra poder seguir em frente mais con­fi­ante, e se essa pala­vra só vier depois que formos embora, de que irá nos adi­an­tar? A ver­dade é que enquanto esta­mos aqui, não sig­ni­fi­ca­mos muito para as pes­soas, ou elas mal nos notam, pre­o­cu­pa­das com o seu cartão de cré­dito, com o filhi­nho que­rido, com a roupa da moda, o batom ou o net­book. É clichê dizer que está tudo errado, mas con­fesso que às vezes ado­ra­ria soltar uma bomba gigante nesse nosso pla­ne­ti­nha.

Pés Cansados

Quando escu­tei pela pri­meira vez que Sandy e Junior iam final­mente se sepa­rar, minha pri­meira reação foi de des­crença, afinal, durante 17 anos eles afir­ma­ram con­vic­ta­mente que jamais can­ta­riam sepa­ra­dos. Muito bem, eis que o fato acon­te­ceu. Não che­guei a soltar rojão, como muitos fize­ram, mas tive as minhas mani­fes­ta­ções de desa­pego, como não ir ao último show deles em Cam­pina Grande. Eu nem pre­ci­sava ir pra outra cidade pra assis­tir o show, como acon­te­ceu em Natal, era só pegar um trans­porte cole­tivo e pronto. Até hoje me per­gunto por que exa­ta­mente não fui àquele show. Se foi que­rendo provar pra mim mesmo que eles não sig­ni­fi­ca­vam mais nada na minha vida ou se eu tinha sofrido uma over­dose de “Vâmo Pulá!”.

Pra um fã que tinha todos os cds, 20 fitas VHS do seri­ado da Globo e sabia deco­rado os passos das prin­ci­pais músi­cas, acho que eu estava mesmo que­rendo fugir desse pas­sado para cons­truir um novo futuro. Era um basta mesmo! Chega! Até hoje não com­prei o último cd da dupla, ou seja, não com­ple­tei a cole­ção. E não queria nem saber da car­reira solo de Sandy. Se ela ia voltar como uma Shakira, Beyoncé ou Mariah Carey. Assunto Sandy e Junior encer­rado da minha vida. Página virada.

É, mas ela con­se­guiu me pegar direi­ti­nho. De cabelo curto, músi­cas de auto­ria pró­pria, sem se pre­o­cu­par em agra­dar o público, Sandy me sur­preen­deu. A música de tra­ba­lho “Pés Can­sa­dos”, parece que real­mente sim­bo­liza o momento em que ela vive. Como ela diz, depois de tanto cami­nhar, ela volta tran­quila, sem se pre­o­cu­par com quem vai gostar dela ou não. É, ela real­mente não pre­cisa se pre­o­cu­par com nin­guém e nem em vender cd, já é rica. E por isso pode ousar tanto e ser ela mesma, inde­pen­dente de tudo. Já Junior, bom, foi co-pro­du­tor do cd junto com Lucas e compôs algu­mas músi­cas com eles, além de fazer vocal em uma faixa. Às vezes acho que se Sandy não tivesse tido a ideia de cantar sozi­nha, Junior ainda esta­ria com ela. Mas enfim, acho que ele não pensa em lançar um cd solo.

Acre­dito que aprendi algo inte­res­sante com o “manus­crito” de Sandy. Eu não pre­ciso ser um fã deses­pe­rado de um artista só por gostar de suas músi­cas. É isso que acon­tece agora, não me con­si­dero o mesmo fã de anos atrás, só porque gostei das novas músi­cas de Sandy. Ando longe de virar aquele maní­aco obses­sor. É uma outra his­tó­ria, me parece até uma outra can­tora. Acho que todos esta­mos can­sa­dos de tanto cami­nhar. É hora de fazer que nem Sandy, esque­cer os planos, o futuro, as pre­o­cu­pa­ções e sentir o momento.

A Globo e os seus sete pecados


Vive­mos no país da tele­no­vela. Da maior expor­ta­dora mun­dial de nove­las com qua­li­dade. Uma ver­da­deira indús­tria do entre­te­ni­mento e da ficção na teli­nha. Alguém pode­ria me citar ao menos uma tele­no­vela que ficou mar­cada na memó­ria? Com cer­teza muitas pes­soas terão até mais de uma, e muitas nove­las serão ditas, mas tenho cer­teza que nin­guém dirá Sete Peca­dos. Então por que será que esse folhe­tim será a pró­xima atra­ção do Vale a Pena Ver de Novo? Não dá pra enten­der. A Rede Globo tem atu­al­mente mais de 260 tele­no­ve­las gra­va­das, gran­des suces­sos que cor­re­ram o mundo, e é inca­paz de repri­sar uma trama que real­mente valha a pena.

Aliás, tramas que valham a pena está cada dia mais em extin­ção no país. Foi-se o tempo das vacas gordas, quando se acom­pa­nhava um sucesso atrás do outro, quando era gos­toso sentar diante da tv pra assis­tir um capí­tulo, se delei­tar com os per­so­na­gens e final­mente rever um grande sucesso depois de anos. O que nos sobra hoje são his­tó­rias monó­to­nas, repe­ti­ti­vas, fati­gan­tes, que só buscam explo­rar o ator ou a atriz boni­ti­nhos e entu­pir as nossas veias de vácuo e mer­chan­di­sing.

Eu nem che­guei a pegar o início da tele­dra­ma­tur­gia bra­si­leira, nem acom­pa­nhei clás­si­cos como O Bem Amado, Dona Xepa, Irmãos Cora­gem ou Roque San­teiro, embora tenho visto alguns capí­tu­los da última em sua reprise. Con­tudo, ainda peguei o final da boa safra da emis­sora, e acom­pa­nhei Que Rei Sou Eu?, Vale Tudo, Tieta, Pedra Sobre Pedra, Renas­cer, A Viagem, Mulhe­res de Areia e O Rei do Gado. Claro, que tele­no­vela é igual a música e reli­gião, cada qual esco­lhe a sua, inde­pen­dente da opi­nião alheia. Então ainda con­se­gui extrair o sumo de algu­mas outras no decor­rer das déca­das seguin­tes como o sus­pense poli­cial de Sílvio de Abreu A Pró­xima Vítima, a fic­tí­cia Green­ville em A Indo­mada e o caso Pedri­nho em Senhora do Des­tino de Agui­naldo Silva (grande Nazaré), as Hele­nas de Maneco em Por Amor, Mulhe­res Apai­xo­na­das e Pági­nas da Vida, a clo­na­gem humana de Glória Perez em O Clone, e até o mundo irri­tante das Cele­bri­dade de Gil­berto Braga.

Quanto ao humor não con­sigo deixar de citar duas nove­las de Carlos Lom­bardi, que embora seve­ra­mente cri­ti­ca­das, me diver­ti­ram pra caramba. Eis que falo de Uga Uga e Kuba­na­can, com uma “que­di­nha” maior pela última. A sátira a uma repú­blica das bana­nas na década de 50 era sen­sa­ci­o­nal, acom­pa­nhado das atu­a­ções hila­ri­an­tes de Adri­ana Este­ves e Vla­di­mir Bri­chta. Da Cor do Pecado entrou na minha lista por vários moti­vos, entre eles, a ambi­en­ta­ção no Mara­nhão. Era um romance bobo com uma vilã óbvia, mas cheio de arti­ma­nhas, uma his­tó­ria que acabou agra­dando pela sim­pli­ci­dade.

Fechando a lista, acres­cento duas tramas de Ana Maria Moretz­sohn, Esplen­dor, ambi­en­tada no charme da década de 50, e Estrela-Guia, que apesar da crí­tica no fato de ser a novela de Sandy, foi uma his­tó­ria que nos levou de volta ao mundo alter­na­tivo dos hip­pies, do filme Hair, e a ques­ti­o­nar os valo­res e os cos­tu­mes da vida moderna. E por fim, a vida de jovens em repú­bli­cas, em uma cidade do inte­rior de Minas, ao lado de um roman­ce­zi­nho água com açúcar dos per­so­na­gens cen­trais, me trouxe uma certa afi­ni­dade com a obra de Ema­nuel Jaco­bina, Cora­ção de Estu­dante. Fora do uni­verso global, as únicas que se sobres­saem pra mim são Pan­ta­nal e Xica da Silva da Man­chete e Éramos Seis do SBT.

É óbvio que entre essas nove­las que citei haverá muita gente a ques­ti­o­nar essa ou aquela, e cita­rão talvez outras que tenham sido rele­van­tes ao seu ponto de vista. Entre­tanto, essas sele­ções são cada vez mais raras de fazer hoje em dia. Nove­leiro desde os 3 anos de idade, pode-se dizer, hoje não acom­pa­nho mais nove­las, salvo algu­mas rarís­si­mas exce­ções, e fico tre­men­da­mente revol­tado e impo­tente quando vejo que o único canal que pode­ria trazer de volta os bons tempos da tele­dra­ma­tur­gia, se dedica em ree­xi­bir xaro­pes da des­pro­po­si­tada nova safra da emis­sora e chamar de grande sucesso a infe­liz Sete Peca­dos, que ainda nem come­çou e já devia ter ter­mi­nado.

A Globo e os seus sete pecados – Parte 2

Insa­tis­feito em apenas comen­tar no Celeiro o meu desa­pon­ta­mento com a nova reprise do Vale a Pena Ver de Novo da Globo, Sete Peca­dos, escrevi um e-mail para a emis­sora, mesmo sabendo que não iria influ­en­ciar em nada a deci­são deles e que pouca dife­rença fará a indig­na­ção de um quase parai­bano com a sua pro­gra­ma­ção. Con­tudo, sur­preen­den­te­mente recebi a res­posta ainda na mesma tarde. Eis abaixo a res­posta da Rede Globo à minha crí­tica:
Samuel,

Há muitos fato­res envol­vi­dos na esco­lha de uma novela para ser repri­sada no Vale a Pena Ver de Novo. Alguns são artís­ti­cos – há obras que ficam data­das, por exem­plo – e outros tec­no­ló­gi­cos, que apre­sen­tam um impacto na qua­li­dade visual da obra. Além disso, nove­las com temas leves, his­tó­rias ale­gres, diver­ti­das, român­ti­cas e com gene­ro­sas pita­das de aven­tura têm mai­o­res chan­ces de serem esco­lhi­das.

Geral­mente, as nove­las das seis e das sete se enqua­dram nessa cate­go­ria. Quando a Rede Globo encon­tra nove­las mais anti­gas, que aten­dem aos cri­té­rios cita­dos, pro­cura dar pre­fe­rên­cia a estas.

Lem­bra­mos, ainda, que as nove­las exi­bi­das no Vale a Pena Ver de Novo são de cen­sura livre ou sofrem edição para que se ade­quem ao horá­rio.

Res­pei­ta­mos sua opi­nião e crí­tica. Suas con­si­de­ra­ções serão leva­das ao conhe­ci­mento da dire­ção de pro­gra­ma­ção da Rede Globo.

Cor­di­al­mente, Rede Globo.
Ou seja, nove­las insig­ni­fi­can­tes como Sete Peca­dos é que tem vez na pro­gra­ma­ção. Eles mesmos assu­mem que “nove­li­nhas” ale­gres, bobas, baba­cas é que podem ser repri­sa­das. Então pra que serve esse pro­grama, se o intuito maior que seria exibir tramas que mar­ca­ram épocas, não acon­tece? Se a cen­sura anda vetando as melho­res sinop­ses do horá­rio nobre, então por que a emis­sora não lança um Vale a Pena Ver de Novo à noite? Ou mesmo se as nove­las das 18h e 19h são as que têm mais chance, por que não buscar alguma que real­mente faça jus ao título do pro­grama? Sete Peca­dos foi a deca­dên­cia ras­gada da pro­gra­ma­ção. Sabem aque­las nove­las que passam, sim­ples­mente passam e logo vem outra? Uma dessas foi Sete Peca­dos. A lou­cura é maior ainda se formos ana­li­sar quais eram as outras duas opções do canal para reprise: O Pro­feta e Beleza Pura. A pri­meira remake de Ivani Ribeiro, que ten­tando seguir o exem­plo de A Viagem, andou longe de con­se­guir o mesmo sucesso da versão ori­gi­nal, e a segunda que não merece nem comen­tá­rios.

É lamen­tá­vel ver que uma das mai­o­res ou a maior pro­du­tora de tele­dra­ma­tur­gia do mundo, conhe­cida inter­na­ci­o­nal­mente, esteja pro­du­zindo apenas por pro­du­zir, sem se pre­o­cu­par com o con­te­údo daquilo que dis­se­mina. E a culpa é de quem? Auto­res? Atores? Mode­los pron­tos? Padrões? Desse modo, dá pra enten­der que se um dos prin­ci­pais cri­té­rios das repri­ses do Vale a Pena Ver de Novo são pro­du­ções recen­tes das faixas das 18h e 19h, não tem como o pro­grama repri­sar tramas rele­van­tes, já que nada sig­ni­fi­cante nos últi­mos anos tem sido pro­du­zido.

Bem-vindo ao Nosso Lar


Ontem final­mente assisti no cinema o filme Nosso Lar, base­ado na obra de Chico Xavier. Desde que vi pela pri­meira vez o trai­ler, per­cebi que seria um grande filme, tanto pela super­pro­du­ção que lembra até os filmes hollywo­o­di­a­nos, como pela sua temá­tica. Venho aden­trando pelo uni­verso kar­de­cista desde meus 18 anos, quando voltei a acre­di­tar em vida após a morte e na exis­tên­cia de um ser supremo. Sinto que no momento atual estou bas­tante envol­vido com o tema, par­ti­cipo da mon­ta­gem de uma peça tea­tral de temá­tica espí­rita, tenho inten­si­fi­cado minha lei­tura na dou­trina e me sinto cada vez mais sen­sí­vel ao assunto.

Por ser a reli­gião com a qual me iden­ti­fico, a expec­ta­tiva foi gigante quanto ao filme, e como espe­rado, acom­pa­nhei durante os 102 minu­tos, uma ver­da­deira ava­lan­che de emoção, aco­lhi­mento e muito amor. Con­se­gui iden­ti­fi­car tudo aquilo que venho estu­dando sobre a Dou­trina Espí­rita. Me pare­cia a mais com­pleta repre­sen­ta­ção da rea­li­dade humana. Sen­ti­men­tos se mis­tu­rando dentro de mim naquela sala lotada, onde nem todos com­par­ti­lha­vam das mesmas sen­sa­ções. Alguns riam do que não enten­diam, outros con­ver­sa­vam, ques­ti­o­na­vam. Angús­tia, ale­gria, com­preen­são, vazio, cari­dade, amor, tudo isso rolava dentro de mim. Posso até ter exa­ge­rado, afinal era apenas um filme, mas um filme que me tocava ine­vi­ta­vel­mente, o que podia fazer?

Saí daquela sala ainda em ebu­li­ção. Tudo pare­cia haver mudado, olhava as pes­soas saindo, con­ver­sando, rindo, não era pos­sí­vel que apenas eu tivesse sido tão aba­lado pelo filme. O per­curso que fiz daí até minha casa foi inex­pli­cá­vel. Não me recordo exa­ta­mente dos deta­lhes, visto que minha mente estava ainda naque­les 102 minu­tos. Pare­cia que eu havia flu­tu­ado do cinema até em casa. Nada me inco­mo­dou, filas, pes­soas, demora de ônibus, lota­ção, aliás, os ônibus foram rápi­dos e esta­vam quase vazios para um sábado.

Já em casa, numa rápida pes­quisa pela inter­net, encon­trei as pri­mei­ras crí­ti­cas com rela­ção ao filme. Depoi­men­tos de pes­soas emo­ci­o­na­das, satis­fei­tas com a pro­du­ção, até um pres­bi­te­ri­ano que se dizia como­vido e admi­rado com as teo­rias do espi­ri­tismo, que a ele sempre pare­ce­ram tão erra­das, e claro, achei as famo­sas crí­ti­cas nega­ti­vas que os jor­nais não cansam de fazer. Cri­ti­ca­vam a cidade futu­rista, as ideias pre­vi­sí­veis, o céu azul, as gai­vo­tas voando, as roupas claras esvo­a­çan­tes do elenco, cri­ti­ca­ram até o orça­mento que é con­si­de­rado o mais caro do cinema naci­o­nal e fichi­nha se com­pa­rado aos padrões de Hollywood.

Bom, ou eu sou um poço de sen­si­bi­li­dade inútil, ou essas crí­ti­cas não fazem a menor dife­rença no resul­tado final do filme. Con­fesso até que se não conhe­cesse um pou­qui­nho já de espi­ri­tismo, acha­ria tudo um ver­da­deiro deva­neio. E talvez por isso, a falta de escla­re­ci­mento da reli­gião, leve muitos a apon­tar fatos que des­co­nhe­cem. Mas afinal o que eles espe­ra­vam de um filme que retra­tava a vida pós-morte? Uma aven­tura a la Harry Potter? É claro que os acon­te­ci­men­tos são pre­vi­sí­veis, aliás, achei alguns até inu­si­ta­dos. Talvez quem sabe se todos usas­sem roupas nor­mais tor­nasse mais crível para alguns. Con­tudo, tratar do que não se conhece é sempre um tiro no escuro. E quem pode garan­tir a esses crí­ti­cos que o céu não é azul e não exis­tem gai­vo­tas voando? Se o céu fosse roxo ou ama­relo seria mais inte­res­sante pra eles? Acre­dito que a men­sa­gem retra­tada é mais sig­ni­fi­cante do que deta­lhes do “para­íso”.

Um tal Paulo Floro, do JC Online de Per­nam­buco disse que fal­tava mais natu­ra­li­dade, mais rea­lismo nas cenas. Como ele sabe o que pre­ci­sava em um ambi­ente que ele mesmo des­co­nhece a exis­tên­cia? Chamou até de um pós-vida cafona. Tem que ter moda até pra viver depois da morte, né? Isso é porque se fala de espi­ri­tismo hoje como o assunto que está em alta, como se a dou­trina fosse um tema qual­quer que chega e vai embora, como as crises do petró­leo ou os ata­ques ter­ro­ris­tas. E a con­se­quên­cia da explo­ra­ção dema­si­ada do tema em filmes e nove­las, exige dos dire­to­res ino­va­ção e ten­ta­ti­vas de criar ambi­en­tes cada vez mais sur­re­ais.

Apesar de todas as suges­ti­vas crí­ti­cas sobre a pro­du­ção de Nosso Lar, acre­dito que o filme é uma grande obra do nosso cinema. Dei­xado de lado as roupas esvo­a­çan­tes, o céu azul e as gai­vo­tas voando, a rica men­sa­gem que fica desse tra­ba­lho que vendeu mais de 2 milhões de exem­pla­res em livro, e foi base para a cons­tru­ção da novela A Viagem de Ivani Ribeiro, é a con­ti­nu­a­ção da vida após a morte, atra­vés do prisma da Dou­trina Espí­rita. Nenhum outro filme que tenha conhe­ci­mento, retra­tou tão fiel­mente os ensi­na­men­tos do espi­ri­tismo como Nosso Lar. E inde­pen­dente de todos os cli­chês uti­li­za­dos, a men­sa­gem de amor, perdão, cres­ci­mento e con­ti­nui­dade, atra­vessa a tela e chega aos cora­ções, ao menos dos mais sen­sí­veis. O duro é aban­do­nar a sala depois e per­ce­ber que a rea­li­dade aqui ainda é outra bem dife­rente, onde os inte­res­ses pes­so­ais sempre falam mais alto e o amor e o perdão ainda estão no fim da fila.

A Globo e os seus sete pecados – Parte 3

E con­ti­nua aqui a saga da atual reprise da Rede Globo no Vale a Pena Ver de Novo. Desde quando foi anun­ci­ado que Sete Peca­dos seria a pró­xima novela a ser rea­pre­sen­tada, eu venho arqui­te­tando um golpe dia­bó­lico contra as fitas ori­gi­nais de tele­no­ve­las como essa. Quem sabe tocar fogo no acervo, levar pra reci­cla­gem, ou fazer linha de empi­nar pipa pra que nin­guém mais seja obri­gado a saber que uma trama desse nível, se é que existe nível, está nova­mente no ar. Depois da res­posta pron­ti­nha da emis­sora ao meu e-mail indig­nado, achei que tinha per­dido a bata­lha contra o impé­rio Plim Plim. Entre­tanto, “howe­ver”, feliz­mente, dessa vez eles estão des­co­brindo que não se trata de um único e-mail ino­fen­sivo, mas de vários spams incon­tro­lá­veis.

Um fato que não se pode ques­ti­o­nar, é que o grande deter­mi­nante de um pro­grama per­ma­ne­cer no ar em um canal de TV é a sua audiên­cia. E contra ela, nenhuma des­cul­pi­nha enla­tada pode resol­ver o pro­blema. Pois bem! Com pouco mais de dois meses no ar, Sete Peca­dos é a pior audiên­cia do horá­rio desde 2000. E agora não sou eu quem está dizendo, mas os teles­pec­ta­do­res. Segundo o blog do jor­na­lista Daniel Castro, a emis­sora está cor­tando quase 60% das cenas ori­gi­nais do folhe­tim. Ou seja, cor­rendo contra o tempo pra tirar do ar o que nem deve­ria ter entrado. E olhe que não foi por falta de aviso. No capí­tulo 43 da reprise já esta­vam sendo exi­bi­das cenas do 108, resul­tando o equi­va­lente a dois capí­tu­los e meio da trama por dia. E nesse ritmo, ela se des­pede da pro­gra­ma­ção em 7 de janeiro, com apenas 85 capí­tu­los, e entrando para o time das nove­las repri­sa­das mais pico­ta­das da emis­sora.

Algum maluco de um jornal online vin­cu­lado a Globo, divul­gou uma noti­nha anun­ci­ando que Sete Peca­dos bateu recorde de audiên­cia no dia 02 de novem­bro. Bem, vamos ave­ri­guar o fato. O record a que faziam refe­rên­cia era 16 pontos na pro­gra­ma­ção, o que até parece muito, levando em conta que a trama não sai dos 11 pontos desde que rees­treou. Con­tudo, se ana­li­sar­mos as tele­no­ve­las exi­bi­das ante­ri­or­mente, esse número não parece tão expres­sivo. Sinhá Moça já regis­trava esse índice dia­ri­a­mente quando foi repri­sada, Mulhe­res Apai­xo­na­das se man­ti­nha nos 17, Alma Gêmea nos 19 e Senhora do Des­tino nos 21. Talvez por ser um feri­ado em que exal­ta­mos os mortos, nada mais justo do que a audiên­cia subir nesse dia. E nem deu tempo de se acos­tu­mar, o pas­te­lão voltou aos seus 11 pontos rapi­di­nho no dia seguinte.

A maior pre­o­cu­pa­ção da Globo quanto à reprise é a sua influên­cia no Vídeo Show (outro ser vege­ta­tivo da emis­sora) e na Sessão da Tarde, que acabam sofrendo com o desem­pe­nho da audiên­cia da novela, que apesar de baixa, ainda se mantém na lide­rança (por falta de opção pior). Quem sabe em janeiro eles não lançam Beleza Pura, Eterna Magia, Bang Bang ou Pé na Jaca, e mudam o nome do pro­grama também pra Vale a Pena Mani­pu­lar de Novo. Afinal, essa é uma arte que a emis­sora domina como nin­guém. E nem pre­ciso dizer que estou de alma revi­go­rada com o fiasco da trama. E deixo uma dica: da pró­xima vez, eles devem estu­dar melhor o con­te­údo do meu e-mail se qui­se­rem se manter na frente da Globo 2.

Maktub – estava escrito

Sim­ples, com­plexa, obje­tiva, intensa. Ainda se ouvia o mur­muro da ovelha Dolly quando eu soube que a Globo ia lançar uma novela cha­mada O Clone. Só pelo título já seria no mínimo curi­oso, e ainda por ser uma novela das 8, na qual o rea­lismo e o drama estão mais pre­sen­tes, não havendo espaço para trans­for­mar um tema legal em cha­co­tas do horá­rio das sete ou na super­fi­ci­a­li­dade das seis. Era o retorno de Glória Perez ao horá­rio nobre, afas­tada desde Explode Cora­ção em 1996. Hoje, quase dez anos após a estreia de O Clone, a Rede Globo final­mente deci­diu reprisá-la no Vale a Pena Ver de Novo em grande estilo, com direito a cha­ma­das na pro­gra­ma­ção de ano novo do canal. Depois de rodar o mundo, ganhar inú­me­ros prê­mios naci­o­nais e inter­na­ci­o­nais, o estron­doso sucesso de Glória Perez põe fim no intenso cír­culo vici­oso de nove­li­nhas chin­fri­nhas que cul­mi­nou no fiasco de Sete Peca­dos. Parece real­mente que vol­ta­mos aos tempos em que se valia a pena mesmo rever um folhe­tim de ver­dade, com nar­ra­ti­vas e per­so­na­gens fortes que fize­ram his­tó­ria. Só espero que essa fase renda alguns véus a mais.

É indis­cu­tí­vel a reper­cus­são da novela de Glória Perez, sem dúvida alguma seu melhor momento na tele­vi­são bra­si­leira. Mas o que fez dessa tele­no­vela, um grande êxito no mer­cado naci­o­nal e mun­dial? Com cer­teza a clo­na­gem humana foi o carro-chefe da trama, porém, a autora soube jogar esse tema com uma pers­pi­cá­cia e sen­si­bi­li­dade impe­cá­veis. Seria muito fácil pegar a ideia de se criar um clone e ela­bo­rar uma novela em cima disso. O tema em si já é ins­ti­gante. Mas ‘como’ ele é desen­vol­vido é onde se esconde todo o segredo da trama. Levar um tabu como a clo­na­gem humana para o uni­verso islâ­mico foi uma grande jogada da autora. Criar o motivo ini­cial para se pro­du­zir o clone em torno da his­tó­ria de irmãos gêmeos foi outro grande insight. E por fim, implan­tar o embrião clo­nado de um branco em uma per­so­na­gem negra, amar­rou a novela que seu des­tino não seria outro senão o sucesso.

Com uma teia de acon­te­ci­men­tos for­mada em volta de seu tema cen­tral, só seria pre­ciso um romance a Romeu e Juli­eta para api­men­tar ainda mais a his­tó­ria. Lucas e Jade con­se­gui­ram criar uma his­tó­ria de amor tão forte que deixou os moci­nhos de Terra Nostra a ver navios. Era um romance puro, ingê­nuo, mas avas­sa­la­dor e inven­cí­vel ao tempo. O Clone, entre tantos assun­tos, tratou da posi­ção do ser humano diante de suas esco­lhas na vida. Uma das mais belas cenas mostra esse con­flito, quando Lucas se olha no espe­lho de sua casa, depri­mido com o rumo de sua vida, cla­mando uma chance de refa­zer o pas­sado, e então seu clone Leo entra, vinte anos mais jovem, e Lucas o vê atra­vés do espe­lho. Seria sua chance de refa­zer o pas­sado? Se vê duas déca­das mais jovem e visu­a­li­zar os inú­me­ros des­ti­nos que sua vida pode­ria ter tomado, faria qual­quer um tentar um reco­meço.

E não há como falar em O Clone sem men­ci­o­nar sua mag­ní­fica trilha sonora com­posta por Marcus Viana, o mesmo res­pon­sá­vel pela trilha de Pan­ta­nal, dez anos antes. A música tema de Murilo Bení­cio e Gio­vanna Anto­nelli ganhou até versão inter­na­ci­o­nal na voz de Michael Bolton. Na aber­tura, a banda Sagrado Cora­ção da Terra, criada pelo pró­prio Viana, brin­cava com o poder da cri­a­ção do homem ao lado de um dos tra­ba­lhos mais bem ela­bo­ra­dos de Hans Donner. Des­ta­que também de Lenini, com o tema de Juca de Oli­veira e seu cien­tista Albi­eri, o homem que ousou bri­lhan­te­mente ter o mundo em suas mãos e acor­dou mortal. Clo­na­gem humana, isla­mismo, fé, amor, perda, desen­con­tros, sonhos. Por todos esses moti­vos e muito mais é que O Clone merece ser vista a partir do dia 10, porque antes de ser uma novela sobre o avanço da tec­no­lo­gia, O Clone é uma novela humana, que trata do para­digma tec­no­ló­gico com o olhar e a alma de um ser humano.

Palpite

Des­co­bri essa semana atra­vés da mídia que o autor de tele­no­ve­las Manoel Carlos irá se des­pe­dir da tele­dra­ma­tur­gia em 2014, e que a atriz Lilia Cabral será sua última Helena. Desde que Mulhe­res Apai­xo­na­das foi ao ar em 2003 havia o mur­muro de que Maneco só faria mais uma única novela. Aí veio Pági­nas da Vida, a minis­sé­rie Maysa e Viver a Vida. Con­tudo, agora parece que não tem volta. E como ficam os teles­pec­ta­do­res sem suas Hele­nas, sem o Leblon, sem Tom Jobim, sem o rea­lismo coti­di­ano que só Maneco con­se­gue tra­du­zir em seus folhe­tins? Como fã incon­di­ci­o­nal do seu estilo de escre­ver, desde que vi a poesia tra­du­zida em ficção na con­sa­grada Por Amor de 1997, eu esqueço às vezes, que os auto­res de nove­las também se apo­sen­tam, e que Maneco já terá 81 anos quando sua última obra for ao ar em 2014.

Ainda era um guri de 6 anos quando acom­pa­nhei pela pri­meira vez, uma novela de Manoel Carlos, Feli­ci­dade. Quatro anos depois, assis­tia His­tó­ria de Amor. Mas quero frisar aqui um marco em sua car­reira de nove­lista, que me fez aos 12 anos me render por com­pleto ao seu tra­ba­lho. “Do que você seria capaz por amor?” Esse era o teaser que ia ao ar com os atores da novela res­pon­dendo o que fariam por amor, antes mesmo das pri­mei­ras cha­ma­das de Por Amor ir ao ar. Era uma his­tó­ria densa, pro­funda, mas que Maneco soube jogar com suti­leza e poesia, tocando fundo na sen­si­bi­li­dade humana. Que mãe não sacri­fi­ca­ria sua feli­ci­dade em nome da feli­ci­dade do filho? Como julgar a ati­tude de Helena? Ego­ísta? Fraca? Super­pro­te­tora? Talvez todos esses adje­ti­vos. Mas humana. Fica claro desde o início da trama que Helena criou errado sua filha Maria Edu­arda, a tor­nando frágil, inse­gura, mimada e orgu­lhosa. E nem a cum­pli­ci­dade de amigas que con­ser­va­ram durante a vida con­se­guiu mudar esse fato. Gabri­ela Duarte con­se­guiu criar uma per­so­na­gem tão autên­tica que por anos ficou estig­ma­ti­zada como a enjo­ada de Por Amor e gerou revolta em muitos teles­pec­ta­do­res que cri­a­ram um site exi­gindo que ela mor­resse na trama.

Se por um lado tínha­mos o con­flito de Helena e sua filha, por outro tínha­mos Suzana Vieira dando vida a uma de suas mais bem suce­di­das per­so­na­gens, Branca Letí­cia. Uma mulher amar­gu­rada no casa­mento, mãe de três filhos, mas que só dedi­cava amor a um, e ainda man­ti­nha uma paixão escan­ca­rada pelo viúvo Atílio, Antô­nio Fagun­des. A novela ganhava força com outros núcleos pesa­dos como a famí­lia de Laura Tra­jano, a ex-namo­rada do filho mais velho de Branca, Mar­celo, apai­xo­nada até o fim da trama por ele, e que infer­ni­zava o casa­mento de Maria Edu­arda. O núcleo de Ores­tes, o ex-marido alco­ó­la­tra de Helena, que bus­cava na sua filha de 6 anos do segundo casa­mento a força para se livrar do vício. E claro, o romance mais repleto de quí­mica da tele­dra­ma­tur­gia bra­si­leira até então: Milena e Nando. Caro­lina Ferraz esban­jou sen­su­a­li­dade, deli­ca­deza e irre­ve­rên­cia na sua per­so­na­gem, e Edu­ardo Mos­co­vis se encai­xou direi­ti­nho entre a leveza e a obje­ti­vi­dade de Milena. Sem falar que a trilha sonora dos dois, tanto Pal­pite de Vanessa Rangel, como Só Você de Fábio Jr, foram um dos mai­o­res suces­sos do ano. Assim como com a canção Per Amore de Zizi Possi marcou a trama e entrou na memó­ria afe­tiva de cada teles­pec­ta­dor.

Foi real­mente uma trama memo­rá­vel. E hoje, quase 13 anos após sua exi­bi­ção, e coin­ci­den­te­mente no mesmo perí­odo em que era ree­xi­bida pelo canal Viva, eu con­se­gui conhe­cer o local onde foi gra­vada sua última cena no Jardim Botâ­nico do Rio de Janeiro. Helena, Atílio, Maria Edu­arda, Mar­celo e Mar­ce­li­nho cami­nham em har­mo­nia enquanto redes­co­brem o ver­da­deiro valor da vida, ou apren­dem a amar, como Atílio enfa­tiza para Helena quando ela con­fessa que trocou as cri­an­ças na mater­ni­dade: “você não sabe amar... mas pode apren­der”. Bom, eu tenho um pal­pite, a tele­dra­ma­tur­gia bra­si­leira não será jamais a mesma depois que Manoel Carlos deixar defi­ni­ti­va­mente de assi­nar suas nove­las. Sorte do ator que pôde um dia ter feito parte do elenco de alguma obra de Maneco. Meu amigo Júlio diz que eu sou ras­gado demais quando teço elo­gios a Manoel Carlos, mas des­culpa, Júlio, quando alguém con­se­gue trans­mi­tir prin­cí­pios de inte­gri­dade fami­liar, numa ver­da­deira crô­nica do coti­di­ano, com suas har­mo­nias e dis­so­nân­cias, usando sen­si­bi­li­dade e acima de tudo huma­ni­dade, eu não posso falar menos. É só aguar­dar ansi­oso sua pró­xima trama e lamen­tar ser a última.

Eis o prêmio da tua caridade

E eis que a coroa do BBB cai final­mente sobre uma mulher que não seja neces­si­tada ou esteja fora dos padrões de beleza. Maria, nome sim­ples, que lembra a mãe de Jesus, na ver­dade esta­ria mais para Mada­lena. Nome, inclu­sive que fez ques­tão de manter em sigilo durante toda sua esta­dia na casa. Os vídeos de ensaios sen­su­ais e até con­cur­sos diga­mos, um pouco extra­va­gante, nunca foram men­ci­o­na­dos em qual­quer site da emis­sora enquanto o pro­grama estava no ar. Afinal, como enfa­ti­zou Bial, Maria era uma das pro­ta­go­nis­tas, e assim sendo o misto de mulher ingê­nua e ousada era o que agra­dava aos inte­res­ses dos pro­du­to­res e iludia os teles­pec­ta­do­res. Ah, qual­quer mulher pode ser assim, morosa e liber­tina, sem deixar de ser autên­tica. Mas aque­las ati­tu­des dela não eram impul­sos natu­rais de uma mulher ino­cente, mas resul­tado de sua expe­riên­cia nos BBBs da vida. Até ante­on­tem che­guei a pensar que o pro­grama estava ten­tando de tudo para tornar Daniel o cam­peão, mas será que no fundo não era apenas uma más­cara para o prêmio acabar caindo final­mente numa mulher sedu­tora, livre dos este­re­ó­ti­pos de todos os ven­ce­do­res até então?

Não sou contra a vitó­ria de Maria. Até torci por ela. Só me senti um pouco traído por des­co­brir só agora, e pelo pró­prio site da emis­sora, o pas­sado devasso da feli­zarda. A notí­cia correu o país antes, eu que infor­tu­na­da­mente por buscar notí­cias do pro­grama apenas no site da Globo não asso­ciei gra­nizo ao orva­lho. Ah, ela não era tão boba assim. Será que teria tor­cido por ela com essa infor­ma­ção em mãos? Agora pas­sado o espanto, creio que sim. Entendi porque MauMau, que virou Luís Mau­rí­cio depois nin­guém sabe porquê, se afas­tou da menina quando retor­nou à casa. Não atiro nenhuma pedra em quem expõe sua figura na inter­net, dis­puta sua beleza em con­cur­sos e se exibe em cli­ques eró­ti­cos, o pró­prio site da emis­sora faz o mesmo com cada bro­ther eli­mi­nado na página do Papa­razzo. Só que a auten­ti­ci­dade da par­ti­ci­pante foi apenas até a esquina, já que as ati­tu­des de deter­mi­na­dos com­por­ta­men­tos não reve­la­vam de fato a todos quem era aquela jovem. Mas desde quando o pro­grama se dedica em evi­den­ciar os ver­da­dei­ros perfis dos par­ti­ci­pan­tes? O mais impor­tante é criar per­so­na­gens e jogar traços cari­ca­tos para apon­tar o lado mais vil e ape­la­tivo do ser humano em rede naci­o­nal.

Algo seme­lhante ao que se encon­tra no texto Dr. Fausto da Silva, do dra­ma­turgo parai­bano Paulo Pontes, um grande nome da tele­vi­são bra­si­leira, pre­cur­sor da série A Grande Famí­lia e do pre­mi­ado espe­tá­culo Gota d’Água em par­ce­ria com Chico Buar­que. Em Dr. Fausto da Silva somos apre­sen­ta­dos aos bas­ti­do­res de um pro­grama de TV e a toda escó­ria que habita os cor­re­do­res de uma emis­sora, capaz de vender a pró­pria alma pela audiên­cia. Fausto da Silva seria uma espé­cie de Luiz Datena, Rati­nho, Márcia Golds­ch­midt, Roberto Cabrini e por que não, Pedro Bial? Já que seu dis­curso inci­tante na vés­pera da final do BBB noti­ci­ando que um novo mili­o­ná­rio sairia do pro­grama no dia seguinte, lembra muito o dis­curso ape­la­tivo do Dr. Fausto anun­ci­ando que dentro de ins­tan­tes dece­pa­ria uma parte de si diante dos teles­pec­ta­do­res. O texto foi escrito em 1972, embora não pareça dife­rir muito dos dias atuais.

O fun­da­men­tal em pro­gra­mas como Brasil Urgente, Casos de Famí­lia, Pro­grama do Rati­nho ou Big Bro­ther Brasil é explo­rar o lado mais mise­rá­vel do ser humano e poder tri­pu­diar em cima de sua pró­pria des­graça. A vitó­ria de Maria não mostra que o público está mudando e aban­do­nando certos pre­con­cei­tos. O prêmio acabou indo a outra “ingê­nua”, já que o verbo “mariar” foi o figu­rino que melhor lhe caiu bem desde sua che­gada e se reve­lou de bas­tante inte­resse à pro­du­ção. E só ficou mesmo na casa quem o Brasil queria ver e não cau­sava repulsa. A expli­ca­ção para Ari­adna ser a pri­meira eli­mi­nada? Como se ques­ti­o­nou Bial, “quem é o burro agora?”. Não sei porque senti a neces­si­dade de pro­cu­rar um espe­lho na hora, dá um reto­que no cabelo talvez, como Rodri­gão. Bom, a tese de dou­to­rado sobre o porquê de apenas homens ganha­rem o BBB – com duas exce­ções – acaba de perder fun­da­mento, ou talvez ganhe outro a mais. O público gosta do bar­raco, mas quer a vitó­ria do bon­zi­nho, ao mesmo tempo em que também quer se ver, com suas fra­que­zas, medos, falta de escrú­pu­los e pudor. E Maria reunia a inge­nui­dade do bom moço e o atre­vi­mento velado de cada um. E com sua cari­dade aos anseios dos teles­pec­ta­do­res, fatu­rou a bolada dessa inu­si­tada edição. Dica pro pró­ximo aspi­rante a ven­ce­dor.

A safra da vez

Há muito deixei de criar expec­ta­tiva com a estreia de alguma tele­no­vela na Rede Globo ou em qual­quer outra emis­sora. Não sei se posso con­si­de­rar perda de cri­a­ti­vi­dade, satu­ra­ção do modelo no mer­cado ou mesmo mudança de hábito dos teles­pec­ta­do­res. A grande inter­ro­ga­ção se deve ao fato de muita gente con­cor­dar que não se pro­du­zem mais nove­las como antes. Mas não sou tão radi­ca­lista a esse ponto. Talvez se gran­des suces­sos como Beto Rock­fel­ler, O Astro ou Tieta fossem lan­ça­dos hoje não sur­tis­sem o mesmo efeito. A exem­plo de Irmãos Cora­gem, Anjo Mau e Pecado Capi­tal que bate­ram gran­des índi­ces de audiên­cia na pri­meira versão e não empla­ca­ram na segunda. Em con­tra­par­tida temos também Mulhe­res de Areia, A Viagem e Sinhá Moça que se mos­tra­ram bas­tante satis­fa­tó­rias em seus remakes. As duas pri­mei­ras che­gando até a supe­rar o sucesso dos anos 70. Então fica difí­cil jogar toda a culpa nas novas pro­du­ções ou dizer que somente as nove­las do início da tele­vi­são bra­si­leira é que eram dignas de apo­lo­gias.

O que fez de Roque San­teiro, Vale Tudo, Pan­ta­nal e Xica da Silva gran­des des­ta­ques da tele­dra­ma­tur­gia naci­o­nal? Ouso dizer que a ino­va­ção. E até por que não? A ousa­dia. A pri­meira foi cen­su­rada em plena dita­dura pela sua crí­tica bem-humo­rada ao fana­tismo reli­gi­oso e impli­ci­ta­mente ao regime mili­tar em vigor na época. Já a trama de Gil­berto Braga, Agui­naldo Silva e Leonor Bassè­res não teve medo de mos­trar uma filha capaz de passar a perna na pró­pria mãe em nome da sua ambi­ção. Sem dúvida alguma, os mitos e segre­dos do mato e as pai­sa­gens exu­be­ran­tes, total­mente opos­tas ao mundo urbano e agi­tado dos folhe­tins vigen­tes até o momento, fize­ram de Pan­ta­nal a maior audiên­cia de uma tele­no­vela não pro­du­zida pela Rede Globo desde que o impé­rio de Roberto Mari­nho se con­sa­grou. E o “atre­vi­mento” de uma escrava que queria ser rainha nas Minas Gerais do século XVIII, com toda pompa, capaz de escan­da­li­zar a soci­e­dade hipó­crita da época com suas mais inu­si­ta­das peri­pé­cias, con­quis­tou o país e marcou o nome de Taís Araújo como a pri­meira pro­ta­go­nista negra da his­tó­ria da tele­vi­são bra­si­leira.

Par­tindo do pres­su­posto da ino­va­ção, seria errado pensar que toda obra que vai contra a maré tem mais chance de obter um grande êxito. É só lem­brar fias­cos recen­tes como o faro­este retra­tado na Bang Bang de Mário Prata e o grande rea­lity show de Bosco Brasil em Tempos Moder­nos. Mas aí encon­tra­mos no cami­nho a clás­sica Que Rei Sou Eu?, que trans­por­tou os teles­pec­ta­do­res para o perí­odo da Revo­lu­ção Fran­cesa, e com humor, bru­xa­ria e com­bate con­se­guiu regis­trar sua pas­sa­gem com bas­tante esplen­dor; e ainda a repú­blica das bana­nas na década de 50 com a irre­ve­rente e por momen­tos sur­re­a­lista Kuba­na­can de Carlos Lom­bardi, que apesar de uma boa audiên­cia, foi para muitos um pro­jeto fra­cas­sado. Dá para per­ce­ber por aí que não basta querer inovar, é pre­ciso saber como. Não à toa Glória Perez é a nove­lista que mais se des­taca nesse que­sito, tra­zendo sempre à dis­cus­são temas polê­mi­cos e cul­tu­ras des­co­nhe­ci­das do grande público, como o uni­verso cigano e o isla­mismo. Em algu­mas ten­ta­ti­vas acerta como Bar­riga de Alu­guel e O Clone, e em outras como Explode Cora­ção e Amé­rica fica a dever.

Ine­vi­ta­vel­mente, assim como na moda, as tele­no­ve­las também sobre­vi­vem de ciclos, que vez por outra retor­nam. Pro­va­vel­mente muitas tramas alcan­ça­ram o sucesso por virar a página no momento pre­ciso. Se Pan­ta­nal que­brou o cír­culo de nove­las urba­nas e implan­tou na Globo o cená­rio rural com Renas­cer e O Rei do Gado, esse mesmo esquema satu­rou em Terra Nostra. Assim como as nove­las de época se mos­tra­ram um ótimo filão para o horá­rio das seis em O Cravo e a Rosa, e já chegou sem gás a Desejo Proi­bido. E ainda a temá­tica espí­rita implan­tada em Alma Gêmea, que trouxe a segunda reprise de A Viagem, o remake de O Pro­feta, e a pin­ce­lada de Eli­za­beth Jhin pelo tema com Escrito nas Estre­las.

O que parece acon­te­cer hoje com auto­res como Walcyr Car­rasco, Agui­naldo Silva e Gil­berto Braga é que eles estão há algum tempo em um ter­ri­tó­rio que ainda não se defi­niu qual é. As his­tó­rias não envol­vem, não empol­gam e quando pen­sa­mos que algo inte­res­sante está por vir, somos nova­mente decep­ci­o­na­dos com a ausên­cia total de ori­gi­na­li­dade. Não vou nem me esten­der ao ibope cada dia mais baixo, porque vejo isso como um pro­cesso natu­ral, prin­ci­pal­mente com o aumento de acesso aos canais pagos. Mas se viven­ci­a­mos uma fase impro­du­tiva da tele­no­vela, talvez tenha che­gado a hora de virar a página mais uma vez. A estreia de Cordel Encan­tado ontem me sur­preen­deu e parece sina­li­zar essa mudança. Uma his­tó­ria como há muito tempo não se via na tele­vi­são. Base­ada na lite­ra­tura de cordel e com uma trama bem cos­tu­rada já no pri­meiro capí­tulo, reis e can­ga­cei­ros se cruzam e pro­me­tem no mínimo pren­der os teles­pec­ta­do­res por mais alguns capí­tu­los. Só espero que seus per­so­na­gens não se percam no decor­rer da trama e que sua che­gada abra nova­mente os cami­nhos para uma safra de pro­du­ções ori­gi­nais e ins­ti­gan­tes, que ainda é pos­sí­vel viven­ciar na tele­dra­ma­tur­gia de hoje.

Os controladores de foco

Nenhum fato é tão pre­sente na his­tó­ria da huma­ni­dade quanto a obses­são do homem pelo poder. Por trás das guer­ras, aten­ta­dos, con­fli­tos étni­cos e reli­gi­o­sos, está sempre a neces­si­dade de domí­nio, de gran­deza, de sub­me­ter o outro aos seus pró­prios inte­res­ses. O poder fas­cina, seduz, alu­cina e mata. O ver­da­deiro res­pon­sá­vel pelas quase 3 mil víti­mas dos ata­ques do 11 de setem­bro nos Esta­dos Unidos não foi Osama Bin Laden, a Al-Qaeda, ou os ter­ro­ris­tas sui­ci­das, mas a busca desen­fre­ada pelo poder. Uma suces­siva cadeia de acon­te­ci­men­tos ao longo do tempo que leva o homem a pro­vo­car e a testar sua pró­pria força. Nós cons­tru­í­mos a his­tó­ria a cada dia e somos res­pon­sá­veis por toda reação oriunda de uma ação ante­rior, como previa o prin­cí­pio da ter­ceira lei de Newton. Desse modo, encon­trar um cul­pado exato por todas as catás­tro­fes do mundo é como lançar toda a culpa da cru­ci­fi­ca­ção de Cristo em Pila­tos. Há sempre algo mais, um cami­nho nem sempre reve­lado onde se esconde a ver­dade e a origem dos fatos.

Ontem a aten­ção do mundo esteve vol­tada para o vazio dei­xado no local onde antes rei­nava o orgu­lho e a ambi­ção de um país. Naque­les imen­sos qua­dra­dos, a água escorre exa­ta­mente igual às torres quando vieram abaixo. As cra­te­ras no chão pare­cem ter sugado os pré­dios, cau­sando a estra­nha impres­são de que ainda estão vivos sob o solo. É uma visão enter­ne­ce­dora. Deta­lhes bobos pare­cem iro­ni­zar a tra­gé­dia. A data 11 em si já forma duas torres. A his­tó­ria brinca com o homem e com o seu poder, afinal, tudo tem seu preço. Mas há preço que pague a perda de uma vida? “Aqui se fez, aqui se paga”, não é assim? Longe aqui querer julgar as víti­mas mere­ce­do­ras do seu des­tino. Nin­guém merece sofrer as con­se­quên­cias dos atos alheios. Con­tudo, uma vez repre­sen­tado como parte de um todo, toda ação de um, reper­cute uma reação em escala. E não muito atrás, numa data não tão lem­brada quanto o 11 de setem­bro, mas com resul­ta­dos em pro­por­ções bem mai­o­res, os Esta­dos Unidos lan­ça­ram sem nenhum remorso uma bomba atô­mica sobre  milha­res de ino­cen­tes na cidade de Hiroshima no Japão, e não satis­fei­tos, repe­ti­ram o ato em Naga­saki três dias depois.

Mais do que culpa, res­pon­sa­bi­li­dade ou jogue­tes de toma lá, dá cá, é de vidas huma­nas que se dis­cute. De huma­ni­dade por parte de quem se torna insen­sí­vel ao sofri­mento alheio de posse do poder. As ceri­mô­nias e home­na­gens aos 10 anos dos aten­ta­dos aos Esta­dos Unidos e às 2.996 vidas per­di­das devem ser cele­bra­das sim, em res­peito às víti­mas. No entanto, não se pode trans­for­mar esse ato em um espe­tá­culo gra­tuito, que só enal­tece a hege­mo­nia ame­ri­cana e os torna víti­mas do con­si­de­rado maior ataque ter­ro­rista da his­tó­ria, esque­cendo que só em Hiroshima mais de 140 mil pes­soas mor­re­ram, sem con­ta­bi­li­zar os que foram viti­ma­dos no decor­rer dos anos devido a expo­si­ção à radi­a­ção. Os alvos à época, não foram esco­lhi­dos ale­a­to­ri­a­mente, par­ti­ram de inte­res­ses mili­ta­res e sobre­tudo polí­tico-eco­nô­mico, já que as cida­des atin­gi­das eram as mais desen­vol­vi­das indus­tri­al­mente no Japão, e com o fim da Segunda Guerra, o país seria a única potên­cia capaz de dese­qui­li­brar os inte­res­ses ame­ri­ca­nos. A con­quista do poder.

É impor­tante des­ta­car também todos os con­fli­tos que asso­lam o Ori­ente Médio há sécu­los, antes, e depois com a inter­fe­rên­cia da polí­tica inter­na­ci­o­nal ame­ri­cana. Incon­tá­veis vidas des­tru­í­das em nome de uma força maior. Toda­via, seria equi­vo­cado afir­mar que a lide­rança do poder é neces­sa­ri­a­mente algo tão malé­fico assim. É um comando que existe para diver­sas fina­li­da­des. Uti­li­zada para fins pací­fi­cos e de equi­lí­brio sócio­e­co­nô­mico-ambi­en­tal, os resul­ta­dos podem ser favo­rá­veis e bené­fi­cos para o pro­gresso da huma­ni­dade. No entanto, enquanto o homem buscar no poder a eterna satis­fa­ção do seu bem-estar, anu­lando qual­quer pos­si­bi­li­dade filan­tró­pica, a ten­dên­cia é a con­ti­nui­dade de aten­ta­dos pelo mundo, espa­lhando o medo e o pânico na popu­la­ção, arra­sando nações e des­tru­indo mais vidas ino­cen­tes. O poder é a maior arma que a huma­ni­dade possui. É ele quem deter­mina a rele­vân­cia de um fato e o alcance de seu impacto no mundo. Talvez por isso, apesar do número mais redu­zido de víti­mas do 11 de setem­bro, ele será sempre mais lem­brado do que todos os con­fli­tos no Ori­ente Médio e até mais que os cogu­me­los atô­mi­cos que devas­ta­ram as cida­des japo­ne­sas. Quem detém o poder, detém também o des­ta­que e a aten­ção do mundo à sua dor.

A noite volta a ter lua cheia

Quando Mulhe­res de Areia foi ao ar pela pri­meira vez, eu era um garoto de 7 anos que acom­pa­nhava tele­no­ve­las. Com tão pouca idade já sabia sepa­rar o trigo do joio das pro­du­ções, e logo me apai­xo­nei pela trama. Dezoito anos depois, é impres­si­o­nante como o pri­meiro capí­tulo da novela ainda mantém o mesmo encanto de antes. O que é bom, o será sempre. É uma dupla satis­fa­ção poder rever a novela, e per­ce­ber que o Vale a Pena Ver de Novo está reto­mando seus bons tempos e entrando no eixo. Depois de algu­mas repri­ses des­pro­po­si­ta­das, o pro­grama enga­tou com a ree­xi­bi­ção de O Clone, man­tendo-a por oito meses no ar e regis­trando um total de 175 capí­tu­los, número recorde para o horá­rio. Talvez a expe­riên­cia posi­tiva das repri­ses na ínte­gra dos gran­des clás­si­cos da tele­dra­ma­tur­gia pelo Canal Viva, tenha incen­ti­vado a Globo a exibir nove­las mais anti­gas, e a dimi­nuir o número de cortes das tramas, o que parece muito apro­pri­ado, prin­ci­pal­mente quando a exi­bi­ção vem alcan­çando bons resul­ta­dos de audiên­cia.

Um dos fato­res mais curi­o­sos quando se repete uma novela muito antiga, além da pouca lem­brança que man­te­mos dos acon­te­ci­men­tos da his­tó­ria, é poder rever os atores 10 ou 15 anos mais jovens. Glória Pires pare­cendo irmã de Cléo Pires, Gui­lherme Fontes com rosto de menino, Hum­berto Mar­tins na versão Cauã Rey­mond de 93, Andréa Bel­trão no auge da juven­tude, Susana Vieira quando ainda se por­tava como uma atriz dis­tinta e até Daniel Dantas com pinta de galã. O tempo é real­mente cruel nesse aspecto. Só per­ce­be­mos o nosso estado atual quando olha­mos para trás e nos vemos tão vigo­ro­sos e esbel­tos quanto os ado­les­cen­tes na saída da escola. Mas esse é o poder mágico da tele­no­vela. Uma vez regis­trado com 20 anos naquele per­so­na­gem, para sempre jovem.

Mulhe­res de Areia fez parte da boa safra de pro­du­ções da nossa tele­dra­ma­tur­gia. Época em que era pra­ze­roso ligar a tevê e se deixar con­du­zir por uma boa e bem amar­rada his­tó­ria, capaz de nos arran­car da cozi­nha ou do banheiro ao som da vinheta do comer­cial. Isso tem feito muita falta. Uma novela que con­vença não pela para­fer­ná­lia e super­pro­du­ção envol­vida, mas pelo con­te­údo sim­ples de sua trama. A sim­pli­ci­dade é sempre mais difí­cil de alcan­çar, mas quando se chega nela, o rea­lismo é ine­vi­tá­vel. E se uma mulher era capaz de tal proeza, seu nome era Ivani Ribeiro. Autora que desen­vol­veu um tra­ba­lho esme­rado na cons­tru­ção da rea­li­dade retra­tada em suas obras e no trato que dava a seus per­so­na­gens, sempre vivos, ativos, frá­geis, huma­nos. E penso que daí nasce grande parte do sucesso de seus tra­ba­lhos.

Não modes­ta­mente, Ivani Ribeiro é a única autora que teve suas nove­las repri­sa­das pela Rede Globo mais de uma vez. A Gata Comeu, A Viagem e agora Mulhe­res de Areia somam três exi­bi­ções ao longo dos anos. Se esse regis­tro não é sufi­ci­ente para reve­lar a qua­li­dade de suas pro­du­ções, então a curi­o­si­dade que encon­trei sobre a novela na inter­net, reforça a tese. Dizem que quando exi­bida para a Rússia, a novela alcan­çou tanto sucesso, que o governo exibiu o capí­tulo final em um dia de elei­ção, evi­tando assim que alguém via­jasse na data e se abs­ti­vesse das vota­ções. Ver­dade ou mito, mais um ponto a favor de Ivani, Mulhe­res de Areia e da força da tele­dra­ma­tur­gia naci­o­nal.

O que fica de Amor à Vida

Desde que Amor à Vida estreou, e prin­ci­pal­mente ao longo de seus meses, eu me ques­ti­o­nava por que a dire­ção da Globo resol­vera alte­rar o título ori­gi­nal da novela. Afinal, Em Nome do Pai se encai­xava per­fei­ta­mente bem nas atro­ci­da­des de Félix e nos seus atri­tos com César. Mas aí o capí­tulo final de ontem calou todas as minhas inda­ga­ções. Eu já assisti a diver­sos finais de nove­las, mas não me recordo de nenhum que tenha me emo­ci­o­nado tanto. Walcyr voou alto na sua estreia no horá­rio nobre da Globo, desde as diver­sas revi­ra­vol­tas de seus per­so­na­gens ao longo dos 221 capí­tu­los de sua trama, até selar o pri­meiro beijo gay das tele­no­ve­las glo­bais.

Sem dúvida alguma, o grande pro­ta­go­nista de Amor à Vida foi Félix. De vilão a moci­nho que­rido dos teles­pec­ta­do­res, a sua reden­ção foi uma das deci­sões mais bem acer­ta­das do autor. Já havia lido por aí que Walcyr tinha estra­gado Félix, des­fa­zendo um dos melho­res vilões da tevê atu­al­mente. Não vejo assim. Félix foi real­mente apre­sen­tado como o grande mons­tro da trama no pri­meiro capí­tulo, come­teu diver­sos crimes, foi cruel, insen­sí­vel e pre­ju­di­cou várias pes­soas, porém, ele foi à sar­jeta bem antes do espe­rado. Aliás, uma das mai­o­res carac­te­rís­ti­cas da novela foi jus­ta­mente essa: não pren­der trama. O reen­con­tro de Paloma com sua filha, que pode­ria ter sido o gancho de muitos auto­res para o capí­tulo final, Walcyr já des­ven­dou bem antes do capí­tulo 30. E bem antes também des­mas­ca­rou Félix para a irmã.

O muro de orgu­lho e pre­po­tên­cia foi aos poucos se que­brando e cedendo lugar à com­preen­são, à tole­rân­cia e à humil­dade nos braços aco­lhe­do­res de Márcia, a grande Tetê Para-choque e Para-lama, outra per­so­na­gem, que apesar de alguns exa­ge­ros, segu­rou a novela com honra. Mas os des­man­dos de Félix tinham uma origem: sua rela­ção mal resol­vida com o pai, que embora não jus­ti­fi­casse muito suas ati­tu­des, mos­trava o que a falta de amor e de com­preen­são é capaz de fazer. A rejei­ção de César, a vida inteira, pelo filho – devido a sua homos­se­xu­a­li­dade -, gerou ódio e trans­for­mou-se em ação, ação des­tru­tiva, Félix virou uma fruta podre, cujo toque espa­lhava veneno e des­trui­ção pelo cami­nho de todos.

Ah, mas aí entrou o amor, e só o amor e o perdão para mudar tudo. O amor de Márcia – sua babá per­dida -, o amor de Niko – o amigo con­quis­tado -, o perdão e o amor de Pilar e até de Paloma. Félix se sentiu aco­lhido para reco­me­çar, ter sua nova chance, e diante de tanta demons­tra­ção de afeto, per­ce­beu que era pos­sí­vel viver no bem. E nin­guém pre­cisa ser con­de­nado à cruz quando está dis­posto a se modi­fi­car e refa­zer seus atos pelo amor. Aos poucos, a figura do Félix de antes foi desa­pa­re­cendo e o vilão se trans­for­mou real­mente no pro­ta­go­nista da his­tó­ria, suplan­tando Paloma e Bruno, e ganhando até par român­tico com direito a tor­cida do público.

O capí­tulo final de Amor à Vida foi tão intenso que fica difí­cil des­cre­ver tudo. Algu­mas pas­sa­gens, toda­via, mere­cem des­ta­que. A reve­la­ção de Pilar sobre sua culpa na morte da mãe de Aline; a fuga de Edith com Wagner; o perdão de Pau­li­nha a Félix; a dança sen­sual de Márcia, ves­tida de cha­crete, para Atílio/Gentil; Amary­lis sendo des­mas­ca­rada por Niko; a visita de Pau­li­nha a Ninho na prisão e o remorso dele pelos seus atos; a notí­cia de Jona­than de que passou no ves­ti­bu­lar de arqui­te­tura e a come­mo­ra­ção de Félix; Val­di­rene quase parindo no casa­mento da mãe; o des­tino de Aline; e claro, o des­fe­cho de César, que se viu invá­lido, traído, humi­lhado, sem pers­pec­tiva de vida, e foi encon­trar, jus­ta­mente nos braços do filho rejei­tado, a ajuda e o aco­lhi­mento de que tanto neces­si­tava no momento. Tão ver­da­deiro, tão humano. E aí mais uma vez o amor agiu e levou todo mundo às lágri­mas. Numa foto­gra­fia des­lum­brante, Félix revela seu amor a César, que reco­nhece a dedi­ca­ção do filho e o aceita final­mente com um “eu também te amo”, que o ex-vilão tanto dese­jou escu­tar em toda sua vida. A vitó­ria do amor sobre o pre­con­ceito e a into­le­rân­cia. Com tudo isso, o tão polê­mico beijo entre Félix e Niko, numa cena de pura deli­ca­deza e cum­pli­ci­dade, depois daquele reco­nhe­cer que o chefe de cozi­nha mudou sua vida, foi apenas a cereja do bolo.

Já cri­ti­quei muito os enre­dos pas­telões de Walcyr Car­rasco, seus diá­lo­gos óbvios, seu humor escra­chado, mas hoje ele ganhou um grande ponto comigo. Em tempos em que se vê tanta desor­dem no mundo, tanta into­le­rân­cia, vio­lên­cia, injus­tiça e incom­preen­são, a lição de amor, já difun­dida lá atrás na canção dos Bea­tles, veio brotar onde menos se espe­rava. Walcyr provou que o título da novela faria jus à sua his­tó­ria, e Amor à Vida, apesar de ficção, foi um grande exem­plo para a huma­ni­dade de que o nosso pla­neta ainda tem chance, de que o amor ainda pode trans­for­mar esse mundo para melhor.

Ainda há espaço pra Maneco?

Uma nar­ra­tiva lenta, os cos­tu­mei­ros bar­ra­cos em famí­lia, o coti­di­ano quase cari­cato de tão puxado para o dia a dia... Não ima­gi­nei algum dia escre­ver isso, mas Em Famí­lia cansa. Parece que dessa vez Manoel Carlos errou a mão, ou sua fór­mula – assim como Glória Perez com Salve Jorge – já tenha se des­gas­tado. A impres­são que fica é que não há mais o que mos­trar, tudo já é conhe­cido, e nin­guém tem paciên­cia para acom­pa­nhar um pouco mais do mesmo.

Quem vinha seguindo o ritmo dos últi­mos auto­res, de João Ema­nuel Car­neiro a Walcyr Car­rasco, sentiu a dife­rença ainda no pri­meiro capí­tulo. Embora Glória e Walcyr não tenham man­tido o fre­nesi de Ave­nida Brasil, os pri­mei­ros capí­tu­los de Salve Jorge e Amor à Vida foram bem mais movi­men­ta­dos. A his­tó­ria de Em Famí­lia até parece envol­vente, mas a len­ti­dão de novela das seis com que vem sendo apre­sen­tada tem pre­ju­di­cado seu desem­pe­nho.

E ainda há mais três fato­res que têm con­tri­bu­ído para a novela andar para trás: o excesso de atores des­co­nhe­ci­dos do grande público entre os pro­ta­go­nis­tas e os prin­ci­pais coad­ju­van­tes das duas pri­mei­ras fases; a his­tó­ria cen­trada num grupo de ado­les­cen­tes, que faz lem­brar uma Malha­ção no horá­rio nobre; e a longa, exaus­tiva e monó­tona segunda fase da trama. Na ver­dade, se Maneco tivesse reu­nido toda a his­tó­ria dessas duas fases num pri­meiro capí­tulo bem enxuto, con­se­gui­ria mos­trar ainda umas duas ou três cenas da ter­ceira fase, deixar o público ansi­oso pelo que viria depois e garan­tir uma boa estreia.

Toda­via, o autor optou por esmiu­çar o máximo pos­sí­vel a ado­les­cên­cia de sua última Helena, e a res­posta do público, sedento por agi­li­dade, veio em sequên­cia: 33 pontos de audiên­cia no pri­meiro dia – o pior dos últi­mos tempos – 29.4 no segundo e 29.2 no ter­ceiro. A Globo já pro­vi­den­ciou as alte­ra­ções para não con­ti­nuar per­dendo seus pre­ci­o­sos pon­ti­nhos na pro­gra­ma­ção: a ree­di­ção dos capí­tu­los. A mudança para a fase com Júlia Lem­mertz, que já tinha sofrido uma ante­ci­pa­ção do roteiro ori­gi­nal do capí­tulo 12 para o 10, agora che­gará no capí­tulo 8. Tudo isso para ver se a fase atual da trama, com o elenco de peso da casa, con­se­gue pren­der os teles­pec­ta­do­res e garan­tir a lide­rança com tran­qui­li­dade.

E como uma falha nunca anda desa­com­pa­nhada, o tal “Momen­tos em Famí­lia” ao final de cada capí­tulo não deixa claro para o público se o que é pro­du­zido é ficção ou rea­li­dade. A prin­cí­pio parece tratar-se de fatos, até pela tra­di­ção do autor de acres­cen­tar um depoi­mento real a cada dia, nas nove­las ante­ri­o­res. Mas é pos­sí­vel per­ce­ber que há mani­pu­la­ção de ima­gens, cortes e inter­ven­ção de atores. A ideia ori­gi­nal de apro­xi­mar as his­tó­rias apre­sen­ta­das no folhe­tim com as de pes­soas nor­mais ficou emba­çada, e o que se vê mais parece uma novela dentro da outra. E para com­ple­tar o ciclo de estra­nhe­zas de Em Famí­lia, a dis­po­si­ção dos cré­di­tos do elenco na aber­tura não estava tão desa­jus­tada desde que O Clone, em 2001, inovou a maneira como eles apa­re­cem.

Mas Em Famí­lia está só no come­ci­nho, pode fazer muito ainda para ganhar a fide­li­dade do público. Talvez quando a his­tó­ria come­çar a se desen­vol­ver no Rio de Janeiro, no eli­ti­zado Leblon, as coisas tomem um rumo. Ou a mesma fór­mula batida de Maneco prove que a ino­va­ção é essen­cial, até mesmo para quem tem um estilo único. Parece que sozi­nho, o bom texto tra­ba­lhado em Por Amor, Laços de Famí­lia, Mulhe­res Apai­xo­na­das, Pági­nas da Vida e Viver a Vida não con­se­gue mais o mesmo sucesso. E esse nem foi o pro­blema da última – dura­mente cri­ti­cada -, mas a falta de uma boa trama para a Helena de Taís Araújo, e até mesmo a inter­fe­rên­cia do Minis­té­rio Público do Tra­ba­lho na vila­nia da per­so­na­gem de Klara Cas­ta­nho, como se ela, “uma velha dis­far­çada de cri­ança”, não con­se­guisse dis­tin­guir rea­li­dade de ficção.

Enfim, talvez em nome das gran­des obras que já saíram de suas mãos, seja de bom tom ter um pouco mais de paciên­cia com Manoel Carlos e aguar­dar o desen­ro­lar dos pró­xi­mos capí­tu­los. Afinal, com cli­chês ou não, Em Famí­lia é sua des­pe­dida, e tem muito autor por aí que deve­ria estar de des­pe­dindo também das tele­no­ve­las, mas infe­liz­mente ainda esta­rão no ar por um bom tempo.

Pra reinar de novo

E O Rei do Gado está de volta. Em sua segunda exi­bi­ção no Vale a Pena Ver de Novo e quarta trans­mis­são no país, con­tando a ori­gi­nal em 1996 e a do Canal Viva em 2011. Como come­mo­ra­ção aos 50 anos da Rede Globo, eu não vejo melhor opção a ser eleita para tal oca­sião. Um dos mai­o­res êxitos da nossa tele­dra­ma­tur­gia, recor­dista de audiên­cia à época, O Rei do Gado con­ti­nua a ser sinô­nimo de sucesso. Ela repre­senta uma era ouro das nossas pro­du­ções dra­ma­túr­gi­cas, não se encon­trando lá nos pri­mór­dios da emis­sora, nas sau­do­sas obras da era Janete Clair, nem nas atuais fases de vacas magras das recen­tes pro­du­ções. Ela marca uma fase de grande ama­du­re­ci­mento das nossas tele­no­ve­las, com textos mais densos, his­tó­rias envol­ven­tes e sur­preen­den­tes, quando auto­res ousa­vam e abu­sa­vam da cri­a­ti­vi­dade.

Dos tra­ba­lhos de Bene­dito Ruy Bar­bosa – dos quais tenho conhe­ci­mento -, con­si­dero a saga das famí­lias Ber­di­nazi e Mezenga a obra-prima da sua car­reira. Apai­xo­nado pelo uni­verso rural e cons­tru­tor de per­so­na­gens fortes, de per­so­na­li­dade mar­cante, Bene­dito con­se­guiu atra­vés da rixa das duas famí­lias e do romance proi­bido de Gio­vana e Hen­rico – que atra­ves­sou gera­ção e renas­ceu em Bruno e Luana -, fas­ci­nar o país e falar da terra, a grande pro­ta­go­nista de toda a novela. Foi pela dis­puta por um pedaço de chão entre as terras de Antô­nio Mezenga e Giu­seppe Ber­di­nazi que surgiu todo o ódio entre as duas famí­lias. Foi a terra que pro­du­ziu os quatro milhões de pés de café e enri­cou o velho Gere­mias. A mesma terra que Bruno Mezenga pre­ci­sava de pas­ta­gem para seu gado, e que Regino tanto sonhava divi­dida entre seu povo do Movi­mento dos Sem Terra, sem nenhum pedaço de chão.

Ao abor­dar a luta do MST de maneira pací­fica, huma­ni­zada, Bene­dito con­se­guiu fazer o país enxer­gar a ques­tão com uma maior iden­ti­fi­ca­ção. Jogou escan­ca­ra­da­mente na cara do povo a cruel desi­gual­dade social em que o país se encon­trava, e que hoje, 18 anos depois, ainda não está muito dis­tante da nossa rea­li­dade. A figura de um sena­dor ínte­gro e incor­rup­tí­vel, que abra­çou a causa da reforma agrá­ria como sua, mais pare­cia uma piada, embora sim­bo­li­zasse a espe­rança em polí­ti­cos que ainda se impor­tam com o futuro da nação e o querem ver limpo de toda essa ban­di­da­gem ‘legal’.

Per­so­na­gens bem cons­tru­í­dos e bem inter­pre­ta­dos, em his­tó­rias crí­veis, tocan­tes e bem desen­vol­vi­das, trans­for­ma­ram O Rei do Gado nesse grande clás­sico da nossa tele­dra­ma­tur­gia desde a pri­meira tomada, quando fomos abri­lhan­ta­dos com os sete capí­tu­los ini­ci­ais impe­cá­veis de sua pri­meira fase, na década de 40. Um primor de qua­li­dade e super­pro­du­ção, que chegou a durar dois meses para ficar pronta, tama­nho era o capri­cho da equipe envol­vida. Cenas memo­rá­veis acom­pa­nha­ram toda a trama e fize­ram o teles­pec­ta­dor entrar real­mente na emoção que era pro­posta. Sim­bo­lo­gias, metá­fo­ras e muita poesia emba­la­ram os capí­tu­los com câme­ras que aden­tra­vam os ambi­en­tes e as sen­sa­ções dos per­so­na­gens, como um amigo con­fi­dente que sorri e sofre junto.

Impos­sí­vel não des­ta­car a inter­pre­ta­ção de Tar­cí­sio Meira na figura do infle­xí­vel Ber­di­nazi. Sua cena no cafe­zal plan­tando a meda­lha do filho morto na guerra, na espe­rança de vê-lo renas­cer é de uma ver­dade cênica e poesia incom­pa­rá­veis na tele­dra­ma­tur­gia naci­o­nal. Raul Cortez também soube con­du­zir pre­ci­sa­mente seu velho ran­co­roso e soli­tá­rio Gere­mias, cor­ro­ído pelo remorso dos erros do seu pas­sado. A dúbia Rafa­ela, de Glória Pires, che­gava a des­per­tar dife­ren­tes rea­ções nos teles­pec­ta­do­res, que ora a sen­tiam como vilã, ora se api­e­da­vam dela, nada mais humano. Letí­cia Spil­ler, que aca­bara de sair de sua espe­vi­tada Babalu, de Quatro por Quatro, não poupou encanto e talento na sua doce e deter­mi­nada Gio­vana. Encanto que pude­mos ver res­sur­gir logo na pri­meira cena de Patrí­cia Pillar como a bronca Luana. Por trás do jeito xucro e arre­dio da cor­ta­dora de cana, podí­a­mos per­ce­ber os traços deli­ca­dos da Ber­di­nazi de Letí­cia.

São muitos os des­ta­ques da his­tó­ria, mas não pode­ria deixar de men­ci­o­nar também a riqueza de Zé do Ara­guaia e Donana, de Stenio Garcia e Bete Mendes. Juntos, eles repre­sen­ta­ram fiel­mente o uni­verso rural da segunda fase fun­dindo-se quase em um per­so­na­gem só. E claro, Antô­nio Fagun­des, que con­se­guiu dar vida a dois per­so­na­gens com­ple­ta­mente dife­ren­tes e cheios de nuan­ces e sen­si­bi­li­dade. O maior mérito de Bene­dito em O Rei do Gado talvez esteja na valo­ri­za­ção de per­so­na­gens inco­muns nas tele­no­ve­las, mas cor­ri­quei­ros no dia a dia. É pos­sí­vel enxer­gar-se em O Rei do Gado ou enxer­gar um amigo, um vizi­nho... E ainda não falei de sua trilha sonora, a mais ven­dida de todos os tempos, reche­ada do ser­ta­nejo da época e de péro­las como Admi­rá­vel Gado Novo, de Zé Rama­lho, e Cor­ren­teza, de Tom Jobim, na voz de Djavan. Em tempos de escas­sez de boas his­tó­rias para acom­pa­nhar, a re-reprise de O Rei do Gado talvez seja uma boa opor­tu­ni­dade para relem­brar­mos que já tive­mos e temos capa­ci­dade para pro­du­zir gran­des e memo­rá­veis obras na nossa tele­dra­ma­tur­gia. Fina­lizo com a frase do capí­tulo final que resume bem todo o fio da trama:

“Deus quando fez o mundo, não deu terra pra nin­guém, porque todos os que aqui nascem são seus filhos. Mas só merece a terra aquele que a faz pro­du­zir, para si e para os seus seme­lhan­tes. O melhor adubo da terra é o suor daque­les que tra­ba­lham nela”.

O Golpe se prepara para o Grand Finale

É, meus amigos, tempos difí­ceis se apro­xi­mam. A nuvem som­bria que ronda Bra­sí­lia começa a se espa­lhar para cobrir o país. As forças sinis­tras que se uniram no enorme pacto naci­o­nal com o único obje­tivo de subir ao poder a todo custo, após as elei­ções de 2014, come­çam a con­cre­ti­zar de fato seus pro­pó­si­tos.

Der­ro­ta­dos, incon­for­ma­dos, revol­ta­dos, acu­a­dos e sem vis­lum­bre de alcan­çar tão cedo seus inte­res­ses, o PSDB e ali­a­dos soma­ram forças com a elite (da qual fazem parte), com a grande mídia, com empre­sá­rios bra­si­lei­ros e inves­ti­do­res estran­gei­ros, apro­vei­ta­ram-se da par­cela da popu­la­ção insa­tis­feita com a cor­rup­ção e com o PT (ampla­mente mas­sa­crado como vilão de toda his­tó­ria), e arti­cu­la­ram, jun­ta­mente com os con­gres­sis­tas sujos de escân­da­los de cor­rup­ção, e o pró­prio judi­ciá­rio (para simu­lar lega­li­dade em toda ação), o Grande Golpe contra a demo­cra­cia e o povo bra­si­leiro.

Depois de reti­rar Dilma da pre­si­dên­cia, atra­vés de um argu­mento total­mente infun­dado, e de simu­lar um governo legí­timo com o infiel Temer, agora a orques­trada prisão de Edu­ardo Cunha pre­para os pró­xi­mos passos do plano ini­cial. A tão afa­mada dela­ção de Cunha não irá pre­ju­di­car nenhum tucano (ampa­ra­dos por Sérgio Moro), mas ser­virá de jus­ti­fi­ca­tiva para a reti­rada de Temer do poder – nova­mente ence­nando “a luta contra a cor­rup­ção” -, e para a prisão de Lula, o maior empe­ci­lho e receio dos tuca­nos para as pró­xi­mas elei­ções.

Com Lula preso e Temer afas­tado antes das elei­ções, acon­tece a tal elei­ção indi­reta, a “menina dos olhos do Con­gresso”, e puf, o PSDB sobe ao palan­que, quem sabe o pró­prio Aécio. Golpe rea­li­zado com sucesso. Os der­ro­ta­dos de 2014 chegam ao poder a todo custo, como pla­ne­ja­ram, e dão segui­mento ao des­monte do Estado, já ini­ci­ado por Temer. Pri­va­ti­za­ções, estado menor, menos saúde, menos edu­ca­ção, mais lucros a ban­quei­ros e gran­des empre­sá­rios, retro­cesso de leis tra­ba­lhis­tas não visto há um século, mais pobres, menos ricos, mais misé­ria, cor­rup­ção, mais abismo social.

Tudo isso tem que ser enca­mi­nhado e posto em prá­tica até 2018, para o caso hipo­té­tico de Lula con­se­guir se can­di­da­tar e se ree­le­ger (apesar de todos os esfor­ços con­trá­rios), e o PSDB não con­se­guir se manter no governo. Esse é na ver­dade o grande desa­fio dos arti­cu­la­do­res do golpe. Eles sabem que a única chance de saírem vito­ri­o­sos nas pró­xi­mas elei­ções é impe­dindo a can­di­da­tura de Lula. Por isso a per­se­gui­ção a ele e ao PT é uma das metas prin­ci­pais do golpe. Afinal, eles não querem apenas os pró­xi­mos dois anos, querem a per­pe­tu­a­ção no poder, a eter­ni­dade de des­man­dos e inte­res­ses sele­ti­vos.

E nós, o que faze­mos? Assis­ti­mos a tudo de cama­rote, aplau­dindo e cele­brando as miga­lhas de con­quis­tas ceni­ca­mente arqui­te­ta­das para dis­trair e dar segui­mento às ações camu­fla­da­mente gol­pis­tas? Engo­lindo a seco as medi­das des­ca­bi­das de uma pla­ta­forma de governo rejei­tada nas urnas, de um poder que não dia­loga com o povo, que não escuta quem ele repre­senta, que não tem a menor inten­ção de redu­zir a cor­rup­ção, e sim ins­ti­tu­ci­o­na­lizá-la? É pre­ciso ir à luta! Resis­tir! Reforma polí­tica já! Essa é a prin­ci­pal mudança de que o país neces­sita. É pre­ciso brigar pelos direi­tos de todos, pela nossa demo­cra­cia, por uma pátria mais justa e huma­ni­tá­ria. É hora de agar­rar – nem que seja com os dentes -, a chance de um futuro mais digno para todos.

Tema Natal 06 textos

E As Luzes Se Acendem...

E os sinos já soam, as luzes já anun­ciam, o cheiro já está no ar! As músi­cas, can­ções de corais, trenós e árvo­res nata­li­nas. É ele! O Natal se apro­xima!! E com ele todas as nossas forças e ener­gias. Momen­tos de ava­li­a­ção do ano que se acaba, agra­de­ci­mento pela par­ti­lha de mais um ano e muitos pre­sen­tes e pane­to­nes. Famí­lia reu­nida, paz, har­mo­nia e ale­gria. Sempre cheio de amor e magia, ele soa sua che­gada. Vamos buscar a paz e a feli­ci­dade. Acre­di­tar que tudo é pos­sí­vel, que somos capa­zes de supe­rar as difi­cul­da­des e vencer. Natal é isso! É supe­ra­ção, sonhos, dese­jos, con­quis­tas. Natal sim­bo­liza famí­lia, e famí­lia sim­bo­liza união, e união sim­bo­liza ale­gria. Vamos revi­ver todos os momen­tos bons e torcer pela rea­li­za­ção de muitos outros ainda. Viva a paz, viva a vida! É Natal!!! Jingle Bells!! Jingle Bells!! Ho!! Ho!! Ho!!

O Encanto Está de Volta

Mais um natal se apro­xima. As ruas já come­çam a se ilu­mi­nar, as lojas ofe­re­cem as mais vari­a­das árvo­res de natal, pre­sé­pios, os mais sabo­ro­sos pane­to­nes, Papais Noéis enfei­tam as ave­ni­das. Parece que existe algum encanto nessa época do ano. Fala-se mais em amor, paz, ale­gria, união. Sonhos são cons­tru­í­dos, preces são for­te­mente dese­ja­das, as famí­lias se voltam mais para si, há mais brilho em cada olhar, mais vida em cada gesto.

Seria muito mágico viver todos os dias do ano assim. Mas basta passar o dia de reis que todo o encanto eva­pora. As luzes desa­pa­re­cem, fala-se menos em amor, paz e união e as famí­lias voltam cada uma para a sua vida de negó­cios. Nada mais fica senão a cer­teza que toda a magia estará de volta no fim do ano.

2008! Meu último ano na uni­ver­si­dade. Meu pri­meiro ano dedi­cado ao teatro. Meu pri­meiro con­tato com um palco. Amigos imor­tais encon­tra­dos na cami­nhada. Sonhos! Dese­jos! Frus­tra­ções! Vitó­rias! Tro­pe­ços! Um novo leque se abre e as pos­si­bi­li­da­des futu­ras se mos­tram firmes e incer­tas. Um ano espe­cial, com cer­teza! Talvez o mais inol­vi­dá­vel desde 2004.

E que os frutos deste per­du­rem com muita feli­ci­dade, saúde, paz, união e muitos sonhos se tor­nando rea­li­dade no ano que se apro­xima. Natal, que seu encanto e sua magia irra­diem todos e nos faça seres melho­res a cada dia, a cada ano, sempre!!!

Um olhar pra dentro

Dezem­bro chegou e com ele as luzes, o colo­rido, as árvo­res, os pane­to­nes. Natal é sempre um tempo de paz, de amor, de muito brilho e ale­gria. Não importa o que você fez durante o ano, se redima no natal e terá a chance de cor­ri­gir os erros no pró­ximo. De longe, é a minha época mais espe­rada do ano. Gosto de sentir a ener­gia que só o mês de dezem­bro con­se­gue trans­mi­tir. É o momento de se ava­liar, de fechar uma etapa e se pre­pa­rar para outra. Amigos se reúnem, trocam pre­sen­tes, a famí­lia fica mais pró­xima. Tudo tem um sabor ainda mais espe­cial. Parece que os mila­gres ficam mais sus­ce­tí­veis a acon­te­cer.

Em 2010, eu me per­miti voltar a viver. Pro­duzi um víde­o­do­cu­men­tá­rio com Ana Célia e Kárem e con­cluí meu curso supe­rior defi­ni­ti­va­mente. Entrei na mon­ta­gem de um novo espe­tá­culo tea­tral. A Cia. Atores da Maria voltou a tra­ba­lhar e me per­mi­tiu conhe­cer um outro campo diri­gindo ao lado de Júlio. Conheci Sumé e a obra de um grande artista cha­mado Miguel Gui­lherme. Ganhei 11 novos quilos e perdi 8 pelo cami­nho. Per­corri diver­sas casas e conheci inú­me­ras famí­lias no desa­fio de um recen­se­a­dor. Passei a inte­grar um núcleo de pes­quisa em teatro. Ganhei prêmio de melhor ator e melhor esquete com Nayara e Suel­len. Rompi um namoro de 8 anos. Vi uma amiga ir pra longe. Conheci pes­soas novas. Me livrei dos anti­de­pres­si­vos. E entrei na finas­te­rida. Voltei a escre­ver rotei­ros. Tirei DRT de ator. Des­co­bri uma eso­fa­gite. Dei um passo adi­ante na reli­gião que pre­tendo seguir.

Pode não ter sido um grande ano, mas obtive algu­mas con­quis­tas, passei por outras expe­riên­cias, e sempre saímos de tudo um pouco mais cons­ci­ente de nós mesmos. Penso que nesse ano eu me voltei a mim. Tentei ser sin­cero aos meus valo­res e àquilo que real­mente acre­dito. Talvez seja um reco­meço, depois de tanto me achar e me perder em obje­ti­vos e sonhos con­fu­sos. Talvez me escu­tar de ver­dade seja o ver­da­deiro cami­nho da feli­ci­dade, inde­pen­dente de quem vá se bene­fi­ciar ou não dele. Eu só pre­ciso con­fiar no que sinto e defi­ni­ti­va­mente não ter medo de ser feliz. Quem sabe essa des­co­berta já não é o mila­gre que o natal ante­ci­pa­da­mente operou em mim?

Precipitações de uma manhã

O sol cede lugar às nuvens. Elas se aglo­me­ram, escu­re­cem o céu e se pre­ci­pi­tam em forma de chuva. As águas caem lavando o solo, a vida, e revi­go­rando o espaço, o ser... Acor­dei, abri a janela e me depa­rei com o céu nublado, o chão molhado e gotas ainda caindo no para­peito da janela. Um cheiro de reno­va­ção no ar, de espe­rança, de mudança, de vida. Chuva nem sempre é tão bem-vinda. Quando pre­ci­sa­mos levan­tar cedo, ir a praia, fazer um chur­rasco no domingo, recen­sear de casa em casa... ela é um empe­ci­lho. Mas há dias em que as gotas d’água pro­vo­cam sen­sa­ções de puro bem-estar, e olhá-la pela janela, res­pirá-la, enche os nossos pulmões do ar da vida. Penso que essa chuva fini­nha que cai aqui fora seja uma pre­ci­pi­ta­ção do natal que se apro­xima. Afinal ela e o natal soam a mim seme­lhante nessa manhã.

Chuva me lembra infân­cia, tomando banho na rua com os amigos, e me lembra inte­rior, meus avós, a roça de vovô, me lembra ale­gria, acon­chego, ins­pi­ra­ção para rotei­ros. Durante sua queda algu­mas situ­a­ções param, pes­soas se pro­te­gem nas entra­das de lojas, nos pontos de ônibus, pedrei­ros largam seu tra­ba­lho, a vida cessa por alguns ins­tan­tes, e apre­ci­a­mos a água lim­pando as ruas, as cons­tru­ções. Quando ela passa, as poças no chão, as gotas que caem das árvo­res, as nuvens se dis­si­pando, é um pre­lú­dio de que alguma coisa foi mudada, revi­go­rada. É hora de sair das lojas e voltar a cami­nhar, os pedrei­ros podem reto­mar seu tra­ba­lho, a vida vai aos poucos se enca­mi­nhando à sua rotina. Mas o ar, o per­fume da terra molhada há pouco, per­ma­nece, e curi­o­sa­mente nos dá mais gás do que os fortes raios de sol de outrora.

Natal no mundo

Noite de Natal. Muitos se reúnem para a grande ceia de natal, mesa farta, perus, damas­cos e len­ti­lhas. Trocas de pre­sen­tes, bei­ji­nhos e amor para todos. É um retrato típico da época, e raro também no nosso país, e no mundo. E os que vão passar a noite de natal tra­ba­lhando, via­jando, sozi­nhos em casa, em leitos de hos­pi­tais ou nas ruas, sem peru, pre­sen­tes ou bei­ji­nhos? Minha amiga enfer­meira Luci­ene vai passar o Natal de plan­tão no hos­pi­tal. A famí­lia da lan­cho­nete aqui em frente de casa vai cear ser­vindo pas­téis e san­du­í­ches aos cli­en­tes, que também não esta­rão em casa numa mesa farta. E eu, bem, eu com­prei uma pizza e comi com minha mãe, e agora estou escre­vendo no Celeiro. Não foi um peru ou um pernil, não teve pre­sente, bei­ji­nhos, mas estou em casa com a minha famí­lia, meu cachorro, com a bar­riga cheia e ainda ouvindo can­ções nata­li­nas.

Acre­di­ta­mos que o Natal é um tempo de reco­lhi­mento, de doação, em que as pes­soas se tornam mais altru­ís­tas, soli­dá­rias, e acre­di­ta­mos tanto nisso que muitos criam um per­so­na­gem nesse perí­odo, espa­lhando amor e sor­ri­sos a quem passa. Toda­via, de nada adi­an­tará se não for de cora­ção. Famí­lia ine­vi­ta­vel­mente é lugar onde reina sen­ti­men­tos de inveja, res­sen­ti­mento, cobiça e muita pose. Reunir a famí­lia no Natal tem que ser um momento para tentar limpar essas man­chas, do con­trá­rio o espí­rito nata­lino fica só na super­fi­ci­a­li­dade dos cum­pri­men­tos e do mais caro pre­sente.

Nesta noite na qual as cida­des bri­lham mais, se fala mais de amor e perdão, desejo a todos aque­les que estão dis­tan­tes de suas famí­lias, que não com­par­ti­lham uma mesa com seus entes, aque­les inter­na­dos em hos­pi­tais, soli­tá­rios em celas super­lo­ta­das nos pre­sí­dios, vagando pelas ruas, tra­ba­lhando, desde fla­ne­li­nhas em busca de um tro­cado a médi­cos sal­vando vidas em clí­ni­cas e hos­pi­tais, a todos que per­de­ram a fé no natal, desejo a todos esses um Natal reche­ado de paz, amor e feli­ci­dade no cora­ção. Que os obs­tá­cu­los que os impe­di­ram de estar em casa com os amigos e a famí­lia, não os impe­çam de aco­lher em seu peito o ver­da­deiro sen­tido dessa data e encher seus cora­ções do mais puro afeto em busca da nossa maior razão da exis­tên­cia, o amor.

Registrando

E 2011 chega ao fim! Que­rendo ou não, 31 de dezem­bro nos faz medir os ganhos e as perdas. 2011 foi mais um ano de mudan­ças, mais um ano de con­fli­tos, de deci­sões, de novos pro­je­tos. Alguns momen­tos fica­rão na memó­ria. A viagem ao Rio no início do ano, com Suel­len e Cris, no con­gresso de Filo­so­fia. A par­tida de Cam­pina Grande. O reen­con­tro da turma do teatro e da facul­dade, agora já no fin­zi­nho do ano. Não tenho cer­teza de quando nos vere­mos de novo, e o reen­con­tro, as con­ver­sas, as risa­das, serão boas recor­da­ções para os dias difí­ceis.

Esse ano, dife­rente de todos os outros aqui no Celeiro, o mês de dezem­bro ficou escasso de pos­ta­gem. Não escrevi nada sobre o Natal e sua magia, não enfei­tei o Celeiro como de cos­tume. O máximo que me per­miti foi colo­car uma pequena foto de papai noel ao lado. Mas não me per­gun­tem por quê. Sim­ples­mente não senti o encanto da data dessa vez. E amanhã já será 2012. Ano novo me assusta. Nunca se sabe o que vem pelos pró­xi­mos 365 dias. Mas estou, no mínimo, con­victo do que pre­ciso fazer desses dias. Se sabe­rei con­duzi-los da melhor forma pos­sí­vel ou não, daqui a um ano con­ta­rei. Por enquanto, feliz 2012!

Tema Prêmios 06 textos

Prêmio Dardos

Com o Prêmio Dardos se reco­nhe­cem os valo­res que cada blo­gueiro emprega ao trans­mi­tir valo­res cul­tu­rais, éticos, lite­rá­rios, pes­so­ais, etc. que, em suma, demons­tram sua cri­a­ti­vi­dade atra­vés do pen­sa­mento vivo que está e per­ma­nece intacto entre suas letras, entre suas pala­vras.

Esses selos foram cri­a­dos com a inten­ção de pro­mo­ver a con­fra­ter­ni­za­ção entre os blo­guei­ros, uma forma de demons­trar cari­nho e reco­nhe­ci­mento por um tra­ba­lho que agre­gue valor à Web.

Quem recebe o “Prêmio Dardos” e o aceita deve seguir algu­mas regras:
1. exibir a dis­tinta imagem
2. linkar o blog pelo qual rece­beu o prêmio.
3. esco­lher quinze (15) outros blogs aos quais entre­gar o “Prêmio Dardos”.

Recebi o selo Prêmio Dardos de Maria Izabel Viégas dona do blog Via­jan­tes na Linha do Tempo.

Agra­deço imen­sa­mente a con­fi­ança que depo­si­tou no Celeiro e farei tudo para levar adi­ante essa res­pon­sa­bi­li­dade e con­tri­buir com o que me for pos­sí­vel para a difu­são desses valo­res cul­tu­rais, éticos, lite­rá­rios e pes­so­ais pela uni­verso vir­tual.

Minha lista de Blogs para o Prêmio Dardos:

http://icoenoticia.blogspot.com/

http://qualquercoisaviraassunto.blogspot.com/

http://gloriafperez.blogspot.com/

http://leonardaalmeida.blogspot.com/

http://suellhen.blogspot.com/

http://resenhascriticas.blogspot.com/

http://ac-ta.blogspot.com/

http://aovivofanzine.blogspot.com/

http://opedamenina.blogspot.com/

http://aspectosdocotidiano.blogspot.com/

Con­ti­nu­a­rei pro­cu­rando e des­co­brindo outros blogs e pos­ta­rei os links aqui depois.

Prêmio Lemniscata

Recebi este Prêmio da amável Maria Izabel Viégas de Via­jan­tes na Linha do Tempo a quem agra­deço de cora­ção. Obri­gado mais uma vez pela con­fi­ança no Celeiro. Fico sempre hon­rado com as suas indi­ca­ções. A res­pon­sa­bi­li­dade aumenta a cada dia.

O Prêmio Lem­nis­cata tem a inten­ção de pre­miar blogs que demons­tram talento nas artes, nas letras, na ciên­cia, enfim, em todas as áreas que enri­que­çam a Blo­gos­fera e a vida de seus lei­to­res. Porém, traz um desa­fio aos indi­ca­dos: defi­nir o que é esse “Homo Sapi­ens”.

As regras para quem recebe o Prêmio Lem­nis­cata:
1.Defi­nir o que é Homo Sapi­ens
2. Repas­sar o selo para sete blogs

Minha lista de Blogs:

Nesse Momento – Vanessa Torres

Ano­ta­ções :? de Leo­narda:) – Leo­narda Almeida

Brasil Liber­tá­rio – Sidnei San­tana

, digo velado, a boca no tra­ves­seiro, o hálito... – Nara Bel­monte

Na Dança das Pala­vras – Leonor Cor­deiro

Escri­tos Tortos – Julio César Rolim
Heath Ledger Brasil – Natá­lia Monedo e Cris­tal Gomes Paiva

O Retorno do Primata

Sau­dade desse espaço. Estou reto­mando um lugar que criei com o maior cari­nho há 3 anos e que sempre soube que por mais tempo que ficasse sem atu­a­lizá-lo, jamais o aban­do­na­ria por com­pleto. O Celeiro do Sam 2010 começa aqui. Depois de muito tempo, foram as pró­prias men­sa­gens que eu escrevi, muitas vezes para quem iria ler, junto com os comen­tá­rios reple­tos de cari­nho e incen­tivo dos lei­to­res que me fize­ram voltar a ocupar esse espaço. Passei por muitas mudan­ças. Não sei se estou no cami­nho certo agora, não sei nem se estou cami­nhando em alguma dire­ção, mas voltar a debu­lhar meus pen­sa­men­tos e minhas idéias aqui, já me parece um grande avanço.

Como acre­dito que reto­mada implica algu­mas mudan­ças, mexi um pouco no design do Celeiro. Resolvi criar um local que refle­tisse o meu estado de espí­rito atual, algo que tivesse a ver com as cores que enxergo o mundo no momento. Então, eu esco­lhi algo bem colo­rido, vibrante, com um fundo de nuvens e céu. E por que eu esco­lhi balões? Eu senti nos balões uma sen­sa­ção de liber­dade, de vento que nos leva embora para des­co­brir novos cami­nhos. E ao mesmo tempo me pare­ceu algo leve, que flutua, ou melhor, voa pelo espaço.

E já reco­meço com uma grande res­pon­sa­bi­li­dade, dando con­ti­nui­dade e legi­ti­mi­dade ao Prêmio Lem­nis­cata, que recebi da que­rida Maria Izabel Viégas no ano pas­sado. Uma das regras de quem recebe o prêmio é defi­nir o que é Homo Sapi­ens. Como fiquei devendo essa tarefa, recebo-a aqui como a minha pri­meira pos­ta­gem do ano. E como o Homo Sapi­ens somos nós, seres huma­nos moder­nos, e eu estou inclu­ído nessa cota, decidi falar um pouco do Homo Sapi­ens atra­vés de mim.

Pelas defi­ni­ções encon­tra­das em dici­o­ná­rios, enci­clo­pé­dias e deri­va­dos, o Homo Sapi­ens é um membro da espé­cie de pri­mata bípede, com o cére­bro alta­mente desen­vol­vido e inú­me­ras capa­ci­da­des como o raci­o­cí­nio abs­trato, a lin­gua­gem e a reso­lu­ção de pro­ble­mas. Con­tudo, acima de todas essas carac­te­rís­ti­cas que defi­nem o tipo de espé­cie, existe o ser que pensa, age, acerta, erra, cai, levanta, tro­peça, ri, chora. Existe o ser reche­ado de dúvi­das e incer­te­zas da vida.

Ainda ontem minha avó esfre­gava seu rosto em minha bar­riga após o banho, me pro­vo­cando inten­sas gar­ga­lha­das. Anos depois estava na escola, cho­rando quando minha mãe me aban­do­nava às cri­a­tu­ras “car­ras­cas” daquele lugar. E a escola se foi. As pai­xões sur­gi­ram. Os gostos musi­cais se reve­la­ram. As voca­ções ten­ta­ram desa­bro­char. De uma hora para a outra tinha um futuro pra deci­dir. E ele foi esco­lhido. E quais as chan­ces de ter errado na esco­lha? Infi­ni­tas.

Aos 25 anos me per­gunto. Devo inves­tir numa car­reira jor­na­lís­tica sem iden­ti­fi­ca­ção, resul­tando em um pés­simo pro­fis­si­o­nal? Lutar nos palcos do teatro, sem um digno retorno finan­ceiro? Tentar arqui­te­tura, não sabendo 2+2? Ser um fun­ci­o­ná­rio público? E a feli­ci­dade, onde fica nisso tudo?

Como uma espé­cie do Homo Sapi­ens com cére­bro muito desen­vol­vido e inten­sas capaci­da­des, como a reso­lu­ção de pro­ble­mas, não con­sigo defi­nir a minha vida atual. Acre­dito que muitos passam, ou tenham pas­sado por isso. Faz parte do pro­cesso de iden­ti­fi­ca­ção e inclu­são social dos mem­bros da espé­cie de pri­mata bípede. Pro­va­vel­mente opta­rei por algum desses cami­nhos, ou até um outro. Daqui a alguns anos, o bebê que sorria com cóce­gas na bar­riga, estará em mais um está­gio da escala evo­lu­tiva da espé­cie, tra­ba­lhando.


Pro­va­vel­mente não fiz uma dis­cri­ção do com­plexo meca­nismo de fun­ci­o­na­mento do Homo Sapi­ens, nem a uti­li­za­ção de suas habi­li­da­des, mas expus algu­mas das pecu­li­a­ri­da­des de uma das fases de vida da espé­cie. Acre­dito que uma das mais pri­mor­di­ais, que deter­mi­nará o futuro e o des­tino de todos os demais ciclos que ainda virão. Ter­mino com um pequeno pen­sa­mento que li outro dia em um site, diz mais ou menos assim: “As flores e os frutos pre­ci­sam de água para se desen­vol­ver, os ani­mais buscam o ali­mento e a satis­fa­ção das neces­si­da­des físi­cas e o homem quer ser feliz”.

Selo de qualidade

Mais um prêmio entre o uni­verso dos blo­guei­ros chega até mim. Agora é o Selo de Qua­li­dade, que recebo da colega Natá­lia, pro­pri­e­tá­ria do blog Com a Música no Rádio. Agra­deço a indi­ca­ção por mais esse incen­tivo da blo­gos­fera. E como regra de cada prêmio ganho, terei que repas­sar o selo para outros 10 blogs e, excep­ci­o­nal­mente neste caso, acres­cen­tar 10 deta­lhes ou fatos impor­tan­tes a meu res­peito. Então mãos à obra.

Samuel em dez linhas:

01. Sou bea­tle­ma­ní­aco
02. Tenho um caso de amor com a água
03. Não con­sigo res­pi­rar tran­quilo sem poder pôr no papel o que sinto
04. Já fui cover de Junior, da dupla Sandy e Junior
05. Atinjo o máximo do orgasmo quando ter­mino de escre­ver um roteiro
06. Cami­nho lado a lado com a ficção
07. Aprendi a gostar de Bossa Nova por influên­cia de Manoel Carlos
08. Sou hipo­con­drí­aco
09. Des­co­bri no espi­ri­tismo uma causa maior da exis­tên­cia
10. Me sinto o Super­man, embora às vezes não passe de Clark Kent

Des­crito um pouco desse ser que vos fala, segue agora a lista dos blogs que repasso o selo:

01. @jhme­dei­ros
02. , digo velado, a boca no tra­ves­seiro, o hálito...
03. .con­dus­são
04. Dis­pi­ro­cada
05. Escri­tos Tortos
06. Inver­tendo Valo­res
07. Lu Pinheiro
08. Meu Pré-Jor­na­lismo
09. Na Dança das Pala­vras
10. Papai Gay

Sunshine Award

Mais um selo que chega até mim por inter­mé­dio da blo­gos­fera. Dessa vez quem me indi­cou foi a amiga Luci­ene Pinheiro, pro­pri­e­tá­ria do blog Lu Pinheiro. Agra­deço a indi­ca­ção por mais esse reco­nhe­ci­mento desse espaço que já virou sinô­nimo do fan­tás­tico mundo de Samuel. O Celeiro é para mim muito mais que um blog onde escrevo para alguns poucos lei­to­res e recebo comen­tá­rios. Aqui eu me sinto livre do fardo que car­rego dia­ri­a­mente nas costas. Escre­ver um pouco daquilo que me per­se­gue cons­tan­te­mente me alivia a cami­nhada, des­cansa o solado e sos­sega a alma. Não tenho como não dizer que me renovo também a cada pos­ta­gem. Encon­tro a vál­vula que me mantém vivo e firme no pro­pó­sito da minha jor­nada ter­rena. O Selo Prêmio Sunshine Award deve passar adi­ante e por isso indico os blogs a seguir que mere­cem o devido reco­nhe­ci­mento.

01. Ao Vento
02. De Acordo Com
03. Dis­pi­ro­cada
04. Diva­gante
05. Idi­os­sin­cra­sia
06. Juliny Bar­reto
07. Pro­jeto Dr Dóidói
08. Salvem os Gatos
09. S.A.M.: Eterno Garoto
10. Sim­ples Assim
11. Sonhos Lite­rá­rios
12. Tiago Cari­oca

Temporada de selos

A blo­gos­fera está numa ver­da­deira chuva de selos. E olha que com a quan­ti­dade de blogs que exis­tem no momento, é sur­preen­dente que tama­nha demanda chegue cada dia mais em tantos blogs. Recebo dessa vez o selo Seu Blog é Música para os Meus Ouvi­dos. Quem me indi­cou foi nova­mente a que­rida Luci­ene Pinheiro, dona do Lu Pinheiro, uma prima, amiga e lei­tora assí­duo do Celeiro. Mais uma vez agra­deço sua pre­sença sempre cons­tante aqui nesse espaço revolto, e claro, o seu gesto ao esco­lhê-lo para mais essa pre­mi­a­ção, prin­ci­pal­mente por um prêmio que expressa em seu pró­prio nome o sig­ni­fi­cado e o valor ao recebê-lo. Fico muito satis­feito em saber que minhas inqui­e­ta­ções e deva­neios con­se­guem pene­trar ao menos um pou­qui­nho na psique de alguém.

E como o selo não pode parar, vou indicá-lo a outros celei­ros de valo­res cul­tu­rais, artís­ti­cos e que desem­pe­nham impor­tante papel na difu­são do conhe­ci­mento livre pela inter­net. Dessa vez vou tentar con­tem­plar alguns blogs que não foram sele­ci­o­na­dos em meu último selo, com exce­ção do blog de Nayara Bel­monte, que apesar de afir­mar não gostar de rece­ber nenhum selo, não posso deixar de incluí-lo nessa indi­ca­ção, e do Dis­pi­ro­cada de Suel­len Maria, que recla­mou comigo a falta de selo em seu espaço, e mesmo depois de ter lhe con­fe­rido duas pre­mi­a­ções, ainda não postou nenhuma em seu blog. Vamos lá, mais uma lem­bran­ci­nha para vocês. E juntem-se aos demais.

01. @jhme­dei­ros
02. , digo velado, a boca no tra­ves­seiro, o hálito...
03.  .con­du­ção
04. As Cartas de Chico Xavier
05. Dis­pi­ro­cada
06. Empower­ment 21
07. Escri­tos Tortos
08. Somos Espí­ri­tos
09. Tareb Edson

O último blog não há atu­a­li­za­ção há quase 5 anos, mas achei que deve­ria incluí-lo aqui, já que foi atra­vés das crô­ni­cas de seu blog que me ins­pi­rei a criar o Celeiro. Uma home­na­gem a Tareb nessa come­mo­ra­ção dos 100 posts do Celeiro do Sam.

Tema Miscelânea 04 textos

“Compromisso é uma palavra que resume”

Filho de peixe, pei­xi­nho é. É assim que sempre se define a rela­ção de seme­lhança entre pais e filhos, prin­ci­pal­mente no tocante à car­reira pro­fis­si­o­nal. Mas um ousado empre­sá­rio de Cam­pina Grande resol­veu que­brar esse famoso dito popu­lar. Juan Pinheiro, de 30 anos, filho de advo­gado, enve­re­dou-se pelo ramo da tec­no­lo­gia ele­trô­nica contra a von­tade de seu pai e hoje é sim­ples­mente o dono da Insiel Segu­rança Ele­trô­nica, líder em ino­va­ções ele­trô­ni­cas no estado da Para­íba e indi­cado pelo Guia do Usuá­rio de Segu­rança com um top de reco­nhe­ci­mento naci­o­nal.

Juan Pinheiro con­cluiu seu curso de ele­trô­nica e tele­co­mu­ni­ca­ções em 1995 e resol­veu montar um negó­cio infor­mal, sem foco ainda em segu­rança ele­trô­nica. “No início era eu quem mon­tava, empa­co­tava e vendia os pro­du­tos, aí veio um assis­tente, dois e foi desen­ro­lando. Não tenho ver­go­nha de dizer que a gente come­çou mesmo como uma empresa fundo de quin­tal”, enfa­tiza Juan. A empresa fun­ci­o­nava a prin­cí­pio dentro de um parque tec­no­ló­gico como orga­ni­za­ção encu­bada, passou por um perí­odo de matu­ra­ção e final­mente saiu do parque para virar empresa inde­pen­dente.

Essa mudança se deu em grande parte aos pro­du­tos desen­vol­vi­dos pela Insiel, como a cen­tral de alarme para resi­dên­cia, que na época ainda era muito escasso no mer­cado e hoje é um dos seto­res que mais cres­cem e aos cli­en­tes que come­ça­ram a surgir. Para Juan a falta de capi­tal para inves­tir e o pró­prio des­co­nhe­ci­mento de orga­ni­za­ção de uma empresa foram as mai­o­res difi­cul­da­des no início.

No entanto, da venda de um pro­duto surgia a renda para a cons­tru­ção de outro. E assim a Insiel foi aos poucos con­se­guindo cres­cer e se des­ta­car no mer­cado. Atra­vés de par­ce­rias com outras orga­ni­za­ções como a PB Tech e o Sebrae, a Insiel passou a se desen­vol­ver e a se expan­dir com maior agi­li­dade. Hoje ela atende em todo o nor­deste e conta com fili­ais em João Pessoa, em For­ta­leza no Ceará e em Sal­va­dor na Bahia, e ainda mais de 10 repre­sen­tan­tes, empre­gando cerca de 50 fun­ci­o­ná­rios divi­di­dos nos depar­ta­men­tos de desen­vol­vi­mento, suporte téc­nico, finan­ceiro, comer­cial, aten­di­mento ao cli­ente, cen­tral 24 horas e aten­di­mento online.

Recen­te­mente, a Insiel desen­vol­veu um equi­pa­mento de ras­tre­a­mento de pes­soas que já está sendo uti­li­zado nos presos do regime semi-aberto em Gua­ra­bira. “Com esse equi­pa­mento você pode saber se o preso está obe­de­cendo as con­di­ções da liber­dade dele de não sair do perí­me­tro da cidade”, afirma Juan. A tor­no­ze­leira ele­trô­nica, como ficou cha­mada, é uma versão de ras­tre­a­mento espe­cí­fica para pes­soas via saté­lite e possui uma bate­ria que não neces­sita de liga­ção externa. A refe­rên­cia da tor­no­ze­leira tornou-se padrão em outros tri­bu­nais de jus­tiça e em outros esta­dos, sendo a Insiel a única empresa com implan­ta­ção prá­tica desse equi­pa­mento no Brasil.

O empre­sá­rio atri­bui o sucesso do negó­cio ao com­pro­misso com o cli­ente. Pois ele garante que um fre­guês satis­feito é con­fi­ança garan­tida. “Nós não faze­mos mídia, mas quem é cli­ente sabe dos nossos com­pro­mis­sos, e isso faci­lita muito a intro­du­ção de novos pro­du­tos no mer­cado”, avalia. Dentre as mai­o­res con­quis­tas, Juan des­taca o espaço que foi alcan­çado pela Insiel ao longo dos anos. E uma prova disso é o prêmio Top de Reco­nhe­ci­mento do Guia do Usuá­rio de Segu­rança do estado do Paraná que o ava­liou em 1º lugar pelo desen­vol­vi­mento de um soft para a área de alarme entre várias empre­sas naci­o­nais do ramo.

Por isso a Insiel não pára de inovar e agora já atende até o mer­cado odon­to­ló­gico, com a cri­a­ção de uma micro­ca­mera em for­mato de escova que o den­tista pode pro­je­tar a imagem da arcada den­tá­ria do paci­ente no com­pu­ta­dor. “Eu enxergo hoje como um novo começo em outro pata­mar, onde já temos a con­fi­ança dos cli­en­tes e a capa­ci­dade de expan­dir mais e mais”, con­clui oti­mista o empre­sá­rio.

Unidos na Alegria e no Empreendedorismo

Festa, cham­pagne, bolo e gri­nalda. Pode­ria ser a rea­li­za­ção de mais uma festa de casa­mento, mas essa união na cidade de Patos tem um sabor espe­cial. Os per­so­na­gens desse evento são dois jovens que deci­di­ram se unir tanto na vida con­ju­gal como no mundo dos negó­cios. Era meados de 1994 quando a união entre Fábio e Jean­nine Figuei­redo, com apenas 21 e 18 anos, fez surgir a escola de infor­má­tica Info­ge­nius.

Jean­nine tra­ba­lhava como recen­se­a­dora do IBGE e cur­sava Eco­no­mia na Facul­da­des Inte­gra­das de Patos (FIP), mas teve que tran­car a facul­dade para se dedi­car a esse novo inves­ti­mento. Fábio, por outro lado, tra­ba­lhava na assis­tên­cia téc­nica de uma con­ces­si­o­ná­ria em Patos. Em pouco mais de dois anos de namoro, eles tive­ram a idéia de abrir um negó­cio juntos. Per­ce­be­ram que havia uma grande neces­si­dade de capa­ci­tar pes­soas para tra­ba­lhar com a infor­má­tica e resol­ve­ram inves­tir no ramo. Sem gran­des recur­sos, com­pra­ram alguns com­pu­ta­do­res, e entre enxo­vais e tecla­dos con­se­gui­ram alugar um ponto em cima de uma loja de col­chão.

De início eles con­ta­vam apenas com a par­ti­ci­pa­ção de cinco pro­fes­so­res e três secre­tá­rias. Uma das mai­o­res difi­cul­da­des foi encon­trar mão-de-obra qua­li­fi­cada. “Tive­mos que fazer muito trei­na­mento com pro­fes­so­res em Recife e apro­vei­tar alunos que já faziam curso supe­rior, mas que não tinham expe­riên­cia em sala de aula e os trei­na­mos com pro­fis­si­o­nais peda­gó­gi­cos”, comenta Jean­nine.

Com idéias na cabeça e com­pu­ta­do­res na sala, só lhes fal­ta­vam os alunos. E estes não demo­ra­ram a chegar. Dois anos depois da inau­gu­ra­ção, o número de alunos já supe­rava a faixa dos mil. Havia a neces­si­dade de aumen­tar a estru­tura, os labo­ra­tó­rios e a bibli­o­teca. Mon­ta­ram então um labo­ra­tó­rio tem­po­rá­rio em outras cida­des inte­ri­o­ra­nas da Para­íba, como Solâ­nea e Mon­teiro, e em Per­nam­buco, nas cida­des de Pes­queira e Itambé. A partir do momento em que per­ce­be­ram que a escola estava fir­mada no mer­cado come­ça­ram a expan­dir para cida­des mai­o­res.

Em setem­bro de 1998, Cam­pina Grande rece­beu sua sede da Info­ge­nius que passou a ser a cen­tral, onde o casal também fixou mora­dia. Hoje além de Cam­pina Grande, a Info­ge­nius está pre­sente em Patos, Gua­ra­bira, João Pessoa e Caicó. A capi­tal parai­bana com­porta a maior uni­dade, que possui inclu­sive esta­ci­o­na­mento pró­prio. São mais de 40 cursos nas áreas de infor­má­tica de nível téc­nico e pro­fis­si­o­na­li­zante e de qua­li­fi­ca­ção humana. E ao longo de quase 13 anos de mer­cado tota­li­zam mais de 100 mil alunos for­ma­dos.

Jean­nine atri­bui o sucesso da Info­ge­nius ao cui­dado com o cli­ente e acre­dita que entre as mai­o­res con­quis­tas ao longo dos anos estão o reco­nhe­ci­mento dos cursos pelo MEC e a satis­fa­ção do público. “Hoje cerca de 80% dos alunos que chegam à nossa escola são oriun­dos de indi­ca­ções de outros alunos e isso mostra que eles estão satis­fei­tos com o ensino”, enfa­tiza Jean­nine.

No decor­rer da tra­je­tó­ria, Fábio e Jean­nine pre­sen­ci­a­ram muitas situ­a­ções curi­o­sas na escola: alunos ansi­o­sos pelo pri­meiro con­tato com o com­pu­ta­dor; alunos que nunca sou­be­ram assi­nar o pró­prio nome, mas sabiam domi­nar o mouse. E em uma dessas situ­a­ções eles conhe­ce­ram um jovem defi­ci­ente visual que sonhava fazer um curso de infor­má­tica. Isso os ins­ti­gou a expan­di­rem ainda mais as portas para todos os seg­men­tos da soci­e­dade. No segundo semes­tre de 2007, a Info­ge­nius abre o pri­meiro curso para defi­ci­en­tes visu­ais do nor­deste.

Com uma filha de nove anos e uma his­tó­ria con­tada atra­vés das teclas do com­pu­ta­dor, Fábio e Jean­nine já conhe­cem a receita de uma vida de sucesso. Cúm­pli­ces no amor e nos negó­cios, eles provam que ousa­dia e auto­con­fi­ança ainda é o cami­nho que pode gerar bons frutos, é só estar aberto às novas pos­si­bi­li­da­des que a vida ofe­rece.

Do Outro Lado

Aliar a vivên­cia da teoria da uni­ver­si­dade com o exer­cí­cio da prá­tica foi a razão da visita que fiz outro dia com alguns amigos aos estú­dios da TV Ita­raré aqui de Cam­pina Grande. Foi pos­sí­vel ana­li­sar o pro­cesso de pro­du­ção de um tele­jor­nal desde a cons­tru­ção das pautas até o “boa noite” dos apre­sen­ta­do­res. Quis então des­cre­ver aqui para os curi­o­sos e inte­res­sa­dos no assunto como é a vida dos jor­na­lis­tas por trás das câme­ras.

Para come­çar o corre-corre diário, os pro­du­to­res checam com fre­qüên­cia na reda­ção os e-mails que as asses­so­rias de imprensa enviam para eles. Começa então a dis­ca­gem para todas as cen­trais poli­ci­ais em busca de alguma ocor­rên­cia que renda pauta. Com infor­ma­ções nas mãos, é pre­ciso ana­li­sar o que é notí­cia e dentro do que é notí­cia, o que será mais impor­tante para o teles­pec­ta­dor. Deci­dido as maté­rias que entra­rão no ar, é hora de colher o máximo de infor­ma­ções para a ela­bo­ra­ção das pautas que serão entre­gues aos repór­te­res.

Os repór­te­res rece­bem as pautas e se diri­gem aos locais indi­ca­dos junto com o cine­gra­fista. Enquanto isso na reda­ção, a veri­fi­ca­ção dos B.O.s (Bole­tins de Ocor­rên­cia) nas cen­trais de polí­cia con­ti­nua. Novas pautas podem surgir a qual­quer momento. Quando uma maté­ria chega o editor de texto pega as infor­ma­ções sobre entre­vis­ta­dos, pas­sa­gens, loca­ção e orga­niza no roteiro do tele­jor­nal que será entre­gue aos apre­sen­ta­do­res mais tarde.

As ima­gens cap­tu­ra­das pelo cine­gra­fista são entre­gues aos res­pon­sá­veis pela edição de ima­gens. Lá, eles montam a maté­ria de acordo com o que o repór­ter indi­cou na gra­va­ção do off (nar­ra­ção do repór­ter enquanto as ima­gens sobre a maté­ria passam). Orga­ni­zam entre­vis­tas, pas­sa­gens e casam com as ima­gens e a nar­ra­ção do repór­ter.

Quando os apre­sen­ta­do­res chegam aos estú­dios passam o texto para ana­li­sar qual­quer defeito e em seguida se pre­pa­ram para a gra­va­ção da esca­lada (aque­las cha­ma­das ini­ci­ais do jornal). Exer­cí­cios bocais e lidas repe­ti­das no texto que passa no tele­promp­ter (equi­pa­mento que fica na câmera e capta os textos que o apre­sen­ta­dor ler). Algu­mas cha­ma­das são feitas ao vivo e outras gra­va­das. Ah, uma curi­o­si­dade que muitos não sabem. Quem olha de casa aque­les sérios e engra­va­ta­dos apre­sen­ta­do­res, não ima­gi­nam que embaixo da ban­cada se encon­tram calças jeans e até pés des­cal­ços. É o lado bas­ti­dor do tele­jor­nal.

Tele­jor­nal no ar! Começa a maior aten­ção do dire­tor de tv quanto ao tempo e seqüên­cia das câme­ras. É pre­ciso ligar as câme­ras certas em cada hora que o apre­sen­ta­dor se virar e saber o momento exato de jogar as maté­rias no ar. Ele também informa ao cine­gra­fista quando a maté­ria está pró­xima de ter­mi­nar e este avisa os apre­sen­ta­do­res.

A galera que con­trola os cré­di­tos do tele­jor­nal também deve ficar atenta. Todos os cré­di­tos das maté­rias são colo­ca­dos no ar na hora em que a maté­ria entra, seguindo o roteiro que o editor de texto enca­mi­nhou. Por isso o editor de texto deve ter bas­tante cui­dado para não trocar os nomes ou inver­ter a ordem de escala dos cré­di­tos.

Com o tele­jor­nal no ar a equipe de pro­du­ção não des­cansa, con­ti­nuam pro­du­zindo, bus­cando outras infor­ma­ções e aten­tos a uma notí­cia de última hora. Os apre­sen­ta­do­res passam o texto a cada inter­valo comer­cial e ainda apro­vei­tam para rela­xa­rem um pou­qui­nho brin­cando um com o outro, que o diga Polion, que na sua pos­tura pro­fis­si­o­nal, des­cola brin­ca­dei­ras e des­con­cen­tra a amiga da ban­cada bem mais do que a sim­pá­tica e jovem Luci­el­len.

Com o tér­mino do tele­jor­nal os pro­du­to­res con­ti­nuam aten­tos para pos­sí­veis pautas para o dia seguinte. Os apre­sen­ta­do­res sor­riem ali­vi­a­dos o tér­mino de mais um dia de tra­ba­lho, certos que aque­las brin­ca­dei­ras que tira­ram fora do ar serão guar­da­das a sete chaves e esque­ci­das nos bas­ti­do­res, mas sorte que exis­tem estu­dan­tes como eu que se pre­o­cu­pam em levar a ver­dade ao público doa a quem doer. E assim chega ao fim mais um dia de tra­ba­lho nos estú­dios de tele­jor­na­lismo da TV Ita­raré. E o fim da nossa visita também. Espero que essa des­cri­ção tenha sido útil de alguma forma para alguém mesmo que seja para matar a curi­o­si­dade.

Eternamente Seis

O romance bra­si­leiro Éramos Seis de Maria José Dupré, publi­cado em 1943 e pre­mi­ado pela Aca­de­mia Bra­si­leira de Letras foi uma das obras bra­si­lei­ras mais adap­ta­das para o áudio-visual. O livro foi tra­du­zido para o espa­nhol, fran­cês e sueco e ganhou quatro adap­ta­ções em forma de tele­no­vela e uma adap­ta­ção para o cinema.

Maria José Dupré ou Sra. Lean­dro Dupré, nasceu em Botu­catu, estado de São Paulo em 1905. Estu­dou pin­tura e música e cursou a Escola Normal Cae­tano dos Campos, quando se formou pro­fes­sora. Sua vida na lite­ra­tura começa após casar com o enge­nheiro Lean­dro Dupré. Foi res­pon­sá­vel por vários clás­si­cos da lite­ra­tura infanto-juve­nil, mas foi a his­tó­ria que se passa na São Paulo de 1921 a 1942, quando a cidade vivia em volta de casas anti­gas, inter­ca­la­das pelas linhas dos bondes e com uma popu­la­ção de 600 mil habi­tan­tes, que a con­sa­grou.

Nesse cená­rio onde se encon­tram tantas mulhe­res dedi­ca­das ao lar e outras que sonham que a inde­pen­dên­cia pro­fis­si­o­nal surge a his­tó­ria de Dona Lola e sua famí­lia, uma mulher bata­lha­dora e dedi­cada ao marido Júlio e aos seus quatro filhos, Carlos, Alfredo, Juli­nho e Maria Isabel. A vida de Lola é mos­trada desde a infân­cia das cri­an­ças, até a sua velhice. Con­forme os anos passam, a vida de Lola também se modi­fica. Júlio morre sem saber que sua casa ainda não foi paga, Alfredo some pelo mundo, Isabel se casa com um homem sepa­rado e Juli­nho se casa com a filha do patrão do seu pai e sofre com os ata­ques da mulher. Assim, os seis mem­bros da famí­lia que dão nome à obra vão se des­fa­le­cendo.

A pri­meira adap­ta­ção do livro se deu ainda nos anos 40. Uma pro­du­tora argen­tina se inte­res­sou pelo enredo e filmou a his­tó­ria, obtendo grande êxito. Uma década depois do filme, no ano de 1958, a Rede Record fez sua pri­meira versão do livro em for­mato de tele­no­vela ao vivo e com apenas duas exi­bi­ções sema­nais. Gessy Fon­seca foi a pro­ta­go­nista da trama. Nove anos mais tarde, em 1967, a TV Tupi resol­veu adap­tar o romance, tendo o roteiro de Pola Civelli e a dire­ção de Hélio Souto. Cleyde Yáco­nis deu vida a per­so­na­gem Lola e Silvio Rocha ao seu marido Julio. A novela ficou no ar apenas durante um mês no horá­rio das 19h.

A ter­ceira versão da obra foi pro­du­zida nova­mente pela TV Tupi no ano de 1977 com texto de Rubens Ewald Filho e Sílvio de Abreu, que ini­ci­ava sua car­reira de rotei­rista. O papel de Julio aqui ficou com Gian­fran­cesco Guar­ni­eri e o de Lola com Nicette Bruno, acla­mada pela crí­tica e ven­ce­dora de diver­sos prê­mios pela sua inter­pre­ta­ção. Foi exa­ta­mente essa versão que deu base para sua última adap­ta­ção pelo Sis­tema Bra­si­leiro de Tele­vi­são (SBT) em 1994. A novela foi ao ar de 9 de maio a 5 de dezem­bro, em 180 capí­tu­los, sendo a única novela da emis­sora a ganhar o Troféu Imprensa na cate­go­ria de Melhor Novela. Irene Rava­che foi quem como­veu e envol­veu o país no drama de Lola nessa versão, ao lado de Othon Bastos.

A Revo­lu­ção Cons­ti­tu­ci­o­na­lista de 1932 de São Paulo esteve pre­sente na novela. O esto­pim da revolta no centro da cidade em 23 de maio foi retra­tado e serviu de pre­texto para a morte de Carlos, o filho mais velho de Lola. Sua morte fez refe­rên­cia aos cinco jovens assas­si­na­dos por par­ti­dá­rios gover­nis­tas que deu origem a um movi­mento de opo­si­ção conhe­cido como MMDC (Mar­tins, Mira­gaia, Dráu­zio e Camargo), as ini­ci­ais dos nomes dos jovens. O fato servia de crí­tica social à dita­dura imposta por Getú­lio Vargas e aler­tava fic­ci­o­nal­mente, com a figura de Carlos, sobre a pos­sí­vel exis­tên­cia de outros assas­si­na­tos des­co­nhe­ci­dos na revolta.

Éramos Seis foi con­si­de­rada o último grande sucesso em termos de tele­no­vela da TV Tupi. Sua versão de 1977 foi a mais fiel adap­ta­ção do livro de Maria Dupré. O remake do SBT de 1994 foi o maior sucesso de tele­no­ve­las já pro­du­zi­das pela emis­sora. A novela alcan­çou 20 pontos de audiên­cia e chegou a bater de frente com a Rede Globo, que apre­sen­tava na época o remake de A Viagem no mesmo horá­rio.

Mesmo des­co­nhe­cendo a obra ori­gi­nal e as quatro pri­mei­ras ver­sões no cinema e na tele­vi­são, a adap­ta­ção do SBT foi extre­ma­mente gra­ti­fi­cante e impe­cá­vel desde o roteiro à dire­ção, ambi­en­ta­ção, trilha sonora e inter­pre­ta­ção dos atores. Uma his­tó­ria sim­ples, como­vente e cheia de rea­lismo, que tornou pos­sí­vel a inú­me­ras gera­ções o conhe­ci­mento de um clás­sico escrito 50 anos antes.

Éramos Seis na his­tó­ria, éramos seis na quan­ti­dade de obras pro­du­zi­das. Um livro, um filme e quatro tele­no­ve­las. Eter­na­mente seis.

Bônus Retrospectivas 19 rankings de séries e discos

Beatles: álbuns preferidos

Enu­me­rar os melho­res álbuns dos Bea­tles não é uma tarefa fácil, embora já haja certo con­senso em rela­ção a alguns discos e a pró­pria crí­tica espe­ci­a­li­zada já tenha apon­tado diver­sas vezes os melho­res de todos, mesmo que ela tenha mudado o ranking algu­mas vezes ao longo dos anos. Entre­tanto, minha tarefa aqui é mais sim­ples. Eu vou listar não os melho­res álbuns em termos de pro­du­ção téc­nica, enge­nha­ria, know how, mas sim as can­ções e a sono­ri­dade dos Bea­tles que chegam pri­meiro ao cora­ção desse bea­tle­ma­ní­aco aqui. E mesmo que a qua­li­dade téc­nica influ­en­cie em deter­mi­na­dos pontos, é a melo­dia, a har­mo­nia e até mesmo a letra que estão con­tando ao final. Já vi muitas listas de melho­res álbuns dos Bea­tles, mas nenhuma delas con­di­zia exa­ta­mente com a minha. Encon­tro sempre algu­mas seme­lhan­ças em deter­mi­na­das posi­ções, mas há também muitas sur­pre­sas com a colo­ca­ção de alguns álbuns. Então resolvi postar a minha também. Dei­xando claro que essa sele­ção é pes­soal e não se baseia nas espe­ci­fi­ca­ções e evo­lu­ções téc­ni­cas de cada disco. Se assim o fosse o ranking seria outro. É apenas a sequên­cia de um apai­xo­nado pelas can­ções da mais bem suce­dida banda de rock de todos os tempos. Come toge­ther!

13º. Yellow Sub­ma­rine

Lan­çado em 1969 como parte da trilha sonora do filme de mesmo nome, o 11º álbum dos Bea­tles não tem muito o que ofe­re­cer. Na ver­dade ele é mais trilha do filme do que pro­pri­a­mente disco dos Bea­tles. Duas de suas can­ções já esta­vam pre­sen­tes em outros álbuns: Yellow Sub­ma­rine em Revol­ver e All You Need is Love em Magi­cal Mys­tery Tour. Das iné­di­tas, não há uma música forte ou sig­ni­fi­ca­tiva o sufi­ci­ente para marcar o álbum. Par­ti­cu­lar­mente eu gosto de Hey Bull­dog e Only a Nor­thern Song. As can­ções ins­tru­men­tais de George Martin são até inte­res­san­tes como parte da trilha do filme, mas não são música Bea­tles. Por isso tudo, esse disco fica na minha última posi­ção.

12º. Bea­tles For Sale

Quarto álbum dos Bea­tles, lan­çado no final de 1964. Não é um disco muito forte, e acre­dito que isso é quase una­ni­mi­dade. Eu gosto de No Reply, Baby’s in Black, I’ll Follow the Sun e What You’re Doing, mas no geral não há nada muito mar­cante. Vindo depois do estron­doso sucesso que foi A Hard Day’s Night, e com a cruel missão de subs­ti­tuí-lo, esse álbum decep­ci­o­nou um pouco por voltar a uti­li­zar covers em grande quan­ti­dade para fechar o reper­tó­rio, uma prova de como era grande a pres­são mer­ca­do­ló­gica para pro­du­zir novos discos em um curto espaço de tempo, resul­tando em tra­ba­lhos não tão bem ela­bo­ra­dos. Lem­brando ainda a rotina extre­ma­mente esta­fante em que a banda se encon­trava  na época, o que gerou uma certa estag­na­ção na pro­du­ção dos novos tra­ba­lhos.

11º.  Please Please Me

Álbum de estreia dos Bea­tles em 1963. Disco bom e impor­tante por nos apre­sen­tar os meni­nos de Liver­pool, com as clás­si­cas Love Me Do, P.S. I Love You, I Saw Her Stan­ding There e Twist and Shout. Gra­vado todo numa única can­sa­tiva e esgo­tante sessão. Mesmo com seis covers no reper­tó­rio, o álbum flui bem, e dife­rente de Bea­tles For Sale, fun­ci­ona per­fei­ta­mente, con­se­guindo deixar sua marca até nas can­ções não ori­gi­nais. Con­tudo, diante da gran­di­o­si­dade que veio depois, ele fica aqui na 11ª colo­ca­ção.

10º. With The Bea­tles

Segundo álbum dos Bea­tles, lan­çado também em 1963. Melhor que o ante­rior em ela­bo­ra­ção e com­po­si­ções, mos­trando o pri­meiro salto rumo à cons­tante evo­lu­ção da banda. Com seis covers também que se somam har­mo­ni­o­sa­mente às can­ções ori­gi­nais. Tem também a pri­meira con­tri­bui­ção de George na banda com Don’t Bother Me. Entre as minhas favo­ri­tas estão All My Loving, It Won’t Be Long, All I’ve Got To Do e Hold Me Tight.

9º. A Hard Day’s Night

Ter­ceiro álbum dos Bea­tles, lan­çado em 1964, junto com o filme homô­nimo. Pri­meiro disco a conter uni­ca­mente com­po­si­ções pró­prias dos Bea­tles e o único a ter apenas com­po­si­ções de Lennon e McCart­ney. Um dos mais bem suce­di­dos álbuns da banda. Foi o disco que me apre­sen­tou aos Bea­tles e pelo qual tenho um cari­nho espe­cial. Entre­tanto, apesar de ter can­ções que con­si­dero mara­vi­lho­sas como And I Love Her, I Should Have Know Better, If I Feel e a canção-título, a segunda parte do disco já não me empolga tanto mais.

8º. Help!

Quinto álbum dos Bea­tles, lan­çado em 1965, junto com o filme homô­nimo também. Com apenas dois covers e a inclu­são da con­sa­grada Yes­ter­day, que quase não entrou na sele­ção por des­toar do perfil do disco, foi outro grande sucesso, repe­tindo a fór­mula de A Hard Day’s Night. Além do tema prin­ci­pal, as can­ções The Night Before, Ticket To Ride, You Like Me Too Much, Tell Me What You See e I’ve Just Seen a Face são as minhas favo­ri­tas.

7º. Let It Be

Último álbum dos Bea­tles, penúl­timo gra­vado, lan­çado em 1970. Acres­cento aqui também a versão Naked, lan­çada em 2003. Sei que haverá gente a ques­ti­o­nar Let It Be na frente de outros álbuns de sucesso, afinal ele foi um disco atra­pa­lhado, lan­çado sem muito capri­cho, com o mate­rial do fra­cas­sado pro­jeto “Get Back”. Ainda assim, dei­xando de lado os deta­lhes téc­ni­cos, e ana­li­sando espe­ci­fi­ca­mente a sono­ri­dade das músi­cas, é um disco que me agrada muito. Adoro I’ve Got a Fee­ling, Dig a Pony, For You Blue, I Me Mine e Across the Uni­verse (a versão Naked é melhor, menos arras­tada). Sinto falta de Don’t Let Me Down, mas ela está pre­sente em Naked. The Long And Win­ding Road também é melhor na versão de 2003, Paul estava certo.

6º. Magi­cal Mys­tery Tour

Nono álbum dos Bea­tles, lan­çado no final de 1967, como trilha-sonora do desas­troso filme homô­nimo. Apenas as músi­cas do filme – lan­ça­das como EP no Reino Unido na época – já fariam esse disco ser muito bom, I Am The Walrus, The Fool On The Hill e Flying são ótimas, mas a versão ame­ri­cana acres­cen­tando os com­pac­tos da banda daquele ano con­se­guiu deixá-lo melhor ainda. A pre­sença de Straw­berry Fields Fore­ver, que fez falta em Sgt. Pep­pers, atesta a colo­ca­ção tão boa desse álbum. A única música que não curto muito no disco é Hello, Goodbye, embora seja uma canção muito famosa dos Bea­tles, ela não me empolga muito. Já Baby, You’re a Rich Man eu tenho um ver­da­deiro fas­cí­nio.

5º. Rubber Soul

Sexto álbum dos Bea­tles, lan­çado no final de 1965. Rubber Soul começa a sina­li­zar a mudança na dire­ção do estilo musi­cal dos Bea­tles e suas novas influên­cias. Por muito tempo figu­rou entre um dos meus três pre­di­le­tos. Há sempre uma dis­puta entre Rubber Soul e Revol­ver sobre qual seria o melhor disco, com o último quase sempre levando a melhor. O fato é que ambos são mara­vi­lho­sos, e fre­quen­te­mente os dois estão tro­cando de posi­ção no meu ranking. Adoro Girl, Drive My Car, You Won’t See Me, Think For Your­self, Wait e If I Needed Some­one. Sou apai­xo­nado por In My Life, só não curto muito Michelle, me soa um pouco açu­ca­rada demais.

4º. Revol­ver

Sétimo álbum dos Bea­tles, lan­çado em 1966. Pre­di­leto de muitos e sempre que­ri­di­nho, Revol­ver é reche­ado de boas can­ções. Taxman, Ele­a­nor Rigby, I’m Only Slee­ping, Love You To, She Said She Said, And Your Bird Can Sing, Got to Get You into My Life e Tomor­row Never Knows são as minhas pre­fe­ri­das. Nem é pre­ciso dizer que esse disco foi ino­va­dor e marcou defi­ni­ti­va­mente a mudança da fase bea­tle­ma­nia para uma era de musi­ca­li­dade mais madura da banda.

3º. Sgt. Pep­pers Lonely Hearts Club Band

Oitavo álbum dos Bea­tles, lan­çado em 1967. Acla­mado mun­di­al­mente pela crí­tica e con­si­de­rado o melhor disco da banda. Real­mente ele é tudo isso. Mas quando se dis­cute favo­ri­tismo, cada um sabe do seu e não há o que dis­cu­tir. Por isso, Sgt. Pep­pers fica ainda na ter­ceira posi­ção dos meus discos pre­fe­ri­dos. Gosto de todas as músi­cas do álbum e con­si­dero A Day in the Life, senão a mais, uma das mais boni­tas músi­cas dos Bea­tles.

2º. The Bea­tles (White Album ou Álbum Branco)

Décimo álbum dos Bea­tles, lan­çado em 1968. Único álbum duplo da banda. Aparte os atri­tos dos inte­gran­tes na pro­du­ção do disco, resul­tando num tra­ba­lho que cap­tura niti­da­mente o estilo musi­cal de cada um, o Álbum Branco reúne 30 can­ções numa diver­si­dade de sons e ritmos que faz desse disco tão espe­cial e o meu segundo pre­fe­rido. Gosto prin­ci­pal­mente das com­po­si­ções de John: Hap­pi­ness Is a Warm Gun, Dear Pru­dence, Sexy Sadie, Every­body’s Got Some­thing to Hide Except Me and My Monkey, Revo­lu­tion 1, I’m So Tired e Julia. De Paul: Why Don’t We Do It in the Road?, Mother Nature’s Son e Helter Skel­ter.  E ainda as de George: Savoy Truf­fle, Long Long Long e While My Guitar Gently Weeps, dis­pa­rada de longe a melhor canção do disco.

1º. Abbey Road

Décimo segundo álbum dos Bea­tles, lan­çado em 1969. O último disco gra­vado. Em Abbey Road eu gosto de tudo, das can­ções à capa e con­tra­capa do disco, pra mim a mais bonita de todas. Come Toge­ther, Some­thing, Here Comes The Sun, Because, I Want You, Oh! Dar­ling são todas fabu­lo­sas. Na segunda parte do disco temos uma obra-prima de Paul. As duas sequên­cias de med­leys desde Sun King a She Came in Through the Bathroom Window, e de Golden Slum­bers a The End são de uma gran­di­o­si­dade musi­cal sem com­pa­ra­ção. A meu ver a melhor con­tri­bui­ção de Paul na banda, ou a que mais me agrada. E a frase final, depois do incrí­vel solo de bate­ria de Ringo – como John já disse – car­rega uma filo­so­fia cós­mica que con­ti­nua eco­ando após os últi­mos acor­des do álbum. Abbey Road é um dia­mante per­fei­ta­mente lapi­dado!

“...and in the end, the love you take is equal to the love you make.”

O fenômeno Sandy e Junior: há explicação?

Foto: Jairo Gold­flus

O retorno da dupla Sandy e Junior, em turnê come­mo­ra­tiva de 30 anos de car­reira, segue enlou­que­cendo o país exa­ta­mente como no auge de “As Quatro Esta­ções”, 20 anos atrás. Ingres­sos esgo­ta­dos em minu­tos, shows extras, deses­pero de quem ficou de fora. A gra­va­dora Uni­ver­sal, deten­tora de toda obra fono­grá­fica dos artis­tas, também não deixou a opor­tu­ni­dade passar, relan­çou alguns CDs avul­sos, depois lançou um box con­tendo todos os 16 discos da car­reira deles (embora a qua­li­dade dessa nova tira­gem deixe bas­tante a dese­jar), e agora está lan­çando três álbuns em vinil, for­mato em que a obra deles não era lan­çada desde 1995, com o disco “Você é D+!”.

Não há dúvida de que Sandy e Junior ainda é sinô­nimo de sucesso. Evi­dente que o hiato de 12 anos desde que a dupla se sepa­rou, em 2007, explica bem esse “boom” em 2019. Todos querem vê-los juntos nova­mente, os fãs nos­tál­gi­cos e uma nova gera­ção que não teve a chance de ir a um show deles. Caso a sepa­ra­ção não tivesse ocor­rido, não acre­dito que eles ainda esti­ves­sem fazendo todo esse baru­lho. Os últi­mos anos juntos já demons­tra­vam uma desa­ce­le­ra­ção da sua popu­la­ri­dade. Con­tudo, isso não des­va­lo­riza nem apaga um dos feitos mais raros da his­tó­ria da música bra­si­leira. Sandy e Junior alcan­ça­ram sucesso ainda cri­an­ças, no pri­meiro disco, e foram man­tendo e aumen­tando con­si­de­ra­vel­mente esse sucesso ao longo de mais de uma década. Como isso foi pos­sí­vel? E por que outras duplas e grupos infan­tis como Balão Mágico, Trem da Ale­gria, Luan e Vanessa e Mulekada não con­se­gui­ram também? Tenho minhas teo­rias de como peque­nas deci­sões em deter­mi­na­dos momen­tos foram sig­ni­fi­ca­ti­vas na car­reira deles.

“Maria Chi­qui­nha” e a sua suces­sora

Para o início do sucesso vários fato­res con­tri­bu­í­ram. O pri­meiro foi, ine­ga­vel­mente, serem filhos de Xororó, que estava com a car­reira em ascen­são com Chi­tão­zi­nho à época. Depois, “Maria Chi­qui­nha”, a canção – hoje apon­tada como misó­gina e necró­fila – foi a res­pon­sá­vel por fazê-los sucesso antes mesmo de lan­ça­rem o pri­meiro disco. Na ver­dade, foi ela quem des­per­tou as gra­va­do­ras para o poten­cial das cri­an­ças. Era diver­tido e sur­preen­dente ver aque­les dois pro­je­tos de gente dis­cu­tindo uma rela­ção de adul­tos numa canção. E por fim, claro, o talento inques­ti­o­ná­vel deles, que desde cedo já tra­ziam uma dis­po­si­ção natu­ral à música, inclu­sive com afi­na­ção vocal.

Disco lan­çado, sucesso alcan­çado, pronto, deve­ria ter aca­bado aí, como acon­te­ceu e acon­tece com inú­me­ros artis­tas. Mas sur­preen­den­te­mente o novo disco con­se­gue um feito quase impos­sí­vel de alcan­çar por um artista: uma nova canção que supere o sucesso ante­rior. E eles con­se­gui­ram. “A Res­posta da Mari­qui­nha” seguiu uma fór­mula bas­tante usada pela indús­tria fono­grá­fica, porém quase sempre sem muito êxito, de repe­tir a receita do sucesso ante­rior. A música trazia a dupla nova­mente dis­cu­tindo uma rela­ção de adul­tos. Acon­tece que “A Res­posta da Mari­qui­nha” era muito melhor do que “Maria Chi­qui­nha”. A canção tinha mais ritmo, refrão e não era arras­tada como a ante­rior. A pro­du­ção do segundo disco também foi sig­ni­fi­ca­ti­va­mente supe­rior. Per­cebe-se o cui­dado, o capri­cho e a baga­gem de Xororó na con­cep­ção do novo tra­ba­lho da dupla, que ainda empla­cou “Vamos Cons­truir”, pri­meira de muitas ver­sões de suces­sos inter­na­ci­o­nais que os acom­pa­nha­riam.

Anos 60 e “Com Você”

No ter­ceiro disco há a pri­meira grande sacada que faz a dupla não perder defi­ni­ti­va­mente o sucesso. Repe­tir nova­mente a fór­mula e trazer outra canção nos moldes das ante­ri­o­res não seria apenas arris­cado, mas um erro fatal. E ele ainda foi feito, embora não tra­ba­lhado comer­ci­al­mente. A canção “Ciu­meira”, com­posta por Xororó e par­cei­ros, numa nítida ten­ta­tiva de recriar algo pare­cido com “A Res­posta da Mari­qui­nha”, deixou evi­dente o des­gaste da fór­mula, e o resul­tado foi uma canção insig­ni­fi­cante, que se tivesse sido o carro-chefe do disco teria levado a dupla rapi­da­mente ao esque­ci­mento. Mas algum gênio resol­veu apos­tar nos anos 60, no musi­cal “Grease”, de onde Sandy herdou o nome, e na jovem guarda, saindo um pouco do ser­ta­nejo e entrando no rock e no pop, com direito à carac­te­ri­za­ção de figu­rino. As ver­sões “Tô Ligado em Você” e “Pri­meiro Amor” trou­xe­ram um fres­cor e o ele­mento sur­presa, que acom­pa­nhava a dupla desde o início. Além da regra­va­ção de “Splish Splash”, que embora trou­xesse a velha dis­cus­são de casal, vinha embru­lhada na nos­tal­gia da jovem guarda.

O quarto álbum trouxe outras ino­va­ções, ao mesmo tempo em que se pren­dia à fór­mula de sucesso do disco ante­rior, os anos 60, aqui bas­tante explo­rado em várias faixas. Porém, a pro­du­ção não se deixou levar apenas pela receita pronta e, com a expe­riên­cia de “Pri­meiro Amor”, de que uma canção român­tica fun­ci­ona, apos­tou na versão que se tornou um dos mai­o­res suces­sos da dupla, “Com Você”. O hit român­tico e bem tra­ba­lhado garan­tiu, quase que sozi­nho, o exce­lente desem­pe­nho do disco, além, claro, de manter o sucesso da dupla e aumen­tar a sua popu­la­ri­dade. A canção “Cri­ança Espe­rança”, criada para o pro­grama de TV, emo­ci­o­nou o público e também virou sucesso.

Entre a infân­cia e a ado­les­cên­cia

Para o pró­ximo disco, Xuxa, home­na­ge­ada em uma canção no álbum ante­rior, foi con­vi­dada para par­ti­ci­par em uma faixa. Outros clás­si­cos dos anos 60 e 70 segui­ram ganhando ver­sões. A música tema do filme “Dirty Dan­cing” virou “Sonho Real”, e apa­ren­te­mente foi pro­du­zida na inten­ção de pro­mo­ver o álbum, con­tudo, a ideia da gra­va­dora, em apro­vei­tar a explo­são da série de TV “Power Ran­gers”, foi mesmo quem garan­tiu a popu­la­ri­dade do disco. Mais a frente, outra canção de dis­cus­são de casal ganhou o público, com uma ino­va­ção: “Vai Ter Que Rebo­lar”, como o nome já diz, fazia Junior lite­ral­mente rebo­lar, des­cons­tru­indo este­re­ó­ti­pos sobre o com­por­ta­mento mas­cu­lino.

O passo seguinte foi outro grande momento na car­reira dos dois. A ado­les­cên­cia che­gava e o reper­tó­rio pre­ci­sava se adap­tar. Há um grande salto de qua­li­dade no novo disco. “Dig Dig Joy” foi uma feliz com­po­si­ção que brin­cava em cima de uma core­o­gra­fia, com um refrão envol­vente, fler­tando ainda com a infân­cia, enquanto “Não Ter”, versão de sucesso de Laura Pau­sini, mexia com os sen­ti­men­tos dos ado­les­cen­tes que então aflo­ra­vam. Foi um álbum de tran­si­ção, muito bem ela­bo­rado, que per­cor­ria ainda o coun­try e a salsa com “Etc… e Tal” e “Férias de Julho”. Aqui o famoso mullet de Junior também ficava pra trás.

TV, cinema e 1 milhão de cópias

Com o talento cada vez mais evi­dente, exi­gen­tes na qua­li­dade do tra­ba­lho e a popu­la­ri­dade cres­cendo, eles ganham seu pró­prio pro­grama de gin­ca­nas e entre­vis­tas na extinta TV Man­chete, o “Sandy e Junior Show”, aju­dando a pro­movê-los ainda mais. O disco seguinte rea­fir­mou com segu­rança o rumo que a car­reira dos jovens ado­les­cen­tes tomava. Outra vez qui­se­ram refa­zer a fór­mula de sucesso de um álbum ante­rior, cri­ando a música “Pom­po­neta”, que também brin­cava em cima de uma core­o­gra­fia, com um refrão non­sense, para ser uma nova “Dig Dig Joy”. Porém, nova­mente não caíram nessa arma­di­lha e lan­ça­ram “Beijo é Bom”, com uma pegada bem mais pop, que lem­brava muito a canção “Wan­nabe” das Spice Girls. No con­tra­peso, a balada “Ines­que­cí­vel”, mais uma versão de Laura Pau­sini, que se tornou outro dos mai­o­res suces­sos da dupla. Ainda con­se­gui­ram se des­ta­car as can­ções “Eu Acho Que Pirei”, “Little Cowboy”, “Pot-pourri Bee Gees” e “Era Uma Vez”, essa feita exclu­si­va­mente para a novela homô­nima, em par­ce­ria com Toqui­nho, inclu­ída no disco numa nova tira­gem no ano seguinte.

Por essa época, o talento de Sandy é reco­nhe­cido pelo tenor ita­li­ano Andrea Bocelli e eles gravam juntos a canção “Vivo por Ella”. Também estreiam como atores no filme dos Tra­pa­lhões “O Noviço Rebelde”. A essa altura já estava mais do que evi­dente de que aque­las cri­an­ças que come­ça­ram can­tando “Maria Chi­qui­nha” tinham che­gado mesmo para ficar. Cada álbum vendia mais que o ante­rior. Surge então a ideia de gravar o pri­meiro disco ao vivo, com mais três faixas iné­di­tas de estú­dio. A versão de Celine Dion do tema de Tita­nic, “Em Cada Sonho”, pro­mo­veu o álbum, apro­vei­tando o sucesso do filme, seguida da versão de Savage Garden, “No Fundo do Cora­ção”, que se tornou o pri­meiro vide­o­clipe deles a entrar na MTV. O regis­tro do show também foi lan­çado em VHS e o saldo final do disco foi o pri­meiro a ultra­pas­sar 1 milhão de cópias.

“As Quatro Esta­ções” e o seri­ado

Agora pare­cia que Sandy e Junior enfim tinham che­gado ao topo, e então eles lançam o icô­nico “As Quatro Esta­ções”, um dos mai­o­res saltos de qua­li­dade, ino­va­ção, téc­nica e ama­du­re­ci­mento da car­reira, e um dos melho­res álbuns deles. O disco saiu em meio à pri­meira tem­po­rada do seri­ado “Sandy e Junior” na Rede Globo. Deci­dir atuar, inter­pre­tando a si mesmos numa série de TV, que levava os seus nomes, foi mais uma sábia deci­são. Eles e suas can­ções entra­vam toda semana no lar de milhões de bra­si­lei­ros. Dessa forma, quase todas as músi­cas do disco foram toca­das no seri­ado e fica­ram conhe­ci­das, cata­pul­tando com­ple­ta­mente a car­reira deles. A divul­ga­ção do disco, con­tudo, come­çou sem arris­car muito, com a versão de Celine Dion, “Imor­tal”, mas logo as pri­mei­ras com­po­si­ções de Sandy, “Olha o que o amor me faz” e “As Quatro Esta­ções”, se mos­tra­ram bem mais inte­res­san­tes, assim como “Apren­der a Amar”, a canção que trazia Junior muito bem nos vocais prin­ci­pais. O ritmo enér­gico da juven­tude ficou por conta de “Eu Quero Mais” e “Vamo Pulá”. E ainda pas­se­a­ram pelo ita­li­ano com a belís­sima “Malia”, pro­du­zida para a novela “Terra Nostra”.

Apro­vei­tando o sucesso de tantos sin­gles do álbum, eles deci­dem lançar nova­mente um disco ao vivo, a versão “Quatro Esta­ções – O Show”, com três can­ções iné­di­tas de estú­dio outra vez, o famoso CD com as quatro opções de capa. “A Lenda”, com­po­si­ção do grupo Roupa Nova, foi lite­ral­mente o apogeu da dupla. O disco ainda trouxe o sucesso “Enrosca” com vocais de Junior, repe­tindo o que havia dado certo em “Apren­der a Amar”, porém, dessa vez, sem Sandy para acom­pa­nhar. É ainda hoje o álbum com maior número de ven­da­gens deles. Também nesse ano gravam uma canção em par­ce­ria com o cantor espa­nhol Enri­que Igle­sias. E no início do ano seguinte par­ti­ci­pam da ter­ceira edição do fes­ti­val inter­na­ci­o­nal Rock in Rio. O sucesso da dupla ficara tão gigante que Sandy ganha uma novela pen­sada exclu­si­va­mente para ela na Rede Globo, “Estrela-Guia”.

Artis­tas inter­na­ci­o­nais

Outro salto de qua­li­dade é alcan­çado no disco seguinte. A balada “O Amor Faz” e a fre­né­tica “A Gente Dá Certo” deram início aos tra­ba­lhos de divul­ga­ção do álbum, porém, a pri­meira canção acabou supe­rada quando as demais come­ça­ram a des­pon­tar, como “Não Dá Pra Não Pensar” (de auto­ria dos pró­prios irmãos), “Nada é Por Acaso”, “Cai a Chuva” e prin­ci­pal­mente “Quando Você Passa”, a famosa Turu Turu.

Pen­sando em con­quis­tar o mer­cado inter­na­ci­o­nal também, a gra­va­dora lança o pro­jeto de um disco em inglês, lan­çado em vários países ao mesmo tempo. Gra­vado quase que simul­ta­ne­a­mente ao álbum ante­rior, mas lan­çado no ano seguinte, o disco “Inter­na­ci­o­nal” fez a dupla gravar não só em inglês, mas em espa­nhol e fran­cês. As can­ções “Love Never Fails” e “Words Are Not Enough” alcan­ça­ram bom desem­pe­nho já que tudo que eles gra­va­vam nessa época virava sucesso, no entanto, apesar da super­pro­du­ção do álbum, não eram can­ções ori­gi­nais, já haviam sido gra­va­das por outros artis­tas pouco tempo antes. Entre as duas faixas bônus em por­tu­guês, a versão “Super-herói” com vocais de Junior, como já havia virado cos­tume. Curi­o­sa­mente, umas das melho­res can­ções em inglês acabou de fora da versão naci­o­nal do disco. “Until I See You Again”, assim como as ver­sões em inglês de “A Lenda” e “As Quatro Esta­ções”, só entra­ram como extra no disco duplo seguinte “Ao Vivo no Mara­canã + Inter­na­ci­o­nal Extras”.

Regis­trado em DVD e lan­çado no mesmo ano do disco “Inter­na­ci­o­nal”, o show no Mara­canã os sagrou para a pos­te­ri­dade como os pri­mei­ros artis­tas naci­o­nais a lotar o está­dio bra­si­leiro. O álbum foi lan­çado em versão dupla, con­tendo as can­ções que fica­ram de fora do disco “Inter­na­ci­o­nal” e as ver­sões que foram lan­ça­das em outros países.

Maior auto­no­mia

Esgo­ta­dos com o excesso de tra­ba­lho do ano ante­rior, a dupla decide não dar con­ti­nui­dade à car­reira inter­na­ci­o­nal, bem como não reno­var o seri­ado com a Rede Globo, após quatro anos, e optam pela gra­va­ção do filme “Acquá­ria”. Apesar de bem pro­du­zido, o roteiro deixou um pouco a dese­jar. A canção-tema do filme, “Encanto”, foi a pri­meira a pro­mo­ver o novo disco “Iden­ti­dade”, que mos­trava os irmãos bem mais à von­tade na pro­du­ção, com­po­si­ção e sele­ção do reper­tó­rio. “Des­per­di­çou” virou chi­clete, seguida de “Nada Vai Me Sufo­car” e “Você Pra Sempre”.

Depois de 13 anos lan­çando ao menos um disco por ano, eles final­mente se dão ao luxo de tra­ba­lhar com maior tran­qui­li­dade na pro­du­ção de um novo álbum, ficando dois anos sem lançar nada. O disco homô­nimo lan­çado em seguida mostra um grande ama­du­re­ci­mento musi­cal da dupla, tra­ba­lhando as can­ções mais artis­ti­ca­mente e com menos apelo popu­lar. Talvez por isso seja o “menos que­ri­di­nho” dos fãs, embora o mate­rial seja de exce­lente qua­li­dade. “Replay”, com uma pegada mais popu­lar, foi a que mais fisgou, seguida da balada “Estra­nho Jeito de Amar”. Des­ta­que também para “Dis­cu­tí­vel Per­fei­ção”, em que Sandy “chuta o balde” contra o rótulo de san­ti­nha.

Menos popu­la­res do que quando “As Quatro Esta­ções” estou­rou, mas ainda sinô­nimo de sucesso, eles deci­dem se sepa­rar e gravam o último álbum de des­pe­dida, após 17 incrí­veis e bem suce­di­dos anos de car­reira. O que também explica o fenô­meno em 2019. Eles não saíram no auge, mas um pou­qui­nho depois, dei­xando a sen­sa­ção de que ainda tinham o que ofe­re­cer. E por que outros artis­tas mirins não con­se­gui­ram os mesmos inten­tos? Talvez deci­sões equi­vo­ca­das em algum momento, erro de sele­ção de reper­tó­rio, ausên­cia de uma boa música que ultra­pas­sasse o sucesso ante­rior. Sandy e Junior foram muito bem asses­so­ra­dos desde o início, tive­ram sempre ótimas ino­va­ções no reper­tó­rio, sou­be­ram usar bem as ver­sões de músi­cas inter­na­ci­o­nais e apro­vei­tar as opor­tu­ni­da­des que sur­gi­ram, como os pro­gra­mas de TV e filmes, além, claro, de sempre terem sido extre­ma­mente com­pe­ten­tes e pro­fis­si­o­nais com o tra­ba­lho que faziam. Mere­cem o sucesso e o reco­nhe­ci­mento que estão tendo com a turnê “Nossa His­tó­ria”.

12 deslizes de roteiro de Smallville

A série Small­ville ainda é uma das minhas séries pre­fe­ri­das. Seja pela trama cati­vante e bem cons­tru­ída ou pela memó­ria afe­tiva de sua época, ela ainda hoje con­se­gue me levar a um lugar espe­cial. Con­tudo, é jus­ta­mente por curtir tanto que não perdoo certos furos que a série deixou ao longo dos anos em seu roteiro, prin­ci­pal­mente da oitava tem­po­rada em diante, quando os cri­a­do­res ori­gi­nais saíram. Os peque­nos des­li­zes que a his­tó­ria já apre­sen­tava nas pri­mei­ras tem­po­ra­das, virou um queijo suíço durante as três últi­mas. Por isso resolvi criar esse post para des­ta­car alguns dos prin­ci­pais des­li­zes de roteiro de Small­ville que mais me inco­mo­dam quando assisto. Vamos lá!

1. Lucas Luthor

O per­so­na­gem Lucas Luthor nos é apre­sen­tado na segunda tem­po­rada como sendo um filho de Lionel fora do casa­mento. Pri­meiro a mãe de Lucas chega a Small­ville em busca do filho, que acre­dita ser Clark, e quase mata Lex para pres­si­o­nar Lionel sobre o para­deiro do rapaz. Lionel garante que o garoto morreu ainda bebê. Con­tudo, alguns epi­só­dios depois Lex o encon­tra vivo e o traz a Metró­po­lis para con­fron­tar o pai. Há uma dis­puta de egos e suborno. Lucas a prin­cí­pio se alia a Lionel e por fim se une a Lex contra Lionel, exi­gindo seus direi­tos, mas abrindo mão de estar no comando da Luthor­Corp, e saindo no mundo. O fato é que depois desse epi­só­dio ele nunca mais foi sequer men­ci­o­nado na série. Não apa­re­ceu nem quando Lionel morreu ou quando Lex foi dado como morto na oitava tem­po­rada. Como que um her­deiro de um bili­o­ná­rio não retor­na­ria em momento algum para tomar conta do que é seu, mesmo quando a cor­po­ra­ção pare­cia não ter nin­guém no comando? Lex ou Lionel che­ga­ram a dar um fim a ele? Se isso acon­te­ceu, nunca foi men­ci­o­nado.

2. Dra. Helen Bryce

A médica que casa com Lex no fim da segunda tem­po­rada sempre pare­ceu ser uma pessoa de bom cará­ter, até mesmo guar­dou segredo sobre a amos­tra de sangue de Clark, a pedido dos Kent. Ame­a­çou não se casar mais, às vés­pe­ras do casa­mento, ao des­co­brir que Lex inva­diu seu labo­ra­tó­rio em busca do sangue de Clark. Con­tudo, ela se reve­lou uma ver­da­deira viúva negra, no início da ter­ceira tem­po­rada, pla­ne­jando cal­cu­lo­sa­mente a morte de Lex para herdar sua for­tuna. E ainda chegou a vender a Lionel a amos­tra de sangue de Clark. Então se ela era mesmo uma víbora, por que chegou a ajudar os Kent? Por que não se bene­fi­ciou logo da amos­tra de sangue de Clark? Há uma rup­tura muito abrupta aí na per­so­na­li­dade de Helen. Mesmo que ela fosse dis­si­mu­lada, as ati­tu­des gerais dela em toda a segunda tem­po­rada não con­di­ziam com isso.

3. Per­so­na­li­dade de Lionel

Lionel Luthor mudou bas­tante sua per­so­na­li­dade ao longo da série. A prin­cí­pio pare­cia apenas um mag­nata sem escrú­pu­los e sem afeto pelo filho. Depois durante a segunda e ter­ceira tem­po­rada vira o vilão da série. Na quarta, após trocar de corpo com Clark, se rege­nera, vira um homem de bem, desa­pe­gado dos bens mate­ri­ais e capaz de fazer cari­dade. Porém, essa per­so­na­li­dade parece que não estava fun­ci­o­nando muito bem, e ainda na quarta tem­po­rada volta a assu­mir ser um homem de negó­cios, capaz do que for pre­ciso para alcan­çar seus obje­ti­vos. Na quinta passa a ser orá­culo de Jor-El, por estar de posse de uma das três pedras do poder, no momento em que Clark junta as outras duas. Mas isso não o impede de con­ti­nuar chan­ta­ge­ando quem for neces­sá­rio, inclu­sive é o res­pon­sá­vel pelo ataque car­dí­aco que mata Jona­than Kent. Porém, no final dessa tem­po­rada é defen­dido pelo Caça­dor de Marte, que alega que ele está do lado de Clark. Daí em diante ele é mos­trado como alguém até de certa con­fi­ança dos Kent, mas com res­sal­vas, já que sempre que convém os rotei­ris­tas colo­cam Lionel como res­pon­sá­vel por algum plano som­brio ou ati­vi­dade sus­peita. E ainda há a ques­tão do assas­si­nato dos pais de Lionel. Na ter­ceira tem­po­rada ele interna Lex e o aplica tera­pia de ele­tro­cho­que para fazê-lo esque­cer que Lionel matou os pais. Ele é preso no final da ter­ceira tem­po­rada por esse crime. Con­tudo passa muitas outras tem­po­ra­das depois negando que o tenha come­tido. Claro que pode­ria apenas ser um meca­nismo de defesa do per­so­na­gem, porém nas vezes em que o nega, ele é sempre muito ver­da­deiro, como se real­mente esti­vesse sendo sin­cero. Então por que correr o risco de matar Lex ou deixá-lo em estado vege­ta­tivo se ele era ino­cente desse crime?

4. Origem do Cris­tal da For­ta­leza

Durante toda a quarta tem­po­rada Clark pro­cu­rou e tentou unir as três pedras do poder que juntas for­ma­riam o Cris­tal que cons­trui­ria a For­ta­leza no Ártico. Uma trama bas­tante inte­res­sante. Pelo desen­vol­vi­mento da his­tó­ria pare­cia que as pedras tinham sido escon­di­das na Terra há sécu­los por kryp­to­ni­a­nos, pois no século XVII a con­dessa Mar­ga­ret Isobel Tho­re­aux já as pro­cu­rava. Con­tudo, lá na nona tem­po­rada vemos um flashback de Jor-El com Zod em Kryp­ton, e o pai bio­ló­gico de Clark está pre­pa­rando o Cris­tal para enviar à Terra. Ou seja, como Jor-El pode­ria ter sido o res­pon­sá­vel por enviar o Cris­tal, se muitos sécu­los antes aqui na Terra já se pro­cu­ra­vam por ele? Ou há um lapso absurdo de tempo entre a Terra e Kryp­ton ou é um erro pri­má­rio de enredo. Eu creio na segunda opção, já que foi uma cena da nona tem­po­rada, quando os cri­a­do­res ori­gi­nais da série já tinham saído.

5. Apa­rên­cia de Jor-El

Jor-El é apre­sen­tado na série pela pri­meira vez em flashbacks de Clark na ter­ceira tem­po­rada. Ele tem a mesma apa­rên­cia de Clark e é reve­lado que ele esteve em missão na Terra quando jovem, e se apai­xo­nou pela tia-avó de Lana, isso lá pelos anos 60, ou seja, 20 anos antes da des­trui­ção de Kryp­ton. Na sétima tem­po­rada, Lara, a mãe bio­ló­gica de Clark, chega a con­fundi-lo com Jor-El quando o vê, devido a seme­lhança entre eles. Entre­tanto, na nona tem­po­rada vemos um Jor-El em Kryp­ton, 20 anos antes da des­trui­ção do pla­neta, que nada tem a ver com a apa­rên­cia de Clark ou com a idade que Jor-El é mos­trado na visita à Terra lá na ter­ceira tem­po­rada. Joga­ram a con­ti­nui­dade às favas.

6. Jimmy que não era Jimmy

Se tem um per­so­na­gem que foi saca­ne­ado na série, esse foi Jimmy, ou melhor James Olsen. Culpa dos rotei­ris­tas, claro. Jimmy é apre­sen­tado na série na sexta tem­po­rada e entra no elenco fixo na sétima. Ele é defi­ni­ti­va­mente o clás­sico Jimmy Olsen dos HQs, tanto que há um extra no box do DVD da sétima tem­po­rada com vários Jimmys das séries de TV que já tive­ram. Con­tudo, os rotei­ris­tas deci­di­ram, por alguma razão, que não que­riam mais tra­ba­lhar com o per­so­na­gem a partir da nona tem­po­rada e resol­ve­ram sim­ples­mente matá-lo no final da oitava. Para jus­ti­fi­car tal ato, já que Jimmy não pode­ria morrer antes de Clark se tornar o Super­man, resol­ve­ram fingir que na ver­dade Jimmy não era Jimmy, que era James, que o ver­da­deiro Jimmy era seu irmão ainda cri­ança, de quem nin­guém nunca nem tinha ouvido falar. Essa é de ape­dre­jar os rotei­ris­tas.

7. Cai­xi­nha da arma­dura de São Jorge

Desde o início da pri­meira tem­po­rada somos apre­sen­ta­dos à cai­xi­nha de chumbo, feita da arma­dura de São Jorge, que Lionel deu a Lex no ani­ver­sá­rio de 14 anos dele, e esse flashback é mos­trado durante a ter­ceira tem­po­rada. Essa cai­xi­nha per­corre muitas tem­po­ra­das e passa por muitas mãos, desde quando Lex a dá a Clark. Con­tudo, lá na oitava tem­po­rada ela apa­rece em um flashback nas mãos de Lex ainda cri­ança, quando ele ainda não a tinha rece­bido de pre­sente de Lionel. Pode­mos até ima­gi­nar que a caixa já per­ten­cia a Lionel e ele sim­ples­mente resol­veu dar ao filho quando ele fez 14 anos, mas é mais pro­vá­vel que seja mais um des­cuido dos rotei­ris­tas, já que lá no flashback Lionel apre­senta a cai­xi­nha a Lex como se ele nunca a tivesse visto.

8. Dúvi­das de Lionel sobre Clark

Durante a segunda e ter­ceira tem­po­ra­das, Lionel começa a des­con­fiar que há algo de estra­nho com Clark e passa a ficar cada vez mais obce­cado por ele, como se nem des­con­fi­asse o que pode­ria ser. Con­tudo, lá na sétima tem­po­rada revela-se que Lionel fazia parte da orga­ni­za­ção secreta Veri­tas, que aguar­dava a che­gada de um via­jante das galá­xias. Na oitava tem­po­rada quando des­co­bri­mos que Davis Bloome também veio agar­rado à nave de Clark, é reve­lado que Lionel já sabia que o via­jante iria chegar no mesmo dia em que ele foi a Small­ville com Lex. Lionel inclu­sive manda pro­cu­rar pelo via­jante e seus empre­ga­dos encon­tram Davis e o levam a Lionel. Depois de algu­mas sema­nas, quando Lionel per­cebe que o via­jante não é Davis, ele o aban­dona. E aí a série deixa no ar que uma das prin­ci­pais razões seria a des­co­berta de que os Kent ado­ta­ram um menino no mesmo dia da chuva de mete­o­ros. Então desde essa época Lionel se já não sou­besse que o via­jante era Clark, ao menos des­con­fi­a­ria. E com os recur­sos que ele tem, logo ele daria um jeito de se cer­ti­fi­car. Assim não faz sen­tido as dúvi­das de Lionel a res­peito de Clark no início da série.

9. Obje­tos com múl­ti­plas e bizar­ras fun­ções

Os obje­tos kryp­to­ni­a­nos são real­mente bas­tante com­ple­xos, mas não para tanto. Ao longo da série, alguns tive­ram novas fun­ções que sur­gi­ram do nada, apenas para aten­der a neces­si­dade do roteiro. Como por exem­plo:

– Lois e Clark sendo envi­a­dos à Zona Fan­tasma só por segu­ra­rem o cris­tal da For­ta­leza, quando isso nunca havia acon­te­cido antes, e outras pes­soas já tinham segu­rado e não foram envi­a­das.

– Bra­ce­lete de Kara que subi­ta­mente viaja no tempo.

– O DNA de Zod e de seus sol­da­dos dentro do orbe que ser­vi­ria apenas para con­tro­lar os pode­res de Clark. (Aqui vale mais uma obser­va­ção. Como que o Zod apri­si­o­nado no orbe pode­ria saber da exis­tên­cia de Davis Bloome, e ainda ori­en­tar Tess a ajudá-lo ou des­truí-lo, se o DNA do Zod no orbe era de antes do ver­da­deiro Zod ter criado o Apo­ca­lipse?).

10. Clark res­sus­ci­tando Zod

Quando Zod morre com um tiro na nona tem­po­rada, Clark, num ato de deses­pero, faz um corte em seu braço com kryp­to­nita para der­ra­mar seu sangue na ferida de Zod, que acaba se curando e res­sus­ci­tando. A ques­tão é: como Clark sabia que seu sangue pode­ria fazer isso? Pode­mos até supor que ele se recor­dou da tera­pia que Lionel criou com o sangue de Clark para res­sus­ci­tar os mortos na ter­ceira tem­po­rada, mas então por que ele não fez o mesmo quando seu pai bio­ló­gico Jor-El também morreu em seus braços?

11. Livro de RAO

Zod passa a nona tem­po­rada quase inteira pro­cu­rando esse Livro de RAO, que Faora diz a Clark que é a fonte de conhe­ci­mento do uni­verso, e que dará uma força pode­ro­sís­sima a Zod. Con­tudo, no fim o livro de RAO só serve para mandar os kan­do­ri­a­nos a uma nova die­men­são. Uma solu­ção bem con­ve­ni­ente para Clark se livrar de Zod.

12. Pode­res inex­pli­cá­veis de Alia

Alia, a kan­do­ri­ana que retor­nou do futuro com Lois, é res­pon­sá­vel por um dos erros mais gros­sei­ros de toda a série. Quando Alia chega com Lois no início da nona tem­po­rada, ela uti­liza seus pode­res para tentar matar Lois. Porém, existe uma razão, ainda não reve­lada nesta data, que a impos­si­bi­li­ta­ria de ter pode­res. Alia é uma das cópias de DNA que Zod cole­tou em Kryp­ton, mas essas cópias não adqui­rem poder sob o sol ama­relo, apenas sob o sol ver­me­lho. Se formos ao futuro, de onde Lois e Alia vieram, vamos encon­trar mais um erro. Lá os kan­don­ri­a­nos estão com poder porque Zod blo­queou o sol ama­relo, dei­xando-o ver­me­lho. Porém, momen­tos antes de Lois retor­nar, Clark já havia des­blo­que­ado o sol ama­relo, reti­rando os pode­res dos kan­don­ri­a­nos nova­mente. Ainda assim, Alia corre até Lois com sua super­ve­lo­ci­dade, e as duas juntas voltam ao pas­sado. Ou seja, quando Alia corre até Lois, ela já não pode­ria ter pode­res, e muito menos no pas­sado, onde ela chega com Lois. Uma sequên­cia total­mente equi­vo­cada, sem o menor pla­ne­ja­mento.

Os 10 melhores episódios da série Sandy e Junior

O seri­ado Sandy e Junior foi ao ar de 1999 a 2002 nas tardes de domingo da Rede Globo. Um grande sucesso de audiên­cia que cata­pul­tou a car­reira da dupla, que já era sucesso no país. Os álbuns recor­dis­tas de vendas, “As Quatro Esta­ções” e “Quatro Esta­ções O Show”, além do pres­ti­gi­ado  “Sandy e Junior 2001” e do disco inter­na­ci­o­nal, o auge da car­reira deles acon­te­ceu jus­ta­mente na época em que o seri­ado esteve no ar. Não dá pra negar a impor­tân­cia que a série teve na tra­je­tó­ria deles e na memó­ria afe­tiva de uma gera­ção que acom­pa­nhou a dupla e os epi­só­dios dessa gale­ri­nha mais ou menos sema­nal­mente. Pen­sando nisso, decidi criar um ranking com os 10 melho­res epi­só­dios que a série nos pro­por­ci­o­nou ao longo de suas quatro tem­po­ra­das. Tarefa das mais difí­ceis, já que são 154 epi­só­dios iné­di­tos e mais 20 epi­só­dios inter­ca­lando tre­chos iné­di­tos com repri­ses, que pas­sa­vam no perí­odo de férias, tota­li­zando 174, e se contar o epi­só­dio piloto que foi ao ar em 1998, fecha os 175. Entre o CEMA (Centro Edu­ca­ci­o­nal Mário de Andrade) e o Con­do­mí­nio Mata Atlân­tica, muitas aven­tu­ras, roman­ces e emo­ções toma­ram conta dos nossos cora­ções. Uma lista que atenda a todos os fãs é quase impos­sí­vel, por isso deixo aqui essa sim­ples con­tri­bui­ção daque­les epi­só­dios que mais me mar­ca­ram e me diver­ti­ram. Vamos lá!

10. Agora Eu Sou uma Estrela

Epi­só­dio da quarta tem­po­rada. Can­sada de não con­se­guir deco­lar sua car­reira de atriz, Patty pede a Junior pra fingir por um tempo que eles estão namo­rando até o nome dela cir­cu­lar na imprensa. Junior topa a pro­posta, mas Patty leva a brin­ca­deira a sério demais e causa uma grande bagunça na vida de todos no con­do­mí­nio. Ela agenda sessão de fotos para uma revista no apar­ta­mento dei­xando Beth e Bebel no cor­re­dor, passa a con­tro­lar a agenda de Junior e até o que ele deve vestir, des­marca os com­pro­mis­sos dele, des­trata as fãs e chega a espa­lhar na imprensa que Sandy e Junior vão se sepa­rar pra ele se casar com ela. É quando Junior final­mente des­man­cha o acordo. É o melhor epi­só­dio dessa tem­po­rada. As situ­a­ções que Patty cria, acre­di­tando mesmo ser a namo­rada de Junior são muito diver­ti­das. O ponto alto é quando ela sobe em cima do jeep de Junior e manda as fãs dele dis­per­sa­rem, que “ele não é santo de pro­cis­são pra todo mundo passar a mão”. Hilá­rio!

9. Por Uma Ques­tão de Ordem!

Epi­só­dio da segunda tem­po­rada. Camilo pre­cisa se afas­tar do colé­gio após pegar cata­pora e Rebeca arqui­teta para assu­mir o seu lugar. A galera começa a gravar um pro­grama de tele­vi­são pra aula de Miguel, mas Rebeca can­cela para mos­trar auto­ri­dade. Como nova dire­tora, ela começa a pre­pa­rar várias mudan­ças na gestão da escola e implica com as ves­ti­men­tas de Boca, que ao se rebe­lar é sus­penso do colé­gio. Clara orga­niza um pro­testo, rece­bendo a mesma puni­ção. Incré­du­los, a galera se reúne com car­ta­zes no pátio do CEMA. Rebeca ameaça expul­sar Sandy, Junior, Clara, Boca e Gus­tavo se a revolta não ter­mi­nar. Por fim, Elvira chama Camilo de volta, que tira a pro­fes­sora do cargo e a obriga a se retra­tar com os alunos, can­ce­lando as sus­pen­sões e rea­ti­vando o pro­grama de tele­vi­são da galera. É o epi­só­dio que mais explora a mega­lo­ma­nia de Rebeca e mostra onde ela pode­ria chegar se con­se­guisse plenos pode­res. É inte­res­sante ver a galera toda unida contra o auto­ri­ta­rismo da gestão dela.

8. Men­ti­ras e Ver­da­des

Epi­só­dio da segunda tem­po­rada. Irene orga­niza um almoço de ani­ver­sá­rio na rua de sua casa e con­vida a galera, que se junta para com­prar uma gela­deira nova de pre­sente. Patty chega atra­sada ao ônibus e ao ver Gus­tavo e Sandy sen­ta­dos juntos, arma um bar­raco e decide não ir no ônibus com a galera. Ela con­trata uma limou­sine e con­vida Mar­qui­nhos para ir com ela, a fim de pro­vo­car ciúmes em Gus­tavo, e ainda leva Boca, fin­gindo pra ele que Sandy fazia ques­tão da pre­sença dele. Lá na festa Patty começa a espa­lhar um boato de que a rela­ção dela com Gus­tavo é séria e que ele já “inva­diu a fron­teira”. O fuxico passa por Sandy e chega aos ouvi­dos de Gus­tavo, que des­mente a acu­sa­ção e vai tomar satis­fa­ção com a patri­ci­nha, encer­rando de vez a rela­ção deles. É um epi­só­dio inu­si­tado por fugir da ambi­en­ta­ção tra­di­ci­o­nal da série. Ver Patty e Rebeca, acos­tu­ma­das a ambi­en­tes finos, tendo que dis­far­çar a insa­tis­fa­ção de estar em uma festa popu­lar de rua é impa­gá­vel. Duda, Talita e Glo­ri­nha apro­vei­tando os luxos da limou­sine é ótimo também.

7. Sua Majes­tade, o Bebê 

Epi­só­dio da pri­meira tem­po­rada. A galera encon­tra um bebê aban­do­nado na capela do CEMA e resolve cuidar dele na escola, escon­dido dos pro­fes­so­res. Patty pede que Ota­cí­lio leve o berço antigo dela pro colé­gio e eles dormem na sala da torre com o bebê. Na manhã seguinte, eles fazem reve­za­mento pra cuidar de João Vitor (nome que eles dão ao bebê), e a cada aula, um aluno falta, e todos dão aos pro­fes­so­res a mesma jus­ti­fi­ca­tiva pela ausên­cia. Até que Elvira des­co­bre e leva o assunto a Camilo, que se apai­xona pela cri­ança e decide adotá-la. O epi­só­dio é muito diver­tido, prin­ci­pal­mente pelas peri­pé­cias que eles fazem pra escon­der dos pro­fes­so­res que estão cui­dando de uma cri­ança na escola. Ota­cí­lio estra­nha eles pre­ci­sa­rem de um berço pra uma peça de teatro. Uma das cenas mais hilá­rias é Basí­lio ten­tando jogar a fralda suja na lixeira sem con­se­guir, porque tem sempre alguém ao lado delas. Quando ele final­mente con­se­gue, Elvira vai lá, revira o lixo e pensa que Basí­lio é quem está usando fral­das.

6. Sandy e o Homem das Mil Faces

Epi­só­dio da segunda tem­po­rada. Sandy sonha que um pote de ervi­lhas é rou­bado de um museu por um homem sem rosto e com uma tatu­a­gem de teatro na mão. No outro dia, parte da turma faz uma visita a um museu e um vali­o­sís­simo colar his­tó­rico é rou­bado. Enquanto isso, Basí­lio e Mau vão buscar uma carga de ervi­lhas para fazer um fes­ti­val culi­ná­rio no trai­ler, com a ajuda de Irene e Val­dete. Elvira conta que um famoso cri­mi­noso, conhe­cido como o Homem das Mil Faces, fugiu da prisão e a turma acre­dita que seja o mesmo do sonho de Sandy. Um fiscal chega ao colé­gio para apreen­der a carga de ervi­lha por irre­gu­la­ri­dade e Sandy reco­nhece a tatu­a­gem em sua mão, o que o faz fugir. A turma des­con­fia que ele está em busca da joia rou­bada e pro­cu­ram em todos os potes, até que acham o arte­fato e pre­pa­ram uma arma­di­lha para pegar o ban­dido na segunda noite do fes­ti­val. É um epi­só­dio que mescla sus­pense, mis­té­rio e humor de uma maneira muito satis­fa­tó­ria. As diver­sas inven­ções dos qui­tu­tes de ervi­lha que Irene e Val­dete acabam cri­ando são momen­tos ótimos também.

5. Luz, Câmera, Ação (Partes I e II)

Epi­só­dio duplo da ter­ceira tem­po­rada. A galera começa a pro­du­zir filmes para o depar­ta­mento artís­tico do CEMA. Um filme ambi­en­tado nos anos 30, cha­mado Os Reto­cá­veis, é a estreia da pro­gra­ma­ção. Alvi­nho, um ex-aluno, é con­vi­dado a par­ti­ci­par como o gangs­ter da his­tó­ria. Enquanto isso, o trai­ler de Basí­lio some e Patty retorna das férias no ori­ente total­mente incor­po­rada pela filo­so­fia da paz cin­ti­lante. Os meni­nos des­co­brem o trai­ler num ferro-velho, mas o dono exige uma multa para devolvê-lo, Patty arca com a des­pesa e entra como sócia. A turma des­co­bre que Alvi­nho está por trás do sumiço do trai­ler, por querer abrir um bar con­cor­rente, e Sandy o dis­pensa do filme. A galera faz uma festa de arre­ca­da­ção de fundos para alugar um galpão e expan­dir os negó­cios do trai­ler, agora cha­mado Espaço Deto­na­ção. Eles fecham uma par­ce­ria com a banda que era de Alvi­nho para tocar na rei­nau­gu­ra­ção, mas ele con­fisca todo o equi­pa­mento. A galera então des­co­bre que a apa­re­lha­gem era do dono do ferro-velho, fechando o alu­guel dire­ta­mente com ele. E Sandy con­se­gue com Camilo que a exi­bi­ção do filme seja no Deto­na­ção. Esse ele­tri­zante epi­só­dio duplo foi a estreia da ter­ceira tem­po­rada e refor­mu­lou muitos con­cei­tos na série. A intro­du­ção dos filmes pro­du­zi­dos pela galera deu um ar de sofis­ti­ca­ção, assim como a mudança de com­por­ta­mento de Patty deu um fres­cor à per­so­na­gem. A dimi­nui­ção da par­ti­ci­pa­ção de Sandy devido às gra­va­ções da novela Estrela-Guia não chegou a ser muito sen­tida devido ao grande número de ações que acon­te­ciam no epi­só­dio. Foi uma bela estreia de tem­po­rada.

4. O Fei­tiço do Arco-Íris

Epi­só­dio da segunda tem­po­rada. A rela­ção de Sandy e Patty chega ao esto­pim durante um tor­neio de vôlei no CEMA, gerando uma grande briga entre elas. A turma decide igno­rar Patty por um tempo, enquanto Elvira pune as duas man­dando-as cata­lo­gar todos os tipos de mine­rais encon­tra­dos no jardim da escola. Começa a chover e um estra­nho fenô­meno acon­tece quando elas passam debaixo do arco-íris, fazendo com que as duas tro­quem de corpos: Sandy vai parar no corpo de Patty e vice-versa. Irene, Val­dete, Duda, Talita e Glo­ri­nha pre­sen­ciam a cena e tentam des­co­brir uma maneira de fazê-las des­tro­car. A falsa Sandy apro­veita para sedu­zir Gus­tavo e Boca, e se super­va­lo­ri­zar em rela­ção a Junior na car­reira da dupla. Enquanto isso a falsa Patty tenta expli­car a his­tó­ria para a galera, que não lhe ouve. Irene e Val­dete contam a ver­dade para a turma e des­co­brem um jeito de rever­ter a situ­a­ção. É um epi­só­dio mara­vi­lhoso por nos mos­trar Sandy inter­pre­tando Patty, com todos seus tre­jei­tos e seu jogo de sedu­ção. As cenas dela com Boca, Junior e Gus­tavo são sur­preen­den­tes e nos mos­tram uma atu­a­ção dela que pouco conhe­ce­mos. Os epi­só­dios que trazem Sandy fora da sua rea­li­dade são sempre muito inte­res­san­tes.

3. Boa Roma­ria Faz quem em sua Casa Fica em Paz

Epi­só­dio da segunda tem­po­rada. Bebel passa por con­fli­tos em casa e decide ir morar sozi­nha em uma bar­raca de cam­ping no gra­mado do colé­gio. Riti­nha também entra em atrito com Mau e decide ir morar com Bebel, for­mando juntas um acam­pa­mento sus­ten­tá­vel, com horta e gera­dor à luz solar. Rebeca reporta a situ­a­ção a Camilo e ele pede para Bebel e Riti­nha des­mon­ta­rem a bar­raca. Elas con­cor­dam, mas na ver­dade apenas mudam a bar­raca de lugar, ins­ta­lando agora ao lado do trai­ler de Basí­lio, e Beth resolve ir morar com elas também. Em meio a isso, o pro­fes­sor Miguel sugere um tra­ba­lho sobre con­vi­vên­cia e Sandy tem a ideia de pro­du­zir um docu­men­tá­rio sobre o dia a dia das meni­nas na bar­raca. Após alguns dias, a con­vi­vên­cia entre elas se torna insus­ten­tá­vel e Basí­lio não suporta mais o acam­pa­mento atra­pa­lhando seus negó­cios, entrando em guerra com elas. Uma tem­pes­tade der­ruba o acam­pa­mento e Bebel, Riti­nha e Beth rea­va­liam a situ­a­ção. O caos que se trans­forma esse epi­só­dio com a con­vi­vên­cia das meni­nas ao lado do trai­ler de Basí­lio e a galera ten­tando pro­du­zir o docu­men­tá­rio ao mesmo tempo é mara­vi­lhoso. É um daque­les epi­só­dios de arran­car as mais boas gar­ga­lha­das.

2. Um Cara Como Você

Epi­só­dio da segunda tem­po­rada. Patty orga­niza um jantar para apre­sen­tar Gus­tavo à famí­lia, mas ele diz que ainda não está pronto pra isso, fazendo com que ela rompa a rela­ção e passe a ignorá-lo. Clara o encon­tra pen­sa­tivo e os dois tem uma con­versa sobre o tempo em que namo­ra­vam. Clara então pede a Sandy para marcar um encon­tro às escu­ras com Gus­tavo, e ela, a con­tra­gosto, con­corda. Gus­tavo pensa que a garota que vai encon­trá-lo é a pró­pria Sandy. Ao chegar ao local, ele per­cebe que a admi­ra­dora secreta é Clara, e a dis­pensa cari­nho­sa­mente. Ele então pensa em pro­cu­rar Sandy para reve­lar o que sente, porém se depara com Patty, que o con­vence a reatar a rela­ção. Um epi­só­dio muito espe­cial para quem curte o casal Sandy e Gus­tavo. Aqui fica evi­dente que ambos estão apai­xo­na­dos um pelo outro. É quando a rela­ção deles mostra mais sinais de dar certo, mas as cir­cuns­tân­cias ainda não per­mi­tem que eles fiquem juntos. O epi­só­dio per­meia ainda os outros roman­ces de Gus­tavo, nos faz recor­dar a rela­ção dele com Clara, a ten­ta­tiva dela de reatar e a maneira cari­nhosa com que ele a faz per­ce­ber que a his­tó­ria deles foi espe­cial, mas deve ficar no pas­sado, apon­tando que o futuro dele é Sandy, embora o pre­sente dele, Patty, ainda seja o momento em que ele vive. O clipe final com “Sua Estrela Sou Eu”, que já começa na tele­vi­são do trai­ler de Basí­lio, com Sandy soli­tá­ria e carente em um café, ves­tindo um sobre­tudo numa noite fria e chu­vosa, a olhar o tempo, é um dos momen­tos mais ines­que­cí­veis da série.

1. Uma Canção Para Sandy

Epi­só­dio da pri­meira tem­po­rada. Em meio aos ensaios de lan­ça­mento do novo disco da dupla, Sandy é con­vi­dada para cantar em um show bene­fi­cente sem Junior, mas ela recusa, sabendo que os jor­nais diriam que ela estava par­tindo para a car­reira solo. Junior pede para que ela faça o show, uma vez que é por uma boa causa. A rela­ção dos irmãos fica estre­me­cida pelas notí­cias de que vão se sepa­rar, porém eles con­se­guem supe­rar os boatos e con­ti­nuar a dupla. Um epi­só­dio mais que espe­cial para os fãs, que relem­bra a car­reira deles, mexe com a polê­mica comum à época, de uma suposta sepa­ra­ção da dupla, e rea­firma a força que é a car­reira dos dois juntos. O epi­só­dio que eter­ni­zou “Dias e Noites” como hino da união da dupla merece aqui ser lem­brado como o melhor da série.

Ainda há muitos outros epi­só­dios ines­que­cí­veis e mar­can­tes, que pode­riam estar aqui nessa lista, mas não cabem. Tenho cer­teza de que outros fãs con­se­gui­riam criar uma lista com mais 10 epi­só­dios espe­ci­ais rapi­di­nho. Foi uma tarefa difí­cil pra mim chegar a esses 10, por isso deixo uma menção hon­rosa a esses outros epi­só­dios abaixo também:

T1: Um Anjo Veio Aqui

T1: No Peito e na Valen­tia

T1: A Rádio CEMA está no Ar

T1: Quer Dançar Comigo?

T1: A Perna Curta da Men­tira

T1: Uma Força pro Cupido

T1: Todos Por Todos

T2: A Alma do Negó­cio

T2: Sandy e Junior e o Senhor do Tempo

T4: S.O.S Sandy

E vocês? Quais epi­só­dios são espe­ci­ais pra vocês e ainda não estão aqui?

Ranking dos álbuns de Sandy e Junior

A tarefa de enu­me­rar os álbuns de Sandy e Junior do pior ao melhor, a prin­cí­pio, pode pare­cer sim­ples, afinal eles come­ça­ram muito cri­an­ças e cada álbum novo con­se­guia supe­rar o ante­rior em qua­li­dade, caso não fosse, eles não con­se­gui­riam ter che­gado tão longe. Con­tudo, a partir de algum momento essa regra é que­brada e alguns discos mais recen­tes con­se­guem ser supe­ra­dos por outros mais anti­gos. É claro que essa é uma lista bas­tante sub­je­tiva, vai ter quem dis­corde de algu­mas posi­ções, vai ter quem não abra mão daquele disco pre­fe­rido que nunca foi una­ni­mi­dade entre os fãs. Enfim, como fã his­tó­rico dessa dupla, ex-cover, com déca­das de his­tó­rias em comum, resolvi me arris­car e des­cre­ver sobre as qua­li­da­des e a sono­ri­dade que mais me agra­dam, e claro, a memó­ria afe­tiva que todos esses discos e essas músi­cas nos trazem. Ana­li­sa­rei os 16 álbuns (12 de estú­dio e 4 ao vivo), não inclu­indo o último da turnê Nossa His­tó­ria, por se tratar mais de uma come­mo­ra­ção da car­reira deles e não apre­sen­tar nenhuma canção iné­dita. Quer sentir? Vem comigo...!

16º. Ani­ver­sá­rio do Tatu

Era de se espe­rar que este disco esta­ria na útima posi­ção. O mais sim­ples, ingê­nuo e cru da car­reira deles. Tudo muito bobi­nho ainda. As can­ções com letras bas­tante infan­tis, falando da natu­reza, dos ani­mais, de fazenda, impreg­nado de ser­ta­nejo, seguindo a pos­posta da época. Con­sigo des­ta­car aqui as duas can­ções em estilo de lam­bada: “Cha­rada” e “Lam­ba­ma­nia”. O ritmo que estava em alta no fim dos anos 80 e início dos anos 90 e fez muitos artis­tas gra­va­rem ao menos uma canção no estilo. Essas duas músi­cas fogem um pouco do padrão ser­ta­nejo do disco e con­se­guem se des­ta­car. Entre as can­ções ser­ta­ne­jas, uma se sobres­sai, “Casa­mento Natu­ral”, com par­ti­ci­pa­ção de Xororó, é uma canção des­pre­ten­si­osa, mas gos­tosa de se ouvir, mesmo hoje, pas­sa­dos tantos anos. Os dois sin­gles mais famo­sos do disco, “Ani­ver­sá­rio do Tatu” e “Maria Chi­qui­nha” não dizem muito mais hoje em dia, talvez agra­dem algum fã pela afe­ti­vi­dade, mas seus méri­tos ficam só no pas­sado.

15º. Sábado à Noite  

O segundo disco deles con­se­gue melho­rar a qua­li­dade das can­ções em rela­ção ao ante­rior, e ouso dizer que quase con­se­gue supe­rar o ter­ceiro disco, que só con­se­gue ganhar pela sono­ri­dade pop rock inves­tida em algu­mas can­ções, mas no apa­nhado geral, Sábado à Noite traz algu­mas can­ções mais inte­res­san­tes do que Tô Ligado em Você. “Vamos Cons­truir” é sem dúvida a melhor. Mas temos também “Guar­diã dos Ani­mais”, “Infân­cia Careta”, “Como Nós Somos Unidos”, “Cri­ança, Vida e Luz”, e ainda os pró­prios sin­gles “Sábado à Noite” e “A Res­posta da Mari­qui­nha”, que trazem melo­dias sim­pá­ti­cas e con­se­guem falar com seu público ainda hoje.

14º. Tô Ligado Em Você

O ter­ceiro disco e a pri­meira gui­nada na fuga do estilo ser­ta­nejo da dupla. A aposta aqui foi o musi­cal Grease, de onde Sandy herdou o nome, e a jovem guarda. O pop rock passou a domi­nar mais, mas ainda há a pre­sença do ser­ta­nejo. “Pri­meiro Amor” é a melhor canção do disco, mas também temos outras boas bala­das com “Como é Bom Gostar” e “Eu Quero Voar”. O ritmo que carac­te­riza o álbum fica por conta de “Tô Ligado Em Você” e “Splish Splash”. Mas ele traz também can­ções que con­se­guem ser mais fracas e infan­tis do que as do disco ante­rior, como “Coi­ta­di­nho do Jacaré” e “Capi­tão Sujeira”. Há também “Ciu­meira”, uma ten­ta­tiva de recriar uma canção nos mesmos moldes de “A res­posta da Mari­qui­nha”, mas o resul­tado é desas­troso.

13º. Você é D+!

Eis aqui a pri­meira quebra na sequên­cia dos álbuns da car­reira deles. Temos um disco que não con­se­guiu ser melhor do que o ante­rior, apesar de ter sido muito bem suce­dido também. Você é D+! traz boas can­ções, como “Sonho Real” (versão do filme Dirty Dacing), “É Cedo Pra Amar Assim”, “Doce Como o Mel”, “Além da Ima­gi­na­ção”, “A Gente se Gosta Demais”, e a pró­pria “Você é Demais”. Mas pecou por focar mais no infan­til com a clás­sica “O Uni­verso Pre­cisa de Vocês (Power Ran­gers)”, se dis­tan­ci­ando da imagem já mais juve­nil que haviam cons­tru­ído no disco ante­rior, Pra Dançar Com Você. Mesmo o single seguinte, “Vai Ter Que Rebo­lar”, não con­se­guiu des­ven­ci­lhá-los dessa imagem. Apesar de, mer­ca­do­lo­gi­ca­mente falando, a aposta nos Power Ran­gers ter sido um grande acerto da gra­va­dora. Temos aqui também a par­ti­ci­pa­ção espe­cial de Xuxa em uma das can­ções mais sem graça do disco, “Rap do Ani­ver­sá­rio”.

12º. Pra Dançar Com Você

O quarto álbum da dupla foi o mais bem suce­dido da fase infan­til deles. Só a pre­sença da canção “Com Você” já vale o des­ta­que desse disco. A música foi muito bem pro­du­zida e a voz de Sandy na gra­va­ção está bri­lhante. O disco mer­gu­lha muito no rock da jovem guarda com regra­va­ções de clás­si­cos como “Devolva-Me”, “Vem Quente Que Eu Estou Fer­vendo”, “Minha Fama de Mau”, “O Bom”, “Filme Triste” e “O Pica-Pau”. Faz uma relei­tura de “Nas­ce­mos Pra Cantar” de Chi­tão­zi­nho e Xororó. Explora o dance-pop com “Dance, Dance, Dance”. Temos também uma Sandy muito bem debo­chada regra­vando Rita Lee com “Maria Mole”. E o disco ainda emo­ci­ona com a canção “Cri­ança Espe­rança”, com­posta para o pro­grama de TV. Apesar de serem ainda cri­an­ças, o disco tinha uma cara mais séria, de pré-ado­les­cen­tes, o que foi per­dido um pouco no lan­ça­mento do disco seguinte.

11º. Dig-Dig-Joy

O pri­meiro disco defi­ni­ti­va­mente do início da era teen deles. Aqui as músi­cas come­çam a deixar de ser mais infan­tis e passam a focar na che­gada da ado­les­cên­cia e na des­co­berta do amor. Apesar da faixa título ainda reme­ter a um uni­verso mais lúdico, temos “Não Ter”, que faz a tran­si­ção para a música pop e leva o status deles a um outro nível. Ainda temos a clás­sica “Etc... e Tal”, a con­ta­gi­ante “Como Um Flash” (outro tema de filme, Flashdance), a diver­tida “Férias de Julho”, e “Dias e Noites”, que virou hino da dupla, graças ao epi­só­dio “Uma Canção para Sandy” da pri­meira tem­po­rada do seri­ado da Rede Globo. Outras duas músi­cas mere­cem também ser men­ci­o­na­das: “Me Apai­xo­nei” e “Cada Coisa em Seu Lugar”. Mas nem tudo é per­feito, há 5 can­ções fracas no disco: “Eu Vou Te Namo­rar”, “Golpe Certo”, “Jam­ba­laya”, “Mala Sem Alça” e “Mamãe Não Me Falou”.

10º. Ao Vivo no Mara­canã + Inter­na­ci­o­nal Extras

Ter­ceiro álbum ao vivo da dupla e o único duplo. O disco 2 é um apa­nhado das can­ções da car­reira inter­na­ci­o­nal que não foram lan­ça­das no Brasil. No ao vivo, só há can­ções dos três últi­mos álbuns lan­ça­dos e há duas músi­cas de outros artis­tas, gra­va­das pela pri­meira vez por eles: “Unin­vi­ted”, de Alanis Moris­sette e “Como é Grande o Meu Amor Por Você”, de Roberto Carlos, mas não são ver­sões de estú­dio, faz parte do reper­tó­rio do show. As mai­o­res novi­da­des desse álbum ficam por conta do Inter­na­ci­o­nal Extras. Nele temos duas can­ções iné­di­tas, “Until I See You Again” e “I Wanna Be Where You Are”, e as ver­sões em inglês de dois dos mai­o­res suces­sos da dupla: “I Will Lift You Up (As Quatro Esta­ções)” e “The Moon And The Deep Sea (A Lenda)”. Também tem a versão em espa­nhol “La Leyenda”. São jus­ta­mente as músi­cas do disco 2 que faz esse álbum ser mais espe­cial, do con­trá­rio, ele não con­se­gui­ria se des­ta­car tanto.

9º. Acús­tico MTV

O último disco deles lan­çado na car­reira é mais uma cele­bra­ção, quase uma cole­tâ­nea acús­tica ao vivo, o que sig­ni­fica que auto­ma­ti­ca­mente traz can­ções que já estão pre­sen­tes nos discos ante­ri­o­res. Geral­mente os álbuns ao vivo da dupla cos­tu­mam trazer três faixas iné­di­tas de estú­dio, mas aqui no acús­tico isso não acon­tece, elas fazem parte do reper­tó­rio ao vivo também. A mudança nos arran­jos favo­re­ceu algu­mas can­ções, mas des­fa­vo­re­ceu outras. A par­ti­ci­pa­ção espe­cial de Ivete San­galo e Mar­celo Camelo é o melhor momento do disco. Camelo impri­miu uma nova tex­tura em “As Quatro Esta­ções”, e Ivete deixou “Enrosca” mais tem­pe­rada. Des­taco ainda o novo arranjo de “Ilusão”. Mas as novas can­ções não são muito ins­pi­ra­do­ras. “Abri os Olhos”, o prin­ci­pal single, é meio depri­mente.

8º. Sandy e Junior 2006

O penúl­timo disco lan­çado e o último de estú­dio traz uma sono­ri­dade bem dis­tinta do que Sandy e Junior esta­vam acos­tu­ma­dos a lançar. É um álbum muito bom, tem ótimas can­ções, mas não traz a carac­te­rís­tica que todos iden­ti­fi­ca­mos quando fala­mos da dupla. É Sandy e Junior sem a assi­na­tura Sandy e Junior. E curi­o­sa­mente é o álbum mais auto­ral de toda a car­reira deles. Ele é o último sus­piro da fase madura da dupla, que acabou sendo a mais cur­ti­nha. Des­taco as músi­cas “Estra­nho Jeito de Amar”, “Replay”, “Tudo Pra Você”, “Ida nem Volta” e “Des­ti­nos”. A faixa “Nas Mãos da Sorte”, com par­ti­ci­pa­ção de Milton Nas­ci­mento e Black Eyed Peas, e texto de Gabriel O Pen­sa­dor, diverte e faz refle­tir ao mesmo tempo.

7º. Era Uma Vez... Ao Vivo

O pri­meiro disco ao vivo e o pri­meiro a atin­gir um milhão de cópias ven­di­das. Não é à toa que está aqui. Apesar de ser um álbum ao vivo, que traz músi­cas já pre­sen­tes nos discos ante­ri­o­res, ele se des­taca pela pre­sença das três faixas iné­di­tas de estú­dio: “Em Cada Sonho (My Heart Will Go On)”, “Cadê Você Que Não Está” e, prin­ci­pal­mente, “No Fundo do Cora­ção”, que pra mim car­rega o disco sozi­nha. No reper­tó­rio ao vivo, se sobres­saem “Não Ter” remi­xada, “Beijo É Bom” sem o diá­logo intro­du­tó­rio e o ins­tru­men­tal de “Eu Acho Que Pirei” no início, que acabou virando a aber­tura do seri­ado da Globo.

6º. Quatro Esta­ções O Show

Mais um disco ao vivo. A cele­bra­ção do sucesso de As Quatro Esta­ções. O diver­tido CD com as quatro opções de capa para cada esta­ção do ano e o recor­dista de vendas até hoje. Nova­mente aqui um álbum com a pre­sença maciça de can­ções já pre­sen­tes nos discos ante­ri­o­res e outras três faixas iné­di­tas de estú­dio para garan­tir o sucesso do pro­jeto. E o triunfo do disco veio jus­ta­mente das iné­di­tas. “A Lenda” pode ser con­si­de­rada o apogeu da car­reira da dupla, embora nem seja a música pre­fe­rida da mai­o­ria dos fãs. “Enrosca” também ajudou a movi­men­tar a divul­ga­ção do disco. A ter­ceira iné­dita é a minha canção favo­rita da dupla, “Na Boa Sem Chorar”. Na track­list ao vivo ainda temos quatro can­ções iné­di­tas na voz deles, se con­tar­mos “Pra Esquen­tar”, que é mais um intro­du­tó­rio do show. E ainda “You’re My # 1”, gra­va­ção em par­ce­ria com Enri­que Igle­sias para o álbum dele, aqui com Junior fazendo os vocais de Enri­que.

5º. Inter­na­ci­o­nal

O famoso disco em inglês que eles tanto dese­ja­vam gravar na época, a expan­são da car­reira ao mer­cado inter­na­ci­o­nal e o inves­ti­mento maciço da gra­va­dora para torná-los ídolos teen mun­di­al­mente. O álbum não fez feio no Brasil, mas me parece que ele chegou a fazer mais sucesso pela amé­rica his­pâ­nica do que no nosso país. Eu, par­ti­cu­lar­mente, gosto muito desse disco, talvez mais ainda pela memó­ria afe­tiva que ele me traz. Des­taco aqui “Don’t Say You Love Me”, “We’ve Only Just Begun”, “When You Need Some­body”, “Don’t Run Away With My Heart” e “Super-Herói”. Além, claro, dos sin­gles “Love Never Fails” e “Words Are Not Enough”.

4º. Iden­ti­dade

O pri­meiro disco do início da fase mais madura da dupla. Aqui eles come­çam a ter maior auto­no­mia e con­trole na pro­du­ção do álbum. Eu sempre enxer­guei esse disco como meio trilha sonora de Acquá­ria. Ele tem “Encanto”, “O Mundo Que Se Vê”, “Liber­tar” e “Pla­neta Água” que são do filme. E as melo­dias de “Razões Pra Sonhar” e “Conto de Amor” pra mim ainda estão ali­nha­das à mesma vibe do filme. Mas sim, é um álbum muito forte na car­reira deles. Tem os hits “Des­per­di­çou”, “Nada Vai Me Sufo­car” e “Você Pra Sempre”. Des­taco ainda “Quero Você”, “18 Graus”, “Razões Pra Sonhar”, “Liber­tar” e “Música e Paixão”. A partir dele a sono­ri­dade de Sandy e Junior começa a mudar. Ele é o gérmen do disco de 2006.

3º. Sonho Azul

O sétimo álbum da dupla con­se­gue aqui chegar ao top 3. Com ele, Sandy e Junior se con­sa­gra­ram como ídolos teen. Um dos discos mais que­ri­di­nhos dos fãs até hoje. E a expli­ca­ção está na sua diver­si­dade de músi­cas pop român­ti­cas, um leque de com­po­si­ções muito feli­zes e vários sin­gles de sucesso. Pode­mos come­çar des­ta­cando as clás­si­cas “Beijo É Bom”, “Ines­que­cí­vel” e “Eu Acho Que Pirei”. Mas não é só isso, temos também “Pot-Pourri Bee Gees”, “Ilusão”, “Little Cowboy”, “Feli­ci­dade Como For”. E um pou­qui­nho menos conhe­ci­das, mas que­ri­di­nhas também: “Sonho Azul”, “Mais Um Tempo Pra Cres­cer” e “Não Abuse de Mim”. E não para ainda. Temos “Era Uma Vez...” que entrou na segunda tira­gem do disco como faixa bônus, em razão da gra­va­ção da música para a novela da Globo. É um ver­da­deiro álbum de peso, digno de estar aqui na ter­ceira colo­ca­ção.

2º. Sandy e Junior 2001

Se há um álbum que é una­ni­mi­dade entre os fãs, ele está aqui. O disco de 2001 chegou com a res­pon­sa­bi­li­dade de subs­ti­tuir As Quatro Esta­ções e não deixou a dese­jar. Ele é repleto de muitos dos mai­o­res suces­sos da dupla, como “O Amor Faz”, “A Gente Dá Certo”, “Não Dá Pra Não Pensar”, “Quando Você Passa (Turu Turu)”, “Cai a Chuva” e “Nada É Por Acaso”. E ainda tem outras músi­cas conhe­ci­das do público e que­ri­di­nhas de alguns fãs, como “A Estrela Que Mais Bri­lhar”, “O Lugar Per­feito Pro Amor Viver”, “Baby, Liga Pra Mim”, “Chuva de Prata” e “End­less Love”. É tanto sucesso que sempre gera dis­cus­são a dis­puta do melhor disco da dupla, com uma grande quan­ti­dade dos fãs o ele­gendo o favo­rito.

1º. As Quatro Esta­ções

Por mais que o álbum de 2001 tenha sido mara­vi­lhoso e con­se­guido cum­prir sua missão com louvor, nada con­se­guiu supe­rar o êxito desse aqui. As Quatro Esta­ções segue sendo o melhor disco da car­reira de Sandy e Junior. Ele repre­sen­tou um novo rumo na tra­je­tó­ria da dupla e foi res­pon­sá­vel por trans­formá-la no fenô­meno comer­cial que conhe­ce­mos. O grande número de can­ções de sucesso do disco prova que as ino­va­ções ocor­ri­das no reper­tó­rio foram mais do que acer­ta­das. São dele as músi­cas “Imor­tal”, “Apren­der a Amar”, “Olha O Que O Amor Me Faz”, “Eu Quero Mais”, “Vamo Pulá!” e, claro, “As Quatro Esta­ções”. O álbum ainda traz outras can­ções não tão famo­sas, mas conhe­ci­das do público, como “Bye, Bye”, “Baby, Eu Já Sabia”, “Prín­cipe dos Mares”, “A Arte do Cora­ção” e “Sua Estrela Sou Eu”. E ainda temos a belíss­sima canção ita­li­ana “Malia”, que foi pro­du­zida para a trilha sonora da novela Terra Nostra, fechando o disco. Por todo seu legado e o impacto cul­tu­ral que causou, As Quatro Esta­ções é, sem dúvida, o melhor álbum da dupla Sandy e Junior.

Ranking das Temporadas da série Smallville

Todo fã de Small­ville já tentou, volun­tá­ria ou invo­lun­ta­ri­a­mente, criar seu pró­prio ranking das melho­res tem­po­ra­das da série. Há quase um con­senso de que Small­ville só foi uma série boa de ver­dade até a sexta tem­po­rada. A partir da sétima, ela come­çou a enfren­tar difi­cul­da­des na con­du­ção do roteiro e dire­ção da his­tó­ria. E com a saída de três figu­ras impor­tan­tes a partir da oitava tem­po­rada, Lana, Lex e Lionel, ela perdeu muito da sua força e carac­te­rís­ti­cas ori­gi­nais. Claro que cada fã tem sua tem­po­rada pre­fe­rida, e cada tem­po­rada tem uma sub­je­ti­vi­dade que vai encan­tar ou frus­tar um fã em par­ti­cu­lar. Então como fã assí­duo e apai­xo­nado por Small­ville desde os pri­mór­dios, resolvi esta­be­le­cer meu ranking das melho­res tem­po­ra­das da série, com todo o cari­nho que ela merece, mas atento aos ine­vi­tá­veis des­li­zes que per­cor­reu. Some­body save me...!!!

10º. Nona Tem­po­rada

A tem­po­rada mais decep­ci­o­nante de todas é também a mais som­bria. Embora logo no início tenha­mos um vis­lum­bre inte­res­sante do que seria o desen­ro­lar da tem­po­rada com as visões de Lois do futuro, a tem­po­rada se perde quando o futuro que Lois visi­tou é alte­rado e não se rea­liza mais. A partir daí a tem­po­rada começa a pati­nar. Passa a focar na busca de Zod pelo livro de RAO, que seria a fonte de conhe­ci­mento do uni­verso e lhe daria uma força ini­ma­gi­ná­vel. No entanto, o livro só serve para enviar os kan­do­ri­a­nos a uma nova dimen­são. Uma solu­ção muito con­ve­ni­ente para os rotei­ris­tas se livra­rem deles. A tem­po­rada ainda é cheia de furos no roteiro. No epi­só­dio em que Zod morre com um tiro, Clark res­su­cita seu ini­migo der­ra­mando seu sangue na ferida dele, mas não pensou em fazer o mesmo quando Jor-El também morreu em seus braços. Em outro momento, quando a kan­do­ri­ana Alia retorna do futuro com Lois e tenta matá-la, ela não pode­ria mais ter pode­res, porque os kan­do­ri­a­nos só tinham poder sob efeito do sol ver­me­lho, e minu­tos antes das duas retor­na­rem do futuro, Alia já não pode­ria mais ter pode­res. Esse é o furo mais escan­ca­rado de toda a série. Aquele epi­só­dio dos zumbis também é um dos momen­tos mais paté­ti­cos. E ainda temos a ques­ti­o­ná­vel deci­são de Clark usar sobre­todo preto como uni­forme. Talvez nessa tem­po­rada só se salvem os epi­só­dios sobre a Soci­e­dade da Jus­tiça e o retorno de Martha Kent.

9°. Oitava Tem­po­rada

Essa tem­po­rada come­çou pro­me­tendo trazer um novo ânimo à série, que vinha cam­ba­le­ando na tem­po­rada ante­rior. A aguar­dada par­ce­ria de Clark e Lois no Pla­neta Diário pare­cia fazer o seri­ado entrar nos eixos nova­mente, mas esse fôlego durou apenas alguns epi­só­dios. Apesar de ter alguns momen­tos bons, como a par­ti­ci­pa­ção da Legião e o retorno de Lana, e muitos fãs a con­si­de­ra­rem uma das melho­res tem­po­ra­das, ela peca em três pontos cru­ci­ais. O pri­meiro é, em razão da his­tó­ria de Davis Bloome, ter feito Lionel des­con­fiar ou pra­ti­ca­mente ter cer­teza de que Clark é o via­jante pouco tempo depois da chuva de mete­oro, tor­nando total­mente sem sen­tido todas as dúvi­das que Lionel tinha a res­peito de Clark durante as pri­mei­ras tem­po­ra­das. Um furo de roteiro que jogou no lixo todo o vali­oso tra­ba­lho rea­li­zado no início da série. Vale des­ta­car que a partir dessa tem­po­rada, os cri­a­do­res ori­gi­nais saíram de cena e os dire­to­res exe­cu­ti­vos assu­mi­ram a auto­ria da his­tó­ria. Os outros dois pontos dizem res­peito às mortes de Lex e Jimmy. Matar Lex foi uma deci­são bas­tante equi­vo­cada dos rotei­ris­tas. Um per­so­na­gem tão impor­tante não pode­ria morrer de uma maneira tão estú­pida. Eles pode­riam apenas tê-lo man­tido sumido para trazê-lo de volta no fim da série. Teria tido muito mais impacto do que trazer um clone dele. Já Jimmy só morreu porque os rotei­ris­tas não que­riam mais tra­ba­lhar com ele na tem­po­rada seguinte. Então inven­ta­ram aquela falá­cia de que Jimmy não era o ver­da­deiro Jimmy, apenas o irmão mais velho dele. Sendo que desde que o per­so­na­gem foi apre­sen­tado, lá na sexta tem­po­rada, ficou claro que se tra­tava de Jimmy Olsen dos qua­dri­nhos. A falta de com­pro­misso com o legado da série é o que des­trói essa tem­po­rada.

8º. Sétima Tem­po­rada

Uma tem­po­rada meio pro­ble­má­tica, talvez em parte pela greve dos rotei­ris­tas que afetou seu desen­vol­vi­mento, inclu­sive impos­si­bi­li­tando Kris­tin Kreuk de reto­mar Lana nos últi­mos cinco epi­só­dios, em razão de seu com­pro­misso com o filme de Chun-Li. Mas antes disso, a tem­po­rada já estava fraca. A série vinha numa cres­cente até a sexta tem­po­rada e a partir daqui tem uma queda e começa a perder um pouco sua dire­ção. A che­gada de Kara pare­cia ser o grande dife­ren­cial, mas acabou não sur­tindo o efeito espe­rado. O romance de Lana e Clark, aqui final­mente livre de segre­dos, ficou sem força, quase apá­tico. A saída de Martha Kent também fez falta para o uni­verso de Clark, espe­ci­al­mente com a che­gada de Kara. Entre­tanto, talvez por contar ainda com a pre­sença de Lex, Lionel e Lana a tem­po­rada con­se­gue se sair melhor do que a oitava e a nona. Des­taco aqui a his­tó­ria de Grant Gabriel, o clone do tão emble­má­tico Julian Luthor. E o desen­vol­vi­mento da soci­e­dade secreta Veri­tas. Ponto posi­tivo também para o assas­si­nato de Lionel por Lex, um dos pontos mais altos dessa tem­po­rada.

7º. Décima Tem­po­rada

A última tem­po­rada tenta res­ga­tar a origem da série, mas fica um pouco difí­cil com a ausên­cia de tantos mem­bros do elenco ori­gi­nal. Até Chloe, a única que per­ma­ne­ceu até a nona tem­po­rada, só apa­rece em alguns epi­só­dios aqui. Con­tudo, eles con­se­gui­ram trazer Jona­than e Martha Kent, Lionel Luthor, Kara, Zod e final­mente Lex Luthor na parte II do epi­só­dio final. A par­ti­ci­pa­ção de todos esses per­so­na­gens aquece um pouco o cora­ção dos fãs fiéis e sau­do­sos. A tem­po­rada acaba ser­vindo mais para for­ta­le­cer e esta­be­le­cer a rela­ção de Clark e Lois, a cum­pli­ci­dade entre os dois, com Clark final­mente com­par­ti­lhando seu segredo com ela. Há outros momen­tos inte­res­san­tes, como o arco que envolve a luta contra o Ato de Regis­tro dos Vigi­lan­tes, também os epi­só­dios foca­dos nas duas famí­lias Luthor e Kent. Con­tudo, aque­les epi­só­dios paro­di­ando Matrix e Se Beber Não Case é um ponto fora da curva. No fim, é uma boa tem­po­rada, mas apesar de todo o esforço, ainda não con­se­gue supe­rar tudo que já tinha sido feito nos seis pri­mei­ros anos.

6º. Segunda Tem­po­rada

O segundo ano de Small­ville foi como uma con­ti­nu­a­ção da pri­meira tem­po­rada, mas com alguns avan­ços no arco da série. Aqui temos Clark reve­lando seu segredo a Pete, e este pas­sando a ser seu novo aliado. Temos a intro­du­ção da visão de calor e da kryp­to­nita ver­me­lha, nos pro­por­ci­o­nando momen­tos mara­vi­lho­sos de um Clark Kent sem pudo­res. Temos ainda a des­co­berta das Caver­nas Kawat­che e toda a sua impor­tân­cia na busca das ori­gens de Clark. Há ainda Martha tra­ba­lhando com Lionel, que por ter ficado cego passa a morar com Lex. E por fim, temos o Dr. Virgil Swann, na sim­bó­lica par­ti­ci­pa­ção espe­cial de Chris­top­her Reeve, tra­zendo as men­sa­gens espa­ci­ais com a reve­la­ção do nome de batismo de Clark, Kal-El, do nome do seu pla­neta e o conhe­ci­mento da sua extin­ção. A fase final dessa tem­po­rada é quase uma pre­pa­ra­ção para a incrí­vel tem­po­rada seguinte. A prova que Small­ville era defi­ni­ti­va­mente uma série que tinha che­gado pra ficar e que tinha muito ainda a ser explo­rado.

5º. Pri­meira Tem­po­rada

Apesar da segunda tem­po­rada ter mer­gu­lhado mais na mito­lo­gia do Super­man, a pri­meira tem­po­rada é a razão da série exis­tir e ter feito tanto sucesso. É a origem de tudo, a intro­du­ção dos per­so­na­gens tão que­ri­dos dos fãs ainda no início de seus con­fli­tos. Temos um Clark des­co­brindo novos pode­res ao mesmo tempo que tenta admi­nis­trar os que já têm. Temos a vali­osa ori­en­ta­ção da famí­lia Kent na cons­tru­ção do seu cará­ter. Temos ainda um Lex amigo, que apesar do inte­resse no mis­té­rio que ele acre­dita ser Clark Kent, ainda demons­tra uma ver­da­deira afei­ção pela sua ami­zade com Clark. Temos o início do envol­vi­mento amo­roso entre Clark e Lana, aqui ainda sob a sombra de Whit­ney. E temos o início da cons­tru­ção da rela­ção de Lionel e Lex, seus con­fli­tos e trau­mas do pas­sado e a busca de Lex por um reco­meço de seus anos de erros em Metró­po­lis. É uma tem­po­rada apai­xo­nante e que tem um dos pri­mei­ros des­fe­chos impac­tan­tes da série.

4°. Sexta Tem­po­rada

A última tem­po­rada bem desen­vol­vida de Small­ville cos­tuma, às vezes, ser subes­ti­mada, como se a série já esti­vesse um pouco per­dida aqui, o que não é ver­dade, até o final ela prova ser uma autên­tica tem­po­rada de Small­ville. Apesar do arco prin­ci­pal ser a cap­tura dos pri­si­o­nei­ros fugi­ti­vos da Zona Fan­tasma, ela acaba mesmo sendo a tem­po­rada da rela­ção entre Lana e Lex, que cul­mina no con­tro­verso casa­mento, em um dos pontos mais altos da tem­po­rada. E talvez, jus­ta­mente pela rela­ção de Lana com Lex, muitos con­si­de­rem que a série perde o foco, mas a maneira como a rela­ção entre eles é cons­tru­ída, desde a quinta tem­po­rada, tem muito emba­sa­mento. É um pro­cesso. Pri­meiro a carên­cia de Clark leva Lana a se apro­xi­mar de Lex, como se qui­sesse fugir de si mesma. Depois quando ela começa a enxer­gar o ver­da­deiro Lex e pensa em sair da rela­ção, se vê impos­si­bi­li­tada. O evento do casa­mento e a des­co­berta da falsa gra­vi­dez são os gran­des cata­li­sa­do­res que fazem virar a rela­ção e levar Lana agora a buscar vin­gança contra Lex. Essa trans­for­ma­ção da per­so­na­gem é fan­tás­tica. E a tem­po­rada ainda nos intro­duz a Oliver Queen/Arqueiro Verde, de maneira bri­lhante. Assim como apre­senta a for­ma­ção da Liga da Jus­tiça. E traz a figura de Zod, pos­su­indo o corpo de Lex, logo no início. É sim uma grande tem­po­rada.

3º. Ter­ceira Tem­po­rada

A ter­ceira tem­po­rada de Small­ville tem uma das mais espe­ta­cu­la­res estreias. Temos um Clark sem cen­sura, cons­ci­en­te­mente sob efeito da kryp­to­nita ver­me­lha, assal­tando banco, explo­dindo via­tu­ras da polí­cia, enfren­tando mafi­o­sos e cur­tindo as noites de Metró­po­lis, ten­tando esque­cer seu pas­sado. Ao mesmo tempo que temos Lex, dado como morto, sobre­vi­vendo numa ilha deserta em meio a muitos delí­rios. No decor­rer da tem­po­rada, temos a cons­tru­ção da his­tó­ria do assas­si­nato dos pais de Lionel, orques­trado por ele pró­prio, e que vai cul­mi­nar no surto psi­có­tico de Lex, num dos momen­tos mais emble­má­ti­cos de toda a série, envol­vendo a figura de Morgan Edge. Ainda temos a tera­pia de res­sus­ci­ta­ção, a partir do sangue de Clark, que leva Adam Knight a se apro­xi­mar de Lana. Temos também Lionel chan­ta­ge­ando Chloe para obter infor­ma­ções sobre Clark, o que afeta a con­fi­ança de Clark nela. Lana e Pete indo embora de Small­ville. Clark dando as costas a Lex, depois de des­co­brir que ele con­ti­nua inves­ti­gando sobre sua vida. E, por fim, Lionel preso. A sequên­cia final do último epi­só­dio é a explo­são de todos os con­fli­tos bem arma­dos ao longo de uma tem­po­rada de arre­piar.

2º. Quarta Tem­po­rada

Uma tem­po­rada espe­ta­cu­lar! A come­çar pela entrada de Lois Lane na his­tó­ria. Desde o pri­meiro momento Erica Durance se mos­trou per­feita no papel da inqui­eta e des­te­mida Lois. Temos aqui o pri­meiro e mais incrí­vel voo de Clark em toda a série. O grande arco dessa tem­po­rada se con­cen­tra na busca das três pedras do poder, que juntas irão formar a For­ta­leza da Soli­dão no final da tem­po­rada. A busca pelas pedras envolve os Luthors, os Tea­gues e até uma bruxa do século XVII, a Con­dessa Mar­ga­ret Isobel Tho­re­aux, pos­su­indo o corpo de sua des­cen­dente Lana. Em meio a toda essa caça, temos a rela­ção de Lana e Jason Teague, e sua mis­te­ri­osa mãe, Gene­vi­eve. Temos Clark final­mente entrando para o time de fute­bol ame­ri­cano da escola. Chloe des­co­brindo o segredo de Clark e man­tendo sigilo, à espera que ele pró­prio confie nela e lhe conte. Lana cau­sando o caos do Kansas à China, sempre que a Con­dessa Isobel toma seu corpo. Temos ainda a for­ma­tura do High School com a des­pe­dida do cená­rio da Tocha e seu mural do esqui­sito. E pra com­ple­tar essa ele­tri­zante tem­po­rada, temos uma segunda chuva de mete­o­ros, que traz a desor­dem a Small­ville e uma nova espa­ço­nave. É uma tem­po­rada de perder o fôlego, com a melhor assi­na­tura Small­ville.

1º. Quinta Tem­po­rada

A melhor de todas as tem­po­ra­das é a que faz a tran­si­ção do High School para o Pla­neta Diário, para Metró­po­lis. É quando a série atinge o seu melhor momento. Lana e Clark final­mente enga­tam um rela­ci­o­na­mento que, apesar dos per­cal­ços, dura 16 epi­só­dios. Surge a For­ta­leza da Soli­dão. Chloe vira a fiel con­fi­dente de Clark e começa a tra­ba­lhar no Pla­neta Diário. Lois entra para o elenco fixo. Jona­than decide con­cor­rer ao Senado contra Lex. Apa­rece um dos melho­res vilões da série, Brai­niac/Milton Fine. Tem início o envol­vi­mento de Lana com Lex, e o seu enve­re­da­mento pelo lado som­brio. E temos a des­pe­dida de um dos mais que­ri­dos per­so­na­gens de Small­ville, Jona­than Kent, em um dos epi­só­dios mais emo­ci­o­nan­tes da série inteira. Des­taco ainda dois epi­só­dios muito mar­can­tes. O pri­meiro deles é Expo­sed, quando  Lois e Clark bancam os dete­ti­ves numa inves­ti­ga­ção de assas­si­nato, e, durante uma sequên­cia mara­vi­lhosa, Lois faz strip tease numa boate, ao som de Don’t Cha. O outro é o epi­só­dio de natal, Lexmas, em que Lex é bale­ado na cabeça e durante a cirur­gia, ele sonha com uma vida com­ple­ta­mente dife­rente, onde ele está casado com Lana, tem um filho, espe­ram outro, moram numa casa modesta e tem o cari­nho e o res­peito dos Kent. É uma tem­po­rada de encher os olhos. Daqui Small­ville não con­se­guiu ir mais longe. A quinta tem­po­rada foi o ápice de uma das melho­res séries de super-heróis já pro­du­zi­das.

Os melhores finais de temporada de Smallville

Se tem um aspecto em que a série Small­ville con­se­guia se des­ta­car eram os finais de tem­po­rada. Sempre que algum ano ia fina­li­zar era cer­teza ter um grande epi­só­dio pela frente, com acon­te­ci­men­tos que nos cau­sa­ria espanto, fas­cí­nio, paixão, pre­o­cu­pa­ção, entre outros sen­ti­men­tos, e nos pren­de­ria à espera da nova tem­po­rada. Isso come­çou já na pri­meira tem­po­rada e foi seguindo assim ao longo dos anos. A fór­mula era basi­ca­mente a mesma, deses­ta­bi­li­zar um evento impor­tante, pro­vo­car o caos, colo­car os prin­ci­pais per­so­na­gens em situ­a­ções de perigo extremo, gerar acon­te­ci­men­tos impac­tan­tes, que pare­ciam não ter solu­ção, dei­xando o des­fe­cho para o início da tem­po­rada seguinte, o que gerou ine­vi­ta­vel­mente incrí­veis estreias de tem­po­ra­das. Tanto é que os melho­res epi­só­dios finais são jus­ta­mente aque­les que mais caos apre­sen­tam em seu roteiro. Em alguns momen­tos tive­mos finais não tão ele­tri­zan­tes assim, mas no geral a série nos pre­sen­teou com ótimos des­fe­chos. Pen­sando nisso, decidi eleger os melho­res finais de tem­po­rada de Small­ville ao longo de suas dez tem­po­ra­das. Uma tarefa deli­cada, já que esta­mos falando de dez epi­só­dios que dei­xa­ram sua marca na his­tó­ria da série, e por isso é sempre com­pli­cado apon­tar falhas ou equí­vo­cos de roteiro, mas ten­ta­rei ser justo.

10º. Dooms­day (Oitava Tem­po­rada)

A oitava tem­po­rada con­se­guiu ter o epi­só­dio final mais insí­pido de toda a série, o mais sem nexo. Durante toda a tem­po­rada foi cons­tru­ída a nar­ra­tiva que Davis Bloome iria se trans­for­mar defi­ni­ti­va­mente no Apo­calypse e ele seria um ini­migo inven­cí­vel para Clark. Quando che­ga­mos no último epi­só­dio, Clark separa Davis da besta, e na sequên­cia temos uma luta sim­pló­ria entre eles, antes de Clark enterrá-lo nos túneis de uma ins­ta­la­ção geo­ter­mal e explodi-los. Enquanto isso, durante uma como­vente cena de recon­ci­li­a­ção entre Chloe e Jimmy, Davis acerta Jimmy com uma vara que atra­vessa seu corpo. A sequên­cia seguinte é o enterro de Jimmy, com Chloe colo­cando a câmera foto­grá­fica no pes­coço do irmão caçula dele, que nunca nin­guém ouviu falar, sim­bo­li­zando que ele é que seria o Jimmy Olsen das HQs. Depois Clark, num tom total­mente som­brio e melan­có­lico, diz a Chloe que Clark Kent morreu e desa­pa­rece. O epi­só­dio ter­mina e nos deixa lite­ral­mente com a sen­sa­ção de “que merda foi essa”? Parace que a inten­ção dos rotei­ris­tas era chocar a qual­quer preço, numa urgên­cia de criar um final extra­or­di­ná­rio. Nin­guém enten­deu a neces­si­dade da morte do per­so­na­gem de Jimmy. Foi a última pá de cal numa tem­po­rada que não soube pre­ser­var o legado da série.

9º. Arctic (Sétima Tem­po­rada)

Uma tem­po­rada pro­ble­má­tica não pode­ria nos for­ne­cer um final muito inte­res­sante. Todo o epi­só­dio é focado na final­mente che­gada de Lex Luthor à For­ta­leza da Soli­dão. Come­ça­mos com Bri­a­niac dis­far­çado de Kara ame­a­çando Edward Teague num jati­nho e der­ru­bando o avião. Ele ainda tenta ganhar a con­fi­ança de Lex, depois de não con­se­guir roubar o orbe. Chloe acaba sendo outra vítima dele, antes de Clark con­se­guir des­trui-lo numa esta­ção de alta vol­ta­gem. Ainda temos o vide­o­tape de Lana para Clark, avi­sando que ela vai sair da vida dele para sempre. E na For­ta­leza, temos o aguar­dado con­fronto entre Clark e Lex, com este final­mente conhe­cendo seu segredo. Depois de muitas acu­sa­ções e apelos de Clark, Lex insere o orbe na For­ta­leza e ela des­mo­rona sobre o dois. Infe­liz­mente, não foi um fim de tem­po­rada bri­lhante, como está­va­mos acos­tu­ma­dos, até o efeito do colapso da For­ta­leza ficou aquém do que a série já pro­du­ziu.

8º. Final (Décima Tem­po­rada)

O final da série, que traz o des­fe­cho de toda a his­tó­ria ao longo dos dez anos, sur­preen­den­te­mente, não con­se­gue ser o melhor final de tem­po­rada. O epi­só­dio emo­ci­ona em alguns momen­tos, até pela con­cre­ti­za­ção de acon­te­ci­men­tos aguar­da­dos há muito tempo, mas no geral não con­se­gue ter um con­junto de situ­a­ções impac­tan­tes que englo­bem todo o epi­só­dio. A pri­meira parte do epi­só­dio duplo foca no casa­mento de Lois e Clark. A prin­cí­pio ela está inse­gura, por achar que o mundo pre­cisa mais de Clark do que ela, mas acaba mudando de ideia. O casa­mento é inter­rom­pido ao verem o pla­neta Apoko­lips, asso­ci­ado a Dark­seid, se apro­xi­mar da Terra. O momento mais emo­ci­o­nante dessa pri­meira parte são as pala­vras de força e enco­ra­ja­mento de Martha e Jona­than para Clark acei­tar final­mente seu des­tino e enfren­tar Apoko­lips. Na segunda parte, os melho­res momen­tos ficam por conta do retorno de Lex, seu reen­con­tro com Clark e o con­fronto com Tess na Luthor­corp. E, claro, Clark final­mente ves­tindo seu uni­forme e sal­vando o pla­neta, embora de uma maneira muito sin­gela para um momento tão aguar­dado. Inco­moda no epi­só­dio a uti­li­za­ção da ameaça de um pla­neta como último recurso para enfren­tar Clark. Parece que os rotei­ris­tas já tinham esgo­tado todas as pos­si­bi­li­da­des de impres­si­o­nar nos finais das outras tem­po­ra­das, que só restou um pla­neta com impacto sufi­ci­ente para ame­a­çar Clark. Me pare­ceu um recurso pre­gui­çoso. Tudo é resol­vido de forma fácil, sem con­ven­ci­mento e emoção, carac­te­rís­ti­cas tão pre­sen­tes em tantos finais de tem­po­ra­das ante­ri­o­res. Con­tudo, a con­cre­ti­za­ção dos des­fe­chos tão aguar­da­dos de toda a série somam alguns pontos e con­se­guem impri­mir um sabor espe­cial ao epi­só­dio, como a sequên­cia final ao som do clás­sico do Super­man.

7°. Phan­tom (Sexta Tem­po­rada)

O final da sexta tem­po­rada é o pri­meiro a cair um nível dos ele­tri­zan­tes finais de tem­po­ra­das da série. Não chega a ser ruim, mas não emo­ci­ona sufi­ci­en­te­mente como os ante­ri­o­res. Ele começa com a ten­ta­tiva de J’onn J’onzz e de Lex de cap­tu­rar o hos­pe­deiro do fan­tasma mais pode­roso que esca­pou da Zona Fan­tasma. Temos Lana avi­sando a Clark que vai se sepa­rar de Lex e que já sabe seu segredo. Chloe curando Lois de uma facada apenas pelo toque de sua lágrima e ficando incons­ci­ente. Lex ame­a­çando Lana, depois que ela diz que vai largá-lo, e o carro dela explo­dindo com ela dentro. E na represa, para onde Lex levou o atual hos­pe­deiro do fan­tasma ador­me­cido e onde ele tem seu exér­cito de clones, desen­ro­lam-se os acon­te­ci­men­tos finais, com o fan­tasma acor­dando e des­tru­indo tudo e todos pela frente, Clark acu­sando Lex de matar Lana, o fan­tasma se cho­cando contra Clark e cri­ando uma cópia idên­tica dele, Lex sendo preso pelo assas­si­nato de Lana e a cópia de Clark fugindo ao romper a represa. Um bom final, mas não supe­rior aos outros já pro­du­zi­dos.

6º. Sal­va­tion (Nona Tem­po­rada)

Sal­va­tion é o epi­só­dio final da nona tem­po­rada, nos mos­trando o con­fronto final entre Clark e Zod. Ela tem um início inte­res­sante, com Clark tendo um sonho com um vis­lum­bre do futuro, em que Lois já é a prin­ci­pal repór­ter do Pla­neta Diário, Perry White o editor-chefe, Lex Luthor está con­cor­rendo à pre­si­dên­cia e uma sombra azul e ver­me­lha pelo céu salva um avião de se chocar contra o jornal. Quando ele acorda, se depara com um pacote dei­xado por Martha, o uni­forme ofi­cial do Super­man. É uma bela sim­bo­lo­gia do des­tino da série. O epi­só­dio segue com Zod ten­tando con­ven­cer Lois de que ele é o borrão e pedindo ajuda dela para encon­trar o Livro de RAO. Tem ainda os kan­do­ri­a­nos espa­lhando o sím­bolo de Zod nos prin­ci­pais monu­men­tos ao redor do mundo. Lois seguindo sua pró­pria inves­ti­ga­ção e des­co­brindo não só que Zod mente, mas que Clark é o borrão. E Clark final­mente con­ven­cendo os kan­do­ri­a­nos a irem para um outro mundo, usando o Livro de RAO. Con­tudo, Zod con­se­gue se livrar ao puxar uma adaga de kryp­to­nita azul e travar uma luta com Clark. Ele con­se­gue enfiar a adaga em Clark, mas acaba sendo sugado também pelo dis­po­si­tivo quando Clark cai da borda do prédio. É um final sur­preen­dente para uma tem­po­rada fraca.

5º. Cove­nant (Ter­ceira Tem­po­rada)

A ter­ceira tem­po­rada tem uma das sequên­cias finais mais emble­má­ti­cas de toda a série, mas o epi­só­dio em si no geral não é tão impres­si­o­nante. O epi­só­dio começa com a che­gada de uma jovem nua, dizendo ser Kara e que pre­cisa levar Clark com ela. Ela demons­tra ter os pode­res de Clark e ainda desin­te­gra um espião que escu­tava a con­versa deles na fazenda. Segundo ela, todos em volta de Clark vão aban­doná-lo ou trai-lo, o que acaba acon­te­cendo. Clark des­co­bre que Lex con­ti­nua inves­ti­gando a vida dele e rompe a ami­zade com ele após depor contra Lionel. Lana vai embora para Paris. Clark então decide ir para a caverna com a suposta Kara. Mas Jona­than des­co­bre que a tal moça na ver­dade se chama Lind­say e não é de Kryp­ton, Jor-El apenas a usou para atrair Clark. Com a inde­ci­são de Clark, Jor-El suga Lind­say e enforca Jona­than, obri­gando Clark final­mente entrar na fis­sura da caverna. Daí temos uma das mais céle­bres sequên­cias de toda a série. Após a con­de­na­ção de Lionel Luthor, um car­ce­reiro começa a raspar a cabeça dele. E enquanto raspa, Martha corre para ver um cír­culo de fogo que surgiu na fazenda, Chloe e seu pai chegam à casa de pro­te­ção a tes­te­mu­nhas e em seguida a casa explode, Lex bebe um drin­que em casa para come­mo­rar a prisão de Lionel e engasga ao per­ce­ber que a bebida estava enve­ne­nada, caindo sobre uma mesa de vidro, Jona­than per­ma­nece desa­cor­dado no chão da caverna, e Clark, sem roupa, flutua dentro do sím­bolo da casa de El, em um ambi­ente escuro, sob a voz de Jor-El afir­mando que ele irá renas­cer. Um final que nos deixa de queixo caído.

4º. Exodus (Segunda Tem­po­rada)

Um exce­lente final de tem­po­rada, repleto de revi­ra­vol­tas. Ele tem início com a nave espa­cial de Clark assu­mindo as memó­rias e a von­tade de Jor-El e dando a Clark vinte quatro horas para deixar sua famí­lia e cum­prir seu des­tino kryp­to­ni­ano. Temos Lana e Clark juntos pela pri­meira vez, em clima de puro romance, pre­o­cu­pa­dos em como contar para Chloe sobre eles, sem des­con­fi­a­rem que ela já sabe. Temos a dupli­cata da chave do buraco da caverna, feita de kryp­to­nita, que Lionel produz, e Clark decide usá-la para des­truir a nave e evitar que ele tenha que aban­do­nar Small­ville. Enquanto Martha e Jona­than seguem para o casa­mento de Lex e Helen, Clark dá início ao seu plano, rejei­tando a visita ines­pe­rada de Chloe, que acaba per­dendo a paciên­cia com ele e acei­tando a oferta de Lionel para esta­giar no Pla­neta Diário em troca de infor­ma­ções sobre Clark. Ao enfiar a chave na nave, Clark con­se­gue des­trui-la, mas causa uma enorme explo­são e uma gigan­tesca onda de choque, que vira a picape de Jona­than e Martha, resul­tando no aborto dela. Arra­sado, Clark decide aban­do­nar Small­ville como Jor-El queria, e nem os apelos de Lana, aos pran­tos, o con­ven­cem do con­trá­rio. Ele enfia o anel de kryp­to­nita ver­me­lha no dedo, monta na moto e vai embora. E ainda temos Lex acor­dando ator­do­ado no avião que sairia em lua de mel, em meio a uma tur­bu­lên­cia, sem nin­guém no con­trole, indo direto para o mar. Um espe­ta­cu­lar final de tem­po­rada.

3º. Vessel (Quinta Tem­po­rada)

A quinta tem­po­rada tem um dos melho­res finais de tem­po­rada de Small­ville. O epi­só­dio é focado em Brai­niac pre­pa­rando o corpo de Lex para Zod assumi-lo. E o dilema de Clark em matar ou não o recep­tá­culo de Zod, o que auto­ma­ti­ca­mente mata­ria Lex. Ainda no começo, Lex é abdu­zido por Brai­niac na frente de Lana, e ao retor­nar, ele tem os mesmos pode­res de Clark. Brai­niac espa­lha um vírus no com­pu­ta­dor de Lex e todos os sis­te­mas de ener­gia do mundo, a partir do Kansas, come­çam a falhar. Em pouco tempo, o caos se ins­tala nas prin­ci­pais cida­des. No celeiro, Clark con­fronta Lex, mas lança o facão em Brai­niac, e com isso abre o portal para a entrada de Zod, que passa defi­ni­ti­va­mente a assu­mir o corpo de Lex. Zod então envia Clark para a Zona Fan­tasma, depois que ele se recusa a se juntar a ele. No topo do Pla­neta Diário, Zod é sur­preen­dido pela che­gada de Lana que afirma que não o aban­do­nará. E eles se beijam, sem que ela saiba que se trata de Zod. Um final ele­tri­zante e na mais com­pleta desor­dem, no melhor estilo Small­ville.

2º. Tem­pest (Pri­meira Tem­po­rada)

O final da pri­meira tem­po­rada ainda é um dos melho­res e mos­trou que desde o início a série sabia criar gan­chos impac­tan­tes. O epi­só­dio começa com Lionel reu­nindo os empre­ga­dos da Luthor­Corp e anun­ci­ando, repen­ti­na­mente, que fechará a fábrica de Small­ville. Temos Whit­ney anun­ci­ando a Lana que irá se juntar ao Corpo de Fuzi­lei­ros Navais e pedindo que ela o espere. Temos Roger Nixon des­co­brindo o segredo de Clark e chan­ta­ge­ando Jona­than. Lex ten­tando com­prar a fábrica junto com os empre­ga­dos. Temos também Clark e Chloe indo ao baile juntos, em meio aos pri­mei­ros sinais de uma tem­pes­tade no ar. Ainda a emo­ci­o­nante des­pe­dida de Lana e Whit­ney na rodo­viá­ria. E final­mente os tor­na­dos que chegam aumen­tando a tensão e o caos, jogando o carro de Lana para fora da estrada, arre­ben­tando as jane­las da mansão Luthor em meio a uma briga entre Lex e Lionel, e fazendo Martha e Jona­than buscar refú­gio no abrigo da fazenda, onde Nixon já se encon­tra fil­mando a nave de Clark e usando a chave, que tinha rou­bado de Lex, para fazê-la fun­ci­o­nar. Enquanto isso, na estrada, os três funis se unem for­mando um gigan­tesco funil que engole o carro de Lana com ela dentro, aos berros, ao mesmo tempo que Clark chega cor­rendo e, deses­pe­rado, mer­gu­lha no tor­nado. Esse epi­só­dio foi o padrão que se seguiu para os finais de tem­po­ra­das de Small­ville, sempre com muito caos, des­trui­ção e situ­a­ções ines­pe­ra­das, mas poucos con­se­gui­ram ser tão bem-suce­di­dos como esse.

1º. Com­men­ce­ment (Quarta Tem­po­rada)

Só uma tem­po­rada con­se­guiu supe­rar o final da pri­meira, não à toa os dois epi­só­dios tem muita simi­la­ri­dade entre si. A quarta tem­po­rada traz o melhor des­fe­cho de tem­po­rada da série. É quando Clark final­mente con­se­gue juntar as três pedras do poder, que foi o arco cen­tral de toda a tem­po­rada. O epi­só­dio já começa num embate mara­vi­lhoso entre Lana e Gene­vi­eve, que ter­mina com a con­dessa Isobel pos­su­indo Lana e matando a mãe de Jason com uma das pedras. A ceri­mô­nia de for­ma­tura de Clark, Chloe e Lana é inter­rom­pida por veí­cu­los mili­ta­res anun­ci­ando uma nova chuva de mete­o­ros que cairá sobre a cidade em poucas horas. É o início do caos. Lana, ainda em estado de choque, entrega a pedra suja de sangue a Clark, por acre­di­tar per­ten­cer a ele. Lex pre­para a ida dela para Metró­po­lis de heli­cóp­tero e perde a cabeça quando não encon­tra mais a pedra com ela. Jason chega à fazenda dos Kent também em busca das pedras e ameaça Jona­than e Martha com uma espin­garda, quando o pri­meiro mete­o­rito cai exa­ta­mente sobre a fazenda Kent, e os demais seguem des­tu­indo tudo e cau­sando pânico na cidade. O heli­cóp­tero de Lana é atin­gido por vários deles e cai. Clark une as três pedras na caverna e elas se trans­for­mam em um cris­tal, que o tele­trans­porta para o polo ártico. Lana sai dos des­tro­ços do heli­cóp­tero, se arrasta até uma cra­tera e se depara com uma espa­ço­nave preta gigante. E Clark, ator­do­ado, atira o cris­tal, que voa longe. Todos os ele­men­tos para criar um grande epi­só­dio estão pre­sen­tes aqui: um evento impor­tante acon­te­cendo, uma força da natu­reza ame­a­çando a cidade, per­so­na­gens impor­tan­tes em perigo, corre-corre, con­fu­são, assas­si­nato, emo­ções a mil. É o mais impac­tante final de tem­po­rada. Um des­fe­cho memo­rá­vel para uma das tem­po­ra­das mais bem amar­ra­das de toda a série. E a pre­pa­ra­ção para a melhor tem­po­rada, que viria no ano seguinte.

As melhores estreias de temporada de Smallville

Assim como os finais de tem­po­rada de Small­ville eram sempre gran­des momen­tos na série, as estreias também eram cer­ca­das de gran­des acon­te­ci­men­tos. Muitas das situ­a­ções que movi­men­ta­vam os epi­só­dios de estreia tinham início no final da tem­po­rada ante­rior, ou eram con­se­quên­cia direta dela. As mudan­ças no tom das tem­po­ra­das e o fio con­du­tor que envol­ve­ria todo aquele ano já era defi­nido na pre­mi­ere. E os ele­men­tos-chave para compor um grande reco­meço envol­via não só pro­du­zir uma exce­lente con­clu­são ao con­flito ini­ci­ado no fim da tem­po­rada ante­rior, como enga­tar o novo arco que per­cor­re­ria todo aquele novo ano. A tarefa de enu­me­rar as melho­res estreias de tem­po­rada de Small­ville é bem mais difí­cil do que os finais, porque a série nos pro­por­ci­o­nou melho­res aber­tu­ras do que encer­ra­men­tos ao longo dos anos, então pra­ti­ca­mente todas as estreias são boas, dei­xando bem maior o desa­fio de defi­nir qual é mais supe­rior a outra. Com isso em mente, eu os con­vido a me acom­pa­nha­rem nesse pas­seio por esses dez icô­ni­cos epi­só­dios, como quem vai assis­tir a pre­mi­ere de mais uma emo­ci­o­nante tem­po­rada. Toca a intro e me segue...

10º. Bizarro (Sétima Tem­po­rada)

Bizarro foi a estreia da sétima tem­po­rada, uma das mais pro­ble­má­ti­cas, e mos­trou aqui que já não come­çou muito bem. O epi­só­dio não é ruim, mas é muito aquém das estreias de tem­po­ra­das já pro­du­zi­das e das que ainda seriam. Aqui temos a con­ti­nu­a­ção dos con­fli­tos ini­ci­a­dos no fim da sexta tem­po­rada. Então temos Clark lutando contra Bizarro, o fan­tasma que criou uma cópia sua. A represa se rompe e Lex fica sub­merso, sendo res­ga­tado pela figura de uma jovem loira que desa­pa­rece voando. Lionel é cap­tu­rado enquanto está desa­cor­dado na margem do rio. Chloe, dada como morta, volta à vida na gaveta do necro­té­rio do hos­pi­tal. Lex vai preso como prin­ci­pal sus­peito do assas­si­nato de Lana. E Clark des­co­bre uma maneira de der­ro­tar Bizarro, com a ajuda do Caça­dor de Marte. Em Xangai, uma mulher loira cami­nha pelas ruas, e quando tira a peruca, vemos que é Lana. E a jovem mis­te­ri­osa que salvou Lex apa­rece pen­sa­tiva, colo­cando uma pul­seira com o sím­bolo da casa de El, antes de sair voando. O epi­só­dio tem alguns pontos inte­res­san­tes, faz um certo mis­té­rio sobre a morte de Lana, até reve­lar que ela está viva, e intro­duz Kara, a prima de Clark na série, que será um dos des­ta­ques da tem­po­rada, mas no geral o epi­só­dio não empolga muito.

9º. Laza­rus (Décima Tem­po­rada)

O início da décima tem­po­rada tenta levar a série de novo às suas ori­gens. Enquanto segue desa­cor­dado no chão com a adaga de kryp­to­nita azul enter­rada em seu abdome, Clark mer­gu­lha num astral espi­ri­tual e se vê no mesmo milha­ral onde ficou preso no epi­só­dio piloto, mas se depara com uma lápide com seu nome e tem um vis­lum­bre de Lex Luthor ves­tido de branco. Lois tira a adaga da bar­riga dele e Clark des­perta. Chloe usa o capa­cete do Senhor Des­tino para loca­li­zar Oliver. Tess acorda no Labo­ra­tó­rio Cadmus com o rosto res­tau­rado e se depara com vários clones de Lex, e um deles, ainda cri­ança. Um outro clone enve­lhe­cido e furi­oso escapa e incen­deia o labo­ra­tó­rio, fugindo. Clark salva Tess e segue para o milha­ral, onde o Lex dege­ne­rado pren­deu Lois em um cír­culo de fogo. Antes de morrer, Lex ainda arma uma bomba no globo do Pla­neta Diário. Mas Clark con­se­gue salvar Lois e segu­rar o globo, numa refe­rên­cia à clás­sica cena do Super­man. Chloe se ofe­rece em troca de Oliver. Lois viaja para a África para con­se­guir lidar com a des­co­berta do segredo de Clark. E Clark tem uma visão de Jona­than na fazenda, o enco­ra­jando a seguir o seu des­tino. É uma estreia que tenta apro­xi­mar os pri­mór­dios da série com o grande des­tino de Clark, mas também não entu­si­asma muito.

8º. Odys­sey (Oitava Tem­po­rada)

Odys­sey é a estreia da oitava tem­po­rada, seguindo a his­tó­ria um mês após os acon­te­ci­men­tos do final da sétima. A For­ta­leza des­mo­ro­nou sobre Clark e Lex e eles seguem desa­pa­re­ci­dos. Arqueiro Verde, Caná­rio Negro e Aqua­man tentam loca­li­zar algum sinal deles, assim como a Luthor­Corp, que agora está sob o comando de Tess Mercer. Lois inves­tiga o para­deiro de Chloe, que foi levada supos­ta­mente pelo FBI, no entanto, ela se encon­tra na prisão Black Creek, tendo sua supe­rin­te­li­gên­cia sub­me­tida a testes. Clark está sem pode­res numa cidade da Rússia, tra­ba­lhando em um campo de tra­ba­lho escravo. Oliver con­se­gue loca­lizá-lo e o res­gata de lá. Enquanto isso, em Black Creek Chloe é for­çada a loca­li­zar os mem­bros da Liga da Jus­tiça, atra­vés de núme­ros de tele­fo­nes. Clark, Oliver e Lois con­se­guem entrar na prisão e res­ga­tam Chloe e os mem­bros da Liga, mas Clark acaba sendo bale­ado e é salvo pelo Caça­dor de Marte, que res­ta­be­lece seus pode­res. Por fim, fica­mos sabendo que Tess está de posse do Cris­tal do Conhe­ci­mento, que forma a For­ta­leza, e Clark revela a Lois que será seu novo par­ceiro de tra­ba­lho no Pla­neta Diário. É um ótimo início de tem­po­rada, e apesar da ausên­cia de três impor­tan­tes mem­bros regu­la­res da série, o epi­só­dio con­se­gue trazer um fres­cor à série, que não vinha muito bem no ano ante­rior. A enfim par­ce­ria de Lois e Clark no Pla­neta Diário aponta para um novo hori­zonte, cheio de pos­si­bi­li­da­des. Infe­liz­mente, a tem­po­rada não con­se­guiu fazer jus à sua estreia.

7º. Savior (Nona Tem­po­rada)

Seguindo a linha deter­mi­nada no fim da oitava tem­po­rada, a atmos­fera som­bria toma conta desse epi­só­dio, dando o tom da nova tem­po­rada. É a intro­du­ção do Major Zod, que chega à Terra junto com vários outros kryp­to­ni­a­nos, graças aos clones arma­ze­na­dos no orbe ali­e­ní­gena. Eles tomam conta da mansão Luthor e fazem Tess de refém, enquanto tentam enten­der como vieram parar ali e por que estão sem pode­res. Temos Lois que retorna do futuro em com­pa­nhia de uma mulher que tenta matá-la. Clark, agora assu­mindo o seu trei­na­mento com Jor-El e o com­pro­misso de defen­der Metró­po­lis, passa a deixar sua marca em cada ação que exe­cuta. Ele enfrenta a mulher que ten­tava matar Lois e des­co­bre, antes dela morrer em seus braços, que ambos já se conhe­ciam do futuro. Chloe passa a morar na Torre de Vigi­lân­cia e começa a equipá-la com a mais alta tec­no­lo­gia junto de Dr. Emil. E Lois tem uma série de visões per­tur­ba­do­ras do futuro, envol­vendo um céu ver­me­lho, a morte de Chloe, Oliver cavando na terra, e cenas de amor dela com Clark. É um início pro­mis­sor de tem­po­rada, pena que ela não con­se­guiu seguir assim ao longo do ano.

6º. Vortex (Segunda Tem­po­rada)

A segunda tem­po­rada segue as con­se­quên­cias da tem­pes­tade que varreu Small­ville no fim da pri­meira. E já começa com um voo espe­ta­cu­lar da nave de Clark sobre a cidade, seguindo direto para o grande funil do tor­nado, onde Lana e Clark estão. Lana tenta se pro­te­ger o máximo pos­sí­vel dentro da picape que voa em cír­cu­los. Clark con­se­gue alcan­çar o carro e pro­tege Lana com seu corpo, que escapa sem muitos feri­men­tos. Lex hesita em salvar Lionel, mas acaba o reti­rando debaixo dos escom­bros. No hos­pi­tal, Lionel corre sérios riscos e Lex auto­riza a cirur­gia. Jona­than e Nixon estão presos numa tumba sub­ter­râ­nea sem saída. Depois de muita pro­cura, Clark final­mente os encon­tra, mas Nixon usa kryp­to­nita para con­se­guir levar Clark com ele. Jona­than trava uma luta com Nixon, e Lex acaba matando Nixon com um tiro, antes que ele mate Jona­than. Lionel sai da cirur­gia cego e culpa Lex. Lana começa a des­con­fiar que Clark esconde um grande segredo, mas ele des­con­versa. E a nave de Clark des­cansa tran­quila em meio a um milha­ral. É um exce­lente início de tem­po­rada. Temos os con­fli­tos entre Lionel e Lex se acen­tu­ando, Lana abrindo os olhos para o fato de que Clark esconde um segredo, e os Kents per­ce­bendo que não con­se­gui­rão evitar que o mundo des­cu­bra a ver­dade sobre Clark.

5º. Zod (Sexta Tem­po­rada)

A sexta tem­po­rada começa das con­se­quên­cias ime­di­a­tas do tér­mino da quinta. Clark está preso na Zona Fan­tasma, sem pode­res, vul­ne­rá­vel ao ataque dos cri­mi­no­sos envi­a­dos para lá. Ele conhece Raya, uma kryp­to­ni­ana que foi assis­tente de seu pai, Jor-El, e ela o ajuda a fugir de lá. Mas na fuga, outros fan­tas­mas acabam esca­pando também e se espa­lham pela Terra. Enquanto isso, Zod, no corpo de Lex, dá início ao seu plano de trans­for­mar a Terra numa nova Kryp­ton, e pede a Lana, que agora sabe que ele não é Lex, que lhe dê um her­deiro. Ela reluta e ele a prende pela mão com uma faca. Martha vai à For­ta­leza pedir auxí­lio a Jor-El e des­co­bre que a única solu­ção para deter Zod é matá-lo com a adaga. Ao comu­ni­car a Lionel, Lana se ofe­rece para fazê-lo, porém o plano não dá certo e Zod des­trói a adaga. Depois de uma intensa luta, Clark simula uma ren­den­ção ajo­e­lhando-se perante Zod, mas ao tocar a mão dele, Clark ativa o cris­tal que Raya havia lhe dado e envia Zod de volta à Zona Fan­tasma. É uma estreia de tem­po­rada mara­vi­lhosa, repleta de ações. Ela nos mostra, pela pri­meira vez, como é o ambi­ente da Zona Fan­tasma e abre o arco da tem­po­rada que será a cap­tura dos cri­mi­no­sos fugi­ti­vos da Zona Fan­tasma, que esca­pa­ram junto com Clark.

4º. Pilot (Pri­meira Tem­po­rada)

A origem de tudo, o pri­mo­roso epi­só­dio que nos apre­sen­tou Small­ville não pode­ria ficar de fora do top 5. É um dos epi­só­dios pilo­tos mais bem ela­bo­ra­dos até então. Ele dosa ação, emoção, romance e a mito­lo­gia do Super­man de uma maneira bri­lhante. Temos a intro­du­ção com a chuva de mete­oro caindo sobre a cidade, matando os pais de Lana, fazendo Lex ficar careca no milha­ral – como efeito de um dos impac­tos -, e Jona­than e Martha encon­trando Clark, depois que a picape sai da estrada e vira. Nos dias atuais, encon­tra­mos um jovem Clark lidando com sua super­ve­lo­ci­dade e força, ao mesmo tempo que tenta admi­nis­trar sua paixão pela garota mais linda da escola, Lana Lang. Temos o retorno de Lex à Small­ville para cuidar da fábrica de fer­ti­li­zan­tes da Luthor­Corp, e o seu encon­tro com Clark, ao atro­pelá-lo na ponte e ser salvo por ele. Temos Jona­than final­mente con­tando a Clark sua origem. E a linda sequen­cia do diá­logo entre Lana e Clark no cemi­té­rio, quando eles passam a se conhe­cer melhor. Temos ainda Whit­ney, o namo­rado ciu­mento de Lana, pren­dendo Clark no milha­ral, e Clark sal­vando o colé­gio da sua pri­meira ameaça, o infec­tado de mete­oro Jeremy Creek. O roteiro é tão per­feito, tão capri­chado na apre­sen­ta­ção e cons­tru­ção dos per­so­na­gens, que é difí­cil não elegê-lo a melhor estreia da série.

3º. Arri­val (Quinta Tem­po­rada)

A ter­ceira melhor estreia de tem­po­rada de Small­ville fica por conta da quinta tem­po­rada. Temos aqui o resul­tado da união das três pedras do poder e as con­se­quên­cias da chuva de mete­oro que acon­te­ceu no fim da quarta tem­po­rada. No polo Ártico, o Cris­tal do Conhe­ci­mento, que Clark lançou, mer­gu­lha na neve e come­çam a surgir gran­des pila­res de cris­tais de gelo até for­ma­rem a For­ta­leza da Soli­dão. Jor-El explica que ela é uma réplica da geo­gra­fia de Kryp­ton para que Clark possa come­çar seu trei­na­mento. Enquanto Clark ajuda Chloe, sob as ame­a­ças de Jor-El para voltar antes do pôr do Sol, em Small­ville Lana vê dois kryp­to­ni­a­nos saírem de dentro da nave espa­cial, per­gun­tando por Kal-El e explo­dindo todos os carros de polí­cia que chegam ao local. Lex a encon­tra na estrada, em estado de choque, e a leva para a mansão, onde Lionel, em estado cata­tô­nico, rabisca no chão um sím­bolo kryp­to­ni­ano e diz a Lana que a kryp­to­nita é a única fra­queza dos ali­e­ní­ge­nas. Num hos­pi­tal no Ártico, Chloe e Clark final­mente con­ver­sam aber­ta­mente sobre o segredo dele. Lois ajuda Jona­than a encon­trar Martha nos des­tro­ços da casa deles e seguem para o hos­pi­tal, onde os kryp­to­ni­a­nos chegam des­tru­indo tudo em busca de Kal-El. Lana os con­vence a ir para a mansão, onde eles quase caem na arma­di­lha, mas con­se­guem esca­par. Clark os encon­tra e, após um breve con­fronto, eles tentam enviá-lo para a Zona Fan­tasma, mas ele resiste e acaba arre­mes­sando os dois. Ao ajudar Lana, o Sol se põe e Clark perde seus pode­res. Por fim, Lana e Clark final­mente se enten­dem. Ela o informa sobre a nave, mas Clark só encon­tra a cra­tera dela no local. Enquanto isso, num galpão vigi­ado da Luthor­Corp, a nave repousa e um lodo preto começa a escor­rer dela, tomando a forma de Brai­niac. É uma das mais ele­tri­zan­tes estreias de tem­po­rada de Small­ville, com cenas mar­can­tes e sequên­cias impres­si­o­nan­tes. Temos a intro­du­ção da For­ta­leza, a che­gada de Brai­niac, Chloe virando a con­fi­dente de Clark e o romance entre Lana e Clark final­mente des­lan­chando pra valer, dando início a uma nova fase da série e à melhor tem­po­rada de Small­ville.

2º. Exile (Ter­ceira Tem­po­rada)

Exile não é apenas uma das melho­res estreias de Small­ville, é sim­ples­mente um dos melho­res epi­só­dios de toda a série. Ele começa três meses depois dos acon­te­ci­men­tos do final da segunda tem­po­rada. Temos um Clark Kent, sob efeito inten­ci­o­nal de kryp­to­nita ver­me­lha, vivendo em Metró­po­lis, sob o codi­nome Kal, arrom­bando caixas ele­trô­ni­cos para com­prar carro de luxo, des­fi­lando com as garo­tas mais boni­tas da cidade nas boates mais bada­la­das e inva­dindo um grande assalto a banco para ficar com o dinheiro. Ele ainda é alve­jado por inú­me­ros tiros de esco­peta ao sair do banco e explode um dos carros da polí­cia, antes de fugir. Enquanto isso, Lex é dado como morto, depois da queda do avião, e Helen posa de viúva, sem saber que Lex está vivo numa ilha deserta, lutando pela sobre­vi­vên­cia e tendo alu­ci­na­ções com um outro náu­frago que tenta matá-lo. Jona­than e Martha, sem notí­cias de Clark, estão tendo que lei­loar a fazenda para quitar as dívi­das. Lionel pres­si­ona Chloe para obter mais infor­ma­ções sobre Clark, mas ela diz não ter, quando na ver­dade já loca­li­zou Clark em Metró­po­lis e acaba con­tando a Lana, que vai pro­curá-lo e se sur­preende com o com­por­ta­mento dele. O grande chefão do crime, Morgan Edge, quem estava por trás do assalto ao banco que Clark inva­diu, loca­liza Clark e o con­vence a rea­li­zar um assalto para ele na Luthor­Corp. Bem no exato momento em que Clark põe as mãos no objeto do cofre de Lionel, Jona­than, que adqui­riu pode­res tem­po­ra­ri­a­mente com Jor-El, apa­rece dizendo que vai levar Clark pra casa, e os dois travam uma briga, des­pen­cando do prédio da Luthor­Corp. O epi­só­dio é tão intenso que não tem um des­fe­cho com­pleto nele, sua con­clu­são fica pro epi­só­dio seguinte, Pho­e­nix. O roteiro é tão bem cons­tru­ído e amar­rado como o do epi­só­dio piloto. As sequên­cias de ação e as ati­tu­des sur­preen­den­tes de Clark são momen­tos únicos em toda a série. Não dá para ter­mi­nar de assis­tir esse epi­só­dio e não bater palmas para sua gran­di­o­si­dade.

1º. Cru­sade (Quarta Tem­po­rada)

E a meda­lha de ouro é a estreia da quarta tem­po­rada. Nela temos, sim­ples­mente, o maior e melhor voo de Clark em toda a série, e só por isso ela já mere­cia estar aqui. O epi­só­dio já começa com a intro­du­ção de Lois Lane pro­cu­rando pelo para­deiro de sua prima Chloe, três meses depois dos acon­te­ci­men­tos do final da ter­ceira tem­po­rada. Um aci­dente na estrada faz Lois pre­sen­ciar o retorno de Clark no milha­ral, com­ple­ta­mente nu e sem memó­ria. No Egito, Lex obtém secre­ta­mente uma antigo arte­fato e paga muito alto para escon­de­rem seus ras­tros por lá. Na prisão, Lionel recebe a visita de Lois, que tem cer­teza de que ele é o res­pon­sá­vel pela morte de Chloe. Em Paris, Lana curte seu novo namo­rado, Jason Teague, que a leva até uma igreja para fazer um tra­ba­lho sobre his­tó­ria da arte na lápide da Con­dessa Mar­ga­ret Isobel Tho­re­aux, mas quando Lana toca num sím­bolo da cripta, uma grande onda de ener­gia bri­lhante flui por seu corpo. Ela acorda no dia seguinte em casa, ator­do­ada, e com uma grande tatu­a­gem nas costas. Uma tur­bu­lên­cia no jati­nho de Lex o faz der­ru­bar a está­tua, que se quebra, reve­lando um cris­tal mis­te­ri­oso, a pri­meira das três pedras do poder. Clark ouve um som vindo do cris­tal e assume a iden­ti­dade de Kal-El de Kryp­ton, insen­sí­vel aos apelos de Martha e dando início ao seu mais belo voo em toda a série. Ele alcança o jati­nho de Lex, arranca a porta e car­rega a pedra con­sigo. Na prisão, Lex acusa Lionel de ter pego a pedra dele. Kal-El coloca a pedra em uma câmara secreta nas Caver­nas Kawat­che, e ao sair defronta-se com Martha, que pres­si­ona a kryp­to­nita preta sobre o peito dele, fazendo Clark e Kal-El luta­rem entre si pelo con­trole, até Clark vencer. Por fim, no cemi­té­rio, Lois visita o túmulo de Chloe e pro­mete des­co­brir quem a matou, enquanto Clark usa sua visão de raio-x e avisa a Lois que não há nenhum cadá­ver no túmulo. Uma estreia de tirar o fôlego, um epi­só­dio muito bem cos­tu­rado, tra­zendo novas cama­das à série, com a intro­du­ção do arco cen­tral das pedras do poder, a imer­são de Lana na mito­lo­gia com o espí­rito da Con­dessa Isobel, a che­gada de Lois Lane e o pri­meiro voo de Clark. Nenhuma tem­po­rada, antes ou depois, con­se­guiu um nível tão alto na estreia como essa. Foi, sem dúvida alguma, a melhor pre­mi­ere de Small­ville.

As melhores temporadas da série Sandy e Junior

O seri­ado Sandy e Junior foi um marco pra gera­ção do fim dos anos 90 e início dos anos 2000. Ao longo de quatro tem­po­ra­das, a gale­ri­nha mais ou menos passou por muitas aven­tu­ras, roman­ces, intri­gas, e acima de tudo, muita ami­zade. Do outro lado da tela fez a diver­são das tardes de domingo de muita gente pelo Brasil afora. Durante os três pri­mei­ros anos teve como cená­rio o fic­tí­cio colé­gio Centro Edu­ca­ci­o­nal Mário de Andrade (CEMA), que fun­ci­o­nava na ver­dade no Liceu Sale­si­ano Nossa Senhora Auxi­li­a­dora, em Cam­pi­nas. Ali a galera e o time de pro­fes­so­res viviam das mais sim­ples às mais inu­si­ta­das expe­riên­cias de um turma do ensino médio. Ao fim do ter­ceiro ano e com a for­ma­tura, a série muda de cená­rio na quarta tem­po­rada e passa a ser ambi­en­tada no Con­do­mí­nio Mata Atlân­tica, agora com o dia a dia dos mora­do­res como pano de fundo para as his­tó­rias que acon­te­ciam. Para ana­li­sar as melho­res tem­po­ra­das do seri­ado, não irei con­si­de­rar os 20 epi­só­dios de férias, que pas­sa­ram entre a pri­meira e a segunda tem­po­ra­das, e entre a segunda e a ter­ceira, já que eles eram, em sua maior parte, repri­ses dos epi­só­dios já exi­bi­dos, com poucas cenas iné­di­tas. Assim, leva­rei em con­si­de­ra­ção apenas os epi­só­dios legí­ti­mos das quatro tem­po­ra­das.

4º. Ter­ceira Tem­po­rada

A ter­ceira tem­po­rada tem um começo muito pro­mis­sor, com os epi­só­dios Luz, Câmera, Ação e a galera pro­du­zindo filmes para o depar­ta­mento artís­tico do CEMA. As his­tó­rias passam a ficar um pouco mais adul­tas, e mesmo com a dimi­nui­ção da par­ti­ci­pa­ção de Sandy durante a pri­meira parte da tem­po­rada, devido às gra­va­ções da novela Estrela Guia, a galera con­se­gue segu­rar os epi­só­dios a con­tento. Con­tudo, logo depois, as his­tó­rias come­çam a ficar menos inte­res­san­tes, com apenas uma ou outra com algum des­ta­que. Só com a saída de Gus­tavo, já depois da metade da tem­po­rada, e a che­gada de Bruno, as his­tó­rias voltam a envol­ver e tem um final cati­vante. O time de pro­fes­so­res tem também aqui seu elenco mais fraco. A saída de Lud­mila e de Miguel repre­senta uma grande lacuna, que os nova­tos Lola e Galeno não con­se­guem suprir. Galeno fica poucos epi­só­dios e Lola se mos­trou uma das pro­fes­so­ras mais sem graça que a escola já teve. Tanto que eles tive­ram que pro­mo­ver a pro­fes­sora Ana, que só fazia algu­mas par­ti­ci­pa­ções, ao elenco fixo, e fize­ram de Festa um pro­fes­sor auxi­liar. Já na última parte da tem­po­rada, a série aban­dona a tra­di­ci­o­nal aber­tura com o ins­tru­men­tal de Eu Acho Que Pirei e começa a buscar outra iden­ti­dade, colo­cando os cré­di­tos ini­ci­ais num clipe novo de Sandy e Junior a cada epi­só­dio, fazendo a série come­çar e fina­li­zar com um clipe musi­cal deles e ter uma música de aber­tura dife­rente a cada semana. Os des­ta­ques dessa tem­po­rada ficam por conta dos filmes que a galera produz e do romance de Sandy e Bruno. Mas devido aos epi­só­dios do miolo da tem­po­rada, ela fica aqui na última posi­ção.

3º. Quarta Tem­po­rada

A quarta tem­po­rada é a mais dife­rente de todas, a única que não se passa no CEMA, que tem uma aber­tura única para todos os epi­só­dios e uti­liza o recurso de voz em off de Sandy ou de Junior no início e no tér­mino dos epi­só­dios, com um pen­sa­mento ou frase que remete à situ­a­ção vivida na trama daquele dia. As his­tó­rias aqui são as mais adul­tas de toda a série, cen­tra­das nos pro­ble­mas do dia a dia e na vivên­cia dos mora­do­res do con­do­mí­nio. O elenco ori­gi­nal do seri­ado sofre uma grande redu­ção, o time dos pro­fes­so­res não retorna mais, com exce­ção de Val­dete, que auxi­li­ava Irene na can­tina. Entre a galera, quatro não retor­nam também: Clara, Mau, Dodô e Teca. E temos o acrés­cimo de um novo elenco jovem, mora­do­res do con­do­mí­nio. O tema de aber­tura passa agora a ser o ins­tru­men­tal da música Não Dá Pra Não Pensar. A tem­po­rada refor­mula com­ple­ta­mente a iden­ti­dade da série, que vinha por três anos no uni­verso esco­lar, e por isso muitos fãs a tem como a menos que­rida de todas, mas ela é bem mais desen­vol­vida do que a ter­ceira, e se ana­li­sar­mos uni­ca­mente a qua­li­dade do seu roteiro e sua pro­du­ção, sem o con­texto afe­tivo das tem­po­ra­das ante­ri­o­res, ela é a melhor de todas. Caso a dupla tivesse optado por pros­se­guir com a série, con­se­gui­ria tran­qui­la­mente ter mais uma ou duas tem­po­ra­das de sucesso pela frente. Os des­ta­ques dela ficam por conta do trio Patty, Beth e Bebel, da rela­ção de Junior e Yoko e até das arma­ções de Laila e da sín­dica Dona Mar­lene. O romance de Sandy e João Pedro, que pare­cia bas­tante ani­ma­dor, acabou ficando meio atro­pe­lado ao longo da tem­po­rada, e ele ter­mi­nou se envol­vendo com Riti­nha, numa liga­ção sem muito desen­vol­vi­mento, enquanto ela teve uma rela­ção meio embo­lada e sem quí­mica alguma com Tony. Alguns per­so­na­gens, como Riti­nha, mere­ciam ter tido mais des­ta­que.

2°. Pri­meira Tem­po­rada

A pri­meira tem­po­rada é a origem de tudo, é a cons­tru­ção da iden­ti­dade da série que todos se apai­xo­na­ram. Temos os epi­só­dios mais ino­cen­tes e caris­má­ti­cos do seri­ado. O ano em que a turma está mais unida, e mesmo Patty ainda mantém uma ami­zade mais tran­quila com a galera. O time de pro­fes­so­res é exce­lente. Elvira aqui não é tão intran­si­gente como foi apre­sen­tada no epi­só­dio piloto, nem ainda é a con­ci­li­a­dora e que­ri­di­nha dos alunos como ficou conhe­cida depois, ela mantém um certo con­ser­va­do­rismo, num tom mais cômico, fazendo uma par­ce­ria ótima nas cenas com Irene, que tem aqui seus melho­res momen­tos. A pro­fes­sora Caro­lina com seus man­tras e incen­sos traz também uma atmos­fera leve ao núcleo. Assim como o galante Marcão. O romance de Gus­tavo e Clara ainda é fofo, mas já começa a apre­sen­tar seus pri­mei­ros atri­tos. O per­so­na­gem de Boca, que é intro­du­zido a partir do epi­só­dio 15, a prin­cí­pio só par­ti­ci­pa­ria de dois epi­só­dios, A Rádio CEMA Está no Ar e Bebel Não Vai Pro Céu, mas o per­so­na­gem fez tanto sucesso que acabou entrando para o elenco fixo da série, e no fim da tem­po­rada acaba repe­tindo de ano, para cair na mesma sala da galera no ano seguinte. Marcos Mion par­ti­cipa apenas dessa tem­po­rada e entra para subs­ti­tuir o per­so­na­gem de Fábio Aze­vedo, que par­ti­ci­pou de apenas quatro epi­só­dios e foi afas­tado pela pro­du­ção, sem muita expli­ca­ção, quando a série ainda estava se defi­nindo. São dessa tem­po­rada os epi­só­dios do casa­mento de Elvira com Ota­cí­lio, dos alunos fazendo Irene se passar por pro­fes­sora para enga­nar a mãe dela, do bebê que eles encon­tram na capela do colé­gio, da par­ti­ci­pa­ção de Lucas Lima como o anjo Biel e do boato da suposta sepa­ra­ção da dupla. Vale des­ta­car ainda que o lan­ça­mento do disco As Quatro Esta­ções acon­te­ceu enquanto essa tem­po­rada estava no ar, e a inclu­são das novas can­ções trouxe um charme a mais na reta final dela.

1°. Segunda Tem­po­rada

E temos a campeã. Na segunda tem­po­rada, a série atinge seu melhor momento e nos apre­senta os melho­res epi­só­dios. Aqui o grupo já está bem defi­nido, os atores estão mais segu­ros de seus per­so­na­gens, que ganham novos con­tor­nos, prin­ci­pal­mente Patty, Bebel e Riti­nha. A intro­du­ção do trai­ler de Basí­lio como novo point da galera traz um clima mais boemio, prin­ci­pal­mente às cenas notur­nas. O time de pro­fes­so­res ganha seus melho­res mem­bros, o pro­fes­sor de arte Miguel e a ambi­ci­osa Rebeca, pro­fes­sora de lite­ra­tura, res­pon­sá­vel por bons momen­tos dessa tem­po­rada. Um dos epi­só­dios mais inte­res­san­tes é jus­ta­mente quando ela assume a dire­ção do CEMA e acaba gerando um grande pro­testo entre os alunos, diante de seus méto­dos orto­do­xos de admi­nis­tra­ção. Aqui Patty passa a ficar mais indi­vi­du­a­lista e ganha con­tor­nos mais vila­nes­cos. Temos também a entrada das cri­an­ças Duda, Talita e depois Glo­ri­nha, que movi­menta ainda mais o núcleo da galera. Val­dete passa a fazer par­ce­ria com Irene na can­tina. Junior e Clara come­çam a namo­rar. Patty e Gus­tavo também enga­tam um romance, mas é com Sandy que ele acaba desen­vol­vendo uma maior cone­xão. Aliás, a rela­ção entre Sandy e Gus­tavo é o melhor ponto dessa tem­po­rada. Eles come­çam com uma paquera bem sutil, depois ele se envolve com Patty, e mais pra frente, a paixão entre ele e Sandy vai cres­cendo ao ponto de trans­bor­dar, resul­tando em ótimos emba­tes entre Sandy e Patty, que não quer abrir mão do seu amado. Des­ta­que também para as aulas de arte de Miguel, sempre em ambi­en­tes tea­trais, com jogos, brin­ca­dei­ras, ence­na­ções e fil­ma­gens de vídeo. O álbum de remi­xes da dupla foi bas­tante explo­rado aqui. São desse ano os epi­só­dios do fei­tiço do arco-íris, do vam­piro, da viagem no tempo, do homem das mil faces, do circo, da ence­na­ção de Romeu e Juli­eta, do almoço de ani­ver­sá­rio de Irene na comu­ni­dade e do sor­ti­lé­gio do amor, quando todas as meni­nas se apai­xo­nam por Miguel e os meni­nos dis­far­çam Basí­lio de mulher para inves­ti­gar. É a tem­po­rada mais carac­te­rís­tica da série, que traz os momen­tos que mais fica­ram mar­ca­dos na memó­ria dos fãs.

15 Melhores episódios de Smallville

Um dos mai­o­res desa­fios para um fã de Small­ville é ela­bo­rar uma lista com os melho­res epi­só­dios da série. São mais de duzen­tos epi­só­dios em dez tem­po­ra­das de um seri­ado que tem legi­ões de fãs. Há toda uma nos­tal­gia, uma memó­ria afe­tiva impreg­nada pelos incrí­veis momen­tos que a série nos pro­por­ci­o­nou. Há arcos mara­vi­lho­sos, encon­tros de super-heróis do uni­verso DC, per­so­na­gens das HQs em pas­sa­gens mar­can­tes, e, claro, a sub­je­ti­vi­dade de cada fã, tor­nando esse resul­tado um ranking que nunca será una­ni­mi­dade entre os fãs. Ainda assim, ela­bo­rei minha lis­ti­nha com os 15 melho­res epi­só­dios de Small­ville segundo o meu ponto de vista. Não foi fácil, há ainda diver­sos outros epi­só­dios que eu adoro e fica­ram de fora, assim como há outros epi­só­dios que muitos fãs jamais dei­xa­riam de fora. Mas há que ser feita uma sele­ção, então, com muito cari­nho mer­gu­lhei nova­mente nesses quinze epi­só­dios que mais me emo­ci­o­nam, me diver­tem e falam dire­ta­mente comigo quando penso em Small­ville. Vamos juntos embar­car para o Kansas nova­mente.

15º. Pro­mise (Sexta Tem­po­rada)

O epi­só­dio do casa­mento de Lana e Lex é um acon­te­ci­mento na série. Divi­dido pelos três pontos de vista de Clark, Lex e Lana, o epi­só­dio vai reve­lando que nada é o que parece ser. Enquanto Lex mata o médico que forjou com ele a gra­vi­dez de Lana, ela cria uma arma­di­lha para des­co­brir o segredo de Clark e decide não se casar, avi­sando a Clark que ainda o ama, até que no último momento diante de uma chan­ta­gem de Lionel, se vê obri­gada a assu­mir o com­pro­misso e se casar com Lex, des­pe­da­çando o cora­ção de Clark. É um epi­só­dio muito bem desen­vol­vido, que vai mos­trando aos poucos o con­flito que cada um enfrenta ao longo desse dia. Ao final temos a sen­sa­ção de Lana estar indo para a prisão e que toda a his­tó­ria dela com Clark está per­dida para sempre. É um grande momento para a série.

14º. Pilot (Pri­meira Tem­po­rada)

O pri­meiro epi­só­dio de Small­ville ainda é um dos melho­res epi­só­dios da série. Todo o capri­cho nos deta­lhes da apre­sen­ta­ção e cons­tru­ção dos per­so­na­gens encanta até hoje. Temos a che­gada da nave de Clark na chuva de mete­oro, impac­tando na vida de Lana, que perde os pais, e de Lex, que fica careca. Martha e Jona­than encon­trando Clark. O salto para o pre­sente e a vida de Clark ado­les­cente ten­tando admi­nis­trar seus pode­res e seu amor por Lana, que namora o zagueiro do time de fute­bol, Whit­ney. O retorno de Lex para cuidar da fábrica de fre­ti­li­zante da Luthor­Corp e seu encon­tro com Clark, ao atro­pelá-lo na ponte. É tudo muito bem desen­vol­vido, as emo­ções são bem dosa­das, as cenas envol­vem, as ações não são à toa, acon­te­cem dentro de um con­texto. É um epi­só­dio de encher os olhos e que emo­ci­ona sempre que se rever.

13ª. Onyx (Quarta Tem­po­rada)

O epi­só­dio em que Lex se divide em dois, como con­se­quên­cia de um expe­ri­mento com kryp­to­nita, resul­tando em duas ver­sões de Lex. O bom, que valo­riza a ami­zade de Clark e quer com­par­ti­lhar todas as suas des­co­ber­tas cien­tí­fi­cas com os amigos. E o mau, que ambi­ci­ona o poder, passa por cima dos sen­ti­men­tos dos amigos, trai, mente, engana, cha­ta­geia e prende sua versão boa­zi­nha no porão com uma más­cara de ferro. Mas o melhor desse epi­só­dio não é a sepa­ra­ção de Lex, é o fato dele des­co­brir o segredo de Clark, inclu­sive sua fra­queza e mos­trar toda sua vila­nia diante dos Kent. É daqui a céle­bre frase em que Lex pro­nun­cia: “Eu sou o vilão dessa his­tó­ria”. É um momento-chave para a série por mos­trar final­mente o grande vilão que ele irá se tornar.

12º. Spirit (Quarta Tem­po­rada)

O baile de for­ma­tura de Clark, Lana e Chloe é cheio de emoção. Após quase um ano inteiro afas­ta­dos, con­se­gui­mos aqui ter um vis­lum­bre de um pos­sí­vel retorno entre Clark e Lana. Depois que uma aluna obes­ses­siva em ser a rainha do baile morre em um aci­dente na estrada, seu espí­rito vai pas­sando de corpo em corpo a medida que toca nas pes­soas. Passa por Martha, Lana e Lois, que con­vence Clark a ir ao baile. Na festa, ela ainda possui Chloe quando ela é eleita a rainha do baile. Mas o epi­só­dio é bom mesmo pelo momento de puro romance de Lana e Clark, dan­çando juntos ao som de You and Me do Life­house, depois de ambos terem dito que não iriam ao baile. Algu­mas situ­a­ções mere­cem des­ta­que também, como Martha quando é pos­su­ída pelo espí­rito da jovem e fica agindo como uma ado­les­cente, e Lois impli­cando com o ves­tido e a posi­ção da flor que o espí­rito da aluna esco­lheu pra ela usar.

11º. Crim­son (Sexta Tem­po­rada)

Os epi­só­dios em que Clark é exposto à kryp­to­nita ver­me­lha geram seus melho­res momen­tos, e aqui não é dife­rente. Lois usa um batom à base de kryp­to­nita ver­me­lha e se apai­xona por Clark. Quando ela final­mente o beija, a kryp­to­nita entra em con­tato com Clark e daí é uma cas­cata de situ­a­ções vexa­tó­rias. Ele revela seus pode­res a Lois e decide inva­dir o jantar de noi­vado de Lana e Lex, cau­sando momen­tos mara­vi­lho­sa­mente cons­tran­ge­do­res. Ele ques­ti­ona a pre­sença de sua mãe ao lado de Lionel, alfi­neta Chloe sobre ela estar feliz com o casa­mento deles, e revela que Lana está grá­vida, suge­rindo que essa é a razão do casa­mento. Depois ele a seques­tra e a leva para o celeiro, onde se beijam, e ela o recri­mina por só agora demons­trar seus sen­ti­men­tos e de uma maneira tão vexa­tó­ria. Lex o ameaça com um revól­ver, mas Martha salva Clark ao expô-lo a kryp­to­nita verde. É um epi­só­dio no melhor estilo Clark rebelde, quando ele joga pra fora tudo que está guar­dado no seu íntimo, sem se pre­o­cu­par com as con­se­quên­cias, nos pro­por­ci­o­nando momen­tos ímpa­res.

10º. Trans­fe­rence (Quarta Tem­po­rada)

O epi­só­dio em que Lionel e Clark trocam de corpo, atra­vés de uma das pedras do poder. O obje­tivo de Lionel era trocar de corpo com Lex para fugir da prisão, mas devido à inter­fe­rên­cia de Clark, acaba esca­pando no corpo dele. As sequên­cias de Lionel des­co­brindo o segredo de Clark são mara­vi­lho­sas, assim como ele chei­rando o cabelo de Martha e os con­fron­tos com Lex, Chloe e Lana. Tom con­se­guiu impri­mir as mesmas nuan­ces de Lionel, os tre­jei­tos, a maneira de andar e falar, que deixa todos os per­so­na­gens espan­ta­dos. É devido a essa trans­fe­rên­cia que Lionel fica curado da doença dege­ne­ra­tiva no fígado que ele tinha, e muda radi­cal­mente de per­so­na­li­dade, tor­nando-se um bom moci­nho até quase o final da tem­po­rada. O epi­só­dio é uma expe­riên­cia mara­vi­lhosa de acom­pa­nhar.

9º. Lexmas (Quinta Tem­po­rada)

O pri­meiro epi­só­dio de Natal de Small­ville é tão mágico como a data. Numa mesa de cirur­gia, depois de levar um tiro, Lex tem um sonho com o espí­rito de sua mãe, que lhe mostra uma vida com­ple­ta­mente dife­rente. Casado com Lana, com um filho pequeno, à espera de outro, morando numa casa modesta, amigo dos Kents, apre­ci­ado por Jona­than, tudo parece um conto de fadas. Até que Lana dá a luz e começa a passar mal. Sem con­se­guir ajuda de Lionel, que o rene­gou no pas­sado quando Lex abriu mão da sua for­tuna, Lana morre em seus braços. Infe­liz­mente, ao acor­dar, indig­nado com o des­fe­cho da sua vida humilde, ele decide que a única solu­ção para a feli­ci­dade é o dinheiro e o poder, e perde a opor­tu­ni­dade de uma vida feliz. A outra parte do epi­só­dio é Clark entre­gando pre­sen­tes para cri­an­ças de casa em casa e tendo uma con­versa com um velhi­nho bêbado fan­ta­si­ado de Papai Noel. É um epi­só­dio no mais puro espí­rito nata­lino.

8º. Shat­te­red (Ter­ceira Tem­po­rada)

Um dos melho­res momen­tos da ter­ceira tem­po­rada e de toda a série. Lionel, com medo de ir preso pelo assas­si­nato de seus pais, arma um plano para fazer Lex pare­cer louco, depois que Lex con­se­gue a con­fis­são de Morgan Edge de que eles foram os res­pon­sá­veis pelo crime. Lex começa a agir como se esti­vesse em surto psi­có­tico, fazendo os amigos des­con­fi­a­rem se ele fala ou não a ver­dade. Até Clark chega a duvi­dar de sua sani­dade, antes de des­co­brir que Lionel estava dro­gando o filho. Sobra para Lana também, que acaba embaixo de um cavalo com uma perna que­brada, depois que Lex cisma que ela o está dro­gando. Mas o melhor momento é o con­fronto entre Lex, Clark e Morgan, que resulta em Clark sal­vando Lex de ser atro­ple­ado por Morgan, ao se jogar na frente do carro, fazendo Lex des­co­brir seu segredo. A inter­pre­ta­ção de Rosen­baum é fabu­losa. E o desen­vol­vi­mento das situ­a­ções que faz pare­cer que Lex está deli­rando são muito enge­nho­sas. É um dos gran­des momen­tos de toda a série.

7º. Red (Segunda Tem­po­rada)

O pri­meiro con­tato de Clark com a kryp­to­nita ver­me­lha nos pre­sen­teia com esse incrí­vel epi­só­dio, o melhor momento da segunda tem­po­rada. Um frag­mento de kryp­to­nita ver­me­lha em um suposto anel de rubi de for­ma­tura que Clark compra é o res­pon­sá­vel pela catarse que acon­tece em sua per­so­na­li­dade. De repente ele começa a se sentir mais livre, com von­tade de curtir a vida, compra vários ele­tro­e­le­trô­ni­cos caros, muda o visual, passa a andar na antiga moto de Jona­than, avança o sinal com Lana, ao mesmo tempo em que paquera Jessie, uma jovem recém-che­gada a Small­ville, fugi­tiva da polí­cia fede­ral com seu pai. Ele ainda pega a Fer­rari de Lex empres­tada, entra em con­flito com os pais e decide aban­do­nar Small­ville e ficar rico com os seus pode­res. É aquele momento que todo fã jamais espe­rou, mas sempre aguar­dou, ver Clark esque­cer sua moral e ética e apro­vei­tar o que seus pode­res ofe­re­cem. Uma mara­vi­lhosa expe­riên­cia pelo labo B de Clark.

6º. Arri­val (Quinta Tem­po­rada)

O início da quinta tem­po­rada nos pro­por­ci­ona um dos gran­des epi­só­dios da série. A cons­tru­ção da For­ta­leza da Soli­dão e a che­gada de uma nova nave espa­cial com dois kryp­to­ni­a­nos em busca de Kal-El. Temos mara­vi­lho­sas sequên­cias de ações com os kryp­to­ni­a­nos explo­dindo todas as via­tu­ras de polí­cia que cercam a nave, Lana cru­zando a rodo­via em estado de choque e quase sendo atro­pe­lada por Lex, os ali­e­ní­ge­nas seguindo a des­trui­ção no hos­pi­tal e Lana ban­cando a hero­ína, ten­tando enganá-los com kryp­to­nita. Ainda temos Clark final­mente tomando conhe­ci­mento de que Chloe já sabia sobre seu segredo, dando início à grande par­ce­ria entre os dois. E por fim, ainda há a che­gada sor­ra­teira de Brai­niac e a reto­mada da rela­ção de Clark e Lana, que final­mente des­lan­cha.

5º. Tem­pest (Pri­meira Tem­po­rada)

O final da pri­meira tem­po­rada, além de ser um dos melho­res finais de tem­po­rada, é um dos melho­res epi­só­dios da série. Desde o anún­cio de Lionel sobre o fecha­mento da fábrica da Luthor­Corp de Small­ville até os tor­na­dos var­rendo a cidade, o epi­só­dio tem momen­tos mara­vi­lho­sos, como o pic nic de Whit­ney e Lana, quando ele anun­cia que se alis­tou aos Corpo de Fuzi­lei­ros Navais, a des­pe­dida deles no salão do baile vazio e depois na rodo­viá­ria, numa cena cheia de emoção, quando ele diz: “eu te amei no momento em que vi, e ainda esta­rei te amando quando voltar a te ver”. Roger Nixon gra­vando as con­ver­sas dos Kents e fil­mando a nave de Clark, momen­tos antes da tem­pes­tade ter início. O baile sendo inter­rom­pido e, claro, os três funis se trans­for­mando em um gigan­tesco tor­nado, que engole o carro de Lana com ela. É um epi­só­dio ele­tri­zante.

4º. Com­men­ce­ment (Quarta Tem­po­rada)

O final da quarta tem­po­rada é um dos mais ele­tri­zan­tes epi­só­dios. Aqui é a for­ma­tura do High School, o fim de um ciclo da série. Clark final­mente junta as três pedras do poder, que formam o Cris­tal do Conhe­ci­mento, fechando o arco da tem­po­rada. O epi­só­dio já começa num embate mara­vi­lhoso entre Lana e Gene­vi­eve Teague, que cul­mina com a Con­dessa Isobel pos­su­indo Lana pela última vez e matando Gene­vi­eve com uma das pedras. O sangue humano na pedra dire­ci­ona uma nova nave espa­cial para a Terra, em outra chuva de mete­o­ros, tra­zendo o caos para a cidade em meio à for­ma­tura de Clark. Depois de um ano afas­ta­dos, Lana e Clark sina­li­zam um pos­sí­vel retorno, mas o clima de perigo imi­nente parece não dar brecha aos dois. É um dos epi­só­dios mais inten­sos, cheio de acon­te­ci­men­tos impor­tan­tes e sequên­cias de tirar o fôlego.

3º. Exile (Ter­ceira Tem­po­rada)

A vida que Clark pla­ne­jou em Red, ele rea­liza aqui. Morando em Metró­po­lis e usando seus pode­res para arrom­bar caixas ele­trô­ni­cos, com­prar carros de luxo, fre­quen­tar boates bada­la­das e pegar as garo­tas mais boni­tas, Clark vive sua rebel­dia plena. Ele usa inten­ci­o­nal­mente o anel de kryp­to­nita ver­me­lha, numa com­pleta fuga de sua rea­li­dade. Ainda temos Lex sendo decla­rado morto após a queda do seu avião na lua de mel, com Helen posando de viúva, enquanto na ver­dade ele está per­dido numa ilha deserta, tendo alu­ci­na­ções com um náu­frago que quer matá-lo. Exile é o início da ter­ceira tem­po­rada e começa revi­rando Small­ville pelo avesso. As sequên­cias de Clark inva­dindo um assalto a banco, der­ru­bando os assal­tan­tes e rou­bando o dinheiro, sendo alve­jado por esco­pe­tas pelos polí­ciais e explo­dindo um dos carros da polí­cia com sua visão de calor são momen­tos ele­tri­zan­tes e memo­rá­veis.

2º. Cru­sade (Quarta Tem­po­rada)

A meda­lha de prata é a estreia da quarta tem­po­rada, com o voo mais bonito de Clark em toda a série. Temos a che­gada de Lois Lane em busca de sua prima Chloe, dada como morta. Clark retorna pro­gra­mado como Kal-El, após três meses desa­pa­re­cido. Lex dá início à busca pelas três pedras do poder, obtendo a pri­meira em uma esca­va­ção no Egito. Jus­ta­mente a pedra que Clark vai buscar voando como um foguete. Lana está de namo­rado novo em Paris e surge uma tatu­a­gem mis­te­ri­osa em suas costas, ao tocar em um sím­bolo no túmulo da Con­dessa Mar­ga­ret Isobel Tho­re­aux. É um epi­só­dio cheio de adre­na­lina, que nos apre­senta Lois, mostra Clark voando pela pri­meira vez, intro­duz a busca pelas pedras do poder, que lá na frente irão formar o Cris­tal do Conhe­ci­mento e a For­ta­leza da Soli­dão, e ainda temos a his­tó­ria de Lana sendo pos­su­ída por uma bruxa do século XVII. Um epi­só­dio pri­mo­roso.

1º. Recko­ning (Quinta Tem­po­rada)

Não há como não eleger esse epi­só­dio o grande momento de toda a série. O cen­té­simo epi­só­dio é uma ver­da­deira catarse e um teste de fogo para os fãs. Ele começa com uma das sequên­cias mais lindas da série, com Clark levando Lana à For­ta­leza, con­tando seu segredo a ela e a pedindo em casa­mento, com direito a anel de dia­mante lapi­dado por ele mesmo na hora. Quando Lana final­mente aceita e tudo parace um conto de fadas, em meio à festa de vitó­ria de Jona­than Kent no senado, uma per­se­gui­ção de carro entre Lana e Lex ter­mina num aci­dente fatal para ela. Clark con­se­gue voltar no tempo para salvá-la, evi­tando contar seu segredo dessa vez, mas não impede que outra vida se vá, e Jona­than morre em seus braços. É um epi­só­dio que vai do encanto à tra­gé­dia. Come­ça­mos mara­vi­lha­dos com a ini­ci­a­tiva de Clark e seu pedido de casa­mento, segui­mos des­lum­bra­dos com a feli­ci­dade dos dois e a vitó­ria de Jona­than nas elei­ções, para logo em seguida sofrer­mos dois baques, pri­meiro a morte de Lana, rever­tida, e depois a de Jona­than, em defi­ni­tivo. O epi­só­dio con­se­gue ser belo, forte, poé­tico e cele­brar assim uma incrí­vel des­pe­dida para Jona­than Kent.

Menção hon­rosa para:

Nico­de­mus (Pri­meira Tem­po­rada)

Exodus (Segunda Tem­po­rada)

Relic (Ter­ceira Tem­po­rada)

Sacred (Quarta Tem­po­rada)

Aqua (Quinta Tem­po­rada)

Expo­sed (Quinta Tem­po­rada)

Jus­tice (Sexta Tem­po­rada)

Legion (Oitava Tem­po­rada)

Home­co­ming (Décima Tem­po­rada)

15 Melhores Episódios da 1ª Temporada de Sandy e Junior

A pri­meira tem­po­rada da série Sandy e Junior foi ao ar de 11 de abril a 26 de dezem­bro de 1999 com um total de 37 epi­só­dios. Curi­o­sa­mente, um epi­só­dio a mais foi gra­vado, mas acabou não indo ao ar nesse ano, apenas sendo exi­bido durante a tem­po­rada de férias entre 2 de janeiro e 27 de feve­reiro de 2000. No meu ranking de tem­po­ra­das da série, ela se encon­tra como a segunda melhor tem­po­rada do pro­grama. Dentre os seus 37 epi­só­dios, eu sele­ci­o­nei os 15 melho­res, que enu­mero abaixo.

15º. Na Boca do Povo

Riti­nha e Max dormem na sala da torre no CEMA para ter­mi­nar um tra­ba­lho de geo­gra­fia e começa a cir­cu­lar pelo colé­gio um boato de que eles pas­sa­ram a noite juntos, que Riti­nha está grá­vida de gêmeos, que eles vão casar, morar em Santo André e Max vai tra­ba­lhar como tor­neiro mecâ­nico. A situ­a­ção só se escla­rece quando Elvira chama o pai de Riti­nha à escola. É um epi­só­dio muito diver­tido de acom­pa­nhar à medida que a fofoca vai ganhando novos con­tor­nos ao passar por cada um.

14º. Feliz Dois Mil, Brasil

O final da pri­meira tem­po­rada é um epi­só­dio espe­cial na fazenda dos pais de Sandy e Junior, com a pre­sença dos pais de alguns dos alunos e canja de Chi­tão­zi­nho e Xororó. Clara e Gus­tavo anun­ciam que rom­pe­ram o namoro, e Boca repete de ano e agora irá estu­dar na mesma turma que a galera. Os pais de Patty ame­a­çam não chegar a tempo do ano novo, dei­xando-a apreen­siva e bus­cando colo em Gus­tavo, enquanto Clara começa a se encan­tar por Junior, pre­nun­ci­ando os novos casais que se for­ma­rão na nova tem­po­rada. É um epi­só­dio sin­gelo de cele­bra­ção e encer­ra­mento do pri­meiro ano da série, muito bem cons­tru­ído.

13º. Estre­las São Para Sempre

Beth ganha um con­curso para par­ti­ci­par do show do famoso cantor inter­na­ci­o­nal Pablito, que nin­guém ouviu falar. Mas na ver­dade tudo não passa de uma farsa, orques­trada pela empre­sá­ria do cantor, que pagou os fãs dele e uti­liza um play­back de outra pessoa nos shows. O que não se ima­gi­nava era que Boca conhe­cia Pablito dos tempos do Boca de Lixeira, quando se cha­mava Paulo Maraca. Ao fim toda a situ­a­ção revela-se ser um sonho de Beth, mas nem tanto, já que o tal Paulo Maraca exis­tiu mesmo na banda de Boca. É um epi­só­dio inte­res­sante e diver­tido com Beth ner­vosa que­rendo apren­der uns passos de salsa e a empre­sá­ria de Pablito ten­tando dar um sumiço em Boca.

12º. Todos Por Todos

Basí­lio não con­se­gue se decla­rar para Bebel e resolve escre­ver uma carta assi­nando como Duque de Cas­cais. Ele con­trata Boca para colo­car a carta no armá­rio de Bebel no ves­tiá­rio, mas Boca acaba colo­cando no de Sandy, até que as meni­nas fla­gram Boca entre­gando a ter­ceira carta e ele pre­cisa se expli­car com todos. Em meio a isso tudo, Basí­lio ainda tem um sonho com o uni­verso de capa e espada, em que ele vive um dos cava­lei­ros da Távola Redonda e tem que salvar a rainha Sandy. Um epi­só­dio ins­pi­rado!

11º. O Casa­mento de Elvira

Elvira está ner­vosa com o casa­mento se apro­xi­mando e tem uma crise de pânico, fugindo no dia do ensaio. Enquanto eles impro­vi­sam Irene de noiva para pros­se­guir com o ensaio, Sandy e a galera bolam um plano para fazer Elvira abrir os olhos. É um epi­só­dio curto, mas bem diver­tido. As sequên­cias em que Sandy, Junior, Mau e Basí­lio encon­tram Elvira na sala da torre e as de Irene sempre quei­mando o bolo são muito bem humo­ra­das. Assim como o final do epi­só­dio em que todos os per­so­na­gens se ima­gi­nam casando.

10º. A Perna Curta da Men­tira

A mãe de Irene vem do inte­rior para visitá-la e ela está aflita porque a mãe acha que ela é pro­fes­sora. Pena­li­za­dos, a galera decide trans­for­mar Irene em pro­fes­sora por um dia no CEMA para enga­nar Dona Nicota. Ao ensaiar suas falas como pro­fes­sora de His­tó­ria, Irene coloca pimenta no suco de Boca, que pro­mete se vingar, e ao des­co­brir o plano da galera, ele se dedica em contar a ver­dade a Dona Nicota. Epi­só­dio diver­ti­dís­simo com as situ­a­ções de Irene ten­tando dar aula aos alunos e enga­nando sua mãe.

9º. A Rádio CEMA Está no Ar

Os alunos voltam das férias do meio do ano e des­co­brem que a rádio foi tomada por inva­so­res. Ines­pe­ra­da­mente Bebel está envol­vida com eles. Sandy propõe elei­ções, mas Boca e Bebel sabo­tam o resul­tado. Por fim, ao per­ce­ber que foi usada por Boca, Bebel con­fessa a Camilo o que fez e a rádio volta pra galera. É o pri­meiro epi­só­dio de Boca na série. O clima de elei­ção, a boca de urna com a banda dos Boca de Lixeira e o show de Sandy e Junior é bem carac­te­rís­tico da atmos­fera da pri­meira tem­po­rada.

8º. Um Anjo Veio Aqui

Um anjo apai­xo­nado por Sandy cai no CEMA e faz Sandy também se apai­xo­nar por ele, mas Biel tem apenas 24h para deci­dir se quer con­ti­nuar como anjo ou se quer viver como humano. Sandy trata do feri­mento na asa dele com ajuda de Max, enquanto a galera orga­niza um baile à fan­ta­sia. Durante o baile, Biel se des­pede de Sandy deci­dindo seguir como anjo. É um epi­só­dio deli­cado, focado na paixão de Sandy e com a par­ti­ci­pa­ção de Lucas Lima, que viria a ser o namo­rado e o marido dela.

7º. O Jul­ga­mento de Basí­lio

A galera sai de férias para um hotel fazenda, mas durante o per­curso de trilha a pé acaba per­dida no meio do mato. Max fica res­pon­sá­vel pelas mochi­las de man­ti­mento, mas acaba se dis­traindo com a diver­si­dade bio­ló­gica do lugar e der­ruba as mochi­las no rio. Sem ter o que comer, a galera resolve acam­par, enquanto Basí­lio corre atrás de uma gali­nha afoita e acaba encon­trando uma granja. Ao furtar alguns ovos, cai numa arma­di­lha e fica preso pelo pro­pri­e­tá­rio do lugar, que quer fazer um jul­ga­mento dos atos de Basí­lio. Epi­só­dio muito diver­tido e de ambi­en­ta­ção inco­mum, des­lo­cando os per­so­na­gens e a his­tó­ria para uma outra atmos­fera e tra­zendo um fres­cor à dinâ­mica da série.

6º. Bebel Não Vai Pro Céu

Bebel reata com Boca e muda o visual, pas­sando a fazer o estilo dos Boca de Lixeira. Ela passa a des­tra­tar a turma e usa pela pri­meira vez o termo “mais ou menos” ao se refe­rir a eles, expres­são que Boca pas­sa­ria a usar como “gale­ri­nha mais ou menos”. A fase rebelde de Bebel tem fundo emo­ci­o­nal e con­se­gue se resol­ver depois que Noely con­versa com a mãe de Bebel e ela pro­cura a filha na escola. Clara e Gus­tavo final­mente reatam depois do clima pesado que come­çou nas férias do meio do ano. É um epi­só­dio muito bem desen­vol­vido e ter­mina com um dos clipes mais memo­rá­veis de Sandy e Junior can­tando “Mais Um Tempo Pra Cres­cer”.

5º. No Peito e Na Valen­tia

Durante o pas­seio de férias do meio do ano, a galera chega ao hotel fazenda Santa Helena, mas des­co­bre que devido ao rodeio o local está lotado. O dono, João Fer­ra­dura, se encanta por Clara e ofe­rece pou­sada a todos na casa dele. A rela­ção de Clara e Gus­tavo começa a ficar estre­me­cida. Junior decide desa­fiar João Fer­ra­dura na prova de três tam­bo­res e Clara aceita ser a rainha do rodeio. O epi­só­dio já é inu­si­tado pela pro­posta de loca­ção inco­mum da série e traz ainda um roteiro inte­res­sante pra come­çar a movi­men­tar o tri­ân­gulo amo­roso Clara, Gus­tavo e Patty.

4º. Quer Dançar Comigo?

A galera orga­niza um con­curso de dança e todos ficam eufó­ri­cos em busca de um par. Boca con­vida Sandy, que a prin­cí­pio declina do con­vite, mas acaba sendo con­ven­cida por Noely a acei­tar. Con­tudo, ao dar a res­posta a Boca na frente da turma dele, ele fica com medo de man­char sua imagem de durão e des­preza Sandy. Durante o baile, ines­pe­ra­da­mente, Boca surge de smoking, cabelo pen­te­ado, barba feita e uma flor na mão. Ele pede des­cul­pas a Sandy, que aceita dançar com ele e os dois acabam ganhando o con­curso. Um dos melho­res epi­só­dios da tem­po­rada. Vemos pela pri­meira vez o lado mais român­tico de Boca e uma versão ainda não explo­rada dele.

3º. Uma Força Pro Cupido

A rela­ção de Elvira e Ota­cí­lio esfriou e ambos deci­dem ao mesmo tempo mandar uma carta para a agên­cia de namoro Novo Amor. A galera des­co­bre e decide fazer com que a carta de um vá para o outro. Boca e Bebel ficam encar­re­ga­dos de irem à agên­cia e con­se­gui­rem pegar as cartas. Elvira e Ota­cí­lio marcam um encon­tro, a galera orga­niza o cená­rio român­tico e eles final­mente se enten­dem, com Ota­cí­lio a pedindo em casa­mento. Um epi­só­dio bem humo­rado, com situ­a­ções ins­pi­ra­das e diver­ti­das que explo­ram a veia cômica de Elvira, assim como a par­ce­ria de Boca e Bebel com a exó­tica pro­pri­e­tá­ria da agên­cia de namoro, Lur­di­nha.

2º. Sua Majes­tade, O Bebê

A galera encon­tra um bebê aban­do­nado na capela do CEMA e pre­cisa se virar pra cuidar dele no colé­gio, escon­dido dos pro­fes­so­res, até resol­ver o que fazer. Elvira des­con­fia, e após achar fral­das que Basí­lio jogou no lixo, acre­dita que Basí­lio é quem está usando. Até que ela des­co­bre a ver­dade e leva o assunto a Camilo, que se apai­xona pela cri­ança – bati­zada pela galera com o nome do filho que ele perdeu -, e decide adotá-la. O epi­só­dio é um dos mais diver­ti­dos, prin­ci­pal­mente pelo mala­ba­rismo que eles fazem para escon­der o bebê dos pro­fes­so­res e as jus­ti­fi­ca­ti­vas que eles dão pelas ausên­cias de um deles a cada aula.

1º. Uma Canção Para Sandy

Em meio aos ensaios de lan­ça­mento do novo CD, Sandy é con­vi­dada para cantar em um con­certo para voz femi­nina sem Junior, mas ela recusa, sabendo que os jor­nais diriam que ela esta­ria par­tindo para a car­reira solo. Junior, no entanto, insiste que ela faça o show. A rela­ção dos irmãos fica estre­me­cida pelas notí­cias de que vão se sepa­rar, porém eles con­se­guem supe­rar os boatos e con­ti­nuar a dupla. Um epi­só­dio mais que espe­cial para os fãs, que relem­bra a car­reira deles, mexe com o dilema da sepa­ra­ção e rea­firma a força da car­reira dos dois juntos. O epi­só­dio intro­duz três músi­cas novas na época, “As Quatro Esta­ções”, “Malia” e “Apren­der a Amar”, e ainda eter­niza “Dias e Noites” como hino da união da dupla.

15 Melhores Episódios da 2ª Temporada de Sandy e Junior

A segunda tem­po­rada da série Sandy e Junior foi ao ar de 5 de março a 31 de dezem­bro de 2000, tota­li­zando 43 epi­só­dios. A mais longa de todas. É a tem­po­rada da rela­ção entre Sandy e Gus­tavo e da intro­du­ção do trai­ler de Basí­lio. Marca também a entrada das cri­an­ças Duda, Talita e depois Glo­ri­nha. E também ocorre a pri­meira troca no time de pro­fes­so­res, saindo Caro­lina e Marcão e entrando Rebeca e Miguel. No meu ranking de tem­po­ra­das da série, ela se encon­tra como a melhor tem­po­rada do pro­grama. Dentre os seus 43 epi­só­dios, eu sele­ci­o­nei os 15 melho­res dessa tem­po­rada.

15º. Na Medida do Sucesso

Riti­nha decide lançar sua pró­pria grife de roupas e a galera orga­niza um des­file, con­vi­dando duas das mai­o­res crí­ti­cas de moda do país. Irene e Val­dete ficam res­pon­sá­veis por tirar as medi­das da galera e cos­tu­rar as roupas. Porém, Duda e Talita trocam o papel com as medi­das e as roupas ficam pron­tas bem na hora do des­file com as medi­das todas erra­das. Apesar do aperto, Riti­nha con­se­gue dar um jeito e o des­file é um sucesso. Um epi­só­dio sim­pá­tico e diver­tido de acom­pa­nhar. O des­file da galera no final traz um charme a mais à pro­du­ção.

14º. É Pri­ma­vera

Com o Fes­ti­val da Pri­ma­vera che­gando, Elvira muda as regras para elei­ção da rainha – que sempre era ganho por Patty -, subs­ti­tu­indo beleza por venda de votos, com o dinheiro sendo rever­tido à cari­dade. Patty passa a vender beijos a Gus­tavo em troca de votos. Sandy des­co­bre que o sonho de Bebel é ser rainha, então as meni­nas se unem e vendem seus votos para Bebel, fazendo-a ganhar o con­curso, para a sur­presa e fúria de Patty. Enquanto isso os meni­nos dis­pu­tam o tra­di­ci­o­nal cabo de guerra contra a turma de Mar­qui­nhos. Epi­só­dio bonito, flo­rido e cheio de roman­tismo. O romance entre Junior e Clara final­mente desa­bro­cha junto com a pri­ma­vera.

13º. Os San­ti­nhos do Pau Oco

Após Bor­bo­rema não demons­trar inte­resse em Irene, Patty resolve ins­crevê-la em uma agên­cia de namoro. San­do­val chega ao CEMA e, a prin­cí­pio, tudo parece ter dado certo. O romance deixa Irene nas nuvens, mas logo San­do­val se mostra um pica­reta que só quer tirar dinheiro dela enquanto dá em cima de Val­dete. Para dar o troco, a galera marca um encon­tro no trai­ler de Basí­lio entre San­do­val e Rebeca, que já vinha infer­ni­zando Riti­nha há algum tempo. Ela acha que irá se encon­trar com Festa e o encon­tro com San­do­val vira um vexame para os dois e diver­são para a galera. Epi­só­dio focado na veia cômica de Irene e que gera bons e diver­ti­dos momen­tos.

12º. Sor­ti­lé­gio de Amor

A galera vai a um parque de diver­sões e as meni­nas resol­vem entrar na tenda da cigana Madame Suli. Ela diz às meni­nas que o pri­meiro homem que elas encon­tra­rem ao sair, será o grande amor da vida delas, jogando um pó aro­má­tico exó­tico nelas. Ao saírem, elas se encon­tram com o pro­fes­sor Miguel e todas se apai­xo­nam por ele. Para inves­ti­gar a situ­a­ção das meni­nas, os meni­nos dir­far­çam Basí­lio de mulher e o faz entrar na tenda, mas quando ele sai, acaba se apai­xo­nando por Boca. É um epi­só­dio muito diver­tido, tanto pela pai­xo­nite cole­tiva das meni­nas por Miguel, quanto por Basí­lio dis­far­çado como Jés­sica Tutti.

11º. Quem Tem Medo de Vam­piro?

Sandy dá a Junior a cole­ção dos qua­dri­nhos Pira Vam­piro e ele passa a noite lendo tudo, até que uma vam­pira sai de dentro de uma das revis­tas e o ataca. A partir daí ele começa a agir estra­nho e também ataca Bebel, Rebeca e Irene. Eles orga­ni­zam uma festa e ter­mi­nam por trans­for­mar todos os outros em vam­pi­ros também. Sandy, Gus­tavo e Val­dete tentam impe­dir o avanço deles e cravam uma estaca no peito de Junior, quando ele final­mente acorda do sonho. Epi­só­dio inu­si­tado e bem fan­ta­si­oso, porém dentro do plau­sí­vel, já que tudo não passa de um sonho de Junior. Um belo pas­seio pelo uni­verso vam­pi­resco, com uma pro­du­ção capri­chada.

10º. A Galera e o Tempo (Partes I e II)

A galera encon­tra uma máquina do tempo e acaba via­jando para os anos 70, com exce­ção de Boca e Patty que ficam no con­trole da máquina para trazê-los de volta. Lá nos anos 70 eles são con­fun­di­dos com o grupo Os Bor­bu­lhan­tes e fazem um show. Con­tudo, na hora de embar­car de volta, Beth resolve levar uma flor de recor­da­ção, e como resul­tado, o futuro é total­mente alte­rado. O CEMA está em ruínas, a can­tina virou um bar deca­dente de Irene e Val­dete, onde Camilo e Miguel, sujei­tos mau enca­ra­dos, jogam sinuca. Boca e Patty são sem-teto e a água é um bem escasso. Epi­só­dio duplo que explora a viagem no tempo e suas con­se­quên­cias, nos apre­sen­tando uma versão alter­na­tiva e sur­preen­dente do CEMA e dos pro­fes­so­res.

9º. Sandy e Junior e o Senhor do Tempo

Patty orga­niza uma festa de ano novo em sua casa pra beijar Gus­tavo no momento da virada. Ela prende Sandy e Junior no porão, mas, mis­te­ri­o­sa­mente, um segundo antes da virada, os reló­gios param e todos con­ge­lam, com exce­ção de Sandy e Junior, que uti­li­za­vam amu­le­tos. O Senhor do Tempo apa­rece e diz que parou o tempo e o ciclo da vida para evitar que a huma­ni­dade con­ti­nu­asse mais um século de atro­ci­da­des. Os irmãos tentam argu­men­tar, mas só con­se­guem um último desejo, beijar Gus­tavo e Clara. Diante do beijo cheio de amor deles, o Senhor do Tempo se comove e des­con­gela o tempo nova­mente. Epi­só­dio final da tem­po­rada, com Patty pas­sando dos limi­tes ao usar sua última car­tada pra ficar com Gus­tavo. E Sandy e Gus­tavo final­mente ficando juntos num epi­só­dio emo­ci­o­nante.

8º. Ciranda, Ciran­di­nha

Basí­lio orga­niza a Festa da Lua Azul no trai­ler e sor­teia os casais para dan­ça­rem juntos, gerando con­fu­são entre os casais de ver­dade, prin­ci­pal­mente em Patty, quando Gus­tavo sor­teia Sandy. Na aula de teatro grego, Patty esco­lhe errado seu papel e Sandy e Gus­tavo acabam pro­ta­go­ni­zando uma cena de romance, para deses­pero de Patty que inter­rompe a aula aos berros. Junior está encan­tado pela pro­fes­sora Ana, que está a fim do pro­fes­sor Miguel. Durante a festa, os casais sor­te­a­dos não se afinam e todos acabam indo para seus pares reais. Um epi­só­dio ins­pi­ra­dor, que apro­xima um pouco mais Sandy de Gus­tavo e brinca com o poema Qua­dri­lha de Drum­mond.

7º. A Alma do Negó­cio

Beth, Mau e Riti­nha deci­dem abrir uma bar­ra­qui­nha de san­du­í­che natu­ral pra con­cor­rer com Basí­lio, depois que a conta do mês deles no trai­ler dá absur­da­mente alta por Basí­lio ter cobrado guar­da­na­pos, copos e canu­dos também. A con­cor­rên­cia vira uma guerra, divi­dindo a galera e fazendo a imprensa divul­gar que Sandy e Junior estão em lados opos­tos. Boca apro­veita o momento e monta um negó­cio de venda de anti­á­cido. O epi­só­dio é muito diver­tido pela dinâ­mica que se esta­be­lece entre os con­cor­ren­tes em busca da fre­gue­sia. Pra garan­tir o sucesso do seu negó­cio, eles chegam a ofe­re­cer dinheiro para que com­prem com eles. Um roteiro muito cri­a­tivo.

6º. Por Uma Ques­tão de Ordem

Camilo se afasta do colé­gio após pegar cata­pora e Rebeca dá um jeito de assu­mir a dire­ção. Ela começa a adotar medi­das impo­pu­la­res e can­cela um pro­grama de tele­vi­são que a galera estava pro­du­zindo pra aula de Miguel. Na sequên­cia acaba sus­pen­dendo Boca, depois que ele se irrita por ela impli­car com suas ves­ti­men­tas. Em meio a um pro­testo dos alunos com car­ta­zes no pátio do CEMA, Rebeca ameaça expul­sar Sandy, Junior, Clara, Boca e Gus­tavo se a revolta não ter­mi­nar. É o epi­só­dio que mais explora a mega­lo­ma­nia de Rebeca e mostra onde ela pode­ria chegar se con­se­guisse plenos pode­res. É inte­res­sante ver a galera toda empe­nhada numa luta por uma causa comum.

5º. Men­ti­ras e Ver­da­des

Irene orga­niza um almoço de ani­ver­sá­rio na sua comu­ni­dade e con­vida a galera, que se junta pra dar uma gela­deira nova de pre­sente. Patty con­trata uma limou­sine e con­vida Mar­qui­nhos para ir com ela, depois que ela vê Gus­tavo e Sandy sen­ta­dos juntos no ônibus. Lá na festa surge um boato de que a rela­ção de Patty com Gus­tavo é séria e que ele já “inva­diu a fron­teira”. O fuxico passa por Sandy e chega aos ouvi­dos de Gus­tavo, que vai tomar satis­fa­ção com a patri­ci­nha, encer­rando de vez a rela­ção deles. É um epi­só­dio inco­mum por levar a ambi­en­ta­ção tra­di­ci­o­nal da série para o clima fes­tivo de pagode da comu­ni­dade, o que faz o enredo se sobres­sair mais. Ainda rola roda de capo­eira e Sandy e Junior can­tando “Ver­dade” de Zeca Pago­di­nho.

4º. Sandy e o Homem das Mil Faces

Sandy sonha que um pote de ervi­lhas é rou­bado de um museu por um homem sem rosto. No outro dia, parte da turma faz uma visita a um museu e um vali­o­sís­simo colar his­tó­rico é rou­bado. Enquanto isso, Basí­lio e Mau vão buscar uma carga de ervi­lhas para fazer um fes­ti­val culi­ná­rio no trai­ler, com a ajuda de Irene e Val­dete. A galera acaba encon­trando a joia rou­bada dentro de um dos potes de ervi­lha e pre­pa­ram uma arma­di­lha para pegar o ban­dido na segunda noite do fes­ti­val. É um epi­só­dio que mescla sus­pense, mis­té­rio e humor de uma maneira muito feliz. As diver­sas inven­ções dos qui­tu­tes de ervi­lha que Irene e Val­dete acabam cri­ando trazem ótimos momen­tos também.

3º. O Fei­tiço do Arco-Íris

As ati­tu­des de Patty chegam ao limite e a galera decide ignorá-la por um tempo. Enquanto ela e Sandy catam mine­rais no pátio do CEMA para a aula de Elvira, começa a chover e um estra­nho fenô­meno acon­tece quando elas passam debaixo do arco-íris, fazendo com que as duas tro­quem de corpos. A falsa Sandy apro­veita para sedu­zir Gus­tavo e Boca, e se super­va­lo­ri­zar na car­reira da dupla com Junior. Enquanto isso a falsa Patty tenta expli­car a his­tó­ria para a galera, que não lhe ouve. É um epi­só­dio mara­vi­lhoso por nos pro­por­ci­o­nar ver Sandy inter­pre­tando Patty, com todos seus tre­jei­tos e seu jogo de sedu­ção. As cenas dela com Boca, Junior e Gus­tavo são sur­preen­den­tes e nos mos­tram uma atu­a­ção dela que pouco conhe­ce­mos.

2º. Boa Roma­ria Faz Quem em Sua Casa Fica em Paz

Bebel passa por con­fli­tos em casa e decide ir morar em uma bar­raca no gra­mado do CEMA. Riti­nha e Beth acabam se jun­tando a ela. Depois que Camilo inter­vém, elas des­mon­tam a bar­raca e montam ao lado do trai­ler de Basí­lio. A galera começa a pro­du­zir um docu­men­tá­rio sobre con­vi­vên­cia a partir do dia a dia das meni­nas na bar­raca. Após alguns dias, o con­ví­vio entre elas se torna insus­ten­tá­vel e Basí­lio não suporta mais o acam­pa­mento atra­pa­lhando seus negó­cios, entrando em guerra com elas. O caos que se trans­forma esse epi­só­dio com a con­vi­vên­cia das meni­nas ao lado do trai­ler de Basí­lio e a galera ten­tando pro­du­zir o docu­men­tá­rio ao mesmo tempo é mara­vi­lhoso. É um daque­les epi­só­dios de arran­car as mais gos­to­sas gar­ga­lha­das.

1. Um Cara Como Você

Depois que Gus­tavo recusa ir num jantar que Patty orga­niza para apre­sentá-lo à famí­lia, ela rompe com ele e passa a ignorá-lo. Clara então decide voltar com ele e pede a Sandy para marcar um encon­tro às cegas, e ela, a con­tra­gosto, con­corda. Gus­tavo pensa que a garota que vai encon­trá-lo é a pró­pria Sandy e se sur­preende ao ver Clara. Ele a dis­pensa de maneira cari­nhosa e na sequên­cia se depara com Patty, que o con­vence a reatar a rela­ção, enquanto Sandy apa­rece soli­tá­ria num clipe na TV do trai­ler. Um epi­só­dio muito espe­cial para o casal Sandy e Gus­tavo. Aqui fica mais que evi­dente que ambos estão apai­xo­na­dos um pelo outro, mas as cir­cuns­tân­cias ainda não per­mi­tem a rela­ção. O epi­só­dio ainda nos faz recor­dar a his­tó­ria dele com Clara. O clipe final com “Sua Estrela Sou Eu”, que já começa na tele­vi­são do trai­ler de Basí­lio, com Sandy soli­tá­ria e carente em um café, a olhar o tempo, ves­tindo um sobre­tudo numa noite fria e chu­vosa, é um dos momen­tos mais ines­que­cí­veis da série.

15 Melhores Episódios da 3ª Temporada de Sandy e Junior

A ter­ceira tem­po­rada da série Sandy e Junior foi ao ar de 1 de abril a 23 de dezem­bro de 2001, com um total de 38 epi­só­dios. Nessa tem­po­rada a par­ti­ci­pa­ção de Sandy foi redu­zida na pri­meira metade devido às gra­va­ções da novela Estrela-Guia, que ela pro­ta­go­ni­zava. Com o romance de Sandy e Gus­tavo encer­rado, a pro­du­ção parece, a prin­cí­pio, que ficou meio per­dida com o des­tino amo­roso deles, e acabou fazendo Gus­tavo voltar com Clara. Já Sandy ficou sem nin­guém até a saída de Gus­tavo da série, quando Bruno entrou, mas antes ainda teve uma ten­ta­tiva mal suce­dida de fazê-la se envol­ver com Festa. É a tem­po­rada do vilão Alvi­nho. No meu ranking de tem­po­ra­das da série, ela se encon­tra como a última colo­cada. Con­tudo, dentre seus 38 epi­só­dios, sele­ci­o­nei os 15 melho­res.

15º. Um Certo Doutor Fan­tás­tico

Durante a semana de saúde do CEMA, o colé­gio recebe a visita do médico sani­ta­rista Dr. Moura, que age estra­nha­mente com todo mundo e diag­nos­tica Sandy com um vírus con­ta­gi­oso, a colo­cando em qua­ren­tena. Depois Rebeca e Camilo também são iso­la­dos. Bebel des­con­fia do médico e des­co­bre que ele não é o ver­da­deiro Dr. Moura, e sim um paci­ente de um hos­pi­tal psi­qui­á­trico que fugiu. Enredo batido, mas que con­se­gue se sobres­sair pela maneira diver­tida com que o médico aborda as pes­soas e con­vence todos no CEMA de que há mesmo uma epi­de­mia no colé­gio.

14º. A Más­cara de Cada Um

A turma está pro­du­zindo um filme sobre Zorro, e Bebel se estressa pelo fato de Carol estar atu­ando mesmo sem ser aluna, num papel que seria dela. Também se cha­teia por não darem valor à Basí­lio, que acaba embar­cando nas razões dela e quase fere Junior numa cena de espada. Durante uma reu­nião do Deto­na­ção, sem a pre­sença de Junior, ela sugere que Basí­lio assuma a lide­rança do negó­cio, estre­me­cendo a ami­zade dele com Junior. Trama inte­res­sante. Apesar de Bebel ter se mos­trado bem desor­deira nessa tem­po­rada, são bas­tante razo­á­veis seus ques­ti­o­na­men­tos. As sequên­cias do filme também são muito bem pro­du­zi­das, dando um charme a mais ao epi­só­dio.


13º. Ara­pu­cas e Arma­di­lhas

Agatha Mel, uma can­tora deca­dente, chega ao CEMA para gravar um clipe com Sandy e Junior, dizendo que irá doar o cachê para um orfa­nato, mas na ver­dade quer usar a imagem deles para ala­van­car sua car­reira. Carol avisa a Junior que ganhou uma bolsa numa facul­dade na Cali­fór­nia e ficará dois anos longe. Alvi­nho arma um flagra com Agatha para fazer Carol ter­mi­nar de vez com Junior, e durante um ensaio, Agatha acaba bei­jando Junior na frente de Carol. A galera des­con­fia das inten­ções da can­tora e bola um cená­rio maca­bro para o clipe dela. Epi­só­dio inte­res­sante. A sequên­cia de Agatha super empol­gada, dan­çando e sen­su­a­li­zando em volta de Junior é bem diver­tida.

12º. É Pre­ciso Cora­gem

Boca está trei­nando os fun­ci­o­ná­rios do CEMA para o cam­pe­o­nato de vôlei inter­co­le­gial. O Deto­na­ção recebe uma ordem de des­pejo do pai de Alvi­nho que pre­tende montar um parque aquá­tico no local. Boca coloca os fun­ci­o­ná­rios para lavar a quadra e car­re­gar tijo­los. Um ex-colega de Camilo, dire­tor do colé­gio da equipe adver­sá­ria, debo­cha do treino deles. Carol inter­fere na nego­ci­a­ção e o pai de Alvi­nho muda o local do parque aquá­tico. O CEMA vence o tor­neio inter­co­le­gial. Epi­só­dio com uma boa exe­cu­ção. A sequên­cia de toda a galera andando ao mesmo tempo no fus­qui­nha de Gus­tavo é hilá­ria. O epi­só­dio ainda traz a galera rodando “Irmãos Cora­gem”, em for­mato de filme.

11º. O CEMA Faz Cem Anos

Camilo orga­niza uma mara­tona para come­mo­rar os 100 anos do CEMA. Junior e Alvi­nho deci­dem resol­ver seus pro­ble­mas na mara­tona, mas Alvi­nho joga sujo e coloca soní­fero na água de Junior. Por sorte, Val­dete impede que Junior a beba e des­peja a água no galão geral, fazendo todos caírem no sono no meio da mara­tona, exceto Bor­bo­rema que não havia tomado da água e acaba ganhando, quando Alvi­nho tro­peça e der­ruba Junior. Epi­só­dio com uma pro­posta bem inte­res­sante para cele­brar o cen­te­ná­rio do colé­gio. A cena de Patty che­gando nos braços do per­so­nal trai­ner é muito diver­tida.

10º. Enquanto o Tempo Passa

Sandy e Bruno supe­ram sua pri­meira crise e com­bi­nam de passar o fim de semana juntos numa praia deserta, mas um empre­sá­rio inter­na­ci­o­nal vem ao Brasil para gravar com eles e ela pre­cisa can­ce­lar o pas­seio. Bruno resolve ir sozi­nho, mas Patty o segue e furta o celu­lar dele para poder aten­der as liga­ções de Sandy, devol­vendo em seguida, sor­ra­tei­ra­mente. Na volta, Bruno não con­se­gue se expli­car e Sandy ter­mina com ele. Epi­só­dio focado no novo romance de Sandy com Bruno e no obje­tivo de Patty em separá-los, mesmo sem nenhuma garan­tia de Bruno ficar com ela.

9º. Mudou a Pri­ma­vera ou Muda­mos Nós? 

Sandy orga­niza um baile de pri­ma­vera e Beth não quer par­ti­ci­par por não se achar bonita. Ela per­gunta a Mau se ele a acha bonita e ele diz que ela é sim­pá­tica, arra­sando com ela. O irmão pro­ble­má­tico e mais novo de Camilo está de pas­sa­gem pelo CEMA em busca de dinheiro e diz a Beth que a acha linda. Os dois acabam saindo juntos e ela o con­vida para ser seu par no baile. Pre­o­cu­pado, Camilo dá o dinheiro que seu irmão quer e ele vai embora. Beth chega ao baile des­lum­brante e no fim acaba se enten­dendo com Mau e ganhando o con­curso. Epi­só­dio deli­cado e um dos raros focado em Beth, reve­lando a beleza que a per­so­na­gem esconde.

8º. Prín­ci­pes, Prin­ce­sas e Ple­beus

O prín­cipe Amir Alika­bar dos Emi­ra­dos Árabes Unidos vai ao pro­grama Mais Você contar que quer conhe­cer Sandy. Na sequên­cia, resolve visi­tar o CEMA. A galera assusta Sandy sobre as inten­ções do prín­cipe e ela se dis­farça de fla­ne­li­nha para que ele não a encon­tre. Mas quando ela o vê sem o tur­bante, se encanta por ele, que con­vida a fla­ne­li­nha para um pic nic e lhe dá uma joia que daria a Sandy. Epi­só­dio pecu­liar e sen­sí­vel. Inte­res­sante como a trama vai de um suposto sheik inva­sor a um jovem român­tico e ide­a­li­za­dor. Muito boa a trans­for­ma­ção de Sandy numa fla­ne­li­nha.

7º. Nome: Sandy Leah Lima

Alvi­nho orga­niza a festa de inau­gu­ra­ção da sua can­tina e con­trata um fotó­grafo para tirar fotos dele com Sandy para plan­tar na imprensa que é o novo namo­rado dela. Na manhã seguinte, os jor­na­lis­tas tentam inva­dir o CEMA para con­fir­mar a fofoca. Sandy leva Alvi­nho até eles para des­men­tir a situ­a­ção, mas ele a puxa, fazendo-a escor­re­gar num skate e cair. Ao acor­dar, ela perde a memó­ria e Alvi­nho tenta se apro­vei­tar da situ­a­ção para con­vencê-la de que eles são mesmo namo­ra­dos. Epi­só­dio inte­res­sante, explo­rando a vul­ne­ra­bi­li­dade de Sandy com amné­sia, diante de uma pessoa mau cará­ter como Alvi­nho.

6º. A Mão que Emba­lança o CEMA

Após o show de Sandy e Junior no encer­ra­mento das come­mo­ra­ções dos 100 anos do CEMA, Camilo agra­dece a cola­bo­ra­ção de Sandy e esquece de citar Rebeca, que se sente rebai­xada. Sandy pro­cura Camilo para ver a pos­si­bi­li­dade da can­tina dis­po­ni­bi­li­zar lanche para os músi­cos da banda, mas só encon­tra Rebeca, que auto­riza não só para os músi­cos, mas para todos os con­vi­da­dos e pede que Sandy assine a auto­ri­za­ção pelas duas. Quando a conta da can­tina chega, Camilo chama as duas, mas Rebeca nega a auto­ri­za­ção, gerando uma situ­a­ção extre­ma­mente desa­gra­dá­vel para Sandy. Um epi­só­dio bem cons­tru­ído, focado na inveja e no orgu­lho ferido de Rebeca, com ótimos emba­tes e con­fli­tos para Sandy.

5º. Uma Assom­bra­ção em Pânico

Chove bas­tante e a galera fica ilhada até tarde da noite no CEMA estu­dando. Sandy recebe uma liga­ção anô­nima de alguém dizendo que pre­cisa falar com ela e que sabe onde ela está. As meni­nas come­çam a entrar em pânico depois que veem uma bota preta no banheiro femi­nino. Camilo e Rebeca também rece­bem liga­ções mis­te­ri­o­sas. Os meni­nos armam um plano para pegar a pessoa que está ligando, usando Sandy como isca. O plano dá certo e des­co­bre-se que o res­pon­sá­vel é o pro­fes­sor Galeno. Ele acusa Rebeca de ter auto­ri­zado o lanche na festa dos cem anos do CEMA e colo­cado a culpa em Sandy. Em seguida, ele começa a deli­rar, sendo levado por enfer­mei­ros. Epi­só­dio com uma ótima atmos­fera de sus­pense e pânico, e um des­fe­cho sur­preen­dente, que final­mente ino­centa Sandy da acu­sa­ção de Rebeca.

4º. Amor, Esse Jogo Peri­goso

O CEMA é sele­ci­o­nado para o desa­fio das esco­las no pro­grama de TV Prova Total, onde Bruno Tavo­lari segue invicto. Bruno chega ao CEMA para gravar algu­mas cha­ma­das e se mostra arro­gante com Basí­lio, o con­cor­rente da escola, dei­xando Sandy indig­nada. Diante da pres­são, Basí­lio desiste e Sandy assume seu lugar. Ele tenta deses­ta­bi­li­zar Sandy, mas a garota acaba ven­cendo a com­pe­ti­ção. Por fim, ele a para­be­niza, pede des­cul­pas e até a con­vida pra sair algum dia. Epi­só­dio que intro­duz Bruno na série, com o obje­tivo de ser o novo namo­rado de Sandy. Boa sacada da pro­du­ção ao criar o romance deles atra­vés da riva­li­dade e da anti­pa­tia. A per­so­na­li­dade de Bruno também é muito bem dosada entre o sar­casmo e a sedu­ção.

3º. Bola Pra Frente, Que Atrás Vem Gente

A pro­du­ção do pro­grama Galera Radi­cal está pro­cu­rando um novo apre­sen­ta­dor e o CEMA será o ponto de sele­ção. Sandy incen­tiva Gus­tavo a se ins­cre­ver e diante da incer­teza dele, ela o ins­creve. Patty se com­pro­mete a con­vencê-lo a par­ti­ci­par. Os testes come­çam e Gus­tavo e Alvi­nho são os fina­lis­tas para a última prova de surf. Gus­tavo vence e terá que se mudar para o Rio, onde o pro­grama será gra­vado. Sandy e Gus­tavo tem uma rea­pro­xi­ma­ção, mas ela diz que não atra­pa­lhará o futuro dele e o ama o sufi­ci­ente para deixá-lo partir. Epi­só­dio emo­ci­o­nante da des­pe­dida de Gus­tavo da série. Depois de quase uma tem­po­rada inteira afas­ta­dos, Sandy e Gus­tavo voltam a se envol­ver, pro­vando que eles são real­mente o melhor casal de toda a série.

2º. A Festa de Val­dete/ Ano Novo, Vida Nova

A galera orga­niza um evento bene­fi­cente no CEMA para a festa de natal das cri­an­ças caren­tes da comu­ni­dade de Val­dete. Alvi­nho é pres­si­o­nado para pagar as dívi­das do Deto­na­ção e rouba o dinheiro de Val­dete, qui­tando a dívida. A galera des­con­fia, e Patty, equi­pada com escu­tas, arranca a ver­dade dele, reve­lando também que era a sócia mis­te­ri­osa dele, para a sur­presa geral da galera. Val­dete ganha R$ 10 mil reais num con­curso do super­mer­cado e rea­liza uma grande festa para as cri­an­ças. O dia da for­ma­tura da galera chega e Alvi­nho tenta seu último golpe, ao roubar a fita da apre­sen­ta­ção, mas acaba preso num galpão por Sandy. Epi­só­dio final da tem­po­rada. É um des­fe­cho emo­ci­o­nante. E embora não seja o fim da série, é a des­pe­dida de muitos do elenco e da escola, já que a pró­xima tem­po­rada seria ambi­en­tada no Con­do­mí­nio Mata Atlân­tica.

1º. Luz, Câmera, Ação (Partes I e II)

A galera produz seu pri­meiro filme no CEMA, ambi­en­tado nos anos 30, cha­mado “Os Reto­cá­veis”. Alvi­nho é o gangs­ter da his­tó­ria. Enquanto isso, o trai­ler de Basí­lio some e Patty retorna das férias no ori­ente total­mente zen. Os meni­nos des­co­brem o trai­ler num ferro-velho, e Patty arca com as des­pe­sas para res­gatá-lo, entrando como sócia. A turma des­co­bre que Alvi­nho está por trás do sumiço do trai­ler, por querer abrir um bar con­cor­rente, e Sandy o dis­pensa do filme. A galera se empe­nha em abrir o novo negó­cio, agora cha­mado Espaço Deto­na­ção, enquanto Alvi­nho tenta atra­pa­lhar. E Sandy con­se­gue com Camilo que a exi­bi­ção do filme seja no Deto­na­ção. Esse ele­tri­zante epi­só­dio duplo foi a exce­lente estreia da ter­ceira tem­po­rada. A pro­du­ção de filmes pela galera deu um ar de sofis­ti­ca­ção à série, assim como o grande número de ações que acon­te­ciam no epi­só­dio dis­far­ça­ram a dimi­nui­ção da par­ti­ci­pa­ção de Sandy devido às gra­va­ções da novela Estrela-Guia. Foi um começo pro­mis­sor, o melhor até então, embora a tem­po­rada em si não tenha seguido assim ao longo do ano.

15 Melhores Episódios da 4ª Temporada de Sandy e Junior

A quarta tem­po­rada da série Sandy e Junior foi ao ar de 7 de abril a 29 de dezem­bro de 2002, tota­li­zando 36 epi­só­dios. A mais curta de todas. É a única tem­po­rada que não é ambi­en­tada no CEMA, tendo como pano de fundo o Con­do­mí­nio Mata Atlân­tica e o espaço cul­tu­ral Deto­na­ção. Total­mente refor­mu­lada, desde a aber­tura, tema de aber­tura e con­ceito geral, a tem­po­rada não trouxe mais os per­so­na­gens Clara, Mau, Dodô e Teca, nem o time de pro­fes­so­res, ao mesmo tempo intro­du­ziu outro elenco jovem, mora­do­res do con­do­mí­nio. Com tramas adul­tas, foca­das no dia a dia dos per­so­na­gens e em con­fli­tos de gera­ção, a tem­po­rada se des­taca como a mais madura da série. No meu ranking das tem­po­ra­das, ela se encon­tra como a ter­ceira melhor. Dentre seus 36 epi­só­dios, sele­ci­o­nei os 15 melho­res.

15º. A Megera Contra Ataca

Dona Mar­lene, cada vez mais amarga, chama um fiscal para apreen­der o jipe de Boca, que não tem alvará, e o coloca na rua. Café defende Boca e ela o demite. Enquanto está de aviso prévio, Café acolhe Boca em sua mora­dia, mas Dona Mar­lene des­co­bre e des­peja Café por justa causa. Junior leva os dois para tra­ba­lha­rem no seu estú­dio no Deto­na­ção. Durante uma visita ao estú­dio, Gil­berto Gil reco­nhece Café do cená­rio musi­cal e ques­ti­ona a ausên­cia dele. Junior então produz um show de Café no Deto­na­ção, fazendo dele um sucesso nova­mente. Epi­só­dio muito bem desen­vol­vido, que marca o fim do tra­ba­lho de Café como por­teiro do con­do­mí­nio e a sua reto­mada da car­reira musi­cal.

14º. O Jogo da Ver­dade

Sandy des­co­bre que Laila foi quem a acusou de ter espa­lhado que o pai de João está preso e toma satis­fa­ção com ela. Mas Laila mente na cara dura, acu­sando Sandy e a xin­gando. Sandy dá um tapa nela na frente de todos, inclu­sive de Junior, pra onde Laila corre. O clima entre Sandy e Junior fica pesado e eles passam a não se falar. Sandy expulsa Laila da aca­de­mia e João resolve sair também. No fim, com a ajuda de Leila, Junior des­mas­cara Laila, ino­cen­tando Sandy. Epi­só­dio que marca o fim do jogo para Laila. A partir daqui sua más­cara cai e ela não tem mais a quem recor­rer para se dar bem. Ótimos emba­tes entre Sandy e Laila e um mara­vi­lhoso flagra de Junior em Laila.

13º. Noite Feliz

Sandy orga­niza sua pri­meira ceia de Natal longe da famí­lia, mas todos tem outros planos. Yoko con­vida Junior para acam­par. Patty não quer sair de casa porque é ata­cada nas ruas pelas mal­da­des de sua per­so­na­gem na novela. Basí­lio está arra­sado pela par­tida de Maria e não quer cele­brar o Natal. Bebel vai passar com o novo namo­rado. Beth em uma mara­tona de para­psi­co­lo­gia. E Tony com a famí­lia. Mas Junior marca uma reu­nião geral com a galera e todos fazem uma sur­presa pra Sandy, com a par­ti­ci­pa­ção de seus pais. Epi­só­dio de Natal já dando início a alguns des­fe­chos da série, que encer­ra­ria um epi­só­dio depois. Há ainda no epi­só­dio, Téo reen­con­trando sua mãe e Sandy desis­tindo de vez de Tony, ao per­ce­ber que ele só tem inte­resse finan­ceiro em tudo.

12º. Tudo de Novo no Front

Sandy e Junior vão se mudar para Nova York por um ano devido à car­reira inter­na­ci­o­nal e tran­cam a facul­dade. A notí­cia deixa todos no con­do­mí­nio arra­sa­dos. Basí­lio vende o casa­rão e dá parte do dinheiro a Riti­nha, Boca, João Pedro e Maria. Patty recebe con­vite para mais duas nove­las. Sandy passa o comando da aca­de­mia para João. Yoko decide ir pro Japão, mas fica ten­tada a acom­pa­nhar Boca numa viagem pela Amé­rica Latina. Dona Mar­lene faz aná­lise com Beth e recebe a visita das suas sobri­nhas, Leila grá­vida e Laila casada com um pecu­a­rista. Antes de par­ti­rem, Sandy e Junior fazem um festão no con­do­mí­nio com auto­ri­za­ção de Dona Mar­lene. Fim da tem­po­rada e da série, dando des­fe­cho a todos os per­so­na­gens e dei­xando o clima de des­pe­dida e encer­ra­mento no ar.

11º. Deto­na­ção Geral

O dia da inau­gu­ra­ção do Deto­na­ção se apro­xima e Basí­lio decide se tornar o barman, porém Sandy e Junior ficam inse­gu­ros quanto às habi­li­da­des dele, e ao verem João Pedro manu­se­ando a coque­te­leira e des­co­bri­rem que ele já teve expe­riên­cia antes, deci­dem colocá-lo como o barman, mas Basí­lio é contra, acha que João Pedro armou para tomar seu lugar, cria uma briga com Sandy e Junior e ameaça a inau­gu­ra­ção e a soci­e­dade entre eles. Epi­só­dio focado na neces­si­dade de Basí­lio em se fazer bri­lhar no seu negó­cio, para além da parte admi­nis­tra­tiva. Abor­da­gem recor­rente da per­so­na­li­dade do per­so­na­gem, que sempre foi muito bom nas finan­ças, mas inse­guro em outras áreas.

10º. A Prin­cesa e o Dragão

Sandy e Junior con­vi­dam Yoko para par­ti­ci­par do novo clipe deles. Ela, a prin­cí­pio recusa, mas depois aceita o con­vite. Sandy faz uma trans­for­ma­ção incrí­vel nela, mas Tony e Nico chegam na hora da gra­va­ção e tiram sarro dela, fazendo Yoko fugir. Ela se embre­nha na mata do con­do­mí­nio e Junior vai atrás. Anoi­tece, começa a chover, os dois se perdem e encon­tram abrigo numa cabana aban­do­nada, onde con­ver­sam sobre seus medos. Na manhã seguinte os bom­bei­ros os res­ga­tam. Tony e Nico se des­cul­pam e Yoko final­mente grava o clipe. Epi­só­dio que des­cons­troi a imagem de samu­rai de Yoko, reve­lando a beleza ori­en­tal escon­dida da garota.

9º. Essa Gata É Um Perigo

Junior dá uma carona a Laila, mas os dois são para­dos numa blitz, e Laila implica com o poli­cial, por ele cobrar os docu­men­tos de Junior, fazendo os dois serem deti­dos. Sandy, Junior e Basí­lio come­çam as entre­vis­tas para garçom do Deto­na­ção e con­tra­tam João. Laila resolve se ins­cre­ver para gar­ço­nete a fim de se apro­xi­mar mais ainda de Junior, mas antes pede auxí­lio a Sandy no teste, quei­xando-se das difi­cul­da­des da sua vida. Leila tenta impe­dir o plano da irmã e se ins­creve para gar­ço­nete também, porém, Laila a faz tro­pe­çar no teste, der­ru­bando a ban­deja, e no final quem fica com o cargo é Maria. Epi­só­dio bem cons­tru­ído, que começa a explo­rar o poten­cial dia­bó­lico de Laila.

8º. As Apa­rên­cias Enga­nam

Basí­lio está orga­ni­zando uma festa de música ele­trô­nica no Deto­na­ção, mas o DJ con­tra­tado can­cela de última hora. Riti­nha apa­rece de sur­presa no local, com um visual todo repa­gi­nado e conta para a galera que apren­deu tudo de dis­co­te­ca­gem enquanto esteve fora. Basí­lio a con­trata como DJ, mas ela recusa as fotos para divul­ga­ção e revela que na ver­dade está fugindo do ex namo­rado. Sandy a leva para seu apar­ta­mento, mas ele acaba des­co­brindo onde ela está e começa a lhe enviar bilhe­tes ame­a­ça­do­res e a devol­ver seus per­ten­ces. Eles a escon­dem no Deto­na­ção, mas ele invade o local e acaba se reve­lando um ser ino­fen­sivo, que só queria se des­pe­dir, antes de partir para estu­dar música em Lon­dres. Epi­só­dio da che­gada de Riti­nha nessa tem­po­rada, com um ótimo clima de sus­pense e mis­té­rio.

7º. Na Ponta dos Pés

Sandy vem sendo pres­si­o­nada por sua pro­fes­sora de balé, Olga, a dedi­car mais tempo para a dança, ficando estres­sada e sobre­car­re­gada. Para com­ple­tar, ela torce o pé ao fazer cor­rida e pre­cisa usar bota orto­pé­dica por alguns dias. Mesmo assim, Olga a obriga a voltar a dançar para o espe­tá­culo. As duas dis­cu­tem e Olga a acusa de falta de pro­fis­si­o­na­lismo. Sandy resolve ensaiar sozi­nha, con­se­gue se recu­pe­rar e se apre­senta com louvor, mas decide deixar a com­pa­nhia de Olga para montar a sua pró­pria, no seu tempo. Epi­só­dio bonito, focado nos resul­ta­dos do esforço pes­soal para se alcan­çar os obje­ti­vos, e ao mesmo tempo em saber res­pei­tar os pró­prios limi­tes.

6º. Durma-se Com Um Baru­lho Desses

Sandy, Junior, Patty, Bebel, Beth e Basí­lio se mudam para o Rio de Janeiro para fazer facul­dade, indo morar no Con­do­mí­nio Mata Atlân­tica, que tem como sín­dica, Dona Mar­lene, uma senhora con­ser­va­dora, que mora com as sobri­nhas Laila e Leila. Sandy e Junior resol­vem fazer uma festa de come­mo­ra­ção no apar­ta­mento, mas os irmãos Tony, Nico e Yoko, também mora­do­res do con­do­mí­nio, espa­lham con­vi­tes para um show falso da dupla no con­do­mí­nio, cau­sando a maior con­fu­são na por­ta­ria. Epi­só­dio mara­vi­lhoso de estreia da tem­po­rada, que apre­senta o novo cená­rio da série, onde a galera irá desen­vol­ver as novas his­tó­rias, e pin­cela as prin­ci­pais carac­te­rís­ti­cas dos novos per­so­na­gens que farão parte dessa tem­po­rada.

5º. Arti­ma­nhas do Des­tino

Dona Mar­lene ins­tala um raci­o­na­mento de água no con­do­mí­nio, per­mi­tindo o uso por apenas algu­mas horas, em horá­rios incon­ve­ni­en­tes, o que gera revolta na galera. Sandy, Beth, Patty e Bebel orga­ni­zam um abaixo-assi­nado, mas não con­se­guem nenhuma assi­na­tura. Dona Mar­lene con­trata uma gover­nanta. A galera decide ir falar com Dona Mar­lene e encon­tra Val­dete tra­ba­lhando lá. Ao des­co­brir que Val­dete já conhe­cia a galera, Dona Mar­lene a dis­pensa, e Val­dete passa a ser dis­pu­tada por todos, inclu­sive Basí­lio e a pró­pria Dona Mar­lene, que muda de ideia ao per­ce­ber que ela pode servir de espiã da galera. Por fim, todos con­cor­dam em Val­dete tra­ba­lhar como dia­rista para todos. Epi­só­dio diver­tido, que rein­tro­duz Val­dete na série após o fim da ter­ceira tem­po­rada.

4º. Amigas, Amigas, Negó­cios à Parte

Beth entra de dieta para passar num teste de um impor­tante comer­cial. Patty se queixa da falta de tra­ba­lho e Junior a con­vence a par­ti­ci­par de um teste para um comer­cial. As duas acabam des­co­brindo que estão com­pe­tindo para o mesmo teste e uma guerra começa entre elas. Patty apela para a dieta de Beth, enchendo a casa de doces, e Beth obriga Patty a fazer todos os ser­vi­ços domés­ti­cos, já que ela está com as contas atra­sa­das. A briga envolve até Sandy e Junior, com Patty pedindo a Junior pra inter­fir por ela junto ao dire­tor do comer­cial, e Beth pedindo o mesmo a Sandy pra ela. Por fim, nenhuma das duas ganha o teste. Epi­só­dio com situ­a­ções diver­ti­dís­si­mas entre Patty e Beth, enlou­que­cendo o con­do­mí­nio pela dis­puta desse comer­cial.

3º. S.O.S. Sandy

Várias situ­a­ções desa­gra­dá­veis surgem ao mesmo tempo na vida de Sandy. Olga avisa que vol­tará para a Rússia, João decide sair da aca­de­mia, Tony viaja a negó­cios, a figu­ri­nista dos shows quer tirar novas medi­das porque ela engor­dou, e ela perde o prazo de um tra­ba­lho impor­tan­tís­simo da facul­dade. Com tudo isso, sua cabeça entra em para­fuso e ela tem um surto, cons­tru­indo uma nova rea­li­dade, base­ada no caos, dei­xando todos a sua volta per­ple­xos. O auge é quando ela sai com Laila para fazer com­pras, e na volta, toda repa­gi­nada, acaba dando em cima de Basí­lio, que foge aos gritos. É um epi­só­dio bem diver­tido, por fazer Sandy sair do seu padrão e agir de maneira ousada e impre­vi­sí­vel.

2º. Quem É Vivo Sempre Apa­rece

Boca chega de sur­presa ao con­do­mí­nio, con­tando suas faça­nhas pelo país nos últi­mos meses, porém ele recebe uma liga­ção can­ce­lando o pró­ximo tra­ba­lho que estava pre­visto, e sem ter pra onde ir, Basí­lio o con­vida pra divi­dir o casa­rão com ele. Mas ao chegar lá, ele tem uma crise alér­gica e pede asilo a Junior, sem Sandy saber. Depois de roncar à noite e assal­tar a gela­deira de madru­gada, Sandy o pega tomando banho em seu banheiro. Ele vai pra casa de Beth, Patty e Bebel, que o botam para faxi­nar a casa inteira, e por não aguen­tar a pres­são, ele acaba indo mesmo pro casa­rão de Basí­lio. Epi­só­dio da entrada de Boca na tem­po­rada. O per­so­na­gem, um dos mais que­ri­dos da série, chega cau­sando rebu­liço no con­do­mí­nio e movi­men­tando a vida de todos os mora­do­res.

1º. Agora Eu Sou Uma Estrela

Can­sada de não con­se­guir deco­lar sua car­reira de atriz, Patty pede a Junior para fingir por um tempo que eles estão namo­rando, até o nome dela cir­cu­lar na imprensa. Junior topa, mas Patty leva a sério demais e causa uma grande bagunça na vida de todos no con­do­mí­nio. Ela passa a con­tro­lar a agenda de Junior e até o que ele deve vestir, des­marca os com­pro­mis­sos dele, des­trata as fãs e chega a espa­lhar na imprensa que Sandy e Junior vão se sepa­rar para ele se casar com ela. É quando Junior final­mente des­man­cha o acordo. É o melhor epi­só­dio dessa tem­po­rada. As situ­a­ções que Patty cria, acre­di­tando mesmo ser a namo­rada de Junior, são muito diver­ti­das. O ponto alto é ela em pé no jipe de Junior, man­dando as fãs dele dis­per­sa­rem, que “ele não é santo de pro­cis­são pra todo mundo passar a mão”. Hilá­rio!

15 Piores episódios de Smallville

Embora Small­ville seja uma das minhas séries favo­ri­tas, reple­tas de epi­só­dios ines­que­cí­veis e emo­ci­o­nan­tes, é uma série muito longa, com dez tem­po­ra­das e mais de 200 epi­só­dios, o que fatal­mente irá gerar, em alguns momen­tos, epi­só­dios mal ela­bo­ra­dos e con­tro­ver­sos, como toda série longa demais. É o custo por se ter uma série com tem­po­ra­das muito exten­sas, seus altos e baixos. E, mesmo amando a série, não posso deixar de falar sobre aque­les epi­só­dios em que ques­ti­o­na­mos o porquê de exis­ti­rem. Aque­les epi­só­dios que atra­pa­lham nossa empol­ga­ção na hora de mara­to­nar a série. Con­se­gui iden­ti­fi­car de ime­di­ato ao menos 30 epi­só­dios nesse perfil, mas enu­me­rei aqui os 15 piores, aque­les que defi­ni­ti­va­mente me inco­mo­dam demais. Pre­pa­ra­dos para o show de tor­tura? Some­body save me...!!! 

15º. Slee­per (Sétima Tem­po­rada)

Epi­só­dio em que Jimmy banca um dete­tive em estilo James Bond para inves­ti­gar Chloe, a mando do FBI, por ela ter inva­dido o sis­tema da Agên­cia de Segu­rança Naci­o­nal. É um dos típi­cos epi­só­dios cri­a­dos só para preen­cher a grade de uma tem­po­rada, sem quase ou nenhuma rele­vân­cia para o enredo cen­tral da série e o desen­vol­vi­mento da tem­po­rada, como muitos epi­só­dios dessa lista. Algu­mas his­tó­rias con­se­guem se sobres­sair, mas a grande mai­o­ria é um ponto fora da curva, sem acres­cen­tar nada e até pre­ju­di­cando o anda­mento da trama. É o caso de Slee­per, que não traz nada de rele­vante para a sétima tem­po­rada e trans­forma Jimmy, da noite para o dia, de um român­tico atra­pa­lhado em um dete­tive pers­pi­caz, com­pro­me­tendo a cre­di­bi­li­dade do per­so­na­gem e con­se­quen­te­mente da série.

14º. Slum­ber (Ter­ceira Tem­po­rada)

A nova vizi­nha de Clark começa a apa­re­cer nos sonhos dele e pedir ajuda contra o via­jante, uma cri­a­tura enca­pu­zada e som­bria, que a arrasta e a car­rega sempre. Na ver­dade esse via­jante é a repre­sen­ta­ção do tio dela, que a tem dopado para mantê-la em coma, depois do aci­dente em que ela perdeu os pais. Quando Clark e Lana come­çam a inves­ti­gar, o tio da menina dopa Lana e tenta matá-la. O epi­só­dio cansa pelo vai e vem entre cenas de sonhos e rea­li­dade, e essa figura som­bria me parece mais um arti­fí­cio dos rotei­ris­tas para apro­xi­mar o epi­só­dio da cele­bra­ção do Hal­loween. Talvez a única cena inte­res­sante do epi­só­dio seja o banho de Lana e Clark no lago, mas era sonho.

13º. Mag­ne­tic (Ter­ceira Tem­po­rada)

Um garoto apai­xo­nado por Lana adquire o poder de per­su­a­ção mag­né­tica e con­vence Lana a sair com ele, pro­vo­cando o ciúme e a des­con­fi­ança de Clark. Esse epi­só­dio começa até inte­res­sante com um show num parque de diver­sões, mas depois vira uma babo­seira com o garoto influ­en­ci­ando as deci­sões de Lana, que age como uma incon­se­quente e con­se­gue até ir presa. É um epi­só­dio que não acres­cente nada ao desen­ro­lar da tem­po­rada e ainda irrita com o com­por­ta­mento irra­ci­o­nal de Lana, que dife­rente do epi­só­dio da pri­meira tem­po­rada Nico­de­mus, onde temos uma Lana sem pudo­res e diver­tida, aqui suas ati­tu­des só pro­vo­cam irri­ta­ção.

12º. For­tune (Décima Tem­po­rada)

Uma das mai­o­res malu­qui­ces da série. Além de pla­giar des­ca­ra­da­mente o filme Se Beber Não Case, o epi­só­dio é uma comé­dia farofa, que em nada lembra a série. Os per­so­na­gens mudam com­ple­ta­mente de esta­ção e passam a agir como se fossem mem­bros de uma série de chan­chada. Tudo com a jus­ti­fi­ca­tiva de que foram enfei­ti­ça­dos por Zatanna, como brinde à des­pe­dida de sol­teiro de Lois e Clark. O mais curi­oso é termos um epi­só­dio desses na última tem­po­rada, com os epi­só­dios já se enca­mi­nhando para o des­fe­cho da série. Me parece mais uma cele­bra­ção da série, mas um pouco fora da curva.

11º. Shield (Décima Tem­po­rada)

Após Lois partir para o Egito, o Pla­neta Diário con­trata uma nova repór­ter, Cat Grant, para subs­ti­tuí-la. Um assas­sino cha­mado Pis­to­leiro mira em Cat, mas Clark des­co­bre que o homem tem uma agenda peri­gosa que envolve o Borrão. Carter Hall apa­rece no Egito para vigiar Lois e conta a ela sobre sua esposa, Sha­yera Hall, também conhe­cida como Mulher-Gavião. Epi­só­dio fraco pra ser o segundo da décima tem­po­rada. Cat Grant, embora seja uma figura ori­gi­nal da DC, é uma das per­so­na­gens mais insu­por­tá­veis que já apa­re­ceu em Small­ville, e só de ser um epi­só­dio focado nela, já deixa claro que é um dos mais chatos.

10º. Escape (Nona Tem­po­rada)

Esse epi­só­dio tinha tudo pra ser muito inte­res­sante. Lois e Clark saem num fim de semana român­tico, assim como Chloe e Oliver, e todos acabam indo pra mesma pou­sada, para a sur­presa de todos, prin­ci­pal­mente de Clark e Lois, que não sabiam que Oliver e Chloe esta­vam saindo juntos. Até aí tudo bem, situ­a­ções diver­ti­das, mas o epi­só­dio acaba par­tindo pro sobre­na­tu­ral e fazendo o espí­rito de uma antiga noiva, amal­di­ço­ada a matar homens, pos­suir Chloe e depois Lois, que acaba se trans­for­mando quase numa mutante dos super sentai japo­ne­ses e ten­tando matar Oliver e Clark. Esse arti­fí­cio leva o epi­só­dio à bana­li­dade e frusta toda sua pre­missa, que­brando a expec­ta­tiva por algo novo e sur­preen­dente.

9º. Cure (Sétima Tem­po­rada)

Nem a par­ti­ci­pa­ção espe­cial de Dean Cain, de “Lois & Clark, As Novas Aven­tu­ras do Super­man”, con­se­guiu salvar o roteiro desse epi­só­dio. Dean inter­preta Curtis Knox (em refe­rên­cia a Clark Kent), um doutor que diz poder curar infec­ta­dos por mete­o­rito, e Chloe decide rea­li­zar a cirur­gia. No entanto, ele mata seus paci­en­tes no intuito de trans­for­mar sua esposa em um ser imor­tal, igual a ele, outra refe­rên­cia ao Super­man. É um epi­só­dio meio obs­curo e de enredo ques­ti­o­ná­vel. A pre­missa ini­cial é inte­res­sante, um médico que cura os infec­ta­dos e Chloe ten­tando se curar, mas aí quando parte para as ver­da­dei­ras inten­ções de Knox a his­tó­ria acaba caindo em cli­chês e mau gosto, des­per­di­çando até a par­ti­ci­pa­ção de Dean Cain. Uma pena!

8º. Hex (Oitava Tem­po­rada)

Insa­tis­feita com a sua vida na noite de seu ani­ver­sá­rio, Chloe deseja momen­ta­ne­a­mente ser Lois, mas Zatanna atende lite­ral­mente o desejo de Chloe e ela se trans­forma em Lois. Enquanto tenta lidar com a situ­a­ção, outros encon­tros com Zatanna faz Clark achar que não tem pode­res, até tudo se escla­re­cer e Clark deter Zatanna, que queria trazer seu pai de volta à vida, ao sacri­fi­car outra pessoa. Argu­mento ente­di­ante, sem ori­gi­na­li­dade. Chloe trans­for­mada em Lois é tão bro­chante que não des­perta inte­resse em acom­pa­nhar a his­tó­ria ainda antes da aber­tura. É um daque­les momen­tos em que fica­mos incré­du­los com o gancho de aber­tura do epi­só­dio.

7º. Per­su­a­sion (Nona Tem­po­rada)

Clark é con­ta­mi­nado por um pó mágico com kryp­to­nita, que inex­pli­ca­vel­mente o faz ganhar o poder de per­su­a­dir os outros a fazer tudo o que ele quer. Com isso, sem querer, faz Lois se devo­tar a ele, agindo como uma per­feita dona de casa e expe­ri­men­tando ves­tido de noiva pra se casar com ele. O “poder” tem­po­rá­rio de Clark atinge outros per­so­na­gens, de maneira secun­dá­ria também, até ele con­se­guir um antí­doto. Um epi­só­dio bobo, com aque­les pode­res que surgem do nada e somem só pra aten­der um deter­mi­nado roteiro. O epi­só­dio é can­sa­tivo e pre­vi­sí­vel. Ainda con­se­gue gerar risa­das em alguns momen­tos, mas só. Des­car­tá­vel.

6º. Hero (Sétima Tem­po­rada)

Pete está de volta à série em par­ti­ci­pa­ção espe­cial e ganha o poder de elas­ti­ci­dade ao mascar um chi­clete com kryp­to­nita, mas ele acaba entrando em perigo, quando Lex o chan­ta­geia para inva­dir o cofre de Lionel. Pete retorna só pra repe­tir o que ele já fazia com maes­tria, bancar o amigo chato que apela sempre pela inter­fe­rên­cia dos pode­res de Clark quando entra numa fria. Se os epi­só­dios foca­dos em Pete quando ele era regu­lar na série já eram chatos, esse retorno então é insu­por­tá­vel. E o epi­só­dio todo ainda foi um mershan­di­sing des­ca­rado da marca de chi­cle­tes. É o pior epi­só­dio da sétima tem­po­rada. A única coisa que se salva é a trilha sonora, toda com­posta por belas can­ções do One­Re­pu­blic.

5º. Boos­ter (Décima Tem­po­rada)

O Gla­di­a­dor Dou­rado, um ambi­ci­oso super-herói chega a Metró­po­lis, e começa a salvar vidas e posar para a imprensa, con­quis­tando a cidade. Durante um dos sal­va­men­tos, uma arma ali­e­ní­gena em forma de besouro se funde a um garoto e forma uma cara­paça ao redor dele, impe­dindo-o de con­trolá-lo, e ata­cando Metró­po­lis. Abrindo o top 5, temos um dos epi­só­dios mais chatos de Small­ville. A ideia de trazer per­so­na­gens da DC é inte­res­sante, mas nem sempre fun­ci­ona como espe­rado. A inten­ção era mos­trar a Clark como seria se ele se reve­lasse ao público, agora já pró­ximo dele virar o Super­man, um argu­mento já até explo­rado em outras oca­si­ões, o que não trouxe nenhuma novi­dade e só nos pre­sen­teou com um epi­só­dio ente­di­ante a apenas três do fim da série.

4º. Com­mit­ted (Oitava Tem­po­rada)

Um joa­lheiro psi­có­tico, trau­ma­ti­zado pela infi­de­li­dade da esposa, agora seques­tra noivos e os sub­mete a um detec­tor de men­ti­ras com kryp­to­nita. Pri­meiro ele seques­tra Chloe e Jimmy, e os liberta quando eles passam no teste. E depois pega Lois e Clark, achando que eles iam se casar. Que epi­só­dio ridí­culo! Todo o epi­só­dio é mon­tado para Lois reve­lar a Clark que tem sen­ti­men­tos por ele. O motivo é válido, mas a ideia toda para se chegar nele foi muito mal desen­vol­vida. A figura de um joa­lheiro cri­ando um teste de leal­dade entre noivos, e com kryp­to­nita, para poder pren­der Clark, é das mais sur­re­ais, até para Small­ville. For­ça­ram demais pra reve­lar o começo do inte­resse de Lois por Clark e o resul­tado foi um dos epi­só­dios mais esta­pa­fúr­dios da série.

3º. Rabid (Nona Tem­po­rada)

Um dos sol­da­dos de Zod age por conta pró­pria e libera um vírus no ar que trans­forma huma­nos em zumbis. A única maneira de detê-lo é criar um antí­doto com o sangue de outro kryp­to­ni­ano. Depois que Lois é infec­tada, Chloe implora a Clark que doe seu sangue, mesmo que isso o expo­nha a Zod. Um dos epi­só­dios mais bizar­ros de toda a série. Depois de explo­rar diver­sos gêne­ros, os rotei­ris­tas não dei­xa­riam o uni­verso dos zumbis de fora e acha­riam um jeito de encaixá-lo na série. E assim cri­a­ram toda uma ence­na­ção pra poder lançar uma epi­de­mia de zumbis em Small­ville. O resul­tado é gro­tesco. Parece uma paró­dia de Resi­dent Evil, uma neces­si­dade de explo­rar o gênero da moda, sem se pre­o­cu­par se ele tem coe­rên­cia com a série. Um dos momen­tos mais vexa­tó­rios da série.

2º. Tomb (Quinta Tem­po­rada)

O espí­rito de uma jovem que foi empa­re­dada no Talon passa a pos­suir o corpo de Chloe, fazendo com que todos acre­di­tem que ela perdeu a sani­dade. Quando o assas­sino des­co­bre que o corpo foi encon­trado, ele vai ao Talon e seques­tra Lois. Sem dúvida alguma um dos piores epi­só­dios de Small­ville. Tudo aqui é de mau gosto. A his­tó­ria da garota empa­re­dada no Talon, Chloe sendo pos­su­ída por ela e agindo como demente, e depois toda a sequên­cia com Lois, Chloe e o assas­sino na casa dele. Epi­só­dios que espí­ri­tos ou outros seres pos­suem os corpos do elenco geral­mente são chatos, a única exce­ção é o epi­só­dio Spirit da 4ª tem­po­rada porque parte pro humor. Mas esse aqui é insu­por­tá­vel, a garota é irri­tante e a con­fu­são que todos ficam com a sani­dade de Chloe com­pleta o quadro. A única cena que se salva é Lois quei­mando incenso no Talon.

1º. Thirst (Quinta Tem­po­rada)

Lana se can­di­data à irman­dade da casa de Buffy San­ders, na uni­ver­si­dade de Metró­po­lis, mas suas novas com­pa­nhei­ras de mora­dia são na ver­dade vam­pi­ras e a trans­for­mam em uma também, ins­tru­indo-a a matar Clark. Enquanto isso, Chloe se can­di­data a um está­gio no Pla­neta Diário. A maior ver­go­nha de Small­ville está aqui. E jus­ta­mente na melhor tem­po­rada da série. É a pri­meira ten­ta­tiva dos rotei­ris­tas de levar outro uni­verso, aqui o dos vam­pi­ros, para Small­ville, com resul­tado desas­troso. O epi­só­dio é pés­simo, tanto a exe­cu­ção como todo o roteiro. As sequên­cias das vam­pi­ras na repú­blica são porcas e ver Lana envol­vida nisso tudo é lamen­tá­vel. Ele foi uma impo­si­ção da Warner na época, que queria epi­só­dios temá­ti­cos de hal­loween e natal durante essa tem­po­rada, mas ao con­trá­rio do epi­só­dio nata­lino Lexmas, que foi um dos melho­res de Small­ville, Thirst con­se­guiu a proeza de ser o pior de todos, mos­trando que mis­tu­rar uni­ver­sos tão con­so­li­da­dos não é uma das melho­res ideias. Nem a par­ti­ci­pa­ção de Carrie Fisher, como a edi­tora chefe do Pla­neta Diário, con­se­guiu tirar esse epi­só­dio do desas­tre com­pleto.

10 Melhores Episódios da 1ª Temporada de Smallville

A pri­meira tem­po­rada da série Small­ville teve início em 16 de outu­bro de 2001 e chegou ao fim em 21 de maio de 2002, com um total de 21 epi­só­dios, a segunda mais curta de todas. Essa tem­po­rada tem vários epi­só­dios mar­can­tes e his­tó­rias inte­res­san­tes. Eu con­sigo eleger os dez melho­res com muita faci­li­dade. Não é à toa que o pro­grama fez sucesso logo de cara. No meu ranking de melho­res tem­po­ra­das, ela se encon­tra na posi­ção cinco, ou seja, abrindo o top 5 das melho­res tem­po­ra­das, pro­vando que sua origem con­ti­nua forte e cati­vante mesmo com a evo­lu­ção da his­tó­ria. E assim, vamos direto aos melho­res momen­tos de Small­ville em sua pri­meira tem­po­rada:

10º. Leech (Epi­só­dio 12)

A com­bi­na­ção de um raio e uma pedra de mete­oro faz os pode­res de Clark serem trans­fe­ri­dos para Eric Sum­mers, quando Clark o sal­vava de cair de uma represa. Clark pre­cisa se adap­tar a viver como um cara normal, enquanto Eric começa a exibir e explo­rar seus novos pode­res, ganhando fama, mas também muitos pro­ble­mas. O epi­só­dio mostra Clark final­mente con­se­guindo ter uma vida normal, embora ele sinta falta e se pre­o­cupe em não poder recu­pe­rar mais seus pode­res, mos­trando que mesmo que ele dese­jasse a vida toda ser normal, suas habi­li­da­des já eram parte de sua iden­ti­dade. O epi­só­dio explora também a famí­lia de Eric des­pre­pa­rada para acei­tar e ajudá-lo a lidar com seus pode­res, sali­en­tando a rele­vân­cia dos Kent na for­ma­ção de Clark. Ótima abor­da­gem. Nesse epi­só­dio também Lex chega pró­ximo a ter cer­teza que Clark tem algum tipo de poder, mas muda de ideia ao vê-lo machu­cado de ver­dade, quando ele estava sem pode­res.

9º. Hug (Epi­só­dio 11)

Bob Rick­man, que tem a habi­li­dade de per­su­a­dir qual­quer pessoa com um aperto de mão, quer com­prar o Rancho Kent para cons­truir uma fábrica de pes­ti­ci­das. Mas seu ex-sócio, Kyle Tippet, que mora iso­lado na flo­resta e também tem a mesma habi­li­dade, ameaça expô-lo se ele não sair da cidade. Clark e Lana acabam bri­gando por ele ficar do lado de Kyle, contra um pos­sí­vel ataque de Kyle a Lana e a Whit­ney. Chloe acaba demons­trando seus sen­ti­men­tos por Clark e o bei­jando, quando Kyle faz uma demons­tra­ção de sua habi­li­dade a eles. E Lex, per­su­a­dido por Bob, tenta matar Clark dis­pa­rando vários tiros com uma arma auto­má­tica. É um epi­só­dio cheio de con­flito e já começa numa sequên­cia impac­tante, quando Bob con­vence um exe­cu­tivo de se jogar de um prédio. As sequên­cias de Lex ten­tando matar Clark, embora per­su­a­dido, já dá um pre­nún­cio do futuro dos dois.

8º. Hothead (Epi­só­dio 3)

Um epi­só­dio com muitas cama­das. O dire­tor Kwan quer punir alguns dos joga­do­res dos Crows por cola­rem nas provas, mas o téc­nico Walt só quer saber de vencer sua 200ª par­tida, e ao des­co­brir que é capaz de incen­diar qual­quer coisa com o poder de sua mente, fará de tudo pra obter o que quer. Ao mesmo tempo, Clark desa­fia seu pai e entra para o time de fute­bol da escola. Lana aban­dona as líde­res de tor­cida e tenta tra­ba­lho como gar­ço­nete. E Lex se vê diante de seu pri­meiro desa­fio no con­trole da fábrica da Luthor­Corp, ao se recu­sar a demi­tir 20% do pes­soal, como deter­mi­na­ção de Lionel. Esse é apenas o ter­ceiro epi­só­dio da série e já trás muitos con­fli­tos inte­res­san­tes para a his­tó­ria, como Clark ten­tando con­ven­cer Jona­than de que con­se­gue jogar fute­bol sem machu­car nin­guém, Lana come­çando a sair da figura de prin­cesa e bus­cando sua inde­pen­dên­cia, e Lex desa­fi­ando seu pai e pro­vando que tem com­pe­tên­cia para os negó­cios.

7º. Rogue (Epi­só­dio 9)

Sam Phelan é um poli­cial cor­rupto de Metró­po­lis, que des­co­bre o segredo de Clark e tenta chan­ta­geá- lo para obter van­ta­gens nos seus golpes. O dire­tor Kwan demite Chloe do cargo de edi­tora do Torch, e acaba nome­ando Lana, quando ela tenta inter­vir por Chloe, gerando atrito entre as duas. E Lex vê uma antiga namo­rada rea­pa­re­cer em sua vida com um plano para des­truir Lionel. Um dos poucos epi­só­dios dessa tem­po­rada que não tem um infec­tado por mete­oro. O con­flito aqui é contra Phelan, que tira a paz da famí­lia Kent, fazendo inclu­sive Jona­than ir preso injus­ta­mente por homi­cí­dio. Aqui vemos pela pri­meira vez o segredo de Clark ame­a­çado e os Kents per­ce­bendo que não pode­rão escon­der isso para sempre. O epi­só­dio tem um das sequên­cias mais famo­sas da série, com Clark se jogando contra um ônibus, para evitá-lo de bater. Temos também a pri­meira vez que uma arma é dis­pa­rada contra Clark, embora não o atinja.

6º. Hour­glass (Epi­só­dio 6)

Clark conhece Cas­san­dra Carver no Lar de Idosos de Small­ville, uma senhora que perdeu a visão durante a chuva de mete­o­ros e agora con­se­gue ver o futuro, dando a Clark algu­mas pistas sobre o seu des­tino, mas ela morre ao ter uma visão do futuro de Lex. Enquanto isso, o idoso Harry Volk cai em um lago cheio de pedras de mete­oro e reju­ve­nesce, par­tindo em uma missão para matar os des­cen­den­tes do júri que o con­de­nou por assas­si­nato 60 anos atrás, inclu­indo Jona­than Kent. Um dos epi­só­dios mais emble­má­ti­cos dessa tem­po­rada. Em uma das visões, Clark se vê diante de um cemi­té­rio com os nomes de todas as pes­soas pró­xi­mas a ele nas lápi­des, como se ele fosse sobre­vi­ver a todos. Também temos um vis­lum­bre de uma capa ver­me­lha nos céus e várias pes­soas em perigo, que ele irá salvar. Mas a visão mais per­tur­ba­dora é a de Lex como pre­si­dente dos EUA, todo de branco com uma luva preta, pas­se­ando por um jardim, que murcha com­ple­ta­mente quando ele o toca, fazendo o céu escu­re­cer e come­çar a chover sangue. Um futuro tão per­tur­ba­dor que mata Cas­san­dra antes que ela pudesse contá-lo a Lex.

5º. Jit­ters (Epi­só­dio 8)

Earl Jenkins está sofrendo de con­vul­sões, que ele atri­bui a um enve­ne­na­mento por mine­rais num labo­ra­tó­rio secreto da Luthor­Corp cha­mado Nível 3. Numa ten­ta­tiva de chamar a aten­ção de Lionel e obter infor­ma­ções para um tra­ta­mento, ele faz os alunos em visita à fábrica de reféns. Lionel e Lex tentam nego­ciar com ele, enquanto Clark loca­liza o tal Nível 3, que agora é apenas um galpão desa­ti­vado. Exce­lente abor­da­gem do epi­só­dio, mos­trando pela pri­meira vez que a Luthor­Corp faz expe­ri­men­tos secre­tos com pedras de mete­oro. A sequên­cia final é bem emble­má­tica, com Lex obser­vando Clark ser aco­lhido calo­ro­sa­mente pelos Kents, após o seques­tro, enquanto Lionel apenas finge cui­da­dos com ele para a imprensa. Temos ainda a diver­tida e super­lo­tada “fes­ti­nha” na casa de Clark, na ausên­cia dos seus pais, com direito a fogos de arti­fí­cio de Lex. Um grato momento. Uma curi­o­si­dade sobre esse epi­só­dio é que ele foi o ter­ceiro a ser gra­vado, mas o oitavo a ser exi­bido. Creio que o epi­só­dio mais fora de ordem que já foi feito na série. Se repa­rar na aber­tura dessa tem­po­rada só temos cenas dos três pri­mei­ros epi­só­dios e de Jit­ters, o oitavo.

4º. Stray (Epi­só­dio 16)

Ryan James con­se­gue ler mentes, mas tem sua habi­li­dade explo­rada pelo seu padras­tro e a nova mulher dele, que come­tem roubos e até matam. Ryan foge e acaba indo parar na casa dos Kent, depois que é atro­pe­lado por Martha e finge amné­sia. Enquanto isso, Lex recebe a oferta de seu pai para retor­nar a Metró­po­lis. A tem­po­rada começa a se enca­mi­nhar para o seu fim e somos brin­da­dos com esse epi­só­dio. Ryan encanta com sua doçura e anseio por uma vida feliz. Passa a ser um irmão caçula de Clark, des­co­brindo e guar­dando seu segredo. Em para­lelo temos Lex recu­sando o inu­si­tado con­vite de Lionel para voltar a tra­ba­lhar com ele em Metró­po­lis. Um con­vite que só chegou porque Lex acabou entrando na linha em Small­ville e deixou Lionel des­con­fi­ado das ati­vi­da­des dele. Essa recusa gerará o pri­meiro cata­clisma do final da tem­po­rada.

3º. Nico­de­mus (Epi­só­dio 15)

Jona­than perde as ini­bi­ções, afronta Lex e, armado, tenta resol­ver seus pro­ble­mas no banco. Lana muda o visual, dis­pensa Whit­ney, seduz Clark e Lex e negli­gen­cia o aten­di­mento do Talon. Pete perde a cabeça e tenta matar Lex. Todos exibem com­por­ta­men­tos inco­muns após entra­rem em con­tato com uma flor extinta e tóxica, tra­zida de volta por Dr. Hamil­ton, no labo­ra­tó­rio que Lex finan­ciou. Após o pico de adre­na­lina, todos caem em um coma que leva à morte, e apa­ren­te­mente não há antí­doto. A mudança de com­por­ta­mento de Jona­than e prin­ci­pal­mente de Lana são os pontos mais altos desse epi­só­dio. A entrada de Lana de minis­saia e botas pretas no cor­re­dor da escola é memo­rá­vel, assim como o strip­te­ase para Clark na pis­cina. É a pri­meira vez que vemos uma Lana ousada, sem pudo­res e é mara­vi­lhoso. A cena final com Lana e Clark no moinho de vento também é belís­sima.

2º. Pilot (Epi­só­dio 1)

O epi­só­dio piloto ainda é um dos melho­res da pri­meira tem­po­rada. A apre­sen­ta­ção dos per­so­na­gens e as liga­ções de seus con­fli­tos ini­ci­ais são todas muito bem cons­tru­í­das. A ideia de uma chuva de mete­o­ros des­tru­indo a cidade, inclu­sive sendo a res­pon­sá­vel pela morte dos pais de Lana, ao invés de apenas a nave de Clark chegar à Terra, foi genial. A visita de Lionel e Lex à Small­ville bem no mesmo dia, sendo a causa de sua cal­ví­cie, foi outro ponto a favor. As boas ideias con­ti­nu­a­ram no tempo pre­sente, com Clark atra­pa­lhado e apai­xo­nado por Lana, depois conhe­cendo Lex ao salvá-lo do aci­dente na ponte, a des­co­berta de sua origem, as sequên­cias no milha­ral, o colar de Lana com kryp­to­nita, tudo muito bem ins­pi­rado. A car­ti­lha per­feita para uma série de sucesso.

1º. Tem­pest (Epi­só­dio 21)

Lionel decide fechar a fábrica da Luthor­Corp, cau­sando um alvo­roço na cidade. Clark, Chloe e Pete se pre­pa­ram para o baile de pri­ma­vera. Lex pla­neja a compra da fábrica com a ajuda dos fun­ci­o­ná­rios. Whit­ney se alista no Corpo de Fuzi­lei­ros Navais e pede que Lana o espere. Roger Nixon encon­tra a nave de Clark e ameaça expô-lo. Uma tem­pes­tade se apro­xima da cidade e tira o carro de Lana da estrada. Três tor­na­dos se juntam, for­mando um gigan­tesco funil que engole Lana com o carro, enquanto Clark mer­gu­lha nele para salvá-la. O epi­só­dio final da tem­po­rada é de tirar o fôlego do início ao fim. Desde o anún­cio de Lionel, o pre­nún­cio de uma tem­pes­tade se apro­xi­mando toma conta de todo o epi­só­dio, com Nixon docu­men­tando todas as habi­li­da­des de Clark, inclu­sive fazendo a picape dele explo­dir com ele dentro, Whit­ney se des­pe­dindo de Lana na rodo­viá­ria numa cena emo­ci­o­nante com forte ven­ta­nia, e a nave sendo ati­vada, pela pri­meira vez desde a che­gada de Clark. A tem­po­rada fechou o seu pri­meiro ciclo com exce­lên­cia, garan­tindo o inte­resse da audiên­cia pela sua segunda tem­po­rada.

10 Melhores Episódios da 2ª Temporada de Smallville

A segunda tem­po­rada da série Small­ville teve início em 24 de setem­bro de 2002 e chegou ao fim em 20 de maio de 2003, tota­li­zando 23 epi­só­dios, a mais longa de todas. Por uma padro­ni­za­ção da época, as séries dra­má­ti­cas da tv ame­ri­cana tinham geral­mente 22 epi­só­dios por tem­po­rada, mas por alguma razão, a pri­meira tem­po­rada de Small­ville teve apenas 21, e pro­va­vel­mente para equi­li­brar os núme­ros, a segunda acabou ganhando um epi­só­dio a mais. Essa tem­po­rada segue o mesmo modelo da pri­meira, mas avança alguns arcos na mito­lo­gia do Super­man, tra­zendo novas abor­da­gens e con­fli­tos inte­res­san­tes. Fácil demais também aleger os dez melho­res epi­só­dios dessa tem­po­rada. No meu ranking geral, ela se encon­tra como a 6ª melhor da série, pro­vando que tem muita influên­cia. Então vamos lá aos seus melho­res momen­tos:

10º. Line­age (Epi­só­dio 7)

Rachel Dun­le­avy, em busca de seu filho per­dido com Lionel, apa­rece ale­gando ser a mãe de Clark, o que leva os Kents a con­ta­rem a Clark os segre­dos sobre sua adoção. E Lana pro­cura Henry Small, que ela acre­dita ser seu pai bio­ló­gico. Nesse epi­só­dio vol­ta­mos ao piloto da série para ver o que acon­te­ceu depois que os Kents encon­tra­ram Clark no milha­ral. Na volta para casa, Jona­than encon­trou Lionel na estrada pedindo ajuda para Lex e os levou ao hos­pi­tal. Em agra­de­ci­mento, Lionel pro­vi­den­ciou uma docu­men­ta­ção falsa de adoção para Clark, em troca de que Jona­than con­ven­cesse os irmãos Ross a ven­de­rem a fábrica deles a Lionel. Final­mente des­co­bri­mos de onde Jona­than e Lionel se conhe­cem e por que Jona­than nutre tanto rancor dele. Já o suposto filho de Lionel com Rachel, ele diz a Lex que morreu antes de com­ple­tar um ano, mas depois vemos uma foto de Lionel ao lado de um garoto de seus sete anos.

9º. Fever (Epi­só­dio 16)

Martha é infec­tada por uma toxina des­co­nhe­cida e o Centro de Con­trole de Doen­ças vai ins­pe­ci­o­nar a fazenda em busca da causa. Clark corre com Pete para reti­rar a nave do abrigo, mas acaba se expondo também à toxina e cai doente. A Dra. Helen Bryce colhe o sangue de Clark e fica per­plexa com o que des­co­bre. A segunda tem­po­rada começa a entrar na sua reta final e as semen­tes da ter­ceira tem­po­rada come­çam a ser plan­ta­das aqui. O sangue de Clark que Helen colhe será um dos gran­des con­fli­tos que per­me­a­rão a nova tem­po­rada. É aqui também que Chloe escreve e lê para Clark sua famosa carta de amor “sou a garota dos seus sonhos dis­far­çada de sua melhor amiga”. Des­co­bri­mos que Lex con­ti­nua inves­ti­gando os Kents. Fica­mos sabendo também que Martha está grá­vida e os Kents final­mente passam a ter a posse da chave da nave, que tinha sido achada por Lex, rou­bada por Nixon, per­dida durante o tor­nado, achada depois por Lionel e escon­dida por Martha.

8º. Cal­ling (Epi­só­dio 22)

O Dr. Walden acorda do coma e conta a Lex e Lionel que Clark é um ali­e­ní­gena e pre­cisa ser des­tru­ído. Enquanto isso, um encon­tro român­tico entre Clark e Lana sugere um futuro pro­mis­sor. A sala da Dra. Helen no hos­pi­tal é inva­dida e roubam o sangue de Clark. Jona­than, Martha e Clark são os con­vi­da­dos de honra do jantar de noi­vado de Lex e Helen, mas ela dá pra trás após o jantar, ao contar a Lex que des­con­fia de que foi ele quem inva­diu sua sala. Dr. Walden morre car­bo­ni­zado numa luta contra Clark. Lionel con­se­gue a coluna no Pla­neta Diário para Chloe, mas pede uma inves­ti­ga­ção pes­soal sobre Clark. Ela recusa e vai contar a Clark, quando o encon­tra aos beijos com Lana. O penúl­timo epi­só­dio pre­para o ter­reno para o fim da tem­po­rada. Aqui temos final­mente Lana e Clark come­çando pra valer uma rela­ção. São dois beijos em um mesmo epi­só­dio. Os sím­bo­los da caverna são modi­fi­ca­dos anun­ci­ando que “está che­gando o dia em que o último filho domi­nará o mundo”.

7º. Insur­gence (Epi­só­dio 12)

Depois de Lex des­co­brir que Lionel ins­ta­lou câme­ras na mansão, ele con­trata uma empresa para gram­pear o escri­tó­rio de Lionel na Luthor­Corp, mas a equipe está mais inte­res­sada no cofre de Lionel e acaba fazendo Lionel e Martha de reféns. Numa ten­ta­tiva de salvar sua mãe e dri­blar os poli­ci­ais, Clark salta do prédio do Pla­neta Diário para a Luthor­Corp. É a pri­meira vez que o prédio do Pla­neta Diário apa­rece na série. Nova­mente o ani­ver­sá­rio de casa­mento de Jona­than e Martha mar­cado por um seques­tro. Lionel inventa uma reu­nião com Martha bem no dia que ela iria sair com Jona­than. Aqui fica­mos sabendo que Lionel come­çou a inves­ti­gar a vida de Clark, ele tem uma pasta con­fi­den­cial no cofre sobre Clark, além da chave da nave, que tinha sumido no dia do tor­nado. E ainda há uma boa quan­ti­dade de pedra de mete­oro refi­nada. Mas o maior des­ta­que do epi­só­dio é sem dúvida o pri­meiro grande salto de Clark de um prédio.

6º. Vortex (Epi­só­dio 1)

O pri­meiro epi­só­dio da tem­po­rada começa dando sequên­cia às ações do final da pri­meira tem­po­rada. A nave de Clark sai voando por Small­ville e entra no tor­nado, onde o carro de Lana também se encon­tra girando com ela e com Clark, que tenta pro­tegê-la. Jona­than segue per­se­guindo Roger Nixon e os dois acabam presos numa cripta. Lex salva Lionel, depois de hesi­tar, e auto­riza a cirur­gia dele. Clark, Lex, Pete e Chloe seguem pro­cu­rando Jona­than. A cidade vive um caos para aten­der e socor­rer as víti­mas da tem­pes­tade. Quando Clark final­mente encon­tra Jona­than, Nixon usa pedra de mete­oro para con­se­guir levar Clark com ele, mas acaba mor­rendo, quando Lex atira nele para salvar Jona­than. E Lionel acorda cego da cirur­gia, cul­pando Lex. É uma exce­lente estreia, cheia de ações e con­fli­tos. Aqui Lana começa a des­con­fiar que Clark tem um segredo que não quer reve­lar nem pra ela.

5º. Heat (Epi­só­dio 2)

O verão chega com uma forte onda de calor, e com ele e a nova pro­fes­sora de bio­lo­gia, que exala feror­mô­nio, Clark acaba desen­vol­vendo um novo poder, a visão de calor, mas pre­cisa saber con­trolá-lo, antes de sair incen­di­ando tudo pela frente. A pro­fes­sora Desi­rée usa seu poder de sedu­ção com fero­mô­nios poten­ci­a­li­za­dos com pedras de mete­oro para con­ven­cer Lex a se casar com ela, e depois con­ven­cer Jona­than a matar Lex. Exce­lente epi­só­dio que nos apre­senta mais um novo poder de Clark. Uma ótima sacada dos rotei­ris­tas em asso­ciar a des­co­berta da visão de calor com o desen­vol­vi­mento da puber­dade. Clark começa a lançar seus pri­mei­ros fogos pelos olhos quando fica exci­tado. Toda a atmos­fera do epi­só­dio é focada na onda de calor que caiu sobre Small­ville, os per­so­na­gens estão sempre suados, ven­ti­la­do­res por perto, tor­nando a chuva que começa a cair no final do epi­só­dio, um alívio até para os teles­pec­ta­do­res. Genial.

4º. Ryan (Epi­só­dio 8)

Ryan está de volta e agora é cobaia nas mãos do ines­cru­pu­loso cien­tista Dr. Garner, no Ins­ti­tuto Sum­mer­holt. Clark usa suas habi­li­da­des ao máximo para salvar seu jovem amigo tele­pata, mas um tumor em seu cére­bro é mais forte que ele. Enquanto isso, Nell conta para Lana que vai se mudar para Metró­po­lis. Ryan comove o público desde sua par­ti­ci­pa­ção na pri­meira tem­po­rada. Aqui o resul­tado é ainda maior e temos um dos mais emo­ci­o­nan­tes epi­só­dios de toda a série. O jeito caris­má­tico, as pala­vras sempre sim­ples e sábias, sua paixão pelo Anjo Guer­reiro, com sua asso­ci­a­ção a Clark e Lex, ecoam ainda mais forte com a des­co­berta de sua sen­tença de morte. Nem mesmo o melhor neu­ro­ci­rur­gião que Clark con­se­gue loca­li­zar, é capaz de salvá-lo. A cena final com os dois no balão é uma das mais mar­can­tes.

3º. Rosetta (Epi­só­dio 17)

Clark passa a deci­frar a escrita kryp­to­ni­ana após enfiar a chave da nave no ori­fí­cio da parede da caverna Kawat­che. O Dr. Walden também enfia a chave na parede, mas acaba ficando em estado cata­tô­nico. Depois que Clark grava sem querer um sím­bolo kryp­to­ni­ano no celeiro e Chloe publica no Torch, ele passa a rece­ber men­sa­gens do cien­tista bili­o­ná­rio Dr. Virgil Swann. Atra­vés dele, Clark des­co­bre a sua origem, o seu nome de batismo, o nome do seu pla­neta e fica ciente da sua extin­ção. Epi­só­dio cheio de sim­bo­lo­gia. Clark final­mente tem algu­mas infor­ma­ções sobre a sua origem, sabe que seu nome é Kal-El, que veio de Kryp­ton e que ele é o único sobre­vi­vente de sua raça. As des­co­ber­tas mexem com suas emo­ções e o faz refle­tir sobre seu des­tino. Para com­ple­tar a magia, nada menos que Chris­top­her Reeve como o homem res­pon­sá­vel por trazer muitas das res­pos­tas que Clark sempre buscou. Emo­ci­o­nante!

2º. Exodus (Epi­só­dio 23)

A memó­ria de Jor-El fala com Clark atra­vés da nave e anun­cia que chegou o tempo dele aban­do­nar Small­ville e seguir seu des­tino. Deses­pe­rado, Clark rouba uma chave de kryp­to­nita con­fec­ci­o­nada por Lionel para des­truir a nave, cau­sando uma explo­são no abrigo e uma onda de choque enorme, que vira a picape de Jona­than e Martha, fazendo-a perder o bebê. Deso­lado com a dor dos pais, e com medo de acabar ferindo Lana também, ele decide aban­do­nar Small­ville. Usa o anel de kryp­to­nita ver­me­lha, monta na moto e vai embora, dei­xando Lana aos pran­tos. Enquanto isso, Chloe aceita o acordo com Lionel para inves­ti­gar a vida de Clark. E após casar com Helen, Lex acorda sozi­nho no jati­nho, caindo no mar. O fim da segunda tem­po­rada é outra grande catarse para a série. Quando final­mente temos Lana e Clark juntos, ele acaba cedendo às ordens de Jor-El e indo embora, depois de causar sofri­mento aos seus pais, a Lana e a Chloe, que acaba enve­re­dando num acordo som­brio com Lionel. E ainda temos o des­tino incerto de Lex. Os ingre­di­en­tes estão pron­tos para uma das melho­res tem­po­ra­das da série come­çar.

1º. Red (Epi­só­dio 4)

Clark compra um anel de for­ma­tura, sem saber que a pedra dele é de kryp­to­nita ver­me­lha, que tem a capa­ci­dade de alte­rar a per­so­na­li­dade de Clark, trans­for­mando-o em um jovem rebelde e incon­se­quente, que decide usar seus pode­res para bene­fí­cio pró­prio. Jona­than e Martha se esfor­çam para rever­ter a situ­a­ção, enquanto Lana se deixa envol­ver pelo “novo” e sedu­tor Clark. Che­ga­mos final­mente ao melhor epi­só­dio da segunda tem­po­rada, e também um dos melho­res de toda a série. O pri­meiro con­tato de Clark com kry­to­nita ver­me­lha nos trás momen­tos mara­vi­lho­sos de um Clark Kent sem freios. Ele faz com­pras caras, muda o visual, pro­voca briga em bar, seduz Lana, ao mesmo tempo em que sai com Jessie, da qual tenta obter dis­que­tes com infor­ma­ções que valem um milhão de dóla­res. É a pri­meira opor­tu­ni­dade que temos de conhe­cer o Clark Kent sem moral e o que ele seria capaz de fazer com seus pode­res se só tivesse ambi­ção em mente. Uma ótima aná­lise com­por­ta­men­tal e um exce­lente momento para a série.

10 Melhores Episódios da 3ª Temporada de Smallville

A ter­ceira tem­po­rada da série Small­ville teve início em 01 de outu­bro de 2003 e chegou ao fim em 19 de maio de 2004, tota­li­zando 22 epi­só­dios. Uma das mais bem con­du­zi­das tem­po­ra­das da série. No meu ranking, ela se encon­tra como a ter­ceira melhor de todas, ou seja, abrindo o top 3 e mos­trando toda a sua potên­cia. Ela já começa tra­zendo Clark explo­rando ao máximo seu lado som­brio em Metró­po­lis, nos pro­por­ci­o­nando momen­tos únicos e mara­vi­lho­sos. Temos ainda o bri­lhante fio con­du­tor da con­tur­bada rela­ção de Lex e Lionel se apro­fun­dando com a des­co­berta do assas­si­nato dos pais de Lionel, e os méto­dos que ele usa para esca­par da acu­sa­ção e fazer Lex perder a sani­dade. E há ainda a tera­pia de res­su­rei­ção com o sangue de Clark. Uma tem­po­rada espe­ta­cu­lar! Vamos aos melho­res dos melho­res epi­só­dios dela:

10º. Crisis (Epi­só­dio 16)

Clark recebe um mis­te­ri­oso tele­fo­nema do futuro de Lana em apuros e agora tem que correr contra o tempo para evitar que esse futuro acon­teça e Adam mate Lana. Enquanto isso, Lex é incri­mi­nado pelos assas­si­na­tos come­ti­dos por Adam na Far­ma­cêu­tica Metron e se ofe­rece para ajudar a der­ru­bar seu pai em troca de imu­ni­dade. Um epi­só­dio intri­gante, em que os per­so­na­gens lutam para dri­blar o futuro, mas ele insiste em acon­te­cer do mesmo jeito. Temos o des­fe­cho de Adam, que morre des­co­brindo os pode­res de Clark, exa­ta­mente o que Lionel queria que ele des­co­brisse, só que tarde demais. Lex começa seu acordo com o agente do FBI, Frank Loder, que dará muita dor de cabeça aos Kents. E des­co­bri­mos que Lionel está com uma doença ter­mi­nal no fígado.

9º. Truth (Epi­só­dio 18)

Chloe invade a Luthor­Corp e inala aci­den­tal­mente um mis­te­ri­oso gás da ver­dade, que faz com que qual­quer pessoa fale sempre a ver­dade a ela. Com sua nova habi­li­dade, ela expõe no jornal da escola o pas­sado homi­cida de uma pro­fes­sora, ganhando a anti­pa­tia de todos. E Lionel a con­vence a usar seu novo poder para ir até os Kents e des­co­brir o segredo de Clark. No entanto, a ina­la­ção desse soro traz con­se­quên­cias fatais e Clark pre­cisa encon­trar um antí­doto antes que ela des­cu­bra a ver­dade sobre ele ou, pior ainda, morra. Epi­só­dio com uma abor­da­gem bem inte­res­sante, pro­por­ci­o­nando momen­tos sur­preen­den­tes com as reve­la­ções que alguns per­so­na­gens fazem diante de Chloe. Martha conta que teme que Jona­than não seja mais o mesmo de sempre e fala até que Clark reen­con­trou seu pai bio­ló­gico. Lana diz a ela que não confia nela. Pete se declara pra ela. E Lex con­fessa que tudo que mais quis de Lionel era o seu amor.

8º. Legacy (Epi­só­dio 17)

Clark des­co­bre que Jor-El está envi­ando men­sa­gens para Jona­than atra­vés da chave da nave. Lionel acre­dita fazer um acordo com o Dr. Swann e simula uma vis­to­ria do FBI no rancho Kent em busca da chave. Clark acusa Lex da batida quando des­co­bre que ele está aju­dando o FBI a inves­ti­gar Lionel. E Lana desiste do rela­ci­o­na­mento com Clark. A tem­po­rada começa a se apro­xi­mar do seu final e o acordo de Jona­than com Jor-El para libe­rar Clark para o seu trei­na­mento começa a ser cobrado, dei­xando Jona­than des­nor­te­ado. Numa luta cor­po­ral nas caver­nas para pegar a chave, ele e Lionel veem a chave voar até a parede e atra­ves­sar o maqui­ná­rio que Lionel colo­cou para explorá-la, sumindo em seguida, para apa­re­cer no final do epi­só­dio com Dr. Swann. O epi­só­dio traz o retorno de Chris­top­her Reeve, em mais uma emo­ci­o­nante par­ti­ci­pa­ção como o Dr. Virgil Swann.

7º. Memo­ria (Epi­só­dio 19)

Lex decide par­ti­ci­par de um pro­grama expe­ri­men­tal com o Dr. Garner para recu­pe­rar as sema­nas que foram apa­ga­das de sua memó­ria, mas o tra­ta­mento trás de volta memó­rias blo­que­a­das da infân­cia. Clark tenta impedi-lo, mas é cap­tu­rado por Lionel e sub­me­tido ao mesmo tra­ta­mento para que Lionel possa inves­ti­gar sua origem. Epi­só­dio de grande sig­ni­fi­cado para a série. Nele des­co­bri­mos que Lex não matou seu irmão Julian, foi a mãe dele, para evitar que Lionel o cri­asse da mesma forma que Lex e colo­casse um contra o outro. Lex assu­miu a culpa para polpar a reação de Lionel contra sua mãe. A reve­la­ção choca Lionel, fazendo-o per­ce­ber que foi injusto com ele todo esse tempo, e que se sou­besse a ver­dade, pode­ria até tê-lo amado. A outra reve­la­ção é a pri­meira lem­brança de Clark sendo colo­cado na nave pelos seus pais, ele des­co­bre o nome da sua mãe, Lara, e per­cebe que ela se pre­o­cu­pava se iriam amá-lo.

6º. Perry (Epi­só­dio 5)

Uma erup­ção solar torna os pode­res de Clark peri­go­sa­mente ins­tá­veis, jus­ta­mente quando ele cruza o cami­nho de Perry White, um jor­na­lista outrora pro­mis­sor, cuja car­reira foi des­tru­ída por Lionel Luthor. Mesmo cons­tan­te­mente embri­a­gado, ele acre­dita que Clark tem pode­res e não desiste até provar sua teoria. Enquanto isso, Lex des­co­bre que Perry possui provas incri­mi­na­tó­rias pode­ro­sas sobre o pas­sado obs­curo de Lionel. Ótima intro­du­ção do futuro editor chefe do Pla­neta Diário. Vemos a deca­dên­cia de um grande jor­na­lista, mas sabe­mos que ele dará a volta em sua car­reira e che­gará ao cargo prin­ci­pal do maior jornal de Metró­po­lis. Inte­res­sante também o des­con­trole dos pode­res de Clark que se inten­si­fi­cam ou somem, de acordo com as ondas sola­res, fazendo-o arre­mes­sar um trator da fazenda pra longe.

5º. Relic (Epi­só­dio 6)

Clark ajuda Lana a des­co­brir a ver­dade sobre quem matou sua tia-avó Louise e des­co­bre que Jor-El esteve na Terra no começo dos anos 60 e que se apai­xo­nou por Louise. Lex des­co­bre que seus avós foram assas­si­na­dos e começa a sus­pei­tar de seu pai. Ótimo momento da tem­po­rada. Via­ja­mos ao pas­sado para encon­trar Jor-El em missão por Small­ville e se envol­vendo com a tia-avó casada de Lana. Aqui fica­mos sabendo que Jor-El era tão humano quanto Clark e que ele já esteve na Terra e inclu­sive conhe­ceu o pai de Jona­than, Hiram Kent, dei­xando implí­cito que os Kents não acha­ram Clark, eles foram esco­lhi­dos por Jor-El para criá-lo. Também começa aqui a inves­ti­ga­ção sobre o assas­si­nato dos pais de Lionel, que vai ser um dos pila­res dessa tem­po­rada. A ideia de fazer Kris­tin e Tom vive­rem Louise e Jor-El deu um charme a mais ao epi­só­dio, suge­rindo que a liga­ção entre Kent e Lang vem de longe.

4°. Cove­nant (Epi­só­dio 22)

Uma jovem mis­te­ri­osa que diz ser de Kryp­ton e chamar-se Kara apa­rece no rancho Kent, tenta con­ven­cer Clark a ir embora com ela e Jona­than revela o acordo que fez com Jor-El. Clark vai depor contra Lionel, para impedi-lo de con­se­guir sair da prisão por fiança, mas des­co­bre que Lex nunca deixou de inves­tigá-lo e rompe de vez a ami­zade. Lana parte para Paris. E Clark decide ir embora com a moça. Lionel é con­de­nado, e enquanto raspa a cabeça, Lex cai enve­nado por uísque, a casa de pro­te­ção a tes­te­mu­nha de Chloe e do pai dela explode, surge um sinal kryp­to­ni­ano de fogo no rancho Kent, Jona­than cai desa­cor­dado nas caver­nas e Clark surge des­pido dentro do sím­bolo da casa de El em um lugar escuro e nevo­eiro, com as vozes de Jor-El dizendo que ele irá renas­cer. O final da tem­po­rada mostra a der­ro­cada de Lionel e sua vin­gança contra Lex e Chloe. Além da par­tida de Lana de Small­ville e da ida de Clark para a sua pre­pa­ra­ção com Jor-El.

3º. Pho­e­nix (Epi­só­dio 2)

Lex Luthor retorna dos “mortos” e enfrenta seu pai e sua esposa. Clark também está de volta a Small­ville e tenta recons­truir sua rela­ção com Lana e Chloe, enquanto tenta esque­cer seus dias em Metró­po­lis, mas Morgan Edge recorda seu pas­sado e cobra seus acer­tos. A con­ti­nu­a­ção do pri­meiro epi­só­dio da tem­po­rada e a sua con­clu­são é um dos gran­des momen­tos. Clark tenta juntar os cacos dos estra­gos que ele causou na vida de seus pais, de Lana e de Chloe, mas Morgan Edge não deixa ele esque­cer. Num dos melho­res emba­tes, Clark faz um corte em seu braço com kryp­to­nita para colher seu sangue e entre­gar a Morgan. Ele ainda explode o cami­nhão de mudan­ças onde Morgan o man­ti­nha cap­tu­rado para levá-lo a Lionel. Muito boa também a estra­té­gia de Lex fazer Helen assu­mir a auto­ria da ten­ta­tiva de matá-lo no jati­nho, fazendo os dois revi­ve­rem a mesma cena no ar. E por fim, a ren­di­ção de Lex perante Lionel, acei­tando voltar a tra­ba­lhar com ele na dire­ção da Luthor­Corp e o abra­çando com ter­nura, pegando Lionel com­ple­ta­mente des­pre­ve­nido.

2º. Shat­te­red (Epi­só­dio 8)

Morgan Edge está de volta com nova apa­rên­cia, após várias cirur­gias plás­ti­cas. Lex con­se­gue a con­fis­são dele de que ele e Lionel mata­ram seus avós, mas depois Morgan e Lionel entram em acordo e cons­pi­ram para des­truir o psi­co­ló­gico de Lex, fazendo-o pare­cer estar em um surto psi­có­tico. Clark, Lana e Chloe tentam ajudar Lex, mas Lana fica gra­ve­mente ferida e Lex é inter­nado no Sana­tó­rio Belle Reve. Um dos gran­des momen­tos dessa tem­po­rada. Bri­lhante inter­pre­ta­ção de Rosem­baum que oscila impe­ca­vel­mente em esta­dos de cons­ciên­cia e delí­rios. Ponto alto para a sequên­cia em que Lex pre­sen­cia Clark parar o carro de Morgan e empurrá-lo para longe, con­clu­indo final­mente que Clark tem pode­res. O epi­só­dio dá con­ti­nui­dade e desen­vol­vi­mento ao dese­qui­lí­brio psi­co­ló­gico de Lex, que come­çou ainda na ilha, no início da tem­po­rada, e segue cos­tu­rando mais alguns momen­tos impor­tan­tes ao longo do ano.

1º. Exile (Epi­só­dio 1)

Clark vive uma vida de crimes em Metró­po­lis, assal­tando banco, arrom­bando caixas ele­trô­ni­cos, usando carro de luxo e fre­quen­tando boates bada­la­das, sob efeito inten­ci­o­nal de kryp­to­nita ver­me­lha, numa fuga da rea­li­dade. Enquanto aguar­dam con­tato dele, Jona­than e Martha enfren­tam a hipo­teca do rancho. Lionel pres­si­ona Chloe para obter infor­ma­ções de Clark. Lex, dado como morto, acorda numa ilha deserta e trava lutas inter­nas contra um amigo ima­gi­ná­rio, enquanto Helen posa de viúva. E a vida de Clark acaba o apro­xi­mando de chefão do crime de Metró­po­lis, Morgan Edge. Final­mente che­ga­mos ao melhor momento da tem­po­rada e um dos melho­res de toda a série. A sua estreia começa com­ple­ta­mente dife­rente de tudo que está­va­mos acos­tu­ma­dos a ver em Small­ville, nos pro­por­ci­o­nando momen­tos icô­ni­cos como a inva­são do banco com uma moto, os poli­ci­ais o alve­jando e ele explo­dindo uma via­tura. O epi­só­dio é tão intenso que seu des­fe­cho fica pro epi­só­dio seguinte. Roteiro, dire­ção e desem­pe­nho no ápice. Um show de Small­ville.

10 Melhores Episódios da 4ª Temporada de Smallville

A quarta tem­po­rada da série Small­ville teve início em 22 de setem­bro de 2004 e chegou ao fim em 14 de maio de 2005, tota­li­zando 22 epi­só­dios. Uma tem­po­rada extra­or­di­ná­ria, mas con­tro­versa. Há quem ame e quem odeie, mas ela não passa des­per­ce­bida. No meu ranking ela se encon­tra como a segunda melhor da série. E os moti­vos para a vice lide­rança são vários. A come­çar pela entrada de Lois Lane, enri­que­cendo a dinâ­mica da série com agi­li­dade e humor. O fio con­du­tor é a busca pelas três pedras do poder, que juntas for­ma­rão o cris­tal do conhe­ci­mento, que cria a For­ta­leza da Soli­dão. Uma trama fas­ci­nante! Na busca pelas pedras estão os Luthors, os Tea­gues e uma bruxa do século XVII, a Con­dessa Mar­ga­ret Isobel Tho­re­aux, pos­su­indo o corpo de sua des­cen­dente Lana. Aqui é onde muitos fãs ques­ti­o­nam a tem­po­rada, mas eu acho genial esse enredo da bruxa, mostra que há muitos sécu­los já se conhe­cia a his­tó­ria das pedras e já se bus­cava por elas. E os rotei­ris­tas mes­clam os pode­res de Isobel com os sím­bo­los kryp­to­ni­a­nos, inclu­sive com a tatu­a­gem em Lana. É mara­vi­lhoso! Temos ainda Clark final­mente entrando para o time de fute­bol da escola, Chloe des­co­brindo seu segredo, além do voo mais belo de Clark em toda a série. São muitas cama­das nessa tem­po­rada e epi­só­dios incrí­veis. Por isso, vamos logo aos seus mara­vi­lho­sos momen­tos:

10º. Krypto (Epi­só­dio 14)

Lois atro­pela aci­den­tal­mente um cachorro e o leva para a fazenda para se recu­pe­rar, mas Clark logo per­cebe que ele tem uma super­força. Ele inves­tiga e des­co­bre que o animal fazia parte de um expe­ri­mento abor­tado da Luthor­Corp e que ladrões estão usando os cães para roubar lojas e pla­ne­jam um assalto a um carro forte. Epi­só­dio caris­má­tico, que faz alusão ao cachorro de esti­ma­ção do Super­man, Krypto. Lois até o enrola numa toalha ver­me­lha ao fim do epi­só­dio, mas não se trata da versão de Small­ville dele, apenas de um cachorro com super­força graças a expe­ri­men­tos com kryp­to­nita. Ao fim, ele recebe o nome de Shelby e passa a fazer parte do dia a dia dos Kents.

9º. Unsafe (Epi­só­dio 11)

Alicia Baker recebe alta do hos­pi­tal Belle Reve e vai para Small­ville para reatar seu rela­ci­o­na­mento com Clark. Ini­ci­al­mente cético em rela­ção a Alicia, Clark passa a apos­tar no romance, mas quando o médico dela começa a pres­si­oná-la para aban­do­nar Clark, ela sugere que os dois fujam, e diante da recusa de Clark, ela usa kryp­to­nita ver­me­lha e os dois fogem pra Las Vegas e se casam. Enquanto isso, Lana decide dormir com Jason para recon­quistá-lo. Epi­só­dio de retorno de Alicia, após a desas­trosa pas­sa­gem na ter­ceira tem­po­rada. Temos agora uma Alicia bem mais tran­quila e menos agres­siva, capaz de se atirar na frente de uma bala para pro­te­ger o segredo de Clark, embora não menos deter­mi­nada a alcan­çar seus obje­ti­vos. Clark sob efeito de kryp­to­nita ver­me­lha é sempre mara­vi­lhoso e as sequên­cias deles em Vegas são ótimas.

8º. Blank (Epi­só­dio 19)

Kevin, um garoto que con­se­gue fazer as pes­soas per­de­rem os últi­mos segun­dos da memó­ria, usa seus pode­res em Clark, mas acaba lhe cau­sando amné­sia total. Chloe assume os cui­da­dos dele, para garan­tir que ele man­te­nha seus pode­res em segredo, enquanto Clark vai lhe con­fi­ando cada poder que redes­co­bre. Ao ver Lana, Clark se apai­xona nova­mente e garante que fará tudo dife­rente para ficar com ela. Enquanto isso, Lex apro­veita a situ­a­ção para con­ven­cer Clark a reve­lar seus segre­dos sobre as pin­tu­ras das caver­nas, e acaba des­co­brindo que existe uma câmera secreta lá. Epi­só­dio inte­res­sante, que mostra Clark livre do fardo do seu segredo, con­fi­den­ci­ando tran­qui­la­mente todos seus pode­res a Chloe, que se mantém fiel a ele. Embora Clark dese­jasse fazer tudo dife­rente, no final acabou tomando as mesmas deci­sões que toma­ria em plena cons­ciên­cia de sua memó­ria.

7°. Run (Epi­só­dio 5)

Após a car­teira de Jona­than ser rou­bada, Clark loca­liza o ladrão e mesmo com sua super­ve­lo­ci­dade, não con­se­gue alcançá-lo. O ladrão, Bart, sur­preso com a super­ve­lo­ci­dade de Clark também, apa­rece mais tarde na fazenda e tenta con­ven­cer Clark a deixar Small­ville para vive­rem juntos na estrada. Enquanto isso, Lex compra um manus­crito emol­du­rado de valor ines­ti­má­vel com sím­bo­los kryp­to­ni­a­nos, e Clark des­co­bre que ele contém um mis­te­ri­oso mapa oculto. No entanto, Bart rouba o manus­crito de Lex e acaba entrando em grande perigo. Epi­só­dio de apre­sen­ta­ção de Bart Allen, o futuro The Flash, e início da cons­tru­ção de sua ami­zade com Clark. Bart é apre­sen­tado como um jovem incon­se­quente, que usa e abusa dos seus pode­res em bene­fí­cio pró­prio, mas a apro­xi­ma­ção com Clark o faz refle­tir sobre suas ati­tu­des. Momento espe­cial do pri­meiro encon­tro de dois super-heróis da DC.

6º. Sacred (Epi­só­dio 15)

O Dr. Virgil Swann morre, mas antes envia para Clark a chave da nave, que estava em sua posse. Jason vai para Xangai em busca de uma das pedras do poder e Lex o segue. Clark con­versa com Jor-El nas caver­nas, que o con­vence da impor­tân­cia dele juntar as três pedras, e assim ele decide acom­pa­nhar Lana a Xangai quando ela des­co­bre que Jason e Lex estão lá. Na China, eles caem nas mãos de caça­do­res de tesou­ros que também buscam a pedra e são tor­tu­ra­dos. A Con­dessa Isobel acaba assu­mindo o corpo de Lana nova­mente e encon­tra a pedra. Epi­só­dio de ambi­en­ta­ção e atmos­fera inu­si­ta­das, que nos leva para a cul­tura chi­nesa, com pre­sença de mafi­o­sos e ses­sões de tor­tura. Ótimo retorno de Isobel, que dessa vez con­se­gue deci­frar o mapa e encon­trar uma das pedras. Muito boas também as suas sequên­cias de luta com Clark.

5°. Onyx (Epi­só­dio 17)

Após um expe­ri­mento com kryp­to­nita na Luthor­Corp resul­tar em black kryp­to­nita, cau­sando uma explo­são, Lex se divide em dois, com seu lado bom sepa­rado de seu lado mau. O Lex mau apri­si­ona o Lex bom no porão da mansão e inicia seu mas­sa­cre, ten­tando matar Clark e Chloe no labo­ra­tó­rio, lutando com Lionel e con­ven­cendo-o a retor­nar à sua natu­reza som­bria, ame­a­çando fechar o Talon a menos que Lana vá morar com ele e enfren­tando Clark e os Kents com kryp­to­nita verde. Ele con­se­gue extra­va­sar toda a vila­nia acu­mu­lada dentro dele, reve­lando a mag­ni­tude da sua cru­el­dade sem freios. É nesse epi­só­dio que ele pro­fere a céle­bre frase da série: “eu sou o vilão dessa his­tó­ria”. Um momento impor­tante que mostra bem a dua­li­dade de Lex e pro­fe­tiza o futuro do per­so­na­gem.

4º. Spirit (Epi­só­dio 18)

O baile de for­ma­tura de Clark se apro­xima. E depois que a aluna Dawn Stiles, obes­se­cada em ser a rainha do baile, entra em coma em um aci­dente na estrada, seu espí­rito começa a passar de corpo em corpo a medida que toca nas pes­soas. Passa por Martha, Lana, Lois, Chloe e até Clark, gerando com­por­ta­men­tos ines­pe­ra­dos e sur­preen­den­tes em todos. Mas o grande des­ta­que do epi­só­dio é o clima de puro romance entre Lana e Clark, dan­çando juntos ao som de “You and Me” do Life­house, quando nin­guém mais espe­rava que eles pudes­sem ainda voltar a ter algum romance e depois de ambos terem dito que não iriam ao baile. Algu­mas situ­a­ções mere­cem des­ta­que também, como Martha agindo como uma ado­les­cente quando é pos­su­ída pelo espí­rito de Dawn, e Lois impli­cando com o ves­tido e a posi­ção da flor que o espí­rito da aluna esco­lheu pra ela usar.

3°. Trans­fe­rence (Epi­só­dio 6)

Para fugir da prisão, Lionel arma uma embos­cada para Lex, tro­cando de corpo com ele, atra­vés de uma das pedras do poder, mas Clark é atra­ído para a prisão e acaba tro­cando de corpo com Lionel. Ao des­co­brir que seu novo corpo possui super­po­de­res, Lionel ime­di­a­ta­mente começa a causar estra­gos em Small­ville. Preso sem seus pode­res, Clark pre­cisa encon­trar uma maneira de recu­pe­rar seu corpo para salvar seus amigos e fami­li­a­res de Lionel. Epi­só­dio bas­tante inte­res­sante. Tom con­se­guiu repro­du­zir os tre­jei­tos de Lionel e a maneira de andar e falar com muita pre­ci­são. As sequên­cias dele des­co­brindo os pode­res de Clark são mara­vi­lho­sas, assim como as cenas com Lex, Lana, Chloe, Martha e Jona­than. A partir daqui Lionel começa a mudar sua per­so­na­li­dade após retor­nar ao seu corpo, dando início a uma nova fase de seu per­so­na­gem.

2º. Com­men­ce­ment (Epi­só­dio 22)

O epi­só­dio começa num embate mara­vi­lhoso entre Lana e Gene­vi­eve Teague, que cul­mina com a Con­dessa Isobel pos­su­indo Lana pela última vez e matando Gene­vi­eve com uma das pedras. O sangue humano na pedra dire­ci­ona uma nova nave espa­cial para a Terra, em outra chuva de mete­o­ros, tra­zendo o caos para a cidade em meio à for­ma­tura de Clark. Depois de um ano afas­ta­dos, Lana e Clark sina­li­zam um pos­sí­vel retorno, mas o clima de perigo imi­nente parece não dar brecha aos dois. Clark final­mente junta as três pedras do poder, que formam o Cris­tal do Conhe­ci­mento, fechando o arco no melhor final de tem­po­rada de toda a série. Even­tos impac­tan­tes como a for­ma­tura, a nova chuva de mete­o­ros, o des­fe­cho dos Tea­gues e da Con­dessa Isobel, as três pedras se trans­for­mando no Cris­tal do Conhe­ci­mento e trans­por­tando Clark ao polo norte e a che­gada da nova nave com seus tri­pu­lan­tes rede­fi­nem a série e a moldam para a jor­nada da melhor tem­po­rada que viria no ano seguinte.

1º. Cru­sade (Epi­só­dio 1)

Clark retorna a Small­ville como Kal-El, deter­mi­nado a cum­prir seu des­tino, e parte em busca de um pode­roso cris­tal kryp­to­ni­ano que Lex obteve numa esca­va­ção no Egito. Enquanto isso, Lois Lane chega a Small­ville para inves­ti­gar a morte de sua prima Chloe. Lana curte seu novo namo­rado em Paris, mas uma mis­te­ri­osa tatu­a­gem kryp­to­ni­ana surge em suas costas. Jona­than segue em coma e Lionel pre­cisa lidar com sua nova vida na prisão. O início da tem­po­rada é fas­ci­nante. Sim­ples­mente a melhor estreia de tem­po­rada e um dos melho­res epi­só­dios de toda a série. A cons­tru­ção do novo fio con­du­tor da trama é muito bem desen­vol­vida. O voo de Clark, igual um foguete, até o avião de Lex é excep­ci­o­nal. Nenhuma outra vez ao longo de todas as tem­po­ra­das, Clark voltou a ter um voo tão mag­ní­fico quanto esse. As sequên­cias de Lex no Egito e de Lana em Paris trazem um fres­cor à his­tó­ria, assim como a bri­lhante entrada de Lois, que com sua inqui­e­ta­ção e saga­ci­dade, enri­quece a série e reforça o cânon do Super­man.

Um conto De fora do celeiro
Samuel e Marcos diante de uma árvore de Natal, dezembro de 2004

Na sala de espera

Exis­tia um número que só eu co­nhe­cia, e ele morava entre Cam­pi­na Grande e São Miguel. Co­me­ça­va bem longe do tan­gí­vel, lá pelo fim das férias, e ia en­co­lhen­do a cada volta da escola, um pouco antes do que devia, porque eu sempre des­con­ta­va o último dia sem es­pe­rar que ele aca­bas­se.

Quando che­ga­va a zero, eu dis­pa­ra­va rumo a uma porta que ainda jazia tran­ca­da e ficava ali, im­pa­ci­en­te como numa sala de espera de clí­ni­ca. Lan­ça­va um olhar quase de sú­pli­ca para minha tia, mas ela apenas negava, como uma re­cep­ci­o­nis­ta de poucas pa­la­vras. Então, tudo o que me res­ta­va era en­ca­rar Marlon, que aguar­da­va junto comigo, sen­ta­do, var­ren­do o chão com o ra­bi­nho.

Tudo acon­te­cia diante da porta de um quarto onde nada acon­te­cia antes das dez. Porque, às dez, Samuel acor­da­va.

En­quan­to es­pe­ra­va, eu re­vi­ra­va men­tal­men­te a mala dele. O que será que ele tinha tra­zi­do desta vez da sua aven­tu­ra? Claro, eu ima­gi­na­va mais CDs, apesar de não caber mais nada em sua “loja”, que servia até de lo­ca­do­ra para mim. Qual­quer um de Sandy e Junior que to­cas­se “Em Cada Sonho” já seria su­fi­ci­en­te.

Ou talvez ele ti­ves­se tra­zi­do DVDs? Filmes novos para a gente as­sis­tir. Por favor, que não fosse mais um “Dois Filhos de Fran­cis­co”. Eu queria algo di­ver­ti­do!

Mas nada disso che­ga­va perto do motivo da minha an­si­e­da­de. Eu queria saber se ele estava tra­zen­do a nova tem­po­ra­da de Small­vil­le. E logo eu es­ta­ria fa­zen­do as contas de quan­tos dias le­va­ria a nova ma­ra­to­na: uma fe­li­ci­da­de ma­te­má­ti­ca que co­me­ça­ria assim que o box fosse de­sem­ba­la­do, como quem abre um cofre.

Só pre­ci­sa­va da con­fir­ma­ção para pôr em prá­ti­ca os meus dois atos ar­di­lo­sos. O pri­mei­ro ato era moleza. Co­me­ça­va com “Mainha, posso dormir lá em Samuel hoje?” e ter­mi­na­va em pelo menos cinco reais ca­pi­ta­li­za­dos nos aben­ço­a­dos pas­téis gi­gan­tes de Cirilo, ou em in­con­tá­veis co­xi­nhas de Paulo das Co­xi­nhas.

O se­gun­do ato era mais com­ple­xo. Du­ran­te a ma­dru­ga­da, quando um epi­só­dio aca­ba­va e os cré­di­tos apa­re­ci­am, eu teria que ficar ab­so­lu­ta­men­te imóvel, olhan­do para a tela, sem dar um pio. Es­pe­ra­va que ele sen­tis­se, na minha in­di­fe­ren­ça, a nor­ma­li­da­de de as­sis­tir a mais um epi­só­dio.

Às vezes, ele per­gun­ta­va: “Já são que horas?” Eu olhava o re­ló­gio e mentia.

Se no começo eu já tirava meia hora, no final eu sequer olhava mais para o re­ló­gio. Res­pon­dia e só torcia para que meu blefe não fosse ousado demais.

Teria que fun­ci­o­nar, pois a agenda dele já es­ta­ria re­ple­ta de outros com­pro­mis­sos: a la­pi­nha e vários filmes de qua­li­da­de du­vi­do­sa. E eram mesmo! Até que “Marley e Eu” me provou o con­trá­rio. Desde então, iro­ni­ca­men­te, posso de­ci­dir um filme por um cri­té­rio bem prá­ti­co: se Samuel tinha o DVD, então tinha que ser bom.

Claro que ele também tinha suas lou­cu­ras, como torcer para o Náu­ti­co e o Flu­mi­nen­se. Mas é a mesma pessoa que me per­mi­te sempre voltar ao Santa Bár­ba­ra II quando ouço “Any Time at All” ou “All I’ve Got to Do”.

Ele ine­vi­ta­vel­men­te vol­ta­ria para o lugar de onde vinham os CDs, e eu vol­ta­ria a me as­som­brar com o número que só eu co­nhe­cia.

Enfim a porta se abriu.

Colofão

Este volume reúne 162 textos publicados no blog Celeiro do Sam entre 2007 e 2026, com as fotos que saíram em cada post.

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