Samuel Dias nasceu em São Miguel, no Rio Grande do Norte. Ainda criança, transformou a área de casa em palco e dublou Sandy & Junior para os vizinhos, com uma fita cassete gravada pela tia Auxiliadora.
Estudou em Pau dos Ferros, fez cursinho em Natal e se formou em Comunicação Social em Campina Grande. Lá entrou para o teatro, onde ganhou uma nova família e aprendeu a costurar as túnicas dos fantasmas de Pluft. A habilidade serviu no dia da colação de grau: ele queimou a manga da beca com o ferro de passar, remendou o buraco e foi assim mesmo.
Faz da escrita uma maneira de observar o mundo e de não deixar que certas coisas passem sem registro. O cotidiano, para ele, nunca pareceu pequeno demais para virar história. Numa noite em Natal, com pressa de voltar para o episódio de A Diarista, sacudiu a porta várias vezes para ter certeza de que estava trancada, e o barulho fez uma vizinha jurar que havia um ladrão no prédio. Quando a polícia apareceu, perguntou o que tinha acontecido como quem não sabia de nada, e quando um dos policiais quis saber, por gestos, se o vizinho do lado era doido, respondeu com gestos de quem também não sabia.
Em 2007 abriu o Celeiro do Sam, onde suas divagações transitam entre o humor e a reflexão. Entre uma crônica e outra, inventa histórias, relembra outras e monta listas dos seus preferidos, discutindo cada posição com a seriedade de um júri. O blog começou como um lugar para falar do dia a dia e segue acompanhando diferentes fases e endereços de sua vida.
“Eu estava me formando no ensino médio na mesma turma que meu irmão Gustavo. Era uma época de grandes recordações. De repente tudo aquilo que vivemos juntos por três anos seria festejado em uma viagem que prometia muita aventura. E pra ser exato, foi mesmo uma aventura. Parecia uma excursão qualquer. Uma turma de jovens saindo de férias com dois professores para uma fazenda, ônibus estilo americano e muita curtição. Eu e minha namorada Amanda na época, estávamos bastante ansiosos pelo passeio. Todos os nossos amigos estariam lá. Nossa mãe nos encheu de recomendações sobre os cuidados que devíamos ter durante o passeio. Mas os problemas começaram ainda na concentração em frente à escola.
Tatiana resolveu levar o seu irmão mais novo com a gente, ou melhor, ele se ofereceu e creio que ela não teve escolha. O garoto era uma pulga, se enfiava onde menos esperava e não perdia a chance de se meter na vida alheia e infernizar o humor dos que a sua volta se encontrassem. Ele descobriu na namorada do meu irmão a cobaia perfeita para as suas artimanhas. Milena não escondia de ninguém a sua insatisfação em passar um fim de semana em uma fazenda ao lado dos amigos que pouco importavam para ela. E isso alimentou o instinto de perseguição do nosso temido Rafa. Ainda no ônibus ele mostrou que estava ali para aprontar e provar para Milena que a viagem iria valer a pena. E Milena ia ter que agüentar muito ainda. Meu irmão já não sentia o mesmo por ela e se aproximava cada vez mais da doce Carol.
Já eu, curtia tudo de camarote. Não havia estresse para o meu lado, só queria curtir o passeio e claro, Amanda. Contudo, havia um sentimento oculto naquela época, que eu não contei nem mesmo para o meu melhor amigo, o Emanuel. E esse sentimento me acompanhou sorrateiramente ao longo de toda a viagem. Dentre os professores que nos acompanharam estava Elvira. Uma recém formada que encantava não só a mim, mas também ao professor Miguel. Eu nutria um carinho especial e porque não dizer diferente por ela. Poderia ser apenas uma leve atração entre aluno e professor, mas eu sabia de longe que o que sentia pela professora Elvira era algo diferente do que sentia pela Amanda.
O passeio transcorreu como previsto por um longo tempo, até que o inesperado aconteceu. O nosso ônibus resolveu que não partiria mais daquele ponto a lugar nenhum. E a notícia do Zeca pegou todos como uma bomba. Estávamos sozinhos, em um lugar totalmente desconhecido e sem combustível para ir nem à esquina (como se houvesse). Depois de um longo bate-boca decidimos que o melhor era sair para procurar ajuda. Milena ainda quis ficar, mas como o Gustavo disse que ia, ela se viu obrigada a ir também ou o estaria entregando de mãos beijadas e lambidas a Carol. E assim seguimos pela mata. Havia muitos mosquitos, mas parece que eles se dedicavam em atacar apenas a Milena que não parava de se encher de repelente.
Nessa hora decidi brincar de Joãozinho e Maria com Amanda e a puxei pelo braço. Nós nos afastamos dos demais e saímos por outros caminhos. Confesso que imaginei encontrar um oásis no meio de toda aquela mata que pudesse aliviar o nosso cansaço, como nos filmes de aventura. Mas o que encontramos foi um antigo rio de águas baldias e sem nenhuma cachoeira mágica. Não era o que esperávamos, mas não dava pra reclamar. Lavamos nossos rostos, corremos pelas águas rasas e depois não resistimos, caímos de roupa e tudo nas águas sujas daquele pedaço de oásis defeituoso. Algumas horas depois decidimos retornar ao ônibus, o pessoal já devia estar preocupado. Mas preocupados porém, ficamos nós quando chegamos lá e só encontramos o Zeca dormindo em um dos bancos. A galera não havia voltado ainda e provavelmente àquela altura estariam perdidos.”
Lucas Mendes
28 de janeiro de 2008
Seis Anos de Um Epílogo
Há seis anos chegávamos ao fim das gravações do que foi uma iniciativa de produzir um filme totalmente amador na cidade de São Miguel, município do Rio Grande do Norte. Com o apoio da minha mãe, criei uma história baseada em filmes adolescentes de aventura e no seriado Sandy e Junior. Juntamos uma galera, distribuímos o roteiro, marcamos ensaio, procuramos locação e finalmente gravamos A Aventura Está Lançada. O segundo filme amador que produzíamos lá. O primeiro, Especial Tudo Por Amor, havia sido há pouco mais de um ano. Mas esse nos obrigaria a sair da cidade, devido a sua história se passar em uma floresta. Fomos até o vilarejo de Mapuá no estado do Ceará, onde gravamos todas as cenas dos adolescentes perdidos. Muita coisa não saiu como esperávamos, muitas falhas são encontradas no filme, mas conseguimos nos divertir e realizar algo que parecia impossível para muita gente.
Pensando em comemorar o 6º aniversário do filme, decidi criar um diário em três partes com relatos do meu personagem Lucas na história. Aqui ele vai detalhar o que se passava na cabeça dele durante e depois dos dias que se seguiram a excursão. A cada semana ele irá trazer um pouco do que viveu e do que descobriu no decorrer da história, além de relatar fatos que se passaram depois do filme, como se a história continuasse e tratar os erros que cometemos como se fossem parte da história. Aqui começa o primeiro capítulo do diário: “O Passeio”. Espero que se divirtam.
16 de abril de 2008
Diário de Lucas – Parte II – “A Busca”
“Era quase meio-dia e nós estávamos ali há quase 1 hora olhando angustiados para o horizonte em busca de alguma luz, ou melhor, algum aluno. Ninguém aparecia. Zeca, Amanda e eu discutíamos sobre o que devíamos fazer. Se permanecíamos no papel de seguranças do ônibus ou se nos arriscávamos no desconhecido em busca de localizar a galera. Cada segundo era decisivo, mas não conseguíamos entrar em acordo. Zeca defendia a nossa permanência no local por acreditar que a mata era desconhecida e terminaríamos perdidos também. No fundo ele estava certo. Se por acaso algum aluno voltasse, seria melhor encontrar alguém ali do que se deparar com o ônibus vazio. Contudo, aquela situação me angustiava. Que rumo teriam tomado? Haviam encontrado abrigo, sinais de presença humana? Onde estariam agora?
Minha esperança era Amanda, que acreditava na possibilidade deles estarem repousando numa linda rede azul na varanda de algum morador da região, enquanto nós ficávamos ali aflitos e poupando mantimentos. As horas se passavam devagar e os mosquitos, na falta da Milena, começaram a nos atacar. Vez por outra nos afastávamos e íamos ao rio dar um mergulho. A noite chegou com toda ferocidade. Nossa tv tinha se transformado em um esplêndido cosmo com direitos a relâmpagos e trovões. Ainda bem que a chuva não caiu. Passamos a noite especulando todas as possibilidades que poderiam acontecer a nós e ao pessoal se permanecêssemos imóveis ali. Lá pelas tantas da madrugada decidimos que era hora de nos embrearmos mata adentro.
Bem o sol raiou, nos despertamos, arrumamos nossas bagagens com tudo que seria suficiente para nos abastecer uma semana, caso não conseguíssemos mais voltar e abandonamos o ônibus na estrada. Nenhuma lagartixa atravessava o nosso caminho. Parecia que as pessoas haviam esquecido aquele pedaço de terra que habitávamos agora. Quanto mais andávamos, mais estradas, trilhas e rastros surgiam pelo caminho. Era preciso seguir os principais vestígios deixados pela mata para descobrir qual caminho a galera tinha tomado. A tarefa às vezes se tornava fácil quando nos deparávamos com as embalagens amassadas das balas de goma do Rafa. Porém, elas que se encontravam quase uma atrás da outra, começaram a ficar raras e depois a sumir. Nossas pistas agora precisavam ser mais detalhadas.
Foi uma longa manhã que tivemos pela frente. Alguns momentos, cheguei a pensar que tinha sido uma péssima decisão, mas continuava caminhando. Uma pausa para uma breve refeição e logo mais seguíamos pelos rastros. Chegamos a encontrar embalagem de salgado e biscoito recheado, fiapos de calça agarrados em arame farpado e até um boné de algum esquecido. Nosso medo era de encontrar mais adiante vestígios de sangue, mas não tivemos essa desventura, ainda bem. Por volta das 2h da tarde chegamos a um resto de fogueira próximo a uma majestosa oiticica. Lá encontramos mais sinais da presença da galera e de que estávamos no caminho certo. Começamos a seguir mais depressa ainda. Estradas e mais estradas até que finalmente escutamos vozes que não eram as nossas. Era Milena. Ela gritava pedindo por socorro. Corremos até onde vinham os gritos e finalmente num misto de alegria e aflição, encontramos a galera.
No alto de um pequeno desfiladeiro, Milena estava pendurada pelos braços enquanto outros tentavam puxá-la. Ficamos estarrecidos com a situação. No puxa-puxa, Gustavo conseguiu subi-la, mas acabou se desequilibrando e caindo do barranco. Uma nuvem escura tomou conta dos meus olhos. Passamos o dia em busca do pessoal, desejando não encontrar sangue e de repente ele decide se exibir bem na nossa frente. Corri para o local onde Gustavo tinha caído e o encontrei deitado com o braço e a perna machucados. A malinha de primeiros socorros agora ia finalmente nos ser útil. Carol chegou logo em seguida com uma aflição visível e o beijou aliviadamente na boca. O quê?! Peraí! E a Milena? Ela chegou depois, toda desarmada pedindo desculpas pela queda. É, muito mais coisa havia acontecido do que eu pudesse suspeitar durante esses dias pela mata.
Ferido atendido, era hora de voltar ao ônibus e nos juntar aos demais. É isso aí! A galera havia se dividido em duas equipes com o intuito de retornar ao ônibus. A outra já havia de ter chegado. Assim, partimos em seguida em uma equipe de 10 pessoas. Três horas depois começamos a avistar o amarelo vibrante do ônibus. E logo os demais alunos e professores correram ao nosso encontro. Eles haviam se comunicado com a escola e um novo ônibus estaria vindo para nos buscar. Finalmente um merecido descanso. Opa! O professor Miguel quis discursar. Depois de enfeitar com belas recordações os momentos tensos que passamos por lá, ele fez algo que me abalou profundamente e pelo qual não estava preparado. Ele pediu a professora Elvira em casamento e ela aceitou com um beijo agradecido entre os alunos que aplaudiam emocionados. O que quer que eu sentisse por ela, teria um fim ali se eu não fizesse alguma coisa”.
Lucas Mendes
14 de maio de 2008
Diário de Lucas – Parte III – “O Casamento”
“Era o vestido mais bonito que já havia visto. E a noiva mais bela que já pude imaginar. Estava na sala da casa do professor Miguel. Um grande imóvel com um imenso jardim rodeado de frondosas árvores e uma bela piscina. Eu observava as manicuras e cabeleireiras prepararem a professora Elvira para a grande ocasião. O sorriso no rosto dela me feria como agulhas no peito. Não merecia vê-la ir embora assim. E pior que tudo, eu havia sido convidado para ser padrinho dela ao lado da Amanda. Decidi deixa-la com as companheiras e fui ao jardim, onde os últimos preparativos estavam sendo feitos. Alguns convidados já circulavam em volta da piscina. O padre espalhava seus livros e taças sobre o altar improvisado. Ao lado dele, Carol tentava conter a ansiedade do Miguel.
Fui ao encontro de Amanda, Eduarda e Susi. Depois de algum papo-furado, fomos magnificados com a presença de uma criatura mais irreverente que a Rossicléia e mais enigmática que o Zé do Caixão. Era Mãinha! Uma baiana que não levava desaforo pra casa. Seu parceiro não tardou em chegar. Rafa tinha ido passar as últimas férias na Bahia e lá encontrou não só sua cara-metade, como as delícias e os costumes baianos, num foi, meu rei? Ainda tivemos que assistir uma demonstração de suas nuances, antes dos dois saírem agarrados pelo jardim.
Pouco tempo depois, eu entrava com Elvira e caminhava pelo solado vermelho em direção ao padre, ou mais precisamente a um torto rival. Bem, era hora de encarar os fatos. A professora Elvira, embora demonstrasse uma graciosidade que lhe era própria da sua jovialidade, já era uma mulher, com experiências pessoais até mais do que profissionais. E eu era simplesmente um aluno. Um aluno que levava um namoro com uma garota da turma e desejava sutilmente uma professora. Ela estava decidida a desafiar novos trilhos e nem desconfiava dos interesses por trás do sorriso camuflado, sempre em resposta à sua simpatia.
Ainda cheguei a gelar quando o padre perguntou a célebre frase ‘alguém contra?’. Pensei em me manifestar. Mas o que diria? O que meu irmão pensaria de mim? E a Amanda? A Amanda! Finalmente eu tinha olhado para ela. Estávamos juntos há um bom tempo. Mas o que sentíamos um pelo outro não parecia ser o mesmo. Dessa forma, encarei o ‘sim’ e o beijo que poderia ser meu. Minhas pernas ainda tremeram, mas não foi pior do que a tal da Mãinha, que se jogou no chão na hora do buquê para agarrá-lo e quem acabou recebendo foi Eduarda.
Decidi que não iria à festa. Comentei com a Amanda e o Gustavo que estava com enxaqueca e precisava ir para casa. Amanda ainda quis ir comigo, mas acabei a convencendo a ir com o pessoal. Em casa pude refletir sobre todos os sentimentos que acabara de presenciar. Estaria mesmo amando a professora ou era apenas paixão de adolescente? Já era por volta das 3 da manhã quando ouvi os passos do Gustavo entrando em casa. Ele ainda chegou dedilhando as emoções e a felicidade estampada no rosto de cada um, em particular no de Elvira. Fingi estar com sono e pedi para ele não me narrar os flashes do último capítulo.
Na manhã seguinte tomei uma decisão. Fui à casa da Amanda, saímos até o parque, tomamos sorvete e no meio da conversa decidi pôr fim na nossa relação. Segundos após sua perplexidade, notei a sua conformação e percebi que de certa forma aquilo já não era tão surpreendente quanto imaginava. Foi uma longa conversa que se sucedeu a partir daí, e nem o gelo do sorvete derretendo em nossas mãos, foi suficiente para romper nossa concentração. Ali se encerrava uma história. E por mais que tivesse certeza de que já não teríamos futuro, não fiquei satisfeito com a resolução dos fatos. Estava perturbado.
O semestre seguinte chegou como uma tempestade. Entrei na universidade para o curso de arquitetura e fui morar na capital com três amigos. De recepção fomos limpar carros no trânsito cobertos de tinta e farinha. Era o famoso trote. Uma nova turma estava prestes a se formar. Novas aventuras, emoções e claro, paixões. No momento estava aberto a tudo. Não queria me encanar com ninguém. Cheguei a ficar com várias garotas da faculdade. Fui a muitas farras com a galera. Parecia realmente que o passado de incertezas e nuvens escuras estava dizendo adeus. Curtia com todas as letras o significado da expressão ‘liberdade’.
As primeiras férias chegaram mais rápido do que nunca. Em um momento estava sozinho com os amigos na capital e no outro olhava o horizonte e as belas praias de Floripa. Resolvi viajar sozinho para fugir um pouco da agitação de Vitória. Me habituei a caminhar descalço pela areia todas as manhãs, sentindo as ondas baterem contra as pernas e aquecerem a circulação. Nada poderia me afetar ali, naquele pedaço de édem. Foi quando de repente, avistei uma jovem que vinha ao meu encontro descalça, com um vestido transparente e um grande chapéu, que
segurava na cabeça com as mãos. Sua presença me pareceu familiar. Logo percebi que não era o único a pensar assim. Ela me olhava querendo me identificar também e conseguiu. ‘Lucas’! Ela exclamou com um imenso sorriso, antes de vir correndo ao meu encontro. Eu não podia acreditar. Era a professora Elvira. Ela me abraçou fortemente e por um minuto voltei a ser o mesmo Lucas de meses atrás. Cheio de sonhos, paixões secretas e incertezas”.
Lucas Mendes
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13 de outubro de 2007
Outros Valores
Uma exposição no shopping Iguatemi aqui em Campina Grande me chamou a atenção ontem. Ela mostra através da fotografia a histórica urbanística da cidade. São diversas fotos desde a década de 20 até a década de 50. A multidão que olhava admirada as fotos não imaginava as histórias que se escondiam por trás de cada flash. O autor da obra, Sóter Farias de Carvalho, se dedicou a fotografar a cidade no início ainda por hobby e depois se descobriu um amante da revelação. Foi cronista, repórter, vereador, mas apenas na fotografia encontrou sua vocação.
A história me fez lembrar dois fatos. O primeiro a determinação nos nossos objetivos. Sóter buscou sua identificação e mesmo com os trabalhos que exercia não abandonava sua paixão pela fotografia. O segundo foi a história da minha família, dos meus avós para ser mais exato. Os anos difíceis do início e meados do século passado. As histórias que meu avô contava e seu jeito de recordar as memórias me identificaram com Sóter. Acredito que ele conseguiu viver numa época em que os telégrafos dominavam e que não havia tanta preocupação com aquecimento global, radiação, agrotóxicos e efeito estufa. Uma época mais feliz, acredito.
Sou um amante do passado mesmo, das belas praças, dos bondes, da iluminação fraquinha das esquinas, das ruas estreitas. Não sei se estamos em uma época melhor ou pior no que chamam de desenvolvimento, mas sei que sinto falta de uma vida mais simples, onde o valor da felicidade estava mais precisamente nas pequenas coisas, na novidade de um singelo circo que chegava à cidade do que nos modelos mais sofisticados de vídeo games. Talvez o que nos reste sejam apenas as memórias. E que bom que existiram alguns Sóters para preservá-las e fazer-nos reviver ao menos no papel essa época tão sublime e efêmera.
2 de novembro de 2007
Um Dia Especial
Há datas que significam muito para a gente por conter algum significado importante, como o nosso aniversário, o natal, o reveillon. Mas existem outras ocasiões que nos tocam sem nenhum motivo aparente. E assim se deu a minha identificação pelo dia de finados. Lembro fortemente das vezes que fui ao cemitério visitar familiares que nunca cheguei a conhecer, e sempre me animava por poder estar lá.
Não sei explicar o fascínio que encontrava em acender velas e caminhar pelo cemitério olhando os outros túmulos. Lembro de estar me curando de uma catapora aos nove anos e querer ainda assim ir ao cemitério, só não fui porque minha mãe não deixou. Talvez as experiências raras de ir a um cemitério pudessem explicar um pouco. Alguns tios meus geralmente iam a minha cidade prestar seus sentimentos e com eles minhas primas. Juntos saíamos pelas alamedas tentando encontrar os mais bonitos túmulos e as mais enigmáticas covas. Na inocência que escondia mais uma aventura do que sentimentos de saudade e lembranças.
O Dia de Finados sempre foi uma rotina lá em casa. Os preparativos da limpeza e pintura dos túmulos começavam uma semana antes. As coroas eram organizadas e levadas ao cemitério na manhã do mesmo dia. Eu sempre queria ser o responsável por pregá-las em cima dos túmulos, mas minha mãe não deixava, e algumas vezes, quando acordava cedo e conseguia ir com minha avó, ficava só olhando o menino que fixava as coroas. Era realmente um dia especial.
À tarde, umas 4 horas, todos nos arrumávamos e íamos ao cemitério novo, como é conhecido até hoje. Lá, a visita era à mãe da minha avó. Acendíamos velas e depois minha mãe, minha avó e meus tios rezavam enquanto eu ia “passear”. Pra mim, podia não ser o cemitério mais bonito que já havia entrado, mas escondia seus mistérios, e minha visita lá só acontecia uma vez ao ano.
À noite era a vez de irmos ao cemitério velho. Lá, havia mais familiares, inclusive Cicinho, meu tio que havia morrido ainda criança em um acidente e que mexe até hoje com os sentimentos da minha mãe. E o ritual continuava. Velas acesas e orações. Meu olhar se encontrava com outros enigmas. Tentava entender esse mistério da morte. Fixava meu olhar para toda aquela estrutura e para as gavetas onde se encontravam os corpos e não conseguia entender a inexplicável viagem que poderia ter levado embora aquelas pessoas. Porém, como criança que era, esquecia um pouco esses pensamentos e saia desbravando os outros túmulos.
Hoje, passados alguns anos das minhas peripécias infantis, o dia de finados ganhou um outro significado pra mim. Os passeios às alamedas tornaram-se um encontro com a saudade. As velas acesas refletem uma lembrança de momentos felizes. E encontro nos túmulos não mais apenas parentes desconhecidos, mas meu avô, meu pai e minha tia Lúcia. As orações que antes apenas ouvia minha família rezar, hoje as elaboro sozinho, movido por um sentimento de eterna saudade e memórias que nem o tempo será capaz de apagar.
Contudo, apesar das mudanças, uma incógnita persiste até hoje. Qual o destino daqueles que partem e nunca mais retornam? Será que eles entendem também o significado desse dia? Onde estão realmente? Conseguem receber as energias que as pessoas direcionam à elas nesse dia ou tudo é apenas uma simbologia e o resultado da saudade e da angústia dos que ficam aqui? Essas perguntas nem o tempo poderá me responder. Porém, a certeza da importância do dia de finados ficou mais acesa em mim hoje. O que poderia ser um interesse sem muitas explicações pode ter ficado sem resposta no passado, mas a necessidade e o desejo de estar no cemitério nesse dia permanecem. Embora com idéias e pensamentos diferentes, o Dia de Finados será sempre um dia especial em minha vida.
3 de novembro de 2007
O Círculo da Vida
Crescer, casar, ter filhos e constituir uma família. Parece ser o sonho de muita gente, principalmente de muitas garotas. Mas se administrar a nossa própria vida já é uma tarefa complicada, imagine então organizar uma vida a dois. Lembro de imaginar quando criança que casamento era coisa de gente adulta e que demoraria muito pra chegar. Mas a primeira lição para mergulhar nesse estágio, eu descobri semana passada no casamento da irmã da minha namorada. Quando a marcha nupcial soou na entrada da igreja e Edivânia entrou vestida de noiva, a idéia de matrimônio finalmente se concretizou na minha cabeça.
Parece estranho. A garota que eu conheci assistindo novela mexicana e tricotando no sofá com um sorriso ingênuo de menina, agora estava abrindo as portas para um novo mundo. Deixando de lado as brigas infantis e as mordomias da mamãe para viver sua própria vida. Aquele namoro que pude acompanhar ao longo de três anos tornava-se uma relação eterna, ao menos foi o que prometeram diante do padre.
E no cartório um dia antes, estavam eles, ansiosos e felizes pelo futuro que se desdobrava. Eu, junto de Ingridy, minha namorada, fomos as testemunhas desse momento, ao lado de Clécio e Elisângela. Pausa para algumas fotos. Fui o fotógrafo quase oficial. E logo mais sorrisos e registros de momentos únicos. Sem muitos discursos, estavam 50% casados. Agora, a oficialização na igreja esperava para esse grande futuro.
E eis que entrava Edivânia na igreja. Seu noivo Lucenildo, com um leve sorriso e uma firmeza no olhar, escondia a ansiedade e o nervosismo. O sorriso da noiva exultava sua satisfação e demonstrava seu estado interior. Eu, como fotógrafo quase oficial fazia a minha parte e não perdia nenhum momento... opa, exceto pela entrega da aliança do noivo, quando o filme da máquina acabou.
Ao lado de três outros noivos, o casamento seguiu seus requisitos e o grande momento ficava cada vez mais próximo. Finalmente ocorreu a troca das alianças e o casal estava unido assim pelos laços do amor. Ué, mas cadê o beijo? Isso deve ser só em novela mesmo. Bom, assim eles partiram para assinar as papeladas da igreja. E logo em seguida os momentos dos flashes. Agora não era eu. O fotógrafo oficial os guiou numa sessão de fotos em seu estúdio.
Ah, naturalmente seguimos agora para a festa e onde tem festa tem comida. Mas fotógrafo só come depois de trabalhar. Tudo bem, eu espero. A festa foi no sítio Bonito, onde o casal iria residir a partir dali. A mãe da noiva que não pode ir à igreja a esperava na porta. O encontro das duas foi emocionante. Embora, algumas mães desejem ver suas filhas casadas e vivendo suas vidas, a separação sempre é cheia de grandes recordações e muita emoção. Flash! Aí fui eu!
E depois de fotos, comida, churrasco, bebidas, presentes, o dia chegava ao fim. O primeiro dia de uma nova história. O terreiro e a calçada pareciam já sentir a presença dos novos moradores. Agora era hora de criar suas próprias responsabilidades e experimentar o lado adulto da vida. Realmente parece que o casamento sela a divisão entre a juventude e o mundo adulto. É preciso estar bastante certo para saber enfrentar todos os desafios que nos esperam a partir dali. Afinal, novas criaturas estarão por vir e com elas a renovação dos laços que juramos naquele dia que parecia ser o mais importante da vida até a chegada deles. E assim continua o círculo da vida, numa eterna volta que fará da noiva de hoje, a mãe que se despede da filha amanhã.
5 de novembro de 2007
Aqueles Momentos
Um ano! Há exato um ano ia embora do nosso convívio uma guerreira. Chegava ao fim uma história de amor e dor, deixando saudade nos corações de quem ficava. Há exato um ano nós perdíamos Lúcia, minha tia que sempre esteve em meu coração e que algumas vezes até não percebi. Eu não poderia deixar de escrever algumas linhas para prestar minha homenagem nesse novo espaço que criei. Porém, ao contrário do que fiz ano passado quando produzi uma mensagem na missa de mês falando sobre a dor que sentíamos com sua perda, agora quero fazer diferente, quero exultar sua vida, tentar relembrar seus momentos bons e felizes e buscar passar isso aos leitores.
Tia, quero te dizer que hoje não é um dia de tristeza, pois sei que está sorrindo como sempre fez. E seu sorriso... ah, seu sorriso! Enchia de alegria quem estava em volta. E alguém sabe como esse sorriso cativante surgiu? Ah, deixe eu me lembrar. Eu não era nascido, mas eu conheço a história de uma jovem sonhadora que se apaixonou perdidamente por um rapaz da sua cidade. É, eles viveram uma longa história de amor, muitos anos de namoro, cartas, promessas. Mesmo tendo que trabalhar em São Paulo, ele não deixava de garantir seu retorno e alimentar a promessa do casamento.
Tá reconhecendo a história, tia? Acho que sim. Então deve lembrar o que aconteceu depois. É, pois é, o jovem retornou à cidade como prometido após alguns anos e cumpriu com sua palavra. Ele casou com a jovem. Foi o dia mais feliz da vida dela. Ah, depois eles foram morar em São Paulo. E lá viveram o ano mais feliz de suas vidas. Os detalhes eu não posso contar porque não estava lá, mas sei que lembra de todos. Das músicas, dos passeios à cidade de Aparecida, das pizzas e dos famosos sucos de laranja. Quanta história em um ano, não? E depois vem o inesperado, a gravidez, um filho.
A história que se segue daí poderia ter tomado vários rumos, mas o destino, Deus, o acaso, o direcionou para seu desenlace. A perca do filho, sua doença, não devem ser encarados como um problema e o fim de uma história. Nós estamos nesse mundo com uma missão e muitas vezes para cumpri-la, temos que nos submeter a determinadas situações, provas que talvez tenhamos solicitado antes mesmo de chegar. E se uma parte da sua tarefa foi contribuir para a inspiração de um pequeno escritor pode ter certeza que já foi cumprida. É, ele bebe sem cessar da fonte de vida de uma guerreira. A dona daquele sorriso, daquela gargalhada. Ah, até posso senti-la sorrindo.
E dos momentos seguintes que pude presenciar da história dessa jovem, me lembro de muitos. Lembra quando eu chegava das novenas do padroeiro e te encontrava na porta de casa olhando quem passava? Pois é, você sempre me informava se vovó já havia chegado. E da bateria? Lembro de te ver tapar os ouvidos e abrir aquele sorriso. E quando eu me machucava com algo sempre ouvia de você “Ô, Samuelzinho, cuidado!” Agora lembrou! É, esses momentos são apenas trechos de um longo convívio que não se perde entre os espaços do tempo. Saudade? Ela estará sempre presente, mas se ainda derramar alguma lágrima será de alegria por reviver esses momentos e infelizmente só poder tê-los na mente.
Acredito que consegui cumprir minha missão de hoje. Já que não pode olhar aqui comigo o meu celeiro e sorrir ao meu lado, quero que receba toda a minha emoção e energia que te dedico hoje. A história da jovem seguirá comigo enquanto vida me houver para poder um dia quem sabe revelá-la ao mundo. Sim, porque se nossa vida é uma novela, a sua já ganhou o Troféu Imprensa. Agora sou eu quem abro aquele sorriso e me despeço aqui na certeza que sempre estará por perto, seja na inocência e na ingenuidade dos últimos anos, seja na alegria e exuberância da juventude. Porque hoje eu só queria te abraçar... e abraçar... e abraçar...
Minha mãe, minha avó e meus tios (Lúcia, Vilaneide, Auxiliadora e Dagmar)
Samuelzinho
19 de novembro de 2007
Um Mergulho no Amanhã
Outro dia enquanto aguardava minha vez de ser atendido em um consultório de oftalmologia, entraram duas crianças com seus pais e fiquei observando os quatro. Eram dois meninos, tinham 4 e 6 anos mais ou menos. Ao contrário de muitas crianças que por essa idade costumam ficar inquietas em consultórios, eles pareciam calmos e tranqüilos. A mãe era quem estava mais inquieta porque a autenticação do filho mais novo para a consulta não estava sendo confirmada. O pai pouco menos se importava com isso. E eles permaneciam ali, olhando quietos o ambiente, a tv, com poucas e vagas conversas. O fato me chamou a atenção por me fazer mergulhar na imaginação e me ver em alguns anos casado, com meus filhos e pensando se eu e Ingridy seríamos parecidos com a realidade daquele casal.
O meu desejo de ser pai sempre foi mais alto do que mesmo o casamento. Minha namorada e eu sempre brincamos sobre esse futuro que pode chegar, idealizamos os nomes dos nossos futuros filhos e até chegamos a querer ditar seus comportamentos, como se fosse possível. Mas, pelo menos sonhar e tentar enxergar como nosso futuro de casados será é razoavelmente possível. E isso me instigou com a presença daquele casal no consultório. Imaginei se eu seria descansado com relação a determinados tipos de assuntos familiares que as mulheres geralmente são mais dedicadas. Achei estranho a presença dos dois no consultório com os filhos, quando a quantidade de mães que levam os filhos ao médico é superior aos pais no Brasil. Mas logo percebi que o pai também ia se consultar.
Fiquei observando o comportamento tanto dos meninos quanto dos pais. Em alguns momentos realmente me vi abraçando e brincando com um dos meninos. Vi também Ingridy reclamando com a recepcionista sobre a autenticação e querendo ir reclamar na sede do convênio logo após sair dali. Parecia mesmo que o futuro tinha aberto uma lacuna e estava se desvendando diante de mim. E claro, dois meninos como sempre imaginei. Faltava só a menina. E Ingridy faria de tudo para tê-la. Tudo bem. Eu também depois de algum tempo venho desejando muito uma garotinha. E minha análise continuava. Buscava entender o comportamento deles e comparar com algum traço tanto meu como de Ingridy.
De repente o mais velho pergunta ao pai a hora. Talvez para testar o filho ou para mostrar que ele já conhece as horas, o pai o mostrou o relógio do consultório e mandou ele mesmo olhar a hora. Para surpresa geral, o garoto se confundiu e não soube dizer a hora, porém o mais novo se virou no mesmo momento para o relógio e informou exatamente a hora. Aí já me carregou para uma outra visão. Me senti o garotinho que perdia do mais novo algo tão simples. E por que isso? Sou filho único por parte de mãe e o excesso de amor e cuidado talvez tenha me travado em algum momento da vida aliado a uma imensa timidez. Mas aí também analiso. Os filhos mais novos geralmente são mais espertos e conseguem desenrolar mais rápido do que os mais velhos. Talvez por aprenderem valores morais ao mesmo tempo em que o mais velho aprende, e por não serem tão superprotegidos e detentores de todas as atenções.
Quando a mulher engravida é motivo de festa para toda a família. O primeiro filho, o início de uma outra etapa na vida de muita gente. É a mulher que vira mãe, a mãe que vira avó. É realmente uma fase de muitas mudanças e alegrias. E quando a criança nasce então, todas as atenções são voltadas para ela. É um “nenhenhem” pra cá e pra lá o tempo todo. A criança se torna a mais bonita, a única notícia da família para os amigos e as únicas fotos que enchem os álbuns e enchem também a paciência dos vizinhos. E até a chegada de outro, a criança carrega essas regalias, que podem ou não ser benéficas para ela. Daí quando chega o segundo, o terceiro, a empolgação acaba, perde a graça e a criança cresce querendo buscar dos familiares essas atenções que não tiveram. Talvez por isso se dediquem em aprender mais rápido e mostrem que são até capazes de superar o irmão, naquelas famosas rivalidades entre irmãos.
E assim trouxe minha imaginação de volta à minha realidade no consultório. Percebi que embora parecidos ou supostamente idealizados como meu futuro, aquele casal não era a minha realidade, ao menos por enquanto. E mesmo que um dia chegue em algum consultório com minha mulher e meus filhos, talvez não seja nada parecido com o que imaginei. Quem sabe ao invés de quietos, as crianças sejam impulsivas e barulhentas? Ou eu seja o preocupado e Ingridy a relaxada. Quem sabe as crianças sejam cobertas de mimos de um pai tão babão e minha mulher tente controlar esses vícios sem sucesso? Quem sabe? Quem sabe? É, o futuro é escuro. Não posso fantasiá-lo e idealizar algo que pode nunca acontecer. Só espero ser feliz e conseguir constituir uma família alegre, saudável e cheia de disposição e poder acompanhar cada passo dessa etapa da vida que tanto arquiteto. Afinal, quem decide se na história da educação e participação do crescimento dos filhos o pai será o mais ausente somos nós, e se depender de mim Ingridy terá um forte concorrente.
16 de dezembro de 2007
Nada É Por Acaso
Algumas pessoas desejam veemente esquecer e até apagar o passado, se fosse possível, com vergonha de algumas peripécias cometidas quando não se sabia ao certo o significado da palavra “noção”. Mas por que fugir e negar o nosso passado que já nos trouxe tantas alegrias em outros invernos? Era uma tarde de fim de ano na escola onde estudava na cidade de São Miguel. Eu fazia a primeira série e me destacava entre os alunos mais calmos, tímidos e comportados da escola, daqueles de grandes elogios até para a diretora. E ali naquela tarde eu estaria a ponto de descobrir a fonte que alimentaria toda uma adolescência de sonhos e fantasias. A diretora estava organizando uma festa de fim de ano na escola e levando alunos para participar recitando, dançando e dublando. E no salão dois alunos meio tímidos imitavam uma dupla recém-descoberta. A diretora se esforçava para mostrar a menina como a cantora fazia. A música era “A Resposta da Maraquinha” e a dupla era Sandy & Junior.
A princípio a música me pareceu alheia. Já tinha escutado o sucesso anterior deles “Maria Chiquinha”, mas como diz o ditado, “não tinha ligado o nome aos bois”. E aos poucos como quase que um feitiço fui me interessando pela música e pela dupla. Em casa sempre enfatizava os alunos que estariam dublando na festa da escola. Meus amigos debochavam a dublagem e eu seguia a onda, mesmo sentindo uma certa afinidade e até um pouco de inveja. O garoto que dublava tinha o cabelo estilo Chitãozinho & Xororó, do tipo que sempre desejei ter. Me imaginei no lugar dele imitando Junior e assim fui me identificando com a música, com o estilo e com a dupla cada vez mais.
E não foi preciso pedir ou desejar me aproximar daquela dupla, uma força oculta os direcionavam a mim. Acreditando na idéia de que criança canta para criança e que cada uma deve ouvir músicas infantis, minha tia Auxiliadora resolveu gravar em uma fita várias músicas de Sandy & Junior dos dois lps e me deu de presente. Pronto! Agora o destino estava traçado. Com aquelas músicas nas mãos e nos ouvidos a dupla estaria mais perto de mim do que imaginei. Aqueles garotinhos que cantavam “A horta”, “Lambamania” e “Pó pra tapar taio” agora acabavam de ganhar mais um fã pelo país afora.
Quem deu os próximos passos para firmar essa ligação foi minha mãe. Numa tarde de domingo enquanto brincava com meus amigos na área de casa, ouvi “Splish Splash”, a nova música de Sandy & Junior no Domingão do Faustão. Como minha tia já havia me abastecido com outra fita dos novos sucessos, reconheci a música e corri para a televisão. Meus olhos se enchiam de um encanto que eu não sabia de onde vinha. Minha mãe envolvida e animada com a desenvoltura daquelas crianças e vendo minha concentração, lançou um desafio: “você tinha coragem de dublar eles numa festinha?”. Eu olhei para ela, sorri e concordei com um sorriso acanhado e desafiador. Era o que bastava para me animar e me lançar ainda mais nesse mundo do show business, mesmo que só para a minha cidade.
Os shows
E pouco mais de um mês depois a área da minha casa se transformava no palco da primeira festa ou showzinho de dublagem da nossa rua. Vários vizinhos compareceram àquela inovadora apresentação. E entre as atrações Chitãozinho & Xororó (eu como Xororó), Leandro & Leonardo (eu como Leonardo), Trem da Alegria, uma peça onde eu era um dos protagonistas e claro Sandy & Junior cantando ou melhor dublando “Splish Splash”. Foi o grande momento. A iniciativa foi um sucesso e ao término já se cogitava a data da próxima, agora bem mais estruturada e com figurino confeccionado. A diretora da escola foi chamada nessa segunda festinha. Mas teria sido melhor se não tivesse ido. O menino que ficou no som cortou o fim da música de Chitãozinho & Xororó e eu simplesmente dei um grito com ele lá do palco e saí “vexadinho” para reclamar nos bastidores. Bom, esse fato pode ficar esquecido, assim como a cara da diretora.
Os anos foram passando, eu fui crescendo e comigo Sandy & Junior e seus novos sucessos. Agora meu cabelo já era como o de Junior. E depois de quatro festinhas em casa fui chamado para me apresentar em uma escola. Lá, numa noite fria e com o auditório lotado fui Xororó e Junior. Mais uma vez mostrei meu semi-profissionalismo e ingenuidade infantil. Adriano, quem fazia Chitãozinho comigo, espantado com a multidão, acabou dublando até a minha parte da música e eu mais que depressa tentei baixar a mão dele, mostrando a todos que tínhamos errado. É, ainda bem que dessa vez a diretora da minha escola não estava presente.
O sucesso micaelense
Bom, depois dessa fase digamos que o ‘sucesso’ começou a surgir. Fui chamado a outras apresentações. A primeira foi em uma mini tentativa de produzir uma festinha como as nossas na garagem da casa de uma menina. Depois eu e Katiane, a Sandy by São Miguel, fomos chamados para o aniversário de uma outra escola, a mais respeitada da cidade. Agora era a época do grande hit “Com Você”. Um mês depois lá estávamos nós de novo na mesma escola para o dia das mães. Foi uma festa bem organizada, cheia de brindes e com a participação de várias mães da cidade. Enquanto esperávamos a hora, nós corríamos pela escola e algumas pessoas diziam “esses são os que imitam Sandy e Junior”. Nessa hora eu me sentia o próprio Junior. No palco “Criança Esperança” e “Com Você” fizeram a alegria das crianças, dos jovens e das senhoras.
Nas ruas as pessoas já me chamavam de Junior e perguntavam pela Sandy. Não preciso nem dizer que eu ficava todo fofo. Mais três festas ocorreram lá em casa e Sandy e Junior ficavam cada vez mais marcados em mim. Por fim passei a dublar apenas eles. Sandy e Junior passaram a ser referência a meu respeito, tudo o que era novidade vinham me avisar, me perguntavam se já havia comprado o novo cd e se já havia aprendido os novos passos. Mas como tudo tem um fim decidi que era hora de parar com as dublagens. Minha última apresentação foi aos catorze anos em outra escola da cidade. Os sucessos, “Beijo é bom” e “Em cada sonho”, a do Titanic. Depois de oito anos dublando, gravando vídeos e decorando passos chegava ao fim minha “carreira” micaelense.
Os passos hoje
Os anos se passaram. O cabelo foi cortado e voltou a crescer de novo. Mas não abandonei os garotos que trouxeram tanta alegria à minha infância. Passei a ser um assíduo telespectador do seriado Sandy e Junior com vinte fitas de vídeo gravadas. Além de apresentações no Faustão, Xuxa, Vídeo Show, Criança Esperança, shows e tudo mais onde eles estivessem presentes lá estava eu também, de longe, registrando tudo. E onde eu pisasse todos ficavam conhecendo Samuel e Sandy e Junior. Era um trio. O pessoal do ensino médio em Pau dos Ferros, do cursinho em Natal. Enfim, aquela dupla que conheci num fim de tarde na escola lá pelos sete anos de idade, agora era o registro da minha história de vida adolescente. Até que o fanatismo foi abrindo espaço para outras ideais e aquele apego foi se tornando apenas saudade do passado. O único show deles que fui em dezembro de 2001 em Natal não foi exatamente o que esperava. Não tive a plena visão deles como desejava e voltei para casa frustrado.
Hoje assisti a última apresentação ao vivo deles juntos em um programa de tv e apesar de já não sentir o mesmo que sentia quando escutava “Power Rangers” ou “Inesquecível”, todas as lembranças de uma época retornam com grande saudade. As músicas que fizeram não só a minha infância como também minha juventude, que embalaram paixões e segredos. Voltar ao meu passado e não falar de Sandy e Junior é como voltar ao Novo Testamento e não falar de Jesus. Por isso, embora afirme que meu envolvimento com a dupla hoje é apenas passado, eu não tenho a menor vergonha de admitir que já fui fã, já dublei e que os registros se encontram ainda espalhados em vários cantos da minha casa, basta conferir a coleção de cds, os posters no armário e as inúmeras revistas. Parece que a separação deles significa a ruptura completa do meu passado com o meu presente. A carreira de cada um agora é um outro caminho, do qual não sei se irei acompanhar. E mesmo que não me imagine seguindo o mesmo caminho hoje, se eu pudesse voltar no tempo e viver minha infância novamente, não me pergunte duas vezes, eu faria tudo de novo.
9 de maio de 2008
O Embrulho e o Presente
Mais um dia das mães se aproxima. As lojas começam a explorar os presentes para as mamães com promoções e ofertas “imperdíveis”, naquela que já é a segunda maior data de aquecimento do mercado, perdendo apenas para o Natal. Mas será que as lojas sabem mesmo o melhor presente para cada mãe em particular? E será que esses presentes são mesmo o que toda mãe desejaria ganhar nesse dia? Mãe é um ser complicado. Sofre dores terríveis para nos pôr no mundo. Depois nos enche de carinho e proteção ao longo da vida. Sofre, rir, chora e se desespera conosco e com os nossos problemas. Nos surpreendem quando achamos que já sabemos tudo delas. Somos sempre os seus bebês. Os mais bonitos do mundo. Nos machucam para ensinar o caminho do bem e se mutilam quando alguém nos faz o mal. Tem como encontrar nas lojas algo que nem a essência humana ainda conseguiu desvendar?
Era junho de 1994, Copa do Mundo dos Estados Unidos. O Brasil fervia na busca pelo tetracampeonato. Fitas verdes e amarelas enfeitavam as ruas sempre a cada jogo. Era época das famosas luvinhas da vitória, que cobriam apenas os dedos indicador e médio com as cores do Brasil. Eu estava na casa dos meus exatos 9 anos de idade. Costumava usar uma camisa verde e amarela nesses dias e outra branca com estrelas azuis e vermelhas e com o cachorrinho mascote da Copa. Nem chegava a acompanhar com precisão os jogos. A minha animação era ver a gritaria na rua, as comemorações nos bares e restaurantes a cada gol e as passeatas recheadas de bandeiras ao término de mais uma etapa.
Naquela época, comecei a sair de casa com os amigos seguindo os conselhos da minha mãe. Os amigos que me acompanhavam, Adriano e Eusélio, eram meus vizinhos. Geralmente saíamos à tardinha, depois de tomar banho e nos perfumar todo. Até parecia que íamos nos encontrar com várias garotas. Nós percorríamos vários pontos da cidade. Andávamos por estradas de terra, ruas que não tínhamos o costume de passar com freqüência, casas de farinha abandonadas e tudo era sempre uma descoberta. Chegamos a penetrar em eventos de escolas, festas de aniversário de algum amigo de Adriano sem sermos convidado. Um dia quando percebi estávamos explorando a vegetação dos muros do hospital.
Nossa aventura tinha um destino novo da cidade a cada dia e sempre terminava na casa da minha avó por volta das 6h da tarde. Já havia se tornado um ritual. Todo dia naquelas horas já estávamos prontos para caminhar. Contudo, naquele momento de Copa, o clima estava pesado na cidade. O fluxo de carro havia se intensificado e as comemorações eram imprevisíveis e até agressivas. A pedido da minha mãe, nossos passeios foram encurtados em meia-hora nesse período, horário em que os jogos eram transmitidos. Porém, certa vez, algo fugiu ao nosso controle.
Saímos de casa como de costume. Percorremos os lugares que havíamos escolhidos para aquele dia, na certeza que teríamos que retornar cedo. No entanto, o passeio foi se esticando e fomos descobrindo novos lugares, querendo ir sempre mais a fundo. Já era noite quando atravessamos a rua de trás da casa da minha avó. Não queríamos terminar o passeio daquele dia ali. A cidade estava em festa com mais uma vitória do Brasil. Assim, seguimos na direção da igreja matriz. Nossa intenção era percorrer outros caminhos, mas paramos lá e resolvemos explorar as escadarias. Subíamos um degrau e saltávamos para a rua. Depois dois degraus, três, quatro, até nos aproximar do último e saltar já a uma altura considerável. Essa brincadeira durou algum tempo e quando percebemos, já havíamos extrapolado o limite de voltar para casa. Deixamos a igreja e pegamos o rumo de casa.
Ainda na praça da igreja nos encontramos com uma amiga da minha mãe que nos informou que ela estava desesperada atrás de mim. Aceleramos os passos e quando chegamos na esquina de um beco da rua da minha avó, avistamos uma grande multidão reunida ao fim. Adriano me perguntou sobre o que teria acontecido e eu em tom de brincadeira respondi: -“é minha mãe atrás de mim”. Surpresa foi a minha quando chegamos ao fim do beco e vi minha mãe falando desesperada, porém um pouco aliviada, no meio de toda aquela gente que olhava pra mim como se eu acabasse de ser resgatado de um prédio em chamas.
Realmente tinha sido minha mãe a responsável por todo aquele fuzuê na rua. Eu só a ouvia me perguntar onde eu tinha me enfiado, enquanto olhava assustado. Ela já tinha rodado várias ruas, batido na porta de várias pessoas, procurado a polícia e solicitado carro para sair atrás de mim seja onde fosse. E para aumentar o terrorismo, alguém dizia ter visto crianças que tinham sido atropeladas por perto. O desespero era evidente em seu rosto. Mas ao invés de uma surra, um abraço e um beijo acalmaram a situação.
Depois desse dia, meus passeios foram perdendo a força e acabaram alguns meses depois. Entretanto, descobri que nada pode ser maior para uma mãe do que se sentir impotente quando acredita que o filho está em perigo. Percebi que o melhor presente de uma mãe no dia das mães é ter a certeza que seu filho está bem, se alimentou direito, dormiu tranqüilo e continua respirando. Sua maior satisfação nesse dia é saber que por ser mãe, pode comemorá-lo. Então, o presente não é o que chega embrulhado no papel com várias fitas coloridas e um cartão em volta, mas as mãos que entregam e os braços que envolvem, mesmo que algum dia a tenham feito arrancar os cabelos e passar o maior vexame na rua. Afinal, o que é vexame a quem tenta proteger um ser com toda sua força, como se ainda o gerasse no mais íntimo do seu útero?
7 de abril de 2009
24 anos
Hoje decidi agradecer! Vivemos pedindo e cobrando tanto. Resolvi parar um pouco e agradecer a tudo que já tive e àquilo que acredito torna o mundo mais divertido. Agradecer à Deus pelo universo. À evolução humana. À essa terra maravilhosa que nos faz respirar e se inspirar mais a cada dia. À família Rêgo por ter deixado Portugal e vindo tentar a vida no Rio Grande do Norte. Agradecer a Manoel José de Carvalho por ter fundado o município de São Miguel. A Mariana Ricardina do Rêgo por ter ao lado de Thomé Ribeiro Machado juntado meus bisavós José Vicente do Rêgo e Olímpia Maria da Anunciação que trouxeram pra mim uma das criaturas mais abençoadas deste mundo, minha linda avó Josefa de Souza Rêgo. Obrigado pelo imenso amor ao longo de tantos anos.
Quero agradecer também a Julio Ferreira de Oliveira e Maria Emília de Oliveira por darem vida a um homem de sabedoria e coragem intensas, Altino Ferreira de Oliveira. Obrigado vô pelo exemplo e pelo apoio! Obrigado Elisiário Dias e Augusta Honório Dias por darem vida a Seledon Dias da Cunha, muito obrigado, painho, pelas palavras que me guiou em alguns momentos de minha vida, e até pelas que não segui. Obrigado vovó e vovô mais uma vez por terem trazido tantas criaturas boas ao mundo, dentre elas, aquela a quem sou responsável por respirar agora. Obrigado, maminha, acima de tudo pela vida, mas também pelo amor incondicional, pelo apoio infinito, companheirismo, pelas festas de aniversário, pelos shows de dublagens, pela presença sempre constante. Obrigado por acreditar em mim e suportar todos os meus problemas.
Agradeço a tia Auxiliadora pela dedicação, pelos infinitos presentes, mas antes de tudo obrigado pelo amor e carinho tão transparente. Obrigado, Ingridy, por tantos anos compartilhados, pela dedicação, por dar colorido e tornar especiais muitos momentos de minha vida. Obrigado Pau dos Ferros por me proporcionar incontáveis histórias. Obrigado Educandário, Vastí, Thiago, Jordânia, Eliene, Sincos, tia Vilaneide, Assis, tio Dagmar, Avani, Andréa, Ana Carla, Vinícius, Larissa, Pollyana. Obrigado, Agda, por me apresentar ao ritmo da lambada e pelas memoráveis tardes de rebolado lá em vovó. Valeu mesmo! Obrigado Kaoma! Obrigado Claudivânia imensamente pela cumplicidade de uma irmã. Obrigado Globo pelo Xou da Xuxa! Arigatô Japão, pelos Flashman, Chageman, Jaspion e Cavaleiros do Zodíado. Obrigado, Ranyere, pelos incríveis anos de aventura. Obrigado King por todos os companheiros latidos.
Agradeço verdadeiramente a Cassiano Gabus Mendes por Que Rei Sou Eu?, a Whalter Negrão por Top Model, Benedito Ruy Barbosa por Pantanal, Renascer e O Rei do Gado, Ivani Ribeiro por A Viagem e Mulheres de Areia. Obrigado Glória Perez por O Clone e por seu exemplo de força de mãe. Obrigado doce Daniella Perez. Manoel Carlos, Por Amor e Mulheres Apaixonadas. Silvio de Abreu, A Próxima Vítima e Torre de Babel. Walcyr Carrasco por Xica da Silva. Obrigado Warner Bros por Smallville. Obrigado anos 60, 70, 80, 90, 2000. Obrigado movimento hippie! Obrigado grandes deuses do rock mundial, John Lennon, George Harrison, Paul McCartney e Ringo Starr, eternos Beatles. Obrigado Sandy e Junior, por embalar uma juventude de sonhos, alegrias e muita diversão. Obrigado Mamonas Assassinas por tentar buscar um mundo mais irreverente.
Ah, ainda tenho que agradecer a Natal, essa cidade encantadora por tudo que me proporcionou, pelas suas praias azuis que em algumas horas foram meu bálsamo nas dúvidas e incertezas da vida. Obrigado bairro de Lagoa Seca! Rua São João! Obrigado Cristina por sua fiel amizade e apoio em todas as horas. Obrigado Dona Severina por seus deliciosos cachorros-quentes. Obrigado Neide pelo português da vida e por confiar em mim e me encorajar na minha caminhada. Miss Lene e Sarah, muito obrigado pelos verdadeiros sorrisos de amizade. E Miss Lene, obrigado por me introduzir ao espiritismo. Ah, obrigado a Allan Kardec por conseguir espalhar pelo mundo os princípios de uma doutrina tão rica e concreta.
Como não poderia deixar de ser, obrigado apaixonante Campina Grande. Muito, mas muito obrigado mesmo por me oferecer o encontro com o quarteto mágico, Isabeli, Ana Célia, Kárem e Lea. Aprendi com vocês que o amor amigo existe. Obrigado Miss Coutinho por existir em minha vida. Obrigado também, Izabel, Vanessa, Silmara, Clara. Obrigado Sebrae! Obrigado Professor Custódio pelas experiências nas difusoras do Centenário, Liberdade e Conceição e a todos aqueles professores que deixaram um pouco de si.
E agora aquele agradecimento especial ao palco mais cheio de vida e de significado na minha história: obrigado teatro por existir! Obrigado Chico, Regina, Chalena, Guto, Emilia, Elio, Álvaro, Renato, Haendel por contribuírem seus vastos conhecimentos comigo. Valeu Yamamoto! E aqueles que se uniram a mim pelo palco, mas o coração agarrou pra si. Obrigado Luciene, Julio, Sami Izu, Ellen, Adriano, Maísa, Mônica, Tibério, Tupi, Mirian e Edinaldo. Rangers, estamos ligados pelo cordão da vida e esses laços não se perderão nem nessa e nem nas próximas existências. E pra finalizar, obrigado terra, ar, fogo, vida, pelos 24 anos de existência e história.
26 de julho de 2010
Eu!
Para aqueles que acham que sou um menino de ouro!
Já roubei perfume da casa de amigos da minha mãe. Já menti quando achavam que era verdade. Já enganei. Já apertei a campainha e corri. Já escrevi cartas de amor. Já gritei com quem amava. Já chorei ouvindo música. Já dancei lambada até cair. Já dublei Junior, Leonardo, Xororó, Latino, Roberto Carlos e Marcelo Augusto. Já corri pela cidade pra não tomar injeção. Já mandei gente se lascar. Já sonhei com uma casa grande e três filhos. Já beijei sem vontade. Já me apaixonei. Já fiz escândalos. Já fugi de compromissos. Já “fiquei” sem querer. Já discuti com médicos. Já fui imparcial aos sentimentos dos outros. Já desejei ser famoso, ser um super-herói. Já quis matar também e esconder o corpo. Já desejei voltar no tempo e salvar John Lennon e Daniella Perez. Já saí sem cueca. Já nadei pelado. Já me masturbei no banheiro. Já comprei revista pornô. Já morei sozinho. Já dividi apartamento. Já passei mico na rua. Já quis fugir de casa. Já senti vergonha de abraçar meu pai. Já quis escrever novelas. Já me escorei nos outros. Já tomei as rédeas. Já fingi doença pra não ir à escola. Já desejei conhecer Sandy e Junior. Já quis ir a um show dos Beatles. Já dei foras. Já levei também. Já fiz chantagem emocional. Já desprezei. Já sofri calado. Já quis ir pra Lua. Já quis ser monge, arquiteto, biólogo marinho e astronauta. Já chorei olhando a chuva. Já jogaram balde d’água em mim. Já me empurraram na lama. Já passei mal em exames. Já quis morrer. Já acreditei em mim. Já caí das nuvens.
8 de setembro de 2010
Enquanto espero...
Sozinho no apartamento esperando minha mãe e minha avó chegarem de viagem. Elas vêm em um carro da família, e por isso seria a primeira vez que nosso amigão de quatro patas Marlon iria conhecer o solo paraibano, mas minha mãe se sentiu mal ainda no início da viagem e o deixou na casa da minha tia em Pau dos Ferros. Pena! Eu tava louco pra vê-lo. As horas correm, mas o carro nada. Pensei que só chegariam à noite, mas saíram mais cedo e já estão quase chegando. Por enquanto, o tic tac irritante do relógio é a minha única companhia. O céu nublado me lembra chuva, e a chuva me lembra calça molhada e PDA, nos dias que recenseei embaixo d’água. Fechei meu primeiro setor, tô esperando o pagamento do IBGE.
Hoje também dei entrada na minha carteira de trabalho, ainda não tinha uma. E dia 18 tem avaliação para retirada de drt de ator. Apostila pra ler e monólogo pra apresentar, que ainda não decidi. Às vezes não sei se devo permanecer investindo nessa carreira, mas um drt na carteira não atrapalha. E ainda tem o de jornalista depois, se eu tirar. Ontem foi 7 de setembro, e o mês ainda me lembra a festa de São Miguel Arcanjo no dia 29, que não sei se irei mais uma vez participar. Queria comprar um pequinês, mas não encontro por aqui. Agora não tô podendo tomar leite, refrigerante e café, nem comer frituras, tomates e carne gorda devido uma esofagite erosiva. Resultado que obtive através de uma endoscopia digestiva que fiz depois de anos fugindo dela. E até agora não sei se saí com minhas próprias pernas da sala de exame até a de repouso. Nada de minha mãe e minha avó.
Terça que vem tem ensaio de Última Estação, os personagens estão definidos, e me sinto bem com os que farei. Talvez o cenário de Pluft venha aqui pra casa. Tenho que renovar minha consulta de vista. A lente de contato tá pior que o óculos de 2004. O cabelo precisa de um corte, mas cansei do mesmo modelo, queria algo novo. Queria ganhar na Sena, conhecer Gramado, fazer um Cruzeiro. Cansei da posição dos móveis no quarto, mas não tenho muita opção de mudança. A fitinha do Senhor do Bonfim, o TOC, o relógio velho, a mochila, coisas que me identificam. Minha mãe vai trazer um chuveiro elétrico e não vou mais precisar ferver água pra tomar banho no frio. E me vem cada detalhe. O roteiro que não terminei, o camarão que não posso comer, as eleições se aproximando e Marina me conquistando, o nome de uma pomada Omcilon-A 1 grama no porta-recados, o comprimido em jejum e antes do almoço e jantar, essa postagem que não termina, o carro que não chega, as nuvens se dissipando, o pequinês faltando, o tic tac incomodando, o celular chamando. São elas. Chegaram! Vou descer pra recebê-las.
20 de março de 2011
Centésimo desatino
Parecia ontem. Não! Já faz quase 4 anos. Essa seria mais uma simples postagem não fosse o detalhe que ela é a publicação número 100 do Celeiro. Noventa e nove ideias, opiniões, sonhos, recordações e momentos hilariantes da vida desse cara aqui estão espalhados nesse espaço. O ano era 2007, outubro. A intenção: criar um blog para escrever crônicas sobre o ponto de vista do meu dia-a-dia maluco no terceiro ano da faculdade de Comunicação Social. Primeiro devo agradecer ao talentoso fotógrafo, Tareb Edson, que por perda de contato não sei se enveredou para outra profissão, de modo que pra mim ficou a imagem do fotógrafo. Foi por descobrir o seu blog, as crônicas bem-humoradas e as reflexões que fazia que me inspirei a criar minha própria página. Tanto que até hoje ainda tenho o link dele, mesmo não havendo atualizações há cinco anos. Naquela época, dava para abrir uma página e se admirar com o que encontrava, hoje de cada dez perfis no Twitter, oito tem um link de um blog, parece que já vem no pacote.
Meu primeiro texto não poderia ser outro, foi sobre o processo que me levou ao estágio do Sebrae durante a Feira do Empreendedor. O primeiro comentário que recebi foi da minha amiga Kárem, em 9 de outubro, um dia depois de publicar a primeira história. Bem, extraindo um trecho do seu enorme a carinhoso comentário, ela escreveu: “É um cantinho bastante aconchegante e que promete muitas risadas e fortes emoções!!”. Não sei se consegui corresponder a profecia, mas analisando alguns dos 318 comentários que constam no Celeiro até então, pude perceber que ao menos alguns sorrisos fui capaz de arrancar. Com o passar dos anos, o Celeiro foi se modificando, ganhando modernos layouts, novas aventuras em cada publicação e obtendo reconhecimento ao mesmo tempo em que seu dono se descobria, crescia e compartilhava com ele suas conquistas e frustrações.
Hoje, 20 de março de 2011, três anos, cinco meses e doze dias após a primeira postagem entrar no espaço cibernético e o nome Celeiro do Sam começar a ser difundido, eu chego ao meu centésimo texto. Poderia já ter escrito duzentos, quinhentos ou mil histórias, ou poderia estar na quarenta, na setenta. Não! Estou na cem! Só escrevo quando sinto necessidade de externar alguma inquietação ou relatar outras peripécias da vida desse jovem irrequieto aqui, embora essa necessidade tenha sido bem mais constante nos últimos tempos. Não por acaso, ou totalmente porventura, atinjo essa meta numa data curiosa. Ontem foi aniversário da minha avó. Um ser que sempre irradia luz à minha vida. Temos uma ligação tão intensa que aos que acreditam na reencarnação, há quem diga que esse moço aqui deveria ter vivido de perto toda a febre da beatlemania, pois eu poderia ter sido o filho mais novo da minha avó que morreu atropelado no auge de Ticket to Ride.
Curiosamente, na mesma data de hoje em 1969, John Lennon se casou com Yoko Ono no território britânico de Gibraltar. Aos olhos de “todo” beatlemaníaco, ela seria a grande vilã da separação da banda e por isso condenada a eterna expiação de seus pecados. Já não parto desse pressuposto. Quem conhece a história do quarteto a fundo, sabe que o fim dos Beatles seria inevitável com ou sem Yoko. Tudo bem, ela pode ter antecipado um pouquinho, mas foi o descomunal amor da vida de John Lennon. As loucuras que esse cara fazia com ela eram inimagináveis. A canção The Ballad of John and Yoko narra esses momentos dos dois, que mais pareciam uma brincadeira com o mundo. Não sei se isso é babaquice de fã, mas se meu ídolo está feliz, devo embarcar junto na felicidade dele. E a contrapartida se mostrou significativa com uma década de memoráveis composições em sua carreira solo.
Mas 20 de março também costuma ser o dia do equinócio de outono no hemisfério sul. E a partir de amanhã, na astrologia, o sol entra no signo de áries e o ano astrológico tem início. Áries tem como elemento o fogo e entre suas características, a coragem, o pioneirismo, o entusiasmo, e também a impaciência, a impulsividade e a raiva. Bem, e eu sou ariano. Então o sol entra na minha casa a partir de amanhã e todas as minhas manifestações estarão mais acentuadas, ou não, não domino a lógica da astrologia. Mas aprendi pesquisando que áries é regido por Marte, planeta que tem o poder da conquista e da busca pela realização pessoal. Uma dica para investir nesse território? Um ariano que cruzou meu caminho em dois momentos foi Junior Lima. Na infância e adolescência ao embalar minhas aventuras ao lado de sua irmã Sandy, quando ainda não era devassa, e ano passado ao ler um texto meu no Celeiro sobre o seriado da dupla e indicá-lo em seu Twitter. Meu blog ficou mais popular que o clipe de Stefhany Absoluta. Com a diferença que continuei a pé.
Quem quase nasce ariano também é o autor de novelas Manoel Carlos. Mais uma semana e ele herdaria todo o temperamento impulsivo dessa espécie. O que talvez interferisse na construção de suas Helenas e de suas narrativas cheias de sensibilidade e romantismo, palavra-chave no pisciano. Mas seguindo os acontecimentos de 20 de março que marcam a data da minha centésima postagem, em 1815 Napoleão entrou em Paris depois de escapar de seu exílio na ilha de Elba dando início ao Governo dos Cem Dias; Albert Einstein publicou sua teria geral da relatividade em 1916; os EUA iniciaram a invasão ao Iraque em 2003; e em 2006 o Museu da Língua Portuguesa foi inaugurado na Estação da Luz em São Paulo. Tudo isso não tem nada a ver comigo, nem com o Celeiro, mas achei que se encaixaria no contexto de alguma forma. Afinal, aqui tem espaço suficiente para tantas proezas, que não estaria ainda nem próximo de encerrar o primeiro ato. Tenho bastante disposição para escrever e muitos delírios ainda na alma que precisam se transformar em palavras e ideias absurdas. Que maravilha um ser pensante e a loucura de se julgar normal em meio a lucidez da insanidade. E aí quem sabe o Celeiro seguirá uma outra profecia e será imenso do tamanho do amor que um dia alguém ousou sentir por mim.
7 de abril de 2011
Um aniversário
Um flash de vida nunca se esvai das entranhas de um coração
Nem lembro como acordei. Só me recordo dos preparativos. Das minhas primas Agda, Ana Carla, Larissa, Pollyana e Andréa circularem pela casa. De sentarmos na calçada inclinada da garagem com o portão aberto. Ah, o portão! Ele nunca era aberto. Não havia carro e sempre entrávamos pelo portão menor. Deixá-lo totalmente aberto como naquele dia era uma completa realização. Era como se nossa casa passasse a ser uma extensão da rua, onde não havia limites. Na cozinha um entra e sai. Muita gente ocupada correndo de um lado pro outro. O cheiro de doce atiçava o paladar. Tentava surrupiar algum, mas tinha aquelas mulheres também que eu não conhecia, e ficava envergonhado. Na sala outras pessoas enchiam bexigas. Vez por outra se ouvia o pipocar de alguma e o riso de alguém. Minha mãe sempre aparecia pedindo para terem cuidado. Ela estava realmente agitada com todo aquele movimento na casa, a cabeça em tantos convidados e sempre a suspeita que não haveria comida suficiente para todos. Eu apenas observava todo o ambiente e tentava me divertir com tantas pessoas se dedicando em tornar aquele dia inesquecível em minha vida.
Quando a tarde se fez presente, eu já estava pronto. Roupa feita na costureira da minha mãe. Uma camisa quadriculada de vermelho e branco com um colete e uma bermuda jeans. Minha mãe também havia preparado algo especial para ela. Um short marrom da moda de cintura alta acompanhado de um cinto, uma blusa de cetim rosa e para completar, um colar estilo idade da pedra que descia até os seios. Saí do quarto e circulei pela sala, agora toda decorada com balões. Na parede atrás da mesa, um isopor em formato de casa com a frase: “Uma tarde no circo com Samuel e amigos”. Nem preciso dizer que o bolo era um palhaço. O nariz vermelho e redondo saltando para cima. Parecia delicioso! O rapaz encarregado de filmar o evento em VHS já se fazia presente, assim como os vizinhos mais chegados e boa parte da família. Afinal, meus tios e primos tinham vindo à cidade só para me prestigiar. Na área de entrada ficou uma caixa grande onde eu colocaria os presentes, e claro, na parede outro palhaço com a cabeça enorme de isopor e os braços e pernas feitos de bexigas.
Aos poucos a casa foi se enchendo. Os convidados me olhavam sem parar e isso começou a me preocupar. Não sabia mais para onde olhar e aos poucos já nem sabia como caminhar. Parece que roubavam cada expressão minha toda vez que me observavam. Finalmente minha avó chegou. Me abraçou, me beijou e ali em seus braços me senti seguro e protegido. Com ela chegaram também meu tio e minha prima Agda, que trazia o presente da minha tia Auxiliadora. Eu sabia de antemão que ela me daria um robô preto de meio metro que andava e mexia as mãos. Agarrei o pacote e, apesar da ansiedade, coloquei na caixa, queria saboreá-lo sozinho depois. Um carro então estaciona lá fora, e dele sai pacientemente um homem de calça jeans, camisa branca e cabelo grisalho. Sua entrada desvia os olhares dos convidados sobre mim. Ao menos até ele se aproximar, passar a mão no meu cabelo sorrindo e proferir sua saudação: “diga, comandante”.
Meu pai era um militar do exército aposentado. Em seu ofício, percorrera o país partindo também o coração de muitas jovens. Não era seu primeiro filho e nem seria o último, assim como minha mãe não detinha o título de exclusividade. Aliás, estavam separados há quase dois anos. Com essa situação perdi a relação de intimidade, e uma onda de medo e responsabilidade assolavam meu ser, inconscientemente, sempre que o via. Meu pai era dado a mágico também nas horas vagas, e numa festa com o tema circo, sua mesa já estava posta e o picadeiro armado. Todo mundo se apertava para ver o grande mágico Seledon. A área ficou lotada. Gente em pé, gente sentada. Várias crianças com olhares curiosos agarrados ao portão do lado de fora. E eu? Bom, eu fiquei meio que escondido entre as pessoas. Tinha medo dele querer realizar alguma mágica com o aniversariante. Me fazer urinar ou botar ovo em cena como fez com um menino. Não. Naquela hora eu queria ser mais um simples convidado do que qualquer anfitrião.
Inexplicavelmente, gostava de estar em cena, de estar em evidência em um palco. E basta rebobinar um pouquinho a fita antes do show de mágicas do meu pai, para me encontrar dançando lambada na sala com minha prima Agda aos olhares atônitos de todos. Sim. É verdade. Minha prima cinco anos mais velha aprendeu a dança “proibida” do Kaoma e resolveu que precisava de um par para praticar em casa. E lá estava eu, dançando no meio da minha festa de aniversário. E mesmo com a expressão fechada, não de raiva, mas de insegurança, ainda dancei com outra colega da escola, essa da minha idade, e a cozinha literalmente fez um break. Foram todos assistir o desempenho daquelas duas crianças ousando ser gente grande. Minha avó olhava fascinada. Minha mãe direcionou toda sua agitação naquela cena, focou e congelou por alguns minutos. Nem eu sabia por que impulso estava levando à praça um hábito corriqueiro da infância. Talvez um anseio de me mostrar capaz de algo que poucas crianças naquela idade ousariam fazer.
As horas foram passando. A festa ganhando a noite. O time da cozinha dedicado em servir os convidados e certificar que todos estavam providos, e como minha mãe previu, as iguarias começaram a faltar. Mas nada de desespero. Hora de cantar parabéns e cortar o bolo. Todos se reuniram em volta da mesa. Muito barulho. No som Sacrifice de Elton John. Algumas crianças colocavam a cabeça nas lancherinhas para ver o que tinha dentro. Colocaram um banquinho para que eu ficasse numa altura razoável. Eu observava tudo esperando que alguém me dissesse o próximo comando. De repente o disparo e todos cantavam e batiam palmas sorridentes para mim. Naquela hora não sabia o que fazer. Me perdi completamente. Batia palmas junto com todo mundo ou só ficava olhando aquela celebração? Ninguém me passou a informação. Então sorrateiramente do impulso de bater palma, fui escorregando as mãos devagar até elas congelarem na altura da cintura. Olhos esbugalhados. Parecia que eu é que seria devorado ao final ao invés do bolo. E quando a cantiga cessou, veio o pior. Tive que apagar a vela. Foram três tentativas, várias vozes me encorajando, meu pai me pedindo força e só aí a chama evaporou. Mas nem fui eu o responsável. Um menino, provavelmente impaciente com a situação e louco pelos docinhos, se antecipou e contribuiu com seu sopro.
Desfeita as formalidades, todos foram se dissipando e as crianças formando filas para receberem as lembrancinhas, enquanto a sessão de fotos tinha início em frente ao bolo. Bateram uma fotografia minha com minha avó e depois a família toda queria uma foto exclusiva com ela. Em seguida minha mãe mandou chamar meu pai para a foto da família. Embora separados, ela ainda nutria uma remota esperança de reconciliação. Nos preparavam para o flash quando só então reparei que a vela de 6 anos do bolo estava voltada para mim e não para os convidados, como seria o correto. Com essa constatação, olhei para a câmera e a cena foi registrada. A mesma foto que agora olho aqui sobre a escrivaninha do meu apartamento e que todos os dias me encara com desafio. Faz exatos 20 anos. Minha mãe não voltou mais com meu pai. Ele teve outra família, outros filhos e hoje já nem se encontra mais entre nós. Eu fui crescendo, tentando superar os fantasmas da insegurança, encarar o mundo sem medo de falhar, embora aqui acolá busque nas fobias e inocência daquele garotinho a grande razão de continuar seguindo sempre. Encontro naquelas raízes o fruto do cara de 26 anos que me torno hoje.
11 de maio de 2011
Impressões
E aquelas tardes tinham um sabor especial, eram verdadeiras reuniões invioláveis. Entre a diversão e o compromisso, amizades despontavam e descobertas prazerosas emergiam para um mundo ainda inexplorável de pré-adolescentes. Os encontros eram sempre no meu quarto. Os móveis eram afastados, a galera se espalhava pelo chão, o toca-fitas era ligado e pela sequência gravada na fita K-7 começávamos a nos apresentar. Em meio à garotada, minha mãe, que na função de produtora mais parecia outra criança. Geralmente esse período de ensaio durava apenas uma semana antes da apresentação. Tempo relativamente curto para assimilar passos, trejeitos e a própria música dos artistas escolhidos, mas não estávamos tão preocupados em acertar todas as coreografias, e sim em acreditar que éramos aqueles cantores e dançarinos famosos. Não importava se seria uma Déborah Blando morena, uma Sandy loira ou um Jacaré branco desde que a dedicação e a intenção fossem as melhores.
E dedicação se encontrava mesmo no capricho dos convites feitos à mão, em pedacinhos de cartolina, e entregues de porta em porta entre os vizinhos e amigos próximos; e até na confecção do figurino, normalmente uma reprodução meio pirata de algum modelo de roupa famosa, só que em tecido bem mais modesto. As especulações sobre os números a ser apresentados aguçavam a curiosidade de algumas crianças que se debruçavam sobre a janela do meu quarto nos horários dos ensaios, a fim de conferir em primeira mão o que estávamos preparando dessa vez. Sempre após os encontros no início da noite, saíamos todos juntos conversando em grande empolgação até a prefeitura da cidade, de onde cada um tomava seu rumo até nos reunirmos de novo no dia seguinte. Eu me dirigia habitualmente à casa da minha avó, onde quase sempre jantava miojo feito por mim mesmo, que à época era um grande achado da culinária infantil. De algum modo me sentia responsável, vivo, senhor do meu caminho. Era o garoto que trabalhava em algo produtivo e ainda preparava seu próprio alimento. Não era pouca coisa.
Quando o grande dia finalmente chegava, eu despertava com os primeiros sinais de luz a fim de não perder um segundo sequer as emoções que aquela ocasião proporcionava. E o dia era realmente cheio. Primeiro tínhamos que decorar a área de entrada de nossa casa. Uma cortina grande cobria toda a parede onde ficava a porta e alguns balões eram colocados em torno do ambiente. Inquieto para estar ocupado em alguma tarefa, olhava agitado todos que se ocupavam no único ofício que não conseguia realizar, encher aquelas bexigas com ar. Era ridículo, parece que só conseguia soprar pra dentro. Mas não ficaria desocupado por muito tempo, era hora de recolher o máximo de cadeiras entre os vizinhos para os convidados sentarem. E com minha sede de parecer útil, nunca deixava de ir buscar assento nos lugares mais distantes, como a casa da minha avó. E lá seguia eu atravessando a cidade num domingo ensolarado com uma cadeira de fitilho vermelha contra o peito e um sorriso no rosto.
Como em qualquer evento, alguns imprevistos estão sujeitos a acontecer. E me lembro de uma vez que faltou energia na cidade na manhã de uma apresentação. Falta de energia em cidade pequena é sempre um transtorno, nunca se sabe quando a força vai voltar, e quando inesperadamente chega não há quem não fique sabendo com a ovação de um grande gol pelas ruas. Pois desde que sem energia, sem espetáculo, uma vez que sem energia não há som, e sem som não há apresentação. Inconformado com a ideia de ver o grande dia vir abaixo, precisava encontrar alguma solução. Decidi que usaríamos pilhas no meu aparelho de som pequeno, mas onde encontrar pilhas grandes no comércio fechado de domingo? Depois de fuçar todos os buracos abertos da cidade, acabei encontrando, mas o volume do aparelho não se mostrou muito satisfatório para a realização do evento. Fiquei matutando, como encontrar uma solução possível? De onde arrancar energia? Sol? Gerador da igreja? Por que não? Não foi preciso tanto. Perdido em meus raciocínios escutei aquela ovação. Estava salvo.
Tomar banho, separar os figurinos pela ordem de apresentação, esperar os convidados, tudo era um ritual seguido com a maior satisfação. As meninas ficavam no meu quarto e os meninos faziam de camarim o quarto da minha mãe. Quando a nossa apresentadora chegava (minha ex-professora de alfabetização), eu lhe passava a lista com os números a ser exibidos. Em pouco tempo a área estava tomada por vizinhos e curiosos que passavam. Sentada sempre na primeira fila, minha avó, que nunca perdia a oportunidade de ver o neto em ação. E enfim começava. O corre-corre era grande na troca de roupa após uma apresentação. Eu com um olho no controle do som, o outro na área e ainda atento aos meus horários de entrar e mudar o figurino. A sensação de conquista ao final se misturava com vazio. Meta cumprida e não mais músicas, tardes animadas, caminhadas até a prefeitura, miojo com sabor de compromisso. Lamentavelmente tudo acaba, mas esses momentos já morriam um pouquinho no silêncio da noite vazia de um dia tão fervilhante de vida.
16 de junho de 2011
Nas alturas
Ela estava ali diante de mim, como sempre esteve. Mas dessa vez algo novo se fazia presente. Algo vivo, interno, pulsante, mais psíquico do que físico. Eu acompanhava a fila e sentia a hora se aproximar. Apesar de alguma insegurança, não titubeei novamente; entreguei o bilhete e sentei na cadeira reservada a mim. Preso ali, comecei a perceber nos primeiros movimentos, por que aquele lugar sempre foi sinônimo de apreensão em minha vida. Desde criança quando os parques de diversões chegavam à cidade para a festa do padroeiro, comumente evitava os brinquedos perigosos que envolviam velocidade e altura. Era bem mais seguro ficar rodando em um cavalinho colorido do carrossel ou nos aviõezinhos a um metro do chão. Mas de longe a primeira imagem que se tinha do parque era dela, suntuosa, imponente, soberana entre todos, a roda-gigante. Era inevitável não olhá-la. Ficava atônito com tamanha engrenagem girando com tanta precisão, e mais perplexo ainda com as pessoas que se dispunham a girar naquelas altitudes. Ah, aí estava a razão.
Não sei necessariamente quando percebi que algum medo de altura havia em mim. Mas a cada novo degrau uma falta de equilíbrio maior. A gravidade dizia que meu lugar era a terra firme, o céu era para os pássaros. O medo era real e se mostrava evidente nas minhas opções no parque, e pode ter se somado posteriormente a uma labirintite que só complicou ainda mais a estabilidade no ar. Lembro de uma única vez que tentei desafiar esse medo, era o último dia do parque e depois de tanto ouvir as declarações entusiasmadas de meus amigos, fui convencido a embarcar no Twist, uma espécie de carrossel de cadeiras numa modulação bem mais acelerada e que subia durante o passeio formando um ângulo de quase 90 graus. Não sei a que sensação eles se referiam, porque a única que senti foi desespero agarrado ao cabo de sustentação, vendo a qualquer momento a cadeira ou o meu sapato voar até os fundos da rodoviária. Aturdido entre os gritos de euforia e as imagens do parque, que haviam se transformado em vultos, não fazia ideia se a altura ou a falta de estabilidade era a pior impressão.
Contudo, apesar de toda essa insatisfação, a altitude sempre me instigou. Mais novo queria ser astronauta, acho que não visualizava a viagem, apenas o desenho do planeta de cima. Mantinha ainda uma relação de cumplicidade com o super-homem, que voava. Gostava também de subir nas escadas da caixa d’água da casa de minha avó, apesar de todos os alertas da família. E quando morei em um prédio de dez andares em Natal, o meu passatempo predileto era subir no telhado à noite e olhar a cidade. Absurda contradição. Mas quem falou também que temos que ser tão lógicos? Acredito que o meu medo estava ligado ao domínio. Se o lugar era alto, mas me permitia ter o controle da situação, então era divertido, do contrário: “mainhaaaa!” Hoje avalio como um medo saudável. Todos têm medo de alguma situação aparentemente fora de controle. Algo semelhante ao medo de fantasmas. Eu, como a maioria das crianças, ficava assustado ao ouvir histórias de assombração, embora sempre insistisse em escutar, deixando o medo para me perturbar depois embaixo dos lençóis.
Talvez por essas contradições eu tenha ficado receoso do desafio de encarar uma roda-gigante pela primeira vez aos 24 anos. Mas eu havia decidido superar esse trauma de infância e fui um dos primeiros a incentivar o passeio no majestoso círculo. Bateu aquele friozinho na subida, a sensação de cair no nada durante as descidas, um esforço tremendo para manter o foco em algo e não perder o eixo, e no final ao olhar para ela novamente, achei imensamente maior do que antes e me julguei um insano por ter girado naquela altura. Ah, mas a sede de um parque estava apenas começando. Para ressarcir a ausência dele em todos os anos perdidos, fui em carrinhos, aviõezinhos, trem fantasma, e me arrisquei a ir em uma mini montanha-russa, depois de uma roda-gigante aquele trilhinho era fichinha. Basta informar que na saída perdi um pouco da coordenação motora das pernas, depois de acreditar que iria despencar do vagão em cada descida. Com esses testes de adrenalina, achei melhor não arriscar a barca viking e muito menos o tal do Samba, rodando sem parar. Ainda surgiu um convite pra repetir a roda-gigante. Não, pensando bem, outro dia, quem sabe.
Novamente não sei se o medo ou a falta de estabilidade provocando uma ânsia de vômito era a sensação que dominava ao final da experiência. Contudo, penso que foi propício o resultado alcançado. Embora não tenha superado completamente esse medo, consegui reverter uma situação que me incomodava desde a infância. Ao olhar uma roda-gigante agora, eu lembro que já estive ali. Penso que é importante o desbloqueio de qualquer mecanismo que trave o nosso progresso. O medo em demasia congela o ser humano e o impede de viver livremente. Uma fobia vai levando a outra e do nada estamos encurralados em uma cerca de pânicos. A altura passa longe de ser o meu maior medo na vida, temo muito mais alguma doença grave, que me leva a temer determinados comportamentos para evitar ter alguma, então fico condicionado ao limite que esse medo me reserva na vida. Por isso, é bom correr riscos algumas vezes, pular de para-quedas, fazer rapel (ainda faço um dia ), saltar no nada. Voar simplesmente sem se preocupar a que altura está do chão. Enfrentar os medos é cruzar os limites, ir além de onde acreditamos ser capaz e tornar o inimaginável, factível.
2 de julho de 2011
Lembrete
Como identificar os sinais que a vida nos dá? Não é normal... uma leveza no corpo, ou seria um peso? Não sei como descrever ao certo, algo semelhante ao estado de alguém que fez uso de tranquilizante para dormir, mas numa hora improvável. Não havia tomado nada ainda. Era cedo, queria assistir a novela das nove. Mas cedi ao descanso e em pouco tempo estava dormindo. Acordei duas horas depois. Como perdi a novela, continuei a assistir a segunda parte do episódio da série Ghost Whisperer que tenho acompanhado online. O seriado americano sobre a vida de uma mulher que consegue manter contato com espíritos presos à Terra. Cada dia me fascina mais desvendar os mistérios da vida na lógica espírita. Só lembrar que cheguei a essa série através do livro do co-produtor executivo e médium James Van Praagh.
Exatamente à meia-noite meus olhos foram atraídos pelo relógio digital do computador. Pouco tempo depois me vi escrevendo em uma comunidade no orkut sobre um rapaz que morreu recentemente. Seus amigos criaram uma comunidade, e na descrição falava-se sobre a sobrevivência da amizade entre as intempéries da vida. Senti que devia escrever algo, já que sei o que é ver amigos ir pra longe, sem deixar de ser o que sempre foram. Até aqui tudo não fazia muito sentido, até eu conferir a data das postagens dos fóruns: 02 de julho. A ficha caiu! Cinco anos da morte de meu pai.
Não posso dizer que tudo o que aconteceu foi interferência dele, mas preciso admitir que fiquei surpreso quando constatei que era realmente o dia. Diferente da minha mãe, não sou muito ligado em datas, e havia esquecido completamente. Seria ele, de certa forma, querendo me lembrar? E sim, por quê? Já parei em muitas oportunidades para pensar sobre o destino do meu avô, da minha tia e do meu pai. Será que encontraram logo a luz? Será que me ajudaram todas as vezes que pedi proteção antes de subir em um palco? Ou será que eles é que precisam da minha oração? Já os senti distantes, próximos, mas ainda não tive essa certeza.
É inebriante a sensação de imaginar um mundo invisível a nossa volta, capaz de nos influenciar tanto para o bem como para o mal. Sempre senti uma ligação muito íntima com o espiritual desde criança. As histórias de alma penada me assustavam, e despertavam minha curiosidade. No fundo queria ser médium. As missas de domingo na igreja nunca tiveram um sentido místico de verdade. Jamais fui a uma com o intuito de alimentar a alma, como nos encontros nos centros espíritas. Uma hora ou outra nossa alma procura o seu equilíbrio. Hoje as histórias de fantasmas não me assustam mais, e ficaria muito feliz se descobrisse, em mais alguns anos, que teria mesmo a capacidade de me comunicar com os mortos. Sei que é um trabalho difícil, porque na falta de preparo, espíritos perturbados podem interferir negativamente em nossa vida, contudo, era algo que gostaria de arriscar, já que isso é o que mais tem me movido nos últimos tempos. Penso que traria um grande alívio a minha alma irrequieta. Tudo faz tão mais sentido.
Não sei se consegui captar a mensagem que recebi do meu pai essa noite. Se é que foi uma mensagem, e se é que foi dele. Mas tenho absoluta certeza que alguma comunicação se estabeleceu aqui. Não acredito em coincidências. Elas existem pela ajuda de alguém. Se foi realmente meu pai querendo que eu me lembrasse dele, ou simplesmente sua maneira de se mostrar presente em minha vida, então a intenção foi alcançada, porque direcionei meus pensamentos a ele e vim escrever aqui, depois de alguns dias sem “inspiração”. Vim celebrar a maravilha da perpetuidade da vida e a graça de poder sentir a presença dos que se foram através de caminhos que só a alma pode compreender.
25 de outubro de 2011
Pragmatizando...!?
Por muito tempo fui perseguido pela palavra ‘pragmático’. Esbarrava com ela sem nunca entender completamente o significado de alguém pragmático, mesmo consultando dicionários, fóruns yahoo e todo tipo de ‘pédias’. Talvez porque eu nunca tenha sido uma pessoa pragmática. Minha vida foi alimentada de ideologias nada práticas. Uma amiga sempre me dizia que dava a solução e eu arranjava o problema. Eu gostava de acreditar em um ideal de felicidade e não abdicava de viver essa fantasia. Mas quem sonha demais em um mundo que valoriza a praticidade, parece estar sujeito a virar sonâmbulo na sociedade. Idealizar a vida é uma tarefa válida, é acreditar nas possibilidades de mudança do mundo, permitir ser romântico, cafona, piegas! Mas sonhar, sonhar... querer, querer não basta. Sem um pouco de agilidade parece que nada sai do abstrato e entra no concreto.
Fazendo uma análise das pessoas ao meu redor, depois que consegui desvendar o mistério por trás dessa palavra, descobri que sempre tive um exemplo clássico de alguém assim. A palavra que me seguia pelas esquinas estava dentro da minha própria família sintetizado na figura da minha tia Auxiliadora. Se alguém pode exemplificar o que é o pragmatismo é ela. Posso fazer um mau julgamento, mas tenho a impressão de que ela nunca se agarrou em nenhuma nuvem. Claro, ela até pode ter suas fantasias, mas nunca deixou que elas fossem a sua vida. Praticidade é com ela mesmo! Não me vem à mente nenhuma ocasião em que ela não tenha chegado a solução de algum problema com o qual se deparou. É a verdadeira desatadora dos nós, simplesmente porque onde vemos um grande obstáculo através da neblina das nossas ilusões, ela vê o prático, o ágil e o possível.
Mas não é uma tarefa fácil abandonar as convicções adquiridas ao longo dos anos para se entregar à praticidade. Afinal, se os sonhos nos movem, como deixá-los de lado em nome de uma vida mais prática? Será que todas as pessoas idealistas virão a se tornar pragmáticas algum dia? Se é um caminho para tornar a vida mais fácil, perde-se um pouco o sentido do ser, já que uma saída prática quase nunca é a que idealizamos. E o que fazer? Frustrar-se com o mundo diante da impossibilidade das conquistas ou aceitar a solução paliativa sugerida? A vida nos força a ser pragmáticos. Diariamente situações nos obrigam a deixar de lado certos anseios e nos conformar com o que pode ser oferecido. O conformismo e o comodismo são outras armadilhas que nos distanciam ainda mais do ideal. Em um dia tenho total confiança em mim e quero desafiar o mundo, no dia seguinte o mundo parece um rival grande demais, e um buraquinho é o melhor local para se abrigar.
Provavelmente se tivesse sido uma pessoa pragmática, teria feito uma faculdade visando unicamente o mercado de trabalho e o dinheiro no bolso. O idealista, pois, cria o seu mundo ideal e segue pelos mais diversos caminhos para chegar nele, sem a garantia que um dia chegará, ao passo que o prático enxerga as garantias futuras e a estabilidade financeira e batalha por isso. Mas não sei se seria melhor ter uma vida prática, que a meu ver parece uma vida sem muito brilho ou felicidade alguma. É como se quem partisse para uma “faculdade prática” fosse desprovido de vocação e enxergasse no dinheiro o único caminho do sucesso. Então o que fazer hoje? Continuar insistindo nas possibilidades incertas daquilo que idealizo ou partir para algo útil, rápido e seguro, abandonando todo aquele universo imaginário? Às vezes, sonhar demais cansa, e um atalho pelo caminho surge quase como um oásis em um deserto tão infértil de realizações, infelizmente.
11 de novembro de 2011
Por que não suporto canto de galo
Diferente do latido do cachorro, que incomoda simplesmente pelo barulho, o canto do galo traz uma melancolia, um descontentamento, um presságio fúnebre. Talvez porque o galo já vá dormir anunciando o despertar. E a sua pressa me incomoda. Quem mora perto de algum entende o que eu falo. Parece que ele passa a madrugada inteira avisando que o dia vai amanhecer, só que ainda não amanheceu, então por que ele não cala o bico e vai dormir? Quem sofre de insônia ver o dia se aproximar a cada canto. É um pesadelo!
Me lembro quando ainda criança, de acordar pelas três ou quatro horas da madrugada pra viajar para a cidade vizinha. O ônibus saía muito cedo porque seu destino final era a cidade de Mossoró, 4h de distância, então era preciso chegar o quanto antes na parada. Essas viagens para a casa da minha tia eram sempre uma festa, mesmo que o motivo fosse uma consulta médica ou um exame, afinal, o encontro com as primas era farra garantida. Porém, levantar cedo e se preparar para a viagem ainda era uma tortura. Entre luzes acesas, sonolência e lençóis sendo puxados, aquela cantoria infernal rompendo a madrugada: o galo!
Além da sensação de estresse por acordar àquela hora, obrigando a pupila a se contrair a cada piscada em contato com a luz do quarto, ainda era forçado a escutar aquela ave avisando que o dia não tardava a chegar, embora não tivesse chegado ainda. Na parada esquecida por todos, menos pelos galos, minha mãe, minha avó e eu aguardávamos de braços cruzados o ônibus passar. Esses minutos eram os mais tediosos. Podia sentir no ar o desconforto daquela espera. O frio, o sono, os olhos puxados, a impaciência, tudo pedia para que aquele momento passasse logo. E como demorava!
Alguns anos mais tarde, voltei a madrugar toda semana quando passei a morar na casa dos meus tios para estudar. Novamente o mesmo estresse pra levantar, a sensação de vazio, o desejo de ficar, a obrigação de ir... e o velho galo nos ouvidos. O frio, o silêncio e o aperto na estrada invadiam minha mente. A esperança de um dia não ser mais necessário repetir aquela viagem se somava aos conselhos do meu avô de que tudo na vida tem seu propósito. Isso tudo enquanto tentava mover algum membro do meu corpo de lugar, antes que ficasse dormente.
Inevitavelmente, tive que repetir muitas vezes aquela viagem, não só enquanto morei na casa dos meus tios, como depois ao fazer faculdade. Devido a contramão entre a minha cidade e Campina Grande onde estudava, o único horário disponível para pegar todas as conduções até lá era saindo de madrugada. Não havia alternativa. Com o celular pra despertar, encostava a cabeça no travesseiro e logo estava de pé, só não dava pra ter certeza se o que me acordava era mesmo o alarme ou o canto do bendito galo.
Hoje estou de certo modo livre dessa jornada, mas não totalmente livre do chefe do galinheiro. Toda noite antes mesmo que a madrugada tenha início, lá o escuto entoando seu canto de superioridade, ainda bem que os cachorros urinam ao invés de uivar pra demarcar território. Há quem aprecie uma boa sinfonia de galo, quem relembre seus tempos no mato, no sítio ou na fazenda, mas no meu caso essa cantoria sempre foi constante, e acreditem, por mais lembranças boas que possam trazer, todo dia não há quem aguente.
Posso estar sendo rigoroso demais com nosso amigo tenor, contudo, não posso desassociar seu canto dos momentos de insatisfação que vivi. Ele estava lá, e inconscientemente, toda a melancolia daqueles dias retorna ao seu sinal. A noite perde um pouco sua extensão, já que aquele que só deveria entrar em cena ao nascer do sol, fica a madrugada inteira ensaiando. E olha que nem estou considerando a crendice de que canto de galo fora de hora é indício de má sorte. Até porque se assim o fosse, ele já estaria extinto.
22 de novembro de 2011
Marlon e a bola
Escutava Fagner na sala com minha mãe. Marlon corria pra lá e pra cá com sua bolinha de desodorante roll-on, seu objeto sagrado. Vez por outra, minha mãe chamava sua atenção para ele tirar a bola de perto dos móveis, antes que ela rolasse pra baixo de algum. Quando isso acontecia, ele traçava em sua cabeça todas as estratégias possíveis para retirá-la de lá, e em última alternativa, quando sentia que não seria capaz de fazê-lo, suplicava nossa ajuda da única maneira que conhecia: latindo! E nesse dia não seria diferente. Em pouco tempo o vimos com o focinho encostado no canto da estante e a bunda pra cima, em sua típica posição de herói farejador. Como percebemos que seria impossível ele retirar a bola dali, começamos a contar quanto tempo demoraria até ele pedir ajuda. Não deu outra! Começou com um pequeno grunhido, um chorinho, em seguida olhou para a gente e latiu. Era o sinal. Sua salvação dependia de nós. Minha mãe foi até lá e retirou sua bolinha.
Contudo, como já era de se esperar, pouco tempo depois, já estava ele de novo, focinho no chão e bunda pra cima. Só que dessa vez ele conseguiu a proeza de fazer a bola entrar em umas das cavidades externas da caixa de som. Meu aparelho de som é daqueles antigos, cujas caixas são bem maiores e separadas do conjunto. Ainda tem toca-discos nele. Uma raridade! Brinco com meu primo de 13 anos que ele tem a idade do meu aparelho. E claro que com as caixas no chão, era de se admirar que Marlon ainda não tivesse inserido a bola lá. Mas o dia chegou! Minha mãe ainda foi lá, procurou por trás da estante imaginando que estivesse por ali, mas nada. A direção do focinho dele só indicava um lugar, a bola estava dentro da caixa. E foi o que constatei quando cheguei lá. Conseguia até tocar nela, sentia correr de um lado a outro, mas era praticamente impossível retirá-la de lá. “Esqueça, Marlon! Essa bolinha você perdeu!”.
Marlon, no entanto, não iria abrir mão de seu objeto precioso assim de cara. Fincou raiz ao pé da caixa e ali ficou. Não adiantava chamá-lo ou tentar fazer esquecê-lo. Ele não queria papo! Conseguiria sua bolinha a qualquer custo. Não tardou muito e começaram os latidos, os choramingados, uma pata forçando inutilmente o buraco, outra arranhando a tela. Minha avó encontrou a outra bolinha dele e antes de entregar, eu tentei subestimar a inteligência canina. Peguei a bola, coloquei no bolso, fui até a caixa, fingi que estava tentando retirar a outra, passei secretamente aquela entre minhas mãos e mostrei a Marlon como se fosse a que estava presa. Ele começou a pular de alegria, eu joguei então a bola no chão e ele correu até ela. Pronto! Problema resolvido! Foi o que pensei. Não deu dois segundos, Marlon cheirou a bola e olhou para mim, esperando que eu lhe entregasse a bola verdadeira. Como percebeu que eu não a tinha, voltou a seu lugar em frente a caixa e lá deitou.
Seu tormento continuou ainda ao longo da tarde. Todo mundo saía da sala e ele continuava lá. Se por acaso saísse para beber água ou lambiscar sua ração logo estava de volta. Quando alguém passava, ele olhava suplicante e latia. Mas não havia como retirar a bola dali. Joguei várias vezes a outra bolinha contra o chão, na tentativa de animá-lo a correr atrás, sem sucesso. Impaciente com a insistência de Marlon em obter aquela bendita bola, fiz minha última tentativa. Desconectei os fios do aparelho de som, retirei a caixa do local, enfiei os dedos na abertura do buraco e balancei a caixa até sentir a bola rolando em torno da saída. A manobra durou alguns segundos, até que em uma das voltas, a bolinha passou pela cavidade, encontrou meus dedos e mergulhou saindo. Meu sorriso não era de vitória, ao menos não minha. Marlon era quem verdadeiramente tinha conseguido retirar a bola através da sua eterna dedicação, afinal, na sua esperteza canina, o que entrou devia sair. Soltei a bola no chão, ele agarrou apressadamente e saiu desfilando com seu troféu na boca.
26 de fevereiro de 2012
Meu jardim botânico
Quando todos os benefícios e tecnologias do mundo moderno não conseguem saciar nossa sede interior, só resta pedir auxílio à velha inquilina natureza. Só ela com sua imponente e modéstia paciência consegue acalentar as lamúrias mais íntimas da nossa alma. Nada mais gostoso do que dividir confidências ao pé de uma jaqueira, trocar reminiscências com um ipê amarelo ou mesmo partilhar as horas com um bambu. A natureza nos acolhe na sua majestosa simplicidade para nos lembrar, quiçá, de alguns valores perdidos na humanidade. Foi assim que me senti esses dias ao rever um dos lugares mais exuberantes do Rio de Janeiro. O Jardim Botânico é uma pequena porção do paraíso inserida no coração de uma metrópole. O silêncio, a paz e a quietude só quebrados pelo ruído da água nas fontes e córregos. Um privilégio para poucos. E pensar que toda a costa brasileira já foi um dia assim.
É nessas horas que me reporto aos portugueses quando aqui chegaram. Quando confundiram uma limpa e espetacular baía com a foz de um grande rio. A maravilha da natureza em sua perfeita manifestação. O paraíso particular dos índios. Como o homem foi capaz de devastar tamanha riqueza? Um pequeno passeio pela Estrada da Mata Atlântica, um caminho que contorna uma boa parte do jardim, serpenteando a Floresta da Tijuca, é suficiente para se render por inteiro ao poder da criação. Árvores gigantescas que se perdem à vista, frondosas e protetoras sombras, o solo macio da terra molhada, o ruído das folhas secas, o canto de algum passarinho, o lodo úmido em algumas pedras... me senti isolado do resto do mundo, a dez minutos de Copacabana.
Ali, mergulhado os pensamentos na mais profunda sintonia de espírito, recordei um pequeno jardim que fez história na minha infância. Na casa dos meus tios-avós existia um grande terreno ao fundo e em volta da casa com algumas árvores e plantações. O muro da casa era colado com o da minha avó e não era alto. Meu avô pulava frequentemente por lá para ir tomar café e bater papo com os irmãos. A casa era bem antiga. Paredes largas, chão de barro em alguns cômodos, fogão a lenha, sótão e vários quartos escuros. Tinha um certo medo de entrar lá. Mas esse medo não era empecilho para me afastar da pequena “floresta” que era o jardim do lado direito da casa. Havia muita planta, flores e ervas medicinais lá, divididos em dois ou três corredores. O ambiente era úmido, pois os galhos altos das plantas impediam que a luz solar chegasse até o chão. Apesar de ir pouco, eu adorava aquele lugar. Me sentia numa floresta. Fantasiava histórias e aventuras nas quais eu me perdia, improvisava abrigo, fugia dos animais. Ganhava a imaginação.
Era um ambiente único, incomum a tudo que eu estava acostumado. Infelizmente, minha diversão tinha sempre prazo de validade bastante curto. Meus tios não se mostravam receptivos à minha presença lá, aliás, à de ninguém. Mas criança e jardim era sinal de desastre pra natureza. E parece que eles tinham radar. Eu pulava o muro discretamente, atravessava o terreno em ponta de pés e quando adentrava os primeiros passos no jardim, eles me repreendiam. Algumas vezes fingia sair e me escondia entre algumas plantas. Era quando eles me delatavam ao meu avô, que pacientemente vinha me pedir para não tornar a perturbá-los. Mas o lugar era fascinante demais para abandonar assim. Cheguei a bancar o bom menino com meus tios para ganhar a confiança deles. Ia tomar café à tarde lá, conversava sobre assuntos de interesse de ambos, ganhava elogios, mas apesar do esforço, o jardim permanecia inacessível.
Das poucas lembranças que me restaram dele, ficaram as histórias, o aroma do ambiente, a umidade, o perigo (de ser descoberto), a tranquilidade. Acho que cheguei a brincar de se esconder, uma ou duas vezes, no máximo, com minhas primas. Não mais que isso. O paraíso não poderia ser violado. E apesar das interferências dos meus tios, a pequena floresta acabou abandonada e destruída quando a casa foi vendida. Aparentemente, de nada adiantou tantos cuidados. Mas se eles não preservassem o precioso jardim enquanto estava sob os seus cuidados, ele não seria aquele prodigioso espetáculo da natureza, nem despertaria a minha contemplação. Bom mesmo se mais gente estivesse plantando, cuidando e dedicando um tempinho do dia para a preservação da maior dádiva do planeta. Possibilitando mais jardins e florestas à nossa volta, reaproximando a natureza do homem, reequilibrando o meio ambiente, tornando nosso ar mais puro e estimulando as endorfinas dos sonhos.
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16 de fevereiro de 2009
As energias e suas mensagens
Os “acasos” da vida estão sempre nos indicando o caminho que nos levará a cumprir a nossa missão e continuar a jornada para a nossa evolução. Era mais uma quinta-feira intediante e eu resolvi ir ao shopping para me distrair. Comprei um lanche na praça de alimentação e fui até o cinema ver quais filmes estavam em cartaz, mas não me interessei em assistir nenhum. Caminhei um pouco pela Riachuelo, Lojas Americanas e quando já estava para sair resolvi entrar no Hiper Bompreço. Fui ao departamento de cd e dvd, mas nada me agradava, já ia saindo quando passei pela livraria.
O primeiro livro que peguei nas mãos foi o Almanaque dos Seriados de Paulo Gustavo Pereira, folheei-o por alguns instantes e me dirigi à sessão de livros espíritas. Dei uma volta em torno da estante e reparei em um livro que estava embaixo, num estilo meio rústico. Logo que peguei, olhei a contra-capa e não tive dúvida, era o livro que havia me interessado em comprar uma outra vez. “Até Que a Vida os Separe” de Mônica de Castro, ditado por Leonel, falava sobre troca de energias e abordava o amor e a rejeição de filhos pelos pais. Precisava comprar aquele livro. Peguei-o convicto de levá-lo e continuei olhando os outros, foi quando encontrei uma ótima promoção da escritora Agatha Christie. Três livros por apenas R$ 14,00. Já ouvira falar muito a seu respeito, mas nunca tinha lido nada dela. Achei que seria interessante e levei-os também.
Naquela hora olhei para os últimos lançamentos na outra estante, aqueles livros bem mais importantes que todos devem ler nem que seja um na vida e me senti meio idiota gastando dinheiro em um livro espírita e outros policiais, quando podia me enriquecer mais culturalmente com aqueles clássicos. Mas mesmo me sentindo mais atrasado fui ao caixa e levei pra casa aqueles quatro novos amigos. Na mesma noite resolvi conhecê-los e comecei pelo espírita. Logo quando percebi já estava dominado pelas emoções dos personagens e mergulhado intensamente naquela história que com certeza me levaria a algum lugar, pois os livros espíritas têm uma particularidade que faz com que cada fato presente no início da história tenha sempre uma explicação e tudo se encaixe no final. Ansiava constantemente para saber onde aquela simples história e aqueles simples personagens iriam chegar.
Cada dia ao chegar em casa, jogava a mochila na cama e já me agarrava no livro querendo saber onde Fabrício, Selena, Adriano e os outros me levariam naquele dia e o que teriam a me dizer. Eu que vinha me entediando nos últimos tempos por ficar sozinho em casa, agora encontrava motivos para querer chegar logo. Eu havia me enganado, mas tinha feito a coisa certa. Os outros livros até podiam ser mais importantes, mas “Até que a vida os separe” estava se mostrando uma grande escolha. Há seis anos li pela primeira vez um livro espírita e comecei a me interessar mais pelos conceitos dessa doutrina. Na época estava quase descrente da existência de Deus e de uma sobrevivência da alma, contudo as idéias que acabava de descobrir me trouxeram novo alento e uma verdadeira crença. Ainda não cheguei a freqüentar nenhum centro espírita, porém, o espiritismo passou a ser mais presente em minha vida que até o levei para o tema de minha monografia. Quando meu pai faleceu comprei “O Livro dos Espíritos” de Allan Kardec e agora seis anos após “Esmeralda” de Zíbia Gasparetto, me encontrava viajando pelas linhas de um romance espírita.
A cada página uma nova descoberta, uma nova curiosidade, um novo mistério, a mesma fé se renovando. Dois dias antes havia escutado da minha amiga Luciene que faltava mais religião na vida de outra amiga. Percebi que faltava na minha também. Mas talvez não religião, mas crença, fé em algo. Ando meio afastado do catolicismo e embora não encontre muitas respostas lá, estava sem fé na minha vida, pois também não havia me dedicado ao espiritismo nos últimos tempos. O livro estava reafirmando a minha crença e me fazendo muito bem. Em alguns momentos me senti extremamente tocado e algumas lágrimas correram pelo meu rosto. Parecia que aqueles personagens existiam realmente e estavam me convidando a adentrar ainda mais pelo universo do espiritismo. Alguma mensagem ou mesmo algo de especial havia naquele livro, mas não sabia o quê.
Foi quando cinco dias após ter começado a leitura, cheguei ao seu fim, fechei o livro e um incontrolável pranto tomou conta de mim. As lágrimas caiam como cachoeiras e uma dor que me roia por dentro parece que obrigava ainda mais as lágrimas a saírem. Não sabia o que estava acontecendo, só queria chorar. Olhava para o livro e sentia mais vontade de mergulhar naquele oceano. Era como se elas estivessem presas em mim por muito tempo e agora conseguiam se libertar. Seja qual tenha sido a mensagem que o livro quis passar, com certeza havia me atingido. Um misto de impotência e poder tomavam conta de mim, poder de transformação, me senti dono do meu destino e paradoxalmente me senti maior ao me imaginar tão insignificante na imensidão do universo.
Alguns minutos depois começava a me controlar com a ajuda da á
gua corrente da pia do banheiro e da água mineral do filtro. Água! Sempre a água. O alívio dos necessitados. De repente me sentia melhor, mais confortante, mais aliviado, como se um grande peso saísse de minhas costas, respirava mais fundo e sentia o ar entrando pelas narinas. Já não era o mesmo. Embora recentemente estivesse mais sensível a determinadas emoções e chorado à bessa assistindo Marley & Eu, eu sabia que aquele livro tinha sido o responsável por aquela inexplicável sensação e que ele não entrou à-toa na minha vida. Não sei aos que não acreditam em espiritismo, mas sinto que alguém me fez comprar o livro naquele dia como injeção de ânimo e uma grande mensagem foi captada inconscientemente pelo meu espírito, assim como acredito que tantas vezes desisti de comprar algo supérfluo por interferência de alguém que me soprou de que eu não o precisava. Como fala o livro, a troca de energia entre nós e os desencarnados é constante e muitas vezes agimos sem nos dar conta que ela existe e que está ali ao nosso lado. Estou agora no primeiro livro de Agatha Christie e até sinto-me atraído por ele, mas a cumplicidade e a harmonia presente na leitura anterior, Agatha que me perdoe, mas só Mônica conseguiu atingir.
20 de outubro de 2010
Além das fronteiras
Quem nunca olhou para o céu e se perguntou o que haveria além daquela imensidão de estrelas? Ontem me vi perplexo diante de uma constatação acerca da existência de vida inteligente em outros planetas. A revista Época divulgou o relatório do exército de 1997 sobre o caso do ET de Varginha. Como consta no documento, o caso mais famoso da presença alienígena no nosso país não passa de mais um mito da população. O que já era de se esperar. As inúmeras histórias sobre OVNIs e ETs no nosso planeta alimentam a fantasia de muitos curiosos e aumenta a pesquisa dos ufólogos em todo o mundo, em busca de captar algum sinal que prove a existência desses seres no nosso solo. Particularmente, não acredito que o planeta Terra já tenha sido visitado por extraterrestres e só não considero o fato uma perda de tempo, por acreditar na existência de vida inteligente em algum ponto fora da nossa galáxia.
Seria bastante difícil alguma espaçonave entrar na nossa atmosfera sem ser detectada pelos radares, satélites ou qualquer agência espacial. E haveria de ser uma espécie extremamente evoluída pra conseguir criar uma nave capaz de transportar tripulantes por tamanhas distâncias pelo universo. Um ufólogo da reportagem do ET de Varginha afirmou que não há nenhum registro científico até hoje que prove a existência de vida fora do nosso planeta. De certa forma, essa afirmação me pegou de súbito. Há tempos que tenho essa possibilidade como algo concreto em minha vida. E longe de acreditar nisso por influência do Superman. É algo simples, basta olhar para o céu e ver a sua imensidade de estrelas. Não dá pra pensar que temos o privilégio de viver no único planeta habitado dentre infinitas galáxias. É apenas uma questão evolutiva até o homem chegar em contato com civilizações de outros globos. A princípio achávamos que o sol girava em torno da Terra, depois o homem atravessou os oceanos e chegou à América, construiu um foguete e alcançou o espaço, a lua e hoje já lança sondas em Marte. Ainda nem conhecemos a nossa galáxia por completo. O próximo passo é só uma consequência.
O interessante quando se fala de vida extraterrestre é a associação que as pessoas fazem a seres bizarros, monstruosos, com superpoderes e que querem destruir o nosso planeta. E o mito chega ao cinema reafirmando ainda mais essas teorias. Em Sinais e ET o Extraterrestre, encontramos seres assustadores, esqueléticos, de olhos grandes, boca e nariz pequenos, e que em Sinais ainda têm medo de água. Em Independence Day e Guerra dos Mundos, os ETs são máquinas ou controlam máquinas superpoderosas que destroem o ser humano em fração de segundo. E por aí seguem vários outros filmes: A Invasão, MIB Homens de Preto, Alien, Tropas Estelares, O Dia em que a Terra Parou, Marte Ataca, Star Wars, Planeta dos Macacos. Em meio a tanta barbárie temos Kal-el de Kripton. Mas não vejo as civilizações extraterrestres com essa sede de matança, pelo contrário, penso que devem ter sociedades organizadas como a nossa, tecnologia similar ou mais ou menos avançada. Aliás, devem existir desde mundos pré-históricos a civilizações altamente industrializadas.
Imaginem por um momento se alguma agência espacial divulgasse ter encontrado vida inteligente fora da Terra. Seria um frenesi. Os olhos da população estariam voltados para o espaço mais do que nunca. A curiosidade em torno dos seres, de como faríamos o contato, a língua local, a amistosidade ou não deles e o receio de expor o nosso planeta ao desconhecido. A nossa missão seria com certeza de paz, de estabelecer contato e conhecer outras fronteiras do espaço. Podemos pensar que eles teriam a mesma reação, mas não poderíamos afirmar, afinal, é um outro mundo distante da nossa realidade. E nesse contato só poderíamos ter a certeza de um fato: o planeta mais evoluído iria querer impor a sua dominação, a menos que estivessem em níveis semelhantes. Contudo, seria tentador imaginar dois planetas vivendo em harmonia, compartilhando conhecimentos, tecnologias, recursos minerais e tendo até viagens e migrações de habitantes para cada planeta. Há também quem acredite que cada esfera do espaço e mesmo os planetas hostis da nossa galáxia sejam habitados por seres de natureza etérea, imperceptíveis aos nossos olhos. Mas aí já entraria no campo da espiritualidade e prefiro deixar os mistérios do universo aos limites do vôo da mente de cada um.
16 de março de 2011
Tráfego transcendental
Sempre me questionei a respeito da existência humana no mundo. Por que eu sou eu e não outra pessoa? O que me faz ser quem sou? Um planeta vagando na imensidão do espaço, com seres pensantes, capazes de construir mundos de novas invenções a cada ciclo e uma sede insaciável pelo desconhecido. Qual nossa influência e verdadeira importância nessa área delimitada à nossa sobrevivência? Como descendente original de uma família católica, ir às missas aos domingos fazia parte das incubências de um praticante devoto do catolicismo, ao menos no compromisso presencial. Porém, esse hábito nunca significou nada além de uma obrigação de minha parte, sem me vincular às crenças que ouvia repetidamente a cada celebração, a ponto de chegar em um estágio de quase ateísmo na adolescência. Essa fase chegou ao fim quando vislumbrei algo “tangível” e concreto, fundamentado na razão e não apenas em crenças infundadas e distorcidas ao longo dos tempos. O espiritismo me abriu as portas para o inexplicável, para o que representamos genuinamente, e o melhor, para os caminhos que enfrentaremos após essa travessia.
Não é minha intenção converter nenhum católico, evangélico, budista, pagão ou ateu ao espiritismo. Quero apenas divagar alguns pensamentos acerca da existência humana e ousar lançar uma fagulha de incerteza na mente de algum leitor. Um dos principais, senão o maior princípio que permeia o espiritismo é a crença na reencarnação da alma. Algo completamente abominado para os cristãos católicos ou protestantes. Ora, muito comodismo usufruir de uma única vida e depois alcançar a salvação divina ou o castigo sepulcral. Uma única vida é pouco para evoluir uma alma e determinar sua posição no “paraíso” ou no “inferno”. Imaginem todas as provas que são necessárias ser alcançadas numa constante evolução espiritual, com tantos aprendizados, conhecimentos que numa única existência seria impossível de se atingir. Por isso o espírito retorna quantas vezes forem necessárias até conseguir se elevar espiritualmente. Escolhendo muitas vezes quais provas deseja se submeter em sua nova jornada.
Alguém já se questionou o que poderia ter sido em uma existência anterior? Sempre há uma intuição que cada um carrega consigo como algo intrínseco sobre o que tenha cometido e que influencia até as determinadas atividades com que tenha familiaridade. Por isso vez por outra tenho conclusões excêntricas e até assustadores sobre o que realizei em outras situações. Já cheguei a pensar que fui um assassino e conheci as prisões de perto, ou que me dediquei a vidas desregradas, ao mesmo tempo em que me sinto ligado a mosteiros e poderia facilmente ter tido uma vida reclusa da sociedade, dedicada às orações e ao jejum. Bom, eu posso não ter a certeza do que fui no passado, mas o pequeno James Leininger, do estado da Louisiana nos EUA, hoje com 12 anos de idade, sabe desde seus 2 anos que o fascínio pelos aviões da Segunda Guerra Mundial não era apenas admiração, mas uma similaridade com os pilotos dos porta-aviões americanos, mais especificamente com o jovem piloto morto em combate em 1945 James M. Huston Jr.
A envolvente e enigmática história contada meticulosamente no livro A Volta, narra a saga alucinada dos pais de James, Bruce e Andrea Leininger, em busca de explicações para os estranhos pesadelos que passaram a fazer parte da rotina da família a partir de maio de 2000, quando a criança ainda contava com seus 2 anos de idade. Acompanhado dos pesadelos que envolviam fortes agitações durante o sono, com chutes e impressionantes gritos de socorro, o garoto passou a descrever com ardilosa precisão detalhes sobre os tipos de aviões que decolavam dos navios de guerra nos anos 40. Recordou o nome do homem, que seria ele mesmo, o qual se debatia em um avião em chamas em seus sonhos, e ainda o nome de um amigo Jack Larsen. Imagens de acidentes aéreos e muita bomba eram constantes entre seus desenhos. E suas lembranças não pararam por aí, mais três amigos foram lembrados e ganharam homenagem em sua coleção de bonecos. Quando questionado pelos pais o porquê de tais nomes, ele saiu com a inesperada resposta: “foram eles que me receberam quando cheguei ao céu”.
Já tinha lido um livro da escritora americana Sarah Hinze, A Vida Antes da Vida, onde ela aborda a experiência de muitas crianças que conseguiam ainda nos primeiros anos recordar suas experiências em vidas passadas, mas nada tão envolvente quanto a narrativa da família Leininger. Aos poucos as peças do quebra-cabeça vão se encaixando, e aquilo que parecia um delírio de início, ganha força e evidências irrefutáveis de que o pequeno James era de fato a reencarnação do falecido piloto de guerra James M. Huston Jr. Em alguns anos de busca incessante, de contato com inúmeros veteranos de guerra e familiares de militares mortos, a família Leininger não havia mais como negar o incontestável. James com sua inocente maturidade, despejava diariamente de maneira natural fatos e informações inadmissíveis para uma criança de sua idade. Ele “reencontrou” a irmã de James Huston Jr, agora uma senhora com mais de 80 anos e a cumplicidade entre os dois era algo inexplicável. “Reviu” seus antigos companheiros de combate, e lamentou estarem tão envelhecidos. Seu caso chegou à TV, e acabou levando-os ao Japão e ao local onde o avião de James Huston havia caído no mar.
O fascinante no livro é mostrar através dos fatos como o espírito de um piloto da Segunda Guerra poderia habitar o corpo de uma criança mais de meia década depois. A ideia de reencarnação ficou tão evidente que convenceu muitos ex-combatentes, a irmã do falecido piloto e o próprio pai de James Leininger, um cético incorrigível e defensor de suas crenças religiosas. A história que daria tranquilamente um belo filme, chega ao fim quando o pequeno James “reencontra” o local de sua tragédia na outra vida e escuta de sua mãe que aquele homem embora tenha feito parte de suas lembranças por um longo tempo, havia chegado o momento de deixá-lo ir e seguir em frente. Com lágrimas nos olhos, James se despede dele e bate continência. Ou seja, apesar do garoto abrigar o espírito daquele ex-piloto, sua vida agora era outra, ele tinha uma nova família, outras missões a cumprir na sua escala evolutiva e precisava tocar o navio, agora como James Leininger e não mais como James M. Huston Jr. Tudo o que suas lembranças poderiam ter contribuído nessa nova empreitada chegara ao fim. Veteranos se reuniram, uma nova placa com os nomes dos soldados mortos que não haviam sido incluídos como baixa de guerra foi inaugurada, familiares tiveram acesso a registros até então desconhecidos sobre o destino dos militares mortos, e Anne Huston pôde finalmente receber o seu irmão que a deixou esperando por mais de 60 anos. Nos novos desenhos de James agora a tranquilidade, aviões sobrevoando pacificamente os céus e golfinhos mergulhando ao lado de navios, sem mais acidentes ou bombas. Assim como seus pesadelos, as memórias passadas foram se apagando e cedendo lugar ao que de fato ele era agora: apenas um garoto com mais uma vida cheia de desafios e metas a cumprir.
28 de fevereiro de 2012
O espelho de alguém
Quando eu era mais novo, fã de Sandy e Junior, naturalmente, queria ser como Junior. Deixava o cabelo igual, usava roupas semelhantes, tentava reproduzir seu jeito de se portar, buscando me espelhar ao máximo, naquela figura que para mim era um ícone, um modelo a ser seguido. Mas mesmo com todos os esforços, era impossível me igualar por completo. O cabelo não tinha o mesmo caimento, o pescoço dele parecia ser mais comprido, o sorriso era mais espontâneo. Contudo, a diferença mais crucial estava nos ombros. Os meus sempre foram muito largos, ombros de nadador, como me diziam, mesmo sem praticar o esporte. Junior, por sua vez, tinha a espádua curta, descendo numa nítida inclinação a partir do pescoço. Aquilo era realmente uma diferença anatômica que eu não poderia corrigir. Incontáveis vezes sonhei ter seus ombros curtinhos para que as roupas ganhassem em mim o mesmo contorno que ganhavam nele. Mas nem tudo poderia ser perfeito.
Certa vez, durante uma entrevista no programa da Xuxa, Junior foi questionado por ela, sobre algum possível defeito que gostaria de corrigir em seu corpo. E inesperada foi a minha reação quando descobri que Junior desejava ter ombros mais largos. Era isso mesmo! Aquilo que para mim sempre foi um empecilho para me “igualar” a ele, era exatamente o que Junior gostaria de ter. Foi só aí que me dei conta da ideia absurda que estava alimentando. A perfeição que eu buscava não existe, porque nunca ninguém será unanimemente perfeito. A anatomia de Junior era a ideal aos meus olhos, porque era a que estava nele, a que fazia parte do ídolo que idolatrava. Mas não tinha me ligado ainda que ele também poderia ter seu próprio ícone a se espelhar. Comecei então a dar valor aos meus ombros, afinal, não eram os de Junior, mas eram os que ele desejaria ter, e sabe lá quem mais.
Esse episódio me voltou à mente essa semana durante uma reunião no centro espírita que frequento. Sempre ao chegar, recebemos um panfleto com algumas frases, geralmente extraídas do livro Vida Feliz, de Divaldo Pereira Franco, pelo espírito Joanna de Ângelis. E nesse dia, uma das frases dizia o seguinte: “mesmo que não saibas, és exemplo para alguém. Sempre existem pessoas que estão observando os teus atos, mesmo os equivocados, e se afinam com eles. Desse modo, és responsável, não só pelo que realizes, como também, pelo que as tuas ideias e atitudes inspirem a outros”. Nunca tinha me questionado ser exemplo para alguém. Eu que sempre busco o espelho do outro. Quem iria querer me ter como modelo para qualquer coisa? Nunca faço nada de interessante. Sou um tipo tão normal que beira a anormalidade. Só um desavisado poderia enxergar algo útil em mim. Mas... e se existe mesmo esse alguém? Se realmente estou servindo de base para outra pessoa traçar suas atitudes e comportamentos? Há um perigo então aqui.
São tantos rostos cruzando nosso caminho diariamente. Tantos passos apressados em ruas que nunca pisamos, pessoas que jamais tornaremos a rever. Será que durante uma travessia numa calçada, não estamos sendo observados e inspirando alguém a nos copiar? Um simples gesto, um bater de cabelo, o andar, um sorriso. Qualquer detalhe pode despertar o interesse do outro. Afinal, involuntariamente, somos a perfeição de alguém. Nossa vida pode realmente influenciar as decisões do próximo, e ainda atrair semelhantes das variadas esferas. Encosto, arrimo, obsessor, estão todos ligados a quem de alguma forma facilitou o acesso à pessoa. Quem sabe não temos o sorriso, a roupa, o cabelo ou o ombro perfeito para algum desencarnado? Já li um caso de um espírito que se ligou a uma atriz famosa para garantir que ela não deixasse de interpretar determinado papel. Provavelmente, ele estava mais envolvido com a vida da personagem do que com a da atriz.
E exatamente como Junior não fazia ideia da fixação que eu tinha em me assemelhar a ele, essa atriz não poderia imaginar os transtornos que sua personagem causara nesse fã. É correto então atribuir aos dois a responsabilidade dos atos cometidos pelos fãs? Tenho minhas dúvidas. Não havia uma intenção direta dos artistas para os fãs tomarem determinadas atitudes. Por outro lado, independente da intenção, foi através do contato indireto entre eles que os fãs agiram. Há sim, alguma responsabilidade, com certeza, em todos os nossos atos, mas não há como saber de onde pode surgir a próxima identificação, que tipo de pensamento ou atitude pode desencadear essa afinação. Mesmo os mais singelos comportamentos, podem despertar bizarras situações. É imprevisível! Por isso, o importante mesmo é saber que observamos e somos observados todos os dias, por quem menos imaginamos. E não podemos esquecer nunca, que enquanto buscamos um espelho no outro, também estamos sendo o espelho de alguém.
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8 de outubro de 2007
A cabeça na lua – Primeiro estágio
É comum ouvir de amigos, namorada e até de conhecidos que vivo no mundo da lua, não sei se isso tem a ver com meu jeito de ser ou se algumas vezes pareço mesmo um astronauta em órbita espacial. Bom, o que sei é que essa minha habilidade move freqüentemente a minha vida e me leva para horizontes jamais conhecidos. Era mais um dia de aula na universidade e tudo parecia seguir sua rotina corriqueira, acordei às 6h30, peguei o ônibus depois de uma espera infeliz e cheguei atrasado como sempre na faculdade. Lá, encontrei minha trupe e fiquei sabendo da inscrição para um estágio no jornal A União, acho que nem dei muita importância. Kárem, uma das minhas fiéis escudeiras disse que iria fazer o teste, Léa e Izabel disseram que também fariam, logo um contingente de alunos estavam dispostos a fazer, pensei então: “-ah, é importante, acho que vou fazer também, tenho que me esforçar pra ser um menino culto, e nessa altura da faculdade sem estágio o que vier é lucro”. Então peguei a canetinha e me inscrevi junto dos meus amigos, com a cabeça mais em Antares do que na atitude que estava tomando.
Eis que o bendito dia chega e pra variar nem estava me dando conta que era o dia. Queria assistir aula de PageMaker quando de supetão a minha escudeira kárem me avisa do teste, Kárem, sempre ela. Entrei na sala e a primeira coisa que me veio à cabeça foi a torta de frango da lanchonete Sulavit no centro da cidade. Olhava em volta e via um bando de gaviões loucos para abocanhar o primeiro e único lugar do estágio, enquanto o pobre de mim não conseguia parar de pensar no meu estômago. Bom, pra embrulhar ainda mais o intestino, a prova era a produção de uma matéria sobre o preço do álcool. Ihh, álcool e frango, nem o suco de maracuya do Sulavit perdia. Bom, mas vamos lá!! Tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá!! Ufa! Tá tá tá tá!!! Uma hora e meia depois o filho nasce. Até que ficou legalzinho, talvez não digno de um primeiro lugar, mas na batalha.
Acho que o maior medo não foi fazer o teste e sim a dúvida: “serei capaz de exercer a função no jornal?”. Sei que já estou no terceiro ano de jornalismo, mas as dúvidas e incertezas sobre o caminho e todo o processo de uma carreira de sucesso parecem aumentar ainda mais. A falta de um exercício prático dentro do campus e até mesmo de um jornal que circule entre nós é bastante angustiante, embora isso seja em parte culpa de nós alunos que não tomamos uma atitude e deixamos as coisas ao descaso. Bom, mas voltemos ao meu teste da União que vida política não combina comigo.
Pois é, o resultado saiu alguns dias depois. E como eu esperava não fui o escolhido, mas faltou pouco. Tudo bem, fica pra próxima. E que próxima!? Eu não esperava que ela fosse tão rápida assim. Mais uma vez assistindo aula do adorado PageMaker, a portadora de boas notícias, a professora Cássia entra e avisa que cinco alunos que fizeram o teste para o jornal A União foram reaproveitados para um outro estágio no Sebrae, ou seja, reciclaram os alunos numa nova seleção já que não teriam tempo de fazer outra. E adivinha quem estava no meio desses selecionados?! O cara de bobo aqui olhando para a meia da professora. “-Hã?” “-Eita, caiu a ficha? É você mesmo, cara, você foi escolhido” “Caramba, será que eu sei pra onde tô indo?”
Poderia não saber, mas em meio a tantas dúvidas eu tinha uma certeza, meu texto tinha ficado legal, então o que quer que eu fosse fazer, só faria o que estava ao meu alcance e afinal era hora de testar esse lado jornalístico escondido aqui dentro.
E assim fui eu para o meu primeiro estágio. E pensar que tudo isso começou quando fui levado pelos meus amigos a fazer um teste movido mais por um sentimento de culpa e inativez do que por vontade própria. É... eu e minha cabeça no mundo da lua. Mas aí eu me pergunto, se ela tivesse na Terra, em Júpiter ou em Saturno teria mudado alguma coisa? Talvez o preço do álcool e da gasolina do texto disparassem e enfrentasse turbulência no cinturão de asteróides. Mas isso não vem ao caso. Ah... e quanto ao estágio, isso já é capítulo de uma outra história.
11 de outubro de 2007
O PDF do PageMaker
Às vezes quando conseguimos ser bom em alguma coisa queremos que os quatro ventos do hemisfério tomem conhecimento, muito embora esses quatro ventos sejam apenas alguns poucos amigos e conhecidos. A primeira vez que bati os olhos no programa de diagramação de periódicos PageMaker eu não imaginava que conseguiria adquirir tanta afinidade com ele. Tenho que confessar que achei o programa legal e prático, mas jamais pensei em me tornar um fã, por assim dizer, do programa. E esse meu fanatismo foi resultado de elogios de trabalhos produzidos e confiança dos amigos e acima de tudo a minha, pois se eu não acreditasse em mim não conseguiria mesmo diagramar uma única página.
Aos poucos os resultados do meu trabalho começaram a se expandir pela faculdade e ganhei ao lado de outra colega Fernanda a oportunidade de diagramar um jornal comunitário idealizado pelo professor de Técnica de Entrevista e Reportagem. O Olhar Comunitário foi o reconhecimento da nossa capacidade como diagramadores, não que os outros alunos da turma fossem incapazes de tal fato, mas que dentre 22 nomes na sala de aula os nossos foram os citados.
É, isso mexe com o ego de qualquer um, mas talvez um ‘expert’ em PageMaker ficasse na sua e não resolvesse divulgar sua satisfação em uma comunidade virtual no maior site de relacionamentos da internet, o orkut. Dois dias depois do ponto final na diagramação do jornal comunitário surge a comunidade Só Dá “Eu” No PageMaker. Convencido, prepotente e egocêntrico foram algumas definições que ouvi de amigos na faculdade. Mas, pensei eu, existem tantas comunidades fúteis e sem conteúdo na internet que não haveria mal algum em alimentar essa demasiada altivez. Engano! Mal sabia eu onde acabara de me enfiar.
Já dizia meu avô, “aprenda de tudo um pouco na vida para usar do que precisar”, mas eu esqueci de anotar que era preciso saber uma quantidade suficiente para poder usar. E algumas semanas depois de circulação da comunidade na internet, recebo um recado de uma garota chamada Lilian. Ela dizia estar com dificuldade em converter um arquivo de PageMaker para PDF e pedia minha ajuda encarecidamente, já que eu me dizia ser tão bom. Pronto!! Agora ajude a menina e mostre que você é capaz. !?%*$# Ai! Ai! Como se faz isso mesmo? Será que um especialista esqueceria algo tão simples assim? Lembro vagamente de ter convertido uma vez. Desculpas! Desculpas! Acho que é porque deve ter outro programa para isso. É, o Acrobat. Ih!! Adianta não, viu? Devia ter escutado o conselho do pessoal da faculdade. Bom, hora de estender a bandeira branca.
Me rendi e pedi ajuda a Kárem pelo bate-papo virtual. Piadinhas à parte. Eu merecia. Onde foi parar toda aquela presunção que de repente o deixou incapaz de resolver um simples probleminha? Pobre Lilian, não imaginava que o superdotado aqui ainda era um mero aprendiz e que seu problema era apenas um reflexo de uma pseudodominação que eu exercia sobre o programa. Tentativas aqui, tentativas ali. Kárem e eu ficamos numa investigação noite afora para tentar solucionar o aparente problema de Lilian, que na verdade era nosso também. Nada! Caramba! Como se modifica isso? Finalmente achei uma frecha no próprio tópico de ajuda do programa. Aliás, encontrei várias dicas de se converter, mas não conseguia nenhuma tentativa. Bom, minha parte eu tinha feito e quem tinha que converter o programa urgentemente era Lilian e não a gente. Enviei todas as dicas que encontrei para os recados dela no orkut. Deram três recados completos. Missão cumprida. Ou quase.
Toda a dificuldade que encontrei para solucionar esse problema mexeu com minha segurança e me fez analisar até onde sou mesmo “bom” na diagramação. A vida é cheia de novidades e vive nos surpreendendo. Talvez por isso tenha me dado essa rabanada para eu colocar a cabeça no lugar e entender que ninguém é melhor do que ninguém, no mínimo se destaca em algo e só. Na manhã seguinte recebi outro recado de Lilian agradecendo minha atenção e informando que havia conseguido a tão “difícil” conversão do arquivo para PDF. Bom, se foi com minha ajuda eu não sei, mas agora eu serei bem mais cauteloso quando lidar com assuntos que ainda não domino por completo. A comunidade continua lá, mas a responsabilidade da idéia que criei aumentou. E muito.
14 de dezembro de 2007
A Nova Postagem
Quando criei o blog do celeiro imaginei um espaço onde eu pudesse expor todas as minhas idéias sem nenhuma objeção. Levantar pautas cotidianas, flashes que passassem sobre a minha mente e me inspirassem em mais uma postagem. A princípio acreditei que elaborar e organizar essas idéias seria algo fácil e de grande prazer. Os comentários que recebia me dava novo fôlego para continuar escrevendo sem parar. Contudo não contei com as circunstâncias do cansaço e da falta de tempo. O blog passou a ficar congelado em algumas postagens por mais tempo do que eu imaginava ou quisesse.
As pautas que criei se aglomeravam na caderneta e eu tentava em vão lutar contra a correnteza. Quando planejava escrever algo, outra coisa acontecia e me fazia adiar aquela postagem. Agora finalmente havia me decidido retornar ao ofício, porém descobri que nem tudo eu posso falar no Celeiro. Sempre acreditei que nossa vida é feita de etapas, fases ou até numa linguagem mais roteirística, temporadas. E a cada fim dessa jornada nos deparamos com o medo da nova e a saudade da antiga. É uma fase de transição e mudanças, porém feliz, onde a confraternização reina e pede mais que carona.
Sempre fui bastante reservado quanto à demonstração pública dos meus sentimentos. A manter uma fria e distância satisfação na frente dos outros e a pular e a gritar sozinho no quarto. Talvez tenha levado mais que a sério o ditado “alegria de pobre dura pouco” e se durasse muito pouco mesmo a decepção seria mais fácil se eu não tivesse manifestado nenhum sentimento. É uma fuga da desilusão, do sofrimento. E tomando como partida o “pouco” do ditado popular, eu acabei me convencendo que minha vida seria melhor se eu a dividisse por curtas fases.
E assim comecei a enxergar meus dias e meus anos. Foi a fase da infância, do ensino fundamental no CEDOC lá em São Miguel, do ensino médio no Educandário em Pau dos Ferros, a fase de Natal e até agora a fase da faculdade. Dentro de cada fase dessa eu encontrava outra maneira de dividi-las em etapas menores. O 1º e o 2º ano do ensino médio, 1º e o 2º ano em Natal, cada ano da universidade. E o simples fato do início de um novo ano que eu tomo como o começo de uma nova temporada. Cada fase tinha que ser curta o suficiente para deixar saudade até dos piores momentos. Baseado também em um outro dito popular “tudo o que é bom dura pouco”. Assim, não tornaria a vida monótona e deixaria uma trilha de saudade pelo caminho.
E foi assim que cheguei ao fim de mais uma fase na minha vida. O programa “A Voz da Comunidade” que fazia ao lado de outros amigos em duas difusoras na cidade chegou ao fim essa semana. Ele seria a nova pauta para o Celeiro, mas diferente do fim das novelas brasileiras que sempre buscam a felicidade dos personagens, ele tomou gancho nos finais das temporadas de Smallville dos Estados Unidos, que sempre terminam com grandes desastres como tornados, chuva de meteoro, acidentes e até um suposto fim do mundo. Descobri que as catástrofes que se abalaram sobre essa minha última fase me impediriam de escrever sobre todas as experiências que vivi ao longo dela. Ela fugiu do meu controle e as manifestações públicas de sentimento saltaram com grande ímpeto. Porque se por um lado os bons sentimentos conseguem ficar guardados comigo, por outro, os maus me fazem explodir diante de qualquer um.
A paciência que algumas vezes consegue reinar no meu peito e na minha cabeça, se transforma em um misto de animosidade e fúria diante da injustiça e do desgaste mental. É o vômito de todos os sapos engolidos ao longo do percurso. Gostaria de ter feito um belo texto de despedida de uma grande e importante etapa da vida universitária, mas o único que posso fazer é lamentar o inesperado e analisar como um simples fato pode mudar os rumos de toda uma história. É entender que nunca encerramos algo sem antes nos certificarmos que ele já não existe mais. Que até o último segundo tudo pode mudar. E como uma temporada de Smallville, espero que novos acontecimentos se desenrolem na próxima temporada, consigam resolver esses impasses e reservem novas e surpreendentes emoções, porque a vida não pára e as temporadas continuarão até quando todos os fãs já as tiverem abandonado e a audiência não se sustentar mais no canal.
20 de dezembro de 2008
Discurso de Formatura
Prezados senhores, é comum ouvir de nossos pais e professores que quando mantemos um foco no nosso objetivo, temos muito mais chances de ser um profissional de sucesso. Acredito que seja verdade. Talvez por isso uma grave miopia me impediu de focar no jornalismo. Nunca sonhei ou idealizei essa cerimônia, como acredito que muitos aqui fizeram. Aliás, nem deveria estar aqui, já que devendo o Trabalho Acadêmico Orientado, não é esse o ano que me fará jornalista.
A primeira vez que olhei para mim diante de um espelho e pensei num misto de satisfação e insegurança “vou ser jornalista”, foi aos 19 anos, quando recebi o resultado de que havia passado no vestibular. Quatro anos depois olho novamente para o espelho e mal posso ver um caminho atrás das grandes montanhas do mercado de trabalho. O único consolo que tenho é saber que terei cela especial caso cometa um dia algum crime.
Durante esses quatro anos tive muito tempo para refletir se estava no caminho certo, se deveria ter optado por outra carreira e cheguei a muitas conclusões. Uma delas é que definitivamente correr atrás da notícia foi um dos grandes vacilos da minha vida. Não tenho o menor talento para a imprensa. Contudo, já que estava aqui, iria até o fim, até porque essa experiência me ajudou a descobrir o teatro, minha verdadeira paixão.
Acho que nada saiu como pensava ou imaginava o universo acadêmico. Não teve trote no primeiro dia de aula. Que universidade que se preza dispensa um bom trote com os calouros? Ao invés disso fomos recebidos com salgados e refrigerante. Já começamos mal acostumados. Primeira semana sem professor e alguns alunos já desistem do curso. Já pensou se todos tivessem feito o mesmo? Não estaríamos agora nesse salão com os nossos pais, amigos e usando trajes finos.
Nossa turma foi um grupo difícil de se definir. Aliás, definição era o que mais faltava, desde a cor da camiseta ao nome da placa. E os ânimos também foram bastante acirrados. A cada ano, novas descobertas, novos inimigos e novos amigos, graças a Deus. Disputas de poder, de inteligência, de superação. Temperamentos fortes e pessoas intransigentes. Ciúmes, inveja, cobiça. Acho que nesses quatro anos fomos leões e gazelas. Ninguém escapou! Perseguimos e fomos perseguidos. Abraçamos e nos apunhalaram. Apunhalamos e fomos abraçados. Não dava mais para saber quem sorria com o coração ou quem sorria com o fígado. Éramos estranhos e íntimos ao mesmo tempo. Não era maluco?
Porém, sobrevivemos e superamos todas as desavenças em busca de uma causa maior, o futuro. Amadurecemos! Aprendemos a viver com as diferenças. Grandes amigos conquistei, outros aprendi a respeitar, mas todos sairão com pelo menos ‘um’ que ficará pra sempre. Se isso fosse teatro, diria que vivemos da tragédia a comédia, mas não é teatro, é jornalismo, e assim nada mais vivemos do que manchetes de jornais.
Ah, não posso esquecer dos mestres, os nossos grandes formadores. Alguns merecem agradecimentos especiais. Tão especiais, que se eu citasse seus nomes aqui, talvez pudesse até ser processado. Porque aprendemos na universidade que jornalista tem que saber a verdade, mas nem sempre pode revelá-la, senão alguém tapa nossa boca. Aqui é igualmente. Mas cada um sabe na consciência os que merecem realmente o nosso respeito e aqueles que só se preocupavam com seu salário no fim do mês, e às vezes nem isso, porque não apareciam. Quantas cadeiras inúteis! Não pelo conteúdo, mas por quem estava à frente.
Agora estamos aqui quatro anos após o primeiro encontro prestes a sermos lançados na vida. Os ensinamentos ficaram, as conquistas acadêmicas iremos levar para o currículo, uma bagagem cultural nos torna mais dignos do que pretendemos exercer, embora um mundo de inseguranças e incertezas ainda nos rodeie. Estou certo de que todos buscarão o seu melhor para mostrar na prática aquilo que aprenderam na academia. Afinal a academia da vida é mais dura de vencer. E mesmo aqueles que trilharem outros rumos levarão sempre alguma lição desses anos. Enfim, está tudo só começando. Muita estrada a percorrer e um mundo de possibilidades ainda por vir.
15 de agosto de 2010
Queimei a beca!!
Finalmente aconteceu a última solenidade da conclusão do meu curso, a “grande” colação de grau, que serviria de fato para a entrega do diploma de graduação, o que não é bem assim na minha universidade. Bom, como não poderia deixar de ser, o grande dia não passou em branco, na verdade passou bem passado até demais. Depois de minha colega de turma descer ao som das minhas colagens de música no baile de formatura, e o apresentador me chamar de Francisca Samuel, eu tinha que marcar esse outro dia de alguma forma. E eis que o marquei a ferro quente.
Um dia aparentemente normal até então. Fuçava na internet até umas 3h da tarde, quando resolvi que era hora de desamassar a beca da universidade que havia alugado a R$ 5,00. A cerimônia de colação era dali a 2 horas. Pego então a beca, ligo o ferro, procuro a graduação correta do tecido, que na minha cabeça era linho, afinal era uma beca, tinha que ser um tecido bom, e deixo esquentar enquanto volto ao computador. Alguns minutos depois, me lembro do ferro e corro pro quarto, pego o ferro, que a essa hora já estava mais do que na temperatura correta, e enfio na manga com tudo. Com tudo mesmo, porque quando o retirei, a manga veio junto, e o que sobrou foi um buraco em formato de triângulo na linda beca da universidade.
É, o estrago estava feito a pouco menos de 2 horas da colação. O que fazer? Ligar pra universidade e tentar pegar outra beca? Mas num sábado à tarde? Ainda tentei, mas ninguém atendeu. E olha que tentei vários números que encontrei no site. Nada! Bom, estava decidido a não ir mais, quando liguei para minha amiga Ana Célia, que iria colar grau também, contando a situação. Incentivado por ela, resolvi ir assim mesmo, afinal o que era um buraco em uma beca no meio de tanta gente vestida igual? Peguei linha e agulha e juntei as pontas do buraco, disfarçando a sujeirada. Nessas horas eu agradeço os vários dias que passei costurando as túnicas dos fantasmas para a peça de Pluft.
O local do evento estava lotado. Eu pensando que seria uma cerimônia simples com os aluninhos, me deparo com uma grã-finada se exibindo com suas becas sem buraco. Bom, tomei fôlego e fui. Fiquei meio que escondidinho, querendo fugir dali. Quanto à cerimônia se resumiu ao seguinte: um aglomerado de alunos vestidos de preto sentados num salão enorme com os padrinhos do lado, ouvindo o vice-reitor, os diretores dos centros acadêmicos tecerem elogios à universidade e um bocado de baboseiras. Me deu fome. Mas num dava nem pra sair e comprar uma pipoquinha porque todo mundo ia olhar pro meu buraco – no bom sentido. Depois de todo o blá blá blá, teve lá o juramento, que eu particularmente não estendi a mão e nem jurei nada. Pra quê? Já minto demais na minha vida.
Logo depois começou o tal ato da colação de cada centro. Um só aluno subia ao palco em nome de todos, enquanto os outros ficavam sentados esperando a varinha de condão invisível os coroar graduados. Ah!! Palmas, mais blá blá blá e confetes. Confesso que não senti nada de diferente depois. De repente, surge uma mulher no meio daquela tinta preta com uma lista e uma caneta na mão: “assine aí seu nome”. Pronto? Me formei? Acabou a tal colação? E pra que diabos a gente tinha que estar vestido com essas becas, se nem fomos chamados um a um ao palco pra receber o diploma, como deveria ter sido? Se era só pra assinar uma lista de presença, eu deveria ter ido com minha roupa normal e deixado aquela beca queimada em casa, ou melhor, nem deveria ter alugado.
Bom, o desfecho dessa história se deu nos dias seguintes quando comprei um outro tecido lá, bem diferente do linho, e levei a uma costureira pra refazer a manga. Ah, e claro, quando se trata de universidade e fim de curso, tudo tem que complicar um pouquinho mais pra mim. Justamente o dia que escolhi pra ir à universidade devolver a beca, agora sem buraco, dou de cara com a intervenção do vigia me impedindo de entrar: era feriado na universidade naquele dia, sabe Deus de quê. Então só na semana seguinte consegui devolver a beca e dá entrada na papelada do diploma, que só tem prazo de ficar pronto em no mínimo três meses.
16 de dezembro de 2010
Menino reconhecido
Há pouco menos de um ano, eu não teria certeza se concluiria o meu curso de comunicação social. Longe da universidade desde 2008, estava empurrando a muralha da monografia com a barriga. A meta era sair das 10 páginas que fiz em um único feriado e que nunca foram revisadas por nenhum orientador. O tema entre espiritismo e telenovela me empolgava, mas não o suficiente para escrever mais umas 30 páginas. Um desafio maior ainda surgiu quando em março desse ano, Ana Célia e Kárem resolveram me chamar para integrar o time na produção de um videodocumentário. O objetivo era entregar o trabalho até o mês de julho a tempo de concluirmos o curso no meio do ano. Aceitei o desafio. Afinal filmar era bem melhor do que escrever páginas de um trabalho que já estava fadado ao fracasso antes mesmo de começar.
Um artista plástico autodidata da cidade de Sumé era o tema do nosso vídeo. Miguel Guilherme deixou uma incrível obra de toda sua história de pintor, escultor, músico, poeta e teatrólogo. Era sem dúvida nenhuma um grande artista. Mas com o tempo nas costas, só me preocupava em encontrar os entrevistados, filmar as obras, o seu museu, e correr de um lado ao outro, fotografando, produzindo ofícios e fazendo alguns contatos. Realmente foi um trabalho árduo, e eu tinha consciência que seria, se quiséssemos algo com o mínimo possível de qualidade, ou então seria muito fácil fazer qualquer coisa. Viajamos, lemos, nos aprofundamos a cada dia. Tentei brincar com o Premiere, mas ele não quis assunto comigo. Então parti para o Vegas. Noites de dor de cabeça e muito moto-táxi editando os 15 minutos do documentário.
Com o prazo esgotado, conseguimos apresentar o trabalho e garantimos não só a nota máxima, como a conclusão do curso superior. Aleluia! Mesmo não sendo a graduação dos sonhos, era gratificante saber que aqueles anos puxados à carroça deixariam algum mérito agora. Finalmente pude apreciar a obra de Miguel Guilherme sem me preocupar com tempo, câmera ou entrevistas. Agora simplesmente podia tomar consciência do grande gênio que a Paraíba possuiu. E Ana Célia foi mais adiante. Resolveu inscrever nosso vídeo no Fest Aruanda, o festival de cinema de João Pessoa. Inscrito no último dia, fiquei feliz em saber que ele havia sido selecionado. Só o fato de estar sendo exibido a pessoas de diversos estados já seria uma maneira de promover o acervo tão esquecido de Guilherme. Ganhar algum prêmio seria pedir até demais. Era só um vídeo de conclusão de curso. Todavia, o nosso videodocumentário Menino Artífice ganhou na categoria de melhor documentário paraibano e na votação do júri popular também. Posso pensar que fizemos um trabalho profissional o bastante para tal reconhecimento, mas acredito que dentre as falhas de iniciantes no universo audiovisual, o tema escolhido e sua relevância no cenário paraibano e nacional foi o grande destaque e o verdadeiro vencedor desse prêmio. Mais um reconhecimento pelo esforço e dedicação, Miguel.
9 de fevereiro de 2011
O papel do papel
O papel em minhas mãos. Seis anos após colocar os pés pela primeira vez na reitoria da Universidade Estadual da Paraíba, senti que seria a última vez ali. O curso durou quatro anos, meu dilema com a monografia mais um e meio e eis que finalmente recebo em mãos aquele papel que vai me garantir ter concluído um curso superior. No papel a reitora me confere o título de bacharel em comunicação social e outorga-me o presente diploma, a fim de que eu possa gozar de todos os direitos e prerrogativas legais. Folha bonitinha, assinatura da reitora e da pró-reitora de graduação, um espaço para eu assinar meu nome (de caneta preta), como enfatizou a senhora responsável que me entregou o diploma, e ainda me advertiu que não se “emplastifica” diploma, caso eu quisesse passar na primeira xerox, emoldurar e pendurar na parede do meu apartamento como um troféu. E olha que diploma de jornalista já teve seus dias de mais valor.
Cheguei em casa, troquei de roupa, fiz um suco de polpa de pinha, tomei dois copos, entrei na internet e só aí me lembrei que tinha de retirar o diploma da mochila e guardar. Abri o envelope, que tinha se amassado um pouco dentro da mochila, retirei o diploma, coloquei-o sobre a cama e fiquei olhando aquele papel. Analisei cada detalhe. Não como um formando estupidificado, mas com uma mente que voa além daquela página e procura entender a lógica e a mágica presente nas entrelinhas daquela folha. No centro lá no alto, o brasão da República Federativa do Brasil, logo abaixo o nome da universidade e o nome “diploma” quase que desenhado à mão; meu nome, minha data de nascimento, meu RG, a cidade onde nasci e as palavras “bacharel” e “comunicação social” em maiúsculas e em negrito. Abaixo das assinaturas, o brasão do estado da Paraíba e o logo da UEPB. Ah, e atrás ainda havia uns selinhos garantindo que o curso era reconhecido pelo decreto federal 82673 e a assinatura do chefe do setor.
Honestamente, o que eu faço com isso? Onde coloco? Mando plastificar só de pirraça com a senhora? Guardo numa gaveta, num livro? Penduro no espelho do banheiro? Talvez continue dentro do envelope. O bom vai ser não ter amnésia de onde coloquei quando um dia o procurar. De fato, esse papel não passa de mais uma folha em meio a tanto papelada que cruza nossa vida. Não desmerecendo o curso e a profissão de ninguém. Mas o que esse papel atesta além de dizer que somos formados em tal curso e universidade “a” ou “b”? Nada. Podemos adquirir muitos na vida, fazer coleções de diploma. Se não desempenharmos bem a nossa função, o banheiro é um destino melhor para esses papéis. Não somos o diploma. Somos o que aprendemos e descobrimos ao longo da caminhada. No papel podemos ser o doutor em engenharia da biofísica nuclear, mas se na prática não correspondermos ao que está escrito, já era. Do mesmo modo, outros não necessitam de títulos para se destacar.
A grande questão que quero enfatizar é o amor e a dedicação de cada um com o ofício que foi tomado como seu. Se há verdade, se há paixão, com certeza será um profissional além da folha de papel. Caso contrário, passará a vida em busca de mais títulos que o tornem o que jamais será. Como escuto constantemente dos meus diretores de teatro, não basta interpretar, tem que acreditar. No meu caso, que nunca tentei nem interpretar um jornalista o que dirá acreditar ser um, a situação se complica um pouco. Se continuar seguindo a onda periculosa da imprensa na tentativa de ser o grande repórter, traçando mais títulos que um recordista olímpico no intuito de me fazer crer nessa verdade, não dará certo nunca. Porque não serei um bom jornalista nem aqui, nem na lua. Aliás, preferiria estar lá, explorando o universo, se tivesse estudado pra ser um astronauta, ou cosmonauta, quem preferir dar crédito aos russos. Gosto de escrever, não há dúvida. Mas como diria Leporelo, o “fiel” escudeiro de Don Juan, que com seu diminuto bom senso e seu parco entendimento ver as coisas melhor do que todos, sei que me falta a desenvoltura essencial para um bom jornalista, e percebo que o que escrevo está mais próximo de Rubem Braga e Manoel Carlos do que de Heraldo Pereira ou José Marques de Melo. Portanto, vou guardar meu diploma, na esperança de um dia poder fazer uso dele. Não com a habilitação em jornalismo, mas como bacharel em comunicação que me permite escrever rios sem fim de imaginação.
TemaFragmentos09 textos
19 de outubro de 2011
Fragmentos
Colégio. Interior. Dia.
Matheus, Elisa e Ryan caminham conversando pelos corredores.
Matheus — Crise de identidade?
Elisa — É sério! Acho que eu tô passando pela terrível fase da típica adolescente rebelde.
Ryan — Por que acha isso, Elisa?
Elisa — Ah, eu não consigo mais dá conta de nada. Não consegui terminar as atividades de classe, meu pai me deu bronca por chegar tarde em casa e eu não consigo nem chegar perto da sala do jornal.
Ryan — É, realmente essa não é a Elisa que a gente conhece.
Matheus — Já pensou que isso pode ser estresse? Você tem se dedicado muito às atividades escolares e tido pouco tempo pra se distrair. Talvez uma semana na praia pudesse tirar essa sua agitação.
Elisa — Ai, era tudo o que eu queria agora. Mas viajar para o litoral agora na reta final seria suicídio.
Ryan — Bom, você pode usar minissaia preta e entrar pra banda.
Eles param de andar e olham os integrantes da banda “dark freedom” dando autógrafos a algumas meninas mais adiante.
Elisa — Num sei o que esses caras têm. Vestem preto, usam um monte de bijuterias pelo corpo e fazem o maior sucesso pelo colégio.
Ryan — O estilo deles é legal! E abriram agora mais uma vaga pra um novo integrante.
Elisa — Eles vivem abrindo vagas. Essa é bem a quinta só nesse ano.
Ryan — É a sétima! (Matheus e Elisa o olham) É que eu me candidatei nas duas últimas vezes, mas não consegui entrar.
Matheus — Você, Ryan, usando preto e cantando loucuras?
Ryan — Foi depois que a Marie foi embora. Eu me senti um pouco abandonado e achei que a banda podia me ajudar.
Elisa — É, mudariam com certeza o seu nome pra algum fenômeno da natureza.
Ryan — Eu não acho isso tão ruim. Eu podia me chamar Vulcão. (ri)
Matheus(ri) — Por que o último que entra nunca passa muito tempo na banda?
Ryan — Num sei. Vai ver não se adapta ao estilo. Me parece que o Meteoro não curtia muito a banda.
Elisa(repreendendo) — O Eric você quer dizer! Pois pra mim ele era fissurado na banda. O que será que aconteceu com ele?
Ryan — Parece que voltou pra capital.
Elisa — Curioso! A gente nunca fica sabendo o que acontece com os integrantes da banda após saírem. Parece que evaporam!
Os cinco integrantes da banda se aproximam deles. O líder Tornado olha para Matheus.
Tornado — E aí, Matheus, tudo tranquilo? Num tá a fim de fazer parte da banda, não? Abriu uma vaga.
Matheus — Obrigado, mas não faz o meu estilo.
Tornado(rindo) — Ah, saquei! O seu estilo seria mais “Caipiras Freedom”, né? Mas quando quiser fugir da vidinha que leva, é só procurar a gente. Vamos tá por aí. Vamos nessa! (os integrantes saem)
Elisa — “Vidinha”? (sorri) É melhor eu voltar pro jornal.
Ryan — Não estava insuportável pisar lá?
Elisa — É, mas essa banda me instigou a escrever de novo. Ela é uma verdadeira oligarquia aqui dentro do colégio. Eu preciso fazer uma matéria!
Matheus — Que bom que ainda tem pessoas normais aqui nessa escola.
Saem rindo.
24 de outubro de 2011
Fragmentos
Colégio. Interior. Dia.
Anderson passa apressado pelos corredores com livros nas mãos. Cíntia o vê e corre atrás dele.
Cíntia — Anderson! Anderson! (acompanha-o)
Anderson — Eu tô apressado, Cíntia. Tenho dois testes pra aplicar e ainda tenho que passar na secretaria.
Cíntia — Eu só queria saber por que você não me procurou mais.
Anderson — Eu ando com muito trabalho acumulado.
Cíntia — Custava dá um telefonema? Ontem eu passei horas tentando ligar pro seu celular, mas só dava caixa postal. E na sua casa a empregada podia ser mais discreta e não dizer “eu vou saber se ele está em casa” toda vez que eu ligava.
Anderson(pára de andar e a olha) — Tudo bem. O que é que você quer, Cíntia?
Cíntia — Atenção! Carinho! Eu sou sua namorada, Anderson. Eu preciso disso! Ultimamente parece que você não me enxerga mais. Eu que fico te procurando, insistindo sempre com você pra gente sair, se divertir. Mas você parece que não percebe isso ou força a barra pra não perceber. Até nos esportes você vai e não me chama mais. Você está me deixando de lado aos poucos.
Anderson — É que eu tenho andado cheio de problemas e eu tenho estado um pouco confuso.
Cíntia — E por que não se abre comigo? Meu Deus, pra que a gente está namorando então, se um não serve pra escutar os problemas do outro? Eu tô aqui, Anderson! Poxa! Esse seu afastamento não tá sendo bom pra ninguém. Você sabe há quanto tempo nós não fazemos... ‘sexo’? (olha para os lados)
Anderson(a olha) — Tá! Eu vou tentar não me distanciar tanto. Você quer sair hoje pra jantar?
Cíntia — É, pode ser um bom começo.
Anderson — Então tá. A gente sai à noite. Agora eu tenho que ir. (sai)
Cíntia — Anderson! (ele olha) Meu beijo!
Anderson — Hã!
Ele olha de lado, volta, dá um selinho nela e sai.
26 de outubro de 2011
Fragmentos
Colégio. Interior. Dia. Gabinete do diretor.
Julio trabalha em seu computador à mesa. Batem à Porta.
Julio — Entre!
Elisa(abre a porta) — Licença, diretor! Eu posso falar um minuto com o senhor?
Julio(debochado) — Outro aluno? Se eu for parar meu dia pra atender aluno, eu não faço mais nada aqui hoje. Estou mais solicitado do que prefeito em dia de posse.
Elisa — É... É rápido! Eu só quero trocar umas idéias.
Julio — “Trocar umas idéias”? Claro! Entra!
Elisa Fecha A Porta E Senta — SE DIANTE DELE.
Elisa(tensa) — Licença!
Julio(encosta-se na poltrona e olha para ela) — Então?
Elisa — É sobre o jornal do colégio.
Julio — Hum!
Elisa — Eu fui até lá e a sala estava fechada. Não tinha computador, mesa, nada.
Julio(surpreso) — Você abriu a sala?
Elisa(confusa) — Abri!
Julio(curioso) — Como?
Elisa — Ah, é que eu guardei uma cópia da chave da época em que eu trabalhei lá.
Julio(debochado) — Ah, então você deve ser Elisa Medeiros.
Elisa(sorri) — Sim! Sou eu! O Afonso falou ao senhor sobre mim?
Julio — Não, Elisa! Eu nem cheguei a conversar com o Afonso. Eu li o seu histórico do jornal.
Elisa(rindo) — Foi? E o senhor gostou?
Julio — O que você pergunta se eu gostei? Eu acredito que eu tenho uma cópia do relatório aqui. (procura em algumas gavetas) Você mesma pode conferir.
Elisa olha desapontada. Julio encontra o relatório E folheia.
Julio — Aqui! Vejamos! Parece que você tinha um gosto singular por matérias bastante sensacionalistas, não é? Por três vezes as suas reportagens causaram um tumulto no colégio.
Elisa — Mas eu só expus a verdade!
Julio — Algumas verdades devem permanecer enterradas. Você não concorda, Elisa? Bom, continuando o seu histórico, ele alega aqui abandono de posto perto do final do ano passado.
Elisa — Não! Eu não abandonei o jornal! Eu estava um pouco abalada com... (olha para ele) É...
Julio(com um sorriso sarcástico) — O seu sensacionalismo, não é?
Elisa(o olha atônita) — Mas o Matheus ficou lá no meu lugar!
Julio — Sei! O Matheus que diz aqui que também deixou o jornal várias vezes na mão. É lamentável!
Elisa(preocupada) — O que o senhor vai fazer?
Julio — O jornal está fechado até que apareça um outro repórter interessado em assumir o cargo. Alguém que veja o jornal apenas como um meio de divulgar as atividades escolares e como veículo de responsabilidade social, não como central de fofocas e intrigas pelo colégio. Fui claro, senhorita Medeiros?
Elisa confirma submissa com A cabeça, se levanta E vai saindo.
Julio — Elisa! (ela olha) A cópia da chave, por favor!
Ela abre A bolsa, pega A chave E entrega A Julio.
Julio(sarcástico) — Obrigado! Pode ir!
Ela o olha indignada E sai. Ele suspira E volta ao computador.
29 de outubro de 2011
Fragmentos
Teatro municipal. Interior. Noite
Uma exposição de peças antigas de lincoln é a atração da noite. Muitos curiosos circulam. Matheus entra um pouco sem jeito e olha a movimentação. Moisés o vê e vai até ele.
Moisés — Matheus, que bom que aceitou o meu convite.
Matheus — Pois é. Não se tem muita alternativa num sábado à noite em Pouso Belo.
Moisés — Tenho certeza que vai adorar a exposição. Já viu a coleção de moedas do século XVIII?
Matheus — Ainda não.
Moisés — Ao fim daquele corredor. Cada galeria que passar vai se surpreender com o que irá encontrar. Veja! (aponta) Aquela indumentária ali pertenceu ao Duque de Orléans, quando assumiu o trono da França depois da morte de Luís XIV. Meu pai fez questão de conseguir a peça original.
Matheus — Tem muita coisa cara aqui.
Moisés — Cara e ‘rara’! Se ainda conseguir respirar até o fim da exposição, eu te mostro a carta que Napoleão entregou a Edmond Dantes na ilha de Elba.
Matheus — Não é só um romance de Alexandre Dumas?
Moisés(sorri) — É! Mas meu pai gosta de viver a fantasia.
Mila, Matt, bia e oscar passam sorrindo e olhando as peças. Matheus olha surpreso e Moisés percebe.
Matheus — Eu não sabia que eles estariam aqui.
Moisés(com ar sorridente) — É! Eu os convidei. Desculpe, não sabia que ele viria também.
Matheus — Hã?... Não! Eu não me importo com a presença do Matt.
Moisés — Mesmo?
Matheus — A gente é amigo agora.
Moisés — Olha! Que novidade!
Mila vê Matheus, sorri, mostra a Matt e eles se aproximam.
Mila — Matheus, eu não sabia que vinha. Tudo bom?
Matheus — Tudo! Oi, Matt!
Matt — E aí, Matheus? (olha para moisés) Moisés!
Moisés — Olá, meu jovem! Curtindo a noite?
Matt — Muito. Seu pai tem uma bela coleção.
Moisés — Não diga isso a ele. (sorri)
Mila — E então? Aonde você vai depois daqui?
Matheus — Provavelmente pegar a estrada e voltar pra casa.
Mila — Nós vamos jantar no Gibraltar. Eles têm um excelente cardápio de frutos do mar. O risoto de camarão é uma delícia. Você não quer vim com a gente?
Matheus(deslocado) — Não! Eu preciso voltar. Mas obrigado pelo convite.
Mila — Ah, que pena!
Bia e oscar seguem por outra galeria e bia acena para eles.
Matt — A Bia tá chamando.
Mila — É! A gente vai estar por aqui. Aparece antes de ir embora.
Matheus — Certo!
Mila — Até mais, Moisés.
Moisés — Fiquem à vontade.
Mila e Matt saem. Matheus olha sem jeito. Moisés percebe e sorri.
Moisés — O que foi, Matheus? Pensei que tinha dito que não se importava com a presença deles.
Matheus — Eu preciso tomar um ar. (sai)
8 de novembro de 2011
Fragmentos
Casa de Ryan. Interior. Dia.
Elisa caminha pelo corredor.
Elisa — Ryan! Ryan, eu tô entrando! Olha, é meio constrangedor vim aqui depois do que aconteceu, mas eu não sou mulher de fugir. Como você nunca vai à minha casa, eu achei que queria algo importante. Então eu... ô Ryan!
Ela entra no quarto dele e não o vê. Escuta barulho de chuveiro vindo do banheiro do quarto.
Elisa(sorri) — Ah!! Tomando banho? Eu sempre duvidei da justiça, mas num é que às vezes ela acontece.
Ela caminha até o banheiro, abre a porta e vê uma sombra atrás da cortina.
Elisa — É, é isso aí. (sorri)
Ela puxa a cortina e encontra outro rapaz tomando banho. Os dois gritam.
Elisa — Ahh!!
Charles — Ahh!!
Elisa sai correndo e encontra Ryan entrando no quarto.
Ryan(surpreso) — Elisa! O que você tá fazendo aqui?
Elisa — O que ‘você’ tá fazendo aqui fora? Quem é ele?
Ryan — Ele quem?
Charles sai do banheiro enrolado na toalha.
Ryan — Charles!?
Charles — Ryan, quando disse que eu podia usar o seu banheiro eu pensei que teria privacidade.
Ryan(confuso) — Bom... e você tem.
Charles — Tinha! Até a sua namoradinha invadir o box.
Elisa(envergonhada) — Oh!
Ryan — Elisa!?
Charles — Bom, na verdade eu acho que ela estava procurando você. Sabe, eu também curto esses relacionamentos modernos, mas será que ela não podia esperar você tomar banho pra te agarrar?
Elisa — Oh, oh, oh, espera aí.
Ryan — Ela não é minha namorada.
Charles — Não? (ri) Então ela tem uma quedinha muito forte por homem nu.
Elisa — Ei, vamos com calma. Olha só, eu não sei quem você é e você não sabe quem eu sou. Portanto, vamos limitar as nossas conversas e deixar de intimidade.
Charles(risonho) — Concordo!
Elisa(tensa) — Ótimo!
Ryan — Elisa, o que veio fazer aqui?
Elisa — Bom, apesar de você ter ido lá em casa e invadido a minha privacidade sem o meu consentimento, eu pensei que você queria algo importante.
Ryan — Bom, sim, é que eu queria usar o seu computador, o meu foi pro conserto.
Elisa — Era só isso? Então já vi que perdi meu tempo e o seu também. Meu computador tá com vírus.
Ryan — O quê!
Elisa — Eu já falei com o Afonso, mas acho que ele não tá querendo descolar a verba. Lamento!
Ryan — É, já vi que vou ter que limpar a despensa de novo.
Charles — Eu posso dá uma olhada no seu computador.
Elisa(irônica) — Foi comigo?
Charles — Eu passei seis anos em São Paulo dedicado à informática. Os pcs são minha vida! Acho que consigo remover um simples viruzinho. (sorri debochado)
Elisa(irônica) — Uau!
Ryan — Por que nunca me contou isso, Charles? Você podia ter consertado meu laptop.
Charles — Você nunca me perguntou, Ryan.
Elisa — É, tô impressionada.
Charles(risonho) — Eu sei, é que eu tenho outras qualidades além da beleza.
Elisa(risonha) — E da modéstia, claro!
Charles — Olha, eu sei que começamos com o pé esquerdo, mas eu acho que ainda poderíamos nos dar superbem. Você não acha?
Elisa olha para Ryan e para Charles.
Charles(estende a mão) — Charles Moutinho. Primo do Ryan.
Elisa(aperta a mão de charles) — Elisa Medeiros!
13 de novembro de 2011
Fragmentos
Colégio. Interior. Dia. Sala dos professores.
Apenas Anderson e Cíntia se encontram discutindo enquanto Gorete termina De retirar as xícaras da mesa.
Anderson — Por que você não me contou?
Cíntia — Contar o quê? Eu fui pega de surpresa tanto quanto você.
Gorete Observa De Rabo — DE-OLHO.
Anderson — Ele disse que estavam juntos. Que decidiram isso em comum acordo.
Cíntia(se exalta) — Não! Não é verdade! Ele tomou essa decisão sozinho!
Gorete derruba uma xícara sem querer e Anderson a olha. Ela fica inibida, pega as bandejas e sai da sala. Ele se volta para Cíntia.
Anderson — Você quer me dizer que nunca conversaram sobre isso?
Cíntia — Não!... Quer dizer, outro dia ele me falou a respeito disso, mas era apenas uma hipótese. Havia um “se”, e eu não concordei em nada com ele.
Anderson — Pra cima de mim, Cíntia? Eu já te vi várias vezes conversando sabe lá o quê com o Julio pelos cantos do colégio.
Cíntia — Ele que sempre me procura pra conversar asneiras.
Anderson — Uma dessas asneiras acabou a levando para o cargo de vice-diretora do colégio.
Cíntia — Olha, quer saber? Eu nem sei se vou assumir esse cargo.
Anderson — Por que não? Só falta agora dizer que não está feliz. Você sempre almejou esse posto, Cíntia. Por favor, não humilhe a minha inteligência!
Cíntia — É, eu sempre quis chegar aí sim, mas não dessa forma.
Anderson — Que forma? Não foram os seus méritos que a levaram a isso? Ou será que tem algo mais que eu não tô sabendo?
Cíntia — Não tem nada, Anderson! Nada! Eu te amo e prefiro você a assumir qualquer cargo com desconfianças e mentiras. Por favor, (põe as mãos no rosto dele) não duvida da minha lealdade! Não percebe que é isso que o Julio quer? Que briguemos!
Anderson — Eu preciso pensar, Cíntia!
Ele sai da sala.
15 de novembro de 2011
Fragmentos
Casa de Moisés. Interior. Dia.
Moisés sentado no sofá do escritório escuta impaciente o discurso de Lincoln em volta dele.
Lincoln — Então você me enganou todo esse tempo? Como você teve coragem, Moisés?
Moisés — O senhor me presenteou as cavernas.
Lincoln — Sim, mas eu não sabia da existência de pedras de diamante lá dentro. E você tinha a obrigação de me contar isso!
Moisés — Pra quê? Pra ficar com os diamantes pro senhor? Além do mais a porção das nossas terras é limitada e está quase se esgotando. A maior reserva está na propriedade dos Torres.
Lincoln — Por isso a amizade com o Matheus. Eu sabia! Você não constrói amizades sem um interesse por trás. É bom tomar cuidado, Moisés! Desse jeito você vai acabar sozinho. Sem amigos, sem ninguém.
Moisés(levanta-se) — Olha quem fala! Quando foi que o senhor teve a casa cheia de amigos sem nenhum interesse financeiro, hein? Eu cresci ouvindo os seus discursos hedonistas, o seu ceticismo vulgar e a sua má-fé na bondade alheia.
Lincoln — Ora, Moisés, não venha jogar a sua falta de sorte nos negócios em cima de mim. Você sim, é o único responsável por tudo que está lhe acontecendo. Se tivesse feito um trabalho mais bem elaborado, seu amigo Matheus não teria descoberto nunca o seu esquema. A culpa é toda sua!
Moisés(irônico) — É, acho que deve ser minha mesmo. O senhor não me ensinou o suficiente, né?
Lincoln — Por que continua a procurar um culpado quando na verdade basta se olhar no espelho?
Moisés — Tem razão! Não posso ficar aqui lamentando o ocorrido. (vai saindo)
Lincoln — Aonde vai?
Moisés — Vou lutar pelo meu ouro antes que aqueles esganados caiam em cima.
Lincoln — Que seu ouro! Aquele diamante não lhe pertence!
Moisés sai.
20 de novembro de 2011
Fragmentos
Acampamento. Exterior. Dia.
Elisa se afasta um pouco das barracas e caminha entre algumas árvores. Ela aproveita a luz do sol para tirar algumas fotografias. Sócrates se aproxima e a observa.
Sócrates(sorrindo) — O paraíso fotografando o paraíso.
Elisa(ri e o olha) — Que cantada ridícula! Olha, com essa eu posso até dizer que você ganhou o troféu das piores cantadas dos últimos seis meses.
Sócrates — Pelo menos eu ganhei alguma coisa. (sorri) Ah, colabora, gatinha! Eu não sei improvisar.
Elisa — Jura? Achei que Sócrates Mello soubesse mais do que afogar os companheiros no rio.
Sócrates — Olha, eu sei que você ficou com uma má impressão a meu respeito, mas eu gostaria de mudar isso.
Elisa — Sei! Deixa ver se eu adivinho. Pra mudar você me propõe um beijo e meia hora de sarro atrás de alguma árvore. Ah, pega outra, Sócrates!
Sócrates — Não, gatinha! Não é nada disso. Eu tô a fim mesmo de você. Ainda não percebeu? Eu tô amarradão!
Elisa — Diz isso pra todas as garotas?
Sócrates — Você é difícil, hein?
Elisa — Eu? Imagina! É que você realmente não faz o meu estilo.
Sócrates — E qual seria o seu estilo?
Elisa — Vai por mim. Não iria querer saber.
Sócrates sorri. Ana chega e olha desconfiada.
Ana — Sócrates! O que faz aí? Vão começar a trilha. Vem!
Elisa(sorrindo) — Vai com ela. Garanto que ela tem bem mais chance de te dar o que você procura.
Sócrates — Eu ainda volto.
Elisa — Acha que estarei aqui?
Sócrates sorri e se aproxima de Ana. Elisa observa.
Ana(enciumada) — O que ela queria com você?
Sócrates — Nada! Ela só me pediu umas dicas de fotografia.
Ana — E desde quando você entende disso? Eu já te falei que eu não quero você de gracinha com aquela César Tralli de saias. (bate de leve no ombro dele)
Sócrates — Para! Não bate!
Elisa sorri e volta a fotografar.
8 de novembro de 2013
Bem antes do útero
E naquela tarde, Pablo cruza com Marcelo na entrada do Pavilhão da
Reencarnação.
– Oi! Você por aqui... Vai reencarnar também? – pergunta Pablo.
– Não. Vim só pegar alguns dados do planejamento do meu primo –
responde Marcelo.
– Ah, tá. Tenho te visto pouco aqui. O que anda fazendo? Ainda ajuda na
produção do setor de alimentos?
– Só meio expediente. Sou concursando agora.
– Como?
– Estudo pra concurso público. Minha turma tem mais de cem alunos. Não viu
os outdoors? É aquele Aprovação Master com os professores que chegaram da
Colônia Bom Jesus do Sucesso.
– Não, eu nem sabia que havia concurso aqui no astral.
– Não. Não há.
– Então...
– É que pretendo prestar concurso pra analista da Receita
Federal em 2035 no Brasil. Os professores conseguiram ter acesso à maior parte dos
conteúdos que provavelmente irão cair nessa época e nos passaram.
– Nossa! Mas tá um pouco adiantada essa sua preparação, não? E se você
resolver seguir outra profissão quando encarnar?
– Não, não tá não. Minha futura tia se preparou com duas encarnações de
antecedência pra analista do senado. Dom Pedro Segundo ainda governava o
Brasil e ela já estudava aqui numa turma intensiva pra esse cargo. E eu já
planejei tudo. Com os conhecimentos que já obtive aqui, provavelmente eu consigo terminar o ensino médio com 14 ou 15 anos. Faço faculdade de
economia ou administração – porque não tenho muita afinidade com direito -, paralelamente
a um bom curso preparatório, e em seguida presto o concurso. Se eu tiver
sorte, passo no primeiro.
– Com toda essa preparação, é impossível não passar.
– Não é garantido. Só na minha sala tem uns quarenta que querem o mesmo
cargo que eu. E a tendência é a concorrência ficar cada vez maior. Mas eu tô me
preparando, se não for no primeiro, tento o segundo, o terceiro... E você? O que
pretende ser dessa vez?
– Ah... bom... Eu tô me planejando pra fazer filosofia, que é uma
ciência que tenho interesse.
– Eu não aconselho o setor privado. Ele é até bom pra quem tem
determinação, mas os resultados são a longo prazo, você só começa a ganhar bem
lá pelos quarenta, e ainda assim pode ir pra rua a qualquer hora. No
serviço público além da estabilidade, você tem a chance de ganhar bem antes dos
vinte e cinco. A geração que anda reencarnando agora tá toda focada nos
concursos. Se eu fosse você investia também. Bom, deixe eu ir. Minha aula
começa em uma hora. Sucesso pra você.
Marcelo sai. Pablo pensa um pouco e o chama.
– Marcelo! Se eu entrar na sua turma agora, será que eu ainda tenho
chance de conseguir técnico administrativo nessa encarnação?
TemaComentários07 textos
30 de abril de 2010
Preciosa Lucidez
Queria eu ter essa lucidez o tempo inteiro. Lucidez que me leva pra frente, que me mostra um caminho, uma saída, uma solução. Lucidez que me invade por preciosos minutos e me torna mais responsável, sensato, seguro, confiante. Se essa lucidez me fosse mais constante, trocaria os minutos de vazio, o caos do nada e das horas perdidas, em crescimento e produtividade. Mas ao passo que a lucidez se dissipa, o vazio existencial e a inércia da criatividade entram em ação manobrando meus movimentos e engessando a minha disposição para o progresso. Que ela fique e dure o máximo que puder quando vier e me erga do fim ao começo, da descida a subida, do tropeço a caminhada.
1 de maio de 2010
Em Algum Espaço
Aqui parado no meu apartamento, o ventilador ligado balançando a cortina e soprando as minhas costas, alguns papéis sobre a escrivaninha, escrevo a própria metalinguagem da sensação e dos desejos, as angústias, os anseios escondidos no mais profundo buraco da minha carcaça. Elton John curte esse momento comigo. Há pouco lavei a louça que eu mesmo cozinhei. Começo a compreender esse universo da culinária. Não sou ainda um expert, mas já consigo fazer um arroz com sabor e um feijão que me abre o apetite. Acho que poderia ter cultivado esse hábito há mais tempo. Acostumado a ter a comida pronta da quentinha todos os dias, não me interessava em aprender. Antes comia pouco e sobrava comida. Agora como tudo e quase nada se estrói.Passei o ferro em algumas roupas que lavei outro dia. Lembro de minha avó sempre que o faço. A observei passando com tanta delicadeza e precisão um pano de prato um dia, que às vezes tento imitar. O apartamento ainda não viu a vassoura essa semana. Mas ao menos a pia da cozinha está limpa e não há roupa suja pra lavar.
Alguns galhos de árvores se movimentam lá fora pela janela. A conta do condomínio e do banco me acenam da escrivaninha. Ao lado alguns pequenos retratos meus, da minha mãe e da minha avó comigo no meu aniversário de 6 anos. Elton John também embalou essa data. A música sempre presente. A amiga que nos leva longe e nos mantém aqui, seguros e inseguros do amanhã.
Por um momento parece que o tempo para. A sujeira na parede pelas marcas dos antigos calendários, o terço que meu avô fazia balançando no armador, o tapete no chão ao lado da cama, fragmentos de ideias numa cadernetinha, poeira pelo chão. Só momentos. Apenas flashes de instantes perdidos na imensidão do tempo.
Três domingos seguidos!! E nada pra fazer. Ainda bem que amanhã é segunda... digo, quarta, e a vida volta ao normal. Se o mundo fosse intermináveis domingos, seria uma eterna chatice.
17 de outubro de 2010
Perspectiva
E naquele dia fui ao banco. Fila cheia. Mais de cem na minha frente. Ausência de cadeiras vazias. Me acostei no chão ao lado da porta. Fiquei ali. De repente, algumas pernas começam a passar. Pernas gordas, pernas magras. Pernas curtas e compridas. Pernas apressadas, pernas lentas. Determinadas e confusas. Pernas em jeans, saias, bermudas, vestidos. Pernas em botas, sandálias, chinelos, sapatos, tênis. Pernas claras, pernas escuras. Silenciosas, barulhentas. Pernas lisas e peludas. Apenas pernas pra lá e pra cá. Um mundo de pernas. Uma infinidade de passos. Pernas que revelavam no caminhar o interior e o anseio de cada ser.
3 de dezembro de 2010
Sobre mar
As ondas do mar encontram as areias da praia e chocam-se contra as minhas pernas. O impacto frio e inebriante me atiça os sentidos, me tornando parte daquela vastidão. A água, o sal, as espumas... O sol a me tingir. Alguns barcos distantes da costa, entre os súbitos e inóspitos agitos das águas do oceano. A força e a violência do mar me tranquilizam o ser. Entre os abalos e a agitação encontro o equilíbrio da retomada, a válvula de escape dos medos e incertezas. Encontro o prumo.
8 de dezembro de 2010
Vâmo pulá!
Vim aqui agradecer a todos os comentários da minha última postagem “A arte do coração”, e claro, a Junior Lima que chegou até o Celeiro, só Deus sabe como, e ainda o indicou em seu Twitter. Preparava uma outra postagem quando coloquei para visualizar, e de repente o contador de estatísticas online saltou de 2 para 734. Achei que deveria ter alguma coisa errada. O contador tinha enlouquecido. Subiu pra 973 e alguns comentários começaram a surgir. Só podia ser vírus. Como poderia ser real que toda aquela gente estivesse no meu blog, quando nas estatísticas normais não passa de 3 online? Foi aí que descobri através de um dos comentários, que o Celeiro tinha sido indicado pelo próprio Junior no seu Twitter. Só mesmo uma indicação dele pra fazer chover tanta gente no meu blog. E inacreditavelmente o Celeiro marcou o record de 1606 pessoas online. Meus seguidores até aumentaram.
Confesso que foi um verdadeiro presente de natal que Junior me deu. Talvez merecido, depois de tantos anos de dedicação. Fiquei paralisado por alguns instantes, sem acreditar. Quando escrevi a postagem sobre o seriado Sandy e Junior não tinha a menor pretensão de que Sandy, Junior ou qualquer outro ator lesse. Na minha cabeça só minha mãe e mais uns três ou quatro amigos iriam ler, como de costume. Surpresa foi a minha quando percebi que milhares de pessoas estavam lendo e comentando suas impressões. Alguns anos atrás, eu teria feito qualquer coisa pra chegar perto de Sandy e Junior, ou mesmo lhes enviar uma linha de carta, só para saberem que existia. Mas eu era um pequeno grão de areia, como canta Sandy. E hoje, sem nenhum esforço, eu consegui chegar até Junior, a ponto dele se dar ao trabalho de fazer um comentário na sua página pessoal.
Fiquei maravilhado pelas mensagens que recebi de tantos fãs da dupla. Percebi que como eu, existem muitos pelo país, e até fora dele, que compartilham as mesmas sensações, pensam semelhante, colegas de chacotas por dividir um passado de dedicação tão intenso à dupla. Saber que consegui levar um pouquinho de felicidade, nostalgia ou mesmo a mais insignificante sensação a quem lia, foi gratificante. Li todos os comentários. Concordo com Giulianna quando disse que viver a realidade Sandy e Junior e ter seguido o seu padrão de comportamento, a sua inocência, a sua definição de família foi muito importante para nossa formação, ao passo que poderíamos ter vivido outra realidade e ter sim um motivo hoje de nos envergonhar. Minha amiga Kárem me lembrou hoje pelo msn, depois que eu dividi minha alegria com ela, do final da postagem “A arte do coração”, quando falo que o nosso verdadeiro destino pode estar escondido no passado e que só precisamos ir lá buscá-lo. Vejam só o que aconteceu depois que eu fui ao meu passado e resgatei a minha paixão pelo seriado. Literalmente sinto uma sensação louca de pular.
P.S.: Acabei de descobrir que a atriz Fernanda Paes Leme também leu.
3 de novembro de 2011
E já passou!...
Foto: Flávio Alves
De repente me vem aqueles flashes, um dia nublado, uma rua tranquila, os trilhos de uma ferrovia, um tênis surrado, chuva, frio, cobertor, o arco entre as nuvens, um banho de piscina, uma caminhada na areia, alguém numa oficina, praia vazia, gravações daquele filme, trilhas pelo mato, banho de mangueira, casa entre as árvores, camisa xadrez, lama no futebol, passeio de canoa, manobra no skate, buraco na areia, rapel, escalada, corredeiras, o banquinho de uma praça, pega-pega na calçada, guarda-chuva e pés molhados, rede na varanda, fotos com os amigos, passeios no Jeep, corte de cabelo, pipoca e fita cassete, exercícios no parque, mergulho com golfinho, bermuda e pés descalços, barro vermelho, novas amizades, jeans rasgados, tarde na fazenda, cozinha no domingo, bica no telhado, banho gelado, meia pra dormir, roupa molhada, barba por fazer, boina, óculos, suspensório, alongamento... Tudo isso por um instante me lembrou felicidade.
TemaCrônicas Cotidianas16 textos
20 de outubro de 2007
Ventos de Experiência
É difícil fugir do passado quando este segue deixando uma trilha de saudade. Experiências vão e vêm. Mas sempre é gostoso relembrar momentos felizes. Quando eu passo pelo Parque do Povo sempre que venho da faculdade e vejo operários e máquinas pondo a baixo a estrutura do que foi a maior feira já realizada na cidade, é inevitável a lembrança dos dias que mergulhei em um universo de grandes possibilidades e descobri as oportunidades que a vida oferece a quem se arrisca em seu próprio negócio. E como eu fui parar na Feira do Empreendedor?
Tudo começou numa tarde de segunda-feira quando os bons ventos da vida sopravam para uma tenebrosa e esperada reunião no Sebrae. Era o início de um estágio de um mês para Saskia, Silmara, Clara, Edimílson e eu. Fomos apresentados a Erialdo Pereira, o grande jornalista do estado e detentor de uma sábia experiência. Também conhecemos os competentes Valter e Renata. Era nosso primeiro contato e o que fosse sair dali, a ansiedade e a expectativa nos olhares de cada um encobria qualquer apreensão ou insegurança. Finalmente soubemos nossa missão. O Sebrae estaria promovendo na cidade a Feira do Empreendedor e nossa missão era criar um boletim com casos de sucesso empreendedor de Campina e fazê-lo “girar” durante a feira. Uau! Que fantástico! Mas será que alguém sabe ao certo o significado da palavra “empreendedor”? Sabendo ou não entramos de cabeça nessa. Ou melhor, de imaginação.
Para nossa tarefa contamos com a orientação da professora Fátima Luna. E a saga em busca dos vencedores da cidade tomou fôlego no dia seguinte. Em uma mesa redonda uma chave da manga de Erialdo abriu a sessão. Foram muitas idéias, várias discussões, jogadas, “compra e venda” de pautas. E uma lista de 10 profissionais de sucesso da cidade se formou. Parte II: divisão das empresas, pauta, entrevista, texto. Eh, vamos à luta! Fiquei responsável por duas empresas. A escola de informática Infogenius e a agência de segurança eletrônica Insiel (os textos na íntegra estão nas postagens logo abaixo). Para minha sorte a empreendedora da Infogenius, Jeannine Figueiredo era um doce em pessoa e a entrevista transcorreu melhor que o esperado. Agora era hora de colocar a cabeça pra funcionar e criar um texto agradável da história de vida de sucesso da minha entrevistada. Logo as idéias se formaram e saiu a primeira versão do texto. Entretanto, como diz Erialdo, nosso primeiro texto nunca é o definitivo, sempre podemos aperfeiçoá-lo e melhorar. E assim refiz uma! Duas! Três vezes! E perdi as contas de quantas vezes o reli.
Alguns dias depois, com quase todos os textos prontos era hora de decidir o nome do “garoto” que levaria nossas histórias ao público. Mais uma vez em volta de uma mesa vários nomes surgiram. Ventos de sucesso; Atitude empreendedora; Empreendedorismo em pauta; Bons Fluidos. E ninguém poderia imaginar que o nome escolhido seria um tão simples e que resumia tudo que a feira representava. Foi assim que surgiu o Catavento. Com nome definido e textos acabados, era hora de partir para as fotos. Tareb foi o fotógrafo encarregado disso e saiu com Saskia, Silmara e Clara para fotografar os estabelecimentos. Para minha infelicidade, os donos da Infogenius estavam viajando e a tão fantasiada foto de Jeannine sentada no colo de Fábio entre os computadores só ficou na imaginação. Porém, a galera teve que escutar esse meu discurso até o último minuto da feira.
Ah, e a feira!! Ela chegou e foi embora mais rápido do que imaginei. Como dizia seu slogan “Bons Ventos para o seu Negócio”, os ventos sopraram rápido demais e levaram a feira para outros horizontes. Lá, no Parque do Povo, eu e Clara trabalhamos com a equipe de Kamille e Arthur para a TV Sebrae. Conhecemos o grande jornalista Amim e os repórteres Morib e Syusk. Aliás, ficávamos impressionados com a desenvoltura de Syusk durante as matérias. Nós simples estudantes imaginávamos quando seríamos capaz de tal profissionalismo. Ao mesmo tempo em que brincava, ela mostrava sua competência e responsabilidade. Enquanto isso, Silmara, Saskia e Edimílson corriam atrás de notícias para alimentar o site da feira. E cá entre nós, correr ali dentro era uma aventura a parte. Tantas empresas expondo, palestras, desfiles, comida. Nossa! Tinha de tudo ali dentro. Até prática de escotismo surgiu no Açude Novo. Tareb estava lá para não deixar de exercitar o clique do dedo e Saskia para viver a emoção da matéria. E emoção foi o que não faltou nesses quatro dias de feira.
É, mas a brisa passou. A correria se foi. Os colegas de trabalho voltaram a se espalhar. Mas novas amizades surgiram e continuaram. Por isso passar em frente ao Parque do Povo e olhar o fim de uma história é dolorido e prazeroso. Sentimos falta daqueles dias agitados e de todos que estiveram conosco. Embora também temos a certeza de ter feito algo útil, além da experiência profissional e de vida que adquirimos. Cada viga, lona e stand que se desmonta conta um detalhe daqueles dias. Histórias que só quem esteve lá pode contar. A última reunião com nossa equipe aconteceu há dois dias e o clima de despedida reinava sem cessar na sala. O bom de viver uma experiência é que sempre ficamos mais seguros e mais maduros de conhecimento. Sabemos onde podemos acertar e onde melhorar nas próximas oportunidades. Afinal, se hoje sabemos mais do que ontem, amanhã saberemos mais do que hoje e assim se constrói a história. Num é isso, Erialdo?
1 de dezembro de 2007
Fora da Rotina
Situações novas e curiosas que quebram a rotina diária da sociedade são sempre dignas de grande interesse público, buscamos nela o diferencial para aquele dia, até mesmo o gás para nos manter fortes e com o papo em dia. O problema é quando isso envolve valores como respeito e solidariedade. Vinha de mais um dia de trabalho no Sebrae por volta do meio-dia, quando passei em frente à catedral da igreja católica e me deparei com o desespero. Uma multidão se formava em torno da calçada do supermercado Bompreço e tomando boa parte do asfalto. Alguns carros buzinavam.
Me aproximei curioso e perguntei a uma senhora o que havia acontecido. Ela me respondeu que um rapaz em uma moto tinha atropelado uma garotinha que cruzava a rua. Olhei para a calçada e pude ver a menina chorando ensangüentada e sentindo muitas dores. Um homem de aparência jovem falava constantemente com ela tentando mantê-la consciente. Outra senhora protegia a menina do sol com seu guarda-chuva. Me afastei um pouco e fui até a pista onde o garoto que havia atropelado a menina estava deitado no chão. Lá encontrei outra confusão. Um homem queria levantar o garoto e levá-lo para o hospital, enquanto que uma mulher gritava eufórica dizendo que ele devia permanecer ali, que não podiam movê-lo ou poderia complicar seu estado.
Fiquei observando a situação. O garoto se contorcendo no asfalto quente e aquelas pessoas em volta discutindo. Chegaram até a chamar a senhora de louca. No fundo acredito que ela tinha mais razão do que os outros. Mas logo a unidade do SAMU chegou e a situação se acalmou. Eles agora resolveriam a problema. E cada vez mais gente se aproximava. Havia aqueles que apenas olhavam curiosos, como se estivessem diante de uma atração de circo, tinha aqueles solidários, que buscavam o que fosse preciso para ajudar os paramédicos e aqueles como eu, que olhavam com um interesse por trás: divulgar! É, um repórter chegou lá e fotografou o garoto deitado na pista como se fosse o grande “furo” do dia. E o garoto o olhava estranho como quem dissesse: “eu não acredito que esse cara tá me fotografando nessas condições”, e ao mesmo tempo imaginava: “eu vou sair no jornal”.
Minutos depois outra unidade do SAMU chegou e preparou a maca para imobilizar o garoto. Enquanto isso, a menina era atendida pelos outros paramédicos. De repente notei que ela segurava a mão de uma mulher sem soltar, foi quando ouvi uma senhora pronunciar atrás de mim que se tratava de sua mãe. E logo percebi um homem extremamente zangado e reclamando em alto tons que a mãe da menina quase a matava deixando-a correr solta pela rua. Era o pai tentando encontrar um culpado para a fatalidade. E o tempo passava. Nessas alturas o trânsito já estava completamente paralisado. Algumas pessoas tentavam conter a aglomeração de gente sem grandes resultados.
Foi quando decide me afastar e seguir meu destino. O rapaz já entrava na ambulância e logo mais a menina também. A vida seguiria seu curso e mais alguns minutos apenas as conversas de curiosos restariam no local. Então olhei por mais alguns segundos e fui embora. Certamente um grande acontecimento na cidade, coisas que não se vê todo dia. Fui ao shopping sacar dinheiro no caixa do banco e minutos depois saí e me dirigi a um restaurante para almoçar. Descendo em busca da praça Clementino Procópio percebi que havia uma outra multidão atrapalhando o trânsito ao lado do Shopping Edson Diniz. Pensei: “outro acidente? Seria possível?”. Corri mais que depressa para o local e vi outra unidade do SAMU parada na contra-mão e várias pessoas em volta. Perguntei a uma mulher o que se passava. E fiquei mais surpreso com a resposta. Uma unidade do SAMU que vinha socorrer as duas vítimas do acidente de moto mais acima, saiu na contra-mão para escapar do engarrafamento provocado pelo acidente e acabou atropelando uma senhora.
Realmente, era algo raro na cidade. Daqueles tipos de coisas com efeito dominó. Uma senhora que seguia sua vida e não tinha nada a ver com o acidente de mais cedo, agora sofria as conseqüências da desconstrução de uma rotina diária. Essa senhora eu já não pude ver. Quando cheguei já haviam a colocado dentro da ambulância, mas como aquela unidade não poderia sair dali porque a perícia tinha que fazer o reconhecimento, tiveram que esperar outra unidade. Quatro unidades descoladas para um mesmo local em um único dia. Agora não me controlei, tirei o celular e bati uma foto. Precisava registrar algo. Porém, a memória do meu celular estava cheia e só consegui registrar uma cena.
Quando a outra ambulância chegou, transferiram a mulher para ela. O momento da transferência foi como se o papa saísse na janela do Vaticano e acenasse. Todos correram para olhar e se espremeram para conseguir ver pelo menos a maca que estava com a senhora. Nessa hora tentei subir no prédio do shopping para conseguir uma foto de cima, mas os imensos galhos de árvores não tornaram a visão muito privilegiada. Depois disso, fui almoçar. E não consegui deixar de pensar em tudo o que vi. Claro, acidentes acontecem diariamente, e mesmo que não sejam tão freqüentes em determinadas cidades, fazem parte do ritmo frenético de vida que vivemos. Mas o que me chamou a atenção foi a atitude de cada um em relação ao fato. Pude presenciar pessoas que realmente sabem o significado das palavras doação e compaixão. Vi pessoas que tratavam tudo com muita naturalidade e com grande desespero. E havia quem até risse com tudo aquilo. Somos muito imprevisíveis e a vida constrói diariamente nossas atitudes e emoções. Só um detalhe não podemos fugir. Em situações como essas todos desfrutamos do mesmo desejo inconsciente e instintitivo: ver e divulgar!
14 de janeiro de 2008
Noite de TOC
Quem sofre de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) sempre vive passando por situações inusitadas e embaraçosas, mas algumas vezes elas chegam a ser divertidas. Fazia pouco mais de um ano que eu havia me mudado para aquele apartamento no bairro de Lagoa Seca em Natal e lá eu tinha poucos conhecidos. No meu andar lembro de uma morena alta que morava quase a minha frente e sempre saía de salto alto e muito perfumada. Eu sabia exatamente a hora que ela chegava toda noite porque o som dos seus sapatos subindo as escadas anunciava a sua chegada desde o primeiro andar.
Havia também uma jovem meio problemática que morava com seu pai. Quase todas as noites ela ficava com o namorado nas escadas que davam para o terceiro andar. O pai dela chegou uma vez a ligar uma panela no fogão e cair de bêbado na cama. Os vizinhos que tiveram que intervir para que não acontecesse o pior. E lá também tinha o seu Wilson, o meu vizinho da esquerda. Ele era como um porta-voz do proprietário do prédio. Sempre que alguma coisa estava fora de ordem ele era o primeiro a falar com o dono. Minha mãe foi muitas vezes bater na porta dele quando faltava água no prédio ou atrasava a conta de luz. E ainda tinha o seu banho perfumado que enchia o nosso apartamento com o perfume dos xampus e sabonetes que usava.
Mas seu Wilson tinha uma peculiaridade que os outros não tinham. Ele era inseguro e apreensivo. Morava sozinho e cumprimentava todos do prédio sempre apressado e parecendo esconder um certo nervosismo. Certa noite, aconteceu algo que ficou comprovado a sua insegurança. Era por volta de 10h30 da noite e A Diarista divertia o meu fim de noite. Durante um intervalo saí para escovar os dentes e apagar as luzes. Quando estava apagando a luz da cozinha o programa retornou e eu mais que depressa passei a chave na porta, e para não perder nada do seriado, fiz a certificação básica do TOC, ou seja, sacudi a porta para lá e para cá algumas vezes para ter certeza que estava fechada. Só que fiz muito rápido e o barulho também foi maior.
Alguns minutos depois o programa terminou e eu fiquei procurando algo para assistir em outros canais, até que de repente ouvi uma estranha movimentação no corredor do prédio. Como diria Márcia do Zorra Total, era “um vucu-vucu”, e eu me aproximei da porta, olhei pela frecha da cozinha e vi um homem passar com um uniforme onde estava escrito “Polícia Militar”. Pensei: “polícia? O que houve?”. Só aí notei outro policial e uma vizinha na porta de seu Wilson que enfatizava com precisão para o policial: “estava aqui, eu ouvi, eu estava dormindo quando alguém forçou a porta ali do vizinho e depois forçou a minha”. Eu disse: “pronto, foi meu TOC!”.
Eu não sabia o que fazer. Dois policiais revistavam o prédio à procura de um ladrão que morava ao lado e sofria de transtorno obsessivo. Um engano! Um terrível engano que movimentava a noite dos moradores do edifício. Pensei se saía ou se ficava ali. Resolvi abrir a porta e perguntar o que estava acontecendo como se não soubesse. Seu Wilson olhou para mim assustado e me informou que um bandido tinha tentado entrar no apartamento dele. Um dos policiais me perguntou se eu havia visto alguma coisa e eu disse que não. Os policiais procuravam em todos os locais possíveis e não viam nada. Claro, não tinham mesmo como encontrar. Foi quando um deles passou por mim e me perguntou em gestos se seu Wilson era doido. Fiquei sem ação e fiz gestos como se não soubesse.
Fiquei acompanhando as investidas dos policiais pelo escape de acesso ao terraço, conferindo as fechaduras das portas para ver se tinham sido forçadas e ouvindo os c0mentários assustados da minha vizinha morena que dizia: “meu Deus, ladrões aqui no prédio, e eu pensei que aqui era tão seguro”. Eu não podia contar a verdade ali. Afinal até eu já estava acreditando que um bandido tinha forçado mesmo a porta de seu Wilson. E como uma história sempre gera outra, a vizinha da direita informou que o portão de baixo estava aberto mais cedo e que viu uns garotos estranhos dentro do prédio. Pronto, a invasão já tinha até suspeito. Os policiais perguntaram como eram os garotos e ela ficou lá descrevendo. Fiquei me encolhendo ali naquela história e pensando que eu não podia ter gerado tudo aquilo com uma simples verificação de TOC.
Passados alguns minutos os policiais se certificaram que não havia nada de errado e foram embora. Eu entrei e fui tentar dormir. Na manhã seguinte acordei e fiquei pensando na loucura da noite passada. Me encontrei com o seu Wilson no corredor e ele me perguntou novamente se eu não tinha escutado nada porque os policiais estavam achando que ele era maluco. Ele veio me dedilhar todos os detalhes e me fazer sentir mais culpado ainda. Foi quando soube o mais absurdo de tudo. Os policiais estavam passando de moto pelo local quando seu Wilson gritou da janela por eles. Disfarçadamente saí dali e fui para o meu curso.
Contudo, descobri que pequenos detalhes podem movimentar o mundo. Um gesto corriqueiro e pessoal meu poderia determinar o futuro do condomínio. Ele agora poderia ficar conhecido como um prédio inseguro, o que afugentaria novos moradores, como também poderia fazer os atuais moradores serem mais cuidadosos ao passar e trancar o portão de baixo. Mas nem assim consegui deixar de me certificar de fechar a porta todas as noites, só que agora lembro sempre do que aconteceu naquela noite e para evitar um possível “vucu-vucu” com resultados bem piores, eu tento não fazer tanto barulho e penso que podem existir outros seu Wilson por aí que não sejam tão amistosos e não levem fama de malucos para salvar minha pele.
31 de março de 2008
Carta Social
Alguém já parou para pensar porque existe o termo carta social nos Correios e qual a sua função específica? Basicamente, ela existe para atender as camadas sociais que não detém meios de pagar pelo envio de uma carta. Mas ainda existem regras que determinam quando uma carta pode ou não ser enviada como social. Questões de pesos, remetentes físicos e não jurídicos. Claro, que existem aquelas pessoas oportunas que utilizam o termo “social” na correspondência para enviar uma carta ao valor de um centavo. Minha namorada pode-se dizer que já entrou nessa onda.
Não é de hoje que Ingridy costuma ter atitudes que me surpreendem e que fariam minha prima Ana Carla enfiar a cabeça no primeiro buraco que encontrasse. Numa dessas vezes, ela ousou brincar com o maior pombo-correio brasileiro, os próprios Correios. Quando eu estudava em Natal entre os anos de 2003 e 2004 costumava escrever sempre para ela. A internet ainda não dominava as nossas vidas e os Correios era parada obrigatória pelo menos uma vez ao mês. Costumava escrever aos domingos e quase sempre ficava a tarde toda relatando os meus dias e sonhando com futuros indefinidos. Ela costumava dizer que eu escrevia livros a cada carta. Eu chamava de jornais. Enfim, era muita vida nos papéis.
Certa vez, na fila dos Correios de São Miguel, enquanto esperava para respostar uma de minhas cartas, Ingridy ficou atenta para um fato que ocorreu com uma Irmã que estava à sua frente. Na verdade a Irmã desejava enviar uma carta com a definição “social”, mas como estava postada com o pré-nome Irmã, ela não poderia enviar assim. Isso ativou os olhos e os ouvidos de Ingridy. Ela descobrira ali a mina da fortuna dos Correios.
Sempre querendo desafiar o sistema, a primeira coisa que fez quando chegou sua vez de ser atendida, foi pedir uma caneta ao atendente. Ela escreveu “carta social”, olhou sorrindo para ele e entregou a carta com uma pergunta mais que retórica: “quanto te devo?”. Sem troco para ela, Ingridy o informou que ele estaria devendo 4 centavos a ela e que ainda iria cobrar.
Assim a carta chegou ao seu destino, ou seja, eu!! Ingridy então me contou numa empolgação só que eu também poderia enviar cartas pra ela pagando “um centavo”. Eu já havia ouvido falar sobre esse tipo de correspondência, mas nunca ousara enviar, até porque com a quantidade de papel que escrevia, seria barrado na hora. Mas ainda assim, resolvi arriscar. Então na minha próxima correspondência escrevi “carta social”, cheguei aos Correios, olhei para a atendente e entreguei a carta. Depois de olhar e conferir a definição, ela não só passou a carta como me devolveu os 4 centavos. Isso mesmo! Ela me devolveu os 4 centavos em forma de selos. Bom, querendo ou não, se eu poupasse os papéis, teria dinheiro garantido para mais quatro cartas.
Já Ingridy em São Miguel preparava sua divertida brincadeira comigo através dos Correios e que me faria ver que dela não se pode duvidar nada. Assim ela escreveu 10 cartas com o mesmo destino, apartamento 203, Lagoa Seca, Natal e foi aos Correios. Todas estavam assinadas como “carta social”. Seu sorriso na fila já dizia o que aprontaria. Ela entregou as cartas e lembrou ao atendente dos quatro centavos da última carta. Sua estratégia a fez enviar as 10 cartas por menos de 10 centavos.
Enquanto eu despertava numa bela manhã e abria a porta do apartamento para sair, Zezinho, o zelador do prédio, me informou que havia chegado algumas cartas para mim. Estranhei o termo no plural, mas fui convencido quando o vi retornar com 10 cartas nas mãos. Fiquei espantado. Não mais que ele quando olhou para mim. Sua primeira pergunta foi se eu havia me tornado famoso e ele não sabia. Eu sorri e entrei. As cartas estavam assinadas em nomes diferentes. Na verdade eram os nomes dos pares românticos das histórias que escrevi.
Foi uma situação inusitada, divertida e desafiadora. Ingridy havia se utilizado de um recurso dos Correios para brincar. Quem não gostaria de abrir a sua caixa de correspondência numa determinada manhã e encontrar 10 cartas de uma mesma pessoa para você? Pelo menos um sorriso elas conseguiriam nos arrancar. Seria uma prova, uma loucura de amor. Dessas que a gente guarda apenas com o coração e com um sorriso. Sua intenção era enviar uma carta a cada manhã, para que cada manhã uma carta chegasse para mim, mas como os malotes têm dias definidos para sair de São Miguel, enviou as 10 de uma só vez. Ainda assim, a brincadeira virou história e entrou para o baú das aventuras secretas de Ingridy e Samuel.
7 de abril de 2008
O Objeto Estranho
Uma sinfonia dos céus me levava pelas ondas tranqüilas dos oceanos. Olhei do lado e vi o azul fechado que escurecia o dia. De repente o perfume da terra sobe pelas minhas narinas e me faz contrair os músculos numa tentativa de fuga e ao mesmo tempo de permanecer ali, entre aquelas montanhas de prazer, por um longo tempo. Mas era hora de descer das nuvens e encarar o piso gelado. Que nada! Dane-se o mundo! Vamos velejar mais um pouquinho. Quem sabe até uma outra eternidade. Seria incrível. Mas, ela durou exatos cinco minutos, quando fui arrancado da brisa das montanhas e jogado nas pedras duras, desfiladeiro abaixo.
Era outra sinfonia que me trazia à realidade, mas dessa vez não vinha dos céus, estava ali ao meu lado. O som permanecia como quem insiste para sairmos de algum transe. Não devo retornar. Não hoje! É meu dia. Mereço subir outras montanhas ao som das gotas da satisfação e do aconchego da liberdade. O som não parava. Era preciso descobrir de onde vinha e lutar contra ele. Minha mão atingiu forçadamente a placa que protege os algarismos que não param de rodar. Por que o barulho não some? Vou destruí-lo! Pára! Depois de algumas tentativas falhas, percebi que o som não vinha da placa.
Um objeto de formato retangular com bordas arredondadas gritava desesperado sobre o rochedo da aflição. O que ele queria? O que aquele barulho queria me dizer? Uma luz branca saía de uma cavidade no centro do objeto. Estaria com fome? E de onde vinha aquele barulho? Aos poucos minha mão se arrastou até próximo daquele elemento que já não parecia tão gigante e sumia completamente entre a palma da minha mão. Parecia ter vida própria e se mexia entre meus dedos. De repente passei a sentir leves choques e percebi que ele estava irritado. Que tipo de força mais teria? De onde veio aquele ser? De alguma ilha escondida entre os oceanos?
O barulho agora parecia maior e invadia todo o espaço. Já quase não ouvia mais a sinfonia dos céus, nem sentia o perfume da terra. O que afinal estava aos poucos me forçando a abandonar minhas montanhas e perder a brisa das águas claras? Arrisquei encostar minha mão novamente naquele ser. Fui tomado por outras sessões de eletro-choque. Tortura! Era isso o que ele estava fazendo comigo. Mas tinha que me decidir. Já estava quase descendo as montanhas e precisava parar aquele som se quisesse permanecer na calmaria. Foi quando o arranquei violentamente do rochedo e o aproximei de mim.
O barulho ficou quase insuportável. Sua luz branca da cavidade central queria me ofuscar. Mas não me intimidei. Encontrei uma abertura e comecei a abri-lo sem dó. Foi quando encostei meu dedo em outra luz verde que parecia ser seu veneno e de repente comecei a escutar bem distante a voz da minha namorada. O quê? Ela está aqui? O ser emitia sons de pessoas. Aproximei-o do meu ouvido e escutei: “Bom dia, mo, feliz aniversário!”. Ah, finalmente como a fração de um meteoro caindo no espaço, retornei ao meu quarto, à minha cama, me dei conta do celular que estava em minhas mãos e não só agradeci como também a parabenizei também pelo dia que é nosso. Em seguida me levantei, olhei a chuva que caía da janela e fui tomar banho para iniciar mais um dia de jornada.
24 de abril de 2008
“A ‘psicóloga’ está?”
Os complexos mecanismos que compõem a lógica da vida moderna, interferem diretamente na vida pessoal de cada um. O desgaste físico e psicológico afeta o equilíbrio do ser humano e por isso, não raramente, são evidenciadas crises de estresses de altos níveis. Nessas horas recorremos às mais inusitadas saídas para driblar a tensão e continuar na “roda-dança”. Daí a sobrevivência de um profissional que admiro de coração: o psicólogo. Ele entra em cena para acalmar os ânimos e dizer: “ei, você não está sozinho no mundo”.
Quando criança escutava dos mais velhos que psicólogo era médico de doido. Uma relação leiga que se estabeleceu pelo trabalho do profissional voltado para a mente. Porém, o psicólogo nem é quem lida especificamente com os doentes mentais. Nesses casos surge a figura do psiquiatra, que trata através de medicamentos, ao contrário do terapeuta que apenas trabalha ao longo dos anos, a mente e as emoções do paciente. Bem, essas teorias perdem logo as facetas quando nos deparamos perturbados com os conflitos sociais.
Havia perdido mais de 10 kg em 3 anos e 3 kg em apenas dois meses. O desgaste emocional, ocasionado pelas mudanças bruscas de moradia, estavam me desviando dos principais objetivos daquele ano. Era ano de vestibular, o cursinho apertava o juízo e os problemas particulares me perturbavam ainda mais. Me vendo naquela situação deprimente, minha mãe decidiu procurar um psicólogo para mim. A idéia me pareceu bastante confortadora, apesar do “money” que íamos desembolsar.
Pouco tempo depois, estava eu para minha primeira consulta com a doutora... Pronto! Aqui que começa o problema. Foi uma fração de segundo e a doutora pronunciou pela única vez o seu nome. Algo semelhante a Gemima, Germina, Germana, Agemima, assim. Encabulado com tanta situação me preocupando e ansioso demais para pronunciar um “A” naquele dia, não perguntei novamente o nome dela, nem encontrei nenhuma plaquinha que me ajudasse a esclarecer as idéias.
Nossas consultas não duraram mais que 4 meses, uma vez por semana. E nesse período evitei ter que chamá-la ou mesmo perguntar novamente o seu nome. E quanto mais o tempo passava, mais difícil ficava de fazer essa pergunta. Quando tinha que ligar algumas vezes para a clínica para saber se poderia trocar de horário, perguntava sempre pela “psicóloga”. E quando me encostavam na parede para saber de qual estava falando, balbuciava algo do tipo: “ggggiiimima”. E mesmo quando elas pronunciavam o nome correto naquela – “ah, fulano?”, eu não conseguia entender. Minha mãe a chamava de Argemira.
Uma vez tentei procurar o nome dela na lista de consultas da recepcionista, esquivando o olho a ponto de o virar quase em um ângulo de 180º. Mas nem toda essa acrobacia visual permitiu decifrar esse mistério que me assolava o juízo. Cheguei a puxar conversa com outros pacientes para saber se também se consultavam com ela para que pudessem citar seu nome, mas não tive a sorte de encontrar ninguém que fizesse terapia com ela naqueles horários.
Assim, os meses foram se passando. Fui conseguindo desabafar, expor as minhas mazelas, os meus aborrecimentos e alegrias, mas só não conseguia dizer que não sabia o seu nome. Na verdade, acho que essa aventura serviu para me descontrair um pouco mais e me ajudar na saída do poço. Uma vez levei uma cópia da fita do filme que fiz “A Aventura Está Lançada” para que ela pudesse assistir e comentar comigo as emoções que passei na época. Bem, isso ainda foi quase no início das sessões e até a última semana ela ainda não havia assistido todo.
O ano acabou e minhas sessões também. Não passei no vestibular naquele ano. Acho que os problemas acumulados ao longo dele foram maiores do que o conhecimento assimilado. Enfim, mas estava recuperado para um novo desafio. Quando as aulas retornaram ainda fui falar com Gemima, Germima, Agemima... , acreditando que ela iria me devolver o filme. Ela havia esquecido. Bom, depois desse dia não há vi mais. A fita ficou com ela. Se ainda a tem hoje e terminou de assistir algum dia, não faço idéia, mas também não tenho nem mais cara de ligar para a clínica para perguntar novamente pela “psicóloga” e me enrolar outra vez em um novelo de lã quando elas me perguntarem –“qual?”.
25 de abril de 2010
Abelha na Janela
Recomeçar! Abrir novamente as portas para o futuro. Dar-se uma nova chance. Tentar ousar. Buscar novos desafios. Se encontrar. Aprendi e espero nunca mais esquecer, que após uma noite de tempestade, o sol sempre brilha pela manhã. E a tempestade pode durar uma noite, uma semana, um mês, um ano, não importa, no final sempre se dissipará. Algumas vezes as tempestades são essenciais na caminhada, nos guiam para o rumo certo, nos distancia um pouco também, mas já não somos os mesmos aos primeiros raios do sol.
Não se percebe da noite para o dia quando a mudança acontece, nem determinamos que a partir do dia seguinte seremos outra pessoa. Existem movimentos externos e principalmente internos que nos impulsionam na direção da retomada. De repente, sente-se uma necessidade de buscar novos sentidos, de vivenciar novas emoções, de caminhar sozinho ao lado dos que te cercam e em busca dos verdadeiros ideais.
Certa vez estava pensativo na cama do meu quarto, quando observei uma abelha que entrou pela janela rapidamente. Ela deu um vôo pelo quarto e partiu em busca da janela novamente, porém, acabou se esbarrando no vidro e passou a lutar insistentemente em busca da saída. A liberdade estava ali, bem na sua frente, mas ela não conseguia atravessar aquele obstáculo que a impedia de ser livre. Fiquei observando. Ela tentava ir por todos os lados, mas quando se aproximava da base de alumínio, onde mais adiante poderia encontrar a saída, ela voltava, achando que por ali não sairia.
Essa maratona durou alguns minutos. Eu então me levantei e me aproximei da janela. Comecei a bater pelo vidro de fora, tentando indicar o caminho da saída, falava com ela como se ela pudesse me compreender, queria lhe devolver a liberdade, mas não poderia fazer sozinho ou ela me picaria, e por mais esforços que eu fizesse, dependia somente dela sair dali. Ainda tentei pegar um copo, encostar no vidro com ela dentro, fazê-la caminhar por ele e levá-lo até o vento. Mas não obtive muito sucesso. Ela caminhava um pouco pelo copo e quando eu ia tirar para levá-lo até a saída, ela voava e voltava para o vidro.
Finalmente, depois de todo o estresse que eu havia lhe provocado, tentando tirá-la de lá, a abelha caminhou na direção certa pelo alumínio e ao encontrar o vento desapareceu como um foguete, desfrutando de sua liberdade novamente. Aquilo me deixou feliz. No momento não entendi bem direito, mas depois compreendi que aquela cena representava mais do que uma simples abelha perdida encontrando a saída. Há momentos na vida em que ficamos presos como a abelha, sem encontrar uma saída, e por mais esforços que façamos não conseguimos transpor a barreira que nos impede de alcançar a nossa liberdade, que muitas vezes está bem ali atrás do vidro.
A nossa esperta abelhinha conseguiu encontrar o caminho certo porque não parou um segundo sequer de tentar buscá-lo. Seus esforços aliados às minhas tentativas a guiaram no rumo correto. Assim, a saída dela não é apenas a sua saída, é o resultado de todo um esforço concentrado nesse objetivo. Então, como havia dito, quando decidimos mudar, retomar algo, recomeçar uma história, não é uma decisão aleatória, é fruto de uma intensa luta que travamos conosco, sem a qual jamais encontraríamos de novo a liberdade. É preciso ser uma abelha, desejar sempre a saída, mesmo com os desafios encostados no nosso rosto, para quando alcançarmos o vento, sair fortemente voando em busca do infinito.
2 de junho de 2010
Observando...!
Um mundo de pedrinhas brancas ao longe. Alguns carros parados em fila indiana logo abaixo. O verde das plantas e o azul da piscina se destacam entre o branco e o vermelho das telhas. Um carro passa e derruba um rolo de papelão vazio. Outro em seguida passa por cima e o lança na rua abaixo. Dois rapazes se aproximam e um, olha com o pé. Um ônibus atravessa uma avenida distante à direita. Um garoto cruza a rua de bicicleta. Uma mulher passa apressada com uma sacola nas mãos.
Aqui dentro, o elevador abre. Dois homens elegantes saltam conversando. Uma mulher com criança no colo espera o próximo. Duas moças da limpeza saem pela porta de emergência e recolhem o lixo do corredor e dos banheiros. O elevador abre e a mulher com a criança entra. O elevador fecha.
Uma carroça com um homem e um garotinho atravessa a rua principal. Um flanelinha ajuda um senhor a estacionar o carro. Do outro lado, um fogo acompanhado por uma intensa fumaça se espalha nos limites da mata. Um homem se movimenta próximo. Outra carroça passa no local. Muito lixo perto. A piscina continua silenciosa lá embaixo.
O elevador abre novamente. Ninguém desce. Uma mulher sai de uma sala do outro lado com uma menina. A garotinha corre na frente até o elevador e aperta o botão. Lá embaixo, um senhor pára no meio da pista sem rumo. Ele olha para os lados, pensa e finalmente toma uma direção. Uma moto passa com uma garota de capacete rosa na garupa. O fogo cessa. Um avião cruza o céu ao longe. Uma moça rega o jardim de sua casa.
Aqui dentro uma mulher fala ao celular e depois acende a luz. As estrelas começam a brilhar nas pedras. O céu ainda clareia, mas na terra muitas estrelas amarelas já brilham. Carros continuam a passar. Corredor vazio. Silêncio.
20 de setembro de 2010
Detector de estresse
Odeio portas-eletrônicas de bancos, e parece que elas me odeiam também. Não há uma única vez que tente passar por elas, sem que aquela voz irritante da máquina diga: “objeto metálico, por favor, volte e coloque ao lado”. Acho que eu poderia passar pelado que ela ia dizer a mesma coisa. E lá vamos nós. Deixa celular, trava, volta; deixa chaves, trava, volta; deixa óculos, trava, volta. Estava com a mochila carregada de compras que tinha feito antes no supermercado. O gerente me olha como um sujeito suspeito. A mulher atravessa a porta e me pede pra abrir a mochila pra ver o que tem dentro. Claro, né? De repente eu poderia ter uma bazuca e sair atirando em todo mundo lá em cima, inclusive em todos os seguranças armados, depois de roubar todo o dinheiro do banco, né? A vontade era de jogar a mochila contra aquela porta de vidro e esfregar tudo que tinha dentro nas fuças daqueles seguranças, que se acham os “maiorais” por portarem uma arma na cintura e um colete à prova de balas. Mas como tinha que entrar lá, abri a mochila e mostrei minhas potentes armas de última geração: um pacote de biscoito cream-cracker, duas latas de leite desnatado, oito potinhos de Yakult, um guarda-chuva, uma garrafinha d’água, uma boina, um estojo de lente de contato, estava disposto a retirar tudo das sacolas e até abrir as embalagens, tamanha era minha revolta, quem sabe dentro de uma lata de leite eu não escondia quilos de munição, e o guarda-chuva era na verdade um fuzil M16.
Contudo, vendo que nenhum desses objetos era suficiente pra realizar um mega assalto, a segurança liberou o suspeito. Era hora de cruzar novamente a alfândega. Fui pela porta de saída pra não haver risco dela travar de novo, contudo... porém... todavia... entretanto... ela travou!! Novidade seria se não o fizesse. Finalmente depois de voltar e entrar de novo, consegui penetrar o solo “sagrado” daquele recinto e seguir a minha direção. Na volta, claro, ela nem se importou comigo. Óbvio, se eu não usei a bazuca lá dentro, saindo é que não iria usar.
14 de outubro de 2010
Bastidores do censo
O Censo 2010 acabou. Quem foi recenseado, foi. Quem não foi vai ter que se somar às estatísticas do IBGE. Me lembro de que quando criança devo ter presenciado alguma entrevista do censo em minha casa. Olhos curiosos ao que perguntavam. Achava bonitinho a gente ter que responder de que cor era, quantos cômodos havia na casa, se tinha geladeira, televisão, videocassete... De alguma forma sabia que estavam contando o país. Cresci ligado à geografia, aos atlas, vendo as estatísticas que o IBGE fornecia desde a vegetação ao turismo. Mas nunca havia eu mesmo respondido ao censo. E de uma maneira ou de outra, sempre simpatizei com o trabalho dos recenseadores. Achava interessante ir de casa em casa fazendo perguntas pessoais aos moradores. Então eis que o Censo 2010 não só me possibilitou responder sozinho ao IBGE, como fui a campo, ou melhor, aos domicílios particulares permanente ocupados entrevistar os moradores.
O compromisso que tomei comigo mesmo era de ser simpático, colher as informações corretamente, esclarecer os moradores e dar o melhor de mim para ajudar na construção de um novo retrato do país, que eu poderia ver no próximo atlas e saber que fui contribuinte com as informações daqueles dados. Bom, com esse pensamento teve início minha caminhada. Comecei me atrapalhando nas primeiras entrevistas, ficando receoso de verificar certos dados e constatando que lidar diretamente com as pessoas seria mais complicado do que o imaginado. A simpatia durou até a segunda esquina e o primeiro domicílio fechado. E havia horas que sentia vontade de dar uma sacudida no morador pra ver se o esclarecia. Descobri que a cor do brasileiro é o “moreno”, moreno claro pra ser exato, como afirmou insistentemente uma senhora que não se encaixava nas cores que o IBGE sugeria. Alguns reclamavam das perguntas serem demais, outros de serem de menos. Questionavam a necessidade de certos quesitos: “saneamento básico? Tá muito ultrapassado”, reclamou uma moradora.
Desculpas eram frequentes. Falta de tempo. “Volte outra hora”. “O que é isso?”. “E o que é IBGE?”. “Isso serve pra quê?”. Tentei ser prestativo e persuasivo o suficiente para não ter que voltar outro dia, nem perder a paciência. “Essa hora?”. “Desculpe, mas durante o dia não tem ninguém em casa”. Entrevistei por interfone, com morador na janela do primeiro andar, bati palmas, bati em portas até minhas falanges mudarem de cor, berrei em prédios fechados, apertei campainha pra toda uma infância de travessuras, deixei bilhetes embaixo de portas, peguei gente de toalha, de pijama, pelado, segurei bebê no colo, recebi cuspe de criança falando em cima de mim, entrei em ambientes sombrios, me confundiram com ladrão e fui recepcionado por muitos amiguinhos peludos. Fazendo justiça, muitos cães se mostraram bem mais evoluídos que seus donos no quesito recepção. Fiz até amizade com alguns que me avisavam se seus donos já estavam em casa. No meio disso tudo estava apenas um recenseador que precisava concluir seu setor.
Depois de algum tempo as perguntas saíam automaticamente. Eu acionava o piloto automático e seguia: “o domicílio é próprio? quantos banheiros existem? morava alguém no exterior...? 31 de julho de 2010?...” E por aí seguia. Peguei muitas famas no serviço de moto-táxi, já que em várias ocasiões quando tive que trabalhar à noite, dava pontos diferentes como referência. A princípio fui o evangélico devoto da Universal do Reino de Deus. Cada noite era morador de um edifício novo. Às vezes pedia que me pegassem em postos de gasolina ou em esquinas. Batendo ponto? Deviam pensar, tendo em vista o ambiente em volta ter sua fama própria. Vi um pouco a cara do país nas pessoas que me recebiam. Encontrei gente hospitaleira, simpática, dedicada em contribuir para as estatísticas e encontrei gente indelicada e arrogante que respondiam àquele pobre recenseador como a um favor. Diversos tipos passaram pelo meu caminho. Diversas situações. Me surpreendi uma noite quando descobri que a mulher alta que entrevistava, na verdade era um “menininho”, como se definiu ao se referir ao seu nome masculino.
Aos poucos, na correria, na impaciência, na pressão do tempo, fui descobrindo que o trabalho dos recenseadores não era simplesmente entrar nas casas perguntando isso e aquilo. Consistia na verdade em um grande aparato que envolvia não só a minha disposição em perguntar, como a disposição dos moradores em contribuir. A falta de esclarecimento das pessoas em relação ao censo e ao IBGE foi bem maior do que pensei. Descobri um mundo que a mídia e a sociedade consideram extinto, mas na realidade ele ainda existe. Perguntar se as pessoas sabem ler... “Claro” era a resposta da maioria. Mas ainda existem analfabetos, mais do que deveria. E o saneamento básico falta em muitos lugares ainda.
Todavia, foi gratificante entrar assim mesmo na casa de muitos brasileiros, pessoas que nunca havia visto, sentir as energias de cada local, os sorrisos compartilhados, as caras fechadas, as ajudas, as lambidas. Descobri que existiam pessoas que almejavam também responder ao censo pela primeira vez, crianças curiosas me olhando mexer na maquininha, como eu olhava para o recenseador anotando no papel. Pouco antes de terminar meu último setor, me vi discutindo com o dono de um blog que postou algo falando mal do censo. Tomei as dores do IBGE. Acho que vesti a camisa e isso significa no mínimo, que se acredita naquilo que se faz, ou resumindo, um trabalho bem feito. Pois não acho que tomaria as dores do Sebrae quando estive lá, ou de uma empresa de comunicação. E de certa forma, ter feito um trabalho, onde a principal ferramenta era a entrevista, me trouxe de volta ao universo do jornalismo, e me fez avaliar minhas possíveis deficiências na área. E do censo levarei mais um aprendizado: tratar bem o recenseador que à minha casa for, no censo de 2020.
10 de novembro de 2010
Questão de números
E naquela noite eu precisava deixar uma cópia do nosso documentário com a colega de trabalho da minha amiga Ana Célia, antes de pegar o ônibus pra casa. Chamavam essa colega popularmente de Galega, e fui informado que ela residia no mesmo condomínio que eu, era apenas uma questão de letras e números. Abandonei o U404 em direção ao E101. Ao chegar constatei que o interfone não funcionava. Haveria de esperar alguma alma caridosa surgir ali com uma chave que me permitisse entrar no bloco. Mas o tempo era meu inimigo também. Como o apartamento que procurava era no térreo, decidi dar a volta e chamar pela Galega na varanda. Ao passar pela janela do quarto, notei que havia uma moça no computador. Deduzi que seria a filha dela, já que haviam me informado que tinha uma. Chegando à varanda, rapidamente comecei a bater palmas, porém, ninguém apareceu. Bati de novo. E de novo. Nada! Como assim? Havia gente no quarto.
Retornei à janela do quarto. Não havia mais ninguém lá. Só um computador ligado e uma cortina voando na janela. O que poderia ter acontecido? Voltei a varanda. A menina deve ter ido pra lá. Mas nada! Também não havia ninguém lá. Foi quando me acometeu que a garota poderia ter se escondido de mim. Sim! Agora eu era visto como um bandido dentro do meu próprio condomínio. Não! Mas eu precisava deixar o dvd ali antes de viajar. Ela haveria de me receber. Voltei à janela, onde a cortina voando era o único movimento que se via no quarto, e comecei a chamar pela Galega. Informei que estava ali para deixar algo à mãe da garota, e que ela deveria entregar a minha amiga na agência bancária onde trabalhavam. Praticamente implorei que a moça aparecesse e só não afirmei que não era nenhum bandido, porque achei previsível demais. E se ela resolvesse ligar pra síndica ou pra polícia?
Retornei ao meu U404, peguei o celular e liguei para minha amiga enquanto voltava ao E101. A deixei a par da situação. Informei que a Galega não estava no apartamento e que sua filha havia me confundido com um ladrão. Mais que depressa, Ana Célia desliga o celular e liga para a Galega. Porém, ninguém atende. Óbvio! A Galega havia saído e provavelmente não tinha escutado o celular tocar. E no apartamento só estava a atormentada de sua filha, que a essa hora, ou já teria ligado pra alguém, ou teria petrificado de tanto medo. Resolvi constatar. O quarto permanecia no mesmo silêncio, e a proteção de tela do computador avisava que ninguém havia tocado aquele solo há algum tempo. Se ao menos pudesse entrar no bloco, tocaria a campainha e tentaria explicar mais uma vez a situação. Que menina complicada!
Foi quando retornando à entrada do bloco, vi uma alma caridosa circulando dentro. Corri e a mulher abriu a porta. Mal tive tempo de agradecer. Ela olhou pra mim, eu olhei pra ela. Não sei quem perguntou primeiro. Eis a Galega a minha frente. Atônito, tentei entender o que havia acontecido. Mas logo compreendi quando vi a porta do E103 aberta. Por algum motivo, me informaram o número do apartamento errado. Não sei se agradecia por ver finalmente a Galega e poder entregar o vídeo, ou se esganava quem havia me passado a informação errada. Mais uma espiada dentro do apê dela, encontrei a sua filha, uma garotinha bem menor do que a moça do E101. Entreguei o dvd e saí dali. Pensei na garota do outro apartamento. Estaria ainda escondida esperando seus pais chegarem para lhes relatar em soluços, o perigo que havia lhe ocorrido àquela noite? Pensei em ainda ir lá na janela e esclarecer que tudo não passou de um engano e que ela poderia voltar ao computador tranquila, mas achei que ela não acreditaria e já tinha sido traumatizada demais pra uma noite.
26 de dezembro de 2010
Quando o velho som de novo
E dei pra ouvir Elis Regina. Sabe quando somos crianças que sonhamos em ter um determinado brinquedo, ficamos amolecendo os corações dos nossos pais para ganhar aquele jogo, aquele boneco, numa fixação que só passa depois que temos o rebento em nossas mãos? E aí depois que temos perdemos o interesse em poucos dias. Pois é, comigo aconteceu o contrário. Em um amigo secreto não convencional, e o que eu chamo de não convencional? Aquele onde cada um leva um presente unissex de um valor padrão e lá na hora cada qual vai escolhendo o seu, até ninguém poder mais trocar, e você ficar na dúvida se levou a melhor ou se foi sorteado com um bichinho de pelúcia ou uma caixa de bombom da Bis. Então, entre o troca-troca de presentes, acabei ficando com uma caixa que parecia conter uma camisa masculina, apesar do peso e do critério unissex já acusar que não seria. E assim no meio de muito papel picado dentro da caixa, encontrei um cd de Elis Regina.
Amigo oculto não convencional é mesmo uma grande pegadinha. Eu havia comprado um cd de Ana Carolina pensando na minha amiga Luciene, que por sua vez, havia comprado o de Elis Regina pensando em outra amiga. Resultado: nem Luciene terminou com o cd de Ana Carolina, nem Suellen com o de Elis, que acabou caindo nas minhas mãos. Nunca fui chegado nas canções de Elis Regina, mas achei interessante ter ganhado um presente que eu não compraria pra mim. Agora teria a oportunidade de conhecer melhor as músicas dessa cantora tão aclamada pelo público. Fui pra casa, coloquei o cd pra tocar e juro que tentei gostar das composições, mas as melodias me soavam muito forçadas, desconexas. Salvo algumas que já conhecia, como Fascinação, Atrás da Porta e Como Nossos Pais, não consegui pegar gosto pelas demais. O cd ficou lá entre as pilhas de cds de segundo escalão, aqueles que deixo pra ouvir quando perco o interesse nos preferidos.
E ano vai, ano vem, pensei até em me desfazer daquele elemento, dá-lo de presente a quem realmente merecia. Afinal, Suellen faria mais uso dele do que eu. Mas era um presente, e de uma amiga que hoje mora lá no Amapá, entre os índios e a selva amazônica (brincadeirinha). Ainda vou aí, Lu! Então permaneci com ele. E essa semana, dois anos depois de ter ganho o cd, resolvi colocá-lo no som e pela primeira vez pude apreciá-lo de uma maneira diferente. Não sei exatamente o que se passou, mas comecei a gostar do que estava ouvindo. E de repente pensei: puxa, isso é bom, por que não vi antes? E a cada música ia descobrindo um novo gosto, um novo estilo. Sempre achei que quem escutava Elis eram pessoas de um gosto musical refinado. Será que eu amadureci a tal ponto?
Não posso garantir que fiquei mais culto por ouvir e gostar das músicas de Elis, mas alguma coisa mudou em mim nesses dois anos para que eu pudesse rever a minha opinião sobre suas músicas. Nem que tenha sido a paciência e a disponibilidade para apreciar um estilo diferente do que estava acostumado. Talvez no momento atual suas melodias consigam chegar até mim. Como há alguns anos, a imagem de jovens que tentam mudar o mundo e no fim, apesar de todos os esforços, permanecem iguais aos pais, chegou até mim em Como Nossos Pais. Agora, depois da fase de desinteresse do presente, cheguei ao período de êxtase e de curtir adoidado, contrariando a ordem natural da ansiedade ao desprendimento na infância. Só sei que há três dias o cd não sai do som e quem passa lá só me vê escutando Elis Regina.
4 de março de 2011
Um hipocondríaco no Rio
Fazia alguns meses que havia tomado essa decisão. Quero ir ao Rio. Preciso conhecer essa cidade que sempre me deslumbrou e me atrai como um ímã. E a oportunidade de embarcar com uma turma do curso de filosofia em um congresso em Niterói era quase que inacreditável pra me acordar pra vida. Mas poucos dias antes da viagem que não seria nada confortável, no mínimo uns dois dias dentro de um ônibus atravessando o país, comecei a me sentir diferente. Uma canseira do nada, palpitações, vista cansada. Sem falar na crise de garganta que acenava sua chegada. Talvez a tensão, a ansiedade. Na véspera de viajar fui ao meu psiquiatra e relatei o que sentia. Receita na mão, medicamento comprado e embarque garantido no dia seguinte. E claro, como bom hipocondríaco que se preze, uma farmácia inteira dentro da mochila. Entre estranhos, quietos e excêntricos, eu, Suellen e Cris, que iríamos apresentar uma esquete (pequena peça) sobre os textos de Medeia e Gota D’água, durante a apresentação do trabalho de Suellen. Apesar do enfado, foi uma viagem tranquila, por momentos até divertida. Só tinha que ficar atento aos horários dos anti-inflamatórios e antibióticos para a garganta. E quando o coração disparava um pouco mais, respiração profunda e comprimidos para relaxar. Se batesse aquele enjôo, sacava um Dramin e tudo resolvido.
Com todo esse reforço farmacológico, chegamos ao tão sonhado Rio de Janeiro. Todos os sintomas que eu pudesse ter sentido durante a viagem se esvaíram quando vi ainda de Niterói aquela imagem pequenina do aclamado Cristo Redentor. Olha! O Pão de Açúcar! É, realmente estávamos ali. Desci com cuidado do ônibus para poder pisar pela primeira vez em solo fluminense. Uau! Chegamos ao paraíso. Um pouco mais quente do que se pensava, mas ainda assim, deslumbrante. Fomos encaminhados de mala, cuia, bacia e bengala (ser ator tem seus vexames) ao nosso alojamento. Não era o Copacabana Palace, mas pra mim já estava de bom tamanho. A cada momento chegava mais gente de todo buraco do país. Era um carnaval de sotaque. Até quis brincar de “advinha de onde eu sou?”, mas rolou um certo preconceito com quem não forçasse o “r” ou chiasse no “t”. Teve uma discussão interessante acerca do organizador do evento ser gay, porque destinou os melhores banheiros aos homens com direito a espelho e ducha privada, enquanto as mulheres sofriam em duchas coletivas e apertadas. Mas no fim chegou-se a conclusão que a organizadora era que deveria ser lésbica, porque poderia ver toda a mulherada nua tomando banho.
No mesmo dia, depois de atravessar a Baía de Guanabara de barca e fazer uma visita à famosa praia de Copacabana, caímos num sono merecido e finalmente livre do desconforto das poltronas do ônibus, apesar de termos dormido com a luz acesa, pois nos avisaram que se apagassem a luz os ventiladores também desligavam, e no meio da noite acordei derretendo com a danada da luz acesa e os ventiladores parados zombando de mim. Amanheci já tenso com tudo isso. Depois enfrentamos uma fila do tamanho da ponte Rio-Niterói para comprar o ticket do nosso almoço no restaurante universitário, e outra maior ainda para entrar. O calor e a multidão começaram a me inquietar. Uma canseira nas pernas, coração acelerou. Olhava o Cristo e a sensação aumentava. E no dia seguinte ainda teria a nossa apresentação da esquete. Almocei e de volta ao alojamento tentei dormir um pouco. Inútil. Acordei pior. O coração ia sair pela boca, uma tremedeira. “Vou ter um infarto, uma parada cardíaca”. Lá fomos eu, Suellen e Cris de táxi ao hospital mais próximo evitar que o ônibus retornasse com um passageiro a menos.
Nossa primeira parada foi no Hospital das Clínicas de Niterói. Requinte até no lixeiro. Ainda bem que plano de saúde serve para isso. Ao menos no nordeste. Não aceitaram minha Unimed. De volta à rua com um paciente à beira de um colapso, saímos sem destino em busca de outro hospital ou um táxi. Nessas horas é que acredito na intervenção divina. Acabamos nos deslocando exatamente ao hospital que uma moça do alojamento havia indicado. Chegamos e a notícia é que a situação era precária, e nem a emergência estava funcionando, só em casos extremos. Mas o meu era extremo! Saí do nordeste pra morrer em Niterói, sem conhecer o Cristo, Ipanema, Leblon, o Jardim Botânico? Fomos avisados de outro hospital duas esquinas dali, mas que a situação também era semelhante. Resolvemos arriscar. Fomos na recepção, fizemos uma ficha e pouco tempo depois um moço descontraído nos atendeu. Tinha uma tranquilidade na voz que até relaxei um pouco. Ele então nos encaminhou a uma médica em outra sala. Uma moça jovem também, simpática, mas não tanto quanto o rapaz, me examinou, perguntou o que eu sentia, segurou meu braço, que não parava de tremer e sentiu o pulso por alguns segundos. Diagnóstico: crise nervosa! Medicamento: 10mg de diazepam.
Saber que não estava em processo de infarto e que meu coração funcionava bem foi tranquilizante. Sentei na enfermaria à espera do meu medicamento. Foi aí que Suellen resolveu pensar alto: vai dormir por uns dois dias. “O quê?! Como assim? Não! Não vou dormir por dois dias aqui. E a esquete amanhã? E o Rio todo ainda a conhecer?” Para completar uma senhora começou a se tremer toda numa cadeira a minha frente. Outros gemiam. Saí de fininho em direção a saída, enquanto Suellen tentava tranquilizar a senhora. Quando a enfermeira chegou com o meu medicamento, cadê o senhor Francisco Samuel? Cris queria sumir em meio àquilo tudo. Lá Suellen me procura pelo hospital, até me encontrar do lado de fora. “Entra já e vai tomar aquele remédio, ou eu não apresento a esquete amanhã”. – “Mas se eu tomar e dormir, não vamos apresentar do mesmo jeito”. A discussão rolou ainda alguns minutos até que terminei entrando e tomando. Ela foi convincente. Ficamos ainda um tempinho por lá e fomos embora. Até boa parte da noite, as palpitações sumiram. Mas algumas horas depois retornaram. Tentei dormir, mas o efeito colateral do remédio ficou no mito. Passei a noite em claro.
Saímos para a apresentação pela manhã e eu só rezava para não cair no meio dela. Respirava fundo, tentava manter o equilíbrio, meio difícil para quem sofre também de labirintite. Mas enfim, conseguimos apresentar o trabalho, e olha, não passei mal durante a apresentação. Na verdade, me senti extremamente disposto ao final. Tanto que já queria atravessar a Baía de novo e sair explorando o Rio. O que acabamos fazendo nos dias seguintes. Conheci tudo que desejava, fui até guia de Suellen em algumas paradas, sem nem perguntar ao cobrador onde descia. Resolvi o problema da luz acesa, descobrindo onde apagavam as luzes sem desligar os ventiladores. E aquele mal estar? “Qual?” Me senti tão bem nos outros dias que enfrentaria mais um mês ali. Na volta pra casa estava tão exultante com tudo que tinha conhecido que esqueci até dos horários dos anti-inflamatórios. Fui um dos mais animados, enquanto boa parte da galera voltava com gripe, crise de garganta, febre. Aí nesses momentos que é bom ter um amigo hipocondríaco por perto. A farmácia da minha mochila foi o banquete e a salvação de todos.
25 de março de 2011
Antes da alvorada
Luz apagada no quarto. Apenas o brilho do computador ilumina o ambiente. Os incensos de cravo e sete ervas queimando no parapeito interno da janela. A noite abafada não permite que o ar circule. A cama preparada para dormir. O canto dos galos à distância. Latidos de cachorros do outro lado da avenida. Nuvens em formato de golfinhos percorrem o céu. O silêncio! E o rangido da cadeira giratória. Cada coisa em seu lugar. A mochila encostada à parede. A coberta da cama no tapete. O tênis no canto do chão. A toalha molhada estendida na porta. Vou à janela. Os carros estacionados. As luzes apagadas nos apartamentos. O murmúrio da noite. A cidade dorme. O cheiro do repouso percorrendo as narinas. Finalmente uma brisa em meu rosto. A portaria, o estacionamento. O mesmo ponto de vista. A mesma altitude. O mesmo anseio: pular! Pular não! Voar!
Aqui dentro o vazio, a quietude, o abandono. Na cabeça o medo, a dúvida, a insegurança. Lá fora, o leão descansa. Em poucas horas o agito, a mudança, a perseguição. A cama a me agarrar, o ensaio daquela peça, o filme a assistir no dvd, o shampoo que acabou, o comprimido a engolir, a conta da padaria, as leituras a apresentar. Aniversários vêm. Aniversários vão. Promessas, sonhos, fantasias, olho gordo, simpatias. A motivação que chega. A coragem que leva embora. O tédio! Barulho lá embaixo. O portão se abre. Um carro em movimento. Mais alguém a partilhar as horas. No Twitter já não há quem circule. Aos poucos tudo se acomoda. E pelo quarto só os incensos continuam a se reduzir desenhando sua fumaça pelo ar.
Já não há o que pensar. Fome, sono, insônia e ninguém a desdenhar. Nenhuma mensagem no e-mail, nenhum comentário no blog, nenhuma notícia que não conheça, nenhum amigo online, nenhum vento na cortina. Só os incensos e eu! O nevoeiro inebriante que sai das hastes e percorre os contornos da janela, encontrando a saída e sumindo na cegueira da noite. Aquela chama vermelha libera uma torre de cinzas que se espalha até o chão. Agora somos só eu e ela, preenchendo o meu vácuo como a bruma de um atrevido cigarro ou um derivado da cannabis sativa adentrando os pulmões e entorpecendo os sentidos.
Aspiro o seu aroma e a jacente melancolia se irrompe numa intensa gargalhada. Não consigo reprimir. Posso acordar as paredes, os apartamentos, os e-mails, as nuvens e o vento. Amanhã terei uma multa na porta e uma dor latejante no juízo. Tudo é divertido. Sopro mais cinzas e abocanho as labaredas. Quero mergulhar no misticismo da noite. O vazio é preenchido e o medo se traveste de ousadia. Tudo posso antes dessa alvorada. Sorrir, xingar, bater, pular, cheirar, saltar, voar. E por fim com a queda dos últimos resíduos, também caio e salto exausto no reconforto da cama.
3 de abril de 2011
Esperando o efeito passar
– Você faz engenharia?
Havia acabado de assistir a mais um filme das comemorações do centenário de Chico Xavier, e ainda envolto de emoções caminhava em busca da saída do shopping. Pessoas passando por mim e minha mente ainda nos 110 minutos que ficaram na tela. Cheguei à saída, mas não podia ir embora ainda, precisava respirar um pouco o ar fresco daquela noite. Olhei em volta, todos os banquinhos estavam ocupados. Fiquei parado por alguns segundos na esperança que alguém abandonasse um deles e eu pudesse me sentar. Ao olhar mais ao lado percebi que em um dos bancos havia somente uma moça sentada. Resolvi ir até lá e ocupar o espaço restante. Da maneira sorrateira que me aproximei, atravessando até alguns galhos de palmeira, me surpreendi pela moça não pensar que iria assaltá-la. Sentei, coloquei a mochila em meu colo e fiquei revivendo todas as sensações que o filme tinha me proporcionado. Olhei para a moça do meu lado enquanto ela olhava na outra direção e tudo parecia tão sem importância tamanha a dimensão do que acabara de assistir. Ela então se voltou para o meu lado e eu desviei o olhar.
Mais alguns minutos, um rapaz apareceu e começou a conversar com ela sobre uma moto. Parece que a moto dele estava com problema e seria preciso levá-la até a oficina mais próxima. Ele não parecia aborrecido. Pelo horário a oficina estaria fechada, mas ele havia telefonado ao proprietário que autorizara levar o veículo até lá. Ele saiu então e logo o vi passando por nós empurrando uma Biz. A moça pegou o celular e ligou para alguém. Queria confirmar com uma amiga se iriam sair mais tarde, e enquanto narrava o problema com a moto do namorado, lamentava provavelmente não poder ir. Desligou o celular, olhou para os lados e entrou novamente no shopping. Eu, porém, nem pude me estender um pouquinho mais no banco. Logo uma senhora e um rapaz se aproximaram como se encontrassem os últimos ingressos para um show de rock. Com sua bagagem bastante espaçosa, fiquei bem mais exprimido no espaço que me restou do banco. Puxei meu braço debaixo de sua axila, quando ela se virou para mim, me examinou e saiu com essa: – Você faz engenharia?
Pensei: “quem é essa mulher? Será que está me confundindo com alguém?” Então a olhei surpreso, e neguei sua pergunta. Sua explicação era óbvia. Quando vê alguém da minha idade com uma mochila nas costas já sabe que faz engenharia na UFCG. Afinal, que outro curso alguém que usa mochila poderia fazer, não é verdade? Não, minha senhora, eu uso mochila simplesmente porque gosto. Claro que ela não se contentou com o fato de ter errado seu palpite e o interrogatório teve início.
– Terminei jornalismo. – respondi.
– Na UEPB? O curso é bom? Quer dizer que tudo depende do aluno. Se fizer um curso bem feito vai ter algum futuro, agora se for como eu fiz Serviço Social, aí já era, não consegue nada. Ô “cursozinho” difícil e mal feito esse que eu fiz. Você é daqui?
– Não. Rio Grande do Norte.
– Ah, então a gente pode falar mal da cidade. Porque pense numa cidade sem nenhum lazer e cheia de gente metida. Eu aguento porque não tenho outra opção. Olha esse trânsito! Já viu coisa mais absurda? Todo mundo quer passar na frente. Tá cheio demais aqui pra mim. Lá no Ceará também é assim? Eu penso que é só aqui.
– Rio Grande do Norte. – enfatizei.
– Ah, é. Natal!
– Não. Eu sou do interior.
– Ah, então não deve ter nem trânsito, né?
– Olha que incrível. Tem! – afirmei numa ironia que não sei de onde arranquei.
– E tem? (numa admiração impressionante). Mas garanto que não é como esse inferno aqui. E espere aí, você saiu de lá e veio fazer faculdade aqui? Não tinha nenhuma por lá, não? Ah, é porque é interior, né? Tá certo. Eu já fui ao Rio Grande do Norte. Natal é maravilhoso. Natal! – enfatizou bem no final.
Fiquei cá comigo. Claro, minha senhora! Que outro lugar no Rio Grande do Norte poderia ser tão exuberante quanto a capital? Se até Campina Grande era ínfima aos anseios daquela cidadã, imaginem todo o interior de um outro estado que a seu ver deveria ser igual ou pior ao que nos encontrávamos.
– Você gosta daqui? – continuou investigando para saber se poderia prosseguir o tricô e ainda fazer um babado.
– Gosto!
– É, a gente se acostuma com o que tem. Já conheci muita gente que diz só sentir falta daqui depois que sai.
– A senhora é de onde? – agora quem não aguentou de curiosidade fui eu.
– João Pessoa! Meu marido que é campinense.
Ah, tá. Agora entendi. Primeiro mundo. Outra cultura. Temperatura amena. Cento e vinte quilômetros de uma realidade bem distante da nossa. O rapaz ao seu lado, que parecia seu filho, transparecia o incômodo que aquela conversa estava gerando ali através da facilidade daquela mulher em estabelecer diálogos tão “agradáveis” com estranhos. Ainda bem que o carro de seu marido chegou e ela saiu correndo com o garoto entre o trânsito caótico que descreveu. Ainda escutei seu “tchau”. “Tchau, senhora! Cuidado com os raios UV mesmo à noite, afinal a senhora não está acostumada com um clima tão mirrado”. Ainda tentei redirecionar meus pensamentos novamente ao filme, mas um novo casal se aproximou do banco com um filho pequeno.
A mulher e a criança sentaram e o homem permaneceu em pé. Esses ao menos não eram dados a colóquios com estranhos. E depois de acenderem um cigarro cada, e do homem afirmar que desejaria passar mal toda vez que iria fumar na tentativa de parar, se levantaram e foram embora. Agora o banco era só meu. Nenhuma ameaça de invasão. Só eu e meus pensamentos. Foi quando lá distante comecei a escutar a música A Whiter Shade of Pale da banda britânica Procol Harum que vinha de não sei onde. A canção famosíssima na década de 60, detentora de uma nostalgia sem igual e que recentemente esteve na série Afinal, O Que Querem as Mulheres? da Rede Globo, sendo a música preferida do personagem principal. Com essa definitivamente despertei de qualquer estado que o filme As Mães de Chico Xavier pudesse ter me deixado. Voltei rapidinho ao mundo real, peguei minha mochila, coloquei nas costas e fui embora deixando o banco vazio, enquanto a canção continuava soando ao fundo como uma trilha sonora. Minha ou do banco?
11 de dezembro de 2011
Os incensos
E mais uma vez me pegava comprando mais de dez pacotinhos de incenso na loja. Sempre que isso acontecia, algum funcionário me dava uma rápida olhadela para conferir a figura que estava se preparando para uma grande sessão de descarrego. Isso não me incomodava. Minha amizade com os incensos teve início quando eu ainda era criança e minha mãe aparecia aqui acolá com algum, que ganhava como brinde de uma revista. Depois quando viajávamos para Natal nas férias, sempre comprávamos alguns na lojinha Arte Final do shopping. O cheirinho que exalava de lá era tão bom, tão agradável, que nunca passávamos sem comprar ao menos um pacotinho. Era um verdadeiro alucinógeno.
Quando fui para Campina Grande, vez por outra, minha mãe levava algum para o apartamento. Eu também comprava quando estava sozinho. Mas foi depois do teatro que passei a apreciar mais a essência deles. A cada ensaio, Chico acendia um ou dois, espalhava pelo ambiente e deixava queimando enquanto a gente se aquecia. Nas apresentações eles também estavam presentes, afastando qualquer interferência nociva e equilibrando o espaço com boas energias. O resultado final era sempre bom, se era contribuição dos incensos, eu não sei, mas era melhor continuar com eles.
Por fim, eu mesmo já os estava levando para os espetáculos. Enquanto todo mundo se preparava para a apresentação, eu acendia alguns pelo camarim e pelo palco e deixava a fumaça tomar conta. O aroma, a chama e as cinzas que caíam, me tranquilizavam, me levavam conforto, transformavam aquele lugar num pedacinho do meu lar e estreitavam os laços entre mim e o palco. A partir daí passei a comprar grandes quantidades e espalhar ao menos um em cada cômodo do apartamento. Me banhava de sândalo, cravo, mirra, flor de laranjeira, benjoim, canela. Muitas vezes dava para se sentir o perfume ainda das escadas.
Até que uma vez, ao receber a visita de um amigo, que se mostrou curioso com a quantidade de varetinhas queimadas sobre um pequeno jarro na janela, fui chamado a atenção para uma curiosidade. Como eu, ele também gostava de incenso, mas me disse que não acendia muito porque os vizinhos podiam pensar que ele cheirava marijuana. Sim! Eu não sabia, mas os chegados na cannabis, costumam acender incensos para camuflar o cheiro da maconha em volta.
Nesse momento, eu me lembrei das vezes que os funcionários das lojas me olhavam quando eu passava com toda aquela quantidade de incenso no caixa. Vai ver eles não pensassem que eu iria fazer um descarrego, mas a confraternização dos amigos da folhinha. Lembrei também das minhas sessões de purificação e dos vizinhos que passavam me olhando quando eu saía do apartamento e o aroma me acompanhava. De repente tudo ganhara uma outra dimensão. Eu era o novo maconheiro do condomínio. De hippie é que eu não tinha cara. Foi um episódio engraçado, mas de uma coisa eu tenho certeza, deixar de comprar meus bastõezinhos por fama de maconheiro ou macumbeiro é que não vou mesmo.
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16 de maio de 2008
De Volta Para O Passado
Esse aqui é pra recordar! Pra quem viveu uma das melhores épocas do mundo. Estava dando uma olhada nos meus arquivos no computador e por sorte acabei encontrando um slide que minha prima Agda havia me enviado há algum tempo. O nome do slide era “Melhores Momentos da Vida”. A cada página uma volta aos anos 70 e 80. As séries, os desenhos, os brinquedos e carros que fizeram sucesso, enfim, detalhes de quem teve a sorte de passar a infância em um mundo de constante transformação. Tudo bem que eu não tenha estado presente nos anos 70, mas muitas de suas características se estenderam até os anos 80 e as destes até início dos 90.
Para começar, que tal calçar um tênis All Star, pegar carona no primeiro chevete que passar, parar na bodega da esquina e comprar um tablete de Chiclets ou mesmo um Chocolate Surpresa e seguir para a Caverna do Dragão? Seria uma aventura de outro mundo. Quem sabe De Volta Para o Futuro? Poderíamos conhecer outros seres como uma tal de Formiga Atômica, He-man, Shirra. Ah, ouvi falar de um grupo de defensores japoneses que usam roupas coloridas e capacetes para lutar contra monstros, eles são chamados de Flashman e Chageman. Tem ainda outro mais conhecido como Jaspion.
Essa viagem parece que não tem fim. Quanto mais se anda, mais recortes e figuras são descobertos no caminho. Vejam só aquele grupo de duendes pedindo carona ali na frente. Todos azuis com toucas brancas e vermelhas. São os Smurfs. Eles estão fugindo da sua aldeia nos cogumelos distantes para escapar do feiticeiro Gasganete e do seu gato Azarel. Se olharmos para o leste, vamos ver a casa dos Muppet Babies. Vários animaizinhos de brinquedo com uma imaginação muito ativa, que só se dispersa quando a dona Nanny aparece. Olha aquele jardineiro de bochecha gorda e cabelo de pano acenando pra gente ali na frente. Ele é um Fofão!
E o mundo dos brinquedos se aproxima. Vejam essa montanha enorme de Cigarro de Chocolate. Dizem que ela foi construída pelos PlayMobil e que atrás dela existe um Banco Imobiliário. Nossa! Olhem só aquele labirinto de pega-varetas. E aquele bate-bumba da Estrela brincando com um vai-e-vem. O chevete agora pega outra direção. Vamos mudar de automóvel. Vamos embarcar num Corcel e seguir pela estrada de tijolos amarelos em direção ao mundo Mágico de Oz. Vejam aqueles quatro atrapalhados ali na frente. Ah, são Os Trapalhões se preparando para produzir mais um filme. Olha! O Zacarias acenou. Ei, vejam ali aquele cavalo roxo e aquela menina loira montada nele subindo em direção a um portal no céu. Ela grita: Cavalo de Fogo!
Nossa! Estão ouvindo essa música que chega aos pouquinhos vindo lá de longe? É um ritmo bem dançante. Agora escuto perfeitamente. É o Kaoma! Vamos descer e nos juntar a eles “...e o sol nos levar pelas águas do mar, nessas ondas dourar um pedaço de nós, hey, venha pra dançar, dançar, mexa sem parar, deixa o corpo lambar, deixa a hora passar, passar...”. Como eles são simpáticos!
É, parece que está ficando tarde. Melhor voltar pra casa. Vamos pegar uma Belina e nos dirigir aos nossos aposentos. “Querida, cheguei!”. Opa! Acho que errei de endereço. Estou vendo uma família de dinossauro discutindo na cozinha. O pai tenta explicar a cadeia alimentar ao filho rebelde, a filha passa exibindo sua calda recém-chegada, a mãe tira comida de uma geladeira cheia de animais, enquanto um bebê joga panela no pai dizendo “não é a mamãe”. Que Família Dinossauro maluca!
Agora sim, vou pegar minha Calói, ir para casa, ligar a TV e assistir ao Xou da Xuxa. “Bom, estar com você, ficar com você, deixar correr solto o que a gente quiser...”. Pra encerrar esse Trem da Alegria, só mesmo algo bombástico como toda a década. Opa! Invadiram a minha porta. O que houve? É um homem loiro com uma arma na mão pedindo para sair de casa porque tem uma bomba aqui. Seu nome? Macgyver!
É, parece que fomos longe mesmo! Pena que só na imaginação. São tantos signos que marcam essas décadas, que torna quase impossível lembrar de todos. Mas espero ter feito realmente um breve passeio na memória de algum sobrevivente desse período. Algumas das séries e dos desenhos clássicos que transformaram a imaginação de milhares de crianças nas últimas décadas, conseguiram ser resgatados hoje, mas outros só existirão mesmo para sempre na memória de cada um que viveu e ainda vive no coração, os ritmos, os estilos, as histórias e as fantasias desses anos. Afinal não dá mais pra dizer “beijinho, beijinho, tchau, tchau” e muito menos “de novo!”.
27 de outubro de 2008
Velhos Sonhos
O que um perfume, uma música ou uma ‘novela’ não são capazes de fazer. Por mais que as pessoas tentem me convencer do contrário, me chamem de nostálgico, de baú, é inevitável o fascínio que desenvolvo e a ligação que ainda preservo com o meu passado. Somos hoje o fruto necessariamente das nossas escolhas, dos caminhos tomados, enfim, do nosso passado. Desde muito pequeno fui encantado pelos mais de seis meses de aventuras e desenlaces das tramas da televisão brasileira. Me interessava bastante as mudanças que determinados personagens sofriam, o seu estado inicial, as pessoas que conhecia e não conhecia no início; e o seu estado final, com as pessoas que passou a conhecer e as que ficaram pra trás.
Imaginava que a nossa vida era exatamente assim. Hoje estamos aqui, amanhã ali, hoje conhecemos algumas pessoas, amanhã outras que nunca vimos estarão no nosso circulo de amizades. A grande diferença é que na telenovela existe o Vale a Pena Ver de Novo para podermos embarcar em todos os estágios como se vivêssemos tudo novamente. Na vida real, isso não acontece. O que passou, passou. No máximo fica alguma fotografia, um pequeno vídeo, mas todas as etapas nunca mais serão recuperadas. O tempo corre, as pessoas mudam, os sonhos se perdem, os momentos são esquecidos. Por quê?
Essa semana acompanhando alguns capítulos da atual reprise do Vale a pena Ver de Novo, Mulheres Apaixonadas, descobri que se ligamos nossos sonhos, nossos momentos a um perfume, uma música ou mesmo uma telenovela, podemos sim reviver muita coisa. Esse é o poder mágico que determinadas substâncias têm sobre algumas de nossas percepções. O cheiro atravessa o corpo e leva a alma aos lugares mais remotos do tempo, assim como a melodia nos faz voltar dez anos em apenas 3 minutos. Desse modo, encontrei outro túnel do tempo que nos faz viajar sem sair de onde estamos: a telenovela.
Quem nunca tentou se lembrar onde estava, o que fazia e até os detalhes da sua vida no ano da novela que está sendo reprisada? É sempre assim, basta passar a propaganda da reapresentação que já começa “ah, nessa época eu morava em tal lugar”, “eu lembro que eu sempre perdia o primeiro bloco porque estudava à noite”, “eu adorava dizer tal bordão”. É o passado dizendo “olá” de maneira bem sutil. Do mesmo modo aconteceu comigo.
E M
ulheres Apaixonadas tem uma importância muito grande quando falo de novelas que nos lembram o passado. Ela foi ao ar no meu primeiro ano de cursinho em Natal, um garoto de 18 anos, cheio de sonhos e acreditando firmemente que todos eles poderiam acontecer. Suas músicas eram como trilha sonora dessa minha fase. E assim, sem perceber, Mulheres Apaixonadas se transformou em um grande detalhe da minha vida em 2003. Hoje, escutando a melodia, vendo os personagens, consigo até sentir o cheiro do apartamento, das revistas, do bairro, das roupas, o cheiro dos sonhos, de uma fase inesquecível.
Quando alguém me pega hoje acompanhando a novela em alguns momentos que tenho para assistir, pensa que se trata apenas do gosto por ela, dos conflitos, da história. Não! Acompanhar Mulheres Apaixonadas é como tentar resgatar aqueles momentos perdidos, aqueles sonhos que enchiam de alegria os meus dias. E como gostaria de poder vivê-los novamente, de poder ter outra vez 18 anos, de sonhar... ah, sonhar!!
Sempre comparando as novelas com a nossa vida, nem sempre estamos satisfeitos com o estado final de determinados personagens, preferindo até mesmo seu estado inicial. Na vida acontece o mesmo. Eu tinha bem mais força e paixão pela vida em 2003 do que agora. Respirava fielmente todos os sonhos que hoje a universidade conseguiu destruir quase totalmente. Posso até estar mais rico em sabedoria do que antes, mas trocaria tudo pela convicção e anseio de outrora. Contudo, fico feliz que ainda possa recordar esse e outros passados mágicos através de elementos incríveis que o tempo não pode jamais apagar.
Outro dia baixei pela internet o cd Meu Jeito de Ser de Angélica de 1993, uma outra grande recordação. Escutá-lo enquanto dou minha geral no apê uma vez por mês, me transforma, eu viajo, grito, tento fortemente retornar àqueles momentos, àqueles lugares. Nossa! Algumas vezes até consigo, e q
uando isso acontece, a emoção é inevitável. Não sei como as outras pessoas pensam, mas o que me faz agüentar a saudade dessas épocas e só viajar de vez em quando, é a sensação de que um dia elas irão voltar, é uma certeza de que poderei reviver algo semelhante de novo no mesmo lugar, mesmo que algumas vezes parece impossível. É como se ainda estivesse construindo a novela para que um dia ela seja reprisava novamente no Vale a Pena Viver de Novo.
31 de janeiro de 2009
O que há de novo em nós
Ano novo!! Fogos no céu!! Ano novo! Dia de reis! Ano novo! Família reunida! Ano novo! Viagem à Campina! Ano novo! Ensaios de Pluft! Ano novo! Caronas com Julio César! Ano Novo! Marley & Eu no cinema! Ano novo! Pipoca e Imagem e Ação em casa com a turma. Ano novo! Primeira vez em João Pessoa!! Ano novo!!...
Nem sempre o ano novo é sinônimo de vida nova, como afirma esse bordão tão usado a cada ano, em busca de novas esperanças, de uma renovação física e espiritual. Mas o que será que nos faz crer que tudo muda do 31 de dezembro ao 1º de janeiro? Talvez o desejo que algo que não foi possível acontecer no último ano possa se realizar nesse outro. A renovação dos sonhos, da fé. Contudo, um fator será determinante para mudarmos realmente as expectativas e os projetos do novo ano: nós mesmos!
2009 chega pra mim com a promessa de ser um ano literalmente novo na minha vida. A universidade acaba de me jogar na rua, só não fui atropelado ainda porque empaquei na calçada com a danada da monografia. O teatro me acena dizendo que esse será meu segundo ano dedicado a ele. Como garra para isso tenho os resultados obtidos no último ano de esforços no palco.
A cada ano vai ficando mais difícil passar o mês de janeiro inteiro em casa. Se em 2008 o Sebrae puxou o meu lençol e me chamou pra labuta, esse ano os ensaios de Pluft, O Fantasminha me fizeram desembarcar mais cedo em Campina. Bom, alguma coisa nova ao menos já me aconteceu. Depois de 4 anos morando a pouco mais de 100km da capital paraibana, finalmente eu conheci João Pessoa, pus meus pés nas ondas calmas e verdes do litoral da Paraíba. Meu personagem também foi mudado, do sonolento Tio Gerúndio fui escalado ao marinheiro bebum Julião.
É, talvez ano novo seja sinônimo mesmo de vida nova. Mas nem tanto! Continuamos ensaiando o que já estávamos ensaiando no ano passado. Continuo pegando carona com Júlio pra voltar pra casa. Sou o mesmo beatlemaníaco de antes. Continuo no mesmo apartamento e pagando o mesmo valor, ainda bem!! A mochila nas costas é a mesma. Já o fogão não é o mesmo ‘mesmo’ e agora torra pipoca. A cama ao lado do pc parece diferente, mas pelo menos combina com a cor da mesinha. A leitura de Marley & Eu se tornou imagens novas de uma realidade já conhecida. Os encontros diários do quinteto mágico na universidade agora se resumem a scraps no orkut e carinhas no MSN. É, as coisas andam mudadas mesmo!!
Pela primeira vez começo um ano sem a responsabilidade de aulas diárias e uma interrogação do tamanho dos meses do ano surge na minha vista. Parece um imenso oceano que tenho a atravessar sem saber ao certo onde vou chegar e o que encontrarei no caminho. Se por um lado tenho mais amigos que me fortalecem e me encorajam, por outro me vejo afundando sozinho em uma canoa no alto-mar, sem ninguém a me socorrer ou escutar.
As responsabilidades! As incertezas! Os sonhos! Os medos! Os desejos! A idade! Acho que tudo isso se renova também a cada ano e fica igual ao mesmo tempo. É nessas horas que seria mais fácil colocar uma mochila nas costas, pedir carona na estrada e sair por aí sem rumo certo, percorrendo os mais diversos lugares, conhecendo as mais diferentes pessoas, sonhando, crendo, vendo, sentindo, respirando, desejando, conhecendo, experimentando, viajando... fugindo e encarando!!! Hoje aqui, amanhã em Cochabamba, Bogotá, Atacama, Patagônia... Afinal, tem momentos que parece que é para isso que esperamos tanto. Sim, porque tanta espera não pode ser pelo dinheiro. Ah, quer saber, como diz Arnolpho Lima Filho, Samuel Rosa e Gilberto Gil, “vamos fugir desse lugar, tô cansado de esperar que você me carregue”. Vamos viver cada momento e fazer de cada dia um novo ano, pois não é a virada de 31 a 1º que muda, somos nós e as nossas atitudes!! Feliz vida nova a todos!!
8 de maio de 2010
Tatuagens Removíveis
Quem nunca bebeu da fonte que ousou dizer jamais beberia? Pois é. Desde pequeno venho renegando muitas fontes. Aliás, parece que quanto mais renego, mais sinto sede dela no futuro. Quando criança não podia ver cheiro-verde no feijão que saía catando todas as folhinhas, caso contrário, não comeria. Cebola então, nem pensar. Cheguei a jurar que jamais faria um orkut, que nunca sairia satisfeito de um cabeleireiro, que não aprenderia a cozinhar em hipótese alguma. Não gostava de música clássica, nem tinha paciência com os clássicos do cinema. Achei que sempre teria náuseas ao viajar, que nunca trocaria um almoço por um cheeseburger e que não iria jamais tomar uma vacina sozinho.
Mas o que acontece na cabeça da gente com o passar dos anos? Amadurecemos nossos conceitos, nossas ideias, nosso paladar? O bom é que por necessidade ou crescimento, conseguimos mudar e descobrir novos sabores, novas cores, novas experiências. Hoje o cheiro-verde é indispensável no feijão. Pizza sem uma rodela de cebola não tem graça. Não só fiz meu orkut, como consegui que minha mãe e minha tia fizessem um. Já saio do cabeleireiro satisfeito. Consigo comer o que cozinho. Já troquei almoço por cheeseburger, viajei sem vomitar. Alugo os clássicos do cinema. Lavo louça ao som de Chopin e o mais incrível, fui por determinação própria tomar vacina no braço sozinho.
Ainda existem algumas teorias que continuo defendendo, como a distância do alho, ir ao cinema sozinho e a preferência pela solidão. Talvez consiga superar algum dia, mudar de opinião, assim como tem acontecido com a tatuagem. Sempre afirmei que odiava tatuagem, que era feio, de mau gosto e que nunca faria uma em mim. Bom, mais uma vez me surpreendo com a sede dos poços rejeitados. Ainda não cheguei a fazer uma tatuagem, mas a ideia de “nunca” já ficou bem pra trás e abre caminho para “por que não?”. Hoje já penso na possibilidade de tatuar sim alguma parte do corpo, não tão radical como alguns, mas algumas tatuagens seriam interessantes.
Pensando nessa ideia, acabei descobrindo um site que disponibiliza tatuagens virtuais para serem coladas nas nossas fotos. Assim, podemos ver como ficaríamos se nos submetêssemos a alguns desenhos. Aproveitando o ensejo, criei várias tatuagens em algumas fotos minhas. Coloquei no braço, na perna, nas costas, no rosto. Logo abaixo estão algumas das fotos em que colei as tatuagens. De repente, aquele monte de desenho que me pareciam horríveis pelo corpo, ganham uma nova cor e sentido aos meus olhos. Deve ser a necessidade de busca pessoal, de mudança, de transformação. Um anseio de explorar e descobrir os sabores que há tanto agradam a diversos paladares. Vez por outra escuto alguém me dizer: “mas você num disse que não gostava disso?”, e aí é que percebo que algo em mim mudou com relação àquilo. Quando vejo hoje meu primo de 11 anos catando o cheiro-verde no seu prato, penso logo que aquelas lindas folhinhas verdes serão um ingrediente essencial pra ele também no futuro.
Mais uma Copa do Mundo começa para cada um brasileiro. A emoção, o corre-corre nas ruas pra não perder o jogo. O comércio fecha. As ruas ficam vazias. Um silêncio só quebrado pela bola entrando na rede. Fogos no céu anunciam o momento. Todos, independente de acreditar ou não na seleção, torcem, vibram, desejam os gols, a vitória. E o Brasil saiu contra a Coreia. Não foi uma grande partida, ralentou o primeiro tempo, recuperou o fôlego no segundo, deixou escapar uma jogada do adversário, mas venceu. 2 a 1, não foi lá grande coisa, mas também não é o fim do mundo. Ainda tem várias partidas pela frente. E olha que não sou muito otimista.
Mas não há como não sentir, se envolver, parar a cada quatro anos pra viver esses dias de amor à pátria. A Copa do Mundo não é só futebol, ela vai além. A Copa do Mundo é paixão pelo país, é bater no peito orgulhoso “eu sou brasileiro”, apesar de todas as desgraças. É se emocionar com o Hino Nacional. É comprar uma camiseta verde e amarela. É o momento do Brasil se destacar no mundo, chegar nos mais diversos lugares pra mostrar a sua cara através do futebol. É gritar! É ser feliz! É esbravejar! É reunir os amigos, a família. É ser brasileiro.
A primeira copa de que me recordo foi a de 1994. Eu não acompanhava os jogos, mas gostava daquele clima de euforia e união que sentia nas ruas. Quanto ao jogo, estava mais preocupado em não haver aula no dia seguinte se o Brasil ganhasse. E não houve!! Bom, a copa da França em 98, que muitos afirmam ter sido comprada, foi a primeira que acompanhei, torci pra valer, me emocionei e chorei quietinho em cima da trouxa de roupa pra lavar, naquela final desastrosa. Mas vibrei em 2002, e voltei a chorar em 2006, não pela derrota do Brasil, mas pela perda do meu pai.
É difícil não torcer pelo Brasil, não xingar os jogadores, o técnico, o árbitro. É difícil não sonhar com o Hexa porque somos brasileiros. Nos identificamos pela pele, pela música, pela culinária, pela alegria, pelas praias, cidades, artistas, lutas e até pelos políticos. Nos descobrimos não mais nordestinos, paulistas, cariocas, mas um povo só com uma história comum, os mesmos sonhos, desejos. Uma nação, um único povo diante do mundo.
23 de setembro de 2010
Tudo errado ou eu sou errado
Queria morar numa ilha deserta ou perdido no meio do mato. A vida tida em sociedade parece cada dia mais insuportável. Por que aceitar tanta burocracia, “ordens” e deveres que só nos fazem mal? No final de tudo se analisarmos o grande princípio dessa vida não temos mais, a liberdade. Estamos presos no sistema, presos no planeta. Já extrapolou o limite de clichê, o meu dizer que está tudo errado, então agora quero questionar os erros, descobrir se mais alguém os enxerga ou eu estou num devaneio solitário. Pra estourar a bomba, me respondam por que todo ser do sexo masculino tem que se alistar no exército, marinha ou aeronáutica quando faz 18 anos? Cadê a liberdade de escolha aí? E se eu não quiser? Se não quiser ser reservista? Quem vai me obrigar? Onde está escrito, quando vim ao mundo, que eu sou obrigado a matar e a morrer numa guerra inventada pelos interesses dos “grandes” homens? Mas a sociedade obriga. Caso contrário o jovem inexiste no sistema, não faz vestibular, não presta concurso, não trabalha, vegeta.Já que estou falando de concurso, emprego, uma exigência que não consigo entender é o indispensável “comprovante de residência”. Alguém me explica pra que exigir esse documento no ato de assinar um contrato de emprego? Então eu só posso trabalhar se eu tiver uma casa? Se eu morar embaixo de uma ponte eu não poderei trabalhar ou terei que levar o comprovante do viaduto? É ridículo! Já não bastam os números de RG, CPF, título de eleitor, carteira de trabalho e motorista que fazem do ser humano um chip do governo. E por falar em governo, não há piada maior em um país que se intitula democrático, do que exigir voto obrigatório da população. Eu voto se quiser, quando quiser e sentir vontade. Só que mais uma vez irei vegetar se não comparecer às urnas ou justificar a ausência. “Justificar a ausência!” é pior do que obrigar a votar.
Aliás, as obrigações continuam fora do país. Ai de quem tente cruzar qualquer fronteira de um país sem um passaporte e um visto de autorização. Se somos livres, se o planeta é um só, por que tanta burocracia e dificuldade de transitar de um lugar a outro? Nunca poderia pegar uma mochila, uma moto e tentar cruzar a américa espanhola sem ter que me deparar com uns dez policiais me encarando estranho. O que dirá então de tirar as roupas e nadar na primeira cachoeira que encontrar pelo caminho. Aos olhos do primeiro ser vivo que me encontrasse, a polícia surgiria para preservar a decência e o bom comportamento. Como se a nudez fosse sinônimo de profano. Essa é talvez a maior hipocrisia da sociedade. Por que todos têm que andar vestidos? Eu estaria agredindo alguém só por mostrar o resto do meu corpo a ele? Se vemos mãos, braços, pernas e rosto de uma pessoa, o que uma nádega, um pênis ou uma vagina tem de tão diferente e agressivo que se torna crime exibir? E não me falem em sexo e libido, porque antes de servir a essas finalidades, usamos esses órgãos pra mijar e cagar. Felizes são os que vivem nas sociedades indígenas. Mais crenças e menos pudores. Mais rituais e menos burocracia.
As leis são engraçadas. E cada país que estabeleça a sua mais louca que a outra. As drogas por exemplo. Tem país que se mata só por portar alguma substância. Garanto que se eu fosse condenado a morte num país desses por cheirar uma plantinha, eu me matava antes, mas não dava a eles o prazer de me matarem. Se o cara gosta de viajar vez em quando numa plantinha, deixa, o problema é dele, às vezes deve tá precisando mesmo. Algumas tribos indígenas costumam ter suas substâncias alucinógenas em rituais de passagem e mesmo entre os membros mais antigos. E cá volto eu aos índios. De fato seria bom mesmo abandonar tudo e viver numa tribo indígena no meio da amazônia, no contato com a natureza, os seres vivos e outros valores, a mim, bem mais significantes. Mas até pra morar numa tribo, eu teria que ter autorização da FUNAI e explicar o motivo de querer ir morar lá. E acredito que eles nunca aceitariam a minha justificativa de não suportar a vida na nossa sociedade. Parece que a única saída seria milagrosamente encontrar um pedaço de terra sem dono, no lugar mais remoto do mundo e estabelecer o meu lar. Porque até do outro lado, onde eu achava que todos eram realmente livres, se a vida continua segundo os ensinamentos de André Luiz no livro Nosso Lar, eu tô é perdido, porque tem mais uma sociedade hierárquica me esperando.
P.S.: Quando passei esse texto pro Word pra salvar uma cópia nos meus arquivos, ele sugeriu que eu trocasse a expressão “mijar” por “urinar”. Eita, hipocrisia!!
10 de outubro de 2010
Tempo
Tempo! Dizem que vivo perdendo tempo, que não sei o que é bom, que o tempo corre, que eu preciso do hoje. Talvez seja verdade. O que mais terei perdido desde que vi a luz na sala de parto até os 25 anos? Gosto de pensar que vivi experiências fora do comum, que não joguei bola, mas subi em palcos, que preferia “mirabolar” histórias sozinho com os cavaleiros do zodíaco a permitir a interferência de alguém nas minhas ideias, não joguei vídeo game, mas dei vida a vidros de perfume e laços de presentes desfiados. Criei filmes com os bonecos e reprisava de vez em quando. Fiz isso até os 13 ou 14 anos quando os troquei pelos roteiros. Já senti escrevendo, a mesma sensação de quando brincava. Já deixei de lado, como quem enjoa aquele brinquedo. Já voltei a subir no palco. Já reassisti os Cavaleiros do Zodíaco e não senti o mesmo de antes. É o tempo!
Demorei a sair da infância. Será que já saí? Cheguei tarde à adolescência e mais tarde ainda saí dela. O que eu fiz a esse tempo colado a mim como uma sombra? Sonhei, idealizei, imaginei, mas não me projetei. Quis ser, quero ser, mas ainda não sou e quando serei? Nunca estou pronto e quando penso que estarei, já estive. Fujo do mundo ou de mim? A quem temo? A quem escutar? Tempo perdido sonhando ao invés de agir. Chances perdidas me subestimando. Até onde sou capaz de ir? Ir pra onde? Buscar o tempo esquecido.
Ainda não fui a uma academia. Desde os 18 ela briga comigo: “precisa definir seus músculos”, “massa muscular faz bem à saúde e embeleza o corpo”. É, daqui a pouco não terei mais o que definir. O tempo! Muitas outras coisas tidas normais ainda não fiz. Nem sei quando farei. Gosto de me isolar. A solidão não me parece uma prisão ou me aprisione mais do que tudo. Eu quero, desejo, anseio, mas no fundo não sei se almejo. Quero e não quero. Preciso e descarto. Alguém pode viver assim? E o tempo avança. Logo, logo, de mim é que ninguém vai mais necessitar.
Sou um labirinto cheio de túneis que levam a nada. A cada tempo construo mais passagens e a saída verdadeira torna-se sempre inexpugnável. Tô nadando contra a maré do tempo. Talvez tenha iniciado esses corredores há séculos, em outros mundos e talvez a saída esteja anos luz daqui. Sendo assim, ainda tenho muito tempo. Se nada fiz, se nada sou em 25 anos, será que farei ou serei em mais 25? Minha mãe tinha 27 anos quando nasci, meu pai 55. Eu tinha 8, 10, 11, 14, 18, hoje 25. Me arrependo de algo? Do que não fiz? Do que deixei que me fizessem? Preciso caminhar e tirar a sombra das minhas costas. O tempo é uma ilusão. Se esqueço os anos e olho pra trás como um longo dia, ainda estou pela manhã ou já cheguei ao pôr do sol?
12 de outubro de 2010
Nossa própria trilha
Vou explicar porque sempre coloco uma música para cada postagem que escrevo, embora alguns provedores nem executem o gadget. É simples! A música torna a postagem mais densa, mais leve, mais divertida. As canções têm esse poder. Elas são capazes de nos tirar do poço e de nos atolar também. Imaginem o que seria de 2001: Uma Odisseia no Espaço sem a sua trilha sonora? Dos seus 139 minutos, 99 estão embalados por suas melodias. E assim muitos outros filmes. É só pensar um pouco que a própria trilha sonora consegue nos portar até algum. Ghost, E o Vento Levou, O Fantasma da Ópera, Guerra nas Estrelas, Titanic. Como pensar em Indiana Jones sem lembrar de sua trilha? O mesmo com E.T. O Extra Terrestre, Jurassic Park, 007, Cantando na Chuva, Os Intocáveis. Os grandes clássicos do terror como Psicose, Sexta-feira 13 e Tubarão também guardam seus registros. O tema de Rocky Balboa virou sinônimo de boxe. E não há quem não viaje pelos céus na trilha do grande homem de aço.
A trilha sonora é um elemento de grande importância na construção de um filme, tornando-se em alguns casos até um personagem à parte. Aqueles sons que embalam a vida dos personagens são responsáveis por registrar na nossa memória a mensagem de cada filme. E acredito que um bom filme tem que obrigatoriamente ter uma majestosa trilha sonora, capaz de levarmos pra casa e continuarmos extasiados por ao menos algum tempo. Sou apaixonado por música. Só consigo lavar louça ouvindo algo. Sinto que ela torna o mundo mais divertido, mais colorido. Um beijo pode ser apenas um beijo, mas experimente soltar uma trilha romântica na hora, que antes do beijo, o olhar já será outro.
Outro dia caminhava sozinho pelo shopping. Estava naqueles dias de amargura, olhando pra cada um com vontade de esganar. Caminhava apressado pra lugar nenhum, mal olhava o rosto de alguém. Daí me sentei, peguei o celular, o fone de ouvido, liguei o mp3 e comecei a ouvir algumas canções. A agitação e a amargura foram se aquietando. Comecei a olhar as pessoas. Um casal conversando, uma menina mimada puxando a blusa da mãe. Já não parecia tão irritante. Olhei em volta como se a música fosse o mais importante e todos ao redor meros figurantes. O mundo ou a praça de alimentação já não era mais o mesmo. Comecei a caminhar, agora devagar, olhava as pessoas, sentia meus passos, conseguia sorrir da agitação das pessoas, da falta de tempo, eu tinha o tempo ali a meu favor. A vida transbordava aos meus olhos como o atlântico engolindo o Titanic. (Profundo, não?)
Bom seria se pudéssemos sempre estar embalados por alguma canção no nosso dia-a-dia. Nas filas dos bancos, no trânsito, nos supermercados, no corre-corre, nas brigas, nos medos, nas dúvidas, nas alegrias. Sempre ali com uma trilha sonora nos acenando sobre o que nos é importante na vida. Mas como ainda não temos um editor de áudio ao nosso dispor, vou abrindo meu mp3 e sentindo a vida pelas ruas e avenidas de vez em quando. Devo dizer que escrevi esse post embalado por Kenny G e alguns temas de filmes românticos, então se pareceu piegas demais a alguém, sugiro que o leia de novo escutando o mesmo. Afinal, temos o direito e por que não dizer o dever de ser piegas em alguns momentos. Nos permitimos ser críticos, céticos, egoístas, ambiciosos por tanto tempo, então relaxe alguns minutos e se entregue ao “melosismo”. Sua vida vai voltar ao normal ao fim da canção.
11 de novembro de 2010
Vamos fugir!
Sempre tive um espírito andarilho. Mesmo que muitas vezes tenha me imaginado em algum lugar fixo, levando uma vida regrada. Quando criança adorava viajar, sair da minha cidade, adentrar lugarejos diferentes, e muitas vezes, a viagem em si, o passeio de ônibus parecia bem mais empolgante do que o destino final, quando eu não enjoava dentro do carro. Porém, sempre queria seguir, nunca ficar pelos novos lugares. No fundo, sair com uma mochila nas costas pedindo carona pela estrada, sem rumo, sem destino, sempre foi um desejo reprimido da minha alma. Pensar que não temos lugar no mundo pra ir nem pra voltar, que nossa estadia é aqui e ali, seguindo em frente sempre, descobrindo novos lugares, conhecendo outras pessoas, vivendo cada emoção e aventura, nos torna paradoxalmente mais donos do nosso destino. Não é à toa que eu mantive, por vezes até inconsciente, uma afinidade muito grande por filmes americanos de andarilhos, pessoas que estão sempre percorrendo de carro aquelas estradas americanas imensas e desertas. Hoteizinhos baratos em beira de estrada, postos de gasolina e fast-food.
É uma estranha e contraditória sensação, como se por aqueles fins de mundo eu pudesse encontrar um sentido maior na vida, uma saída, um recomeço. Não quero filosofar nem divagar em pensamentos confusos e solilóquios, mas a onda de bem estar que me invadia a ponto de querer me transportar a esses lugares, era como um anúncio de que a mim só o essencial era necessário. Por que quartos de luxo em um hotel em Toronto, se me bastaria um lugar simples e confortável para passar a noite e seguir caminho no dia seguinte? E uma sensação de desapego a bens materiais, a pessoas, a lugares estava sempre presente. Ainda hoje não consigo raciocinar corretamente pra entender e repassar o que sinto às pessoas. Por isso filmes como Cinema, Aspirinas e Urubus, Central do Brasil, Diários de Motocicleta, Perseguição – A estrada da morte, Vencer ou Morrer estão entre os meus prediletos.
E o que me mantém ainda aqui atado esperando que as caronas venham até mim? Compromissos que me fazem sempre protocolar esse futuro. O ensino médio, o vestibular, a faculdade, a família, a namorada, e sempre alguma tarefa, responsabilidade que me impede de viver de espírito. Hoje realmente me sinto livre de qualquer compromisso ou obrigação, posso finalmente ousar seguir os caminhos de um destino sem destino. Mas será que irei? Terei forças para assumir e seguir? O momento é agora, ou logo mais outros compromissos me prenderão. O trabalho, por exemplo. Não sei de fato o que me prende hoje, talvez a ausência de algo a me prender. Espero o momento certo. Mas esse momento é agora. Sinto que se conseguisse passar o primeiro reveillón longe de casa e da cantoria da igreja, em uma praia, uma montanha, um deserto, uma cabana, um nada no nada já seria sensacional.
Talvez eu não tenha a coragem e o dinheiro de Elizabeth Gilbert, a escritora norte-americana, autora de Comer, Rezar, Amar, que se desfez dos bens materiais, pediu demissão e saiu em uma viagem de um ano pela Itália, Índia e Indonésia.Posso sair pedindo carona, mas preciso de grana pra comer e pernoitar no mínimo. Talvez se ganhasse na loteria. Mas aí obviamente optaria por voar pelo mundo de primeira classe, hospedado nas suítes mais caras e ostensivas dos principais cartões-postais do globo. E não seria a mesma coisa nunca. Só sei que o tempo avança e a minha única carona é viver à espera de uma mudança que pode nunca acontecer. E enquanto não acontece, viajo pela estrada do logo do Celeiro, como quem cai em um sonho, onde a gente nunca lembra como começou e nunca sabe onde irá terminar.
22 de novembro de 2010
Yesterday and today
O que faz uma banda permanecer viva quarenta anos após o seu término? Quais critérios definem o sucesso de um grupo de rock? A música? Os fãs? Os cantores? Os compositores? Qual o ingrediente utilizado por John, Paul, George e Ringo nas suas canções, capaz de continuar conquistando novos admiradores a cada ano? Acho que não seria capaz de resolver tal questão. Talvez suas batidas She Loves You, From me To You, Can’t Buy me Love, ou suas baladas If I Fell, In My Life, Something, talvez o estilo psicodélico, as inovações em Revolver, Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, os filmes, a Índia, as drogas. É muita vida para uma década apenas. O detalhe curioso nos shows de Paul McCartney no Brasil foi a gigantesca multidão que esgotou ingressos poucas horas depois de postos à venda. Uma multidão que não acompanhou a febre da beatlemania, que não viu os garotos inebriados com o sucesso se transformarem em ícones, não presenciou o crescimento, as desavenças e até o rompimento em estilo Abbey Road, mas seguiu o cantor em todas as suas canções ao delírio.
Não sei desde quando, mas em algum momento da minha infância, eu tomei conhecimento de que existiu uma banda chamada The Beatles que fez muito sucesso no passado e de que todos falavam extasiados. Contudo, era algo distante de mim, uma realidade para os que viveram duas décadas antes de eu nascer. Cheguei a descobrir que havia um John Lennon, que parecia ter sido o cabeça do grupo e que havia feito muito sucesso também após o fim da banda, principalmente com uma música que todos aclamavam chamada Imagine, mas que ele havia sido assassinado. Sabia que outro grande cabeça chamado Paul McCartney ainda estava vivo, mas desconhecia alguma música solo de referência. Os demais não sabia sequer o nome. Bem, também por algum motivo que eu desconheço, sempre mantive uma ligação de encanto e nostalgia por músicas dos anos 60, 70 e 80. Gostava do ritmo, das lembranças que eu nunca tive e que elas me remetiam, e muitas escutava nas ruas, nos sons altos dos carros insistentes em bares até tarde da noite.
Havia algum fascínio na música Feche os Olhos de um tal de Renato e Seus Blue Caps, que me envolvia, apesar de minha mãe dizer que a música era antiga e brega. Tinha outra também chamada Menina Linda que eu me fissurava, mas não tinha conhecimento do nome da música, do cantor e muito menos do compositor. Achava a melodia de outra incrível, mas muita gente gravava e eu cheguei a pensar que a música não tinha dono. Aos 15 anos fui morar na casa da minha tia pra estudar e descobri que o marido dela tinha um cd duplo do famoso grupo The Beatles, intitulado Anthology 3. Deduzi que deveria haver o 1 e o 2. Era música pra não acabar mais. Minha prima só gostava de uma canção e vez por outra colocava pra tocar, era Let it be. Soava interessante. Mas eu queria ouvir mesmo era Imagine que todos diziam ser perfeita, só que era da carreira solo de John Lennon. Ah, tinha outra bem conhecida desse grupo, Yesterday, mas não constava no cd da casa da minha tia.
Finalmente pude escutar Imagine completa quando Paulo Ricardo regravou e eu comprei o cd. Não entendia o inglês, mas a mensagem parecia ser bonita. No mesmo ano, escutei uma versão, agora em espanhol, da música que eu gostava e que todos regravavam. Chamava-se Mi Grand Amor Le Di, de José Alberto El Canário, título original: And I Love Her, composição: Lennon/McCartney. Ah, achava que eles só cantavam rock pesado e musiquinhas broncas. Depois escuto uma Sgt. Peppers na voz de Cássia Eller e uma Here, There and Everywhere de Rita Lee, de autoria dos mesmos. Mas o grande insight só aconteceu sete anos depois, no último ano da faculdade, na cadeira de cinema, quando o abençoado e beatlemaníaco Rômulo Azevedo me apresentou definitivamente a John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr no auge de uma loucura que teve início na Inglaterra dos anos 60 conhecida como beatlemania, retratada no filme A Hard Days Night pelos próprios rebentos.
A partir daí foi um Love me Do, Please Please me, Twist and Shout, All My Loving, I Should Have Known Better, I Want to Hold Your Hand, Ticket to Ride, Help, Penny Lane, Day Tripper, Eleanor Rigby, Hey Jude, All You Need Is Love, Yellow Submarine, Paperback Writer, Revolution, Across the Universe, Strawberry Fields Forever, A Day in the Life, Lucy in the Sky with Diamonds, Ob La Di Ob La Da, Dear Prudence, Golden Slumbers, Come Together, Here Comes the Sun, Get Back. Um mergulho cada dia mais intenso em busca de “novas” canções, “novas” melodias. De repente me vi revivendo uma época que nunca vivi. Conheci Liverpool, The Quarrymen,o clube Caverna, Hamburgo, Pete Best, Stuart Sutcliffe, Brian Epstein, George Martin, a gritaria nas ruas, a recepção em Nova York, os cinemas de A Hard Days Night e Help, o título do MBE, o LSD, o Shea Stadium, o sargento Pepper, Maharishi Yogi e a meditação transcendental, Yoko Ono, o terraço da Apple, a faixa da Abbey Road, o acervo do Beatles Anthology. E quanto mais eu pudesse penetrar.
Somente uma banda capaz de conquistar uma multidão de novos fãs 40 anos após deixar de existir, pode se considerar consagrada mundialmente. O poder e o alcance dos Beatles ultrapassaram não só a fronteira da Grã-Bretanha, mas a do tempo, e continuam influenciando gerações, transformando comportamentos, revirando as cabeças de jovens, adultos e deixando um rastro de obsessão aonde chegam. Paul McCartney e Ringo Starr hoje são relatos vivos de uma página da História do planeta, tipo como se Colombo, Napoleão, Cleópatra ou Hitler estivessem ainda aqui. A energia emanada de suas canções chegou até mim inconscientemente desde muito cedo, já era um fã dos Beatles em estado latente, e quando vislumbrei diante de mim tudo o que buscava, foi como um flash de memória perdida ressurgindo. Ainda engatinho pelo universo gigantesco de composições, bastidores e curiosidades do quarteto, mas ando absorvendo sua essência tão forte quanto a inalada de John em Girl. E sei que as partículas da explosão cósmica The Beatles continuam chegando a galáxias cada vez mais anos luz de nós, yesterday and today.
7 de dezembro de 2010
A arte do coração
Não é novidade pra ninguém que tenho um passado Imortal recheado de fantasias juvenis, Música e Paixão. Não é novidade também que já fui de Splish Splash a Dig Dig Joy e Vâmo Pulá com grande ímpeto. Cantei, vibrei, sonhei, desejei e vivi Dias e Noites de intensa dedicação. Sandy e Junior fizeram minha infância e adolescência mais divertida, acredito. Muitos me condenam hoje por isso. Como o cara gosta de Beatles e de Sandy e Junior? É muita discordância, não? Penso que cada fase de nossa vida é cercada de descobertas, de momentos únicos, e cada uma delas serve de alicerce para sermos o que somos hoje. Sandy e Junior contribuíram com uma fase de minha vida bem antes de While My Guitar Gently Weeps ou Strawberry Fields Forever. Foram importantes na construção de um garoto que queria subir no palco, escrever e interpretar. Hoje, ambos, Beatles e Sandy e Junior não existem mais. Não, como banda e dupla. Paul McCartney, Ringo Starr, Sandy Leah e Junior Lima seguem suas vidas separadamente. O sonho acabou, já dizia John Lennon. O que sobra são coletâneas de cds, dvds, canções e lembranças perdidas na nossa memória.
Talvez a grande diferença entre The Beatles e Sandy e Junior na minha vida seja o fato de que enquanto ainda vivo hoje os Beatles como um verdadeiro beatlemaníaco, Sandy e Junior só existem no meu passado. Não Dá Pra Não Pensar em toda relevância da dupla na minha caminhada, contudo, não teria mais o mesmo pique de 10 anos atrás. Já vinha perdendo o entusiasmo de outrora em seus últimos discos. Parece realmente que o Inesquecível fanatismo havia cedido lugar e cravado seu espaço nas páginas da memória Samuel. Mas vez por outra é bom recordar situações, estações, lendas... É sempre gratificante viajar nas nossas recordações e nos permitir viver a saudade. Nos faz bem. Foi isso que aconteceu quando o novo canal de assinatura da Globosat, Viva, anunciou o retorno do seriado Sandy e Junior,que esteve no ar de 1999 a 2003 nas tardes de domingo da Rede Globo.
Naquela época eu estava em pleno apogeu do meu fanatismo pela dupla. Ao longo dos quatro anos do programa, colecionei 20 fitas VHS gravando os episódios. Me Apaixonei pelas histórias, pelos personagens, pelo colégio CEMA, pela professora Elvira, pela cantineira Irene, Etc... E Tal. Tinha um carinho muito grande pela série, e ainda tenho. Outro dia tive a oportunidade de rever alguns episódios pelo YouTube - já que meu videocassete não funciona mais, as fitas estão se estragando e eu não tenho TV por assinatura – e foi maravilhoso rever as intrigas, as paixões, os objetivos e lutas da turminha do Centro Educacional Mário de Andrade. Era como se com Gustavo, Patty, Clara, Boca, eu voltasse a ser o mesmo Samuel de 14, 15 e 16 anos e tivesse os mesmos desejos de volta, querendo estudar numa escola como a deles ou até estudar com eles, participar de um episódio, escrever outro... Nossa! Quanta Ilusão!
De alguma maneira maluca, o seriado me conectava a um ideal de vida, seja estudando em um Liceu, tendo amigos unidos, atuando ou escrevendo. Gostava da sensação que os episódios me provocavam. Sensações que talvez nem os próprios atores compartilhassem. Me sentia um Super-Herói. Sei que Sandy e Junior hoje não mantêm o carinho pela série, que eu e tantos outros fãs mantemos. Foi apenas mais um trabalho, e Junior chegou a afirmar, em entrevista a Marília Gabriela, que sente vergonha em se ver no início da adolescência. Mas quem se importa? Só queríamos o conjunto de histórias com a maior dupla pop brasileira até então. Nomes como Mariana Ximenes, Paulo Vilhena, Fernanda Paes Leme, Marcos Mion e Daniele Suzuki foram revelados no programa. No Fundo do Coração eu gostaria de ter toda a série em dvd, e através dela, nadar novamente pelos meus sonhos, rever os conceitos, bagunçar meus planos, afinal, somos sensíveis às emoções e estamos sujeitos à mudança. Quem garante que o nosso verdadeiro destino não está perdido em algum momento do passado, e só precisamos ir lá resgatá-lo? É só estar aberto e entender os mecanismos que compõem AArte do Coração.
23 de dezembro de 2010
O paradoxo do desenvolvimento
Cidade de interior, tranquilidade, pessoas nas calçadas, passarinhos cantando, vacas sendo conduzidas pelas ruas, certo? Nem tanto. Na busca pela modernização, as cidades pequenas passam a copiar determinados padrões de cidades maiores. Umas das grandes características de uma cidade interiorana é o seu calçamento, ou seja toda a malha urbana em paralelepípedo, o que de certo modo, nos associa a uma realidade distante dos agitos das metrópoles. Antes de ontem mesmo me vangloriava das pedras simples da nossa rua e agradecia por não ser asfaltada como a rua de baixo. Pois só foi eu me admirar desse fato, que ontem três carros diferentes e um trator começaram um processo de despejo de betume pela rua, provocando a admiração de todos. Sem aviso prévio, nossa rua perdera seus característicos paralelepípedos e ganhara uma pista preta, que mais me lembrava a Avenida Floriano Peixoto em Campina Grande, do que uma cidadezinha pacata do interior.
Perturbando a calmaria de outrora, e a chuva que caía até anteontem, o barulho das máquinas e o cheiro forte do asfalto me gerou uma típica dor de cabeça. A presença de toda aquela parafernália e daqueles homens circulando pelas calçadas me incomodou. Ninguém me perguntou se eu queria aquele derivado de petróleo cobrindo os singelos paralelepípedos que tornavam nossa rua mais interiorana e simpática. De repente tomei as dores de todas aquelas pedrinhas, o que estariam pensando sendo substituídas assim como qualquer coisa? O ar que percorria entre seus espaços sendo sufocados pelo alcatrão e aquecendo o solo, tornando nossa rua mais quente, mais espessa, mais industrializada, menos cidadezinha. E nem estou falando do aquecimento global que toda aquela mistura espalhada pelas ruas está contribuindo. Por que será que as pessoas não entendem que tornar uma cidade de interior mais desenvolvida não é necessariamente implantar os mesmos padrões dos grandes centros, mas expandir o que o município tem de singular, sem perder nunca sua característica charmosa de uma cidade pequena.
O percurso da malha asfáltica seguiu desde a rua de baixo, indo em direção à igreja e se encontrando na pista seguinte que dá acesso aos municípios de Coronel João Pessoa e Venha-Ver. Era a emenda final para completar o percurso que segue desde a entrada da cidade no sentido de Pau dos Ferros. Assim quem passa pela cidade vindo de Pau dos Ferros a Coronel João Pessoa segue direto pelo asfalto. Tudo bem, ligação perfeita. Contudo, não seria mais interessante deixar os limites da cidade fora do percurso asfáltico? Afinal, o município não é apenas mais um pedaço da pista, é um lugar habitado, com suas peculiaridades. E esse é o intuito a quem entra, que diminua a velocidade e aprecie os detalhes da região. Quanto mais se cuida daquilo de que a cidade tem de característico, maior ela se torna, e quanto mais semelhante à rotina e aos agitos dos grandes centros urbanos, menor ela será.
31 de dezembro de 2010
Nosso eu de coração
Último dia do ano. Hora de virar a página de mais uma etapa em nossas vidas. O que 2010 tinha a nos mostrar, nos ensinar, já nos foi revelado. Agora vamos ao encontro de novas descobertas, novas chances, oportunidades, sonhos e realizações, espero. A cada ano os dias correm mais depressa, os meses passam e quando menos percebemos, uma década se passou. Parece ontem que entramos no século XXI e já finalizamos seus primeiros 10 anos. Nunca fui chegado em retrospectiva, principalmente do ano que acabamos de encerrar. Afinal, o que acabou de acontecer todos sabemos e rever tudo no fim de ano, quando devemos estar nos refazendo para seguir adiante, soa meio nostálgico. Mas parei outro dia para ler uma matéria sobre a retrospectiva da década. Aquilo que me parecia tão próximo, num momento me refletiu léguas de distância. 2001 é uma realidade completamente avessa ao que vivo no momento. Pode não parecer e até não transparecer em alguns pontos, mas o garoto de 16 anos que conheci em 2001 já não existe mais. Aos poucos, ele ganha confiança, determinação, anseios verdadeiros e certezas absolutas na vida.
Uma década quando eu era criança lembravam séculos. Se hoje parecem mais curtas, não sei explicar, porém, são suficientes para amadurecer o fruto mais verde de uma árvore. De um garoto cheio de fantasias, medos e certezas infundadas, mergulhei por cidades, construí sonhos, cai em rios de dúvidas, inseguranças, perdas, mas encontrei cachoeiras de amigos e dedicação. Vislumbrei horizontes de felicidade, liberdades embaçadas pela neblina, chuvas de inspiração e córregos de realidade. Se já não sou o garoto que ousou produzir filmes, sonhou em escrever novelas, sorriu e chorou sozinho em apartamentos, desistiu de sonhos, encontrou outros e voltou aos primeiros, sou o resultado de toda essa procura e descobertas. Sou a sequência das pegadas, mais forte, confiante e convicto de um futuro próximo ao que chamamos felicidade.
Se ainda não entrei pelos caminhos que meu coração conhece de antemão, já descobri a entrada e posso visualizar meus passos por lá. Hoje tenho a convicção do que é importante a cada um de nós. E essa certeza me faz crer que ninguém tem o poder de determinar o caminho que se deve seguir, por mais íngreme, desconhecido ou obscuro que soe. Apenas cada um pode saber aquilo que aquece o coração e preenche o nosso ser, seja no campo profissional, nas relações de amizade ou no amor. Por isso, desejo que nesse ano que se inicia, todos encontrem seu verdadeiro eu, e não permitam que ninguém os obrigue a perder, esconder ou fugir do que o seu coração vibra. Só assim, cada qual escutando a sua voz interior é que encontraremos a felicidade de verdade e teremos a chance de olhar o próximo com mais ternura, compaixão e afeto, sentimentos que nos levam a vivenciar realmente a paz e a alegria tão desejados a cada ano. Um 2011 verdadeiramente vivo no coração de cada um.
2 de janeiro de 2011
A água que eu respiro
Dizem que o homem pode ser da terra, da água, do ar ou do fogo. Eu, indiscutivelmente, sou da água em todas as suas manifestações. Água de rio, cachoeiras, ribeirões, chuva, mar, água, água, água... Decidi falar sobre a água nessa primeira postagem de 2011 por sentir que ela representa vida, e vida em abundância. Nas alegrias, vitórias, decepções, desabafos é ela quem nos socorre manchando nosso corpo com as gotas do suor e das lágrimas. A mesma que cai do céu e germina a terra, fazendo florescer a vida. A água que lava o corpo cansado, limpa as manchas da caminhada, revigora a alma, nos alimenta o ser. Água que separa mundos, que esconde segredos profundos, que se agita e se aquieta. Água que sacia a sede, que percorre nosso interior e permite a sobrevivência.
Demorei algum tempo para perceber como eu e a água éramos inseparáveis. Embora ela sempre tenha me acompanhado como uma fonte de renovação. Na infância a conheci além do filtro e do chuveiro do banheiro. Comecei a estabelecer contato com suas correntes na piscina da casa do meu pai. Embora não soubesse nadar, ficava horas protegido nos braços dele mergulhado naquela vastidão. E malvado aquele que fosse me tirar e me enrolar em uma toalha. Geralmente sobrava para minha mãe. A partir daí tracei um elo de amizade com a água. E sempre que podia ela vinha me visitar pelo céu, caindo sobre o telhado da minha casa, formando bicas fortes que escoavam pela calçada. Sua chegada era sempre uma festa. Jogava a camisa fora e saía correndo com os amigos pelas ruas feito um moleque sem dono no meio daquele aguaceiro. Abria a boca e deixava os pingos caírem dentro, como se com isso fizesse parte daquela totalidade.
Havia algo mágico naquele espaço entre o início das gotas no céu e as poças que se formavam no chão. Não sabia exatamente o que era, mas sentia que uma poderosa energia caía junto com toda aquela água e me fazia bem, que já nem me importava em ter que ir para casa quando minha mãe chamava. Agora aquecido e agasalhado, observava a chuva cair e o acúmulo de água ao pé das calçadas correndo como um rio. Quando ela cessava, percebia uma mudança no ar, e as gotinhas que pingavam das árvores em mim eram sua despedida. Fui crescendo e a água continuou minha amiga. Sempre que podia inventava uma brincadeira com os bonecos na pia de lavar roupa. Enchia o tanque d’água e ficava mergulhando-os, me imaginando nadando ali. No fim do dia os dedos eram só rugas, mas pareciam bem mais vivos. Na casa da minha avó sempre tiveram muitos tanques para reservatório de água, e uma da minhas maiores alegrias era, vez por outra, poder cair dentro de um. Pena que cresci depois e já não cabia na entrada.
E nada poderia ser mais gratificante do que viajar para a capital e ir ver o mar. Aquelas ondas batendo contra as pedras, a arrebentação lá distante, próximo a algumas embarcações... era imensurável. Corria sentindo as ondas nas pernas e sua força me puxando para dentro, enquanto ficava ali parado vendo meus pés se atolarem na areia. E peguei amor por todas as palavras que lembrassem mar, como recifes, corais, cais, encostas, naus, rebentação. Hoje, a água e eu somos velhos amigos. Aqui, acolá ela me passa um e-mail numa tarde quente, desembaça a vista, me beija. Outras vezes sou eu que a visito e caio de abraços em suas moléculas. Inebriável sensação quando estou em contato com ela ou simplesmente sinto a sua presença. Suas gotas são minha maior inspiração. É quem me alimenta, me arranca sorrisos e gargalhadas, me aquece a alma e renova o gás. Quem sabe um dia possamos compartilhar do mesmo espaço, dividir outras histórias e respirar sempre esse ar que me sustenta? Por pura coincidência ou não, começou a cair aqui uma chuva fininha agora.
1 de fevereiro de 2011
O resto é mar
Somos movidos a quê? O que nos faz levantar e seguir uma rotina exaustiva todos os dias? Há quem diga que o dinheiro move o mundo. Somos escravos do poder das cédulas. Mas prefiro acreditar que os sonhos movem o universo. São eles que nos impulsionam, nos arrastam quilômetros e remexem nosso eu interno em busca de uma saída que há muito já sabemos onde existe. Sem os sonhos, entramos quase num automático e deixamos o corpo nos comandar a um ir e vir sem fim à espera de um fim que nunca chega. Com a exigência de um profissional cada dia mais competente, qualificado, experiente, a competição, a correria, as cobranças, somos forçados a esquecer o que nos impulsiona, e nos jogar nesse turbilhão a fim de existir. O bom de quando adentramos muito nessa zona, é que podemos chegar ao centro e parar, ficar observando o mundo girando a nossa volta, como no olho de um furacão. Só aí podemos perceber que precisamos de mais, que precisamos deixar de rodar com os outros e criar nossa própria rota.
Há muito deixei de acreditar em sonhos. O mundo pareceu mais cruel e foi conseguindo corroer todos com o passar dos anos. Pulava de galho em galho na tentativa de me agarrar a algo que me desse satisfação e ao menos que fosse capaz de me sustentar em pé. Sacava cartas da manga que poderiam me fazer virar o jogo, mas logo eram descartadas e fui ficando sem saída, sem chão. Talvez entrar no furacão fosse a resposta do enigma. Mas por esses acasos da vida, ou sinais que nos despertam por alguns minutos, uma viagem inesperada caiu no meu colo com uma piscada de olho. Desde não sei quando exatamente, eu sinto que algo me chama ao sudeste do país, especificamente ao Rio. Por inúmeras intempéries fui adiando essa ida, sonhando com a cidade e nunca a possibilidade de ao menos conhecer. Durante quatro anos na universidade de comunicação, nunca saí da minha cidade a nenhum congresso, então se eu contasse a mim mesmo que estaria em janeiro de 2011 no Rio em um congresso de filosofia, certamente eu não acreditaria.
Uma esquete que começou por render uma graninha extra para um trabalho de grupo de universidade, me rendeu um passaporte para a vida. Quando Suellen me comunica que haveria um congresso de seu curso de filosofia em Niterói e que ela estava pensando em escrever nossa esquete no seu trabalho, eu fui o primeiro a incentivar. Essa oportunidade eu não perderia. Com todas as adversidades, embarcamos nessa aventura. Dois dias dentro de um ônibus. Dormindo pouco, comendo o mínimo e pagando muito, tomando banho aqui e ali, cruzando uma Bahia sem fim, torcicolo, tudo parecia não importar quando fomos maravilhados com a vista do Cristo ainda pequeno lá no alto do Corcovado, e aqueles cinematográficos morros do Pão de Açúcar. Não havia pisado ali antes, mas como lembra Gilberto Gil, o Rio de Janeiro continua lindo.
Nem toda a desorganização do congresso, as condições do alojamento, a falta d’água, os banhos de cuia, as luzes acesas de madrugada, os ventiladores parados e o calor nos evaporando, conseguiram estragar o meu humor. Afinal, a cidade existia, e eu estava nela. Havia deixado de olhar o Rio de cima e deslocado meu eixo para dentro. A cada passo uma lembrança, uma realidade. Era a bossa nova, Tom Jobim, Manoel Carlos, tudo me acenava. Pela primeira vez numa cidade grande não me sentia perdido, onde quer que estivesse. Afinal, tinha a noção do mapa e da localidade dos bairros na minha cabeça como se nunca houvesse saído dali. Percebi com essa experiência, que os sonhos podem realmente se tornar realidade, e quando isso acontece nos sentimos em casa, como se apenas tivéssemos chegado de uma longa viagem e estivéssemos prontos para viver uma vida que sempre foi nossa. Tenho gás para voltar a acreditar que a felicidade ainda é possível.
13 de fevereiro de 2011
O estranho planeta dentro de mim
Não sei se prefiro me isolar porque não gosto de gente, ou se gosto de gente e por isso prefiro me isolar. O que importa é que costumo fazer sozinho determinadas atividades que, habitualmente, se fazem em conjunto. Ir ao cinema é uma delas. Se eu retirar a vez em que fui assistir a Superman O Retorno com minha mãe, a Marley & Eu com meu primo e a Código Da Vinci com a turma da faculdade – embora tenha chegado atrasado e tateado um lugar distante de todos da turma – eu sempre fui ao cinema sozinho. Prefiro os dias de pouca movimentação, quanto menos gente na sala melhor, menos barulho, menos celular tocando, menos reações de riso e medo, menos cochichado, menos latinhas de Coca estourando... Se pudesse reservar uma sessão particular só pra mim seria perfeito. Procuro sempre os lugares mais isolados, nem que seja colado a tela, só para não ter ninguém do lado comentando o filme ou chegando a conclusões mirabolantes antes mesmo do cérebro processar o que está assistindo.
E nada mais chato do que aquele entra e sai, porta aberta, gente chegando meia hora depois e demorando mais outra meia pra entrar na história. Não entendem que a sala de cinema não é uma extensão da praça de alimentação do shopping, onde ninguém se escuta, mas todos abrem a boca. Ou entra com o intuito de acompanhar um filme ou faça exibição de sua figura do lado de fora. Vez por outra me deparo com alguns vagalumes dentro da sala. Todo tipo de inseto acendendo suas antenas para checar a hora. Vão sair da sala antes do filme terminar? Porque do contrário, não há necessidade de ficar de instante em instante checando a hora no celular bancando o lanterninha. E outro detalhe irritante é a quantidade de trailer cada vez maior antes do filme iniciar. Outro dia teve tanto que quase acabo o saco imenso de pipoca antes mesmo de aparecer o nome da produtora do filme que ia assistir. E se por um lado exageram no começo, reduzem no final. Mal surgem os primeiros créditos e as luzes já se acendem. Alguns segundos depois já cortam o filme e somos quase expulsos da sala.
Por isso que às vezes prefiro ficar em casa, comprar um dvd ou baixar algum filme de graça e poder assistir sem nenhum aborrecimento. É quando bate aquela solidão, aquela falta de gente e vou ao shopping, de preferência sozinho, me misturar a toda aquela multidão. E aí não sei se estaria mais sozinho em casa com os meus pensamentos ou ali circulando ao lado de todas aquelas pessoas. Estou para descobrir outro ser vivo que saia de casa para passar uma tarde perambulando solitário pelo shopping, entrando em lojas, vendo muito, comprando pouco ou quase nada, sempre comendo, ouvindo música no mp3 e observando o vai e vem dos frequentadores com cara de paisagem. Realmente é um programa anormal, típico de seres atípicos que fazem uso de alucinógenos para permanecer “on” e se manter no meio-fio ou para não despertar pondo fim à “paz social”.
Apenas quinze minutos sentado em um banco qualquer do shopping, para encontrar desde o curioso às mais aberrações desse planeta. Grupinhos de adolescentes que disputam com as maracas quem faz mais barulho. Casais de namorados de mãos dadas olhando as vitrines e exibindo o outro como troféu aos amigos. Gente andando engraçado. Uma moça com o short rasgado exibindo o forro dos bolsos como quem indica a última moda. Outra num salto tão alto que até pra andar inventou um novo caminhar. De repente algumas cores ofuscam minha visão. Dois cidadãos, ou poderia chamar personagens de algum mangá que saltaram pra fora do gibi, com calças verde e amarela, tênis azul e rosa, camisa lilás e óculos quadriculado, sem mencionar o cabelo emo vazando num boné espalhafatoso. Aí eu olho do lado, tudo muito tranquilo e me sinto um alienígena no planeta dos humanos. Realmente devo ser. Não vou ao cinema com os amigos e fico no fundão, onde a maioria fica pra ver melhor, nem saio por aí com ninguém exibindo meu look Restart. Quem é mais estranho nessa brincadeira agora? De fora somos todos habitantes alheios de uma galáxia perdida na poeira cósmica, mas cada um no seu planeta e ninguém vira macaco.
19 de fevereiro de 2011
Vai encarar?
“Me olha no olho!” “Eu tô falando com você! Me encara!” “Olha pra mim!” Por que as pessoas querem tanto que alguém esteja sempre as olhando enquanto falam? Eu sempre tive dificuldade de encarar o olhar do outro quando estou conversando, principalmente se minha intimidade com o outro não for além do habitual “tudo bom?”. Eu fujo do olho alheio. Sempre fugi. Na escola tentava ser o mais invisível possível, me esgueirava pelos cantos para não ser visto, mas parece que quanto mais me esforçava, mais era percebido. Nas festas, nas praças, igrejas e calçadas era sempre o cara de cabeça baixa seguindo seu destino temeroso aos olhos alheios. Dediquei grande parte de minha vida a me reclusar em casa, me fechando do mundo e do que a ele pertencesse por medo do poder escondido nas córneas de cada um. Bastava um olhar, e uma inquietação subia pelas pernas, as mãos não sabiam onde se manter, os olhos giravam mais que ventilador no nível 3, e nunca de encontro ao olhar que me dirigiam, ou caso isso ocorresse a rotação do olhar saltava para o nível 7.
Uma certa timidez acompanhada de uma boa dose de insegurança marcaram esses meus dias. Nada que o majestoso tempo não pudesse interferir com seu sopro. Contudo, as paranoias que o tempo varreu deixaram algumas cicatrizes, e ainda hoje tenho dificuldade de concentração quando tento argumentar olhando no olho de alguém. As ideias fogem como eu fugia dos olhares na infância. Sinto a expectativa do outro em mim, enquanto permaneço ali perdido sem foco, roubando a atenção alheia e contando os segundos para reorganizar as peças e não ser abatido como um porco. Se eu quiser realmente elaborar uma teoria e explanar sobre ela com as pessoas, não me peçam para encará-las. Simplesmente perco o foco. O olhar do outro leva embora a minha concentração. E por que os olhos mais do que tudo incomodam tanto? Acredito que eles sejam os órgãos do corpo humano que melhor expõem as nossas fraquezas e nos mostram muito mais do que as imagens do mundo, nos permitem chegar a fundo na natureza almática de cada um.
Indiscutivelmente, é uma tarefa que exige um esforço imensurável de minha parte, mas que consegue obter um significativo resultado ao final. É necessário apenas olhar. Fixar a visão no olho do outro, como se desejasse se ver através de sua imagem refletida num espelho. Com certeza será possível chegar até o outro, nu, livre de qualquer julgamento, desarmado. Vai encontrar o outro. Entretanto, independente do meu trauma de infância, encarar o olhar de um desconhecido é sempre um desafio a qualquer um. Podemos observar uma pessoa em um ponto de ônibus, numa praia, num supermercado, mas é só essa pessoa nos lançar seu olhar que já desviamos e fingimos apenas cuidar da nossa vida. Afinal, quem vai permanecer encarando um estranho até ele se invocar e sair com no mínimo um “que é”? O olhar incomoda. Todos querem ver, mas ninguém quer ser visto. Ou quase ninguém. Há quem faça desses olhares seu verdadeiro quintal.
Nesse aspecto, não há ninguém que supere os recém-nascidos no quesito encarar. Eles são os únicos que encaram de verdade o outro e ainda fazem careta ou choram se não forem com a cara. As crianças já não são nem tão determinadas assim. Por influência da sociedade que evita o cara a cara, elas já começam a desenvolver uma auto-crítica quanto a não continuar observando o outro quando notadas. Algumas tentam, mas acabam escondendo o rosto envergonhadas ou em desespero, como se algum espião da KGB tivesse sido identificado. Outro dia, enquanto aguardava meu ônibus no terminal de integração, um recém-nascido começou a me olhar, daí não me contive e passei a observá-lo também sorrindo. Ele se mantinha sério, analisando cada ponto do meu rosto e do meu corpo, indiferente ao meu sorriso. Depois se virou e passou a olhar o carrinho de picolé. Ainda voltou o rosto na minha direção, mas a mãe percebeu e o mexeu para que ele deixasse de me olhar. Já começam as interferências.
Se o olhar nos diz quem somos, imaginem o mundo inteiro cego. Um único deficiente visual pode contar com o auxílio do outro para pegar uma condução, mas numa cegueira universal nem trânsito haveria. É um caos semelhante ao que se encontra no filme Ensaio sobre a Cegueira, baseado na obra de José Saramago. É a degradação do ser humano aos seus instintos mais primitivos, uma luta pela sobrevivência em um local planejado para ser visto. De certo modo, somos esses cegos quando negamos o nosso direito de enxergar e fugimos aos olhos do outro. O que nos intimida tanto? Talvez a saída da superficialidade e o conhecimento do outro a fundo. Temos medo do que encontrar, de nos perder ou de nos reconhecer? Afinal, somos todos oriundos da mesma matéria e particularmente distintos. E por que não encaro as pessoas, e provavelmente continuarei a agir assim? Porque no fundo temos medo de nós mesmos, sabemos que julgando, seremos julgados, sabemos que se olharmos diretamente até no olho de um cego, encontraremos uma chama acesa lá dentro, acharemos o outro e encontraremos a nós mesmos.
21 de fevereiro de 2011
Sem contra-indicações
Outro dia enquanto fazia um dos meus passatempos prediletos, ler a bula de um entre tantos remédios aqui de casa, me deparei com um fato curioso. Na verdade são dois. Mas ignorem o primeiro que seria ler bula de medicamento. Quem em sã consciência perde seu tempo com isso? Mas indo ao fato curioso, reparei que no quesito “contra-indicação” havia somente a seguinte frase: hipersensibilidade a qualquer componente da fórmula. Realmente quem desconfiar que é sensível a esse ou àquele componente nem deve chegar perto da medicação, mas como o indivíduo vai saber antes de ter contato com tal fórmula se é sensível ou hipersensível? Dedução? Telepatia? Hipnose? Premonição? Só experimentando mesmo. Aí depois se tiver tudo ok, continua tomando, senão, vai descobrir da pior maneira quais são suas alergias.
Tem gente que não come carne de porco, leite, ovos, amendoim, nozes por saber que tais alimentos lhes provocam reações alérgicas na pele ou no organismo. Enfim, todos descobriram que tipo de alimento os prejudicam após terem seu contato com ele, assim como descobri de maneira bem inocente que minha faringe prefere se fechar inteira a engolir um pedaço de crustáceo da ordem dos decápodes, com cinco pares de patas, popularmente conhecido como camarão. Sem comer o magnífico arroz marinho de um belo restaurante em João Pessoa, eu não saberia jamais que esse tipo de caranguejo me faz mal. De fato, não chegamos ao mundo com uma bula explicando que tipo de alimento devemos comer e a quais componentes químicos somos alérgicos. Seria bastante eficaz se junto do cordão umbilical viesse uma cápsula com indicações de todo tipo de alimento que fortalece e prejudica o recém-nascido, e ainda algumas informações extras do tipo: esse bebê terá rinite alérgica a partir dos 9 anos, miopia aos 14, vai desenvolver uma escoliose congênita na adolescência e sofrer de labirintite depois dos 20.
Ajudaria muito se pudéssemos descobrir tudo de ruim que iria nos acontecer, antes de acontecer. Mas temos que passar pela experiência. Senão não teríamos histórias pra contar. Eu não estaria aqui argumentando o fato de que nesse exato momento existem aí milhares de alimentos que nos prejudicam e não temos conhecimento. Se eu vou sentir náuseas, ter vertigens, vomitar, perder o ar é bobagem. Todo mundo vai encontrar na vida algum alimento que faça mal, fora os que comemos todos os dias e nos destroem à prestação. Aí vamos lembrando os dias que exageramos no pecado da gula, como a vez que me esbaldei num prato de macaxeira na casa do meu pai e tive um dejà-vu duas horas depois com o mesmo prato, só um pouco mais pastoso pelo chão. E quando bebi mais de duas taças de vinho tinto seco no meu baile de formatura e esperei apenas sair do carro de Samira pra banhar a calçada com aquela delicada bebida. Ah, e teve a viagem de São Miguel a Pau dos Ferros à noite no ônibus da Jardinense, que após a intensa degustação de doce de leite caseiro na minha avó, eu pintei o corredor do ônibus com uma textura bege que desagradou a todos os passageiros. Bem, mas acho que esse assunto já está dando náuseas.
Retomando um pouco a teoria do início da postagem, como sou um apreciador nato das novas fórmulas e componentes químicos presentes em cada medicamento, não me incomodo de ir testando qual remédio é contra-indicado ou não a mim. Até o presente momento não me recordo de nenhum que tenha rejeitado meu organismo. Com exceção do Rivotril que intensificou minhas crises de labirintite, nem a água oxigenada que eu bebi por engano na adolescência me fez mal. Acho que tenho uma boa relação com os fármacos. Nunca tivemos sérias brigas, e às vezes que discutimos logo nos reconciliamos. Somos quase que elementos de uma mesma fórmula. Por herança de meu avô, repassada a minha mãe, curto uma boa leitura de bula e todas suas indicações, reações adversas, posologias e superdosagens. Poderia até conceder uma palestra sobre os benefícios da nimesulida, ou os efeitos colaterais do alprazolam. Se de médico e louco todo mundo tem um pouco, acho que erraram na distribuição da minha medida e não sei se sou mais médico ou mais louco, ou a soma dos dois ao quadrado, mas adoro uma automedicação. E agora se me permitem, vou me retirar, está na hora da minha dose diária de daforin e finasterida.
2 de março de 2011
Desencanando
Confesso que pensei muito sobre qual tema iria discursar dessa vez. Quem sabe o retorno da minha carteira de trabalho com o DRT de ator, ou a impressão do meu primeiro roteiro profissional, talvez o cd duplo dos Beatles que não resisti na promoção das Americanas. Mas, o dia realmente foi bem devasso comigo e não me deixou outra alternativa a não ser tecer algumas linhas sobre o polêmico comercial de Sandy como a nova musa da cerveja Devassa. O grande trunfo publicitário não está em fazer da cantora uma “sex symbol”, mas na ousadia em levar uma garota com fama de “certinha” para estampar um produto com apelativo teor sensual. Claro, e o resultado não poderia ser outro. Foi o assunto mais comentado nas redes sociais do dia. Entre aplausos e tomates, todos fizeram questão de deixar sua opinião, surpresa, admiração ou incredulidade. E o objetivo maior já foi alcançado. Ninguém se ouviu falar tanto na cerveja Devassa como agora.
Realmente a novidade me pegou de supetão. Sandy loira e sendo garota propaganda de cerveja? Que loucura foi essa? Duvidei da capacidade dela em se submeter a esse tipo de trabalho, principalmente agora que recomeçou sua carreira num estilo mais intimista. Li algumas matérias antes, vi os primeiros comentários no Twitter, mas tudo me parecia meio sem sentido ainda. Só quando vi a propaganda pelo YouTube foi que entendi a jogada da empresa. Meu passado condena e por isso não deveria opinar, mas foi realmente brilhante. Quem acompanhou a carreira de Sandy ao lado de Junior não teve como não se surpreender. Admito, assisti ao vídeo umas dez vezes. Afinal, não é todo dia que podemos ver o lado descontraído de uma cantora como Sandy subir ao palco, mostrar sensualidade e jogar bebida para a plateia. Nessas horas é que pensamos quais outras facetas ela terá escondida e só Lucas Lima tem conhecimento.
Mas deixando o mítico e indo ao factual, o que vemos representado na propaganda é nada mais que uma cena cotidiana que pode e deve acontecer a cada um, ao menos uma vez na vida. Quem nunca tomou umas a mais e excedeu na comemoração em público? Eu mesmo, um eremita contemporâneo, despojado do álcool e das baladas noturnas, quase a versão masculina de Sandy, já banquei o ridículo dançando e cantando Deslizes de Fagner nas alturas em um bar. E o mais divertido, é que não há nada de errado nisso. Eu aprecio uma vida reclusa, me manter distante das farras que a maioria da galera da minha idade curte, o que não me impede ou me condena a permanecer eternamente assim. Há momentos que é necessário extravasar, se permitir ser ousado, libertino, insensato. Revelar o lado devasso mesmo que existe em cada um. Afinal, ninguém é um bloco de gesso imutável, que nunca tenha suas nuances.
A decisão de Sandy em participar dessa campanha publicitária revela que apesar de sempre ter tido uma postura bastante reservada, ela pode ser uma mulher como outra qualquer, que quebra a rotina, sai com os amigos, bebe um pouco no bar e pode abusar algumas vezes. Nada melhor do que usar do contraditório para chamar a atenção. Se tivessem colocado uma Claudia Leite, Danielle Winits ou Viviane Araújo que impacto teria no telespectador? O improvável é mais instigante. Ainda vi por aí quem postou uma entrevista anterior de Sandy comentando que não aprecia o sabor de cerveja por achar amargo. E daí se ela não bebe do produto que faz propaganda? Garanto que Xuxa não usa Monange. E ninguém caiu em cima de Zeca Pagodinho quando fez a propaganda da Nova Schin enquanto é um degustador assíduo da Brahma. O que falta é uma maior abertura e complacência das pessoas para burlar certos preconceitos e estereótipos que se criam na mídia em torno de alguém ou algum objeto. Se Sandy vai convencer de devassa ou não, a quem importa? O que a fabricante de bebidas quer é vender, e olha que até me deu uma vontade de abandonar meu tarja preta e experimentar essa cerveja, ou quem sabe misturar os dois, ficar “doidão” e sair aí pelo mundo bem devasso.
8 de março de 2011
Assumo a culpa
Alguém em um determinado momento da história do mundo estabeleceu que a culpa é algo pecaminoso e que devemos sempre arremessá-la no tambor de lixo mais próximo. Ninguém nunca quer ser o responsável por quebrar o vaso de porcelana da vovó, bagunçar as ferramentas do pai, arranhar o cd do irmão, perder o livro predileto do amigo ou esquecer de passar na padaria. “Não, o vaso caiu sozinho”, “eu nem cheguei perto das ferramentas, deve ter sido meu irmão”, “eu te devolvi o livro, não está mais comigo”, “você não me lembrou dos pães”. Por que a culpa é sempre alheia? Por que não dizer que quebrou, mexeu, esqueceu, perdeu ao invés de ficar buscando algo ou alguém como responsável por uma situação que foi gerada unicamente pela própria pessoa? O medo de falhar, de assumir os erros e vacilos diante do outro? Não somos seres dotados de perfeição absoluta, errar é tão humano que já virou clichê, no entanto, assumir esse erro aos olhos do outro é uma atitude dignamente humana.
Desde criança já aprendemos a apontar o outro como culpado de qualquer erro que cometemos. É o medo da bronca e repreensão dos pais, ou às vezes até da chinelada. Estamos prontos a qualquer momento para fazer uso desse instinto natural de defesa quando nos sentimos ameaçados. Crescemos com o conceito de que se alguma merda aconteceu, a culpa é de alguém ou de alguma burrada que o outro fez, e nunca nossa. Há quem até opte por deixar suas decisões nas mãos alheias para no caso de cometer uma escolha errada, ter quem apontar como culpado. E de quem é a culpa afinal de tanta culpa? Como culpar quem tenta se defender em um mundo que não admite erros? Ninguém é perfeito, mas a sociedade exige a perfeição. Assumir uma falha é assumir uma incapacidade, um erro, uma imperfeição. E ninguém está preparado para esse tipo de repreensão.
Ainda hoje me deparo com situações curiosas que acontecem na minha família. Minha mãe até hoje tem dificuldade de assumir sua culpa ao menor equívoco que cometa. Está sempre preparada para culpar a maçaneta da porta, a quina da cama, o celular que descarregou, a pessoa que amarrou errado a caixa do isopor, e na cozinha sobra até para as panelas. Por vezes pergunta a minha opinião sobre algo que pretende fazer, e quando a situação desanda, de quem é a culpa? Em uma circunstância de desespero então, melhor sair de perto que faísca para todo lado. E quando inevitavelmente não consegue negar a responsabilidade do ato que cometeu, passa horas numa auto-tortura psicológica de “mea máxima culpa”. E não escapei imune a convivência diária da fuga do culpado. Vez por outra me pego apontando o atraso dos transportes coletivos quando na verdade dormi demais e perdi a hora.
Será que nessas ocasiões não seria o momento de assumir a nossa culpa, parar de lamentar o ocorrido e pensar em como reverter a situação? Cada atitude nossa implica uma consequência e precisamos estar preparados para enfrentá-las. Desde um prato que escorregou da mão aos rumos que se deve tomar na vida é preciso assumir a responsabilidade. Se errou, se o caminho está difícil, é hora de mudar a situação e seguir em frente. Afinal, errar faz parte do aprendizado. E se aprende muito mais com os erros do que necessariamente com os acertos. Antes que alguém tenha a oportunidade de nos olhar e nos lançar seu dedo indicador apontando a culpa por algo, levante o indicador primeiro e mostre o seu caráter e honestidade ao assumir o erro que cometeu e se dispor a consertá-lo. Não é uma postura fácil de adquirir na vida, mas agindo com verdade, alimentamos nossa força para enfrentar todas as adversidades que surgirem pelo caminho. Bom seria se desde pequeno fôssemos ensinados a não negar nossas faltas, respondendo pelas nossas culpas sem susto, pois não há porque temer as falhas, e sim a falta de coragem de enfrentá-las.
9 de março de 2011
E no fim... as cinzas
Quarta-feira de cinzas! Para muitos ainda uma extensão do feriadão de carnaval. No Rio de Janeiro a apuração das escolas de samba. De certo modo a vida vai se encaminhando à normalidade. Há quem acredite que o ano começa pra valer agora. Porém, uma curiosidade assolou meu juízo esses dias. Não que já não houvesse perturbado antes, mas resolvi pesquisar e ainda bem que nossa amiga internet está sempre a postos para nos esclarecer qualquer dúvida. Por que o carnaval acompanha sempre a data da quarta-feira de cinzas? E por que uma festa tão espalhafatosa, colorida, com direito a bebida e nudez gratuita estaria associada a uma data religiosa? Foi aí que tive que investigar o sentido das cinzas na religião católica. A partir dessa data, onde as cinzas simbolizam um convite à reflexão sobre a efemeridade da vida humana, dá-se início a Quaresma no calendário cristão ocidental, ou seja, quarenta dias antes da Páscoa, sem contar os domingos. E como a cerimônia da Páscoa é realizada sempre baseada na primeira lua cheia após o equinócio de outono no hemisfério sul, quando o dia e a noite tem a mesma duração, sua data transita entre março e abril.
Até aí tudo tranquilo. Mas onde entra o carnaval no meio disso tudo? Para entender, é preciso saber que o período da Quaresma é reservado a reflexão, a conversão espiritual e ao jejum, um momento no qual os fiéis se aproximam de Deus em busca de um crescimento espiritual, ou seja, nada de festas e badalações. Não que todos os católicos levem esse ritual ao pé da letra, mas quando a Igreja Católica implantou a Semana Santa no século XI, algum engraçadinho achou esses quarenta dias de privação muito longo e resolveu que os dias que antecedem a quarta-feira de cinzas deveriam ser marcados por muita festividade e animação, para compensar mais de um mês de penitência. Daí surgiu o carnaval. E ao contrário do que muitos pensam, o carnaval não é uma festa genuinamente brasileira, constatando que quando ele apareceu, o Brasil ainda era um mundo conhecido apenas pelos indígenas em seu habitat natural.
Nos carnavais de outrora havia muita comida, bebida e grandes celebrações numa busca incessante dos prazeres. A animação durava sete dias pelas ruas, praças e casas da Roma Antiga. Atividades eram suspensas, escravos ganhavam liberdade provisória, pessoas trocavam presentes, reis eram eleitos por brincadeira e comandavam cortejos, e as fitas que amarravam os pés do deus Saturno eram retiradas num convite à folia. Quando o período do Renascimento chegou, o baile de máscaras, as fantasias e os carros alegóricos foram incorporados às comemorações. Assim não fica difícil perceber o destino que essa festa tomou ao longo dos tempos. Paris foi a principal cidade no século XIX a exportar o modelo carnavalesco conhecido hoje. E o Brasil ganhou o mundo com sua fama, quando o Rio criou o estilo dos desfiles de escolas de samba, tendo entrado já para o Livro dos Recordes como o maior carnaval do mundo.
Dessa maneira, caro leitor, é que fiquei sabendo porque essa tradicional festa está sempre mudando de data entre os meses de fevereiro e março, e porque acontece sempre antes da quarta-feira de cinzas. Provavelmente essa minha descoberta não seja novidade para muita gente, mas ainda assim achei que deveria compartilhar com aqueles que como eu se questionavam o que a Sapucaí tem a ver com a missa. Agora faz sentido tanta algazarra nas ruas e no fim... as cinzas. Movidos ou não pelos sentimentos de reclusão e retiro espiritual do período que segue a Quaresma, as pessoas começam a se dedicar de verdade a seus afazeres e esquecem as festas que tiveram início ainda no natal do ano anterior. O ano verdadeiramente tem início. Se o carnaval fosse em junho então, o ano seria literalmente dividido ao meio. Agora preparados para o jejum das folias e a entrega à conversão desejo a todos um feliz 2011!
11 de março de 2011
Onde habita a intimidade?
O que é mais íntimo numa relação? Um beijo na boca ou o ato sexual de fato? O que desperta mais prazeres e sensações pelo corpo? É possível alguém chegar ao orgasmo apenas com um beijo? Mas não seria um beijo qualquer. Seria ‘aquele’ beijo! Existe ainda a famosa “lenda” sobre os profissionais do sexo não beijarem seus clientes para evitar intimidade. Mas que tipo de intimidade estamos falando afinal? Quer relação mais íntima do que compartilhar o próprio corpo com outra pessoa? Bem, esse é o ponto de vista moral quando associamos intimidade às partes do corpo que não costumam ser vistas no dia-a-dia. Entretanto, se transferimos esse critério de aproximação para o lado afetivo de cada um, as relações íntimas vão depender do estágio de entrega emocional que uma pessoa consegue extrair do âmago da outra. Nesse caso um beijo poderia causar bem mais estrago do que uma bem sucedida cópula.
Na falta de sono numa dessas madrugadas, resolvi assistir um filme pela internet. Um garoto de programa e sua noite de aventuras em um prédio. “Strapped“, amarrado em inglês, nos convida a conhecer a vida de um jovem à medida que ele adentra em uma noite de prazer e dinheiro em meio ao desconhecido e muitos pseudônimos. Não sabemos onde habita o verdadeiro ser que circula pelos corredores vazios à procura de grana. Mas aos poucos, entre um cliente e outro que arranja ao acaso, é possível ir penetrando no autêntico território desse personagem. O seu envolvimento é sempre sexual, como uma máquina preparada apenas para satisfazer o desejo do próximo, enquanto se mantém na maioria das vezes distante das emoções alheia. E uma vez feito, se veste e parte para outra.
O detalhe curioso acontece já no fim de sua maratona pelo prédio, quando seus olhos quase vencidos pelo sono e seu corpo cansado de praticar todas as modalidades de sexo com os clientes, o jovem se depara com um rapaz que lhe faz um único pedido em troca do valor que ele conseguiu durante toda a noite: um beijo na boca. Contrariado, ele até tenta argumentar que não beija em serviço, que o seu trabalho é sexual e não afetivo. É aí então que o outro elabora uma explanação genial. Olhando fundo nos olhos do garoto de programa, ele diz que não quer ser tocado nos seus órgãos sexuais, não é sexo que ele precisa no momento, ele quer ser tocado no coração, e quer que o outro esteja presente com ele no momento. Convencido mais pelo dinheiro do que pela argumentação, o rapaz aceita, a princípio receoso, mas termina por se entregar e depois de um intenso, longo e extasiante beijo, atinge o orgasmo sem nem ao menos tocar em seu pênis.
Há quem diga, “ah, é filme”. Mas será que alguém já tentou? Estamos acostumados a associar prazer e orgasmo diretamente aos órgãos sexuais, mas muitos não se atentam para o fato que outras regiões do corpo humano podem produzir efeitos semelhantes de maior, menor ou igual intensidade. E as pessoas que sofrem danos na coluna vertebral e perdem a sensibilidade abaixo da cintura nunca terão mais prazer? O filme que a princípio parecia não dizer nada, me chamou a atenção pela minúcia e sensibilidade que tratou a relação de intimidade entre duas pessoas, além do sexo. Enquanto simplesmente realizava seu trabalho proporcionando deleite nos outros, o rapaz não se envolvia e não estava junto na relação. No momento que dividiu um beijo passou a sentir o outro e se deixou levar pelas sensações que aquela experiência mútua produzia.
Daí me questiono onde está o maior grau de intimidade numa relação a dois. Será que o corpo tem mais domínio que o sentimento nisso tudo? Existe um maior que o outro ou ambos se completam? Só a relação sexual torna duas pessoas mais íntimas do que aquelas que apenas se beijaram? Talvez seja mais fácil jogar com o corpo do que com a emoção. Não digo que o beijo possa proporcionar mais prazer que o sexo, com verdade e afeição um pode levar ao outro, ou não, mas que nessa ligação de intimidade, o segundo ganha na categoria de melhor fotografia, enquanto o primeiro leva a direção de arte.
19 de março de 2011
Alimente o meu ego
Sempre queremos mais! Queremos ser alguém. Queremos ser vistos. Queremos mostrar. Queremos ser! De todas as características da personalidade humana, o ego é aquela capaz de abrir uma fenda na estrada tornando a passagem inacessível. Somos escravos do espelho, e não apenas o de vidro, mas o narcisismo presente em cada um em diferentes intensidades. Sentimos a necessidade do elogio alheio, do incentivo amigo, do carinho do próximo. Como sabemos, alguns afagos faz bem ao ego. Eis o intrépido ego! Nada de mau buscar nos olhos dos outros o mérito por algo realizado. É uma carência humana a busca constante pela própria superação, desejar ser relevante na vida de alguém. Um arquiteto já disse uma vez em uma palestra que até um tijolo quer ser mais do que ele é, afinal, nenhum tijolo foi feito pra ser apenas um tijolo. E onde podemos chegar, quantos edifícios seremos capazes de erguer, vai depender do quanto deixamos que esse traço da nossa personalidade determine o nosso alicerce.
Se o ser humano busca sua importância no mundo, seu nome reconhecido ou até imortalizado, por quê não?, nada mais vinculado ao ego do que a fama. O reconhecimento público que pode ir do porteiro do prédio a um monge do outro lado do planeta, pode gerar mais estrago que uma úlcera no duodeno. Não é difícil ganhar notoriedade nos dias de hoje e conquistar um número razoável de admiradores pelo mundo. É só analisar a quantidade de celebridades instantâneas que surgiram do nada e ganharam fama nos últimos anos, muitos motivados apenas pela perda do anonimato, sem qualquer conteúdo para acrescentar ou oferecer ao público. O Big Brother Brasil é a mais influente fábrica desse artigo, porque transforma anônimos em celebridades a cada ano. Há uma necessidade alucinante pelo reconhecimento, ludibriado pelo glamour que essa exposição representa na sociedade e na vida de cada um.
E por que cada vez mais pessoas partem em busca desse estrelato? É só a fama, a perseguição dos paparazzis e a participação nas colunas de fofocas? De certo não. Depois de assistir ao filme de outra celebridade autogerada na mídia, Bruna Surfistinha, pude refletir melhor acerca da situação. Não é a notabilidade que faz tantos buscar a fama. É a necessidade de ser amado, de se sentir querido e idolatrado por inúmeras pessoas. Inacreditável concluir que um dos maus do novo século é a falta de afeto ou a demonstração dele. Num universo cada dia mais individualista, é paradoxo pensar que o alimento do ego está na doação alheia. Eis aí mais outra ilusão desse status: a adoração gerada pela calorosa multidão de fãs não cobre a carência afetiva que cada um necessita. Só neutraliza temporariamente os efeitos da escassez de estima; e quando esse indivíduo cai no esquecimento da frenética mídia, entra novamente na briga de ego e dessa vez com a agravante da desvalorização pessoal.
Como então conseguir ser alguém e manter a posição depois de ser exposto ao julgamento do mundo? Quem sabe não se afogando no rio de Narciso. O controle do ego é tão complicado e impreciso quanto o fluxo aéreo. Quem trabalha com arte, principalmente atores, bailarinos, cantores, pintores, escritores, entre outros, estão sempre expondo sua imagem e precisam saber dosar os tipos de críticas que recebem, os elogios ou até mesmo a ausência total deles. Quem atua, dança, canta, pinta, escreve, não quer apenas fazer o seu trabalho, quer que o outro se aproxime e descreva as sensações que aquela arte despertou. E até estar preparado e solidificado o suficiente para encarar todos os tipos de reação, um irrisório comentário pode destruir a autoestima, levar à depressão e pôr fim numa carreira promissora.
Talvez por esse despreparo muitos jovens não saibam o que fazer do futuro e se percam nas opiniões alheias. Eu mesmo. Há momentos que me pergunto por que ninguém me enxerga. Se Geisy Arruda virou história por usar minissaia na faculdade, Felipe Neto e PC Siqueira foram pra TV depois que viraram celebridade na internet, outra ganha um CrossFox por colocar um clipe no YouTube, e até um gato que parece com o vilão da série Harry Potter ganha os jornais, por que também não posso? Há instantes que queria poder erguer um caminhão com o dedo mindinho pro mundo inteiro se voltar pra mim. Ser alguém no mundo a todo custo! Mas será que vale? Será que já não sou? A popularidade não equivale necessariamente a relevância de alguém no mundo. O que queremos de fato é ser admirado pelo que fazemos, e será que a quantidade de pessoas que irá perceber esse valor é mais importante do que as reações sinceras e os sentimentos que brotarão de quem nos cerca? Provavelmente não, se nosso eu estiver em harmonia. Do contrário alguma voz vai continuar sussurrando no ouvido que é preciso sempre subir mais e mais, alcançar o Empire State, o Burj Khalifa*, o Everest e não sossegar enquanto metade do planeta não conseguir perceber e aplaudir a presença magnífica daquele ser dotado de uma necessidade exaustiva de satisfazer a sua larva interna vulcânica chamada ego.
* Maior arranha-céu do mundo com 828 metros localizado em Dubai.
1 de abril de 2011
Me mente uma verdade
Hoje acordei e me deparei com as seguintes manchetes: Pico de dengue no Rio pode durar mais três semanas. Bebê é achado com queimaduras nas costas e na perna direita. Adolescente usa seringa para agredir colega em São Paulo. Pais rejeitam terceira gêmea após inseminação. Motociclista é arremessado de viaduto em Salvador. Rebeldes tentam retomar pólo petrolífero na Líbia. Vendas de carros no Japão têm a maior queda desde 1974. Protestos antigoverno espalham-se pela Síria e sete pessoas morrem. Duas toneladas de presas de elefantes são apreendidas na Tailândia. Oito mil animais silvestres morreram atropelados no Pantanal no ano passado. Petróleo atinge pinguins em ilha britânica. Motorista é flagrado levando cavalo no banco traseiro. ONU confirma oito mortes de funcionários em ataque no Afeganistão. Carro banhado a ouro é exposto na China. Deputado federal deprecia abertamente negros e homossexuais em seus discursos. Ex-menudo é acusado de agressão. Pastor vê podridão em gays e maldição sobre africanos. E hoje é o dia da mentira. Infelizmente é essa a verdade nossa de cada dia.
Bom seria se cada notícia dessas fosse um trote que um amigo passou a outro hoje. Tantos infortúnios em apenas um único dia. Nenhuma mentira. Somente a verdade ríspida e nua a nos olhar desprovida de qualquer fantasia. Vamos mentir um pouco então para aplacar a rigidez do homem e a sucção da vida no mundo. Vamos combater todos os focos de dengue. Encontrar uma família ao bebê abandonado. Respeitar as leis de trânsito. Considerar a importância da vida animal paralela à nossa existência. Exercer a igualdade social. Extinguir a fome. Saciar a sede. Viver a liberdade de expressão, permitindo o direito de cada um. Abortar as guerrilhas, os conflitos de interesses e os atentados. Partilhar a paz. Irradiar o amor. Exterminar preconceitos. Olhar o planeta como uma única residência na qual todos devem cooperar pela sua limpeza e organização, na busca pela convivência pacífica e harmoniosa. Uau! Isso sim parece o dia da mentira.
Há algo errado na simetria da realidade. Onde se encontra o dia da verdade então? O dia em que todas as mentiras serão fatos? Onde sonhar já não será necessário e a utopia se fará presente? Penso que hoje, 1º de abril, seja o dia de buscar viver uma realidade longínqua da nossa. Mentir equivale a idealizar uma verdade cobiçada e inexistente. Hoje poderia ser o dia em favor dos sonhos. – Mente e me faz crer que é possível. – Me ilude com uma falsa verdade e por alguns segundos até meus fantasmas serão gente. Alguém já disse que acreditar ferozmente numa mentira pode torná-la verdade. Então vamos confiar na esperança de um amanhã mais justo, democrático, solidário e humano, e quem sabe transformar esse dia da mentira na nossa futura realidade. E para não perder o momento e já começar a acreditar no impossível...
... Eis as novas manchetes do dia: O salário mínimo subiu para R$ 1.000. Cinquenta bilhões de reais são destinados a modernização de hospitais públicos e capacitação de novos profissionais no país. Professores tem reajuste salarial de 250%. Medidas de inclusão social diminuem o crime organizado no Rio. A baía de Guanabara e o rio Tietê ganham projeto de despoluição das águas. O Brasil assume a posição de nova potência mundial. Floresta amazônica recupera 80% de sua área devastada. Mobilização global dos países reduz o nível de CFC na camada de ozônio. Estados Unidos e Oriente Médio assinam cessar fogo. Judeus e palestinos criam novo tratado e determinam pacificamente suas divisões territoriais. O casamento gay é legalizado na maior parte do mundo. A maconha tem seu uso aprovado na medicina. A Agência Espacial Internacional estabelece seu primeiro contato com vida inteligente fora da Terra e descobre definitivamente que Elvis não morreu, estava apenas de férias com James Dean, Marilyn Monroe, John Lennon e George Harrison numa colônia hare krishna anos-luz daqui.
12 de junho de 2011
Garantindo o seu posto
Quem inventou a competitividade? ... Algum primata invejoso que não conseguiu a caça maior? Desde os micróbios da origem da evolução de Darwin que existe a competição e a seleção dos mais hábeis. Me lembro dos livros de ciências da 7ª série e das girafas de pescoço mais curto. Para sobreviver numa região onde os alimentos estavam no topo das árvores, só usando uma vara, e assim as pescoçudas evoluíram e deixaram pra trás uns possíveis primos dos cavalos. A competição estimula a qualidade e a criatividade, mas pode ser muito cruel também hoje em dia, uma vez que só permanecendo os pescoçudos, a concorrência vai ficando cada dia pior. Gosto de pensar que nem sempre os escolhidos são os melhores, que uma boa leva fica pelo caminho. Quem garante que as girafas de pescoço mais curto não eram melhores? As coitadinhas só não tiveram muita sorte. E sorte também é fundamental durante uma competição.
Quem saiu na frente na corrida espacial durante a Guerra Fria? Os soviéticos quando lançaram em 1957 a indefesa Laika a bordo da Sputnik e Iuri Gagarin em 1961 para dar uma volta completa na órbita da Terra, ou os americanos com a chegada do homem à Lua em 1969? Referente à Laika, gosto de enfatizar que a cadelinha acabou morrendo seis horas após o lançamento, vítima do superaquecimento da nave e do estresse causado por não ter sido avisada que iria sozinha para o espaço. Ainda assim, tenho uma forte inclinação pelos russos, e particularmente acho a palavra cosmonauta mais expressiva e garbosa do que astronauta, apesar de crer que a NASA deve ter uma aparelhagem bem mais sofisticada, ou tudo não passa de merchandising? Ah, a publicidade! O que seria dela sem a competição?
Não sei se posso considerar a peleja da Rede Record contra a Globo como competição de fato, tendo em vista que a primeira não estabelece uma concorrência real, já que procura se igualar e não competir propriamente com a outra. Mas já posso considerar a mais nova corrida da teledramaturgia brasileira, e agora entre Globo e SBT. Quem iria pensar que a emissora de Sílvio seria a primeira a transmitir o primeiro beijo gay feminino da televisão brasileira. E depois de dada a largada, a disputa agora é em torno das primeiras carícias mais ousadas entre dois homens. O SBT já divulgou: em julho sairá o primeiro beijo gay masculino entre os atores Carlos Thiré e Lui Mendes também em Amor e Revolução. Bem, isso se Eduardo e Hugo não forem pra cama antes. Sim! Insensato Coração, a novela com mais homossexuais assumidos até então, desde o início criou polêmica sobre um suposto beijo entre alguns dos seus personagens, o que já até havia sido desmentido pelos autores, mas será que a concorrência anda incomodando e eles agora não querem que o SBT tenha o título da primeira emissora liberal do país?
Em um momento de intensas conquistas homossexuais, com o reconhecimento da adoção por casais gays e a aprovação da união estável pelo Supremo Tribunal de Justiça, parece realmente o momento mais favorável para mais essa virada. No entanto é cedo para considerar a quebra do tabu na televisão aberta, principalmente porque diferente do beijo entre as atrizes Gisele Tigre e Luciana Vendramini, o autor Tiago Santiago já informou que irá colocar um locutor anunciando o beijo gay. Se partir por esse caminho, a Globo tem chance de recuperar a disputa. Gilberto Braga e Ricardo Linhares divulgaram essa semana que os personagens de Rodrigo Andrade e Marcos Damigo terão cenas já escritas de beijo e sexo previstas para ir ao ar também em julho. Claro que se aprovado pela direção da Globo tudo deverá ser bastante sutil, mas a competição entre as emissoras no próximo mês será cabeçuda. E quem irá garantir a sobrevivência da espécie dessa vez? Ouso dizer que é preciso ter muito peito, ou melhor, pescoço para alcançar o galho mais alto e quebrar esse círculo de medos e convenções que assombra os bastidores da televisão brasileira.
11 de agosto de 2011
Retrato de alguém
Um pé na frente do outro. Nunca examinei com tanta precisão os meus passos ao caminhar. O azul do tênis desaparece entre o amarelo cinzento do pó da estrada. Nenhum sinal de esperança, além dos arbustos e do meu suor escorrendo pela face, cada vez mais, como uma cerveja fria vazando num copo cheio. As gotas geladas contrastam com a secura dos lábios e a chapa quente da cabeça. Cansaço, medo, insegurança, fôlego. Sinto a dor fustigar os últimos esforços das minhas pernas em se manter firmes. O sol me insulta ao abusar de sua intensidade sobre as minhas costas fatigadas com os 5kg da mochila, que agora somam 20. Uma pequena sombra embaixo do que já foi um grande umbuzeiro me protege agora contra o calor. Sentado num toco já apodrecido, bebo os últimos goles da água que me resta no cantil, e limpo o suor da testa com a mão. Nada! O isolamento completo! O abandono da alma. O encontro com o demônio privado. Neste resto de mundo, o resto do que seria um homem.
Já não há mais razão para remorso ou culpa. O que é fato não pode ser modificado, nem apagado. Encarar as atitudes com resignação é tudo que pode ser feito. Recordo-me uma vez ao visitar a casa de um amigo no sítio de um senhor muito intrigante: cabelos brancos, barba comprida e um olhar vazio. Ele era conhecido pelo trato grosseiro ao rebanho da região. E os animais respondiam na mesma linha a sua presença. Uma relação mútua de desafeto se estabelecia. Certa noite, encerrado seus serviços, o encontrei ao pé de uma cancela observando o gado. Ele não parecia mais o senhor agitado de antes, tinha uma expressão de pesar no rosto. Foi então que entre uma conversa e outra, ele me contou que a vida toda sonhou em ser caubói e participar de rodeios, mas sempre teve medo de encarar o desafio, deixando suas vitórias apenas para a imaginação, até quando percebeu que o objeto de seu sonho havia se transformado na razão de seu dissabor. Se afastou dizendo que pensar demais em como as coisas podem ser, não sobra tempo pra elas realmente serem. Então foi um pouco o que fiz. Decidi não mais pensar. E aqui estou, a olhar o nada do meu pensamento.
Algumas aves escuras cruzam o céu a me observar. Mas não serei seu alimento. Não ainda! Recolho a mochila e sigo caminhada. Mais alguns quilômetros e a primeira visão de algo pulsante a se mexer. Uma iguana atravessa a estrada apressada como a fugir. De mim? Mais alguns passos e escuto vozes, uma música distante que se aproxima mais e mais. Avisto então um jumentinho amarrado a uma árvore e mais ao lado um casebre de taipa, mais parecendo um bar. Ali no meio do nada. Algumas mesinhas e banquinhos de tronco de árvore do lado de fora. Agora posso ouvir nitidamente a canção. De um toca-fitas de pilha fixado sobre uma base de madeira ao lado da porta sai: São Tantas Coisas, de Roberta Miranda. Fico estático diante de inusitada situação. Um homem então sai do casebre e me encara. Um sujeito retraído, calça bege envelhecida e dobrada no calcanhar, camiseta que um dia foi branca aberta até o peito e botina preta. Sua expressão sutil e desinteressada revela o desgaste de uma fisionomia que parece bem mais gasta do que realmente é. Uma alma castigada pela sorte? Entre o clima tenso entre nós dois, o refrão de Roberta Miranda: “vou confessar, renunciei você de tanto louco amor...”
Ainda me encarando, ele leva a mão direita ao bolso da calça e puxa um velho maço de cigarros, pega um isqueiro no outro bolso, acende e senta-se em um dos banquinhos, sem mais se importar comigo. Resolvo entrar naquele lugar. Uma mulher de meia-idade, rosto alheio e pele queimada do sol limpa um simples balcão e pouco caso faz com a minha presença. Quando volta o olhar em minha direção, pronuncio a única palavra que consegue sair de meus lábios: água! Minutos depois me esbaldo em um bife de panela com arroz e feijão tropeiro. Saciada a sede e a fome, sou informado onde poderei lavar o rosto. Do lado de fora, vou até um poço de onde puxo em um balde de alumínio amassado, a água para banhar a face e os pés. Hora de retomar a caminhada. Nem o jumento, nem o homem estão mais em frente ao casebre. Recolho minha mochila e pego a estrada revigorado.
18 de setembro de 2011
Cai o pano
Escrevi esse texto no fim de julho, mas por alguma razão não o publiquei. Considerei-o piegas demais ou não quis compartilhar meus sentimentos e ele ficou entre os rascunhos. Hoje ao reler não me pareceu tão ruim assim e aqui está:
Os mesmos passos de antes subindo os batentes, a mesma direção, os mesmos movimentos. O fim de mais um dia, não fosse a certeza que esses últimos passos fecham um ciclo. Não mais aquela portaria, não mais as escadas, o cansaço pelo corrimão, não mais essas paredes que me foram companhia em incontáveis episódios. E no entanto, tudo parece uma finidade perpétua. Consigo olhar o quarto que me foi abrigo e tempestade, e consigo fixar em minha memória que serão os últimos instantes de uma agradável e dolorida lembrança do passado. Mas não fossem as caixas espalhadas pela sala, as camas e os armários desmontados, o vazio do caos, eu poderia jurar que tudo continuaria como está. Não faço ideia da dimensão que a minha atitude pode alcançar. Do oco que me deixará abandonar um espaço onde vislumbrei alguns dos momentos mais significativos dessa jornada. Mas creio estar preparado para o por vir.
Não quero falar do que passou, mas do que fica. Daquilo que carrego independente dos móveis e eletrodomésticos. Ao penetrar uma cidade desconhecida seis anos atrás, sem amigos, colegas e poucos conhecidos jamais poderia imaginar quão grande minha rede de contatos poderia se transformar. Depois de vegetar três anos em uma faculdade que a cada dia arrancava um pouco de minha essência, resolvi agir me matriculando no curso de teatro. E essa foi realmente uma das melhores decisões que já tomei em minha vida. Ganhei não só o fôlego de volta, como uma nova família. O teatro é extasiante! Descobri nesse pouco tempo de experiência, o verdadeiro valor de representar, e acredito que descobri a linha que mais condiz com os meus ideais e habilidades, o que não garante que irei seguir. Por muitos anos me perguntei se deveria ter escutado a opinião do meu pai que Artes Cênicas tinha muito mais a ver comigo que Jornalismo. Hoje não tenho a menor dúvida que fiz a escolha certa no momento. Sempre acho que ninguém cruza o caminho de ninguém sem uma razão, embora no momento possamos desconhecer completamente.
Com a mesma convicção que decidi trocar Natal por Campina Grande, e percebi o momento de agir ao entrar no teatro, vejo que chegou a época de tomar novos rumos, e se isso significa deixar algumas conquistas para trás, será o preço a pagar. Sou um espírito livre, sempre fui. Nunca me imaginei preso a nada. Embora criado em uma bolha, sempre ansiei transpor os mais distantes limites. Gosto dos recomeços, das mudanças – principalmente se forem radicais. Gosto de descobrir o novo, e de desistir também – de preferência de última hora – a sensação de autonomia é inigualável. Sou um pouco metódico em organizar minha vida por fases, acho que consigo assimilar melhor separando “em pastas” a minha infância, adolescência, fase cursinho, universidade, teatro... para recordar com maior facilidade as lembranças. E o mais curioso de tudo é que mesmo curtindo a fase atual, sempre busco um ponto final para deixar o gostinho de retorno no ar. Aquele velho ditado: “o que é bom dura pouco”, costumo seguir à risca.
Assim, Campina Grande vira mais uma notável página da minha vida. E como Natal, a incerteza de voltar um dia se mistura com a saudade. Olhar o apartamento preparado para me deixar é mais forte do que poderia supor. E não é ele quem vai me deixar, sou eu quem irei abandoná-lo. Se bem que o vendo todo bagunçado assim, aos poucos já não vai parecendo o palco da minha vida. Ele já não me pertence mais, ou eu já não pertenço aqui. Somos dois personagens de uma tragicomédia de muitos atos. O mais tenebroso de tudo é que um ato sempre leva a outro, e a peça vai a cada cena se aproximando mais do seu fim, até chegarmos ao último ato e as cortinas se fecharem de vez. Campina, dinamérica, 263B, TMSC, Sesc, UEPB e todos os personagens que contracenaram comigo nessa esquete da vida, saibam que vai embora comigo um pouco de vocês, e creio que ficará um pouco de mim por aqui também. Todavia, não se esqueçam que quando uma cortina se fecha, é sinal que ela pode se abrir novamente a qualquer momento e o espetáculo recomeça.
20 de outubro de 2011
Próxima parada: fim do mundo!
É melhor aproveitar o dia de hoje o máximo possível, porque segundo o pregador evangélico americano Harold Camping, o fim do mundo tem data: é amanhã! Nossa! O que posso fazer ainda hoje que não fiz em toda a vida? Tenho tantos lugares que gostaria de conhecer, mas não dá pra viajar pra todos em um só dia, então acho que escolho o Everest, com certeza vai dá pra assistir o espetáculo do apocalipse de camarote. Não sei exatamente em que se baseia esse pregador para anunciar pela segunda vez no mesmo ano o fim dos tempos. Primeiro ele disse que o mundo acabaria às 20h do dia 21 de maio, mas eis que o sol renasce no dia 22. Uma intensa divulgação com direito a cartazes espalhados nas ruas pelos fiéis de Camping anunciavam o grande dia, mas como ele não veio, os seguidores ficaram se perguntando o que teria acontecido por ainda estarem vivos. A cena me recorda um episódio que assisti ainda criança da Família Dinossauro, quando Dino acreditava que o mundo ia acabar porque Bob tinha quebrado uma tradição milenar, e todos se reuniam na sala envoltos em lençóis esperando a hora final. A surpresa dos fiéis deve ter sido parecida com a da família dinossauro aos primeiros raios do alvorecer.
Um erro de cálculo! Foi o que anunciou Camping depois do mundo continuar existindo após sua previsão. O mais impressionante é que muita gente abandonou mesmo suas casas, desfez de bens, largou empregos e quando o juízo final não apareceu tiveram que assumir as consequências de seus atos. Teve até um funcionário aposentado que gastou mais de 140 mil dólares da sua poupança em publicidade para a profecia. Com o fim do mundo remarcado para 21 de outubro, Camping avaliou que não será necessário tanta divulgação como em maio. Por que será? Essa não é a primeira vez que somos comunicados de um suposto “dia do julgamento”. Quem não se lembra das profecias de Nostradamus sobre o fim do mundo para 11 de agosto de 1999? Uma propagação em massa ganhou a mídia de todo o planeta. Olhos curiosos fixados para o céu daquela noite que nada visivelmente aconteceu. Mas há quem defenda um suposto eclipse no mês de julho daquele ano como algo referente à previsão de Nostradamus, justificando o erro de cálculo pela mudança de calendário Juliano para Gregoriano.
Mais recentemente temos as previsões maias sobre 2012, que já virou até temas de filmes, antecipando a catástrofe mundial que ainda nos aguarda. De acordo com o prenúncio, 2012 marcará o fim de um ciclo cósmico no planeta. O calendário maia termina de repente entre os dias 21 e 23 de dezembro de 2012 do nosso tempo. A causa física seria uma intensa chama radioativa, oriunda do centro da galáxia, que seria transmitida à Terra e a todo Sistema Solar. Violentos terremotos, erupções vulcânicas e furacões devastadores estariam entre alguns dos efeitos responsáveis pela destruição na nossa era. Fala-se também de inundações catastróficas e chuvas de fogo. Bem, se analisarmos os últimos anos podemos dizer que o fim dos tempos já chegou mesmo. Bomba atômica, tsunamis na Ásia, aviões contra prédios, efeito estufa, aquecimento global. Não é necessário esperar 2012 para constatar isso. Se os antigos previam o planeta em colapso para a nossa época, então eles não erraram os cálculos.
Mas e se o mundo for mesmo acabar amanhã? Alguém já fez seus planos para o último momento? Eu não consigo imaginar um local melhor para esperar o fim dos tempos do que no Corcovado, aos pés do Cristo Redentor, ao lado da família e dos melhores amigos. Difícil seria não morrer antes de asfixia tamanha seria a quantidade de pessoas no local. Todavia, se os cálculos de Camping se confirmarem dessa vez, muita gente verá o juízo final da janela do trabalho, longe dos que amam e sem fazer as malas para a grande partida. Mas não é exatamente assim que as pessoas morrem mesmo? Quem é que está preparado quando a morte chega? Não existe aquela figura de manta preta e foice na mão que vem anunciar a hora de partir. Portanto, já que a morte não avisa quando irá dar às caras, é muito pouco provável que o mundo termine amanhã. Quando os primeiros raios do dia 22 surgirem no céu, não gostaria de ser um dos fiéis de Camping incrédulos por perceber que continuam vivos mais uma vez.
5 de novembro de 2011
Estilo alheio
As pessoas que não ambicionam nada e não arriscam nada, não servem para nada. O que se construiu em séculos se destrói num dia. Diga o que diga Aristóteles e toda sua filosofia, não há nada que se compare ao rapé. Nenhuma das frases anteriores são minhas. A primeira é da ópera As Bodas De Fígaro de Mozart, a segunda é de Gota D’água de Paulo Pontes e a última é de Don Juan de Molière. Mas já fiz uso delas corriqueiramente. É um hábito, nada saudável, que carrego desde muito. Apropriar-se de certas frases e palavras com as quais me deparo em personagens de livros, filmes, novelas e as tornar minhas. Creio que aconteça muito a prática de copiar certos bordões das telenovelas e levar para a rua. No meu caso geralmente faço uso dessas expressões quando me identifico com o personagem. Teve uma época em que era comum eu emendar uma frase na outra e ficar respondendo ideias preconcebidas. Quando assistia diariamente seriados americanos como Smallville, era automático, acabava a série e as frases já se formavam na minha cabeça. Na primeira oportunidade, despejava ‘meu’ conteúdo programado.
Esse costume não era um capricho sem fundamento. Estava baseado num cunho psicológico maior. Repetir frases que via na tevê era uma tentativa de me igualar àquelas figuras que me serviam de espelho. Na verdade gostaria de ser eles, de possuir sua linguagem, suas roupas, seus hábitos. E sempre foi assim. Buscava ser o outro e nunca eu. Os outros eram bem mais interessantes, tinham um corte de cabelo mais moderno, se expressavam com mais firmeza, dançavam mais atraentes. Se pudesse escolher, seria todos os personagens que já me identifiquei de James Dean a Orlando Bloom, mudando a aparência ao meu menor critério de beleza e harmonia do momento. Ser o mesmo sem graça sempre era um tédio! E reproduzir as frases que escutava, me transportava um pouco àquele mundo ideal. Nunca foi uma atitude aconselhável. Indicação de insegurança e falta de personalidade própria, mas ainda assim aumentava a autoestima.
Antes essa instabilidade se restringisse apenas ao comportamento. O meu desequilíbrio era completo, ao ponto de influenciar decisões importantes. Não quero dizer que fiz jornalismo por algum ideal midiatizado, passa longe daí. Mas não posso deixar de admitir que a opinião que tenho da carreira fica mais simpática quando vejo Clark e Lois na redação do Planeta Diário. Lamentavelmente sou influenciável. Mas quem não o é hoje, com tanta exposição de padrões de beleza, comportamento e felicidade na mídia? Algumas vezes me vejo fuçando as características de determinadas carreiras, querendo quem sabe cursar uma outra universidade, dar novos rumos à vida, tudo, claro, com uma certa influência ao que estou exposto. Já me peguei analisando os cursos de biologia marinha, astronomia, psicologia e turismo. Em outras ocasiões pesquisei sobre controlador de tráfego aéreo, marinheiro mercante e piloto de avião, os dois últimos somados a minha labirintite seriam uma piada. Até o profissional paramédico andei fuçando, influenciado pelo personagem da série Ghost Whisperer, quando tenho vertigem só de imaginar sangue.
E a grande verdade é que não preciso investigar profissão alguma, nem repetir testes vocacionais, porque já sei qual será o resultado. Eu sei no que devo investir porque nossa alma nos mostra aquilo a que temos aptidão, mas é preciso acreditar nisso e não se deixar tomar pelas ideias midiatizadas de perfeição e sucesso. No meu caso ainda oscilo entre quem quero ser e quem sou, se ambos são o mesmo, se misturam, ou se há separação. Talvez o primeiro passo seja enxergar a própria individualidade e se permitir ser, para depois ter capacidade de agir com propriedade. Repetir frases feitas não é o ideal, mas se auxilia na busca do autoconhecimento é válido. Ao menos é uma dica que ganhei de uma professora sobre redação: “comece copiando o estilo dos outros e logo estará produzindo o seu”. Então é o que faço, inconsciente ou não. O problema é que até agora não consegui afirmar minha identidade e continuo seguindo o estilo alheio.
9 de novembro de 2011
Mantenha a distância um pouco próximo!
Deixando de lado a minha hipocondria, talvez eu tenha descoberto o mal de todos os meus fracassos. Nem é preciso ir muito longe no meu histórico comportamental para encontrar traços de uma desregulação emocional, raciocínio extremista e relações caóticas. Não seria lá grande coisa, se eu não tivesse descoberto que essas particularidades fazem parte de um diagnóstico maior, que talvez tenha me acompanhado desde muito sem que eu pudesse identificar. Me refiro ao Transtorno de Personalidade Borderline ou Limítrofe, também conhecido pelas siglas TPB ou TPL. Ih, lá vem Samuel de novo com outra doença pro repertório! Não, não dessa vez! Ou sim! O fato de eu dizer que tenho determinado transtorno é porque eu sinto que tenho, e não porque acho interessante e quero ter. Acompanhe o raciocínio! Se eu quase nunca ou só a muito custo consigo terminar o que comecei, afasto aqueles de quem mais preciso enquanto cobro paradoxalmente sua atenção, tenho tendência a paranoia, julgo as pessoas sempre pela última interação, e todas essas características estão presentes nos sintomas do TPB, o que devo pensar?
Em mais uma navegada dessas que leva a outra pela net, acabei caindo na imensa página do TPB da Wikipédia. Fui lendo por curiosidade e aos poucos me encontrei por lá. Descobri que uma das principais características do borderline é a intolerância à rejeição. Os borderlines são extremamente carentes de atenção, e quando falo carente não significa que ninguém lhe dê atenção, é que nunca é o suficiente. E como consequência, sentem-se ignorados quando perdem os holofotes. Escondem também profundos traços de masoquismo e sadismo. São muito imaturos emocionalmente, impacientes, buscam sempre recompensas imediatas, daí a falta de persistência em continuar os projetos, não toleram frustrações e tendem a colocar a culpa sempre em outros por suas próprias falhas.
Com um borderline não há meio-termo, ou ele gosta de alguém ou alguma coisa ou não. O que não quer dizer que o “não” de hoje não será o “sim” de amanhã, suas opiniões são facilmente inconstantes e contraditórias, assim como seu comportamento oscilante entre adulto e infantil. E aqui mais uma grande característica minha: irritam-se facilmente por coisas banais, e apesar de conseguir demonstrar certa “normalidade” em várias situações triviais, exibem escandalosamente a incapacidade em controlar sua raiva. Quem já presenciou meus excessos, sabe do que digo. Outras particularidades do borderline são os problemas com a identidade, sensações de irrealidade e despersonalização (sensação de não ser real, de inexistir), o que gera uma forte tendência suicida aliada a sentimentos crônicos de vazio e tédio. Como válvula de escape é comum a automutilação, a troca de uma dor emocional por uma física. Isso explica a sensação de deleite em arrancar a pele da sola do meu pé, e mais recentemente, dos lábios.
O indivíduo borderline é geralmente visto ainda como genioso, temperamental ou “de lua”, como já afirmava meu amigo Júlio, mas também superficialmente adorável e simpático. No entanto, pelas pessoas de sua grande intimidade, principalmente a família, com quem entra sempre em conflito, são vistos como agressivos e mal-humorados. Essa na verdade é a maneira que encontram para demonstrar seus medos e se protegerem, e nisso são árduos manipuladores, embora não admitam (foi difícil incluir esse traço aqui) e considerados até “pacientes impossíveis” por alguns terapeutas, conhecendo o ponto fraco das pessoas e abusando das chantagens.
Só até aqui já poderia me encaixar com perfeição no transtorno, mas esta última informação é o meu atestado final. O borderline não sabe estabelecer limites saudáveis entre suas relações com as pessoas, de modo que se alguém se aproxima demais, ele começa a se sentir subjugado, com medo de estar perdendo o controle ou de que o outro fique enojado ao conhecê-lo de verdade e o abandone. Ele começa então a se distanciar, mas quando faz isso, sente-se solitário e se aproxima novamente, reiniciando o ciclo. Essa ininterrupta contradição é uma constante na vida do borderline e pode ser uma boa definição dos extremos do TPB, além de conseguir me descrever em uma lógica que antes só existia na minha cabeça. Portanto, se alguém ainda duvida que faço parte desse notável grupo, tenta contra-argumentar, eu não tenho mais objeção. Só um conselho! Pra tentar buscar um certo equilíbrio, mantenha sempre a distância sem deixar de ficar próximo.
17 de novembro de 2011
O verdadeiro celeiro
Loch Stack, Arkle – Escócia
Alguém já se perguntou onde fica a casa que serve de imagem ao Celeiro? Ou mesmo se ela existe, não é a simples projeção de uma natureza exuberante? De fato ela existe sim e eu até descobri onde está localizada. Confesso que quando a encontrei pela primeira vez e decidi usá-la como cenário no blog, não me fiz tantas perguntas sobre sua origem. A paisagem era simplesmente o que importava e que conseguia refletir a atmosfera entre mim e o espaço que havia criado. Posso dizer que havia encontrado o celeiro. E mesmo que não fosse a fachada típica de um abrigo para cereais e outras provisões, aquela casa isolada, fechada e aparentemente inabitada simbolizava um ideal de bem-estar. Representava meu porto seguro, minha fortaleza.
Mas tudo é uma questão de ângulo. Nesse post há uma foto em que a casinha abandonada não parece tão deslumbrante assim. Na margem de um lago e com sua vegetação um pouco escassa, não lembra muito a figura que leva o título do blog. Mas aí sim ela parece mais real, sem grandes encantamentos, viva de fato. A casinha deve ter um dono, mas não consegui obter muita informação além do seu exato endereço. No noroeste da Escócia, em uma das mais belas montanhas do condado de Sutherland (assim descreveram e parece ser) chamada Arkle, à beira do lago Loch Stack, ela se destaca entre a paisagem quase intocável pela interferência humana na região. Se alguém chegou realmente a morar ali não tenho como saber, é possível que sim, e os motivos que os levaram a abandonar esse pedaço de paraíso podem ser muitos. Mas ele não deixa de ser, no mínimo, um convite à reflexão.
Desde que criei o blog, o layout da página passou por algumas modificações, mas nunca coloquei a imagem de um celeiro de verdade. Sempre foi o mar, as montanhas, as nuvens, alguns balões, praias, estradas... porque a figura utilizada não tinha o compromisso de ser fiel ao nome do blog, afinal, o celeiro em si era o espaço reservado às minhas divagações, e portanto, não precisava colocar um abrigo cheio de feno para ilustrar isso. Daí encontrei a casa solitária da Escócia, e de repente me senti ligado. Achei que ela podia representar bem o papel do Celeiro do Sam sem se remeter à figura tradicional. Sim, ela podia! Sua parede de pedra, seu singelo telhado, suas duas chaminés, a natureza em volta, a água que tanto respiro, ali poderia sim ser meu cantinho, poderia sintetizar um pouco da minha utópica filosofia de vida. Eu viveria tranquilamente ali, por quê não? Ao menos virtualmente. E que bom que o lugar quase desenhado para acompanhar a paisagem realmente existe. Traz uma sensação de cumplicidade, como se aquela pequenina e escondida habitação me pertencesse um pouco. Assim me sinto, como dono e amigo dela. Talvez um dia possamos nos encontrar de fato, e em meio às descobertas do encantamento, os registros de uma parceria.
P.S.: No final da página tem outra foto de um ângulo mais privilegiado. Uma verdadeira pintura!
22 de fevereiro de 2012
A essência que eu respiro
Assim como dei início às postagens de 2011 escrevendo sobre o significado especial da água em minha vida, como fonte de renovação e inspiração, quero abrir o Celeiro 2012 tecendo o valor de outro elemento a mim tão vital como ao ar. De longe, é a maior sintonia que estabeleço com a essência profunda da alma. Diante da absurda quantidade de ideias e pensamentos que circulam todos os dias na minha mente, o papel em branco é a melhor via que encontro para converter borrões em algo tangível. Ah, a vida não teria a menor graça não fossem as formas tridimensionais das palavras, as reticências dos textos, as entrelinhas. A vida ganha, sem dúvida, mais colorido no papel. É nisso que acredito. É por isso que vivo cada dia. Pincelando o ar com o perfume das experiências, o sabor da meninice, a melodia dos corações. Oh, criptogramas de palavras que vagueiam pelos campos tão férteis da mais legítima felicidade. Vastas margens de sonhos em cristalinas fontes de conhecimento e criação. Que prazer te navegar!
Recordo que na escola quando regressávamos às aulas, a professora sempre nos cobrava uma redação sobre as nossas experiências durante as férias. Eu não entendia por que a maioria dos alunos reclamava da tarefa e a cumpria como o primeiro fardo daquele ano que tinha início. A meu ver, era uma das melhores atividades da primeira semana. Adorava descrever e narrar os fatos que haviam transcorrido comigo, sempre encontrando uma maneira de tornar cada detalhe mais divertido do que até realmente fora. Como era gostoso refazer os acontecimentos, tendo agora todos em minhas mãos, ao meu controle. A sensação de comando sempre foi algo intrínseco ao meu ser. Se durante um trabalho em grupo eu estivesse à frente da tarefa, o esforço era nítido, e o resultado eu dominava por completo. Por outro lado, se eu fosse apenas mais um peão no tabuleiro, não conseguia desenvolver nem 10% da minha capacidade. Me encostava. E não era preguiça, apenas não conseguia me envolver por inteiro se não estivesse na direção.
O domínio que me faltava lá, eu vertia na vida dos bonecos, meus melhores amigos e brinquedos. Fui o diretor de suas vidas, suas histórias, seus destinos. Era seu deus. Sozinho na sala, no quarto ou no quintal, traçava as linhas de cada ser que passava a existir em minhas mãos. Criei alguns filmes que reprisava em outros momentos. Até uma novela surgiu nesse período. Meu quarto ficava arrumado (ou bagunçado) com os ambientes e os núcleos da trama, e toda noite das sete às oito horas eu exibia um capítulo, com direito a vinheta de abertura e comerciais. E como a novela foi um grande sucesso, reprisei também algum tempo depois. Era inefável alçar voo à imaginação e se deixar levar pelos caminhos que a própria alma desde cedo revelava tão autênticos.
Quando os anos tornaram inviáveis as aventuras com os bonecos, transferi meu mundo para a folha de papel. As primeiras histórias que me recordo escrever envolviam romances conturbados, acidentes, mistérios, relações destroçadas pela guerra, e até pessoas abduzidas por OVNIs. Não poupava esforços à imaginação. Acho até que hoje sou bem mais moderado que naquela fase. Não me preocupava tanto com formas e contextos, o importante era o que vinha na cabeça e eu queria explorar. Desde essa época eu já percebia que a arte, a fantasia, a ficção, era muito mais exuberante que a realidade. Hoje continuo me alimentando dessa fonte que não seca. Sempre que preciso me encaixar, compreender a lógica dos acontecimentos, reviver o passado, é na escrita que encontro o amparo certo. É nela que ganho a sustentação e a confiança no porvir. Seja na intrépida personagem de um seriado, na narração de um flashback da vida ou na simples descrição de um palito de fósforo. Escrever... levar as minúcias do meu mundo ao conhecimento do próximo é, sem dúvida, o meu grande alento.
28 de dezembro de 2014
Entre as molas
Esses dias andei pensando... O tempo é uma estrada feita de mola que só tende a esticar. E quanto mais se estica um lado, mais distante ficamos da sua outra ponta. Ele não poderia ser uma reta porque precisa amaciar os percalços da vida. Mas o que vai ficando nesse meio? Ou melhor, o que vai surgindo e desabrochando enquanto ela cresce? Quando mais novo, eu costumava analisar o quanto mais distante eu estava ficando de um determinado ano. Épocas e momentos especiais iam se alongando sempre mais. De repente, aquele ano mágico ia se tornando velho e mais velho, até virar apenas uma pequena sombra distante. Era a mola distendendo-se e fazendo do garotinho, um adolescente; e desse, um homem.
Hoje cruzam por mim diariamente Eduardas, Luanas, Thalias, que, não fosse um simples detalhe, me pareceriam meros nomes de jovens adolescentes. Porém, alguns anos atrás não era comum encontrar por aí uma garota chamada Thalia ou mesmo Eduarda – o masculino sim era o comum -, assim como o feminino de Marcelo também soava estranho e só a Machado de Assis e a seu Brás Cubas remetia-se tal referência. Daí que olhando a idade dessas meninas, entre seus 16 e 18 anos, a explicação é bastante óbvia. Em 1996 a Rede Globo exibia – como agora voltará a exibir – um dos seus maiores sucessos da teledramaturgia, a novela O Rei do Gado, cuja mocinha se chamava Luana, uma boia-fria bronca, mas de coração doce, que cativou não só Bruno Mezenga, mas o público brasileiro. E haja Luanas a nascerem naquele ano, filhas do poder de influência da mídia.
O mesmo aconteceu no ano seguinte, quando Manoel Carlos arrebatou o público com sua Helena que sacrificou seu bebê vivo em troca do filho morto da filha, para não vê-la sofrer diante da impossibilidade de voltar a engravidar, em Por Amor. A filha mimada e egoísta, apesar de sofrer forte rejeição do público, parece que conquistou o coração de alguns futuros papais, que batizaram suas filhas naquele ano de Eduarda, nome da mocinha da história. E quem não se lembra do fenômeno das três Marias da atriz e cantora mexicana Thalia? Maria Mercedes, Mari-Mar e Maria do Bairro consagraram Thalia no Brasil e a fez visitar o país, pela primeira vez, em 1997, quando todos passaram a conhecer não só a atriz, mas também a cantora, e seu nome virou sensação.
São meras constatações, mas que me fizeram refletir sobre essa mola que se distende mais a cada dia, fora do nosso controle. Não penso melancólico sobre os bebês que nasciam batizados com os nomes da época e hoje estão às portas da universidade, de onde parece que saímos ontem. Apenas me divirto com as mudanças que acontecem. Não há como descrever o tempo, como segurá-lo, ou mesmo observá-lo, ele simplesmente passa, e só depois o sentimos, ou sentimos as mudanças que ele nos deixa. O tempo é o hoje, é o agora, é o sol que se põe no fim da tarde, é o garotinho atravessando a rua, a folha de papel picada caindo da sacada, o tempo é o instante, é o momento que nos cerca, o que fica atrás dele é essa estrada percorrida sem sinalização de retorno. Sendo uma mola, às vezes nos aproximamos de algum caminho percorrido, quando nos vem alguma saudade ou quando uma Eduarda te faz lembrar que já temos algumas estradas construídas, não muito longas, mas que já nos mostraram algo a mais e nos tornaram mais flexíveis.
31 de dezembro de 2014
Um 2015 mais molhado!
Último dia do ano. Contagem regressiva para 2015 e hora de contabilizar os ganhos e perdas do ano que termina. Dentro de poucas horas um novo ciclo tem início e 365 novos desafios nos aguardam nessas próximas páginas que escreveremos. 2014 – assim como imaginei na virada de 2013 -, foi um ano de ganhos para mim. Desde seu início obtive grandes bênçãos. Saí de uma fase de recessão e voltei a caminhar com minhas próprias pernas. Aprendi a conduzir o banco do motorista e conquistei minha habilitação. Mudei de cidade. Conheci pessoas novas e fiz novas amizades. Passei a ganhar finalmente o meu dinheiro. Vi minha prima de longas datas dar um passo a mais em sua vida e senti a emoção de ver aquela garotinha que dançava lambada comigo 20 anos atrás subir ao altar e dizer “sim” para um novo futuro.
Na família continuamos unidos, com saúde, felizes e cheios de esperança. Esperança em um amanhã cada vez melhor, com mais harmonia, solidariedade e principalmente amor em todos os corações. Mas além disso tudo, que 2015 nos traga algo que faltou em 2014: água. Que a fonte da vida retorne aos córregos, rios, riachos, açudes, barragens, que possamos ter um 2015 molhado de chuva e água em abundância. É triste terminar 2014 e perceber que uma crise geral de falta d’água tomou conta do país. Triste saber que o açude, que mais me parecia um oceano e muito me banhei na infância, hoje é um lago de terra seca e capim. Que a atmosfera nos presenteie e os céus nos abençoem com muitas perspectivas de chuva em 2015 e que saibamos cuidar e preservar esse bem tão essencial a toda humanidade.
Que a água venha e volte a brotar nas nascentes, a encher os rios, a escorrer pelas bicas, a molhar o pasto, a saciar o gado, a fortificar as lavouras, a irrigar as plantações, a desabrochar as flores, a germinar a terra, a renovar a vida. Que venha 2015, e que ele nos livre desse mundo vazio e estéril que começa de fato a nos ameaçar. Um 2015 mais molhado a todos nós! Merecemos.
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12 de outubro de 2007
“Liberdade!” Que liberdade!?
Ontem assistindo ao Jornal da Globo vi um presidiário que ganhou alvará de soltura, mas que prefere permanecer na cadeia ao invés de usufruir sua liberdade. Parece contraditório. Quem em sã consciência pediria para não voltar às ruas? Mas aí é onde entra a lei que governa nosso carnavalesco país. O sistema penitenciário brasileiro nunca foi um dos melhores do mundo, se brincar está entre um dos piores. A precariedade do serviço é tão grande que não se restringe apenas às dependências dos prédios, mas principalmente ao presidiário enquanto cidadão após seu retorno à sociedade.
Não há a menor preocupação do poder legislativo e nem do próprio governo em reabilitar esse preso para voltar às ruas. Acabou seu período de cativeiro e rua. O que se pode esperar de um ex-presidiário à procura de emprego no país onde poucos dos engravatados conseguem? No mínimo ele voltará a cometer crimes e em pouco tempo estará de volta de onde saiu. E isso é um problema que vem de longe, da época da utópica Lei Áurea, que prometia a carta de alforria aos escravos quando sua “liberdade” já era algo evidente e os deixou à margem da sociedade, acentuando o caminho da desigualdade social no país.
O caso de Fabrício do Jornal da Globo é apenas o retrato de um país que parece ter parado no tempo desde então. Tantas mudanças tecnológicas, avanços comerciais e o serviço básico para a construção de uma sociedade mais civilizada ainda é motivo de piada. A direção da Apac, onde Fabrício está, disse que fará de tudo para que ele reencontre a felicidade aqui fora. Será que conseguem? Vamos esperar.
10 de novembro de 2007
O Futuro no Pretérito
Felicidade! E existe palavra mais abrangente e almejada? Estamos sempre em busca dela. Podemos dizer que camufladamente é ela o nosso objetivo diário. E o que vem a ser felicidade? Um estudante de ensino médio talvez diga que é passar no vestibular. Algum funcionário de uma firma afirme que seria uma mudança de cargo. A uma mulher estéril poderia ser a possibilidade de engravidar. Para algum jovem casal seria simplesmente o casamento. Mas é possível afirmar que esses desejos são mesmo felicidade? Poderíamos entender que a felicidade então depende de pessoa a pessoa ou que ela pode ser o fruto dos desejos e dos sonhos de cada um. Mas felicidade não é isso.
Quantas vezes não olhamos para trás e dissemos: “como eu era feliz e não sabia”. Se felicidade são fragmentos, momentos, instantes, então estamos sendo felizes a todo tempo e não percebemos. Felicidade pode ser uma risada gostosa com os amigos; uma situação inusitada com a namorada; uma viagem de fim de ano; aquele passeio ao sítio do amigo; e a fuga de um rebanho de vacas. Felicidade é simplesmente um sorriso vago que mostra a expressão da saudade, da lembrança, do momento. O que atribuímos à palavra felicidade é na verdade o que a sociedade impõe. Queremos o carro do ano, um emprego que nos dê boa instabilidade e dinheiro porque isso é felicidade, ou no mínimo o passaporte para ela.
Esquecemos que dinheiro não traz felicidade. Pode ser um clichê, mas estamos tão acostumados ao consumismo que só enxergamos a felicidade como o resultado da posse e do poder de adquirir tudo o que muitas vezes nem necessitamos. Se entramos nesse pensamento, nenhum pobre é feliz ou vive sua felicidade de sonhos e desejos que nunca se realizarão. Quando na verdade a felicidade pode estar muito mais presente nesse meio do que em volta de todo o luxo do mundo. O que é felicidade na favela e o que é felicidade nos condomínios de luxo? Mundos diferentes, sonhos parecidos, realidades desiguais. Nem assim é possível afirmar que os moradores do condomínio são mais felizes do que os da favela.
Quando chegamos ao mundo somos apenas um ser, uma nova criatura que busca apoio, carinho e proteção. Não somos tão diferentes dos filhotes de uma vaca, uma cadela, uma leoa ou uma girafa. O que muda depois são as impressões que adquirimos com o convívio entre os seres humanos e principalmente a sociedade. A partir do momento que abrimos os olhos, passamos a enxergar o mundo em que vivemos e as pessoas que estão em volta. Se somos bem educados, bem amados e já nascemos respirando o luxo, passamos a ter uma noção de mundo e dos valores que representam as coisas em volta com um olhar, mas se não somos bem amados e nascemos com o cheiro do esgoto na cara, a vida ganha outro significado. A linha da felicidade é a mesma a cada um, mas a sociedade diz que apenas o dinheiro irá fazer todos serem felizes.
Erroneamente, acreditamos nas palavras da sociedade e caímos na tentação do consumismo, outra faceta do capitalismo. Por valores materiais pessoas morrem todos os dias. Pessoas que buscam em um tênis, em um celular, a felicidade que a sociedade prega. Estamos perdendo a direção do mundo e caindo cada vez mais no abismo. Somos obrigados a fazer o que não gostamos, a ouvir o que não devemos, a viver sem sentido. E não pensamos. É preciso tirar a máscara que encobre a vida dos robôs sociais. A vida está aí. E nós estamos nela para ser feliz, ajudar uns aos outros e buscar a nossa própria felicidade, mas não a felicidade externa, e sim a interna. Devemos trabalhar para ser feliz e não para enriquecer o sistema e destruir aos poucos nossa saúde e nossa própria vida com os estresses diários. Somos livres. Por que não paramos um pouco de querer o futuro e deixamos que ele chegue tranqüilamente?
Desde que nascemos começamos uma maratona que só acaba no leito de morte, vivemos alucinadamente em busca do futuro e não paramos para olhar o presente. Procuramos a felicidade futura, aquela que acreditamos existir. O problema é quando ela chega e descobrimos que já não somos tão felizes, que a verdadeira felicidade já passou e nem notamos, estava lá atrás conosco o tempo todo, mas não vimos porque estávamos ocupados olhando para o futuro.
“...e aquela saudade dos bons momentos, daqueles amigos inesquecíveis e das risadas companheiras que não se esvaem no tempo e ainda assim roem o coração e a mente quando as folhas do tempo às trazem de volta...”
17 de novembro de 2007
Cinco Minutos a Mais
Quão inevitável é a sensação de desprezo e distanciamento que o ser humano é capaz de ter antes mesmo de se conhecer a outra face da laranja. É certo que vivemos em “sociedade” e que temos direitos e deveres a serem cumpridos, mas um dos direitos que talvez não chegamos a decidir foi a necessidade de isolamento de determinadas camadas sociais. Desde muito antes da construção de uma sociedade civil, o isolamento de pessoas portadoras de algum mal que poderiam prejudicar os demais foi a principal causa do preconceito e aversão ao estranho. Leprosos eram isolados, loucos presos e os condenados iam mais adiante, eram sacrificados em praça pública.
Estudar isso na escola, ler em livros ou ver na televisão não abala mais a nossa sociedade, estamos acostumados com o erro e nem questionamos. Porém, ao se deparar cara a cara com a realidade que ainda persiste é realmente perturbador. Não é possível existir situações semelhantes ao Império Romano em pleno século XXI. Pois acreditem, existe! Fazendo uma visita a uma clínica psiquiátrica para um trabalho da universidade, me deparei com a situação de maior isolamento social a que uma pessoa pode se encontrar. Aglomerados, vagando, curiosos, temerosos, alegres, distantes. É um mundo à parte que se esconde por trás de uma porta. Uma porta! Apenas uma porta separa a realidade da fantasia. Como segregamos as pessoas ao nosso interesse e as isolamos sem direito ao que temos por natureza, a liberdade?
Será que sabemos ao certo o que é perigoso aos nossos olhos e o que não nos faz mal? É óbvio que alguém que sofre de algum tipo de transtorno mental merece cuidados especiais, mas será que esses cuidados devem necessariamente ser através do completo isolamento? Vivemos em um mundo que achamos o certo, um portador desses transtornos também vive em um mundo que considera o certo, e qual de nós podemos julgar e opinar sobre o verdadeiro mundo, se é que existe um verdadeiro? E se existir quem garante que não estamos no errado? O “louco”, como dizem, pode enxergar muito mais do que vemos e encontrar a sabedoria da vida bem antes de nós. É uma linha tênue que separa a verdade da fantasia, mas se vivemos uma fantasia diariamente e aceitamos, por que não podemos entender quem vive sua própria realidade?
E eis que vem o famoso preconceito. E aí não vou tirar o corpo fora. Somos criados e acostumados a viver nessa separação social, que sentimos medo ao que nos parece estranho. A primeira impressão que tive ao entrar na clínica e ver aquelas pessoas isoladas do mundo, sonhando em ir embora, idealizando histórias que nunca existiram, foi de espanto mesmo. Imaginei como somos frágeis e imperfeitos. Estamos na sociedade que descarta seus funcionários. Se temos algum defeito que não corresponde às suas necessidades somos jogados fora e condenados ao esquecimento. E esse preconceito afeta a própria família que não sabe como lidar com a situação e termina buscando as piores alternativas por falta de esclarecimento.
Durante a visita à clínica, conheci entre tantos internos uma garota na ala feminina que me chamou a atenção. Seu jeito espontâneo de falar e sua identificação conosco nos chamou a atenção. Mas um detalhe era mais gritante do que todos, sua juventude. Em meio a tantos casos mais avançados em termos de idade, ela parecia querer fugir da sua realidade com toda a energia que detinha. Tremia sem parar e demonstrava uma enorme alegria com a nossa presença, como alguém que recebe visita em casa de surpresa e não sabe o que faz para agradar. Acho que escolhi esse tema entre tantos propostos pela professora, pela identificação que já tinha presenciado com minha tia. Ali era como conhecer o território que ela pisou por muito tempo. Além de reviver a história, estaria entendendo e tentando compreender a vida vista pelos olhos e pela mente dela.
Foram poucos os minutos que permaneci lá dentro com Lea e Isabeli, mas foram intensas as experiências que vivemos.O valor de um abraço ganha outro sentido, o contato com as pessoas se tornam momentos de curiosidade e descobertas. Se somos capazes de mergulhar de coração nesse mundo que parece estranho aos nossos olhos, podemos desfrutar e desvendar os mistérios que a vida nos esconde e conhecer e apreciar a vida através de outros valores, pelos olhos de quem consegue ver o que não percebemos e podem compreender muito mais do que imaginamos. Afinal, se todos temos nossos cinco minutos de insanidade, o que cinco minutos a mais fariam de diferença?
21 de novembro de 2007
Poeira na Janela
Quando somos crianças desejamos ficar em casa e passar o maior tempo do mundo brincando com os amigos. Na adolescência os papos e as conquistas dominam os espaços e as idéias de cada um. E talvez só na casa dos vinte comece a surgir uma leve preocupação com o amanhã. Estou falando de futuro? Não exatamente. Falo de educação e responsabilidade. E educação no Brasil tem sido meio complicado. Tanto o ensino como as estruturas físicas estão debilitadas. Se quando crianças temos a opção de ficar em casa e brincar com os amigos ou ir para a escola, os estudantes das escolas públicas de Inhapi em Alagoas, Nossa Senhora do Livramento no Mato Grosso e Tarumirim em Minas Gerais não tem nem o direito de escolher.
Em reportagem ao Fantástico há algumas semanas, foi mostrado a precária situação em que se encontravam várias escolas públicas brasileiras, onde a falta de um prédio digno e decente forçava professores e alunos a improvisarem uma sala de aula em palhoças e pastagens de bovinos, sem dispor sequer de uma porta que pudesse evitar a entrada do rebanho e conseqüentemente a destruição do material escolar. Os repasses de verba do governo são altíssimos, mas parecem não atingir e alcançar seus objetivos propostos, o fundo da educação desaparece no espaço e as escolas e as crianças se deparam sempre com a mesma e dura realidade.
Se a nossa educação pública já é deficiente por natureza, com uma educação básica e fundamental que não consegue atender a todas as necessidades dos estudantes, um ensino médio que não corresponde às expectativas de um pré-vestibulando e muito menos prepara jovens para o mercado de trabalho, agora as instalações dos ambientes escolares é mais um motivo de preocupação e até chacota, como é possível um país que busca o desenvolvimento econômico e social não ser capaz de suprir o alicerce desse progresso, as condições mínimas para se buscar o processo de aprendizado?
Inevitavelmente, somos vítimas do sistema, “e isso não pode”, como diria a doutora Lorca. É uma realidade um tanto contraditória. Enquanto estudantes crescem querendo até fugir da escola, reservando a ela as piores horas do dia e torcendo para que acabe logo, outras crianças como Valdirene da Conceição de Inhapi daria tudo para poder usufruir um espaço digno e minimamente dividido por turmas. É preciso se espelhar nos exemplos de quem sonha com um futuro próspero e enxerga nas escolas a porta ou até a janela para isso. Quando será que deixaremos de nos utilizar de políticas assistencialistas e vamos buscar melhorar a base de tudo? Somente uma educação básica fortalecida pode mudar a sinopse dessa novela brasileira. E enquanto lápis e papel tivermos nas mãos é possível encaminhar os próximos capítulos ao seu desenlace feliz.
29 de novembro de 2007
A Mente Por Trás Da Emoção
Uma garota corre pela praia de braços abertos e seu namorado a persegue sorrindo. Um rapaz abre uma lata de cerveja e comemora com os amigos sua conquista no esporte. E aquele cachorro que salva o seu dono e ganha o dia? Pois é, todos esses momentos podem ser apenas traços do dia-a-dia de qualquer pessoa, mas podem também ser cenas de um filme, novela ou seriado. Há um detalhe, no entanto, que muitos não param para se atinar. Por trás de toda a produção, personagens, diretores há um texto, alguém que pensou e idealizou tudo o que se vê. Esse é o roteirista.
Nos Estados Unidos a greve dos roteiristas colocou pelo menos um pouco em evidência a carreira desses profissionais. Há algum tempo venho desejando escrever algo sobre isso, mas o tempo e os compromissos me impediram de fazê-lo. Contudo, ainda quero manifestar meu pensamento tendo em vista a relevância do assunto para mim.
Escrever e imaginar situações, fantasiar, vivê-las no papel e na mente são algumas das emoções dessa profissão tão solitária. E solitária por dois motivos. Primeiro porque a arte de escrever é por si só solitária, embora alguns roteiristas optem pela colaboração e parceria com outros, na hora de pôr as idéias no papel é um encontro consigo mesmo. E segundo porque a profissão de roteirista ainda não tem o merecido valor que ela deveria ter.
Quando se produz um filme, um seriado ou algo do gênero o nome de destaque não é o do roteirista, quem brilha é o diretor. É totalmente aceitável e merecido o trabalho do diretor, foi ele quem deu vida e buscou o melhor de si para transformar aquela história agradável ao público. Entretanto, esquecem que sem o trabalho daquele que escreveu todos os passos que o diretor devia tomar não haveria honra alguma. Não seria possível destacar o trabalho dos dois com a mesma importância? De quem é o filme afinal, de quem escreveu ou de quem dirigiu? Muitas vezes, quando o próprio roteirista não produz o filme também, ele passa a ser de quem dirigiu.
No Brasil o papel do roteirista só ganha grande ênfase nas produções das telenovelas. O autor de novelas é sem dúvida aquele que detém o grande estágio de um profissional dessa área. Talvez pela longa jornada que é manter uma novela no ar ele seja tão reconhecido. O mesmo não acontece com autores de sitcons e filmes brasileiros. E ainda sendo a única referência em termos de sucesso profissional, o espaço da telenovela é bastante fechado. A Rede Globo que controla a grande produção da teledramaturgia brasileira mantém um núcleo em torno de dez autores fixos alternados nos três horários de exibição da casa. Mas nos bastidores escondem-se cerca de 200 roteiristas com trabalhos secundários, engavetados e congelados à espera de uma aprovação quase que irreal de sua sinopse.
A nova janela que se abre do outro lado do muro parece caminhar na mesma direção. A Rede Record trabalha com autores que estavam engavetados na Rede Globo e já são reconhecidos tanto no trabalho como no financeiro. Tiago Santiago, autor de novelas como Escrava Isaura e Prova de Amor já recebe o mesmo que o consagrado Gilberto Braga da Globo. Contudo, uma nova ninhada de roteiristas entrarão na emissora e terão que se preparar para o frio do novo congelador.
Apoio a iniciativa dos roteiristas americanos que lutam por uma fatia mais do que justa das vendas dos DVDs dos filmes e dos seriados, um grande mercado que se abre mais a cada dia. Quem se dedica em ficar horas intermináveis diante do computador escrevendo, vivendo, mergulhando e fugindo do mundo merece uma atenção mais especial. Afinal, nós que escrevemos, escrevemos porque gostamos, escrevemos porque queremos compartilhar nossa visão de mundo com as pessoas e tentar quem sabe mudar um pouco a concepção que a sociedade faz dele. Abrir os olhos para uma nova realidade e fazer sonhar, imaginar, planejar e desejar estar em um lugar melhor, onde tudo seja possível. E só assim, através das teclas do computador, uma letra se junta a outra e consegue levar esperança, brotar emoções e transformar o que parecia fantasia na mais pura realidade. Porque se uma criança passar por um mendigo ao término de um filme e o olhar diferente, já fizemos a nossa parte.
25 de janeiro de 2008
Depois da Projeção
Quando as luzes se apagam começa a emoção nas salas de cinema. Mais de 90 minutos de um mergulho no imaginário, nos sonhos e no inconsciente de cada um. Durante esses mais de 90 minutos de escuridão acompanhamos vidas inteiras dentro de uma tela. Quando as luzes voltam a se acender é o fim da viagem e o recomeço da caminhada. Nossa vida é como um filme que começa ansioso e cheio de expectativas, mas pode terminar sem aviso prévio. Antes de nos prepararmos para os créditos, somos ofuscados com a luz do último instante e precisamos sair da sala, mesmo que ainda desejássemos permanecer nas imagens do que acabamos de viver. Não temos domínio sobre nosso futuro, a qualquer hora podem acender as luzes e desligar os projetores e o filme termina para cada um de nós.
Assim foi o último fotograma da vida do ator australiano Heath Ledger. Uma carreira promissora e bem sucedida interrompida por alguns comprimidos para dormir. Algo tão banal, que poderia ter sido evitado, pôs créditos no único filme que não poderia terminar agora. Uma morte prematura que chocou o mundo. Sem dúvida o cinema está de luto. Quem sabe quantos planos ele ainda fazia para sua vida? Quantos projetos? Se na cabeça dos milhões de fãs espalhados pelo mundo inteiro nunca passou a idéia de vê-lo tão cedo em um plástico preto empurrado pelos paramédicos, imaginem o próprio Ledger, no auge de uma carreira que já lhe rendera indicações ao Oscar e diversas premiações? Esse filme realmente acabou cedo e arrematou todos de supetão. Imaginem chegar em casa, pegar alguns remédios a mais para conseguir descansar e dormir, e acabar encontrando a última cena da história.
Aprendemos ainda no jardim de infância que a vida é feita de ciclos e que todos, mais cedo ou mais tarde, irão chegar ao inevitável ciclo final, onde os mistérios que o cercam são desconhecidos e apenas buscamos orientações nas mais diversas crenças, para encontrar conforto e uma explicação plausível para o que nos espera depois da última projeção. Mas é inevitável a sensação de impotência e fragilidade humana diante das letras “The End”. A partida de alguém sempre mexe com os sentimentos dos que ficam, mesmo que imaginem o que irão encontrar também algum dia. E quando quem encurta o filme é alguém tão jovem, parece que ficamos injuriados com o enredo da vida. Porque aprendemos também na escola que todos temos que passar por cada um dos ciclos da vida, e não aceitamos a ruptura dessa série, não admitimos que o filme acabe no clímax da história.
Mas não podemos controlar os nossos passos. Determinadas pessoas arriscam a vida diariamente acreditando num ilusório pensamento de que somos invencíveis, que temos a vida nas mãos, quando a realidade é mais cruel e sorrateira que um câncer. Que pena que nessa história já não podemos fazer edição e cortar o que não seria legal. Que pena que já não podemos mudar o roteiro e refazer a história, alterando os fatos e tornando melhor o que poderia ser diferente. Mas esse é o filme da vida e só Deus constrói o roteiro e edita as seqüências. Embora grandes dos melhores filmes já produzidos no cinema terminaram de forma trágica e ainda assim ganharam prêmios e elogios da critica. Que o diga “Brokeback Mountain”, o filme que consagrou Ledger e o tornou tão imortal quanto o seu cáuboi Ennis Del Mar.
1 de maio de 2008
E Lá Vem o Trem...
Mais um novelo vai começar a se desmanchar a partir de segunda-feira na Rede Globo. Dessa vez trata-se de Ciranda de Pedra, de outro senil da teledramaturgia brasileira, Alcides Nogueira. A novela vem substituir a atual Desejo Proibido de Walter Negrão. Baseada na obra de Lygia Fagundes Telles, as chamadas de Ciranda de Pedra tentam mostrar que vem mais uma novidade no ar. Ou seja, Força de um Desejo parte 12. Desde 1999 quando a Globo descobriu que voltar a produzir novelas de época no horário das 18h era um bom negócio, ela vem investindo maciçamente.
Só para recapitular. Desde Força de um Desejo até agora foram 11 novelas de época que se alternaram quase que seguidamente no horário. Na lista temos Esplendor, O Cravo e a Rosa, A Padroeira, Chocolate com Pimenta, Cabocla, Alma Gêmea, Sinhá Moça, O Profeta, Eterna Magia e Desejo Proibido salvo algumas exceções como Estrela-Guia, Coração de Estudante, Sabor da Paixão, Agora é Que São Elas e Como Uma Onda. Agora vem mais outro “trunfo” da emissora. Uma estratégia que já vem sendo utilizada desde 2004 com Cabocla, o remake de tramas de épocas. Ah, mas Ciranda de Pedra não é um remake, é só uma “nova” adaptação do livro homônimo.
Não sou contra as novelas de época, pelo contrário, sou muito fã de obras que se passam em outros séculos, acredito que elas servem de resgate histórico e enriquecem o nosso conhecimento a respeito de costumes, hábitos e comportamentos. No entanto, não é isso que eu tenho encontrado nos folhetins ditos de época da Rede Globo. Só pra começar, todas as mocinhas que se apaixonam nas histórias são verdadeiras Mias Coluccis. Enfrentam os pais, saem de casa, moram sozinhas, se entregam aos amores. Não desmerecendo as jovens daquelas épocas, mas os pais exerciam uma pressão muito forte nas famílias para os filhos serem tão rebeldes como os que são representados. Tem dias que até parece um capítulo de Páginas da Vida ou da maçante Rebelde.
O encanto que dominava as verdadeiras novelas de época se perdeu no espaço. Bons tempos aqueles em que podíamos mergulhar na São Paulo de 30 com a simplória, porém rica Éramos Seis, podíamos vivenciar a força das espadas e a magia dos bruxos na França do século XVIII em Que Rei Sou Eu?, ou mesmo a escravatura e a vida pudica dos arraiais em Xica da Silva. Quando novela de época se tornou puramente negócio, sua essência desapareceu.
E agora vem o Vale a Pena Ver de Novo reprisando a chata e aguada Cabocla que mal disse fim. Se é pra repetir novelas das 6 que não fazem jus ao título do programa, é preferível reprisar clássicos como Mulheres de Areia, Barriga de Aluguel, Felicidade ou até mesmo sucessos recentes como Estrela-Guia e Esplendor. Coração de Estudante foi um segundo de lucidez de algum gênio do Projac.
O que falta de verdade para tornar novela de época, realmente novela de época é criatividade. E não acredito que seja possível a Benedito Ruy Barbosa, Alcides Nogueira, Walcyr Carrasco e tantos outros, buscar novidades a essa altura do campeonato. Só Walcyr Carrasco que escreveu a célebre Xica da Silva na extinta Manchete, se especializou em dramas à la Maria del Barrio na Globo, e ainda consegue gabarito quando escreves absurdos que distorcem a filosofia espírita como Alma Gêmea.
Quando Desejo Proibido ia começar até me animei um pouco. Parecia ser uma história diferente com um autor que não tem muitas referências em tramas antigas. Mas bastou chegar na cena do trem no primeiro capítulo, quando Laurinha conhece o padre Miguel que já me remeti a Sinhá Moça, Cabocla, Chocolate com Pimenta e tantas outras. É incrível como o mesmo ganha sentido de novo, quando é mostrado numa nova roupagem.
Admiro muito os grandes autores como Benedito Ruy Barbosa, Manoel Carlos, Glória Perez, Gilberto Braga, Sílvio de Abreu, Aguinaldo Silva, o próprio Alcides Nogueira, mas eles já deram sua cota de contribuição para a teledramaturgia brasileira. É preciso surgir uma nova fase com nomes que marquem toda uma nova geração. O grupinho de autores da Globo precisa urgentemente passar por uma faxina. Abrir as portas para as novas mentes, como já vem sendo feito com João Emanuel Carneiro, que inovou em Da Cor Do Pecado de forma simples e já conseguiu espaço no horário nobre. Espero que não seja o mesmo resultado da sua segunda e inóspita investida Cobras & Lagartos.
É uma tarefa difícil e nem todos os novatos conseguem se dar bem. A estreante Andréa Maltarolli tenta fazer algo diferente mexendo pra aqui e pra lá na insossa Beleza Pura, que de beleza não tem nada. O jeito, enquanto a galera não muda, é continuar não esperando muito do que vai começar. Contudo, acreditando que Alcides Nogueira foi autor de sucessos como as minisséries JK e Um Só Coração ao lado de Maria Adelaide Amaral, é possível que saia alguma coisa decente a partir de segunda-feira. É só esperar e conferir a estréia de Ciranda de Pedra. Mas se eu encontrar logo no primeiro capítulo algum futuro casal que se conhecem numa viagem de trem, desligo a TV na mesma hora.
11 de agosto de 2008
Até Quando??!
É só virar as páginas dos jornais ou ligar a televisão que encontramos: o menino João Hélio, o caso Isabella, João Roberto, Cara Marie. Crime atrás de crime. É por atrocidades como essas que outra linda jovem não está mais aqui para comemorar o seu aniversário. Com uma vida brilhante pela frente, mas interrompida aos 22 anos por dois psicopatas, a encantadora atriz Daniella Perez faria hoje, 11 de agosto, 38 anos. Os anos correm e parece que a realidade e a justiça brasileira continuam paradas no tempo. Há mais de 15 anos do brutal crime, onde os personagens centrais eram colegas de trabalho de uma novela bem sucedida no horário nobre da televisão, ainda encontramos pais que passam pela mesma dor e descaso judicial da autora Glória Perez.
Se já é revoltante e aterrorizador descobrir que aquele ser que um dia você carregou no colo foi arrancado de você de uma maneira tão abrupta e monstruosa, como é então conviver com a incerteza da correta punição ao culpado? Isso quando ele ainda é localizado. Vi o depoimento da mãe de Cara, no Fantástico ontem e me comovi. Primeiro pelo destino trágico da sua filha e segundo por sentir que ela realmente acredita na enganosa justiça brasileira, que diz ter pena máxima de 30 anos e o condenado nunca chega aos 20 anos no júri. Passar então esse tempo todo na prisão, nem pensar.
E temos o exemplo clássico da justiça brasileira do nosso país. Os assassinos confessos de Daniella Perez, condenados a 19 anos, já estavam nas ruas pouco mais de 6 anos após o tenebroso ato. Eu era apenas um garotinho de 7 anos que acompanhava todas as noites as intrigas, as paixões e os rolos dos personagens que compunham a novela De Corpo e Alma, mas já tinha entre os meus personagens preferidos, Yasmin, a personagem que a Dani vivia com grande realismo. O impacto do crime foi tão grande que conseguiu penetrar fundo o meu interior.
Era realmente inimaginável. O que levaria um rapaz de 23 anos a arquitetar um plano diabólico com a sua mulher grávida, para tirar a vida da sua colega de trabalho, filha da autora da novela em que ele mesmo trabalhava e desempenhava um papel de destaque em seu primeiro folhetim? Confesso que essa é uma pergunta que levarei sempre comigo. Porque não dá pra imaginar que o egoísmo e a inveja foram as ferramentas-chefe que culminaram nessa ação.
O pior de tudo foi a versão que ele apresentou na época de que Dani teria um caso com ele. Versão que ainda hoje é a válida para muitas pessoas desinformadas. Outro dia, conversando sobre o caso com uma colega da universidade, descobri que era essa a versão que ela tinha sobre o crime. Depois do espanto, destrinchei todo a verdade dos fatos e surpresa ficou ela por desconhecer há tanto tempo o que realmente aconteceu na noite de 28 de dezembro de 1992.
A luta de Glória Perez na justiça para acabar com as regalias dos presos e incluir os homicídios qualificados na lista dos crimes hediondos foi memorável. Um exemplo de força e coragem de mulher e mãe indiscutível. Mas acredito que deveria ser uma luta constante de todos nós brasileiros. Outro dia entrei no site do MRC (Movimento de Resistência ao Crime) e encontrei uma lista enorme de vidas interrompidas pelo crime. Jovens, pais de família, uma infinidade de homicídios cometidos contra inocentes que como diz no site, não sabiam que estariam ali ilustrando aquela página. No ranking da Organização Mundial de Saúde, o Brasil é o 3º colocado com 48,5 óbitos por grupo de 100 mil adolescentes e as chances de um jovem morrer assassinado são mais altas do que as do restante da população.
É preciso tentar agir para mudarmos a realidade brasileira quando ainda é tempo. Afinal eu, você, nossos familiares, todos estamos sujeitos a ser o próximo da lista da criminalidade. E como diz o slogan do MRC, “junte-se a nós por amor, antes que alguém o faça pela dor”, não dá para ficar mudando de canal ou virando a página de jornal para fingir que isso não acontece e nem ficar apenas se comovendo, enquanto a criminalidade corre solta e corta o fio da vida, dos sonhos e dos projetos de vida de milhares de pessoas pelo país. Quem quiser entrar em contato com os responsáveis pelo Movimento de Resistência ao Crime é só enviar um e-mail para: escuta@atequando.com.br, ou acessar o site http://www.atequando.com.br/ e participar de um abaixo-assinado para a realização de um plebiscito para alteração do artigo 228 da Constituição Federal para reduzir a maioridade penal, e começar a dar a nossa parcela de contribuição na luta por uma vida digna e descente para todos nós brasileiros.
23 de abril de 2009
Epifania
Legal você está aqui no Celeiro lendo esse texto, escutando a música de hoje, ou desligando esse som desagradável, rindo, refletindo ou ficando impaciente com o tamanho de cada parágrafo. Mas você só pode entrar no Celeiro, ler, escutar e sentir porque temos ao nosso favor, elementos como as mãos e os dedos que digitaram esse link, a visão que possibilitou a leitura, a audição que o fez escutar ou querer parar a música e a mente que libera as mais variadas sensações pelo corpo. Já parou pra pensar quanta coisa boa temos todos os dias ao nosso dispor e não nos damos conta?
Curiosamente, pude redescobrir esses valores ao acompanhar três programas de televisão essa semana. Em meio ao tema barulhento do Profissão Repórter da última terça-feira, redescobri através do silêncio do agricultor Wilson Alves, o valor de cada batida, de cada voz, de cada som que é capturado todos os dias pelos nossos ouvidos. Devido uma intoxicação com agrotóxicos há 9 anos, Wilson perdeu totalmente a sua audição e passou a fazer leitura labial pra conseguir entender as pessoas. Depois de todo esse tempo de silêncio total, um implante coclear traz o som de volta a sua vida.
O momento em que a fonoaudióloga gera os primeiros ruídos através do equipamento, parece que Wilson renasce. Ele fica literalmente abestalhado por estar ouvindo novamente. E quando ele passa então a escutar sua própria voz é um êxtase que eu não pude deixar de transcrever suas palavras: “Eu tô ouvindo! Nossa! Eu tô ouvindo a minha voz”, e cai na gargalhada. Um passeio pela rua e cada barulho era uma alegria nova. O vento batendo nas árvores, a buzina de uma bicicleta, um carro de som anunciando promoções, o trânsito, o canto dos pássaros. E eu cá na minha sala, deitado, assistindo tv, desfruto, como inúmeras pessoas, esse dom todos os dias sem precisar de equipamento nenhum, e não percebemos quão significativo ele nos é. Nos irritamos tanto com o barulho do trânsito diário, da música alta, dos cachorros latindo à meia-noite, mas que fantástico escutarmos tudo isso. E que gritem mais, façam fuzuê. Quero ouvi-los mais e mais.
Coincidentemente ou não, o SBT Repórter desta quarta-feira trouxe uma viagem pelo cérebro humano, acompanhando neurologistas nas cirurgias pelos cérebros dos pacientes. O caso mais intrigante foi da menina Elenice de 8 anos que sofria de ataques constantes de epilepsia e no intuito de parar os ataques faria uma cirurgia de retirada do lado direito do cérebro. Foram 4 horas só para chegar ao cérebro da menina, depois de passar pelo couro cabeludo, perfurar o crânio, a membrana interna e finalmente atingir o cérebro. E o mais impressionante é imaginar que essa cirurgia era feita há 30 anos com o paciente acordado.
Mais uma região delicada e tão fundamental à nossa vida. Pensar que cada pontinho daquela massa é responsável por inúmeras funções do nosso corpo é espetacular. Refletimos, nos movemos, guardamos lembranças, nos emocionamos tudo graças a essa engrenagem superprotegida do nosso corpo. Tão fundamental como aquela que faz pulsar o nosso sangue. No quadro Transplante, O Dom da Vida do Fantástico de domingo, foi mostrado o instante exato em que um coração transplantado começa a bater num outro peito. É incrível a capacidade que o homem tem de fazer aquele órgão vital continuar vivo o suficiente para salvar outras vidas. E a precisão de cada ponto, saber que aquela artéria se juntando àquela veia e isso àquilo vai fazer tudo funcionar de novo. Fosse eu entraria em pânico. “Ai, meu Deus, onde isso entra agora!?”. Por isso não sou médico. Ainda bem! E ainda bem que eles existem e são capazes de fazer.
Cada um com a sua função! Assim como o nosso organismo nos quais cada órgão tem o seu papel para fazer funcionar o todo, na sociedade cada um faz a sua parte. O médico opera, melhora a qualidade de vida de diversas pessoas, o repórter vai lá, colhe a informação, repassa a nós e instiga garotos como eu a escrever sobre essa fascinante engenhoca da vida. Ah, e como é bom poder raciocinar, enxergar, ouvir, sentir, respirar e continuar tendo um coração bombeando o sangue nas nossas veias e tocando sempre sua canção favorita: tum tum, tum tum, tum tum...
30 de abril de 2010
Uma Tarde e Tanto
Mudava de canal por acaso na última quarta-feira à noite, em busca de algo que pudesse entreter minha mente até pegar no sono, quando parei no Programa do Jô. Devo confessar que não é um dos meus programas preferidos, embora seja a opção da maioria da elite, e um dos primeiros que sai quando se pergunta sobre o programa preferido a alguém que quer se dizer culto. Às vezes aparecem algumas entrevistas legais, mas geralmente não aguento ver os famosos falando de suas pitorescas aventuras caseiras de uma vida regrada.
Entretanto, consegui me fixar numa entrevista que rolava com Denise Fraga. A leveza da atriz e seu bom humor associado ao papo, me prenderam por ali. Me surpreendi com seu jeito solto de falar, de sentir a vida, seu jeito de se vestir. Lembrou-me muito Emília, uma grande companheira e atriz do teatro. Denise ressaltava a importância do seu novo filme que está em cartaz “As Melhores Coisas do Mundo”. Já havia visto o pôster no cinema, mas não me interessei o suficiente para assistir. Contudo, ela falava tão bem do filme e com tanto sentimento e verdade, que meu interesse foi aumentando. Jô até passou um trecho do filme.
Não deu outra, na tarde seguinte fui ao cinema conferir de perto o que Denise havia dito. E não me decepcionei. Como sempre, fui sozinho, entrei na sala e a dividi com mais umas quatro ou cinco pessoas. Mas prefiro assim, detesto ir ao cinema lotado com um monte de gente fofocando, atendendo celular, zuando. Nesses casos, o vazio é mais bem vindo. O filme foi um encanto. De maneira simples resgatou a alma de uma escola de ensino médio, com todos os lances, agitação, rebeldia, encrencas e azarações como uma Malhação nunca conseguiu fazer. Falou de amor, de descobertas, de preconceitos, de sonhos, de frustrações e não perdeu o tom verdadeiro da história.
Se o roteiro, a direção e o elenco estavam afiados, a trilha sonora não poderia deixar a dever. De contraponto ao turbulento mundo jovem da trama, a clássica Something dos Beatles vinha na voz do próprio personagem Mano, acalentar os ânimos. Era como se ela conseguisse invadir aquele espaço como um paradoxo tão grande quanto a mente da juventude. A agitação e a tranquilidade lado a lado construindo um mundo de descobertas e contradições. Foi uma bela experiência. Valeu Denise pelo incentivo e pela oportunidade de além de curtir um bom filme, viajar numa das mais belas canções do quarteto de Liverpool. E você me pergunta se meu amor vai crescer, eu não sei, eu não sei.
“You’re asking me wiil my love grow, I don’t know, I don’t know!!!”
17 de maio de 2010
Sei lá... Maneco Tem Sempre Razão
Maneco! Maneco das Helenas, do Leblon, da família. Maneco da Regina Duarte, do Doutor Moretti. Maneco do amor de mãe incondicional, das mulheres e suas paixões. Maneco do singelo. Maneco da Bossa Nova, do Tom Jobim e da Miúcha. Maneco, Maneco, Maneco... Eis um homem que consegue um dos maiores feitos da teledramaturgia brasileira, quiçá do mundo. Com seus folhetins recheados de realismo, de uma vida como a minha, como a sua, consegue manter por mais de 200 dias no ar uma história sem vilão. Tudo bem, alguns podem se queixar pela ausência dele, mas na busca de uma verdade próxima ao dia-a-dia da sociedade, Maneco consegue criar uma trama, na qual todos podem ser os vilões e os mocinhos, afinal, ninguém é perfeito e todos estamos susceptíveis a falhas, a cometer erros e a mudar.
Me lembro da primeira novela de Manoel Carlos que assisti. Ainda tinha 6 anos, quando me envolvi nas aventuras das crianças Bia e Alvinho, e nas armadilhas de Débora. Ainda havia a figura forte da vilã em Felicidade, o que não demorou muito a se esfacelar como foi em História de Amor e Por Amor, sua primeira novela no horário nobre. As vilãs de Por Amor eram tão fortes como frágeis. Se Laura era obcecada por Marcelo, a ponto de cometer loucuras, era também sensível e sonhadora; e Branca, uma mulher de personalidade forte e infeliz no casamento, não suportava a solidão e sonhava viver seu antigo amor. Figuras humanas.
Prefiro assim. Ao invés de vilões capazes de tudo sem o menor escrúpulo ou fragilidade, gosto de tipos humanos, com suas qualidades e seus defeitos, suas forças e suas fraquezas. Um feito memorável aconteceu em Mulheres Apaixonadas, quando todos, ou quase todos os personagens, tiveram seus momentos de protagonista e os de figurante também. E como Maneco fez isso? Bom, o nome da novela já dizia, se a trama era sobre as mulheres e suas paixões, nada mais justo do que enfocar cada história no seu devido tempo. E assim, a paixão de Helena teve seu momento, a de Heloísa, a de Luciana, a de Edwiges, de Clara e Rafaela, de Raquel, de Estela... Quando uma história se destacava, as demais se afastavam, até chegar o seu momento. Foi uma novela incrível. A minha preferida do Maneco.
Viver a Vida se foi. Um final justo. Nada de especial. Por momentos passava a sensação de ser apenas mais um capítulo da novela e que no dia seguinte a teríamos de novo. Bem Maneco. Olha, já fui bastante noveleiro, acompanhei novelas de diversos autores, e digo que só teve um, ou melhor, uma autora que me encantou tanto quanto o Maneco. Ivani Ribeiro. A responsável pela sensacional A Viagem, a melhor novela com abordagem espírita até hoje. Quem quiser atirar pedra, fique à vontade, tem todo o direito, muitos até o criticam por aparecer somente a elite do Leblon em suas histórias, que seja! Porque pra mim, podem-se passar anos, se eu souber que uma novela de Manoel Carlos vai estrear, não duvidem que reservarei meu lugar em frente à primeira tv que aparecer.
31 de julho de 2010
Agora ele existe!
Outro dia entrei no YouTube pra ver como ia a minha conta e encontrei um vídeo curtinho de Zacarias, um dos Trapalhões, nos vídeos indicados pra mim, provavelmente porque eu já tinha assistido algum vídeo dos trapalhões. Resolvi assistir. Ao terminar, vi entre os vídeos relacionados ao tema, outro vídeo de Zacarias, mas agora era sobre a morte dele. A imagem parada era de um homem dando depoimento ao Fantástico, com o olhar triste. Nem me dei ao trabalho de assistir. Primeiro porque já sei o que o homem iria dizer: que Zacarias era um grande humorista, que o Brasil perdeu um grande nome do humor e que ele foi importante na história do humor no cinema nas últimas três décadas. Blá, blá, blá.
Concordo que Zacarias foi tudo isso. Sempre foi o meu trapalhão favorito. Entretanto, não aguento essas intensas homenagens pós-vida. Depois que morre todo mundo é santo, é o bonzinho, era o melhor, tinha talento, capacidade, ia longe, e blá, blá, blá, blá. Se a pessoa era tão importante assim, então aqueles que ficam horas discursando para que todos saibam quem foi o morto, deviam fazê-lo enquanto o homenageado ainda vive. Quando alguém morre na televisão, já começa, fulano foi isso, tinha isso, aquilo. Me dá enjôo, porque na vida ninguém estava se importando com o que a pessoa era ou deixava de ser. Aí depois que morre, todos se voltam para o ser invisível até então. Eis realmente A Hora da Estrela de Clarice Lispector.
Por isso, que eu não quero ninguém no meu enterro discursando que eu fui isso, deixei de ser, tinha aquilo ou podia ter. Se alguém quiser me dizer alguma coisa, me elogiar, me criticar, dizer o que tenho de bom ou ruim, o faça enquanto eu estou aqui, porque depois pouco vai me importar. Existem muitos momentos na vida, em que precisamos ouvir de alguém uma palavra de incentivo, de encorajamento, pra poder seguir em frente mais confiante, e se essa palavra só vier depois que formos embora, de que irá nos adiantar? A verdade é que enquanto estamos aqui, não significamos muito para as pessoas, ou elas mal nos notam, preocupadas com o seu cartão de crédito, com o filhinho querido, com a roupa da moda, o batom ou o netbook. É clichê dizer que está tudo errado, mas confesso que às vezes adoraria soltar uma bomba gigante nesse nosso planetinha.
1 de agosto de 2010
Pés Cansados
Quando escutei pela primeira vez que Sandy e Junior iam finalmente se separar, minha primeira reação foi de descrença, afinal, durante 17 anos eles afirmaram convictamente que jamais cantariam separados. Muito bem, eis que o fato aconteceu. Não cheguei a soltar rojão, como muitos fizeram, mas tive as minhas manifestações de desapego, como não ir ao último show deles em Campina Grande. Eu nem precisava ir pra outra cidade pra assistir o show, como aconteceu em Natal, era só pegar um transporte coletivo e pronto. Até hoje me pergunto por que exatamente não fui àquele show. Se foi querendo provar pra mim mesmo que eles não significavam mais nada na minha vida ou se eu tinha sofrido uma overdose de “Vâmo Pulá!”.
Pra um fã que tinha todos os cds, 20 fitas VHS do seriado da Globo e sabia decorado os passos das principais músicas, acho que eu estava mesmo querendo fugir desse passado para construir um novo futuro. Era um basta mesmo! Chega! Até hoje não comprei o último cd da dupla, ou seja, não completei a coleção. E não queria nem saber da carreira solo de Sandy. Se ela ia voltar como uma Shakira, Beyoncé ou Mariah Carey. Assunto Sandy e Junior encerrado da minha vida. Página virada.
É, mas ela conseguiu me pegar direitinho. De cabelo curto, músicas de autoria própria, sem se preocupar em agradar o público, Sandy me surpreendeu. A música de trabalho “Pés Cansados”, parece que realmente simboliza o momento em que ela vive. Como ela diz, depois de tanto caminhar, ela volta tranquila, sem se preocupar com quem vai gostar dela ou não. É, ela realmente não precisa se preocupar com ninguém e nem em vender cd, já é rica. E por isso pode ousar tanto e ser ela mesma, independente de tudo. Já Junior, bom, foi co-produtor do cd junto com Lucas e compôs algumas músicas com eles, além de fazer vocal em uma faixa. Às vezes acho que se Sandy não tivesse tido a ideia de cantar sozinha, Junior ainda estaria com ela. Mas enfim, acho que ele não pensa em lançar um cd solo.
Acredito que aprendi algo interessante com o “manuscrito” de Sandy. Eu não preciso ser um fã desesperado de um artista só por gostar de suas músicas. É isso que acontece agora, não me considero o mesmo fã de anos atrás, só porque gostei das novas músicas de Sandy. Ando longe de virar aquele maníaco obsessor. É uma outra história, me parece até uma outra cantora. Acho que todos estamos cansados de tanto caminhar. É hora de fazer que nem Sandy, esquecer os planos, o futuro, as preocupações e sentir o momento.
4 de setembro de 2010
A Globo e os seus sete pecados
Vivemos no país da telenovela. Da maior exportadora mundial de novelas com qualidade. Uma verdadeira indústria do entretenimento e da ficção na telinha. Alguém poderia me citar ao menos uma telenovela que ficou marcada na memória? Com certeza muitas pessoas terão até mais de uma, e muitas novelas serão ditas, mas tenho certeza que ninguém dirá Sete Pecados. Então por que será que esse folhetim será a próxima atração do Vale a Pena Ver de Novo? Não dá pra entender. A Rede Globo tem atualmente mais de 260 telenovelas gravadas, grandes sucessos que correram o mundo, e é incapaz de reprisar uma trama que realmente valha a pena.
Aliás, tramas que valham a pena está cada dia mais em extinção no país. Foi-se o tempo das vacas gordas, quando se acompanhava um sucesso atrás do outro, quando era gostoso sentar diante da tv pra assistir um capítulo, se deleitar com os personagens e finalmente rever um grande sucesso depois de anos. O que nos sobra hoje são histórias monótonas, repetitivas, fatigantes, que só buscam explorar o ator ou a atriz bonitinhos e entupir as nossas veias de vácuo e merchandising.
Eu nem cheguei a pegar o início da teledramaturgia brasileira, nem acompanhei clássicos como O Bem Amado, Dona Xepa, Irmãos Coragem ou Roque Santeiro, embora tenho visto alguns capítulos da última em sua reprise. Contudo, ainda peguei o final da boa safra da emissora, e acompanhei Que Rei Sou Eu?, Vale Tudo, Tieta, Pedra Sobre Pedra, Renascer, A Viagem, Mulheres de Areia eO Rei do Gado. Claro, que telenovela é igual a música e religião, cada qual escolhe a sua, independente da opinião alheia. Então ainda consegui extrair o sumo de algumas outras no decorrer das décadas seguintes como o suspense policial de Sílvio de Abreu A Próxima Vítima, a fictícia Greenville em A Indomada e o caso Pedrinho em Senhora do Destino de Aguinaldo Silva (grande Nazaré),as Helenas de Maneco em Por Amor, Mulheres Apaixonadas e Páginas da Vida, a clonagem humana de Glória Perez em O Clone, e até o mundo irritante das Celebridade de Gilberto Braga.
Quanto ao humor não consigo deixar de citar duas novelas de Carlos Lombardi, que embora severamente criticadas, me divertiram pra caramba. Eis que falo de Uga Uga e Kubanacan, com uma “quedinha” maior pela última. A sátira a uma república das bananas na década de 50 era sensacional, acompanhado das atuações hilariantes de Adriana Esteves e Vladimir Brichta. Da Cor do Pecado entrou na minha lista por vários motivos, entre eles, a ambientação no Maranhão. Era um romance bobo com uma vilã óbvia, mas cheio de artimanhas, uma história que acabou agradando pela simplicidade.
Fechando a lista, acrescento duas tramas de Ana Maria Moretzsohn, Esplendor, ambientada no charme da década de 50, e Estrela-Guia, que apesar da crítica no fato de ser a novela de Sandy, foi uma história que nos levou de volta ao mundo alternativo dos hippies, do filme Hair, e a questionar os valores e os costumes da vida moderna. E por fim, a vida de jovens em repúblicas, em uma cidade do interior de Minas, ao lado de um romancezinho água com açúcar dos personagens centrais, me trouxe uma certa afinidade com a obra de Emanuel Jacobina, Coração de Estudante. Fora do universo global, as únicas que se sobressaem pra mim são Pantanal e Xica da Silva da Manchete e Éramos Seis do SBT.
É óbvio que entre essas novelas que citei haverá muita gente a questionar essa ou aquela, e citarão talvez outras que tenham sido relevantes ao seu ponto de vista. Entretanto, essas seleções são cada vez mais raras de fazer hoje em dia. Noveleiro desde os 3 anos de idade, pode-se dizer, hoje não acompanho mais novelas, salvo algumas raríssimas exceções, e fico tremendamente revoltado e impotente quando vejo que o único canal que poderia trazer de volta os bons tempos da teledramaturgia, se dedica em reexibir xaropes da despropositada nova safra da emissora e chamar de grande sucesso a infeliz Sete Pecados, que ainda nem começou e já devia ter terminado.
5 de setembro de 2010
A Globo e os seus sete pecados – Parte 2
Insatisfeito em apenas comentar no Celeiro o meu desapontamento com a nova reprise do Vale a Pena Ver de Novo da Globo, Sete Pecados, escrevi um e-mail para a emissora, mesmo sabendo que não iria influenciar em nada a decisão deles e que pouca diferença fará a indignação de um quase paraibano com a sua programação. Contudo, surpreendentemente recebi a resposta ainda na mesma tarde. Eis abaixo a resposta da Rede Globo à minha crítica: Samuel,
Há muitos fatores envolvidos na escolha de uma novela para ser reprisada no Vale a Pena Ver de Novo. Alguns são artísticos – há obras que ficam datadas, por exemplo – e outros tecnológicos, que apresentam um impacto na qualidade visual da obra. Além disso, novelas com temas leves, histórias alegres, divertidas, românticas e com generosas pitadas de aventura têm maiores chances de serem escolhidas.
Geralmente, as novelas das seis e das sete se enquadram nessa categoria. Quando a Rede Globo encontra novelas mais antigas, que atendem aos critérios citados, procura dar preferência a estas.
Lembramos, ainda, que as novelas exibidas no Vale a Pena Ver de Novo são de censura livre ou sofrem edição para que se adequem ao horário.
Respeitamos sua opinião e crítica. Suas considerações serão levadas ao conhecimento da direção de programação da Rede Globo.
Cordialmente, Rede Globo.
Ou seja, novelas insignificantes como Sete Pecados é que tem vez na programação. Eles mesmos assumem que “novelinhas” alegres, bobas, babacas é que podem ser reprisadas. Então pra que serve esse programa, se o intuito maior que seria exibir tramas que marcaram épocas, não acontece? Se a censura anda vetando as melhores sinopses do horário nobre, então por que a emissora não lança um Vale a Pena Ver de Novo à noite? Ou mesmo se as novelas das 18h e 19h são as que têm mais chance, por que não buscar alguma que realmente faça jus ao título do programa? Sete Pecados foi a decadência rasgada da programação. Sabem aquelas novelas que passam, simplesmente passam e logo vem outra? Uma dessas foi Sete Pecados. A loucura é maior ainda se formos analisar quais eram as outras duas opções do canal para reprise: O Profeta e Beleza Pura. A primeira remake de Ivani Ribeiro, que tentando seguir o exemplo de A Viagem, andou longe de conseguir o mesmo sucesso da versão original, e a segunda que não merece nem comentários.
É lamentável ver que uma das maiores ou a maior produtora de teledramaturgia do mundo, conhecida internacionalmente, esteja produzindo apenas por produzir, sem se preocupar com o conteúdo daquilo que dissemina. E a culpa é de quem? Autores? Atores? Modelos prontos? Padrões? Desse modo, dá pra entender que se um dos principais critérios das reprises do Vale a Pena Ver de Novo são produções recentes das faixas das 18h e 19h, não tem como o programa reprisar tramas relevantes, já que nada significante nos últimos anos tem sido produzido.
6 de setembro de 2010
Bem-vindo ao Nosso Lar
Ontem finalmente assisti no cinema o filme Nosso Lar, baseado na obra de Chico Xavier. Desde que vi pela primeira vez o trailer, percebi que seria um grande filme, tanto pela superprodução que lembra até os filmes hollywoodianos, como pela sua temática.Venho adentrando pelo universo kardecista desde meus 18 anos, quando voltei a acreditar em vida após a morte e na existência de um ser supremo. Sinto que no momento atual estou bastante envolvido com o tema, participo da montagem de uma peça teatral de temática espírita, tenho intensificado minha leitura na doutrina e me sinto cada vez mais sensível ao assunto.
Por ser a religião com a qual me identifico, a expectativa foi gigante quanto ao filme, e como esperado, acompanhei durante os 102 minutos, uma verdadeira avalanche de emoção, acolhimento e muito amor. Consegui identificar tudo aquilo que venho estudando sobre a Doutrina Espírita. Me parecia a mais completa representação da realidade humana. Sentimentos se misturando dentro de mim naquela sala lotada, onde nem todos compartilhavam das mesmas sensações. Alguns riam do que não entendiam, outros conversavam, questionavam. Angústia, alegria, compreensão, vazio, caridade, amor, tudo isso rolava dentro de mim. Posso até ter exagerado, afinal era apenas um filme, mas um filme que me tocava inevitavelmente, o que podia fazer?
Saí daquela sala ainda em ebulição. Tudo parecia haver mudado, olhava as pessoas saindo, conversando, rindo, não era possível que apenas eu tivesse sido tão abalado pelo filme. O percurso que fiz daí até minha casa foi inexplicável. Não me recordo exatamente dos detalhes, visto que minha mente estava ainda naqueles 102 minutos. Parecia que eu havia flutuado do cinema até em casa. Nada me incomodou, filas, pessoas, demora de ônibus, lotação, aliás, os ônibus foram rápidos e estavam quase vazios para um sábado.
Já em casa, numa rápida pesquisa pela internet, encontrei as primeiras críticas com relação ao filme. Depoimentos de pessoas emocionadas, satisfeitas com a produção, até um presbiteriano que se dizia comovido e admirado com as teorias do espiritismo, que a ele sempre pareceram tão erradas, e claro, achei as famosas críticas negativas que os jornais não cansam de fazer. Criticavam a cidade futurista, as ideias previsíveis, o céu azul, as gaivotas voando, as roupas claras esvoaçantes do elenco, criticaram até o orçamento que é considerado o mais caro do cinema nacional e fichinha se comparado aos padrões de Hollywood.
Bom, ou eu sou um poço de sensibilidade inútil, ou essas críticas não fazem a menor diferença no resultado final do filme. Confesso até que se não conhecesse um pouquinho já de espiritismo, acharia tudo um verdadeiro devaneio. E talvez por isso, a falta de esclarecimento da religião, leve muitos a apontar fatos que desconhecem. Mas afinal o que eles esperavam de um filme que retratava a vida pós-morte? Uma aventura a la Harry Potter? É claro que os acontecimentos são previsíveis, aliás, achei alguns até inusitados. Talvez quem sabe se todos usassem roupas normais tornasse mais crível para alguns. Contudo, tratar do que não se conhece é sempre um tiro no escuro. E quem pode garantir a esses críticos que o céu não é azul e não existem gaivotas voando? Se o céu fosse roxo ou amarelo seria mais interessante pra eles? Acredito que a mensagem retratada é mais significante do que detalhes do “paraíso”.
Um tal Paulo Floro, do JC Online de Pernambuco disse que faltava mais naturalidade, mais realismo nas cenas. Como ele sabe o que precisava em um ambiente que ele mesmo desconhece a existência? Chamou até de um pós-vida cafona. Tem que ter moda até pra viver depois da morte, né? Isso é porque se fala de espiritismo hoje como o assunto que está em alta, como se a doutrina fosse um tema qualquer que chega e vai embora, como as crises do petróleo ou os ataques terroristas. E a consequência da exploração demasiada do tema em filmes e novelas, exige dos diretores inovação e tentativas de criar ambientes cada vez mais surreais.
Apesar de todas as sugestivas críticas sobre a produção de Nosso Lar, acredito que o filme é uma grande obra do nosso cinema. Deixado de lado as roupas esvoaçantes, o céu azul e as gaivotas voando, a rica mensagem que fica desse trabalho que vendeu mais de 2 milhões de exemplares em livro, e foi base para a construção da novela A Viagem de Ivani Ribeiro, é a continuação da vida após a morte, através do prisma da Doutrina Espírita. Nenhum outro filme que tenha conhecimento, retratou tão fielmente os ensinamentos do espiritismo como Nosso Lar. E independente de todos os clichês utilizados, a mensagem de amor, perdão, crescimento e continuidade, atravessa a tela e chega aos corações, ao menos dos mais sensíveis. O duro é abandonar a sala depois e perceber que a realidade aqui ainda é outra bem diferente, onde os interesses pessoais sempre falam mais alto e o amor e o perdão ainda estão no fim da fila.
30 de novembro de 2010
A Globo e os seus sete pecados – Parte 3
E continua aqui a saga da atual reprise da Rede Globo no Vale a Pena Ver de Novo. Desde quando foi anunciado que Sete Pecados seria a próxima novela a ser reapresentada, eu venho arquitetando um golpe diabólico contra as fitas originais de telenovelas como essa. Quem sabe tocar fogo no acervo, levar pra reciclagem, ou fazer linha de empinar pipa pra que ninguém mais seja obrigado a saber que uma trama desse nível, se é que existe nível, está novamente no ar. Depois da resposta prontinha da emissora ao meu e-mail indignado, achei que tinha perdido a batalha contra o império Plim Plim. Entretanto, “however”, felizmente, dessa vez eles estão descobrindo que não se trata de um único e-mail inofensivo, mas de vários spams incontroláveis.
Um fato que não se pode questionar, é que o grande determinante de um programa permanecer no ar em um canal de TV é a sua audiência. E contra ela, nenhuma desculpinha enlatada pode resolver o problema. Pois bem! Com pouco mais de dois meses no ar, Sete Pecados é a pior audiência do horário desde 2000. E agora não sou eu quem está dizendo, mas os telespectadores. Segundo o blog do jornalista Daniel Castro, a emissora está cortando quase 60% das cenas originais do folhetim. Ou seja, correndo contra o tempo pra tirar do ar o que nem deveria ter entrado. E olhe que não foi por falta de aviso. No capítulo 43 da reprise já estavam sendo exibidas cenas do 108, resultando o equivalente a dois capítulos e meio da trama por dia. E nesse ritmo, ela se despede da programação em 7 de janeiro, com apenas 85 capítulos, e entrando para o time das novelas reprisadas mais picotadas da emissora.
Algum maluco de um jornal online vinculado a Globo, divulgou uma notinha anunciando que Sete Pecados bateu recorde de audiência no dia 02 de novembro. Bem, vamos averiguar o fato. O record a que faziam referência era 16 pontos na programação, o que até parece muito, levando em conta que a trama não sai dos 11 pontos desde que reestreou. Contudo, se analisarmos as telenovelas exibidas anteriormente, esse número não parece tão expressivo. Sinhá Moça já registrava esse índice diariamente quando foi reprisada, Mulheres Apaixonadas se mantinha nos 17, Alma Gêmea nos 19 e Senhora do Destino nos 21. Talvez por ser um feriado em que exaltamos os mortos, nada mais justo do que a audiência subir nesse dia. E nem deu tempo de se acostumar, o pastelão voltou aos seus 11 pontos rapidinho no dia seguinte.
A maior preocupação da Globo quanto à reprise é a sua influência no Vídeo Show (outro ser vegetativo da emissora) e na Sessão da Tarde, que acabam sofrendo com o desempenho da audiência da novela, que apesar de baixa, ainda se mantém na liderança (por falta de opção pior). Quem sabe em janeiro eles não lançam Beleza Pura, Eterna Magia, Bang Bang ou Pé na Jaca, e mudam o nome do programa também pra Vale a Pena Manipular de Novo. Afinal, essa é uma arte que a emissora domina como ninguém. E nem preciso dizer que estou de alma revigorada com o fiasco da trama. E deixo uma dica: da próxima vez, eles devem estudar melhor o conteúdo do meu e-mail se quiserem se manter na frente da Globo 2.
29 de dezembro de 2010
Maktub – estava escrito
Simples, complexa, objetiva, intensa. Ainda se ouvia o murmuro da ovelha Dolly quando eu soube que a Globo ia lançar uma novela chamada O Clone. Só pelo título já seria no mínimo curioso, e ainda por ser uma novela das 8, na qual o realismo e o drama estão mais presentes, não havendo espaço para transformar um tema legal em chacotas do horário das sete ou na superficialidade das seis. Era o retorno de Glória Perez ao horário nobre, afastada desde Explode Coração em 1996. Hoje, quase dez anos após a estreia de O Clone, a Rede Globo finalmente decidiu reprisá-la no Vale a Pena Ver de Novo em grande estilo, com direito a chamadas na programação de ano novo do canal. Depois de rodar o mundo, ganhar inúmeros prêmios nacionais e internacionais, o estrondoso sucesso de Glória Perez põe fim no intenso círculo vicioso de novelinhas chinfrinhas que culminou no fiasco de Sete Pecados. Parece realmente que voltamos aos tempos em que se valia a pena mesmo rever um folhetim de verdade, com narrativas e personagens fortes que fizeram história. Só espero que essa fase renda alguns véus a mais.
É indiscutível a repercussão da novela de Glória Perez, sem dúvida alguma seu melhor momento na televisão brasileira. Mas o que fez dessa telenovela, um grande êxito no mercado nacional e mundial? Com certeza a clonagem humana foi o carro-chefe da trama, porém, a autora soube jogar esse tema com uma perspicácia e sensibilidade impecáveis. Seria muito fácil pegar a ideia de se criar um clone e elaborar uma novela em cima disso. O tema em si já é instigante. Mas ‘como’ ele é desenvolvido é onde se esconde todo o segredo da trama. Levar um tabu como a clonagem humana para o universo islâmico foi uma grande jogada da autora. Criar o motivo inicial para se produzir o clone em torno da história de irmãos gêmeos foi outro grande insight. E por fim, implantar o embrião clonado de um branco em uma personagem negra, amarrou a novela que seu destino não seria outro senão o sucesso.
Com uma teia de acontecimentos formada em volta de seu tema central, só seria preciso um romance a Romeu e Julieta para apimentar ainda mais a história. Lucas e Jade conseguiram criar uma história de amor tão forte que deixou os mocinhos de Terra Nostra a ver navios. Era um romance puro, ingênuo, mas avassalador e invencível ao tempo. O Clone, entre tantos assuntos, tratou da posição do ser humano diante de suas escolhas na vida. Uma das mais belas cenas mostra esse conflito, quando Lucas se olha no espelho de sua casa, deprimido com o rumo de sua vida, clamando uma chance de refazer o passado, e então seu clone Leo entra, vinte anos mais jovem, e Lucas o vê através do espelho. Seria sua chance de refazer o passado? Se vê duas décadas mais jovem e visualizar os inúmeros destinos que sua vida poderia ter tomado, faria qualquer um tentar um recomeço.
E não há como falar em O Clone sem mencionar sua magnífica trilha sonora composta por Marcus Viana, o mesmo responsável pela trilha de Pantanal, dez anos antes.A música tema de Murilo Benício e Giovanna Antonelli ganhou até versão internacional na voz de Michael Bolton. Na abertura, a banda Sagrado Coração da Terra, criada pelo próprio Viana, brincava com o poder da criação do homem ao lado de um dos trabalhos mais bem elaborados de Hans Donner. Destaque também de Lenini, com o tema de Juca de Oliveira e seu cientista Albieri, o homem que ousou brilhantemente ter o mundo em suas mãos e acordou mortal. Clonagem humana, islamismo, fé, amor, perda, desencontros, sonhos. Por todos esses motivos e muito mais é que O Clone merece ser vista a partir do dia 10, porque antes de ser uma novela sobre o avanço da tecnologia, O Clone é uma novela humana, que trata do paradigma tecnológico com o olhar e a alma de um ser humano.
23 de fevereiro de 2011
Palpite
Descobri essa semana através da mídia que o autor de telenovelas Manoel Carlos irá se despedir da teledramaturgia em 2014, e que a atriz Lilia Cabral será sua última Helena. Desde que Mulheres Apaixonadas foi ao ar em 2003 havia o murmuro de que Maneco só faria mais uma única novela. Aí veio Páginas da Vida, a minissérie Maysa e Viver a Vida. Contudo, agora parece que não tem volta. E como ficam os telespectadores sem suas Helenas, sem o Leblon, sem Tom Jobim, sem o realismo cotidiano que só Maneco consegue traduzir em seus folhetins? Como fã incondicional do seu estilo de escrever, desde que vi a poesia traduzida em ficção na consagrada Por Amor de 1997, eu esqueço às vezes, que os autores de novelas também se aposentam, e que Maneco já terá 81 anos quando sua última obra for ao ar em 2014.
Ainda era um guri de 6 anos quando acompanhei pela primeira vez, uma novela de Manoel Carlos, Felicidade. Quatro anos depois, assistia História de Amor. Mas quero frisar aqui um marco em sua carreira de novelista, que me fez aos 12 anos me render por completo ao seu trabalho. “Do que você seria capaz por amor?” Esse era o teaser que ia ao ar com os atores da novela respondendo o que fariam por amor, antes mesmo das primeiras chamadas de Por Amor ir ao ar. Era uma história densa, profunda, mas que Maneco soube jogar com sutileza e poesia, tocando fundo na sensibilidade humana. Que mãe não sacrificaria sua felicidade em nome da felicidade do filho? Como julgar a atitude de Helena? Egoísta? Fraca? Superprotetora? Talvez todos esses adjetivos. Mas humana. Fica claro desde o início da trama que Helena criou errado sua filha Maria Eduarda, a tornando frágil, insegura, mimada e orgulhosa. E nem a cumplicidade de amigas que conservaram durante a vida conseguiu mudar esse fato. Gabriela Duarte conseguiu criar uma personagem tão autêntica que por anos ficou estigmatizada como a enjoada de Por Amor e gerou revolta em muitos telespectadores que criaram um site exigindo que ela morresse na trama.
Se por um lado tínhamos o conflito de Helena e sua filha, por outro tínhamos Suzana Vieira dando vida a uma de suas mais bem sucedidas personagens, Branca Letícia. Uma mulher amargurada no casamento, mãe de três filhos, mas que só dedicava amor a um, e ainda mantinha uma paixão escancarada pelo viúvo Atílio, Antônio Fagundes. A novela ganhava força com outros núcleos pesados como a família de Laura Trajano, a ex-namorada do filho mais velho de Branca, Marcelo, apaixonada até o fim da trama por ele, e que infernizava o casamento de Maria Eduarda. O núcleo de Orestes, o ex-marido alcoólatra de Helena, que buscava na sua filha de 6 anos do segundo casamento a força para se livrar do vício. E claro, o romance mais repleto de química da teledramaturgia brasileira até então: Milena e Nando. Carolina Ferraz esbanjou sensualidade, delicadeza e irreverência na sua personagem, e Eduardo Moscovis se encaixou direitinho entre a leveza e a objetividade de Milena. Sem falar que a trilha sonora dos dois, tanto Palpite de Vanessa Rangel, como Só Você de Fábio Jr, foram um dos maiores sucessos do ano. Assim como com a canção Per Amore de Zizi Possi marcou a trama e entrou na memória afetiva de cada telespectador.
Foi realmente uma trama memorável. E hoje, quase 13 anos após sua exibição, e coincidentemente no mesmo período em que era reexibida pelo canal Viva, eu consegui conhecer o local onde foi gravada sua última cena no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Helena, Atílio, Maria Eduarda, Marcelo e Marcelinho caminham em harmonia enquanto redescobrem o verdadeiro valor da vida, ou aprendem a amar, como Atílio enfatiza para Helena quando ela confessa que trocou as crianças na maternidade: “você não sabe amar... mas pode aprender”. Bom, eu tenho um palpite, a teledramaturgia brasileira não será jamais a mesma depois que Manoel Carlos deixar definitivamente de assinar suas novelas. Sorte do ator que pôde um dia ter feito parte do elenco de alguma obra de Maneco. Meu amigo Júlio diz que eu sou rasgado demais quando teço elogios a Manoel Carlos, mas desculpa, Júlio, quando alguém consegue transmitir princípios de integridade familiar, numa verdadeira crônica do cotidiano, com suas harmonias e dissonâncias, usando sensibilidade e acima de tudo humanidade, eu não posso falar menos. É só aguardar ansioso sua próxima trama e lamentar ser a última.
31 de março de 2011
Eis o prêmio da tua caridade
E eis que a coroa do BBB cai finalmente sobre uma mulher que não seja necessitada ou esteja fora dos padrões de beleza. Maria, nome simples, que lembra a mãe de Jesus, na verdade estaria mais para Madalena. Nome, inclusive que fez questão de manter em sigilo durante toda sua estadia na casa. Os vídeos de ensaios sensuais e até concursos digamos, um pouco extravagante, nunca foram mencionados em qualquer site da emissora enquanto o programa estava no ar. Afinal, como enfatizou Bial, Maria era uma das protagonistas, e assim sendo o misto de mulher ingênua e ousada era o que agradava aos interesses dos produtores e iludia os telespectadores. Ah, qualquer mulher pode ser assim, morosa e libertina, sem deixar de ser autêntica. Mas aquelas atitudes dela não eram impulsos naturais de uma mulher inocente, mas resultado de sua experiência nos BBBs da vida. Até anteontem cheguei a pensar que o programa estava tentando de tudo para tornar Daniel o campeão, mas será que no fundo não era apenas uma máscara para o prêmio acabar caindo finalmente numa mulher sedutora, livre dos estereótipos de todos os vencedores até então?
Não sou contra a vitória de Maria. Até torci por ela. Só me senti um pouco traído por descobrir só agora, e pelo próprio site da emissora, o passado devasso da felizarda. A notícia correu o país antes, eu que infortunadamente por buscar notícias do programa apenas no site da Globo não associei granizo ao orvalho. Ah, ela não era tão boba assim. Será que teria torcido por ela com essa informação em mãos? Agora passado o espanto, creio que sim. Entendi porque MauMau, que virou Luís Maurício depois ninguém sabe porquê, se afastou da menina quando retornou à casa. Não atiro nenhuma pedra em quem expõe sua figura na internet, disputa sua beleza em concursos e se exibe em cliques eróticos, o próprio site da emissora faz o mesmo com cada brother eliminado na página do Paparazzo. Só que a autenticidade da participante foi apenas até a esquina, já que as atitudes de determinados comportamentos não revelavam de fato a todos quem era aquela jovem. Mas desde quando o programa se dedica em evidenciar os verdadeiros perfis dos participantes? O mais importante é criar personagens e jogar traços caricatos para apontar o lado mais vil e apelativo do ser humano em rede nacional.
Algo semelhante ao que se encontra no texto Dr. Fausto da Silva, do dramaturgo paraibano Paulo Pontes, um grande nome da televisão brasileira, precursor da série A Grande Família e do premiado espetáculo Gota d’Água em parceria com Chico Buarque. Em Dr. Fausto da Silva somos apresentados aos bastidores de um programa de TV e a toda escória que habita os corredores de uma emissora, capaz de vender a própria alma pela audiência. Fausto da Silva seria uma espécie de Luiz Datena, Ratinho, Márcia Goldschmidt, Roberto Cabrini e por que não, Pedro Bial? Já que seu discurso incitante na véspera da final do BBB noticiando que um novo milionário sairia do programa no dia seguinte, lembra muito o discurso apelativo do Dr. Fausto anunciando que dentro de instantes deceparia uma parte de si diante dos telespectadores. O texto foi escrito em 1972, embora não pareça diferir muito dos dias atuais.
O fundamental em programas como Brasil Urgente, Casos de Família, Programa do Ratinho ou Big Brother Brasil é explorar o lado mais miserável do ser humano e poder tripudiar em cima de sua própria desgraça. A vitória de Maria não mostra que o público está mudando e abandonando certos preconceitos. O prêmio acabou indo a outra “ingênua”, já que o verbo “mariar” foi o figurino que melhor lhe caiu bem desde sua chegada e se revelou de bastante interesse à produção. E só ficou mesmo na casa quem o Brasil queria ver e não causava repulsa. A explicação para Ariadna ser a primeira eliminada? Como se questionou Bial, “quem é o burro agora?”. Não sei porque senti a necessidade de procurar um espelho na hora, dá um retoque no cabelo talvez, como Rodrigão. Bom, a tese de doutorado sobre o porquê de apenas homens ganharem o BBB – com duas exceções – acaba de perder fundamento, ou talvez ganhe outro a mais. O público gosta do barraco, mas quer a vitória do bonzinho, ao mesmo tempo em que também quer se ver, com suas fraquezas, medos, falta de escrúpulos e pudor. E Maria reunia a ingenuidade do bom moço e o atrevimento velado de cada um. E com sua caridade aos anseios dos telespectadores, faturou a bolada dessa inusitada edição. Dica pro próximo aspirante a vencedor.
12 de abril de 2011
A safra da vez
Há muito deixei de criar expectativa com a estreia de alguma telenovela na Rede Globo ou em qualquer outra emissora. Não sei se posso considerar perda de criatividade, saturação do modelo no mercado ou mesmo mudança de hábito dos telespectadores. A grande interrogação se deve ao fato de muita gente concordar que não se produzem mais novelas como antes. Mas não sou tão radicalista a esse ponto. Talvez se grandes sucessos como Beto Rockfeller, O Astro ou Tieta fossem lançados hoje não surtissem o mesmo efeito. A exemplo de Irmãos Coragem, Anjo Mau e Pecado Capital que bateram grandes índices de audiência na primeira versão e não emplacaram na segunda. Em contrapartida temos também Mulheres de Areia, A Viagem e Sinhá Moça que se mostraram bastante satisfatórias em seus remakes. As duas primeiras chegando até a superar o sucesso dos anos 70. Então fica difícil jogar toda a culpa nas novas produções ou dizer que somente as novelas do início da televisão brasileira é que eram dignas de apologias.
O que fez de Roque Santeiro, Vale Tudo, Pantanal e Xica da Silva grandes destaques da teledramaturgia nacional? Ouso dizer que a inovação. E até por que não? A ousadia. A primeira foi censurada em plena ditadura pela sua crítica bem-humorada ao fanatismo religioso e implicitamente ao regime militar em vigor na época. Já a trama de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères não teve medo de mostrar uma filha capaz de passar a perna na própria mãe em nome da sua ambição. Sem dúvida alguma, os mitos e segredos do mato e as paisagens exuberantes, totalmente opostas ao mundo urbano e agitado dos folhetins vigentes até o momento, fizeram de Pantanal a maior audiência de uma telenovela não produzida pela Rede Globo desde que o império de Roberto Marinho se consagrou. E o “atrevimento” de uma escrava que queria ser rainha nas Minas Gerais do século XVIII, com toda pompa, capaz de escandalizar a sociedade hipócrita da época com suas mais inusitadas peripécias, conquistou o país e marcou o nome de Taís Araújo como a primeira protagonista negra da história da televisão brasileira.
Partindo do pressuposto da inovação, seria errado pensar que toda obra que vai contra a maré tem mais chance de obter um grande êxito. É só lembrar fiascos recentes como o faroeste retratado na Bang Bang de Mário Prata e o grande reality show de Bosco Brasil em Tempos Modernos. Mas aí encontramos no caminho a clássica Que Rei Sou Eu?, que transportou os telespectadores para o período da Revolução Francesa, e com humor, bruxaria e combate conseguiu registrar sua passagem com bastante esplendor; e ainda a república das bananas na década de 50 com a irreverente e por momentos surrealista Kubanacan de Carlos Lombardi, que apesar de uma boa audiência, foi para muitos um projeto fracassado. Dá para perceber por aí que não basta querer inovar, é preciso saber como. Não à toa Glória Perez é a novelista que mais se destaca nesse quesito, trazendo sempre à discussão temas polêmicos e culturas desconhecidas do grande público, como o universo cigano e o islamismo. Em algumas tentativas acerta como Barriga de Aluguel e O Clone, e em outras como Explode Coração e América fica a dever.
Inevitavelmente, assim como na moda, as telenovelas também sobrevivem de ciclos, que vez por outra retornam. Provavelmente muitas tramas alcançaram o sucesso por virar a página no momento preciso. Se Pantanal quebrou o círculo de novelas urbanas e implantou na Globo o cenário rural com Renascer e O Rei do Gado, esse mesmo esquema saturou em Terra Nostra. Assim como as novelas de época se mostraram um ótimo filão para o horário das seis em O Cravo e a Rosa, e já chegou sem gás a Desejo Proibido. E ainda a temática espírita implantada em Alma Gêmea, que trouxe a segunda reprise de A Viagem, o remake de O Profeta, e a pincelada de Elizabeth Jhin pelo tema com Escrito nas Estrelas.
O que parece acontecer hoje com autores como Walcyr Carrasco, Aguinaldo Silva e Gilberto Braga é que eles estão há algum tempo em um território que ainda não se definiu qual é. As histórias não envolvem, não empolgam e quando pensamos que algo interessante está por vir, somos novamente decepcionados com a ausência total de originalidade. Não vou nem me estender ao ibope cada dia mais baixo, porque vejo isso como um processo natural, principalmente com o aumento de acesso aos canais pagos. Mas se vivenciamos uma fase improdutiva da telenovela, talvez tenha chegado a hora de virar a página mais uma vez. A estreia de Cordel Encantado ontem me surpreendeu e parece sinalizar essa mudança. Uma história como há muito tempo não se via na televisão. Baseada na literatura de cordel e com uma trama bem costurada já no primeiro capítulo, reis e cangaceiros se cruzam e prometem no mínimo prender os telespectadores por mais alguns capítulos. Só espero que seus personagens não se percam no decorrer da trama e que sua chegada abra novamente os caminhos para uma safra de produções originais e instigantes, que ainda é possível vivenciar na teledramaturgia de hoje.
12 de setembro de 2011
Os controladores de foco
Nenhum fato é tão presente na história da humanidade quanto a obsessão do homem pelo poder. Por trás das guerras, atentados, conflitos étnicos e religiosos, está sempre a necessidade de domínio, de grandeza, de submeter o outro aos seus próprios interesses. O poder fascina, seduz, alucina e mata. O verdadeiro responsável pelas quase 3 mil vítimas dos ataques do 11 de setembro nos Estados Unidos não foi Osama Bin Laden, a Al-Qaeda, ou os terroristas suicidas, mas a busca desenfreada pelo poder. Uma sucessiva cadeia de acontecimentos ao longo do tempo que leva o homem a provocar e a testar sua própria força. Nós construímos a história a cada dia e somos responsáveis por toda reação oriunda de uma ação anterior, como previa o princípio da terceira lei de Newton. Desse modo, encontrar um culpado exato por todas as catástrofes do mundo é como lançar toda a culpa da crucificação de Cristo em Pilatos. Há sempre algo mais, um caminho nem sempre revelado onde se esconde a verdade e a origem dos fatos.
Ontem a atenção do mundo esteve voltada para o vazio deixado no local onde antes reinava o orgulho e a ambição de um país. Naqueles imensos quadrados, a água escorre exatamente igual às torres quando vieram abaixo. As crateras no chão parecem ter sugado os prédios, causando a estranha impressão de que ainda estão vivos sob o solo. É uma visão enternecedora. Detalhes bobos parecem ironizar a tragédia. A data 11 em si já forma duas torres. A história brinca com o homem e com o seu poder, afinal, tudo tem seu preço. Mas há preço que pague a perda de uma vida? “Aqui se fez, aqui se paga”, não é assim? Longe aqui querer julgar as vítimas merecedoras do seu destino. Ninguém merece sofrer as consequências dos atos alheios. Contudo, uma vez representado como parte de um todo, toda ação de um, repercute uma reação em escala. E não muito atrás, numa data não tão lembrada quanto o 11 de setembro, mas com resultados em proporções bem maiores, os Estados Unidos lançaram sem nenhum remorso uma bomba atômica sobre milhares de inocentes na cidade de Hiroshima no Japão, e não satisfeitos, repetiram o ato em Nagasaki três dias depois.
Mais do que culpa, responsabilidade ou joguetes de toma lá, dá cá, é de vidas humanas que se discute. De humanidade por parte de quem se torna insensível ao sofrimento alheio de posse do poder. As cerimônias e homenagens aos 10 anos dos atentados aos Estados Unidos e às 2.996 vidas perdidas devem ser celebradas sim, em respeito às vítimas. No entanto, não se pode transformar esse ato em um espetáculo gratuito, que só enaltece a hegemonia americana e os torna vítimas do considerado maior ataque terrorista da história, esquecendo que só em Hiroshima mais de 140 mil pessoas morreram, sem contabilizar os que foram vitimados no decorrer dos anos devido a exposição à radiação. Os alvos à época, não foram escolhidos aleatoriamente, partiram de interesses militares e sobretudo político-econômico, já que as cidades atingidas eram as mais desenvolvidas industrialmente no Japão, e com o fim da Segunda Guerra, o país seria a única potência capaz de desequilibrar os interesses americanos. A conquista do poder.
É importante destacar também todos os conflitos que assolam o Oriente Médio há séculos, antes, e depois com a interferência da política internacional americana. Incontáveis vidas destruídas em nome de uma força maior. Todavia, seria equivocado afirmar que a liderança do poder é necessariamente algo tão maléfico assim. É um comando que existe para diversas finalidades. Utilizada para fins pacíficos e de equilíbrio sócioeconômico-ambiental, os resultados podem ser favoráveis e benéficos para o progresso da humanidade. No entanto, enquanto o homem buscar no poder a eterna satisfação do seu bem-estar, anulando qualquer possibilidade filantrópica, a tendência é a continuidade de atentados pelo mundo, espalhando o medo e o pânico na população, arrasando nações e destruindo mais vidas inocentes. O poder é a maior arma que a humanidade possui. É ele quem determina a relevância de um fato e o alcance de seu impacto no mundo. Talvez por isso, apesar do número mais reduzido de vítimas do 11 de setembro, ele será sempre mais lembrado do que todos os conflitos no Oriente Médio e até mais que os cogumelos atômicos que devastaram as cidades japonesas. Quem detém o poder, detém também o destaque e a atenção do mundo à sua dor.
13 de setembro de 2011
A noite volta a ter lua cheia
Quando Mulheres de Areia foi ao ar pela primeira vez, eu era um garoto de 7 anos que acompanhava telenovelas. Com tão pouca idade já sabia separar o trigo do joio das produções, e logo me apaixonei pela trama. Dezoito anos depois, é impressionante como o primeiro capítulo da novela ainda mantém o mesmo encanto de antes. O que é bom, o será sempre. É uma dupla satisfação poder rever a novela, e perceber que o Vale a Pena Ver de Novo está retomando seus bons tempos e entrando no eixo. Depois de algumas reprises despropositadas, o programa engatou com a reexibição de O Clone, mantendo-a por oito meses no ar e registrando um total de 175 capítulos, número recorde para o horário. Talvez a experiência positiva das reprises na íntegra dos grandes clássicos da teledramaturgia pelo Canal Viva, tenha incentivado a Globo a exibir novelas mais antigas, e a diminuir o número de cortes das tramas, o que parece muito apropriado, principalmente quando a exibição vem alcançando bons resultados de audiência.
Um dos fatores mais curiosos quando se repete uma novela muito antiga, além da pouca lembrança que mantemos dos acontecimentos da história, é poder rever os atores 10 ou 15 anos mais jovens. Glória Pires parecendo irmã de Cléo Pires, Guilherme Fontes com rosto de menino, Humberto Martins na versão Cauã Reymond de 93, Andréa Beltrão no auge da juventude, Susana Vieira quando ainda se portava como uma atriz distinta e até Daniel Dantas com pinta de galã. O tempo é realmente cruel nesse aspecto. Só percebemos o nosso estado atual quando olhamos para trás e nos vemos tão vigorosos e esbeltos quanto os adolescentes na saída da escola. Mas esse é o poder mágico da telenovela. Uma vez registrado com 20 anos naquele personagem, para sempre jovem.
Mulheres de Areia fez parte da boa safra de produções da nossa teledramaturgia. Época em que era prazeroso ligar a tevê e se deixar conduzir por uma boa e bem amarrada história, capaz de nos arrancar da cozinha ou do banheiro ao som da vinheta do comercial. Isso tem feito muita falta. Uma novela que convença não pela parafernália e superprodução envolvida, mas pelo conteúdo simples de sua trama. A simplicidade é sempre mais difícil de alcançar, mas quando se chega nela, o realismo é inevitável. E se uma mulher era capaz de tal proeza, seu nome era Ivani Ribeiro. Autora que desenvolveu um trabalho esmerado na construção da realidade retratada em suas obras e no trato que dava a seus personagens, sempre vivos, ativos, frágeis, humanos. E penso que daí nasce grande parte do sucesso de seus trabalhos.
Não modestamente, Ivani Ribeiro é a única autora que teve suas novelas reprisadas pela Rede Globo mais de uma vez. A Gata Comeu, A Viagem e agora Mulheres de Areia somam três exibições ao longo dos anos. Se esse registro não é suficiente para revelar a qualidade de suas produções, então a curiosidade que encontrei sobre a novela na internet, reforça a tese. Dizem que quando exibida para a Rússia, a novela alcançou tanto sucesso, que o governo exibiu o capítulo final em um dia de eleição, evitando assim que alguém viajasse na data e se abstivesse das votações. Verdade ou mito, mais um ponto a favor de Ivani, Mulheres de Areia e da força da teledramaturgia nacional.
1 de fevereiro de 2014
O que fica de Amor à Vida
Desde que Amor
à Vida estreou, e principalmente ao longo de seus meses, eu me questionava por
que a direção da Globo resolvera alterar o título original da novela. Afinal,
Em Nome do Pai se encaixava perfeitamente bem nas atrocidades de Félix e nos seus
atritos com César. Mas aí o capítulo final de ontem calou todas as minhas
indagações. Eu já assisti a diversos finais de novelas, mas não me recordo de
nenhum que tenha me emocionado tanto. Walcyr voou alto na sua estreia no
horário nobre da Globo, desde as diversas reviravoltas de seus personagens ao
longo dos 221 capítulos de sua trama, até selar o primeiro beijo gay das telenovelas
globais.
Sem dúvida
alguma, o grande protagonista de Amor à Vida foi Félix. De vilão a mocinho
querido dos telespectadores, a sua redenção foi uma das decisões mais bem
acertadas do autor. Já havia lido por aí que Walcyr tinha estragado Félix, desfazendo
um dos melhores vilões da tevê atualmente. Não vejo assim. Félix foi realmente apresentado
como o grande monstro da trama no primeiro capítulo, cometeu diversos crimes,
foi cruel, insensível e prejudicou várias pessoas, porém, ele foi à sarjeta bem
antes do esperado. Aliás, uma das maiores características da novela foi
justamente essa: não prender trama. O reencontro de Paloma com sua filha, que
poderia ter sido o gancho de muitos autores para o capítulo final, Walcyr já desvendou
bem antes do capítulo 30. E bem antes também desmascarou Félix para a irmã.
O muro de
orgulho e prepotência foi aos poucos se quebrando e cedendo lugar à compreensão,
à tolerância e à humildade nos braços acolhedores de Márcia, a grande Tetê
Para-choque e Para-lama, outra personagem, que apesar de alguns exageros, segurou
a novela com honra. Mas os desmandos de Félix tinham uma origem: sua relação
mal resolvida com o pai, que embora não justificasse muito suas atitudes, mostrava
o que a falta de amor e de compreensão é capaz de fazer. A rejeição de César, a
vida inteira, pelo filho – devido a sua homossexualidade -, gerou ódio e
transformou-se em ação, ação destrutiva, Félix virou uma fruta podre, cujo
toque espalhava veneno e destruição pelo caminho de todos.
Ah, mas aí
entrou o amor, e só o amor e o perdão para mudar tudo. O amor de Márcia – sua
babá perdida -, o amor de Niko – o amigo conquistado -, o perdão e o amor de
Pilar e até de Paloma. Félix se sentiu acolhido para recomeçar, ter sua nova
chance, e diante de tanta demonstração de afeto, percebeu que era possível
viver no bem. E ninguém precisa ser condenado à cruz quando está disposto a se modificar e refazer seus atos pelo amor. Aos poucos, a figura do Félix de antes foi desaparecendo e o
vilão se transformou realmente no protagonista da história, suplantando Paloma
e Bruno, e ganhando até par romântico com direito a torcida do público.
O capítulo
final de Amor à Vida foi tão intenso que fica difícil descrever tudo. Algumas passagens,
todavia, merecem destaque. A revelação de Pilar sobre sua culpa na morte da mãe
de Aline; a fuga de Edith com Wagner; o perdão de Paulinha a Félix; a dança
sensual de Márcia, vestida de chacrete, para Atílio/Gentil; Amarylis sendo
desmascarada por Niko; a visita de Paulinha a Ninho na prisão e o remorso dele pelos
seus atos; a notícia de Jonathan de que passou no vestibular de arquitetura e a
comemoração de Félix; Valdirene quase parindo no casamento da mãe; o destino de
Aline; e claro, o desfecho de César, que se viu inválido, traído, humilhado, sem
perspectiva de vida, e foi encontrar, justamente nos braços do filho rejeitado, a
ajuda e o acolhimento de que tanto necessitava no momento. Tão verdadeiro, tão humano. E aí mais uma vez o
amor agiu e levou todo mundo às lágrimas. Numa fotografia deslumbrante, Félix
revela seu amor a César, que reconhece a dedicação do filho e o aceita
finalmente com um “eu também te amo”, que o ex-vilão tanto desejou escutar em toda
sua vida. A vitória do amor sobre o preconceito e a intolerância. Com tudo isso, o tão polêmico beijo entre Félix e Niko, numa cena de pura delicadeza e cumplicidade, depois daquele reconhecer que o chefe de cozinha mudou sua vida, foi apenas
a cereja do bolo.
Já critiquei
muito os enredos pastelões de Walcyr Carrasco, seus diálogos óbvios, seu humor
escrachado, mas hoje ele ganhou um grande ponto comigo. Em tempos em que se vê
tanta desordem no mundo, tanta intolerância, violência, injustiça e incompreensão,
a lição de amor, já difundida lá atrás na canção dos Beatles, veio brotar onde
menos se esperava. Walcyr provou que o título da novela faria jus à sua
história, e Amor à Vida, apesar de ficção, foi um grande exemplo para a
humanidade de que o nosso planeta ainda tem chance, de que o amor ainda pode
transformar esse mundo para melhor.
7 de fevereiro de 2014
Ainda há espaço pra Maneco?
Uma narrativa lenta, os costumeiros
barracos em família, o cotidiano quase caricato de tão puxado para o dia a dia... Não
imaginei algum dia escrever isso, mas Em Família cansa. Parece que dessa vez
Manoel Carlos errou a mão, ou sua fórmula – assim como Glória Perez com Salve
Jorge – já tenha se desgastado. A impressão que fica é que não há mais o que
mostrar, tudo já é conhecido, e ninguém tem paciência para acompanhar um pouco
mais do mesmo.
Quem vinha seguindo o ritmo dos
últimos autores, de João Emanuel Carneiro a Walcyr Carrasco, sentiu a diferença
ainda no primeiro capítulo. Embora Glória e Walcyr não tenham mantido o frenesi
de Avenida Brasil, os primeiros capítulos de Salve Jorge e Amor à Vida foram bem
mais movimentados. A história de Em Família até parece envolvente, mas a
lentidão de novela das seis com que vem sendo apresentada tem prejudicado seu
desempenho.
E ainda há mais três fatores que
têm contribuído para a novela andar para trás: o excesso de atores
desconhecidos do grande público entre os protagonistas e os principais coadjuvantes
das duas primeiras fases; a história centrada num grupo de adolescentes, que
faz lembrar uma Malhação no horário nobre; e a longa, exaustiva e monótona segunda
fase da trama. Na verdade, se Maneco tivesse reunido toda a história dessas
duas fases num primeiro capítulo bem enxuto, conseguiria mostrar ainda umas
duas ou três cenas da terceira fase, deixar o público ansioso pelo que viria
depois e garantir uma boa estreia.
Todavia, o autor optou por esmiuçar
o máximo possível a adolescência de sua última Helena, e a resposta do público,
sedento por agilidade, veio em sequência: 33 pontos de audiência no primeiro
dia – o pior dos últimos tempos – 29.4 no segundo e 29.2 no terceiro. A Globo
já providenciou as alterações para não continuar perdendo seus preciosos
pontinhos na programação: a reedição dos capítulos. A mudança para a fase com
Júlia Lemmertz, que já tinha sofrido uma antecipação do roteiro original do
capítulo 12 para o 10, agora chegará no capítulo 8. Tudo isso para ver se a
fase atual da trama, com o elenco de peso da casa, consegue prender os
telespectadores e garantir a liderança com tranquilidade.
E como uma falha nunca anda desacompanhada,
o tal “Momentos em Família” ao final de cada capítulo não deixa claro para o
público se o que é produzido é ficção ou realidade. A princípio parece
tratar-se de fatos, até pela tradição do autor de acrescentar um depoimento
real a cada dia, nas novelas anteriores. Mas é possível perceber que há
manipulação de imagens, cortes e intervenção de atores. A ideia original de
aproximar as histórias apresentadas no folhetim com as de pessoas normais ficou
embaçada, e o que se vê mais parece uma novela dentro da outra. E para
completar o ciclo de estranhezas de Em Família, a disposição dos créditos do
elenco na abertura não estava tão desajustada desde que O Clone, em 2001, inovou
a maneira como eles aparecem.
Mas Em Família está só no comecinho,
pode fazer muito ainda para ganhar a fidelidade do público. Talvez quando a
história começar a se desenvolver no Rio de Janeiro, no elitizado Leblon, as
coisas tomem um rumo. Ou a mesma fórmula batida de Maneco prove que a inovação
é essencial, até mesmo para quem tem um estilo único. Parece que sozinho, o bom
texto trabalhado em Por Amor, Laços de Família, Mulheres Apaixonadas, Páginas
da Vida e Viver a Vida não consegue mais o mesmo sucesso. E esse nem foi o
problema da última – duramente criticada -, mas a falta de uma boa trama para a
Helena de Taís Araújo, e até mesmo a interferência do Ministério Público do
Trabalho na vilania da personagem de Klara Castanho, como se ela, “uma velha
disfarçada de criança”, não conseguisse distinguir realidade de ficção.
Enfim, talvez em nome das grandes obras
que já saíram de suas mãos, seja de bom tom ter um pouco mais de
paciência com Manoel Carlos e aguardar o desenrolar dos próximos capítulos. Afinal,
com clichês ou não, Em Família é sua despedida, e tem muito autor por aí que
deveria estar de despedindo também das telenovelas, mas infelizmente ainda estarão
no ar por um bom tempo.
29 de dezembro de 2014
Pra reinar de novo
E O Rei do Gado está de volta. Em sua segunda exibição no Vale a Pena Ver de Novo e quarta transmissão no país, contando a original em 1996 e a do Canal Viva em 2011. Como comemoração aos 50 anos da Rede Globo, eu não vejo melhor opção a ser eleita para tal ocasião. Um dos maiores êxitos da nossa teledramaturgia, recordista de audiência à época, O Rei do Gado continua a ser sinônimo de sucesso. Ela representa uma era ouro das nossas produções dramatúrgicas, não se encontrando lá nos primórdios da emissora, nas saudosas obras da era Janete Clair, nem nas atuais fases de vacas magras das recentes produções. Ela marca uma fase de grande amadurecimento das nossas telenovelas, com textos mais densos, histórias envolventes e surpreendentes, quando autores ousavam e abusavam da criatividade.
Dos trabalhos de Benedito Ruy Barbosa – dos quais tenho conhecimento -, considero a saga das famílias Berdinazi e Mezenga a obra-prima da sua carreira. Apaixonado pelo universo rural e construtor de personagens fortes, de personalidade marcante, Benedito conseguiu através da rixa das duas famílias e do romance proibido de Giovana e Henrico – que atravessou geração e renasceu em Bruno e Luana -, fascinar o país e falar da terra, a grande protagonista de toda a novela. Foi pela disputa por um pedaço de chão entre as terras de Antônio Mezenga e Giuseppe Berdinazi que surgiu todo o ódio entre as duas famílias. Foi a terra que produziu os quatro milhões de pés de café e enricou o velho Geremias. A mesma terra que Bruno Mezenga precisava de pastagem para seu gado, e que Regino tanto sonhava dividida entre seu povo do Movimento dos Sem Terra, sem nenhum pedaço de chão.
Ao abordar a luta do MST de maneira pacífica, humanizada, Benedito conseguiu fazer o país enxergar a questão com uma maior identificação. Jogou escancaradamente na cara do povo a cruel desigualdade social em que o país se encontrava, e que hoje, 18 anos depois, ainda não está muito distante da nossa realidade. A figura de um senador íntegro e incorruptível, que abraçou a causa da reforma agrária como sua, mais parecia uma piada, embora simbolizasse a esperança em políticos que ainda se importam com o futuro da nação e o querem ver limpo de toda essa bandidagem ‘legal’.
Personagens bem construídos e bem interpretados, em histórias críveis, tocantes e bem desenvolvidas, transformaram O Rei do Gado nesse grande clássico da nossa teledramaturgia desde a primeira tomada, quando fomos abrilhantados com os sete capítulos iniciais impecáveis de sua primeira fase, na década de 40. Um primor de qualidade e superprodução, que chegou a durar dois meses para ficar pronta, tamanho era o capricho da equipe envolvida. Cenas memoráveis acompanharam toda a trama e fizeram o telespectador entrar realmente na emoção que era proposta. Simbologias, metáforas e muita poesia embalaram os capítulos com câmeras que adentravam os ambientes e as sensações dos personagens, como um amigo confidente que sorri e sofre junto.
Impossível não destacar a interpretação de Tarcísio Meira na figura do inflexível Berdinazi. Sua cena no cafezal plantando a medalha do filho morto na guerra, na esperança de vê-lo renascer é de uma verdade cênica e poesia incomparáveis na teledramaturgia nacional. Raul Cortez também soube conduzir precisamente seu velho rancoroso e solitário Geremias, corroído pelo remorso dos erros do seu passado. A dúbia Rafaela, de Glória Pires, chegava a despertar diferentes reações nos telespectadores, que ora a sentiam como vilã, ora se apiedavam dela, nada mais humano. Letícia Spiller, que acabara de sair de sua espevitada Babalu, de Quatro por Quatro, não poupou encanto e talento na sua doce e determinada Giovana. Encanto que pudemos ver ressurgir logo na primeira cena de Patrícia Pillar como a bronca Luana. Por trás do jeito xucro e arredio da cortadora de cana, podíamos perceber os traços delicados da Berdinazi de Letícia.
São muitos os destaques da história, mas não poderia deixar de mencionar também a riqueza de Zé do Araguaia e Donana, de Stenio Garcia e Bete Mendes. Juntos, eles representaram fielmente o universo rural da segunda fase fundindo-se quase em um personagem só. E claro, Antônio Fagundes, que conseguiu dar vida a dois personagens completamente diferentes e cheios de nuances e sensibilidade. O maior mérito de Benedito em O Rei do Gado talvez esteja na valorização de personagens incomuns nas telenovelas, mas corriqueiros no dia a dia. É possível enxergar-se em O Rei do Gado ou enxergar um amigo, um vizinho... E ainda não falei de sua trilha sonora, a mais vendida de todos os tempos, recheada do sertanejo da época e de pérolas como Admirável Gado Novo, de Zé Ramalho, e Correnteza, de Tom Jobim, na voz de Djavan. Em tempos de escassez de boas histórias para acompanhar, a re-reprise de O Rei do Gado talvez seja uma boa oportunidade para relembrarmos que já tivemos e temos capacidade para produzir grandes e memoráveis obras na nossa teledramaturgia. Finalizo com a frase do capítulo final que resume bem todo o fio da trama:
“Deus quando fez o mundo, não deu terra pra ninguém, porque todos os que aqui nascem são seus filhos. Mas só merece a terra aquele que a faz produzir, para si e para os seus semelhantes. O melhor adubo da terra é o suor daqueles que trabalham nela”.
20 de outubro de 2016
O Golpe se prepara para o Grand Finale
É, meus amigos, tempos difíceis se aproximam. A nuvem sombria que ronda Brasília começa a se espalhar para cobrir o país. As forças sinistras que se uniram no enorme pacto nacional com o único objetivo de subir ao poder a todo custo, após as eleições de 2014, começam a concretizar de fato seus propósitos.
Derrotados, inconformados, revoltados, acuados e sem vislumbre de alcançar tão cedo seus interesses, o PSDB e aliados somaram forças com a elite (da qual fazem parte), com a grande mídia, com empresários brasileiros e investidores estrangeiros, aproveitaram-se da parcela da população insatisfeita com a corrupção e com o PT (amplamente massacrado como vilão de toda história), e articularam, juntamente com os congressistas sujos de escândalos de corrupção, e o próprio judiciário (para simular legalidade em toda ação), o Grande Golpe contra a democracia e o povo brasileiro.
Depois de retirar Dilma da presidência, através de um argumento totalmente infundado, e de simular um governo legítimo com o infiel Temer, agora a orquestrada prisão de Eduardo Cunha prepara os próximos passos do plano inicial. A tão afamada delação de Cunha não irá prejudicar nenhum tucano (amparados por Sérgio Moro), mas servirá de justificativa para a retirada de Temer do poder – novamente encenando “a luta contra a corrupção” -, e para a prisão de Lula, o maior empecilho e receio dos tucanos para as próximas eleições.
Com Lula preso e Temer afastado antes das eleições, acontece a tal eleição indireta, a “menina dos olhos do Congresso”, e puf, o PSDB sobe ao palanque, quem sabe o próprio Aécio. Golpe realizado com sucesso. Os derrotados de 2014 chegam ao poder a todo custo, como planejaram, e dão seguimento ao desmonte do Estado, já iniciado por Temer. Privatizações, estado menor, menos saúde, menos educação, mais lucros a banqueiros e grandes empresários, retrocesso de leis trabalhistas não visto há um século, mais pobres, menos ricos, mais miséria, corrupção, mais abismo social.
Tudo isso tem que ser encaminhado e posto em prática até 2018, para o caso hipotético de Lula conseguir se candidatar e se reeleger (apesar de todos os esforços contrários), e o PSDB não conseguir se manter no governo. Esse é na verdade o grande desafio dos articuladores do golpe. Eles sabem que a única chance de saírem vitoriosos nas próximas eleições é impedindo a candidatura de Lula. Por isso a perseguição a ele e ao PT é uma das metas principais do golpe. Afinal, eles não querem apenas os próximos dois anos, querem a perpetuação no poder, a eternidade de desmandos e interesses seletivos.
E nós, o que fazemos? Assistimos a tudo de camarote, aplaudindo e celebrando as migalhas de conquistas cenicamente arquitetadas para distrair e dar seguimento às ações camufladamente golpistas? Engolindo a seco as medidas descabidas de uma plataforma de governo rejeitada nas urnas, de um poder que não dialoga com o povo, que não escuta quem ele representa, que não tem a menor intenção de reduzir a corrupção, e sim institucionalizá-la? É preciso ir à luta! Resistir! Reforma política já! Essa é a principal mudança de que
o país necessita. É preciso brigar pelos direitos de todos, pela nossa democracia, por uma pátria mais justa e humanitária. É hora de agarrar – nem que seja com os dentes -, a chance de um futuro mais digno para todos.
TemaNatal06 textos
11 de novembro de 2007
E As Luzes Se Acendem...
E os sinos já soam, as luzes já anunciam, o cheiro já está no ar! As músicas, canções de corais, trenós e árvores natalinas. É ele! O Natal se aproxima!! E com ele todas as nossas forças e energias. Momentos de avaliação do ano que se acaba, agradecimento pela partilha de mais um ano e muitos presentes e panetones. Família reunida, paz, harmonia e alegria. Sempre cheio de amor e magia, ele soa sua chegada. Vamos buscar a paz e a felicidade. Acreditar que tudo é possível, que somos capazes de superar as dificuldades e vencer. Natal é isso! É superação, sonhos, desejos, conquistas. Natal simboliza família, e família simboliza união, e união simboliza alegria. Vamos reviver todos os momentos bons e torcer pela realização de muitos outros ainda. Viva a paz, viva a vida! É Natal!!! Jingle Bells!! Jingle Bells!! Ho!! Ho!! Ho!!
29 de novembro de 2008
O Encanto Está de Volta
Mais um natal se aproxima. As ruas já começam a se iluminar, as lojas oferecem as mais variadas árvores de natal, presépios, os mais saborosos panetones, Papais Noéis enfeitam as avenidas. Parece que existe algum encanto nessa época do ano. Fala-se mais em amor, paz, alegria, união. Sonhos são construídos, preces são fortemente desejadas, as famílias se voltam mais para si, há mais brilho em cada olhar, mais vida em cada gesto.
Seria muito mágico viver todos os dias do ano assim. Mas basta passar o dia de reis que todo o encanto evapora. As luzes desaparecem, fala-se menos em amor, paz e união e as famílias voltam cada uma para a sua vida de negócios. Nada mais fica senão a certeza que toda a magia estará de volta no fim do ano.
2008! Meu último ano na universidade. Meu primeiro ano dedicado ao teatro. Meu primeiro contato com um palco. Amigos imortais encontrados na caminhada. Sonhos! Desejos! Frustrações! Vitórias! Tropeços! Um novo leque se abre e as possibilidades futuras se mostram firmes e incertas. Um ano especial, com certeza! Talvez o mais inolvidável desde 2004.
E que os frutos deste perdurem com muita felicidade, saúde, paz, união e muitos sonhos se tornando realidade no ano que se aproxima. Natal, que seu encanto e sua magia irradiem todos e nos faça seres melhores a cada dia, a cada ano, sempre!!!
1 de dezembro de 2010
Um olhar pra dentro
Dezembro chegou e com ele as luzes, o colorido, as árvores, os panetones. Natal é sempre um tempo de paz, de amor, de muito brilho e alegria. Não importa o que você fez durante o ano, se redima no natal e terá a chance de corrigir os erros no próximo. De longe, é a minha época mais esperada do ano. Gosto de sentir a energia que só o mês de dezembro consegue transmitir. É o momento de se avaliar, de fechar uma etapa e se preparar para outra. Amigos se reúnem, trocam presentes, a família fica mais próxima. Tudo tem um sabor ainda mais especial. Parece que os milagres ficam mais suscetíveis a acontecer.
Em 2010, eu me permiti voltar a viver. Produzi um vídeodocumentário com Ana Célia e Kárem e concluí meu curso superior definitivamente. Entrei na montagem de um novo espetáculo teatral. A Cia. Atores da Maria voltou a trabalhar e me permitiu conhecer um outro campo dirigindo ao lado de Júlio. Conheci Sumé e a obra de um grande artista chamado Miguel Guilherme. Ganhei 11 novos quilos e perdi 8 pelo caminho. Percorri diversas casas e conheci inúmeras famílias no desafio de um recenseador. Passei a integrar um núcleo de pesquisa em teatro. Ganhei prêmio de melhor ator e melhor esquete com Nayara e Suellen. Rompi um namoro de 8 anos. Vi uma amiga ir pra longe. Conheci pessoas novas. Me livrei dos antidepressivos. E entrei na finasterida. Voltei a escrever roteiros. Tirei DRT de ator. Descobri uma esofagite. Dei um passo adiante na religião que pretendo seguir.
Pode não ter sido um grande ano, mas obtive algumas conquistas, passei por outras experiências, e sempre saímos de tudo um pouco mais consciente de nós mesmos. Penso que nesse ano eu me voltei a mim. Tentei ser sincero aos meus valores e àquilo que realmente acredito. Talvez seja um recomeço, depois de tanto me achar e me perder em objetivos e sonhos confusos. Talvez me escutar de verdade seja o verdadeiro caminho da felicidade, independente de quem vá se beneficiar ou não dele. Eu só preciso confiar no que sinto e definitivamente não ter medo de ser feliz. Quem sabe essa descoberta já não é o milagre que o natal antecipadamente operou em mim?
17 de dezembro de 2010
Precipitações de uma manhã
O sol cede lugar às nuvens. Elas se aglomeram, escurecem o céu e se precipitam em forma de chuva. As águas caem lavando o solo, a vida, e revigorando o espaço, o ser... Acordei, abri a janela e me deparei com o céu nublado, o chão molhado e gotas ainda caindo no parapeito da janela. Um cheiro de renovação no ar, de esperança, de mudança, de vida. Chuva nem sempre é tão bem-vinda. Quando precisamos levantar cedo, ir a praia, fazer um churrasco no domingo, recensear de casa em casa... ela é um empecilho. Mas há dias em que as gotas d’água provocam sensações de puro bem-estar, e olhá-la pela janela, respirá-la, enche os nossos pulmões do ar da vida. Penso que essa chuva fininha que cai aqui fora seja uma precipitação do natal que se aproxima. Afinal ela e o natal soam a mim semelhante nessa manhã.
Chuva me lembra infância, tomando banho na rua com os amigos, e me lembra interior, meus avós, a roça de vovô, me lembra alegria, aconchego, inspiração para roteiros. Durante sua queda algumas situações param, pessoas se protegem nas entradas de lojas, nos pontos de ônibus, pedreiros largam seu trabalho, a vida cessa por alguns instantes, e apreciamos a água limpando as ruas, as construções. Quando ela passa, as poças no chão, as gotas que caem das árvores, as nuvens se dissipando, é um prelúdio de que alguma coisa foi mudada, revigorada. É hora de sair das lojas e voltar a caminhar, os pedreiros podem retomar seu trabalho, a vida vai aos poucos se encaminhando à sua rotina. Mas o ar, o perfume da terra molhada há pouco, permanece, e curiosamente nos dá mais gás do que os fortes raios de sol de outrora.
24 de dezembro de 2010
Natal no mundo
Noite de Natal. Muitos se reúnem para a grande ceia de natal, mesa farta, perus, damascos e lentilhas. Trocas de presentes, beijinhos e amor para todos. É um retrato típico da época, e raro também no nosso país, e no mundo. E os que vão passar a noite de natal trabalhando, viajando, sozinhos em casa, em leitos de hospitais ou nas ruas, sem peru, presentes ou beijinhos? Minha amiga enfermeira Luciene vai passar o Natal de plantão no hospital. A família da lanchonete aqui em frente de casa vai cear servindo pastéis e sanduíches aos clientes, que também não estarão em casa numa mesa farta. E eu, bem, eu comprei uma pizza e comi com minha mãe, e agora estou escrevendo no Celeiro. Não foi um peru ou um pernil, não teve presente, beijinhos, mas estou em casa com a minha família, meu cachorro, com a barriga cheia e ainda ouvindo canções natalinas.
Acreditamos que o Natal é um tempo de recolhimento, de doação, em que as pessoas se tornam mais altruístas, solidárias, e acreditamos tanto nisso que muitos criam um personagem nesse período, espalhando amor e sorrisos a quem passa. Todavia, de nada adiantará se não for de coração. Família inevitavelmente é lugar onde reina sentimentos de inveja, ressentimento, cobiça e muita pose. Reunir a família no Natal tem que ser um momento para tentar limpar essas manchas, do contrário o espírito natalino fica só na superficialidade dos cumprimentos e do mais caro presente.
Nesta noite na qual as cidades brilham mais, se fala mais de amor e perdão, desejo a todos aqueles que estão distantes de suas famílias, que não compartilham uma mesa com seus entes, aqueles internados em hospitais, solitários em celas superlotadas nos presídios, vagando pelas ruas, trabalhando, desde flanelinhas em busca de um trocado a médicos salvando vidas em clínicas e hospitais, a todos que perderam a fé no natal, desejo a todos esses um Natal recheado de paz, amor e felicidade no coração. Que os obstáculos que os impediram de estar em casa com os amigos e a família, não os impeçam de acolher em seu peito o verdadeiro sentido dessa data e encher seus corações do mais puro afeto em busca da nossa maior razão da existência, o amor.
31 de dezembro de 2011
Registrando
E 2011 chega ao fim! Querendo ou não, 31 de dezembro nos faz medir os ganhos e as perdas. 2011 foi mais um ano de mudanças, mais um ano de conflitos, de decisões, de novos projetos. Alguns momentos ficarão na memória. A viagem ao Rio no início do ano, com Suellen e Cris, no congresso de Filosofia. A partida de Campina Grande. O reencontro da turma do teatro e da faculdade, agora já no finzinho do ano. Não tenho certeza de quando nos veremos de novo, e o reencontro, as conversas, as risadas, serão boas recordações para os dias difíceis.
Esse ano, diferente de todos os outros aqui no Celeiro, o mês de dezembro ficou escasso de postagem. Não escrevi nada sobre o Natal e sua magia, não enfeitei o Celeiro como de costume. O máximo que me permiti foi colocar uma pequena foto de papai noel ao lado. Mas não me perguntem por quê. Simplesmente não senti o encanto da data dessa vez. E amanhã já será 2012. Ano novo me assusta. Nunca se sabe o que vem pelos próximos 365 dias. Mas estou, no mínimo, convicto do que preciso fazer desses dias. Se saberei conduzi-los da melhor forma possível ou não, daqui a um ano contarei. Por enquanto, feliz 2012!
TemaPrêmios06 textos
7 de março de 2009
Prêmio Dardos
Com o Prêmio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras.
Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.
Quem recebe o “Prêmio Dardos” e o aceita deve seguir algumas regras:
1. exibir a distinta imagem
2. linkar o blog pelo qual recebeu o prêmio.
3. escolher quinze (15) outros blogs aos quais entregar o “Prêmio Dardos”.
Agradeço imensamente a confiança que depositou no Celeiro e farei tudo para levar adiante essa responsabilidade e contribuir com o que me for possível para a difusão desses valores culturais, éticos, literários e pessoais pela universo virtual.
Continuarei procurando e descobrindo outros blogs e postarei os links aqui depois.
5 de maio de 2009
Prêmio Lemniscata
Recebi este Prêmio da amável Maria Izabel Viégas de Viajantes na Linha do Tempo a quem agradeço de coração. Obrigado mais uma vez pela confiança no Celeiro. Fico sempre honrado com as suas indicações. A responsabilidade aumenta a cada dia.
O Prêmio Lemniscata tem a intenção de premiar blogs que demonstram talento nas artes, nas letras, na ciência, enfim, em todas as áreas que enriqueçam a Blogosfera e a vida de seus leitores. Porém, traz um desafio aos indicados: definir o que é esse “Homo Sapiens”.
As regras para quem recebe o Prêmio Lemniscata: 1.Definir o que é Homo Sapiens
2. Repassar o selo para sete blogs
Minha lista de Blogs:
Nesse Momento – Vanessa Torres
Anotações :? de Leonarda:) – Leonarda Almeida
Brasil Libertário – Sidnei Santana
, digo velado, a boca no travesseiro, o hálito... – Nara Belmonte
Na Dança das Palavras – Leonor Cordeiro
Escritos Tortos – Julio César Rolim Heath Ledger Brasil – Natália Monedo e Cristal Gomes Paiva
25 de abril de 2010
O Retorno do Primata
Saudade desse espaço. Estou retomando um lugar que criei com o maior carinho há 3 anos e que sempre soube que por mais tempo que ficasse sem atualizá-lo, jamais o abandonaria por completo. O Celeiro do Sam 2010 começa aqui. Depois de muito tempo, foram as próprias mensagens que eu escrevi, muitas vezes para quem iria ler, junto com os comentários repletos de carinho e incentivo dos leitores que me fizeram voltar a ocupar esse espaço. Passei por muitas mudanças. Não sei se estou no caminho certo agora, não sei nem se estou caminhando em alguma direção, mas voltar a debulhar meus pensamentos e minhas idéias aqui, já me parece um grande avanço.
Como acredito que retomada implica algumas mudanças, mexi um pouco no design do Celeiro. Resolvi criar um local que refletisse o meu estado de espírito atual, algo que tivesse a ver com as cores que enxergo o mundo no momento. Então, eu escolhi algo bem colorido, vibrante, com um fundo de nuvens e céu. E por que eu escolhi balões? Eu senti nos balões uma sensação de liberdade, de vento que nos leva embora para descobrir novos caminhos. E ao mesmo tempo me pareceu algo leve, que flutua, ou melhor, voa pelo espaço.
E já recomeço com uma grande responsabilidade, dando continuidade e legitimidade ao Prêmio Lemniscata, que recebi da querida Maria Izabel Viégas no ano passado. Uma das regras de quem recebe o prêmio é definir o que é Homo Sapiens. Como fiquei devendo essa tarefa, recebo-a aqui como a minha primeira postagem do ano. E como o Homo Sapiens somos nós, seres humanos modernos, e eu estou incluído nessa cota, decidi falar um pouco do Homo Sapiens através de mim.
Pelas definições encontradas em dicionários, enciclopédias e derivados, o Homo Sapiens é um membro da espécie de primata bípede, com o cérebro altamente desenvolvido e inúmeras capacidades como o raciocínio abstrato, a linguagem e a resolução de problemas. Contudo, acima de todas essas características que definem o tipo de espécie, existe o ser que pensa, age, acerta, erra, cai, levanta, tropeça, ri, chora. Existe o ser recheado de dúvidas e incertezas da vida.
Ainda ontem minha avó esfregava seu rosto em minha barriga após o banho, me provocando intensas gargalhadas. Anos depois estava na escola, chorando quando minha mãe me abandonava às criaturas “carrascas” daquele lugar. E a escola se foi. As paixões surgiram. Os gostos musicais se revelaram. As vocações tentaram desabrochar. De uma hora para a outra tinha um futuro pra decidir. E ele foi escolhido. E quais as chances de ter errado na escolha? Infinitas.
Aos 25 anos me pergunto. Devo investir numa carreira jornalística sem identificação, resultando em um péssimo profissional? Lutar nos palcos do teatro, sem um digno retorno financeiro? Tentar arquitetura, não sabendo 2+2? Ser um funcionário público? E a felicidade, onde fica nisso tudo?
Como uma espécie do Homo Sapiens com cérebro muito desenvolvido e intensas capacidades, como a resolução de problemas, não consigo definir a minha vida atual. Acredito que muitos passam, ou tenham passado por isso. Faz parte do processo de identificação e inclusão social dos membros da espécie de primata bípede. Provavelmente optarei por algum desses caminhos, ou até um outro. Daqui a alguns anos, o bebê que sorria com cócegas na barriga, estará em mais um estágio da escala evolutiva da espécie, trabalhando.
Provavelmente não fiz uma discrição do complexo mecanismo de funcionamento do Homo Sapiens, nem a utilização de suas habilidades, mas expus algumas das peculiaridades de uma das fases de vida da espécie. Acredito que uma das mais primordiais, que determinará o futuro e o destino de todos os demais ciclos que ainda virão. Termino com um pequeno pensamento que li outro dia em um site, diz mais ou menos assim: “As flores e os frutos precisam de água para se desenvolver, os animais buscam o alimento e a satisfação das necessidades físicas e o homem quer ser feliz”.
9 de fevereiro de 2011
Selo de qualidade
Mais um prêmio entre o universo dos blogueiros chega até mim. Agora é o Selo de Qualidade, que recebo da colega Natália, proprietária do blog Com a Música no Rádio. Agradeço a indicação por mais esse incentivo da blogosfera. E como regra de cada prêmio ganho, terei que repassar o selo para outros 10 blogs e, excepcionalmente neste caso, acrescentar 10 detalhes ou fatos importantes a meu respeito. Então mãos à obra.
Samuel em dez linhas:
01. Sou beatlemaníaco
02. Tenho um caso de amor com a água
03. Não consigo respirar tranquilo sem poder pôr no papel o que sinto
04. Já fui cover de Junior, da dupla Sandy e Junior
05. Atinjo o máximo do orgasmo quando termino de escrever um roteiro
06. Caminho lado a lado com a ficção
07. Aprendi a gostar de Bossa Nova por influência de Manoel Carlos
08. Sou hipocondríaco
09. Descobri no espiritismo uma causa maior da existência
10. Me sinto o Superman, embora às vezes não passe de Clark Kent
Descrito um pouco desse ser que vos fala, segue agora a lista dos blogs que repasso o selo:
Mais um selo que chega até mim por intermédio da blogosfera. Dessa vez quem me indicou foi a amiga Luciene Pinheiro, proprietária do blog Lu Pinheiro. Agradeço a indicação por mais esse reconhecimento desse espaço que já virou sinônimo do fantástico mundo de Samuel. O Celeiro é para mim muito mais que um blog onde escrevo para alguns poucos leitores e recebo comentários. Aqui eu me sinto livre do fardo que carrego diariamente nas costas. Escrever um pouco daquilo que me persegue constantemente me alivia a caminhada, descansa o solado e sossega a alma. Não tenho como não dizer que me renovo também a cada postagem. Encontro a válvula que me mantém vivo e firme no propósito da minha jornada terrena. O Selo Prêmio Sunshine Award deve passar adiante e por isso indico os blogs a seguir que merecem o devido reconhecimento.
A blogosfera está numa verdadeira chuva de selos. E olha que com a quantidade de blogs que existem no momento, é surpreendente que tamanha demanda chegue cada dia mais em tantos blogs. Recebo dessa vez o selo Seu Blog é Música para os Meus Ouvidos. Quem me indicou foi novamente a querida Luciene Pinheiro, dona do Lu Pinheiro, uma prima, amiga e leitora assíduo do Celeiro. Mais uma vez agradeço sua presença sempre constante aqui nesse espaço revolto, e claro, o seu gesto ao escolhê-lo para mais essa premiação, principalmente por um prêmio que expressa em seu próprio nome o significado e o valor ao recebê-lo. Fico muito satisfeito em saber que minhas inquietações e devaneios conseguem penetrar ao menos um pouquinho na psique de alguém.
E como o selo não pode parar, vou indicá-lo a outros celeiros de valores culturais, artísticos e que desempenham importante papel na difusão do conhecimento livre pela internet. Dessa vez vou tentar contemplar alguns blogs que não foram selecionados em meu último selo, com exceção do blog de Nayara Belmonte, que apesar de afirmar não gostar de receber nenhum selo, não posso deixar de incluí-lo nessa indicação, e do Dispirocada de Suellen Maria, que reclamou comigo a falta de selo em seu espaço, e mesmo depois de ter lhe conferido duas premiações, ainda não postou nenhuma em seu blog. Vamos lá, mais uma lembrancinha para vocês. E juntem-se aos demais.
O último blog não há atualização há quase 5 anos, mas achei que deveria incluí-lo aqui, já que foi através das crônicas de seu blog que me inspirei a criar o Celeiro. Uma homenagem a Tareb nessa comemoração dos 100 posts do Celeiro do Sam.
TemaMiscelânea04 textos
20 de outubro de 2007
“Compromisso é uma palavra que resume”
Filho de peixe, peixinho é. É assim que sempre se define a relação de semelhança entre pais e filhos, principalmente no tocante à carreira profissional. Mas um ousado empresário de Campina Grande resolveu quebrar esse famoso dito popular. Juan Pinheiro, de 30 anos, filho de advogado, enveredou-se pelo ramo da tecnologia eletrônica contra a vontade de seu pai e hoje é simplesmente o dono da Insiel Segurança Eletrônica, líder em inovações eletrônicas no estado da Paraíba e indicado pelo Guia do Usuário de Segurança com um top de reconhecimento nacional.
Juan Pinheiro concluiu seu curso de eletrônica e telecomunicações em 1995 e resolveu montar um negócio informal, sem foco ainda em segurança eletrônica. “No início era eu quem montava, empacotava e vendia os produtos, aí veio um assistente, dois e foi desenrolando. Não tenho vergonha de dizer que a gente começou mesmo como uma empresa fundo de quintal”, enfatiza Juan. A empresa funcionava a princípio dentro de um parque tecnológico como organização encubada, passou por um período de maturação e finalmente saiu do parque para virar empresa independente.
Essa mudança se deu em grande parte aos produtos desenvolvidos pela Insiel, como a central de alarme para residência, que na época ainda era muito escasso no mercado e hoje é um dos setores que mais crescem e aos clientes que começaram a surgir. Para Juan a falta de capital para investir e o próprio desconhecimento de organização de uma empresa foram as maiores dificuldades no início.
No entanto, da venda de um produto surgia a renda para a construção de outro. E assim a Insiel foi aos poucos conseguindo crescer e se destacar no mercado. Através de parcerias com outras organizações como a PB Tech e o Sebrae, a Insiel passou a se desenvolver e a se expandir com maior agilidade. Hoje ela atende em todo o nordeste e conta com filiais em João Pessoa, em Fortaleza no Ceará e em Salvador na Bahia, e ainda mais de 10 representantes, empregando cerca de 50 funcionários divididos nos departamentos de desenvolvimento, suporte técnico, financeiro, comercial, atendimento ao cliente, central 24 horas e atendimento online.
Recentemente, a Insiel desenvolveu um equipamento de rastreamento de pessoas que já está sendo utilizado nos presos do regime semi-aberto em Guarabira. “Com esse equipamento você pode saber se o preso está obedecendo as condições da liberdade dele de não sair do perímetro da cidade”, afirma Juan. A tornozeleira eletrônica, como ficou chamada, é uma versão de rastreamento específica para pessoas via satélite e possui uma bateria que não necessita de ligação externa. A referência da tornozeleira tornou-se padrão em outros tribunais de justiça e em outros estados, sendo a Insiel a única empresa com implantação prática desse equipamento no Brasil.
O empresário atribui o sucesso do negócio ao compromisso com o cliente. Pois ele garante que um freguês satisfeito é confiança garantida. “Nós não fazemos mídia, mas quem é cliente sabe dos nossos compromissos, e isso facilita muito a introdução de novos produtos no mercado”, avalia. Dentre as maiores conquistas, Juan destaca o espaço que foi alcançado pela Insiel ao longo dos anos. E uma prova disso é o prêmio Top de Reconhecimento do Guia do Usuário de Segurança do estado do Paraná que o avaliou em 1º lugar pelo desenvolvimento de um soft para a área de alarme entre várias empresas nacionais do ramo.
Por isso a Insiel não pára de inovar e agora já atende até o mercado odontológico, com a criação de uma microcamera em formato de escova que o dentista pode projetar a imagem da arcada dentária do paciente no computador. “Eu enxergo hoje como um novo começo em outro patamar, onde já temos a confiança dos clientes e a capacidade de expandir mais e mais”, conclui otimista o empresário.
20 de outubro de 2007
Unidos na Alegria e no Empreendedorismo
Festa, champagne, bolo e grinalda. Poderia ser a realização de mais uma festa de casamento, mas essa união na cidade de Patos tem um sabor especial. Os personagens desse evento são dois jovens que decidiram se unir tanto na vida conjugal como no mundo dos negócios. Era meados de 1994 quando a união entre Fábio e Jeannine Figueiredo, com apenas 21 e 18 anos, fez surgir a escola de informática Infogenius.
Jeannine trabalhava como recenseadora do IBGE e cursava Economia na Faculdades Integradas de Patos (FIP), mas teve que trancar a faculdade para se dedicar a esse novo investimento. Fábio, por outro lado, trabalhava na assistência técnica de uma concessionária em Patos. Em pouco mais de dois anos de namoro, eles tiveram a idéia de abrir um negócio juntos. Perceberam que havia uma grande necessidade de capacitar pessoas para trabalhar com a informática e resolveram investir no ramo. Sem grandes recursos, compraram alguns computadores, e entre enxovais e teclados conseguiram alugar um ponto em cima de uma loja de colchão.
De início eles contavam apenas com a participação de cinco professores e três secretárias. Uma das maiores dificuldades foi encontrar mão-de-obra qualificada. “Tivemos que fazer muito treinamento com professores em Recife e aproveitar alunos que já faziam curso superior, mas que não tinham experiência em sala de aula e os treinamos com profissionais pedagógicos”, comenta Jeannine.
Com idéias na cabeça e computadores na sala, só lhes faltavam os alunos. E estes não demoraram a chegar. Dois anos depois da inauguração, o número de alunos já superava a faixa dos mil. Havia a necessidade de aumentar a estrutura, os laboratórios e a biblioteca. Montaram então um laboratório temporário em outras cidades interioranas da Paraíba, como Solânea e Monteiro, e em Pernambuco, nas cidades de Pesqueira e Itambé. A partir do momento em que perceberam que a escola estava firmada no mercado começaram a expandir para cidades maiores.
Em setembro de 1998, Campina Grande recebeu sua sede da Infogenius que passou a ser a central, onde o casal também fixou moradia. Hoje além de Campina Grande, a Infogenius está presente em Patos, Guarabira, João Pessoa e Caicó. A capital paraibana comporta a maior unidade, que possui inclusive estacionamento próprio. São mais de 40 cursos nas áreas de informática de nível técnico e profissionalizante e de qualificação humana. E ao longo de quase 13 anos de mercado totalizam mais de 100 mil alunos formados.
Jeannine atribui o sucesso da Infogenius ao cuidado com o cliente e acredita que entre as maiores conquistas ao longo dos anos estão o reconhecimento dos cursos pelo MEC e a satisfação do público. “Hoje cerca de 80% dos alunos que chegam à nossa escola são oriundos de indicações de outros alunos e isso mostra que eles estão satisfeitos com o ensino”, enfatiza Jeannine.
No decorrer da trajetória, Fábio e Jeannine presenciaram muitas situações curiosas na escola: alunos ansiosos pelo primeiro contato com o computador; alunos que nunca souberam assinar o próprio nome, mas sabiam dominar o mouse. E em uma dessas situações eles conheceram um jovem deficiente visual que sonhava fazer um curso de informática. Isso os instigou a expandirem ainda mais as portas para todos os segmentos da sociedade. No segundo semestre de 2007, a Infogenius abre o primeiro curso para deficientes visuais do nordeste.
Com uma filha de nove anos e uma história contada através das teclas do computador, Fábio e Jeannine já conhecem a receita de uma vida de sucesso. Cúmplices no amor e nos negócios, eles provam que ousadia e autoconfiança ainda é o caminho que pode gerar bons frutos, é só estar aberto às novas possibilidades que a vida oferece.
19 de novembro de 2007
Do Outro Lado
Aliar a vivência da teoria da universidade com o exercício da prática foi a razão da visita que fiz outro dia com alguns amigos aos estúdios da TV Itararé aqui de Campina Grande. Foi possível analisar o processo de produção de um telejornal desde a construção das pautas até o “boa noite” dos apresentadores. Quis então descrever aqui para os curiosos e interessados no assunto como é a vida dos jornalistas por trás das câmeras.
Para começar o corre-corre diário, os produtores checam com freqüência na redação os e-mails que as assessorias de imprensa enviam para eles. Começa então a discagem para todas as centrais policiais em busca de alguma ocorrência que renda pauta. Com informações nas mãos, é preciso analisar o que é notícia e dentro do que é notícia, o que será mais importante para o telespectador. Decidido as matérias que entrarão no ar, é hora de colher o máximo de informações para a elaboração das pautas que serão entregues aos repórteres.
Os repórteres recebem as pautas e se dirigem aos locais indicados junto com o cinegrafista. Enquanto isso na redação, a verificação dos B.O.s (Boletins de Ocorrência) nas centrais de polícia continua. Novas pautas podem surgir a qualquer momento. Quando uma matéria chega o editor de texto pega as informações sobre entrevistados, passagens, locação e organiza no roteiro do telejornal que será entregue aos apresentadores mais tarde.
As imagens capturadas pelo cinegrafista são entregues aos responsáveis pela edição de imagens. Lá, eles montam a matéria de acordo com o que o repórter indicou na gravação do off (narração do repórter enquanto as imagens sobre a matéria passam). Organizam entrevistas, passagens e casam com as imagens e a narração do repórter.
Quando os apresentadores chegam aos estúdios passam o texto para analisar qualquer defeito e em seguida se preparam para a gravação da escalada (aquelas chamadas iniciais do jornal). Exercícios bocais e lidas repetidas no texto que passa no teleprompter (equipamento que fica na câmera e capta os textos que o apresentador ler). Algumas chamadas são feitas ao vivo e outras gravadas. Ah, uma curiosidade que muitos não sabem. Quem olha de casa aqueles sérios e engravatados apresentadores, não imaginam que embaixo da bancada se encontram calças jeans e até pés descalços. É o lado bastidor do telejornal.
Telejornal no ar! Começa a maior atenção do diretor de tv quanto ao tempo e seqüência das câmeras. É preciso ligar as câmeras certas em cada hora que o apresentador se virar e saber o momento exato de jogar as matérias no ar. Ele também informa ao cinegrafista quando a matéria está próxima de terminar e este avisa os apresentadores.
A galera que controla os créditos do telejornal também deve ficar atenta. Todos os créditos das matérias são colocados no ar na hora em que a matéria entra, seguindo o roteiro que o editor de texto encaminhou. Por isso o editor de texto deve ter bastante cuidado para não trocar os nomes ou inverter a ordem de escala dos créditos.
Com o telejornal no ar a equipe de produção não descansa, continuam produzindo, buscando outras informações e atentos a uma notícia de última hora. Os apresentadores passam o texto a cada intervalo comercial e ainda aproveitam para relaxarem um pouquinho brincando um com o outro, que o diga Polion, que na sua postura profissional, descola brincadeiras e desconcentra a amiga da bancada bem mais do que a simpática e jovem Luciellen.
Com o término do telejornal os produtores continuam atentos para possíveis pautas para o dia seguinte. Os apresentadores sorriem aliviados o término de mais um dia de trabalho, certos que aquelas brincadeiras que tiraram fora do ar serão guardadas a sete chaves e esquecidas nos bastidores, mas sorte que existem estudantes como eu que se preocupam em levar a verdade ao público doa a quem doer. E assim chega ao fim mais um dia de trabalho nos estúdios de telejornalismo da TV Itararé. E o fim da nossa visita também. Espero que essa descrição tenha sido útil de alguma forma para alguém mesmo que seja para matar a curiosidade.
29 de fevereiro de 2008
Eternamente Seis
O romance brasileiro Éramos Seis de Maria José Dupré, publicado em 1943 e premiado pela Academia Brasileira de Letras foi uma das obras brasileiras mais adaptadas para o áudio-visual. O livro foi traduzido para o espanhol, francês e sueco e ganhou quatro adaptações em forma de telenovela e uma adaptação para o cinema.
Maria José Dupré ou Sra. Leandro Dupré, nasceu em Botucatu, estado de São Paulo em 1905. Estudou pintura e música e cursou a Escola Normal Caetano dos Campos, quando se formou professora. Sua vida na literatura começa após casar com o engenheiro Leandro Dupré. Foi responsável por vários clássicos da literatura infanto-juvenil, mas foi a história que se passa na São Paulo de 1921 a 1942, quando a cidade vivia em volta de casas antigas, intercaladas pelas linhas dos bondes e com uma população de 600 mil habitantes, que a consagrou.
Nesse cenário onde se encontram tantas mulheres dedicadas ao lar e outras que sonham que a independência profissional surge a história de Dona Lola e sua família, uma mulher batalhadora e dedicada ao marido Júlio e aos seus quatro filhos, Carlos, Alfredo, Julinho e Maria Isabel. A vida de Lola é mostrada desde a infância das crianças, até a sua velhice. Conforme os anos passam, a vida de Lola também se modifica. Júlio morre sem saber que sua casa ainda não foi paga, Alfredo some pelo mundo, Isabel se casa com um homem separado e Julinho se casa com a filha do patrão do seu pai e sofre com os ataques da mulher. Assim, os seis membros da família que dão nome à obra vão se desfalecendo.
A primeira adaptação do livro se deu ainda nos anos 40. Uma produtora argentina se interessou pelo enredo e filmou a história, obtendo grande êxito. Uma década depois do filme, no ano de 1958, a Rede Record fez sua primeira versão do livro em formato de telenovela ao vivo e com apenas duas exibições semanais. Gessy Fonseca foi a protagonista da trama. Nove anos mais tarde, em 1967, a TV Tupi resolveu adaptar o romance, tendo o roteiro de Pola Civelli e a direção de Hélio Souto. Cleyde Yáconis deu vida a personagem Lola e Silvio Rocha ao seu marido Julio. A novela ficou no ar apenas durante um mês no horário das 19h.
A terceira versão da obra foi produzida novamente pela TV Tupi no ano de 1977 com texto de Rubens Ewald Filho e Sílvio de Abreu, que iniciava sua carreira de roteirista. O papel de Julio aqui ficou com Gianfrancesco Guarnieri e o de Lola com Nicette Bruno, aclamada pela crítica e vencedora de diversos prêmios pela sua interpretação. Foi exatamente essa versão que deu base para sua última adaptação pelo Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) em 1994. A novela foi ao ar de 9 de maio a 5 de dezembro, em 180 capítulos, sendo a única novela da emissora a ganhar o Troféu Imprensa na categoria de Melhor Novela. Irene Ravache foi quem comoveu e envolveu o país no drama de Lola nessa versão, ao lado de Othon Bastos.
A Revolução Constitucionalista de 1932 de São Paulo esteve presente na novela. O estopim da revolta no centro da cidade em 23 de maio foi retratado e serviu de pretexto para a morte de Carlos, o filho mais velho de Lola. Sua morte fez referência aos cinco jovens assassinados por partidários governistas que deu origem a um movimento de oposição conhecido como MMDC (Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo), as iniciais dos nomes dos jovens. O fato servia de crítica social à ditadura imposta por Getúlio Vargas e alertava ficcionalmente, com a figura de Carlos, sobre a possível existência de outros assassinatos desconhecidos na revolta.
Éramos Seis foi considerada o último grande sucesso em termos de telenovela da TV Tupi. Sua versão de 1977 foi a mais fiel adaptação do livro de Maria Dupré. O remake do SBT de 1994 foi o maior sucesso de telenovelas já produzidas pela emissora. A novela alcançou 20 pontos de audiência e chegou a bater de frente com a Rede Globo, que apresentava na época o remake de A Viagem no mesmo horário.
Mesmo desconhecendo a obra original e as quatro primeiras versões no cinema e na televisão, a adaptação do SBT foi extremamente gratificante e impecável desde o roteiro à direção, ambientação, trilha sonora e interpretação dos atores. Uma história simples, comovente e cheia de realismo, que tornou possível a inúmeras gerações o conhecimento de um clássico escrito 50 anos antes.
Éramos Seis na história, éramos seis na quantidade de obras produzidas. Um livro, um filme e quatro telenovelas. Eternamente seis.
BônusRetrospectivas19 rankings de séries e discos
16 de fevereiro de 2018
Beatles: álbuns preferidos
Enumerar os melhores álbuns dos
Beatles não é uma tarefa fácil, embora já haja certo consenso em relação a
alguns discos e a própria crítica especializada já tenha apontado diversas vezes os melhores de
todos, mesmo que ela tenha mudado o ranking algumas vezes ao longo dos anos.
Entretanto, minha tarefa aqui é mais simples. Eu vou listar não os melhores álbuns
em termos de produção técnica, engenharia, know
how, mas sim as canções e a sonoridade dos Beatles que chegam primeiro ao
coração desse beatlemaníaco aqui. E mesmo que a qualidade técnica influencie em
determinados pontos, é a melodia, a harmonia e até mesmo a letra que estão contando
ao final. Já vi muitas listas de melhores álbuns dos Beatles, mas nenhuma delas
condizia exatamente com a minha. Encontro sempre algumas semelhanças em determinadas posições, mas há também muitas surpresas com a colocação de alguns álbuns. Então resolvi postar a minha também. Deixando claro
que essa seleção é pessoal e não se baseia nas especificações e evoluções técnicas de cada disco. Se assim o fosse o ranking seria outro. É apenas a sequência de um apaixonado pelas canções da mais bem sucedida banda
de rock de todos os tempos. Come together!
13º. Yellow Submarine
Lançado em 1969 como parte da
trilha sonora do filme de mesmo nome, o 11º álbum dos Beatles não tem muito o
que oferecer. Na verdade ele é mais trilha do filme do que propriamente disco dos Beatles. Duas de suas canções já estavam presentes em outros álbuns: Yellow Submarine em Revolver e All You Need is Love em Magical Mystery
Tour. Das inéditas, não há uma música forte ou significativa
o suficiente para marcar o álbum. Particularmente eu gosto de Hey Bulldog e Only a Northern Song. As canções
instrumentais de George Martin são até interessantes como parte da trilha do
filme, mas não são música Beatles. Por isso tudo, esse disco fica na minha última posição.
12º. Beatles For Sale
Quarto álbum dos Beatles, lançado
no final de 1964. Não é um disco muito forte, e acredito que isso é quase
unanimidade. Eu gosto de No Reply, Baby’s in Black,I’ll Follow the Sun e What You’re Doing, mas no geral não há nada muito marcante. Vindo depois do estrondoso sucesso que foi A Hard Day’s Night, e com a cruel missão de substituí-lo, esse álbum decepcionou um pouco por voltar a utilizar covers em grande quantidade para fechar o repertório, uma prova de como era grande a pressão mercadológica para produzir novos discos em um curto espaço de tempo, resultando em trabalhos não tão bem elaborados. Lembrando ainda a rotina extremamente estafante em que a banda se encontrava na época, o que gerou uma certa estagnação na produção dos novos trabalhos.
11º. Please Please Me
Álbum de estreia dos Beatles em
1963. Disco bom e importante por nos apresentar os meninos de Liverpool, com as
clássicas Love Me Do, P.S. I Love You, I Saw Her Standing There e Twist and Shout. Gravado todo numa única cansativa e esgotante sessão. Mesmo com seis covers no repertório, o álbum flui bem, e diferente de Beatles For Sale, funciona perfeitamente, conseguindo deixar sua marca até nas canções não originais. Contudo, diante da grandiosidade que veio depois,
ele fica aqui na 11ª colocação.
10º. With The Beatles
Segundo álbum dos Beatles,
lançado também em 1963. Melhor que o anterior em elaboração e composições, mostrando o primeiro salto rumo à constante evolução da banda. Com seis covers também que se somam harmoniosamente às canções originais. Tem também a primeira contribuição de George na banda com Don’t Bother Me. Entre as minhas favoritas estão All My Loving, It Won’t Be Long, All I’ve
Got To Do e Hold Me Tight.
9º. A Hard Day’s Night
Terceiro álbum dos Beatles,
lançado em 1964, junto com o filme homônimo. Primeiro disco a conter unicamente composições próprias dos Beatles e o único a ter apenas composições de Lennon e McCartney. Um dos mais bem sucedidos álbuns da banda. Foi o disco que me apresentou aos
Beatles e pelo qual tenho um carinho especial. Entretanto, apesar de ter
canções que considero maravilhosas como And
I Love Her, I Should Have Know Better, If I Feel e a canção-título, a segunda
parte do disco já não me empolga tanto mais.
8º. Help!
Quinto álbum dos Beatles, lançado
em 1965, junto com o filme homônimo também. Com apenas dois covers e a inclusão da consagrada Yesterday, que quase não entrou na seleção por destoar do perfil do disco, foi outro grande sucesso, repetindo a fórmula de A Hard Day’s Night. Além do tema principal, as
canções The Night Before, Ticket To Ride, You Like Me Too Much, Tell
Me What You See e I’ve Just Seen a
Face são as minhas favoritas.
7º. Let It Be
Último álbum dos Beatles,
penúltimo gravado, lançado em 1970. Acrescento aqui também a versão Naked, lançada em 2003. Sei que haverá gente a questionar Let It Be na frente de outros álbuns de sucesso, afinal ele foi
um disco atrapalhado, lançado sem muito capricho, com o material do fracassado
projeto “Get Back”. Ainda assim, deixando de lado os detalhes técnicos, e analisando especificamente a sonoridade das músicas, é um disco que me agrada muito. Adoro I’ve Got a Feeling, Dig a Pony, For You Blue, I Me Mine e Across the Universe (a versão Naked
é melhor, menos arrastada). Sinto falta de Don’t
Let Me Down, mas ela está presente em Naked.
The Long And Winding Road também é
melhor na versão de 2003, Paul estava certo.
6º. Magical Mystery Tour
Nono álbum dos Beatles, lançado no final de 1967, como trilha-sonora do desastroso filme homônimo. Apenas as músicas do filme – lançadas como EP no Reino Unido na época – já fariam esse disco ser muito bom, I Am The Walrus,The Fool On The Hille Flying são ótimas, mas a versão americana acrescentando os compactos da banda daquele ano conseguiu deixá-lo melhor ainda. A presença de Strawberry Fields Forever, quefez falta em Sgt. Peppers, atesta a colocação tão boa desse álbum. A única música que não curto muito no disco é Hello, Goodbye, embora seja uma canção muito famosa dos Beatles, ela não me empolga muito. Já Baby, You’re a Rich Man eu tenho um verdadeiro fascínio.
5º. Rubber Soul
Sexto álbum dos Beatles, lançado no final de 1965. Rubber Soul começa a sinalizar a mudança na direção do estilo musical dos Beatles e suas novas influências. Por muito tempo figurou entre um dos meus três prediletos. Há sempre uma disputa entre Rubber Soul e Revolver sobre qual seria o melhor disco, com o último quase sempre levando a melhor. O fato é que ambos são maravilhosos, e frequentemente os dois estão trocando de posição no meu ranking. Adoro Girl, Drive My Car, You Won’t See Me,Think For Yourself,Wait e If I Needed Someone. Sou apaixonado por In My Life, só não curto muito Michelle, me soa um pouco açucarada demais.
4º. Revolver
Sétimo álbum dos Beatles, lançado
em 1966. Predileto de muitos e sempre queridinho, Revolver é recheado de boas canções. Taxman, Eleanor Rigby, I’m Only Sleeping, Love You To, She Said She
Said, And Your Bird Can Sing, Got to Get You into My Life e Tomorrow Never Knows são as minhas
preferidas. Nem é preciso dizer que esse disco foi inovador e marcou
definitivamente a mudança da fase beatlemania para uma era de musicalidade mais
madura da banda.
3º. Sgt. Peppers Lonely Hearts
Club Band
Oitavo álbum dos Beatles, lançado
em 1967. Aclamado mundialmente pela crítica e considerado o melhor disco da
banda. Realmente ele é tudo isso. Mas quando se discute favoritismo, cada um sabe
do seu e não há o que discutir. Por isso, Sgt.
Peppers fica ainda na terceira posição dos meus discos preferidos. Gosto
de todas as músicas do álbum e considero A
Day in the Life, senão a mais, uma das mais bonitas músicas dos Beatles.
2º. The Beatles (White Album ou
Álbum Branco)
Décimo álbum dos Beatles, lançado
em 1968. Único álbum duplo da banda. Aparte os atritos dos integrantes na
produção do disco, resultando num trabalho que captura nitidamente o estilo musical de cada um, o Álbum Branco reúne 30 canções numa diversidade de sons e ritmos
que faz desse disco tão especial e o meu segundo preferido. Gosto
principalmente das composições de John: Happiness
Is a Warm Gun, Dear Prudence, Sexy Sadie, Everybody’s Got
Something to Hide Except Me and My Monkey, Revolution 1,
I’m So Tired e Julia. De Paul: Why Don’t We
Do It in the Road?, Mother Nature’s Son e Helter Skelter. E ainda as de George: Savoy Truffle, Long Long Long
e While My Guitar Gently Weeps, disparada
de longe a melhor canção do disco.
1º. Abbey Road
Décimo segundo álbum dos Beatles,
lançado em 1969. O último disco gravado. Em Abbey Road eu gosto de tudo, das
canções à capa e contracapa do disco, pra mim a mais bonita de todas.
Come Together, Something, Here Comes The
Sun, Because, I Want You, Oh! Darling são todas fabulosas. Na segunda parte do disco temos uma obra-prima de Paul. As duas sequências de medleys desde Sun King a She Came in Through the Bathroom Window, e de Golden Slumbers a The End sãode uma grandiosidade musical sem comparação. A meu ver a melhor contribuição de Paul na
banda, ou a que mais me agrada. E a frase final, depois do incrível solo de
bateria de Ringo – como John já disse – carrega uma filosofia cósmica que continua
ecoando após os últimos acordes do álbum. Abbey Road é um diamante perfeitamente lapidado!
“...and in the end,the love you take is equal to the love you make.”
31 de julho de 2019
O fenômeno Sandy e Junior: há explicação?
Foto: Jairo Goldflus
O retorno da dupla Sandy e Junior, em turnê comemorativa de 30 anos de carreira, segue enlouquecendo o país exatamente como no auge de “As Quatro Estações”, 20 anos atrás. Ingressos esgotados em minutos, shows extras, desespero de quem ficou de fora. A gravadora Universal, detentora de toda obra fonográfica dos artistas, também não deixou a oportunidade passar, relançou alguns CDs avulsos, depois lançou um box contendo todos os 16 discos da carreira deles (embora a qualidade dessa nova tiragem deixe bastante a desejar), e agora está lançando três álbuns em vinil, formato em que a obra deles não era lançada desde 1995, com o disco “Você é D+!”.
Não há dúvida de que Sandy e Junior ainda é sinônimo de sucesso. Evidente que o hiato de 12 anos desde que a dupla se separou, em 2007, explica bem esse “boom” em 2019. Todos querem vê-los juntos novamente, os fãs nostálgicos e uma nova geração que não teve a chance de ir a um show deles. Caso a separação não tivesse ocorrido, não acredito que eles ainda estivessem fazendo todo esse barulho. Os últimos anos juntos já demonstravam uma desaceleração da sua popularidade. Contudo, isso não desvaloriza nem apaga um dos feitos mais raros da história da música brasileira. Sandy e Junior alcançaram sucesso ainda crianças, no primeiro disco, e foram mantendo e aumentando consideravelmente esse sucesso ao longo de mais de uma década. Como isso foi possível? E por que outras duplas e grupos infantis como Balão Mágico, Trem da Alegria, Luan e Vanessa e Mulekada não conseguiram também? Tenho minhas teorias de como pequenas decisões em determinados momentos foram significativas na carreira deles.
“Maria Chiquinha” e a sua sucessora
Para o início do sucesso vários fatores contribuíram. O primeiro foi, inegavelmente, serem filhos de Xororó, que estava com a carreira em ascensão com Chitãozinho à época. Depois, “Maria Chiquinha”, a canção – hoje apontada como misógina e necrófila – foi a responsável por fazê-los sucesso antes mesmo de lançarem o primeiro disco. Na verdade, foi ela quem despertou as gravadoras para o potencial das crianças. Era divertido e surpreendente ver aqueles dois projetos de gente discutindo uma relação de adultos numa canção. E por fim, claro, o talento inquestionável deles, que desde cedo já traziam uma disposição natural à música, inclusive com afinação vocal.
Disco lançado, sucesso alcançado, pronto, deveria ter acabado aí, como aconteceu e acontece com inúmeros artistas. Mas surpreendentemente o novo disco consegue um feito quase impossível de alcançar por um artista: uma nova canção que supere o sucesso anterior. E eles conseguiram. “A Resposta da Mariquinha” seguiu uma fórmula bastante usada pela indústria fonográfica, porém quase sempre sem muito êxito, de repetir a receita do sucesso anterior. A música trazia a dupla novamente discutindo uma relação de adultos. Acontece que “A Resposta da Mariquinha” era muito melhor do que “Maria Chiquinha”. A canção tinha mais ritmo, refrão e não era arrastada como a anterior. A produção do segundo disco também foi significativamente superior. Percebe-se o cuidado, o capricho e a bagagem de Xororó na concepção do novo trabalho da dupla, que ainda emplacou “Vamos Construir”, primeira de muitas versões de sucessos internacionais que os acompanhariam.
Anos 60 e “Com Você”
No terceiro disco há a primeira grande sacada que faz a dupla não perder definitivamente o sucesso. Repetir novamente a fórmula e trazer outra canção nos moldes das anteriores não seria apenas arriscado, mas um erro fatal. E ele ainda foi feito, embora não trabalhado comercialmente. A canção “Ciumeira”, composta por Xororó e parceiros, numa nítida tentativa de recriar algo parecido com “A Resposta da Mariquinha”, deixou evidente o desgaste da fórmula, e o resultado foi uma canção insignificante, que se tivesse sido o carro-chefe do disco teria levado a dupla rapidamente ao esquecimento. Mas algum gênio resolveu apostar nos anos 60, no musical “Grease”, de onde Sandy herdou o nome, e na jovem guarda, saindo um pouco do sertanejo e entrando no rock e no pop, com direito à caracterização de figurino. As versões “Tô Ligado em Você” e “Primeiro Amor” trouxeram um frescor e o elemento surpresa, que acompanhava a dupla desde o início. Além da regravação de “Splish Splash”, que embora trouxesse a velha discussão de casal, vinha embrulhada na nostalgia da jovem guarda.
O quarto álbum trouxe outras inovações, ao mesmo tempo em que se prendia à fórmula de sucesso do disco anterior, os anos 60, aqui bastante explorado em várias faixas. Porém, a produção não se deixou levar apenas pela receita pronta e, com a experiência de “Primeiro Amor”, de que uma canção romântica funciona, apostou na versão que se tornou um dos maiores sucessos da dupla, “Com Você”. O hit romântico e bem trabalhado garantiu, quase que sozinho, o excelente desempenho do disco, além, claro, de manter o sucesso da dupla e aumentar a sua popularidade. A canção “Criança Esperança”, criada para o programa de TV, emocionou o público e também virou sucesso.
Entre a infância e a adolescência
Para o próximo disco, Xuxa, homenageada em uma canção no álbum anterior, foi convidada para participar em uma faixa. Outros clássicos dos anos 60 e 70 seguiram ganhando versões. A música tema do filme “Dirty Dancing” virou “Sonho Real”, e aparentemente foi produzida na intenção de promover o álbum, contudo, a ideia da gravadora, em aproveitar a explosão da série de TV “Power Rangers”, foi mesmo quem garantiu a popularidade do disco. Mais a frente, outra canção de discussão de casal ganhou o público, com uma inovação: “Vai Ter Que Rebolar”, como o nome já diz, fazia Junior literalmente rebolar, desconstruindo estereótipos sobre o comportamento masculino.
O passo seguinte foi outro grande momento na carreira dos dois. A adolescência chegava e o repertório precisava se adaptar. Há um grande salto de qualidade no novo disco. “Dig Dig Joy” foi uma feliz composição que brincava em cima de uma coreografia, com um refrão envolvente, flertando ainda com a infância, enquanto “Não Ter”, versão de sucesso de Laura Pausini, mexia com os sentimentos dos adolescentes que então afloravam. Foi um álbum de transição, muito bem elaborado, que percorria ainda o country e a salsa com “Etc… e Tal” e “Férias de Julho”. Aqui o famoso mullet de Junior também ficava pra trás.
TV, cinema e 1 milhão de cópias
Com o talento cada vez mais evidente, exigentes na qualidade do trabalho e a popularidade crescendo, eles ganham seu próprio programa de gincanas e entrevistas na extinta TV Manchete, o “Sandy e Junior Show”, ajudando a promovê-los ainda mais. O disco seguinte reafirmou com segurança o rumo que a carreira dos jovens adolescentes tomava. Outra vez quiseram refazer a fórmula de sucesso de um álbum anterior, criando a música “Pomponeta”, que também brincava em cima de uma coreografia, com um refrão nonsense, para ser uma nova “Dig Dig Joy”. Porém, novamente não caíram nessa armadilha e lançaram “Beijo é Bom”, com uma pegada bem mais pop, que lembrava muito a canção “Wannabe” das Spice Girls. No contrapeso, a balada “Inesquecível”, mais uma versão de Laura Pausini, que se tornou outro dos maiores sucessos da dupla. Ainda conseguiram se destacar as canções “Eu Acho Que Pirei”, “Little Cowboy”, “Pot-pourri Bee Gees” e “Era Uma Vez”, essa feita exclusivamente para a novela homônima, em parceria com Toquinho, incluída no disco numa nova tiragem no ano seguinte.
Por essa época, o talento de Sandy é reconhecido pelo tenor italiano Andrea Bocelli e eles gravam juntos a canção “Vivo por Ella”. Também estreiam como atores no filme dos Trapalhões “O Noviço Rebelde”. A essa altura já estava mais do que evidente de que aquelas crianças que começaram cantando “Maria Chiquinha” tinham chegado mesmo para ficar. Cada álbum vendia mais que o anterior. Surge então a ideia de gravar o primeiro disco ao vivo, com mais três faixas inéditas de estúdio. A versão de Celine Dion do tema de Titanic, “Em Cada Sonho”, promoveu o álbum, aproveitando o sucesso do filme, seguida da versão de Savage Garden, “No Fundo do Coração”, que se tornou o primeiro videoclipe deles a entrar na MTV. O registro do show também foi lançado em VHS e o saldo final do disco foi o primeiro a ultrapassar 1 milhão de cópias.
“As Quatro Estações” e o seriado
Agora parecia que Sandy e Junior enfim tinham chegado ao topo, e então eles lançam o icônico “As Quatro Estações”, um dos maiores saltos de qualidade, inovação, técnica e amadurecimento da carreira, e um dos melhores álbuns deles. O disco saiu em meio à primeira temporada do seriado “Sandy e Junior” na Rede Globo. Decidir atuar, interpretando a si mesmos numa série de TV, que levava os seus nomes, foi mais uma sábia decisão. Eles e suas canções entravam toda semana no lar de milhões de brasileiros. Dessa forma, quase todas as músicas do disco foram tocadas no seriado e ficaram conhecidas, catapultando completamente a carreira deles. A divulgação do disco, contudo, começou sem arriscar muito, com a versão de Celine Dion, “Imortal”, mas logo as primeiras composições de Sandy, “Olha o que o amor me faz” e “As Quatro Estações”, se mostraram bem mais interessantes, assim como “Aprender a Amar”, a canção que trazia Junior muito bem nos vocais principais. O ritmo enérgico da juventude ficou por conta de “Eu Quero Mais” e “Vamo Pulá”. E ainda passearam pelo italiano com a belíssima “Malia”, produzida para a novela “Terra Nostra”.
Aproveitando o sucesso de tantos singles do álbum, eles decidem lançar novamente um disco ao vivo, a versão “Quatro Estações – O Show”, com três canções inéditas de estúdio outra vez, o famoso CD com as quatro opções de capa. “A Lenda”, composição do grupo Roupa Nova, foi literalmente o apogeu da dupla. O disco ainda trouxe o sucesso “Enrosca” com vocais de Junior, repetindo o que havia dado certo em “Aprender a Amar”, porém, dessa vez, sem Sandy para acompanhar. É ainda hoje o álbum com maior número de vendagens deles. Também nesse ano gravam uma canção em parceria com o cantor espanhol Enrique Iglesias. E no início do ano seguinte participam da terceira edição do festival internacional Rock in Rio. O sucesso da dupla ficara tão gigante que Sandy ganha uma novela pensada exclusivamente para ela na Rede Globo, “Estrela-Guia”.
Artistas internacionais
Outro salto de qualidade é alcançado no disco seguinte. A balada “O Amor Faz” e a frenética “A Gente Dá Certo” deram início aos trabalhos de divulgação do álbum, porém, a primeira canção acabou superada quando as demais começaram a despontar, como “Não Dá Pra Não Pensar” (de autoria dos próprios irmãos), “Nada é Por Acaso”, “Cai a Chuva” e principalmente “Quando Você Passa”, a famosa Turu Turu.
Pensando em conquistar o mercado internacional também, a gravadora lança o projeto de um disco em inglês, lançado em vários países ao mesmo tempo. Gravado quase que simultaneamente ao álbum anterior, mas lançado no ano seguinte, o disco “Internacional” fez a dupla gravar não só em inglês, mas em espanhol e francês. As canções “Love Never Fails” e “Words Are Not Enough” alcançaram bom desempenho já que tudo que eles gravavam nessa época virava sucesso, no entanto, apesar da superprodução do álbum, não eram canções originais, já haviam sido gravadas por outros artistas pouco tempo antes. Entre as duas faixas bônus em português, a versão “Super-herói” com vocais de Junior, como já havia virado costume. Curiosamente, umas das melhores canções em inglês acabou de fora da versão nacional do disco. “Until I See You Again”, assim como as versões em inglês de “A Lenda” e “As Quatro Estações”, só entraram como extra no disco duplo seguinte “Ao Vivo no Maracanã + Internacional Extras”.
Registrado em DVD e lançado no mesmo ano do disco “Internacional”, o show no Maracanã os sagrou para a posteridade como os primeiros artistas nacionais a lotar o estádio brasileiro. O álbum foi lançado em versão dupla, contendo as canções que ficaram de fora do disco “Internacional” e as versões que foram lançadas em outros países.
Maior autonomia
Esgotados com o excesso de trabalho do ano anterior, a dupla decide não dar continuidade à carreira internacional, bem como não renovar o seriado com a Rede Globo, após quatro anos, e optam pela gravação do filme “Acquária”. Apesar de bem produzido, o roteiro deixou um pouco a desejar. A canção-tema do filme, “Encanto”, foi a primeira a promover o novo disco “Identidade”, que mostrava os irmãos bem mais à vontade na produção, composição e seleção do repertório. “Desperdiçou” virou chiclete, seguida de “Nada Vai Me Sufocar” e “Você Pra Sempre”.
Depois de 13 anos lançando ao menos um disco por ano, eles finalmente se dão ao luxo de trabalhar com maior tranquilidade na produção de um novo álbum, ficando dois anos sem lançar nada. O disco homônimo lançado em seguida mostra um grande amadurecimento musical da dupla, trabalhando as canções mais artisticamente e com menos apelo popular. Talvez por isso seja o “menos queridinho” dos fãs, embora o material seja de excelente qualidade. “Replay”, com uma pegada mais popular, foi a que mais fisgou, seguida da balada “Estranho Jeito de Amar”. Destaque também para “Discutível Perfeição”, em que Sandy “chuta o balde” contra o rótulo de santinha.
Menos populares do que quando “As Quatro Estações” estourou, mas ainda sinônimo de sucesso, eles decidem se separar e gravam o último álbum de despedida, após 17 incríveis e bem sucedidos anos de carreira. O que também explica o fenômeno em 2019. Eles não saíram no auge, mas um pouquinho depois, deixando a sensação de que ainda tinham o que oferecer. E por que outros artistas mirins não conseguiram os mesmos intentos? Talvez decisões equivocadas em algum momento, erro de seleção de repertório, ausência de uma boa música que ultrapassasse o sucesso anterior. Sandy e Junior foram muito bem assessorados desde o início, tiveram sempre ótimas inovações no repertório, souberam usar bem as versões de músicas internacionais e aproveitar as oportunidades que surgiram, como os programas de TV e filmes, além, claro, de sempre terem sido extremamente competentes e profissionais com o trabalho que faziam. Merecem o sucesso e o reconhecimento que estão tendo com a turnê “Nossa História”.
15 de agosto de 2021
12 deslizes de roteiro de Smallville
A série Smallville ainda é uma das minhas séries preferidas. Seja pela trama cativante e bem construída ou pela memória afetiva de sua época, ela ainda hoje consegue me levar a um lugar especial. Contudo, é justamente por curtir tanto que não perdoo certos furos que a série deixou ao longo dos anos em seu roteiro, principalmente da oitava temporada em diante, quando os criadores originais saíram. Os pequenos deslizes que a história já apresentava nas primeiras temporadas, virou um queijo suíço durante as três últimas. Por isso resolvi criar esse post para destacar alguns dos principais deslizes de roteiro de Smallville que mais me incomodam quando assisto. Vamos lá!
1. Lucas Luthor
O personagem Lucas Luthor nos é apresentado na segunda temporada como sendo um filho de Lionel fora do casamento. Primeiro a mãe de Lucas chega a Smallville em busca do filho, que acredita ser Clark, e quase mata Lex para pressionar Lionel sobre o paradeiro do rapaz. Lionel garante que o garoto morreu ainda bebê. Contudo, alguns episódios depois Lex o encontra vivo e o traz a Metrópolis para confrontar o pai. Há uma disputa de egos e suborno. Lucas a princípio se alia a Lionel e por fim se une a Lex contra Lionel, exigindo seus direitos, mas abrindo mão de estar no comando da LuthorCorp, e saindo no mundo. O fato é que depois desse episódio ele nunca mais foi sequer mencionado na série. Não apareceu nem quando Lionel morreu ou quando Lex foi dado como morto na oitava temporada. Como que um herdeiro de um bilionário não retornaria em momento algum para tomar conta do que é seu, mesmo quando a corporação parecia não ter ninguém no comando? Lex ou Lionel chegaram a dar um fim a ele? Se isso aconteceu, nunca foi mencionado.
2. Dra. Helen Bryce
A médica que casa com Lex no fim da segunda temporada sempre pareceu ser uma pessoa de bom caráter, até mesmo guardou segredo sobre a amostra de sangue de Clark, a pedido dos Kent. Ameaçou não se casar mais, às vésperas do casamento, ao descobrir que Lex invadiu seu laboratório em busca do sangue de Clark. Contudo, ela se revelou uma verdadeira viúva negra, no início da terceira temporada, planejando calculosamente a morte de Lex para herdar sua fortuna. E ainda chegou a vender a Lionel a amostra de sangue de Clark. Então se ela era mesmo uma víbora, por que chegou a ajudar os Kent? Por que não se beneficiou logo da amostra de sangue de Clark? Há uma ruptura muito abrupta aí na personalidade de Helen. Mesmo que ela fosse dissimulada, as atitudes gerais dela em toda a segunda temporada não condiziam com isso.
3. Personalidade de Lionel
Lionel Luthor mudou bastante sua personalidade ao longo da série. A princípio parecia apenas um magnata sem escrúpulos e sem afeto pelo filho. Depois durante a segunda e terceira temporada vira o vilão da série. Na quarta, após trocar de corpo com Clark, se regenera, vira um homem de bem, desapegado dos bens materiais e capaz de fazer caridade. Porém, essa personalidade parece que não estava funcionando muito bem, e ainda na quarta temporada volta a assumir ser um homem de negócios, capaz do que for preciso para alcançar seus objetivos. Na quinta passa a ser oráculo de Jor-El, por estar de posse de uma das três pedras do poder, no momento em que Clark junta as outras duas. Mas isso não o impede de continuar chantageando quem for necessário, inclusive é o responsável pelo ataque cardíaco que mata Jonathan Kent. Porém, no final dessa temporada é defendido pelo Caçador de Marte, que alega que ele está do lado de Clark. Daí em diante ele é mostrado como alguém até de certa confiança dos Kent, mas com ressalvas, já que sempre que convém os roteiristas colocam Lionel como responsável por algum plano sombrio ou atividade suspeita. E ainda há a questão do assassinato dos pais de Lionel. Na terceira temporada ele interna Lex e o aplica terapia de eletrochoque para fazê-lo esquecer que Lionel matou os pais. Ele é preso no final da terceira temporada por esse crime. Contudo passa muitas outras temporadas depois negando que o tenha cometido. Claro que poderia apenas ser um mecanismo de defesa do personagem, porém nas vezes em que o nega, ele é sempre muito verdadeiro, como se realmente estivesse sendo sincero. Então por que correr o risco de matar Lex ou deixá-lo em estado vegetativo se ele era inocente desse crime?
4. Origem do Cristal da Fortaleza
Durante toda a quarta temporada Clark procurou e tentou unir as três pedras do poder que juntas formariam o Cristal que construiria a Fortaleza no Ártico. Uma trama bastante interessante. Pelo desenvolvimento da história parecia que as pedras tinham sido escondidas na Terra há séculos por kryptonianos, pois no século XVII a condessa Margaret Isobel Thoreaux já as procurava. Contudo, lá na nona temporada vemos um flashback de Jor-El com Zod em Krypton, e o pai biológico de Clark está preparando o Cristal para enviar à Terra. Ou seja, como Jor-El poderia ter sido o responsável por enviar o Cristal, se muitos séculos antes aqui na Terra já se procuravam por ele? Ou há um lapso absurdo de tempo entre a Terra e Krypton ou é um erro primário de enredo. Eu creio na segunda opção, já que foi uma cena da nona temporada, quando os criadores originais da série já tinham saído.
5. Aparência de Jor-El
Jor-El é apresentado na série pela primeira vez em flashbacks de Clark na terceira temporada. Ele tem a mesma aparência de Clark e é revelado que ele esteve em missão na Terra quando jovem, e se apaixonou pela tia-avó de Lana, isso lá pelos anos 60, ou seja, 20 anos antes da destruição de Krypton. Na sétima temporada, Lara, a mãe biológica de Clark, chega a confundi-lo com Jor-El quando o vê, devido a semelhança entre eles. Entretanto, na nona temporada vemos um Jor-El em Krypton, 20 anos antes da destruição do planeta, que nada tem a ver com a aparência de Clark ou com a idade que Jor-El é mostrado na visita à Terra lá na terceira temporada. Jogaram a continuidade às favas.
6. Jimmy que não era Jimmy
Se tem um personagem que foi sacaneado na série, esse foi Jimmy, ou melhor James Olsen. Culpa dos roteiristas, claro. Jimmy é apresentado na série na sexta temporada e entra no elenco fixo na sétima. Ele é definitivamente o clássico Jimmy Olsen dos HQs, tanto que há um extra no box do DVD da sétima temporada com vários Jimmys das séries de TV que já tiveram. Contudo, os roteiristas decidiram, por alguma razão, que não queriam mais trabalhar com o personagem a partir da nona temporada e resolveram simplesmente matá-lo no final da oitava. Para justificar tal ato, já que Jimmy não poderia morrer antes de Clark se tornar o Superman, resolveram fingir que na verdade Jimmy não era Jimmy, que era James, que o verdadeiro Jimmy era seu irmão ainda criança, de quem ninguém nunca nem tinha ouvido falar. Essa é de apedrejar os roteiristas.
7. Caixinha da armadura de São Jorge
Desde o início da primeira temporada somos apresentados à caixinha de chumbo, feita da armadura de São Jorge, que Lionel deu a Lex no aniversário de 14 anos dele, e esse flashback é mostrado durante a terceira temporada. Essa caixinha percorre muitas temporadas e passa por muitas mãos, desde quando Lex a dá a Clark. Contudo, lá na oitava temporada ela aparece em um flashback nas mãos de Lex ainda criança, quando ele ainda não a tinha recebido de presente de Lionel. Podemos até imaginar que a caixa já pertencia a Lionel e ele simplesmente resolveu dar ao filho quando ele fez 14 anos, mas é mais provável que seja mais um descuido dos roteiristas, já que lá no flashback Lionel apresenta a caixinha a Lex como se ele nunca a tivesse visto.
8. Dúvidas de Lionel sobre Clark
Durante a segunda e terceira temporadas, Lionel começa a desconfiar que há algo de estranho com Clark e passa a ficar cada vez mais obcecado por ele, como se nem desconfiasse o que poderia ser. Contudo, lá na sétima temporada revela-se que Lionel fazia parte da organização secreta Veritas, que aguardava a chegada de um viajante das galáxias. Na oitava temporada quando descobrimos que Davis Bloome também veio agarrado à nave de Clark, é revelado que Lionel já sabia que o viajante iria chegar no mesmo dia em que ele foi a Smallville com Lex. Lionel inclusive manda procurar pelo viajante e seus empregados encontram Davis e o levam a Lionel. Depois de algumas semanas, quando Lionel percebe que o viajante não é Davis, ele o abandona. E aí a série deixa no ar que uma das principais razões seria a descoberta de que os Kent adotaram um menino no mesmo dia da chuva de meteoros. Então desde essa época Lionel se já não soubesse que o viajante era Clark, ao menos desconfiaria. E com os recursos que ele tem, logo ele daria um jeito de se certificar. Assim não faz sentido as dúvidas de Lionel a respeito de Clark no início da série.
9. Objetos com múltiplas e bizarras funções
Os objetos kryptonianos são realmente bastante complexos, mas não para tanto. Ao longo da série, alguns tiveram novas funções que surgiram do nada, apenas para atender a necessidade do roteiro. Como por exemplo:
– Lois e Clark sendo enviados à Zona Fantasma só por segurarem o cristal da Fortaleza, quando isso nunca havia acontecido antes, e outras pessoas já tinham segurado e não foram enviadas.
– Bracelete de Kara que subitamente viaja no tempo.
– O DNA de Zod e de seus soldados dentro do orbe que serviria apenas para controlar os poderes de Clark. (Aqui vale mais uma observação. Como que o Zod aprisionado no orbe poderia saber da existência de Davis Bloome, e ainda orientar Tess a ajudá-lo ou destruí-lo, se o DNA do Zod no orbe era de antes do verdadeiro Zod ter criado o Apocalipse?).
10. Clark ressuscitando Zod
Quando Zod morre com um tiro na nona temporada, Clark, num ato de desespero, faz um corte em seu braço com kryptonita para derramar seu sangue na ferida de Zod, que acaba se curando e ressuscitando. A questão é: como Clark sabia que seu sangue poderia fazer isso? Podemos até supor que ele se recordou da terapia que Lionel criou com o sangue de Clark para ressuscitar os mortos na terceira temporada, mas então por que ele não fez o mesmo quando seu pai biológico Jor-El também morreu em seus braços?
11. Livro de RAO
Zod passa a nona temporada quase inteira procurando esse Livro de RAO, que Faora diz a Clark que é a fonte de conhecimento do universo, e que dará uma força poderosíssima a Zod. Contudo, no fim o livro de RAO só serve para mandar os kandorianos a uma nova diemensão. Uma solução bem conveniente para Clark se livrar de Zod.
12. Poderes inexplicáveis de Alia
Alia, a kandoriana que retornou do futuro com Lois, é responsável por um dos erros mais grosseiros de toda a série. Quando Alia chega com Lois no início da nona temporada, ela utiliza seus poderes para tentar matar Lois. Porém, existe uma razão, ainda não revelada nesta data, que a impossibilitaria de ter poderes. Alia é uma das cópias de DNA que Zod coletou em Krypton, mas essas cópias não adquirem poder sob o sol amarelo, apenas sob o sol vermelho. Se formos ao futuro, de onde Lois e Alia vieram, vamos encontrar mais um erro. Lá os kandonrianos estão com poder porque Zod bloqueou o sol amarelo, deixando-o vermelho. Porém, momentos antes de Lois retornar, Clark já havia desbloqueado o sol amarelo, retirando os poderes dos kandonrianos novamente. Ainda assim, Alia corre até Lois com sua supervelocidade, e as duas juntas voltam ao passado. Ou seja, quando Alia corre até Lois, ela já não poderia ter poderes, e muito menos no passado, onde ela chega com Lois. Uma sequência totalmente equivocada, sem o menor planejamento.
8 de outubro de 2024
Os 10 melhores episódios da série Sandy e Junior
O seriado Sandy e Junior foi ao ar de 1999 a 2002 nas tardes de domingo da Rede Globo. Um grande sucesso de audiência que catapultou a carreira da dupla, que já era sucesso no país. Os álbuns recordistas de vendas, “As Quatro Estações” e “Quatro Estações O Show”, além do prestigiado “Sandy e Junior 2001” e do disco internacional, o auge da carreira deles aconteceu justamente na época em que o seriado esteve no ar. Não dá pra negar a importância que a série teve na trajetória deles e na memória afetiva de uma geração que acompanhou a dupla e os episódios dessa galerinha mais ou menos semanalmente. Pensando nisso, decidi criar um ranking com os 10 melhores episódios que a série nos proporcionou ao longo de suas quatro temporadas. Tarefa das mais difíceis, já que são 154 episódios inéditos e mais 20 episódios intercalando trechos inéditos com reprises, que passavam no período de férias, totalizando 174, e se contar o episódio piloto que foi ao ar em 1998, fecha os 175. Entre o CEMA (Centro Educacional Mário de Andrade) e o Condomínio Mata Atlântica, muitas aventuras, romances e emoções tomaram conta dos nossos corações. Uma lista que atenda a todos os fãs é quase impossível, por isso deixo aqui essa simples contribuição daqueles episódios que mais me marcaram e me divertiram. Vamos lá!
10. Agora Eu Sou uma Estrela
Episódio da quarta temporada. Cansada de não conseguir decolar sua carreira de atriz, Patty pede a Junior pra fingir por um tempo que eles estão namorando até o nome dela circular na imprensa. Junior topa a proposta, mas Patty leva a brincadeira a sério demais e causa uma grande bagunça na vida de todos no condomínio. Ela agenda sessão de fotos para uma revista no apartamento deixando Beth e Bebel no corredor, passa a controlar a agenda de Junior e até o que ele deve vestir, desmarca os compromissos dele, destrata as fãs e chega a espalhar na imprensa que Sandy e Junior vão se separar pra ele se casar com ela. É quando Junior finalmente desmancha o acordo. É o melhor episódio dessa temporada. As situações que Patty cria, acreditando mesmo ser a namorada de Junior são muito divertidas. O ponto alto é quando ela sobe em cima do jeep de Junior e manda as fãs dele dispersarem, que “ele não é santo de procissão pra todo mundo passar a mão”. Hilário!
9. Por Uma Questão de Ordem!
Episódio da segunda temporada. Camilo precisa se afastar do colégio após pegar catapora e Rebeca arquiteta para assumir o seu lugar. A galera começa a gravar um programa de televisão pra aula de Miguel, mas Rebeca cancela para mostrar autoridade. Como nova diretora, ela começa a preparar várias mudanças na gestão da escola e implica com as vestimentas de Boca, que ao se rebelar é suspenso do colégio. Clara organiza um protesto, recebendo a mesma punição. Incrédulos, a galera se reúne com cartazes no pátio do CEMA. Rebeca ameaça expulsar Sandy, Junior, Clara, Boca e Gustavo se a revolta não terminar. Por fim, Elvira chama Camilo de volta, que tira a professora do cargo e a obriga a se retratar com os alunos, cancelando as suspensões e reativando o programa de televisão da galera. É o episódio que mais explora a megalomania de Rebeca e mostra onde ela poderia chegar se conseguisse plenos poderes. É interessante ver a galera toda unida contra o autoritarismo da gestão dela.
8. Mentiras e Verdades
Episódio da segunda temporada. Irene organiza um almoço de aniversário na rua de sua casa e convida a galera, que se junta para comprar uma geladeira nova de presente. Patty chega atrasada ao ônibus e ao ver Gustavo e Sandy sentados juntos, arma um barraco e decide não ir no ônibus com a galera. Ela contrata uma limousine e convida Marquinhos para ir com ela, a fim de provocar ciúmes em Gustavo, e ainda leva Boca, fingindo pra ele que Sandy fazia questão da presença dele. Lá na festa Patty começa a espalhar um boato de que a relação dela com Gustavo é séria e que ele já “invadiu a fronteira”. O fuxico passa por Sandy e chega aos ouvidos de Gustavo, que desmente a acusação e vai tomar satisfação com a patricinha, encerrando de vez a relação deles. É um episódio inusitado por fugir da ambientação tradicional da série. Ver Patty e Rebeca, acostumadas a ambientes finos, tendo que disfarçar a insatisfação de estar em uma festa popular de rua é impagável. Duda, Talita e Glorinha aproveitando os luxos da limousine é ótimo também.
7. Sua Majestade, o Bebê
Episódio da primeira temporada. A galera encontra um bebê abandonado na capela do CEMA e resolve cuidar dele na escola, escondido dos professores. Patty pede que Otacílio leve o berço antigo dela pro colégio e eles dormem na sala da torre com o bebê. Na manhã seguinte, eles fazem revezamento pra cuidar de João Vitor (nome que eles dão ao bebê), e a cada aula, um aluno falta, e todos dão aos professores a mesma justificativa pela ausência. Até que Elvira descobre e leva o assunto a Camilo, que se apaixona pela criança e decide adotá-la. O episódio é muito divertido, principalmente pelas peripécias que eles fazem pra esconder dos professores que estão cuidando de uma criança na escola. Otacílio estranha eles precisarem de um berço pra uma peça de teatro. Uma das cenas mais hilárias é Basílio tentando jogar a fralda suja na lixeira sem conseguir, porque tem sempre alguém ao lado delas. Quando ele finalmente consegue, Elvira vai lá, revira o lixo e pensa que Basílio é quem está usando fraldas.
6. Sandy e o Homem das Mil Faces
Episódio da segunda temporada. Sandy sonha que um pote de ervilhas é roubado de um museu por um homem sem rosto e com uma tatuagem de teatro na mão. No outro dia, parte da turma faz uma visita a um museu e um valiosíssimo colar histórico é roubado. Enquanto isso, Basílio e Mau vão buscar uma carga de ervilhas para fazer um festival culinário no trailer, com a ajuda de Irene e Valdete. Elvira conta que um famoso criminoso, conhecido como o Homem das Mil Faces, fugiu da prisão e a turma acredita que seja o mesmo do sonho de Sandy. Um fiscal chega ao colégio para apreender a carga de ervilha por irregularidade e Sandy reconhece a tatuagem em sua mão, o que o faz fugir. A turma desconfia que ele está em busca da joia roubada e procuram em todos os potes, até que acham o artefato e preparam uma armadilha para pegar o bandido na segunda noite do festival. É um episódio que mescla suspense, mistério e humor de uma maneira muito satisfatória. As diversas invenções dos quitutes de ervilha que Irene e Valdete acabam criando são momentos ótimos também.
5. Luz, Câmera, Ação (Partes I e II)
Episódio duplo da terceira temporada. A galera começa a produzir filmes para o departamento artístico do CEMA. Um filme ambientado nos anos 30, chamado Os Retocáveis, é a estreia da programação. Alvinho, um ex-aluno, é convidado a participar como o gangster da história. Enquanto isso, o trailer de Basílio some e Patty retorna das férias no oriente totalmente incorporada pela filosofia da paz cintilante. Os meninos descobrem o trailer num ferro-velho, mas o dono exige uma multa para devolvê-lo, Patty arca com a despesa e entra como sócia. A turma descobre que Alvinho está por trás do sumiço do trailer, por querer abrir um bar concorrente, e Sandy o dispensa do filme. A galera faz uma festa de arrecadação de fundos para alugar um galpão e expandir os negócios do trailer, agora chamado Espaço Detonação. Eles fecham uma parceria com a banda que era de Alvinho para tocar na reinauguração, mas ele confisca todo o equipamento. A galera então descobre que a aparelhagem era do dono do ferro-velho, fechando o aluguel diretamente com ele. E Sandy consegue com Camilo que a exibição do filme seja no Detonação. Esse eletrizante episódio duplo foi a estreia da terceira temporada e reformulou muitos conceitos na série. A introdução dos filmes produzidos pela galera deu um ar de sofisticação, assim como a mudança de comportamento de Patty deu um frescor à personagem. A diminuição da participação de Sandy devido às gravações da novela Estrela-Guia não chegou a ser muito sentida devido ao grande número de ações que aconteciam no episódio. Foi uma bela estreia de temporada.
4. O Feitiço do Arco-Íris
Episódio da segunda temporada. A relação de Sandy e Patty chega ao estopim durante um torneio de vôlei no CEMA, gerando uma grande briga entre elas. A turma decide ignorar Patty por um tempo, enquanto Elvira pune as duas mandando-as catalogar todos os tipos de minerais encontrados no jardim da escola. Começa a chover e um estranho fenômeno acontece quando elas passam debaixo do arco-íris, fazendo com que as duas troquem de corpos: Sandy vai parar no corpo de Patty e vice-versa. Irene, Valdete, Duda, Talita e Glorinha presenciam a cena e tentam descobrir uma maneira de fazê-las destrocar. A falsa Sandy aproveita para seduzir Gustavo e Boca, e se supervalorizar em relação a Junior na carreira da dupla. Enquanto isso a falsa Patty tenta explicar a história para a galera, que não lhe ouve. Irene e Valdete contam a verdade para a turma e descobrem um jeito de reverter a situação. É um episódio maravilhoso por nos mostrar Sandy interpretando Patty, com todos seus trejeitos e seu jogo de sedução. As cenas dela com Boca, Junior e Gustavo são surpreendentes e nos mostram uma atuação dela que pouco conhecemos. Os episódios que trazem Sandy fora da sua realidade são sempre muito interessantes.
3. Boa Romaria Faz quem em sua Casa Fica em Paz
Episódio da segunda temporada. Bebel passa por conflitos em casa e decide ir morar sozinha em uma barraca de camping no gramado do colégio. Ritinha também entra em atrito com Mau e decide ir morar com Bebel, formando juntas um acampamento sustentável, com horta e gerador à luz solar. Rebeca reporta a situação a Camilo e ele pede para Bebel e Ritinha desmontarem a barraca. Elas concordam, mas na verdade apenas mudam a barraca de lugar, instalando agora ao lado do trailer de Basílio, e Beth resolve ir morar com elas também. Em meio a isso, o professor Miguel sugere um trabalho sobre convivência e Sandy tem a ideia de produzir um documentário sobre o dia a dia das meninas na barraca. Após alguns dias, a convivência entre elas se torna insustentável e Basílio não suporta mais o acampamento atrapalhando seus negócios, entrando em guerra com elas. Uma tempestade derruba o acampamento e Bebel, Ritinha e Beth reavaliam a situação. O caos que se transforma esse episódio com a convivência das meninas ao lado do trailer de Basílio e a galera tentando produzir o documentário ao mesmo tempo é maravilhoso. É um daqueles episódios de arrancar as mais boas gargalhadas.
2. Um Cara Como Você
Episódio da segunda temporada. Patty organiza um jantar para apresentar Gustavo à família, mas ele diz que ainda não está pronto pra isso, fazendo com que ela rompa a relação e passe a ignorá-lo. Clara o encontra pensativo e os dois tem uma conversa sobre o tempo em que namoravam. Clara então pede a Sandy para marcar um encontro às escuras com Gustavo, e ela, a contragosto, concorda. Gustavo pensa que a garota que vai encontrá-lo é a própria Sandy. Ao chegar ao local, ele percebe que a admiradora secreta é Clara, e a dispensa carinhosamente. Ele então pensa em procurar Sandy para revelar o que sente, porém se depara com Patty, que o convence a reatar a relação. Um episódio muito especial para quem curte o casal Sandy e Gustavo. Aqui fica evidente que ambos estão apaixonados um pelo outro. É quando a relação deles mostra mais sinais de dar certo, mas as circunstâncias ainda não permitem que eles fiquem juntos. O episódio permeia ainda os outros romances de Gustavo, nos faz recordar a relação dele com Clara, a tentativa dela de reatar e a maneira carinhosa com que ele a faz perceber que a história deles foi especial, mas deve ficar no passado, apontando que o futuro dele é Sandy, embora o presente dele, Patty, ainda seja o momento em que ele vive. O clipe final com “Sua Estrela Sou Eu”, que já começa na televisão do trailer de Basílio, com Sandy solitária e carente em um café, vestindo um sobretudo numa noite fria e chuvosa, a olhar o tempo, é um dos momentos mais inesquecíveis da série.
1. Uma Canção Para Sandy
Episódio da primeira temporada. Em meio aos ensaios de lançamento do novo disco da dupla, Sandy é convidada para cantar em um show beneficente sem Junior, mas ela recusa, sabendo que os jornais diriam que ela estava partindo para a carreira solo. Junior pede para que ela faça o show, uma vez que é por uma boa causa. A relação dos irmãos fica estremecida pelas notícias de que vão se separar, porém eles conseguem superar os boatos e continuar a dupla. Um episódio mais que especial para os fãs, que relembra a carreira deles, mexe com a polêmica comum à época, de uma suposta separação da dupla, e reafirma a força que é a carreira dos dois juntos. O episódio que eternizou “Dias e Noites” como hino da união da dupla merece aqui ser lembrado como o melhor da série.
Ainda há muitos outros episódios inesquecíveis e marcantes, que poderiam estar aqui nessa lista, mas não cabem. Tenho certeza de que outros fãs conseguiriam criar uma lista com mais 10 episódios especiais rapidinho. Foi uma tarefa difícil pra mim chegar a esses 10, por isso deixo uma menção honrosa a esses outros episódios abaixo também:
T1: Um Anjo Veio Aqui
T1: No Peito e na Valentia
T1: A Rádio CEMA está no Ar
T1: Quer Dançar Comigo?
T1: A Perna Curta da Mentira
T1: Uma Força pro Cupido
T1: Todos Por Todos
T2: A Alma do Negócio
T2: Sandy e Junior e o Senhor do Tempo
T4: S.O.S Sandy
E vocês? Quais episódios são especiais pra vocês e ainda não estão aqui?
23 de outubro de 2024
Ranking dos álbuns de Sandy e Junior
A tarefa de enumerar os álbuns de Sandy e Junior do pior ao melhor, a princípio, pode parecer simples, afinal eles começaram muito crianças e cada álbum novo conseguia superar o anterior em qualidade, caso não fosse, eles não conseguiriam ter chegado tão longe. Contudo, a partir de algum momento essa regra é quebrada e alguns discos mais recentes conseguem ser superados por outros mais antigos. É claro que essa é uma lista bastante subjetiva, vai ter quem discorde de algumas posições, vai ter quem não abra mão daquele disco preferido que nunca foi unanimidade entre os fãs. Enfim, como fã histórico dessa dupla, ex-cover, com décadas de histórias em comum, resolvi me arriscar e descrever sobre as qualidades e a sonoridade que mais me agradam, e claro, a memória afetiva que todos esses discos e essas músicas nos trazem. Analisarei os 16 álbuns (12 de estúdio e 4 ao vivo), não incluindo o último da turnê Nossa História, por se tratar mais de uma comemoração da carreira deles e não apresentar nenhuma canção inédita. Quer sentir? Vem comigo...!
16º. Aniversário do Tatu
Era de se esperar que este disco estaria na útima posição. O mais simples, ingênuo e cru da carreira deles. Tudo muito bobinho ainda. As canções com letras bastante infantis, falando da natureza, dos animais, de fazenda, impregnado de sertanejo, seguindo a posposta da época. Consigo destacar aqui as duas canções em estilo de lambada: “Charada” e “Lambamania”. O ritmo que estava em alta no fim dos anos 80 e início dos anos 90 e fez muitos artistas gravarem ao menos uma canção no estilo. Essas duas músicas fogem um pouco do padrão sertanejo do disco e conseguem se destacar. Entre as canções sertanejas, uma se sobressai, “Casamento Natural”, com participação de Xororó, é uma canção despretensiosa, mas gostosa de se ouvir, mesmo hoje, passados tantos anos. Os dois singles mais famosos do disco, “Aniversário do Tatu” e “Maria Chiquinha” não dizem muito mais hoje em dia, talvez agradem algum fã pela afetividade, mas seus méritos ficam só no passado.
15º. Sábado à Noite
O segundo disco deles consegue melhorar a qualidade das canções em relação ao anterior, e ouso dizer que quase consegue superar o terceiro disco, que só consegue ganhar pela sonoridade pop rock investida em algumas canções, mas no apanhado geral, Sábado à Noite traz algumas canções mais interessantes do que Tô Ligado em Você. “Vamos Construir” é sem dúvida a melhor. Mas temos também “Guardiã dos Animais”, “Infância Careta”, “Como Nós Somos Unidos”, “Criança, Vida e Luz”, e ainda os próprios singles “Sábado à Noite” e “A Resposta da Mariquinha”, que trazem melodias simpáticas e conseguem falar com seu público ainda hoje.
14º. Tô Ligado Em Você
O terceiro disco e a primeira guinada na fuga do estilo sertanejo da dupla. A aposta aqui foi o musical Grease, de onde Sandy herdou o nome, e a jovem guarda. O pop rock passou a dominar mais, mas ainda há a presença do sertanejo. “Primeiro Amor” é a melhor canção do disco, mas também temos outras boas baladas com “Como é Bom Gostar” e “Eu Quero Voar”. O ritmo que caracteriza o álbum fica por conta de “Tô Ligado Em Você” e “Splish Splash”. Mas ele traz também canções que conseguem ser mais fracas e infantis do que as do disco anterior, como “Coitadinho do Jacaré” e “Capitão Sujeira”. Há também “Ciumeira”, uma tentativa de recriar uma canção nos mesmos moldes de “A resposta da Mariquinha”, mas o resultado é desastroso.
13º. Você é D+!
Eis aqui a primeira quebra na sequência dos álbuns da carreira deles. Temos um disco que não conseguiu ser melhor do que o anterior, apesar de ter sido muito bem sucedido também. Você é D+! traz boas canções, como “Sonho Real” (versão do filme Dirty Dacing), “É Cedo Pra Amar Assim”, “Doce Como o Mel”, “Além da Imaginação”, “A Gente se Gosta Demais”, e a própria “Você é Demais”. Mas pecou por focar mais no infantil com a clássica “O Universo Precisa de Vocês (Power Rangers)”, se distanciando da imagem já mais juvenil que haviam construído no disco anterior, Pra Dançar Com Você. Mesmo o single seguinte, “Vai Ter Que Rebolar”, não conseguiu desvencilhá-los dessa imagem. Apesar de, mercadologicamente falando, a aposta nos Power Rangers ter sido um grande acerto da gravadora. Temos aqui também a participação especial de Xuxa em uma das canções mais sem graça do disco, “Rap do Aniversário”.
12º. Pra Dançar Com Você
O quarto álbum da dupla foi o mais bem sucedido da fase infantil deles. Só a presença da canção “Com Você” já vale o destaque desse disco. A música foi muito bem produzida e a voz de Sandy na gravação está brilhante. O disco mergulha muito no rock da jovem guarda com regravações de clássicos como “Devolva-Me”, “Vem Quente Que Eu Estou Fervendo”, “Minha Fama de Mau”, “O Bom”, “Filme Triste” e “O Pica-Pau”. Faz uma releitura de “Nascemos Pra Cantar” de Chitãozinho e Xororó. Explora o dance-pop com “Dance, Dance, Dance”. Temos também uma Sandy muito bem debochada regravando Rita Lee com “Maria Mole”. E o disco ainda emociona com a canção “Criança Esperança”, composta para o programa de TV. Apesar de serem ainda crianças, o disco tinha uma cara mais séria, de pré-adolescentes, o que foi perdido um pouco no lançamento do disco seguinte.
11º. Dig-Dig-Joy
O primeiro disco definitivamente do início da era teen deles. Aqui as músicas começam a deixar de ser mais infantis e passam a focar na chegada da adolescência e na descoberta do amor. Apesar da faixa título ainda remeter a um universo mais lúdico, temos “Não Ter”, que faz a transição para a música pop e leva o status deles a um outro nível. Ainda temos a clássica “Etc... e Tal”, a contagiante “Como Um Flash” (outro tema de filme, Flashdance), a divertida “Férias de Julho”, e “Dias e Noites”, que virou hino da dupla, graças ao episódio “Uma Canção para Sandy” da primeira temporada do seriado da Rede Globo. Outras duas músicas merecem também ser mencionadas: “Me Apaixonei” e “Cada Coisa em Seu Lugar”. Mas nem tudo é perfeito, há 5 canções fracas no disco: “Eu Vou Te Namorar”, “Golpe Certo”, “Jambalaya”, “Mala Sem Alça” e “Mamãe Não Me Falou”.
10º. Ao Vivo no Maracanã + Internacional Extras
Terceiro álbum ao vivo da dupla e o único duplo. O disco 2 é um apanhado das canções da carreira internacional que não foram lançadas no Brasil. No ao vivo, só há canções dos três últimos álbuns lançados e há duas músicas de outros artistas, gravadas pela primeira vez por eles: “Uninvited”, de Alanis Morissette e “Como é Grande o Meu Amor Por Você”, de Roberto Carlos, mas não são versões de estúdio, faz parte do repertório do show. As maiores novidades desse álbum ficam por conta do Internacional Extras. Nele temos duas canções inéditas, “Until I See You Again” e “I Wanna Be Where You Are”, e as versões em inglês de dois dos maiores sucessos da dupla: “I Will Lift You Up (As Quatro Estações)” e “The Moon And The Deep Sea (A Lenda)”. Também tem a versão em espanhol “La Leyenda”. São justamente as músicas do disco 2 que faz esse álbum ser mais especial, do contrário, ele não conseguiria se destacar tanto.
9º. Acústico MTV
O último disco deles lançado na carreira é mais uma celebração, quase uma coletânea acústica ao vivo, o que significa que automaticamente traz canções que já estão presentes nos discos anteriores. Geralmente os álbuns ao vivo da dupla costumam trazer três faixas inéditas de estúdio, mas aqui no acústico isso não acontece, elas fazem parte do repertório ao vivo também. A mudança nos arranjos favoreceu algumas canções, mas desfavoreceu outras. A participação especial de Ivete Sangalo e Marcelo Camelo é o melhor momento do disco. Camelo imprimiu uma nova textura em “As Quatro Estações”, e Ivete deixou “Enrosca” mais temperada. Destaco ainda o novo arranjo de “Ilusão”. Mas as novas canções não são muito inspiradoras. “Abri os Olhos”, o principal single, é meio deprimente.
8º. Sandy e Junior 2006
O penúltimo disco lançado e o último de estúdio traz uma sonoridade bem distinta do que Sandy e Junior estavam acostumados a lançar. É um álbum muito bom, tem ótimas canções, mas não traz a característica que todos identificamos quando falamos da dupla. É Sandy e Junior sem a assinatura Sandy e Junior. E curiosamente é o álbum mais autoral de toda a carreira deles. Ele é o último suspiro da fase madura da dupla, que acabou sendo a mais curtinha. Destaco as músicas “Estranho Jeito de Amar”, “Replay”, “Tudo Pra Você”, “Ida nem Volta” e “Destinos”. A faixa “Nas Mãos da Sorte”, com participação de Milton Nascimento e Black Eyed Peas, e texto de Gabriel O Pensador, diverte e faz refletir ao mesmo tempo.
7º. Era Uma Vez... Ao Vivo
O primeiro disco ao vivo e o primeiro a atingir um milhão de cópias vendidas. Não é à toa que está aqui. Apesar de ser um álbum ao vivo, que traz músicas já presentes nos discos anteriores, ele se destaca pela presença das três faixas inéditas de estúdio: “Em Cada Sonho (My Heart Will Go On)”, “Cadê Você Que Não Está” e, principalmente, “No Fundo do Coração”, que pra mim carrega o disco sozinha. No repertório ao vivo, se sobressaem “Não Ter” remixada, “Beijo É Bom” sem o diálogo introdutório e o instrumental de “Eu Acho Que Pirei” no início, que acabou virando a abertura do seriado da Globo.
6º. Quatro Estações O Show
Mais um disco ao vivo. A celebração do sucesso de As Quatro Estações. O divertido CD com as quatro opções de capa para cada estação do ano e o recordista de vendas até hoje. Novamente aqui um álbum com a presença maciça de canções já presentes nos discos anteriores e outras três faixas inéditas de estúdio para garantir o sucesso do projeto. E o triunfo do disco veio justamente das inéditas. “A Lenda” pode ser considerada o apogeu da carreira da dupla, embora nem seja a música preferida da maioria dos fãs. “Enrosca” também ajudou a movimentar a divulgação do disco. A terceira inédita é a minha canção favorita da dupla, “Na Boa Sem Chorar”. Na tracklist ao vivo ainda temos quatro canções inéditas na voz deles, se contarmos “Pra Esquentar”, que é mais um introdutório do show. E ainda “You’re My # 1”, gravação em parceria com Enrique Iglesias para o álbum dele, aqui com Junior fazendo os vocais de Enrique.
5º. Internacional
O famoso disco em inglês que eles tanto desejavam gravar na época, a expansão da carreira ao mercado internacional e o investimento maciço da gravadora para torná-los ídolos teen mundialmente. O álbum não fez feio no Brasil, mas me parece que ele chegou a fazer mais sucesso pela américa hispânica do que no nosso país. Eu, particularmente, gosto muito desse disco, talvez mais ainda pela memória afetiva que ele me traz. Destaco aqui “Don’t Say You Love Me”, “We’ve Only Just Begun”, “When You Need Somebody”, “Don’t Run Away With My Heart” e “Super-Herói”. Além, claro, dos singles “Love Never Fails” e “Words Are Not Enough”.
4º. Identidade
O primeiro disco do início da fase mais madura da dupla. Aqui eles começam a ter maior autonomia e controle na produção do álbum. Eu sempre enxerguei esse disco como meio trilha sonora de Acquária. Ele tem “Encanto”, “O Mundo Que Se Vê”, “Libertar” e “Planeta Água” que são do filme. E as melodias de “Razões Pra Sonhar” e “Conto de Amor” pra mim ainda estão alinhadas à mesma vibe do filme. Mas sim, é um álbum muito forte na carreira deles. Tem os hits “Desperdiçou”, “Nada Vai Me Sufocar” e “Você Pra Sempre”. Destaco ainda “Quero Você”, “18 Graus”, “Razões Pra Sonhar”, “Libertar” e “Música e Paixão”. A partir dele a sonoridade de Sandy e Junior começa a mudar. Ele é o gérmen do disco de 2006.
3º. Sonho Azul
O sétimo álbum da dupla consegue aqui chegar ao top 3. Com ele, Sandy e Junior se consagraram como ídolos teen. Um dos discos mais queridinhos dos fãs até hoje. E a explicação está na sua diversidade de músicas pop românticas, um leque de composições muito felizes e vários singles de sucesso. Podemos começar destacando as clássicas “Beijo É Bom”, “Inesquecível” e “Eu Acho Que Pirei”. Mas não é só isso, temos também “Pot-Pourri Bee Gees”, “Ilusão”, “Little Cowboy”, “Felicidade Como For”. E um pouquinho menos conhecidas, mas queridinhas também: “Sonho Azul”, “Mais Um Tempo Pra Crescer” e “Não Abuse de Mim”. E não para ainda. Temos “Era Uma Vez...” que entrou na segunda tiragem do disco como faixa bônus, em razão da gravação da música para a novela da Globo. É um verdadeiro álbum de peso, digno de estar aqui na terceira colocação.
2º. Sandy e Junior 2001
Se há um álbum que é unanimidade entre os fãs, ele está aqui. O disco de 2001 chegou com a responsabilidade de substituir As Quatro Estações e não deixou a desejar. Ele é repleto de muitos dos maiores sucessos da dupla, como “O Amor Faz”, “A Gente Dá Certo”, “Não Dá Pra Não Pensar”, “Quando Você Passa (Turu Turu)”, “Cai a Chuva” e “Nada É Por Acaso”. E ainda tem outras músicas conhecidas do público e queridinhas de alguns fãs, como “A Estrela Que Mais Brilhar”, “O Lugar Perfeito Pro Amor Viver”, “Baby, Liga Pra Mim”, “Chuva de Prata” e “Endless Love”. É tanto sucesso que sempre gera discussão a disputa do melhor disco da dupla, com uma grande quantidade dos fãs o elegendo o favorito.
1º. As Quatro Estações
Por mais que o álbum de 2001 tenha sido maravilhoso e conseguido cumprir sua missão com louvor, nada conseguiu superar o êxito desse aqui. As Quatro Estações segue sendo o melhor disco da carreira de Sandy e Junior. Ele representou um novo rumo na trajetória da dupla e foi responsável por transformá-la no fenômeno comercial que conhecemos. O grande número de canções de sucesso do disco prova que as inovações ocorridas no repertório foram mais do que acertadas. São dele as músicas “Imortal”, “Aprender a Amar”, “Olha O Que O Amor Me Faz”, “Eu Quero Mais”, “Vamo Pulá!” e, claro, “As Quatro Estações”. O álbum ainda traz outras canções não tão famosas, mas conhecidas do público, como “Bye, Bye”, “Baby, Eu Já Sabia”, “Príncipe dos Mares”, “A Arte do Coração” e “Sua Estrela Sou Eu”. E ainda temos a belísssima canção italiana “Malia”, que foi produzida para a trilha sonora da novela Terra Nostra, fechando o disco. Por todo seu legado e o impacto cultural que causou, As Quatro Estações é, sem dúvida, o melhor álbum da dupla Sandy e Junior.
30 de outubro de 2024
Ranking das Temporadas da série Smallville
Todo fã de Smallville já tentou, voluntária ou involuntariamente, criar seu próprio ranking das melhores temporadas da série. Há quase um consenso de que Smallville só foi uma série boa de verdade até a sexta temporada. A partir da sétima, ela começou a enfrentar dificuldades na condução do roteiro e direção da história. E com a saída de três figuras importantes a partir da oitava temporada, Lana, Lex e Lionel, ela perdeu muito da sua força e características originais. Claro que cada fã tem sua temporada preferida, e cada temporada tem uma subjetividade que vai encantar ou frustar um fã em particular. Então como fã assíduo e apaixonado por Smallville desde os primórdios, resolvi estabelecer meu ranking das melhores temporadas da série, com todo o carinho que ela merece, mas atento aos inevitáveis deslizes que percorreu. Somebody save me...!!!
10º. Nona Temporada
A temporada mais decepcionante de todas é também a mais sombria. Embora logo no início tenhamos um vislumbre interessante do que seria o desenrolar da temporada com as visões de Lois do futuro, a temporada se perde quando o futuro que Lois visitou é alterado e não se realiza mais. A partir daí a temporada começa a patinar. Passa a focar na busca de Zod pelo livro de RAO, que seria a fonte de conhecimento do universo e lhe daria uma força inimaginável. No entanto, o livro só serve para enviar os kandorianos a uma nova dimensão. Uma solução muito conveniente para os roteiristas se livrarem deles. A temporada ainda é cheia de furos no roteiro. No episódio em que Zod morre com um tiro, Clark ressucita seu inimigo derramando seu sangue na ferida dele, mas não pensou em fazer o mesmo quando Jor-El também morreu em seus braços. Em outro momento, quando a kandoriana Alia retorna do futuro com Lois e tenta matá-la, ela não poderia mais ter poderes, porque os kandorianos só tinham poder sob efeito do sol vermelho, e minutos antes das duas retornarem do futuro, Alia já não poderia mais ter poderes. Esse é o furo mais escancarado de toda a série. Aquele episódio dos zumbis também é um dos momentos mais patéticos. E ainda temos a questionável decisão de Clark usar sobretodo preto como uniforme. Talvez nessa temporada só se salvem os episódios sobre a Sociedade da Justiça e o retorno de Martha Kent.
9°. Oitava Temporada
Essa temporada começou prometendo trazer um novo ânimo à série, que vinha cambaleando na temporada anterior. A aguardada parceria de Clark e Lois no Planeta Diário parecia fazer o seriado entrar nos eixos novamente, mas esse fôlego durou apenas alguns episódios. Apesar de ter alguns momentos bons, como a participação da Legião e o retorno de Lana, e muitos fãs a considerarem uma das melhores temporadas, ela peca em três pontos cruciais. O primeiro é, em razão da história de Davis Bloome, ter feito Lionel desconfiar ou praticamente ter certeza de que Clark é o viajante pouco tempo depois da chuva de meteoro, tornando totalmente sem sentido todas as dúvidas que Lionel tinha a respeito de Clark durante as primeiras temporadas. Um furo de roteiro que jogou no lixo todo o valioso trabalho realizado no início da série. Vale destacar que a partir dessa temporada, os criadores originais saíram de cena e os diretores executivos assumiram a autoria da história. Os outros dois pontos dizem respeito às mortes de Lex e Jimmy. Matar Lex foi uma decisão bastante equivocada dos roteiristas. Um personagem tão importante não poderia morrer de uma maneira tão estúpida. Eles poderiam apenas tê-lo mantido sumido para trazê-lo de volta no fim da série. Teria tido muito mais impacto do que trazer um clone dele. Já Jimmy só morreu porque os roteiristas não queriam mais trabalhar com ele na temporada seguinte. Então inventaram aquela falácia de que Jimmy não era o verdadeiro Jimmy, apenas o irmão mais velho dele. Sendo que desde que o personagem foi apresentado, lá na sexta temporada, ficou claro que se tratava de Jimmy Olsen dos quadrinhos. A falta de compromisso com o legado da série é o que destrói essa temporada.
8º. Sétima Temporada
Uma temporada meio problemática, talvez em parte pela greve dos roteiristas que afetou seu desenvolvimento, inclusive impossibilitando Kristin Kreuk de retomar Lana nos últimos cinco episódios, em razão de seu compromisso com o filme de Chun-Li. Mas antes disso, a temporada já estava fraca. A série vinha numa crescente até a sexta temporada e a partir daqui tem uma queda e começa a perder um pouco sua direção. A chegada de Kara parecia ser o grande diferencial, mas acabou não surtindo o efeito esperado. O romance de Lana e Clark, aqui finalmente livre de segredos, ficou sem força, quase apático. A saída de Martha Kent também fez falta para o universo de Clark, especialmente com a chegada de Kara. Entretanto, talvez por contar ainda com a presença de Lex, Lionel e Lana a temporada consegue se sair melhor do que a oitava e a nona. Destaco aqui a história de Grant Gabriel, o clone do tão emblemático Julian Luthor. E o desenvolvimento da sociedade secreta Veritas. Ponto positivo também para o assassinato de Lionel por Lex, um dos pontos mais altos dessa temporada.
7º. Décima Temporada
A última temporada tenta resgatar a origem da série, mas fica um pouco difícil com a ausência de tantos membros do elenco original. Até Chloe, a única que permaneceu até a nona temporada, só aparece em alguns episódios aqui. Contudo, eles conseguiram trazer Jonathan e Martha Kent, Lionel Luthor, Kara, Zod e finalmente Lex Luthor na parte II do episódio final. A participação de todos esses personagens aquece um pouco o coração dos fãs fiéis e saudosos. A temporada acaba servindo mais para fortalecer e estabelecer a relação de Clark e Lois, a cumplicidade entre os dois, com Clark finalmente compartilhando seu segredo com ela. Há outros momentos interessantes, como o arco que envolve a luta contra o Ato de Registro dos Vigilantes, também os episódios focados nas duas famílias Luthor e Kent. Contudo, aqueles episódios parodiando Matrix e Se Beber Não Case é um ponto fora da curva. No fim, é uma boa temporada, mas apesar de todo o esforço, ainda não consegue superar tudo que já tinha sido feito nos seis primeiros anos.
6º. Segunda Temporada
O segundo ano de Smallville foi como uma continuação da primeira temporada, mas com alguns avanços no arco da série. Aqui temos Clark revelando seu segredo a Pete, e este passando a ser seu novo aliado. Temos a introdução da visão de calor e da kryptonita vermelha, nos proporcionando momentos maravilhosos de um Clark Kent sem pudores. Temos ainda a descoberta das Cavernas Kawatche e toda a sua importância na busca das origens de Clark. Há ainda Martha trabalhando com Lionel, que por ter ficado cego passa a morar com Lex. E por fim, temos o Dr. Virgil Swann, na simbólica participação especial de Christopher Reeve, trazendo as mensagens espaciais com a revelação do nome de batismo de Clark, Kal-El, do nome do seu planeta e o conhecimento da sua extinção. A fase final dessa temporada é quase uma preparação para a incrível temporada seguinte. A prova que Smallville era definitivamente uma série que tinha chegado pra ficar e que tinha muito ainda a ser explorado.
5º. Primeira Temporada
Apesar da segunda temporada ter mergulhado mais na mitologia do Superman, a primeira temporada é a razão da série existir e ter feito tanto sucesso. É a origem de tudo, a introdução dos personagens tão queridos dos fãs ainda no início de seus conflitos. Temos um Clark descobrindo novos poderes ao mesmo tempo que tenta administrar os que já têm. Temos a valiosa orientação da família Kent na construção do seu caráter. Temos ainda um Lex amigo, que apesar do interesse no mistério que ele acredita ser Clark Kent, ainda demonstra uma verdadeira afeição pela sua amizade com Clark. Temos o início do envolvimento amoroso entre Clark e Lana, aqui ainda sob a sombra de Whitney. E temos o início da construção da relação de Lionel e Lex, seus conflitos e traumas do passado e a busca de Lex por um recomeço de seus anos de erros em Metrópolis. É uma temporada apaixonante e que tem um dos primeiros desfechos impactantes da série.
4°. Sexta Temporada
A última temporada bem desenvolvida de Smallville costuma, às vezes, ser subestimada, como se a série já estivesse um pouco perdida aqui, o que não é verdade, até o final ela prova ser uma autêntica temporada de Smallville. Apesar do arco principal ser a captura dos prisioneiros fugitivos da Zona Fantasma, ela acaba mesmo sendo a temporada da relação entre Lana e Lex, que culmina no controverso casamento, em um dos pontos mais altos da temporada. E talvez, justamente pela relação de Lana com Lex, muitos considerem que a série perde o foco, mas a maneira como a relação entre eles é construída, desde a quinta temporada, tem muito embasamento. É um processo. Primeiro a carência de Clark leva Lana a se aproximar de Lex, como se quisesse fugir de si mesma. Depois quando ela começa a enxergar o verdadeiro Lex e pensa em sair da relação, se vê impossibilitada. O evento do casamento e a descoberta da falsa gravidez são os grandes catalisadores que fazem virar a relação e levar Lana agora a buscar vingança contra Lex. Essa transformação da personagem é fantástica. E a temporada ainda nos introduz a Oliver Queen/Arqueiro Verde, de maneira brilhante. Assim como apresenta a formação da Liga da Justiça. E traz a figura de Zod, possuindo o corpo de Lex, logo no início. É sim uma grande temporada.
3º. Terceira Temporada
A terceira temporada de Smallville tem uma das mais espetaculares estreias. Temos um Clark sem censura, conscientemente sob efeito da kryptonita vermelha, assaltando banco, explodindo viaturas da polícia, enfrentando mafiosos e curtindo as noites de Metrópolis, tentando esquecer seu passado. Ao mesmo tempo que temos Lex, dado como morto, sobrevivendo numa ilha deserta em meio a muitos delírios. No decorrer da temporada, temos a construção da história do assassinato dos pais de Lionel, orquestrado por ele próprio, e que vai culminar no surto psicótico de Lex, num dos momentos mais emblemáticos de toda a série, envolvendo a figura de Morgan Edge. Ainda temos a terapia de ressuscitação, a partir do sangue de Clark, que leva Adam Knight a se aproximar de Lana. Temos também Lionel chantageando Chloe para obter informações sobre Clark, o que afeta a confiança de Clark nela. Lana e Pete indo embora de Smallville. Clark dando as costas a Lex, depois de descobrir que ele continua investigando sobre sua vida. E, por fim, Lionel preso. A sequência final do último episódio é a explosão de todos os conflitos bem armados ao longo de uma temporada de arrepiar.
2º. Quarta Temporada
Uma temporada espetacular! A começar pela entrada de Lois Lane na história. Desde o primeiro momento Erica Durance se mostrou perfeita no papel da inquieta e destemida Lois. Temos aqui o primeiro e mais incrível voo de Clark em toda a série. O grande arco dessa temporada se concentra na busca das três pedras do poder, que juntas irão formar a Fortaleza da Solidão no final da temporada. A busca pelas pedras envolve os Luthors, os Teagues e até uma bruxa do século XVII, a Condessa Margaret Isobel Thoreaux, possuindo o corpo de sua descendente Lana. Em meio a toda essa caça, temos a relação de Lana e Jason Teague, e sua misteriosa mãe, Genevieve. Temos Clark finalmente entrando para o time de futebol americano da escola. Chloe descobrindo o segredo de Clark e mantendo sigilo, à espera que ele próprio confie nela e lhe conte. Lana causando o caos do Kansas à China, sempre que a Condessa Isobel toma seu corpo. Temos ainda a formatura do High School com a despedida do cenário da Tocha e seu mural do esquisito. E pra completar essa eletrizante temporada, temos uma segunda chuva de meteoros, que traz a desordem a Smallville e uma nova espaçonave. É uma temporada de perder o fôlego, com a melhor assinatura Smallville.
1º. Quinta Temporada
A melhor de todas as temporadas é a que faz a transição do High School para o Planeta Diário, para Metrópolis. É quando a série atinge o seu melhor momento. Lana e Clark finalmente engatam um relacionamento que, apesar dos percalços, dura 16 episódios. Surge a Fortaleza da Solidão. Chloe vira a fiel confidente de Clark e começa a trabalhar no Planeta Diário. Lois entra para o elenco fixo. Jonathan decide concorrer ao Senado contra Lex. Aparece um dos melhores vilões da série, Brainiac/Milton Fine. Tem início o envolvimento de Lana com Lex, e o seu enveredamento pelo lado sombrio. E temos a despedida de um dos mais queridos personagens de Smallville, Jonathan Kent, em um dos episódios mais emocionantes da série inteira. Destaco ainda dois episódios muito marcantes. O primeiro deles é Exposed, quando Lois e Clark bancam os detetives numa investigação de assassinato, e, durante uma sequência maravilhosa, Lois faz strip tease numa boate, ao som de Don’t Cha. O outro é o episódio de natal, Lexmas, em que Lex é baleado na cabeça e durante a cirurgia, ele sonha com uma vida completamente diferente, onde ele está casado com Lana, tem um filho, esperam outro, moram numa casa modesta e tem o carinho e o respeito dos Kent. É uma temporada de encher os olhos. Daqui Smallville não conseguiu ir mais longe. A quinta temporada foi o ápice de uma das melhores séries de super-heróis já produzidas.
5 de novembro de 2024
Os melhores finais de temporada de Smallville
Se tem um aspecto em que a série Smallville conseguia se destacar eram os finais de temporada. Sempre que algum ano ia finalizar era certeza ter um grande episódio pela frente, com acontecimentos que nos causaria espanto, fascínio, paixão, preocupação, entre outros sentimentos, e nos prenderia à espera da nova temporada. Isso começou já na primeira temporada e foi seguindo assim ao longo dos anos. A fórmula era basicamente a mesma, desestabilizar um evento importante, provocar o caos, colocar os principais personagens em situações de perigo extremo, gerar acontecimentos impactantes, que pareciam não ter solução, deixando o desfecho para o início da temporada seguinte, o que gerou inevitavelmente incríveis estreias de temporadas. Tanto é que os melhores episódios finais são justamente aqueles que mais caos apresentam em seu roteiro. Em alguns momentos tivemos finais não tão eletrizantes assim, mas no geral a série nos presenteou com ótimos desfechos. Pensando nisso, decidi eleger os melhores finais de temporada de Smallville ao longo de suas dez temporadas. Uma tarefa delicada, já que estamos falando de dez episódios que deixaram sua marca na história da série, e por isso é sempre complicado apontar falhas ou equívocos de roteiro, mas tentarei ser justo.
10º. Doomsday (Oitava Temporada)
A oitava temporada conseguiu ter o episódio final mais insípido de toda a série, o mais sem nexo. Durante toda a temporada foi construída a narrativa que Davis Bloome iria se transformar definitivamente no Apocalypse e ele seria um inimigo invencível para Clark. Quando chegamos no último episódio, Clark separa Davis da besta, e na sequência temos uma luta simplória entre eles, antes de Clark enterrá-lo nos túneis de uma instalação geotermal e explodi-los. Enquanto isso, durante uma comovente cena de reconciliação entre Chloe e Jimmy, Davis acerta Jimmy com uma vara que atravessa seu corpo. A sequência seguinte é o enterro de Jimmy, com Chloe colocando a câmera fotográfica no pescoço do irmão caçula dele, que nunca ninguém ouviu falar, simbolizando que ele é que seria o Jimmy Olsen das HQs. Depois Clark, num tom totalmente sombrio e melancólico, diz a Chloe que Clark Kent morreu e desaparece. O episódio termina e nos deixa literalmente com a sensação de “que merda foi essa”? Parace que a intenção dos roteiristas era chocar a qualquer preço, numa urgência de criar um final extraordinário. Ninguém entendeu a necessidade da morte do personagem de Jimmy. Foi a última pá de cal numa temporada que não soube preservar o legado da série.
9º. Arctic (Sétima Temporada)
Uma temporada problemática não poderia nos fornecer um final muito interessante. Todo o episódio é focado na finalmente chegada de Lex Luthor à Fortaleza da Solidão. Começamos com Brianiac disfarçado de Kara ameaçando Edward Teague num jatinho e derrubando o avião. Ele ainda tenta ganhar a confiança de Lex, depois de não conseguir roubar o orbe. Chloe acaba sendo outra vítima dele, antes de Clark conseguir destrui-lo numa estação de alta voltagem. Ainda temos o videotape de Lana para Clark, avisando que ela vai sair da vida dele para sempre. E na Fortaleza, temos o aguardado confronto entre Clark e Lex, com este finalmente conhecendo seu segredo. Depois de muitas acusações e apelos de Clark, Lex insere o orbe na Fortaleza e ela desmorona sobre o dois. Infelizmente, não foi um fim de temporada brilhante, como estávamos acostumados, até o efeito do colapso da Fortaleza ficou aquém do que a série já produziu.
8º. Final (Décima Temporada)
O final da série, que traz o desfecho de toda a história ao longo dos dez anos, surpreendentemente, não consegue ser o melhor final de temporada. O episódio emociona em alguns momentos, até pela concretização de acontecimentos aguardados há muito tempo, mas no geral não consegue ter um conjunto de situações impactantes que englobem todo o episódio. A primeira parte do episódio duplo foca no casamento de Lois e Clark. A princípio ela está insegura, por achar que o mundo precisa mais de Clark do que ela, mas acaba mudando de ideia. O casamento é interrompido ao verem o planeta Apokolips, associado a Darkseid, se aproximar da Terra. O momento mais emocionante dessa primeira parte são as palavras de força e encorajamento de Martha e Jonathan para Clark aceitar finalmente seu destino e enfrentar Apokolips. Na segunda parte, os melhores momentos ficam por conta do retorno de Lex, seu reencontro com Clark e o confronto com Tess na Luthorcorp. E, claro, Clark finalmente vestindo seu uniforme e salvando o planeta, embora de uma maneira muito singela para um momento tão aguardado. Incomoda no episódio a utilização da ameaça de um planeta como último recurso para enfrentar Clark. Parece que os roteiristas já tinham esgotado todas as possibilidades de impressionar nos finais das outras temporadas, que só restou um planeta com impacto suficiente para ameaçar Clark. Me pareceu um recurso preguiçoso. Tudo é resolvido de forma fácil, sem convencimento e emoção, características tão presentes em tantos finais de temporadas anteriores. Contudo, a concretização dos desfechos tão aguardados de toda a série somam alguns pontos e conseguem imprimir um sabor especial ao episódio, como a sequência final ao som do clássico do Superman.
7°. Phantom (Sexta Temporada)
O final da sexta temporada é o primeiro a cair um nível dos eletrizantes finais de temporadas da série. Não chega a ser ruim, mas não emociona suficientemente como os anteriores. Ele começa com a tentativa de J’onn J’onzz e de Lex de capturar o hospedeiro do fantasma mais poderoso que escapou da Zona Fantasma. Temos Lana avisando a Clark que vai se separar de Lex e que já sabe seu segredo. Chloe curando Lois de uma facada apenas pelo toque de sua lágrima e ficando inconsciente. Lex ameaçando Lana, depois que ela diz que vai largá-lo, e o carro dela explodindo com ela dentro. E na represa, para onde Lex levou o atual hospedeiro do fantasma adormecido e onde ele tem seu exército de clones, desenrolam-se os acontecimentos finais, com o fantasma acordando e destruindo tudo e todos pela frente, Clark acusando Lex de matar Lana, o fantasma se chocando contra Clark e criando uma cópia idêntica dele, Lex sendo preso pelo assassinato de Lana e a cópia de Clark fugindo ao romper a represa. Um bom final, mas não superior aos outros já produzidos.
6º. Salvation (Nona Temporada)
Salvation é o episódio final da nona temporada, nos mostrando o confronto final entre Clark e Zod. Ela tem um início interessante, com Clark tendo um sonho com um vislumbre do futuro, em que Lois já é a principal repórter do Planeta Diário, Perry White o editor-chefe, Lex Luthor está concorrendo à presidência e uma sombra azul e vermelha pelo céu salva um avião de se chocar contra o jornal. Quando ele acorda, se depara com um pacote deixado por Martha, o uniforme oficial do Superman. É uma bela simbologia do destino da série. O episódio segue com Zod tentando convencer Lois de que ele é o borrão e pedindo ajuda dela para encontrar o Livro de RAO. Tem ainda os kandorianos espalhando o símbolo de Zod nos principais monumentos ao redor do mundo. Lois seguindo sua própria investigação e descobrindo não só que Zod mente, mas que Clark é o borrão. E Clark finalmente convencendo os kandorianos a irem para um outro mundo, usando o Livro de RAO. Contudo, Zod consegue se livrar ao puxar uma adaga de kryptonita azul e travar uma luta com Clark. Ele consegue enfiar a adaga em Clark, mas acaba sendo sugado também pelo dispositivo quando Clark cai da borda do prédio. É um final surpreendente para uma temporada fraca.
5º. Covenant (Terceira Temporada)
A terceira temporada tem uma das sequências finais mais emblemáticas de toda a série, mas o episódio em si no geral não é tão impressionante. O episódio começa com a chegada de uma jovem nua, dizendo ser Kara e que precisa levar Clark com ela. Ela demonstra ter os poderes de Clark e ainda desintegra um espião que escutava a conversa deles na fazenda. Segundo ela, todos em volta de Clark vão abandoná-lo ou trai-lo, o que acaba acontecendo. Clark descobre que Lex continua investigando a vida dele e rompe a amizade com ele após depor contra Lionel. Lana vai embora para Paris. Clark então decide ir para a caverna com a suposta Kara. Mas Jonathan descobre que a tal moça na verdade se chama Lindsay e não é de Krypton, Jor-El apenas a usou para atrair Clark. Com a indecisão de Clark, Jor-El suga Lindsay e enforca Jonathan, obrigando Clark finalmente entrar na fissura da caverna. Daí temos uma das mais célebres sequências de toda a série. Após a condenação de Lionel Luthor, um carcereiro começa a raspar a cabeça dele. E enquanto raspa, Martha corre para ver um círculo de fogo que surgiu na fazenda, Chloe e seu pai chegam à casa de proteção a testemunhas e em seguida a casa explode, Lex bebe um drinque em casa para comemorar a prisão de Lionel e engasga ao perceber que a bebida estava envenenada, caindo sobre uma mesa de vidro, Jonathan permanece desacordado no chão da caverna, e Clark, sem roupa, flutua dentro do símbolo da casa de El, em um ambiente escuro, sob a voz de Jor-El afirmando que ele irá renascer. Um final que nos deixa de queixo caído.
4º. Exodus (Segunda Temporada)
Um excelente final de temporada, repleto de reviravoltas. Ele tem início com a nave espacial de Clark assumindo as memórias e a vontade de Jor-El e dando a Clark vinte quatro horas para deixar sua família e cumprir seu destino kryptoniano. Temos Lana e Clark juntos pela primeira vez, em clima de puro romance, preocupados em como contar para Chloe sobre eles, sem desconfiarem que ela já sabe. Temos a duplicata da chave do buraco da caverna, feita de kryptonita, que Lionel produz, e Clark decide usá-la para destruir a nave e evitar que ele tenha que abandonar Smallville. Enquanto Martha e Jonathan seguem para o casamento de Lex e Helen, Clark dá início ao seu plano, rejeitando a visita inesperada de Chloe, que acaba perdendo a paciência com ele e aceitando a oferta de Lionel para estagiar no Planeta Diário em troca de informações sobre Clark. Ao enfiar a chave na nave, Clark consegue destrui-la, mas causa uma enorme explosão e uma gigantesca onda de choque, que vira a picape de Jonathan e Martha, resultando no aborto dela. Arrasado, Clark decide abandonar Smallville como Jor-El queria, e nem os apelos de Lana, aos prantos, o convencem do contrário. Ele enfia o anel de kryptonita vermelha no dedo, monta na moto e vai embora. E ainda temos Lex acordando atordoado no avião que sairia em lua de mel, em meio a uma turbulência, sem ninguém no controle, indo direto para o mar. Um espetacular final de temporada.
3º. Vessel (Quinta Temporada)
A quinta temporada tem um dos melhores finais de temporada de Smallville. O episódio é focado em Brainiac preparando o corpo de Lex para Zod assumi-lo. E o dilema de Clark em matar ou não o receptáculo de Zod, o que automaticamente mataria Lex. Ainda no começo, Lex é abduzido por Brainiac na frente de Lana, e ao retornar, ele tem os mesmos poderes de Clark. Brainiac espalha um vírus no computador de Lex e todos os sistemas de energia do mundo, a partir do Kansas, começam a falhar. Em pouco tempo, o caos se instala nas principais cidades. No celeiro, Clark confronta Lex, mas lança o facão em Brainiac, e com isso abre o portal para a entrada de Zod, que passa definitivamente a assumir o corpo de Lex. Zod então envia Clark para a Zona Fantasma, depois que ele se recusa a se juntar a ele. No topo do Planeta Diário, Zod é surpreendido pela chegada de Lana que afirma que não o abandonará. E eles se beijam, sem que ela saiba que se trata de Zod. Um final eletrizante e na mais completa desordem, no melhor estilo Smallville.
2º. Tempest (Primeira Temporada)
O final da primeira temporada ainda é um dos melhores e mostrou que desde o início a série sabia criar ganchos impactantes. O episódio começa com Lionel reunindo os empregados da LuthorCorp e anunciando, repentinamente, que fechará a fábrica de Smallville. Temos Whitney anunciando a Lana que irá se juntar ao Corpo de Fuzileiros Navais e pedindo que ela o espere. Temos Roger Nixon descobrindo o segredo de Clark e chantageando Jonathan. Lex tentando comprar a fábrica junto com os empregados. Temos também Clark e Chloe indo ao baile juntos, em meio aos primeiros sinais de uma tempestade no ar. Ainda a emocionante despedida de Lana e Whitney na rodoviária. E finalmente os tornados que chegam aumentando a tensão e o caos, jogando o carro de Lana para fora da estrada, arrebentando as janelas da mansão Luthor em meio a uma briga entre Lex e Lionel, e fazendo Martha e Jonathan buscar refúgio no abrigo da fazenda, onde Nixon já se encontra filmando a nave de Clark e usando a chave, que tinha roubado de Lex, para fazê-la funcionar. Enquanto isso, na estrada, os três funis se unem formando um gigantesco funil que engole o carro de Lana com ela dentro, aos berros, ao mesmo tempo que Clark chega correndo e, desesperado, mergulha no tornado. Esse episódio foi o padrão que se seguiu para os finais de temporadas de Smallville, sempre com muito caos, destruição e situações inesperadas, mas poucos conseguiram ser tão bem-sucedidos como esse.
1º. Commencement (Quarta Temporada)
Só uma temporada conseguiu superar o final da primeira, não à toa os dois episódios tem muita similaridade entre si. A quarta temporada traz o melhor desfecho de temporada da série. É quando Clark finalmente consegue juntar as três pedras do poder, que foi o arco central de toda a temporada. O episódio já começa num embate maravilhoso entre Lana e Genevieve, que termina com a condessa Isobel possuindo Lana e matando a mãe de Jason com uma das pedras. A cerimônia de formatura de Clark, Chloe e Lana é interrompida por veículos militares anunciando uma nova chuva de meteoros que cairá sobre a cidade em poucas horas. É o início do caos. Lana, ainda em estado de choque, entrega a pedra suja de sangue a Clark, por acreditar pertencer a ele. Lex prepara a ida dela para Metrópolis de helicóptero e perde a cabeça quando não encontra mais a pedra com ela. Jason chega à fazenda dos Kent também em busca das pedras e ameaça Jonathan e Martha com uma espingarda, quando o primeiro meteorito cai exatamente sobre a fazenda Kent, e os demais seguem destuindo tudo e causando pânico na cidade. O helicóptero de Lana é atingido por vários deles e cai. Clark une as três pedras na caverna e elas se transformam em um cristal, que o teletransporta para o polo ártico. Lana sai dos destroços do helicóptero, se arrasta até uma cratera e se depara com uma espaçonave preta gigante. E Clark, atordoado, atira o cristal, que voa longe. Todos os elementos para criar um grande episódio estão presentes aqui: um evento importante acontecendo, uma força da natureza ameaçando a cidade, personagens importantes em perigo, corre-corre, confusão, assassinato, emoções a mil. É o mais impactante final de temporada. Um desfecho memorável para uma das temporadas mais bem amarradas de toda a série. E a preparação para a melhor temporada, que viria no ano seguinte.
7 de novembro de 2024
As melhores estreias de temporada de Smallville
Assim como os finais de temporada de Smallville eram sempre grandes momentos na série, as estreias também eram cercadas de grandes acontecimentos. Muitas das situações que movimentavam os episódios de estreia tinham início no final da temporada anterior, ou eram consequência direta dela. As mudanças no tom das temporadas e o fio condutor que envolveria todo aquele ano já era definido na premiere. E os elementos-chave para compor um grande recomeço envolvia não só produzir uma excelente conclusão ao conflito iniciado no fim da temporada anterior, como engatar o novo arco que percorreria todo aquele novo ano. A tarefa de enumerar as melhores estreias de temporada de Smallville é bem mais difícil do que os finais, porque a série nos proporcionou melhores aberturas do que encerramentos ao longo dos anos, então praticamente todas as estreias são boas, deixando bem maior o desafio de definir qual é mais superior a outra. Com isso em mente, eu os convido a me acompanharem nesse passeio por esses dez icônicos episódios, como quem vai assistir a premiere de mais uma emocionante temporada. Toca a intro e me segue...
10º. Bizarro (Sétima Temporada)
Bizarro foi a estreia da sétima temporada, uma das mais problemáticas, e mostrou aqui que já não começou muito bem. O episódio não é ruim, mas é muito aquém das estreias de temporadas já produzidas e das que ainda seriam. Aqui temos a continuação dos conflitos iniciados no fim da sexta temporada. Então temos Clark lutando contra Bizarro, o fantasma que criou uma cópia sua. A represa se rompe e Lex fica submerso, sendo resgatado pela figura de uma jovem loira que desaparece voando. Lionel é capturado enquanto está desacordado na margem do rio. Chloe, dada como morta, volta à vida na gaveta do necrotério do hospital. Lex vai preso como principal suspeito do assassinato de Lana. E Clark descobre uma maneira de derrotar Bizarro, com a ajuda do Caçador de Marte. Em Xangai, uma mulher loira caminha pelas ruas, e quando tira a peruca, vemos que é Lana. E a jovem misteriosa que salvou Lex aparece pensativa, colocando uma pulseira com o símbolo da casa de El, antes de sair voando. O episódio tem alguns pontos interessantes, faz um certo mistério sobre a morte de Lana, até revelar que ela está viva, e introduz Kara, a prima de Clark na série, que será um dos destaques da temporada, mas no geral o episódio não empolga muito.
9º. Lazarus (Décima Temporada)
O início da décima temporada tenta levar a série de novo às suas origens. Enquanto segue desacordado no chão com a adaga de kryptonita azul enterrada em seu abdome, Clark mergulha num astral espiritual e se vê no mesmo milharal onde ficou preso no episódio piloto, mas se depara com uma lápide com seu nome e tem um vislumbre de Lex Luthor vestido de branco. Lois tira a adaga da barriga dele e Clark desperta. Chloe usa o capacete do Senhor Destino para localizar Oliver. Tess acorda no Laboratório Cadmus com o rosto restaurado e se depara com vários clones de Lex, e um deles, ainda criança. Um outro clone envelhecido e furioso escapa e incendeia o laboratório, fugindo. Clark salva Tess e segue para o milharal, onde o Lex degenerado prendeu Lois em um círculo de fogo. Antes de morrer, Lex ainda arma uma bomba no globo do Planeta Diário. Mas Clark consegue salvar Lois e segurar o globo, numa referência à clássica cena do Superman. Chloe se oferece em troca de Oliver. Lois viaja para a África para conseguir lidar com a descoberta do segredo de Clark. E Clark tem uma visão de Jonathan na fazenda, o encorajando a seguir o seu destino. É uma estreia que tenta aproximar os primórdios da série com o grande destino de Clark, mas também não entusiasma muito.
8º. Odyssey (Oitava Temporada)
Odyssey é a estreia da oitava temporada, seguindo a história um mês após os acontecimentos do final da sétima. A Fortaleza desmoronou sobre Clark e Lex e eles seguem desaparecidos. Arqueiro Verde, Canário Negro e Aquaman tentam localizar algum sinal deles, assim como a LuthorCorp, que agora está sob o comando de Tess Mercer. Lois investiga o paradeiro de Chloe, que foi levada supostamente pelo FBI, no entanto, ela se encontra na prisão Black Creek, tendo sua superinteligência submetida a testes. Clark está sem poderes numa cidade da Rússia, trabalhando em um campo de trabalho escravo. Oliver consegue localizá-lo e o resgata de lá. Enquanto isso, em Black Creek Chloe é forçada a localizar os membros da Liga da Justiça, através de números de telefones. Clark, Oliver e Lois conseguem entrar na prisão e resgatam Chloe e os membros da Liga, mas Clark acaba sendo baleado e é salvo pelo Caçador de Marte, que restabelece seus poderes. Por fim, ficamos sabendo que Tess está de posse do Cristal do Conhecimento, que forma a Fortaleza, e Clark revela a Lois que será seu novo parceiro de trabalho no Planeta Diário. É um ótimo início de temporada, e apesar da ausência de três importantes membros regulares da série, o episódio consegue trazer um frescor à série, que não vinha muito bem no ano anterior. A enfim parceria de Lois e Clark no Planeta Diário aponta para um novo horizonte, cheio de possibilidades. Infelizmente, a temporada não conseguiu fazer jus à sua estreia.
7º. Savior (Nona Temporada)
Seguindo a linha determinada no fim da oitava temporada, a atmosfera sombria toma conta desse episódio, dando o tom da nova temporada. É a introdução do Major Zod, que chega à Terra junto com vários outros kryptonianos, graças aos clones armazenados no orbe alienígena. Eles tomam conta da mansão Luthor e fazem Tess de refém, enquanto tentam entender como vieram parar ali e por que estão sem poderes. Temos Lois que retorna do futuro em companhia de uma mulher que tenta matá-la. Clark, agora assumindo o seu treinamento com Jor-El e o compromisso de defender Metrópolis, passa a deixar sua marca em cada ação que executa. Ele enfrenta a mulher que tentava matar Lois e descobre, antes dela morrer em seus braços, que ambos já se conheciam do futuro. Chloe passa a morar na Torre de Vigilância e começa a equipá-la com a mais alta tecnologia junto de Dr. Emil. E Lois tem uma série de visões perturbadoras do futuro, envolvendo um céu vermelho, a morte de Chloe, Oliver cavando na terra, e cenas de amor dela com Clark. É um início promissor de temporada, pena que ela não conseguiu seguir assim ao longo do ano.
6º. Vortex (Segunda Temporada)
A segunda temporada segue as consequências da tempestade que varreu Smallville no fim da primeira. E já começa com um voo espetacular da nave de Clark sobre a cidade, seguindo direto para o grande funil do tornado, onde Lana e Clark estão. Lana tenta se proteger o máximo possível dentro da picape que voa em círculos. Clark consegue alcançar o carro e protege Lana com seu corpo, que escapa sem muitos ferimentos. Lex hesita em salvar Lionel, mas acaba o retirando debaixo dos escombros. No hospital, Lionel corre sérios riscos e Lex autoriza a cirurgia. Jonathan e Nixon estão presos numa tumba subterrânea sem saída. Depois de muita procura, Clark finalmente os encontra, mas Nixon usa kryptonita para conseguir levar Clark com ele. Jonathan trava uma luta com Nixon, e Lex acaba matando Nixon com um tiro, antes que ele mate Jonathan. Lionel sai da cirurgia cego e culpa Lex. Lana começa a desconfiar que Clark esconde um grande segredo, mas ele desconversa. E a nave de Clark descansa tranquila em meio a um milharal. É um excelente início de temporada. Temos os conflitos entre Lionel e Lex se acentuando, Lana abrindo os olhos para o fato de que Clark esconde um segredo, e os Kents percebendo que não conseguirão evitar que o mundo descubra a verdade sobre Clark.
5º. Zod (Sexta Temporada)
A sexta temporada começa das consequências imediatas do término da quinta. Clark está preso na Zona Fantasma, sem poderes, vulnerável ao ataque dos criminosos enviados para lá. Ele conhece Raya, uma kryptoniana que foi assistente de seu pai, Jor-El, e ela o ajuda a fugir de lá. Mas na fuga, outros fantasmas acabam escapando também e se espalham pela Terra. Enquanto isso, Zod, no corpo de Lex, dá início ao seu plano de transformar a Terra numa nova Krypton, e pede a Lana, que agora sabe que ele não é Lex, que lhe dê um herdeiro. Ela reluta e ele a prende pela mão com uma faca. Martha vai à Fortaleza pedir auxílio a Jor-El e descobre que a única solução para deter Zod é matá-lo com a adaga. Ao comunicar a Lionel, Lana se oferece para fazê-lo, porém o plano não dá certo e Zod destrói a adaga. Depois de uma intensa luta, Clark simula uma rendenção ajoelhando-se perante Zod, mas ao tocar a mão dele, Clark ativa o cristal que Raya havia lhe dado e envia Zod de volta à Zona Fantasma. É uma estreia de temporada maravilhosa, repleta de ações. Ela nos mostra, pela primeira vez, como é o ambiente da Zona Fantasma e abre o arco da temporada que será a captura dos criminosos fugitivos da Zona Fantasma, que escaparam junto com Clark.
4º. Pilot (Primeira Temporada)
A origem de tudo, o primoroso episódio que nos apresentou Smallville não poderia ficar de fora do top 5. É um dos episódios pilotos mais bem elaborados até então. Ele dosa ação, emoção, romance e a mitologia do Superman de uma maneira brilhante. Temos a introdução com a chuva de meteoro caindo sobre a cidade, matando os pais de Lana, fazendo Lex ficar careca no milharal – como efeito de um dos impactos -, e Jonathan e Martha encontrando Clark, depois que a picape sai da estrada e vira. Nos dias atuais, encontramos um jovem Clark lidando com sua supervelocidade e força, ao mesmo tempo que tenta administrar sua paixão pela garota mais linda da escola, Lana Lang. Temos o retorno de Lex à Smallville para cuidar da fábrica de fertilizantes da LuthorCorp, e o seu encontro com Clark, ao atropelá-lo na ponte e ser salvo por ele. Temos Jonathan finalmente contando a Clark sua origem. E a linda sequencia do diálogo entre Lana e Clark no cemitério, quando eles passam a se conhecer melhor. Temos ainda Whitney, o namorado ciumento de Lana, prendendo Clark no milharal, e Clark salvando o colégio da sua primeira ameaça, o infectado de meteoro Jeremy Creek. O roteiro é tão perfeito, tão caprichado na apresentação e construção dos personagens, que é difícil não elegê-lo a melhor estreia da série.
3º. Arrival (Quinta Temporada)
A terceira melhor estreia de temporada de Smallville fica por conta da quinta temporada. Temos aqui o resultado da união das três pedras do poder e as consequências da chuva de meteoro que aconteceu no fim da quarta temporada. No polo Ártico, o Cristal do Conhecimento, que Clark lançou, mergulha na neve e começam a surgir grandes pilares de cristais de gelo até formarem a Fortaleza da Solidão. Jor-El explica que ela é uma réplica da geografia de Krypton para que Clark possa começar seu treinamento. Enquanto Clark ajuda Chloe, sob as ameaças de Jor-El para voltar antes do pôr do Sol, em Smallville Lana vê dois kryptonianos saírem de dentro da nave espacial, perguntando por Kal-El e explodindo todos os carros de polícia que chegam ao local. Lex a encontra na estrada, em estado de choque, e a leva para a mansão, onde Lionel, em estado catatônico, rabisca no chão um símbolo kryptoniano e diz a Lana que a kryptonita é a única fraqueza dos alienígenas. Num hospital no Ártico, Chloe e Clark finalmente conversam abertamente sobre o segredo dele. Lois ajuda Jonathan a encontrar Martha nos destroços da casa deles e seguem para o hospital, onde os kryptonianos chegam destruindo tudo em busca de Kal-El. Lana os convence a ir para a mansão, onde eles quase caem na armadilha, mas conseguem escapar. Clark os encontra e, após um breve confronto, eles tentam enviá-lo para a Zona Fantasma, mas ele resiste e acaba arremessando os dois. Ao ajudar Lana, o Sol se põe e Clark perde seus poderes. Por fim, Lana e Clark finalmente se entendem. Ela o informa sobre a nave, mas Clark só encontra a cratera dela no local. Enquanto isso, num galpão vigiado da LuthorCorp, a nave repousa e um lodo preto começa a escorrer dela, tomando a forma de Brainiac. É uma das mais eletrizantes estreias de temporada de Smallville, com cenas marcantes e sequências impressionantes. Temos a introdução da Fortaleza, a chegada de Brainiac, Chloe virando a confidente de Clark e o romance entre Lana e Clark finalmente deslanchando pra valer, dando início a uma nova fase da série e à melhor temporada de Smallville.
2º. Exile (Terceira Temporada)
Exile não é apenas uma das melhores estreias de Smallville, é simplesmente um dos melhores episódios de toda a série. Ele começa três meses depois dos acontecimentos do final da segunda temporada. Temos um Clark Kent, sob efeito intencional de kryptonita vermelha, vivendo em Metrópolis, sob o codinome Kal, arrombando caixas eletrônicos para comprar carro de luxo, desfilando com as garotas mais bonitas da cidade nas boates mais badaladas e invadindo um grande assalto a banco para ficar com o dinheiro. Ele ainda é alvejado por inúmeros tiros de escopeta ao sair do banco e explode um dos carros da polícia, antes de fugir. Enquanto isso, Lex é dado como morto, depois da queda do avião, e Helen posa de viúva, sem saber que Lex está vivo numa ilha deserta, lutando pela sobrevivência e tendo alucinações com um outro náufrago que tenta matá-lo. Jonathan e Martha, sem notícias de Clark, estão tendo que leiloar a fazenda para quitar as dívidas. Lionel pressiona Chloe para obter mais informações sobre Clark, mas ela diz não ter, quando na verdade já localizou Clark em Metrópolis e acaba contando a Lana, que vai procurá-lo e se surpreende com o comportamento dele. O grande chefão do crime, Morgan Edge, quem estava por trás do assalto ao banco que Clark invadiu, localiza Clark e o convence a realizar um assalto para ele na LuthorCorp. Bem no exato momento em que Clark põe as mãos no objeto do cofre de Lionel, Jonathan, que adquiriu poderes temporariamente com Jor-El, aparece dizendo que vai levar Clark pra casa, e os dois travam uma briga, despencando do prédio da LuthorCorp. O episódio é tão intenso que não tem um desfecho completo nele, sua conclusão fica pro episódio seguinte, Phoenix. O roteiro é tão bem construído e amarrado como o do episódio piloto. As sequências de ação e as atitudes surpreendentes de Clark são momentos únicos em toda a série. Não dá para terminar de assistir esse episódio e não bater palmas para sua grandiosidade.
1º. Crusade (Quarta Temporada)
E a medalha de ouro é a estreia da quarta temporada. Nela temos, simplesmente, o maior e melhor voo de Clark em toda a série, e só por isso ela já merecia estar aqui. O episódio já começa com a introdução de Lois Lane procurando pelo paradeiro de sua prima Chloe, três meses depois dos acontecimentos do final da terceira temporada. Um acidente na estrada faz Lois presenciar o retorno de Clark no milharal, completamente nu e sem memória. No Egito, Lex obtém secretamente uma antigo artefato e paga muito alto para esconderem seus rastros por lá. Na prisão, Lionel recebe a visita de Lois, que tem certeza de que ele é o responsável pela morte de Chloe. Em Paris, Lana curte seu novo namorado, Jason Teague, que a leva até uma igreja para fazer um trabalho sobre história da arte na lápide da Condessa Margaret Isobel Thoreaux, mas quando Lana toca num símbolo da cripta, uma grande onda de energia brilhante flui por seu corpo. Ela acorda no dia seguinte em casa, atordoada, e com uma grande tatuagem nas costas. Uma turbulência no jatinho de Lex o faz derrubar a estátua, que se quebra, revelando um cristal misterioso, a primeira das três pedras do poder. Clark ouve um som vindo do cristal e assume a identidade de Kal-El de Krypton, insensível aos apelos de Martha e dando início ao seu mais belo voo em toda a série. Ele alcança o jatinho de Lex, arranca a porta e carrega a pedra consigo. Na prisão, Lex acusa Lionel de ter pego a pedra dele. Kal-El coloca a pedra em uma câmara secreta nas Cavernas Kawatche, e ao sair defronta-se com Martha, que pressiona a kryptonita preta sobre o peito dele, fazendo Clark e Kal-El lutarem entre si pelo controle, até Clark vencer. Por fim, no cemitério, Lois visita o túmulo de Chloe e promete descobrir quem a matou, enquanto Clark usa sua visão de raio-x e avisa a Lois que não há nenhum cadáver no túmulo. Uma estreia de tirar o fôlego, um episódio muito bem costurado, trazendo novas camadas à série, com a introdução do arco central das pedras do poder, a imersão de Lana na mitologia com o espírito da Condessa Isobel, a chegada de Lois Lane e o primeiro voo de Clark. Nenhuma temporada, antes ou depois, conseguiu um nível tão alto na estreia como essa. Foi, sem dúvida alguma, a melhor premiere de Smallville.
14 de novembro de 2024
As melhores temporadas da série Sandy e Junior
O seriado Sandy e Junior foi um marco pra geração do fim dos anos 90 e início dos anos 2000. Ao longo de quatro temporadas, a galerinha mais ou menos passou por muitas aventuras, romances, intrigas, e acima de tudo, muita amizade. Do outro lado da tela fez a diversão das tardes de domingo de muita gente pelo Brasil afora. Durante os três primeiros anos teve como cenário o fictício colégio Centro Educacional Mário de Andrade (CEMA), que funcionava na verdade no Liceu Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora, em Campinas. Ali a galera e o time de professores viviam das mais simples às mais inusitadas experiências de um turma do ensino médio. Ao fim do terceiro ano e com a formatura, a série muda de cenário na quarta temporada e passa a ser ambientada no Condomínio Mata Atlântica, agora com o dia a dia dos moradores como pano de fundo para as histórias que aconteciam. Para analisar as melhores temporadas do seriado, não irei considerar os 20 episódios de férias, que passaram entre a primeira e a segunda temporadas, e entre a segunda e a terceira, já que eles eram, em sua maior parte, reprises dos episódios já exibidos, com poucas cenas inéditas. Assim, levarei em consideração apenas os episódios legítimos das quatro temporadas.
4º. Terceira Temporada
A terceira temporada tem um começo muito promissor, com os episódios Luz, Câmera, Ação e a galera produzindo filmes para o departamento artístico do CEMA. As histórias passam a ficar um pouco mais adultas, e mesmo com a diminuição da participação de Sandy durante a primeira parte da temporada, devido às gravações da novela Estrela Guia, a galera consegue segurar os episódios a contento. Contudo, logo depois, as histórias começam a ficar menos interessantes, com apenas uma ou outra com algum destaque. Só com a saída de Gustavo, já depois da metade da temporada, e a chegada de Bruno, as histórias voltam a envolver e tem um final cativante. O time de professores tem também aqui seu elenco mais fraco. A saída de Ludmila e de Miguel representa uma grande lacuna, que os novatos Lola e Galeno não conseguem suprir. Galeno fica poucos episódios e Lola se mostrou uma das professoras mais sem graça que a escola já teve. Tanto que eles tiveram que promover a professora Ana, que só fazia algumas participações, ao elenco fixo, e fizeram de Festa um professor auxiliar. Já na última parte da temporada, a série abandona a tradicional abertura com o instrumental de Eu Acho Que Pirei e começa a buscar outra identidade, colocando os créditos iniciais num clipe novo de Sandy e Junior a cada episódio, fazendo a série começar e finalizar com um clipe musical deles e ter uma música de abertura diferente a cada semana. Os destaques dessa temporada ficam por conta dos filmes que a galera produz e do romance de Sandy e Bruno. Mas devido aos episódios do miolo da temporada, ela fica aqui na última posição.
3º. Quarta Temporada
A quarta temporada é a mais diferente de todas, a única que não se passa no CEMA, que tem uma abertura única para todos os episódios e utiliza o recurso de voz em off de Sandy ou de Junior no início e no término dos episódios, com um pensamento ou frase que remete à situação vivida na trama daquele dia. As histórias aqui são as mais adultas de toda a série, centradas nos problemas do dia a dia e na vivência dos moradores do condomínio. O elenco original do seriado sofre uma grande redução, o time dos professores não retorna mais, com exceção de Valdete, que auxiliava Irene na cantina. Entre a galera, quatro não retornam também: Clara, Mau, Dodô e Teca. E temos o acréscimo de um novo elenco jovem, moradores do condomínio. O tema de abertura passa agora a ser o instrumental da música Não Dá Pra Não Pensar. A temporada reformula completamente a identidade da série, que vinha por três anos no universo escolar, e por isso muitos fãs a tem como a menos querida de todas, mas ela é bem mais desenvolvida do que a terceira, e se analisarmos unicamente a qualidade do seu roteiro e sua produção, sem o contexto afetivo das temporadas anteriores, ela é a melhor de todas. Caso a dupla tivesse optado por prosseguir com a série, conseguiria tranquilamente ter mais uma ou duas temporadas de sucesso pela frente. Os destaques dela ficam por conta do trio Patty, Beth e Bebel, da relação de Junior e Yoko e até das armações de Laila e da síndica Dona Marlene. O romance de Sandy e João Pedro, que parecia bastante animador, acabou ficando meio atropelado ao longo da temporada, e ele terminou se envolvendo com Ritinha, numa ligação sem muito desenvolvimento, enquanto ela teve uma relação meio embolada e sem química alguma com Tony. Alguns personagens, como Ritinha, mereciam ter tido mais destaque.
2°. Primeira Temporada
A primeira temporada é a origem de tudo, é a construção da identidade da série que todos se apaixonaram. Temos os episódios mais inocentes e carismáticos do seriado. O ano em que a turma está mais unida, e mesmo Patty ainda mantém uma amizade mais tranquila com a galera. O time de professores é excelente. Elvira aqui não é tão intransigente como foi apresentada no episódio piloto, nem ainda é a conciliadora e queridinha dos alunos como ficou conhecida depois, ela mantém um certo conservadorismo, num tom mais cômico, fazendo uma parceria ótima nas cenas com Irene, que tem aqui seus melhores momentos. A professora Carolina com seus mantras e incensos traz também uma atmosfera leve ao núcleo. Assim como o galante Marcão. O romance de Gustavo e Clara ainda é fofo, mas já começa a apresentar seus primeiros atritos. O personagem de Boca, que é introduzido a partir do episódio 15, a princípio só participaria de dois episódios, A Rádio CEMA Está no Ar e Bebel Não Vai Pro Céu, mas o personagem fez tanto sucesso que acabou entrando para o elenco fixo da série, e no fim da temporada acaba repetindo de ano, para cair na mesma sala da galera no ano seguinte. Marcos Mion participa apenas dessa temporada e entra para substituir o personagem de Fábio Azevedo, que participou de apenas quatro episódios e foi afastado pela produção, sem muita explicação, quando a série ainda estava se definindo. São dessa temporada os episódios do casamento de Elvira com Otacílio, dos alunos fazendo Irene se passar por professora para enganar a mãe dela, do bebê que eles encontram na capela do colégio, da participação de Lucas Lima como o anjo Biel e do boato da suposta separação da dupla. Vale destacar ainda que o lançamento do disco As Quatro Estações aconteceu enquanto essa temporada estava no ar, e a inclusão das novas canções trouxe um charme a mais na reta final dela.
1°. Segunda Temporada
E temos a campeã. Na segunda temporada, a série atinge seu melhor momento e nos apresenta os melhores episódios. Aqui o grupo já está bem definido, os atores estão mais seguros de seus personagens, que ganham novos contornos, principalmente Patty, Bebel e Ritinha. A introdução do trailer de Basílio como novo point da galera traz um clima mais boemio, principalmente às cenas noturnas. O time de professores ganha seus melhores membros, o professor de arte Miguel e a ambiciosa Rebeca, professora de literatura, responsável por bons momentos dessa temporada. Um dos episódios mais interessantes é justamente quando ela assume a direção do CEMA e acaba gerando um grande protesto entre os alunos, diante de seus métodos ortodoxos de administração. Aqui Patty passa a ficar mais individualista e ganha contornos mais vilanescos. Temos também a entrada das crianças Duda, Talita e depois Glorinha, que movimenta ainda mais o núcleo da galera. Valdete passa a fazer parceria com Irene na cantina. Junior e Clara começam a namorar. Patty e Gustavo também engatam um romance, mas é com Sandy que ele acaba desenvolvendo uma maior conexão. Aliás, a relação entre Sandy e Gustavo é o melhor ponto dessa temporada. Eles começam com uma paquera bem sutil, depois ele se envolve com Patty, e mais pra frente, a paixão entre ele e Sandy vai crescendo ao ponto de transbordar, resultando em ótimos embates entre Sandy e Patty, que não quer abrir mão do seu amado. Destaque também para as aulas de arte de Miguel, sempre em ambientes teatrais, com jogos, brincadeiras, encenações e filmagens de vídeo. O álbum de remixes da dupla foi bastante explorado aqui. São desse ano os episódios do feitiço do arco-íris, do vampiro, da viagem no tempo, do homem das mil faces, do circo, da encenação de Romeu e Julieta, do almoço de aniversário de Irene na comunidade e do sortilégio do amor, quando todas as meninas se apaixonam por Miguel e os meninos disfarçam Basílio de mulher para investigar. É a temporada mais característica da série, que traz os momentos que mais ficaram marcados na memória dos fãs.
27 de novembro de 2024
15 Melhores episódios de Smallville
Um dos maiores desafios para um fã de Smallville é elaborar uma lista com os melhores episódios da série. São mais de duzentos episódios em dez temporadas de um seriado que tem legiões de fãs. Há toda uma nostalgia, uma memória afetiva impregnada pelos incríveis momentos que a série nos proporcionou. Há arcos maravilhosos, encontros de super-heróis do universo DC, personagens das HQs em passagens marcantes, e, claro, a subjetividade de cada fã, tornando esse resultado um ranking que nunca será unanimidade entre os fãs. Ainda assim, elaborei minha listinha com os 15 melhores episódios de Smallville segundo o meu ponto de vista. Não foi fácil, há ainda diversos outros episódios que eu adoro e ficaram de fora, assim como há outros episódios que muitos fãs jamais deixariam de fora. Mas há que ser feita uma seleção, então, com muito carinho mergulhei novamente nesses quinze episódios que mais me emocionam, me divertem e falam diretamente comigo quando penso em Smallville. Vamos juntos embarcar para o Kansas novamente.
15º. Promise (Sexta Temporada)
O episódio do casamento de Lana e Lex é um acontecimento na série. Dividido pelos três pontos de vista de Clark, Lex e Lana, o episódio vai revelando que nada é o que parece ser. Enquanto Lex mata o médico que forjou com ele a gravidez de Lana, ela cria uma armadilha para descobrir o segredo de Clark e decide não se casar, avisando a Clark que ainda o ama, até que no último momento diante de uma chantagem de Lionel, se vê obrigada a assumir o compromisso e se casar com Lex, despedaçando o coração de Clark. É um episódio muito bem desenvolvido, que vai mostrando aos poucos o conflito que cada um enfrenta ao longo desse dia. Ao final temos a sensação de Lana estar indo para a prisão e que toda a história dela com Clark está perdida para sempre. É um grande momento para a série.
14º. Pilot (Primeira Temporada)
O primeiro episódio de Smallville ainda é um dos melhores episódios da série. Todo o capricho nos detalhes da apresentação e construção dos personagens encanta até hoje. Temos a chegada da nave de Clark na chuva de meteoro, impactando na vida de Lana, que perde os pais, e de Lex, que fica careca. Martha e Jonathan encontrando Clark. O salto para o presente e a vida de Clark adolescente tentando administrar seus poderes e seu amor por Lana, que namora o zagueiro do time de futebol, Whitney. O retorno de Lex para cuidar da fábrica de fretilizante da LuthorCorp e seu encontro com Clark, ao atropelá-lo na ponte. É tudo muito bem desenvolvido, as emoções são bem dosadas, as cenas envolvem, as ações não são à toa, acontecem dentro de um contexto. É um episódio de encher os olhos e que emociona sempre que se rever.
13ª. Onyx (Quarta Temporada)
O episódio em que Lex se divide em dois, como consequência de um experimento com kryptonita, resultando em duas versões de Lex. O bom, que valoriza a amizade de Clark e quer compartilhar todas as suas descobertas científicas com os amigos. E o mau, que ambiciona o poder, passa por cima dos sentimentos dos amigos, trai, mente, engana, chatageia e prende sua versão boazinha no porão com uma máscara de ferro. Mas o melhor desse episódio não é a separação de Lex, é o fato dele descobrir o segredo de Clark, inclusive sua fraqueza e mostrar toda sua vilania diante dos Kent. É daqui a célebre frase em que Lex pronuncia: “Eu sou o vilão dessa história”. É um momento-chave para a série por mostrar finalmente o grande vilão que ele irá se tornar.
12º. Spirit (Quarta Temporada)
O baile de formatura de Clark, Lana e Chloe é cheio de emoção. Após quase um ano inteiro afastados, conseguimos aqui ter um vislumbre de um possível retorno entre Clark e Lana. Depois que uma aluna obessessiva em ser a rainha do baile morre em um acidente na estrada, seu espírito vai passando de corpo em corpo a medida que toca nas pessoas. Passa por Martha, Lana e Lois, que convence Clark a ir ao baile. Na festa, ela ainda possui Chloe quando ela é eleita a rainha do baile. Mas o episódio é bom mesmo pelo momento de puro romance de Lana e Clark, dançando juntos ao som de You and Me do Lifehouse, depois de ambos terem dito que não iriam ao baile. Algumas situações merecem destaque também, como Martha quando é possuída pelo espírito da jovem e fica agindo como uma adolescente, e Lois implicando com o vestido e a posição da flor que o espírito da aluna escolheu pra ela usar.
11º. Crimson (Sexta Temporada)
Os episódios em que Clark é exposto à kryptonita vermelha geram seus melhores momentos, e aqui não é diferente. Lois usa um batom à base de kryptonita vermelha e se apaixona por Clark. Quando ela finalmente o beija, a kryptonita entra em contato com Clark e daí é uma cascata de situações vexatórias. Ele revela seus poderes a Lois e decide invadir o jantar de noivado de Lana e Lex, causando momentos maravilhosamente constrangedores. Ele questiona a presença de sua mãe ao lado de Lionel, alfineta Chloe sobre ela estar feliz com o casamento deles, e revela que Lana está grávida, sugerindo que essa é a razão do casamento. Depois ele a sequestra e a leva para o celeiro, onde se beijam, e ela o recrimina por só agora demonstrar seus sentimentos e de uma maneira tão vexatória. Lex o ameaça com um revólver, mas Martha salva Clark ao expô-lo a kryptonita verde. É um episódio no melhor estilo Clark rebelde, quando ele joga pra fora tudo que está guardado no seu íntimo, sem se preocupar com as consequências, nos proporcionando momentos ímpares.
10º. Transference (Quarta Temporada)
O episódio em que Lionel e Clark trocam de corpo, através de uma das pedras do poder. O objetivo de Lionel era trocar de corpo com Lex para fugir da prisão, mas devido à interferência de Clark, acaba escapando no corpo dele. As sequências de Lionel descobrindo o segredo de Clark são maravilhosas, assim como ele cheirando o cabelo de Martha e os confrontos com Lex, Chloe e Lana. Tom conseguiu imprimir as mesmas nuances de Lionel, os trejeitos, a maneira de andar e falar, que deixa todos os personagens espantados. É devido a essa transferência que Lionel fica curado da doença degenerativa no fígado que ele tinha, e muda radicalmente de personalidade, tornando-se um bom mocinho até quase o final da temporada. O episódio é uma experiência maravilhosa de acompanhar.
9º. Lexmas (Quinta Temporada)
O primeiro episódio de Natal de Smallville é tão mágico como a data. Numa mesa de cirurgia, depois de levar um tiro, Lex tem um sonho com o espírito de sua mãe, que lhe mostra uma vida completamente diferente. Casado com Lana, com um filho pequeno, à espera de outro, morando numa casa modesta, amigo dos Kents, apreciado por Jonathan, tudo parece um conto de fadas. Até que Lana dá a luz e começa a passar mal. Sem conseguir ajuda de Lionel, que o renegou no passado quando Lex abriu mão da sua fortuna, Lana morre em seus braços. Infelizmente, ao acordar, indignado com o desfecho da sua vida humilde, ele decide que a única solução para a felicidade é o dinheiro e o poder, e perde a oportunidade de uma vida feliz. A outra parte do episódio é Clark entregando presentes para crianças de casa em casa e tendo uma conversa com um velhinho bêbado fantasiado de Papai Noel. É um episódio no mais puro espírito natalino.
8º. Shattered (Terceira Temporada)
Um dos melhores momentos da terceira temporada e de toda a série. Lionel, com medo de ir preso pelo assassinato de seus pais, arma um plano para fazer Lex parecer louco, depois que Lex consegue a confissão de Morgan Edge de que eles foram os responsáveis pelo crime. Lex começa a agir como se estivesse em surto psicótico, fazendo os amigos desconfiarem se ele fala ou não a verdade. Até Clark chega a duvidar de sua sanidade, antes de descobrir que Lionel estava drogando o filho. Sobra para Lana também, que acaba embaixo de um cavalo com uma perna quebrada, depois que Lex cisma que ela o está drogando. Mas o melhor momento é o confronto entre Lex, Clark e Morgan, que resulta em Clark salvando Lex de ser atropleado por Morgan, ao se jogar na frente do carro, fazendo Lex descobrir seu segredo. A interpretação de Rosenbaum é fabulosa. E o desenvolvimento das situações que faz parecer que Lex está delirando são muito engenhosas. É um dos grandes momentos de toda a série.
7º. Red (Segunda Temporada)
O primeiro contato de Clark com a kryptonita vermelha nos presenteia com esse incrível episódio, o melhor momento da segunda temporada. Um fragmento de kryptonita vermelha em um suposto anel de rubi de formatura que Clark compra é o responsável pela catarse que acontece em sua personalidade. De repente ele começa a se sentir mais livre, com vontade de curtir a vida, compra vários eletroeletrônicos caros, muda o visual, passa a andar na antiga moto de Jonathan, avança o sinal com Lana, ao mesmo tempo em que paquera Jessie, uma jovem recém-chegada a Smallville, fugitiva da polícia federal com seu pai. Ele ainda pega a Ferrari de Lex emprestada, entra em conflito com os pais e decide abandonar Smallville e ficar rico com os seus poderes. É aquele momento que todo fã jamais esperou, mas sempre aguardou, ver Clark esquecer sua moral e ética e aproveitar o que seus poderes oferecem. Uma maravilhosa experiência pelo labo B de Clark.
6º. Arrival (Quinta Temporada)
O início da quinta temporada nos proporciona um dos grandes episódios da série. A construção da Fortaleza da Solidão e a chegada de uma nova nave espacial com dois kryptonianos em busca de Kal-El. Temos maravilhosas sequências de ações com os kryptonianos explodindo todas as viaturas de polícia que cercam a nave, Lana cruzando a rodovia em estado de choque e quase sendo atropelada por Lex, os alienígenas seguindo a destruição no hospital e Lana bancando a heroína, tentando enganá-los com kryptonita. Ainda temos Clark finalmente tomando conhecimento de que Chloe já sabia sobre seu segredo, dando início à grande parceria entre os dois. E por fim, ainda há a chegada sorrateira de Brainiac e a retomada da relação de Clark e Lana, que finalmente deslancha.
5º. Tempest (Primeira Temporada)
O final da primeira temporada, além de ser um dos melhores finais de temporada, é um dos melhores episódios da série. Desde o anúncio de Lionel sobre o fechamento da fábrica da LuthorCorp de Smallville até os tornados varrendo a cidade, o episódio tem momentos maravilhosos, como o pic nic de Whitney e Lana, quando ele anuncia que se alistou aos Corpo de Fuzileiros Navais, a despedida deles no salão do baile vazio e depois na rodoviária, numa cena cheia de emoção, quando ele diz: “eu te amei no momento em que vi, e ainda estarei te amando quando voltar a te ver”. Roger Nixon gravando as conversas dos Kents e filmando a nave de Clark, momentos antes da tempestade ter início. O baile sendo interrompido e, claro, os três funis se transformando em um gigantesco tornado, que engole o carro de Lana com ela. É um episódio eletrizante.
4º. Commencement (Quarta Temporada)
O final da quarta temporada é um dos mais eletrizantes episódios. Aqui é a formatura do High School, o fim de um ciclo da série. Clark finalmente junta as três pedras do poder, que formam o Cristal do Conhecimento, fechando o arco da temporada. O episódio já começa num embate maravilhoso entre Lana e Genevieve Teague, que culmina com a Condessa Isobel possuindo Lana pela última vez e matando Genevieve com uma das pedras. O sangue humano na pedra direciona uma nova nave espacial para a Terra, em outra chuva de meteoros, trazendo o caos para a cidade em meio à formatura de Clark. Depois de um ano afastados, Lana e Clark sinalizam um possível retorno, mas o clima de perigo iminente parece não dar brecha aos dois. É um dos episódios mais intensos, cheio de acontecimentos importantes e sequências de tirar o fôlego.
3º. Exile (Terceira Temporada)
A vida que Clark planejou em Red, ele realiza aqui. Morando em Metrópolis e usando seus poderes para arrombar caixas eletrônicos, comprar carros de luxo, frequentar boates badaladas e pegar as garotas mais bonitas, Clark vive sua rebeldia plena. Ele usa intencionalmente o anel de kryptonita vermelha, numa completa fuga de sua realidade. Ainda temos Lex sendo declarado morto após a queda do seu avião na lua de mel, com Helen posando de viúva, enquanto na verdade ele está perdido numa ilha deserta, tendo alucinações com um náufrago que quer matá-lo. Exile é o início da terceira temporada e começa revirando Smallville pelo avesso. As sequências de Clark invadindo um assalto a banco, derrubando os assaltantes e roubando o dinheiro, sendo alvejado por escopetas pelos políciais e explodindo um dos carros da polícia com sua visão de calor são momentos eletrizantes e memoráveis.
2º. Crusade (Quarta Temporada)
A medalha de prata é a estreia da quarta temporada, com o voo mais bonito de Clark em toda a série. Temos a chegada de Lois Lane em busca de sua prima Chloe, dada como morta. Clark retorna programado como Kal-El, após três meses desaparecido. Lex dá início à busca pelas três pedras do poder, obtendo a primeira em uma escavação no Egito. Justamente a pedra que Clark vai buscar voando como um foguete. Lana está de namorado novo em Paris e surge uma tatuagem misteriosa em suas costas, ao tocar em um símbolo no túmulo da Condessa Margaret Isobel Thoreaux. É um episódio cheio de adrenalina, que nos apresenta Lois, mostra Clark voando pela primeira vez, introduz a busca pelas pedras do poder, que lá na frente irão formar o Cristal do Conhecimento e a Fortaleza da Solidão, e ainda temos a história de Lana sendo possuída por uma bruxa do século XVII. Um episódio primoroso.
1º. Reckoning (Quinta Temporada)
Não há como não eleger esse episódio o grande momento de toda a série. O centésimo episódio é uma verdadeira catarse e um teste de fogo para os fãs. Ele começa com uma das sequências mais lindas da série, com Clark levando Lana à Fortaleza, contando seu segredo a ela e a pedindo em casamento, com direito a anel de diamante lapidado por ele mesmo na hora. Quando Lana finalmente aceita e tudo parace um conto de fadas, em meio à festa de vitória de Jonathan Kent no senado, uma perseguição de carro entre Lana e Lex termina num acidente fatal para ela. Clark consegue voltar no tempo para salvá-la, evitando contar seu segredo dessa vez, mas não impede que outra vida se vá, e Jonathan morre em seus braços. É um episódio que vai do encanto à tragédia. Começamos maravilhados com a iniciativa de Clark e seu pedido de casamento, seguimos deslumbrados com a felicidade dos dois e a vitória de Jonathan nas eleições, para logo em seguida sofrermos dois baques, primeiro a morte de Lana, revertida, e depois a de Jonathan, em definitivo. O episódio consegue ser belo, forte, poético e celebrar assim uma incrível despedida para Jonathan Kent.
Menção honrosa para:
Nicodemus (Primeira Temporada)
Exodus (Segunda Temporada)
Relic (Terceira Temporada)
Sacred (Quarta Temporada)
Aqua (Quinta Temporada)
Exposed (Quinta Temporada)
Justice (Sexta Temporada)
Legion (Oitava Temporada)
Homecoming (Décima Temporada)
11 de fevereiro de 2025
15 Melhores Episódios da 1ª Temporada de Sandy e Junior
A primeira temporada da série Sandy e Junior foi ao ar de 11 de abril a 26 de dezembro de 1999 com um total de 37 episódios. Curiosamente, um episódio a mais foi gravado, mas acabou não indo ao ar nesse ano, apenas sendo exibido durante a temporada de férias entre 2 de janeiro e 27 de fevereiro de 2000. No meu ranking de temporadas da série, ela se encontra como a segunda melhor temporada do programa. Dentre os seus 37 episódios, eu selecionei os 15 melhores, que enumero abaixo.
15º. Na Boca do Povo
Ritinha e Max dormem na sala da torre no CEMA para terminar um trabalho de geografia e começa a circular pelo colégio um boato de que eles passaram a noite juntos, que Ritinha está grávida de gêmeos, que eles vão casar, morar em Santo André e Max vai trabalhar como torneiro mecânico. A situação só se esclarece quando Elvira chama o pai de Ritinha à escola. É um episódio muito divertido de acompanhar à medida que a fofoca vai ganhando novos contornos ao passar por cada um.
14º. Feliz Dois Mil, Brasil
O final da primeira temporada é um episódio especial na fazenda dos pais de Sandy e Junior, com a presença dos pais de alguns dos alunos e canja de Chitãozinho e Xororó. Clara e Gustavo anunciam que romperam o namoro, e Boca repete de ano e agora irá estudar na mesma turma que a galera. Os pais de Patty ameaçam não chegar a tempo do ano novo, deixando-a apreensiva e buscando colo em Gustavo, enquanto Clara começa a se encantar por Junior, prenunciando os novos casais que se formarão na nova temporada. É um episódio singelo de celebração e encerramento do primeiro ano da série, muito bem construído.
13º. Estrelas São Para Sempre
Beth ganha um concurso para participar do show do famoso cantor internacional Pablito, que ninguém ouviu falar. Mas na verdade tudo não passa de uma farsa, orquestrada pela empresária do cantor, que pagou os fãs dele e utiliza um playback de outra pessoa nos shows. O que não se imaginava era que Boca conhecia Pablito dos tempos do Boca de Lixeira, quando se chamava Paulo Maraca. Ao fim toda a situação revela-se ser um sonho de Beth, mas nem tanto, já que o tal Paulo Maraca existiu mesmo na banda de Boca. É um episódio interessante e divertido com Beth nervosa querendo aprender uns passos de salsa e a empresária de Pablito tentando dar um sumiço em Boca.
12º. Todos Por Todos
Basílio não consegue se declarar para Bebel e resolve escrever uma carta assinando como Duque de Cascais. Ele contrata Boca para colocar a carta no armário de Bebel no vestiário, mas Boca acaba colocando no de Sandy, até que as meninas flagram Boca entregando a terceira carta e ele precisa se explicar com todos. Em meio a isso tudo, Basílio ainda tem um sonho com o universo de capa e espada, em que ele vive um dos cavaleiros da Távola Redonda e tem que salvar a rainha Sandy. Um episódio inspirado!
11º. O Casamento de Elvira
Elvira está nervosa com o casamento se aproximando e tem uma crise de pânico, fugindo no dia do ensaio. Enquanto eles improvisam Irene de noiva para prosseguir com o ensaio, Sandy e a galera bolam um plano para fazer Elvira abrir os olhos. É um episódio curto, mas bem divertido. As sequências em que Sandy, Junior, Mau e Basílio encontram Elvira na sala da torre e as de Irene sempre queimando o bolo são muito bem humoradas. Assim como o final do episódio em que todos os personagens se imaginam casando.
10º. A Perna Curta da Mentira
A mãe de Irene vem do interior para visitá-la e ela está aflita porque a mãe acha que ela é professora. Penalizados, a galera decide transformar Irene em professora por um dia no CEMA para enganar Dona Nicota. Ao ensaiar suas falas como professora de História, Irene coloca pimenta no suco de Boca, que promete se vingar, e ao descobrir o plano da galera, ele se dedica em contar a verdade a Dona Nicota. Episódio divertidíssimo com as situações de Irene tentando dar aula aos alunos e enganando sua mãe.
9º. A Rádio CEMA Está no Ar
Os alunos voltam das férias do meio do ano e descobrem que a rádio foi tomada por invasores. Inesperadamente Bebel está envolvida com eles. Sandy propõe eleições, mas Boca e Bebel sabotam o resultado. Por fim, ao perceber que foi usada por Boca, Bebel confessa a Camilo o que fez e a rádio volta pra galera. É o primeiro episódio de Boca na série. O clima de eleição, a boca de urna com a banda dos Boca de Lixeira e o show de Sandy e Junior é bem característico da atmosfera da primeira temporada.
8º. Um Anjo Veio Aqui
Um anjo apaixonado por Sandy cai no CEMA e faz Sandy também se apaixonar por ele, mas Biel tem apenas 24h para decidir se quer continuar como anjo ou se quer viver como humano. Sandy trata do ferimento na asa dele com ajuda de Max, enquanto a galera organiza um baile à fantasia. Durante o baile, Biel se despede de Sandy decidindo seguir como anjo. É um episódio delicado, focado na paixão de Sandy e com a participação de Lucas Lima, que viria a ser o namorado e o marido dela.
7º. O Julgamento de Basílio
A galera sai de férias para um hotel fazenda, mas durante o percurso de trilha a pé acaba perdida no meio do mato. Max fica responsável pelas mochilas de mantimento, mas acaba se distraindo com a diversidade biológica do lugar e derruba as mochilas no rio. Sem ter o que comer, a galera resolve acampar, enquanto Basílio corre atrás de uma galinha afoita e acaba encontrando uma granja. Ao furtar alguns ovos, cai numa armadilha e fica preso pelo proprietário do lugar, que quer fazer um julgamento dos atos de Basílio. Episódio muito divertido e de ambientação incomum, deslocando os personagens e a história para uma outra atmosfera e trazendo um frescor à dinâmica da série.
6º. Bebel Não Vai Pro Céu
Bebel reata com Boca e muda o visual, passando a fazer o estilo dos Boca de Lixeira. Ela passa a destratar a turma e usa pela primeira vez o termo “mais ou menos” ao se referir a eles, expressão que Boca passaria a usar como “galerinha mais ou menos”. A fase rebelde de Bebel tem fundo emocional e consegue se resolver depois que Noely conversa com a mãe de Bebel e ela procura a filha na escola. Clara e Gustavo finalmente reatam depois do clima pesado que começou nas férias do meio do ano. É um episódio muito bem desenvolvido e termina com um dos clipes mais memoráveis de Sandy e Junior cantando “Mais Um Tempo Pra Crescer”.
5º. No Peito e Na Valentia
Durante o passeio de férias do meio do ano, a galera chega ao hotel fazenda Santa Helena, mas descobre que devido ao rodeio o local está lotado. O dono, João Ferradura, se encanta por Clara e oferece pousada a todos na casa dele. A relação de Clara e Gustavo começa a ficar estremecida. Junior decide desafiar João Ferradura na prova de três tambores e Clara aceita ser a rainha do rodeio. O episódio já é inusitado pela proposta de locação incomum da série e traz ainda um roteiro interessante pra começar a movimentar o triângulo amoroso Clara, Gustavo e Patty.
4º. Quer Dançar Comigo?
A galera organiza um concurso de dança e todos ficam eufóricos em busca de um par. Boca convida Sandy, que a princípio declina do convite, mas acaba sendo convencida por Noely a aceitar. Contudo, ao dar a resposta a Boca na frente da turma dele, ele fica com medo de manchar sua imagem de durão e despreza Sandy. Durante o baile, inesperadamente, Boca surge de smoking, cabelo penteado, barba feita e uma flor na mão. Ele pede desculpas a Sandy, que aceita dançar com ele e os dois acabam ganhando o concurso. Um dos melhores episódios da temporada. Vemos pela primeira vez o lado mais romântico de Boca e uma versão ainda não explorada dele.
3º. Uma Força Pro Cupido
A relação de Elvira e Otacílio esfriou e ambos decidem ao mesmo tempo mandar uma carta para a agência de namoro Novo Amor. A galera descobre e decide fazer com que a carta de um vá para o outro. Boca e Bebel ficam encarregados de irem à agência e conseguirem pegar as cartas. Elvira e Otacílio marcam um encontro, a galera organiza o cenário romântico e eles finalmente se entendem, com Otacílio a pedindo em casamento. Um episódio bem humorado, com situações inspiradas e divertidas que exploram a veia cômica de Elvira, assim como a parceria de Boca e Bebel com a exótica proprietária da agência de namoro, Lurdinha.
2º. Sua Majestade, O Bebê
A galera encontra um bebê abandonado na capela do CEMA e precisa se virar pra cuidar dele no colégio, escondido dos professores, até resolver o que fazer. Elvira desconfia, e após achar fraldas que Basílio jogou no lixo, acredita que Basílio é quem está usando. Até que ela descobre a verdade e leva o assunto a Camilo, que se apaixona pela criança – batizada pela galera com o nome do filho que ele perdeu -, e decide adotá-la. O episódio é um dos mais divertidos, principalmente pelo malabarismo que eles fazem para esconder o bebê dos professores e as justificativas que eles dão pelas ausências de um deles a cada aula.
1º. Uma Canção Para Sandy
Em meio aos ensaios de lançamento do novo CD, Sandy é convidada para cantar em um concerto para voz feminina sem Junior, mas ela recusa, sabendo que os jornais diriam que ela estaria partindo para a carreira solo. Junior, no entanto, insiste que ela faça o show. A relação dos irmãos fica estremecida pelas notícias de que vão se separar, porém eles conseguem superar os boatos e continuar a dupla. Um episódio mais que especial para os fãs, que relembra a carreira deles, mexe com o dilema da separação e reafirma a força da carreira dos dois juntos. O episódio introduz três músicas novas na época, “As Quatro Estações”, “Malia” e “Aprender a Amar”, e ainda eterniza “Dias e Noites” como hino da união da dupla.
14 de fevereiro de 2025
15 Melhores Episódios da 2ª Temporada de Sandy e Junior
A segunda temporada da série Sandy e Junior foi ao ar de 5 de março a 31 de dezembro de 2000, totalizando 43 episódios. A mais longa de todas. É a temporada da relação entre Sandy e Gustavo e da introdução do trailer de Basílio. Marca também a entrada das crianças Duda, Talita e depois Glorinha. E também ocorre a primeira troca no time de professores, saindo Carolina e Marcão e entrando Rebeca e Miguel. No meu ranking de temporadas da série, ela se encontra como a melhor temporada do programa. Dentre os seus 43 episódios, eu selecionei os 15 melhores dessa temporada.
15º. Na Medida do Sucesso
Ritinha decide lançar sua própria grife de roupas e a galera organiza um desfile, convidando duas das maiores críticas de moda do país. Irene e Valdete ficam responsáveis por tirar as medidas da galera e costurar as roupas. Porém, Duda e Talita trocam o papel com as medidas e as roupas ficam prontas bem na hora do desfile com as medidas todas erradas. Apesar do aperto, Ritinha consegue dar um jeito e o desfile é um sucesso. Um episódio simpático e divertido de acompanhar. O desfile da galera no final traz um charme a mais à produção.
14º. É Primavera
Com o Festival da Primavera chegando, Elvira muda as regras para eleição da rainha – que sempre era ganho por Patty -, substituindo beleza por venda de votos, com o dinheiro sendo revertido à caridade. Patty passa a vender beijos a Gustavo em troca de votos. Sandy descobre que o sonho de Bebel é ser rainha, então as meninas se unem e vendem seus votos para Bebel, fazendo-a ganhar o concurso, para a surpresa e fúria de Patty. Enquanto isso os meninos disputam o tradicional cabo de guerra contra a turma de Marquinhos. Episódio bonito, florido e cheio de romantismo. O romance entre Junior e Clara finalmente desabrocha junto com a primavera.
13º. Os Santinhos do Pau Oco
Após Borborema não demonstrar interesse em Irene, Patty resolve inscrevê-la em uma agência de namoro. Sandoval chega ao CEMA e, a princípio, tudo parece ter dado certo. O romance deixa Irene nas nuvens, mas logo Sandoval se mostra um picareta que só quer tirar dinheiro dela enquanto dá em cima de Valdete. Para dar o troco, a galera marca um encontro no trailer de Basílio entre Sandoval e Rebeca, que já vinha infernizando Ritinha há algum tempo. Ela acha que irá se encontrar com Festa e o encontro com Sandoval vira um vexame para os dois e diversão para a galera. Episódio focado na veia cômica de Irene e que gera bons e divertidos momentos.
12º. Sortilégio de Amor
A galera vai a um parque de diversões e as meninas resolvem entrar na tenda da cigana Madame Suli. Ela diz às meninas que o primeiro homem que elas encontrarem ao sair, será o grande amor da vida delas, jogando um pó aromático exótico nelas. Ao saírem, elas se encontram com o professor Miguel e todas se apaixonam por ele. Para investigar a situação das meninas, os meninos dirfarçam Basílio de mulher e o faz entrar na tenda, mas quando ele sai, acaba se apaixonando por Boca. É um episódio muito divertido, tanto pela paixonite coletiva das meninas por Miguel, quanto por Basílio disfarçado como Jéssica Tutti.
11º. Quem Tem Medo de Vampiro?
Sandy dá a Junior a coleção dos quadrinhos Pira Vampiro e ele passa a noite lendo tudo, até que uma vampira sai de dentro de uma das revistas e o ataca. A partir daí ele começa a agir estranho e também ataca Bebel, Rebeca e Irene. Eles organizam uma festa e terminam por transformar todos os outros em vampiros também. Sandy, Gustavo e Valdete tentam impedir o avanço deles e cravam uma estaca no peito de Junior, quando ele finalmente acorda do sonho. Episódio inusitado e bem fantasioso, porém dentro do plausível, já que tudo não passa de um sonho de Junior. Um belo passeio pelo universo vampiresco, com uma produção caprichada.
10º. A Galera e o Tempo (Partes I e II)
A galera encontra uma máquina do tempo e acaba viajando para os anos 70, com exceção de Boca e Patty que ficam no controle da máquina para trazê-los de volta. Lá nos anos 70 eles são confundidos com o grupo Os Borbulhantes e fazem um show. Contudo, na hora de embarcar de volta, Beth resolve levar uma flor de recordação, e como resultado, o futuro é totalmente alterado. O CEMA está em ruínas, a cantina virou um bar decadente de Irene e Valdete, onde Camilo e Miguel, sujeitos mau encarados, jogam sinuca. Boca e Patty são sem-teto e a água é um bem escasso. Episódio duplo que explora a viagem no tempo e suas consequências, nos apresentando uma versão alternativa e surpreendente do CEMA e dos professores.
9º. Sandy e Junior e o Senhor do Tempo
Patty organiza uma festa de ano novo em sua casa pra beijar Gustavo no momento da virada. Ela prende Sandy e Junior no porão, mas, misteriosamente, um segundo antes da virada, os relógios param e todos congelam, com exceção de Sandy e Junior, que utilizavam amuletos. O Senhor do Tempo aparece e diz que parou o tempo e o ciclo da vida para evitar que a humanidade continuasse mais um século de atrocidades. Os irmãos tentam argumentar, mas só conseguem um último desejo, beijar Gustavo e Clara. Diante do beijo cheio de amor deles, o Senhor do Tempo se comove e descongela o tempo novamente. Episódio final da temporada, com Patty passando dos limites ao usar sua última cartada pra ficar com Gustavo. E Sandy e Gustavo finalmente ficando juntos num episódio emocionante.
8º. Ciranda, Cirandinha
Basílio organiza a Festa da Lua Azul no trailer e sorteia os casais para dançarem juntos, gerando confusão entre os casais de verdade, principalmente em Patty, quando Gustavo sorteia Sandy. Na aula de teatro grego, Patty escolhe errado seu papel e Sandy e Gustavo acabam protagonizando uma cena de romance, para desespero de Patty que interrompe a aula aos berros. Junior está encantado pela professora Ana, que está a fim do professor Miguel. Durante a festa, os casais sorteados não se afinam e todos acabam indo para seus pares reais. Um episódio inspirador, que aproxima um pouco mais Sandy de Gustavo e brinca com o poema Quadrilha de Drummond.
7º. A Alma do Negócio
Beth, Mau e Ritinha decidem abrir uma barraquinha de sanduíche natural pra concorrer com Basílio, depois que a conta do mês deles no trailer dá absurdamente alta por Basílio ter cobrado guardanapos, copos e canudos também. A concorrência vira uma guerra, dividindo a galera e fazendo a imprensa divulgar que Sandy e Junior estão em lados opostos. Boca aproveita o momento e monta um negócio de venda de antiácido. O episódio é muito divertido pela dinâmica que se estabelece entre os concorrentes em busca da freguesia. Pra garantir o sucesso do seu negócio, eles chegam a oferecer dinheiro para que comprem com eles. Um roteiro muito criativo.
6º. Por Uma Questão de Ordem
Camilo se afasta do colégio após pegar catapora e Rebeca dá um jeito de assumir a direção. Ela começa a adotar medidas impopulares e cancela um programa de televisão que a galera estava produzindo pra aula de Miguel. Na sequência acaba suspendendo Boca, depois que ele se irrita por ela implicar com suas vestimentas. Em meio a um protesto dos alunos com cartazes no pátio do CEMA, Rebeca ameaça expulsar Sandy, Junior, Clara, Boca e Gustavo se a revolta não terminar. É o episódio que mais explora a megalomania de Rebeca e mostra onde ela poderia chegar se conseguisse plenos poderes. É interessante ver a galera toda empenhada numa luta por uma causa comum.
5º. Mentiras e Verdades
Irene organiza um almoço de aniversário na sua comunidade e convida a galera, que se junta pra dar uma geladeira nova de presente. Patty contrata uma limousine e convida Marquinhos para ir com ela, depois que ela vê Gustavo e Sandy sentados juntos no ônibus. Lá na festa surge um boato de que a relação de Patty com Gustavo é séria e que ele já “invadiu a fronteira”. O fuxico passa por Sandy e chega aos ouvidos de Gustavo, que vai tomar satisfação com a patricinha, encerrando de vez a relação deles. É um episódio incomum por levar a ambientação tradicional da série para o clima festivo de pagode da comunidade, o que faz o enredo se sobressair mais. Ainda rola roda de capoeira e Sandy e Junior cantando “Verdade” de Zeca Pagodinho.
4º. Sandy e o Homem das Mil Faces
Sandy sonha que um pote de ervilhas é roubado de um museu por um homem sem rosto. No outro dia, parte da turma faz uma visita a um museu e um valiosíssimo colar histórico é roubado. Enquanto isso, Basílio e Mau vão buscar uma carga de ervilhas para fazer um festival culinário no trailer, com a ajuda de Irene e Valdete. A galera acaba encontrando a joia roubada dentro de um dos potes de ervilha e preparam uma armadilha para pegar o bandido na segunda noite do festival. É um episódio que mescla suspense, mistério e humor de uma maneira muito feliz. As diversas invenções dos quitutes de ervilha que Irene e Valdete acabam criando trazem ótimos momentos também.
3º. O Feitiço do Arco-Íris
As atitudes de Patty chegam ao limite e a galera decide ignorá-la por um tempo. Enquanto ela e Sandy catam minerais no pátio do CEMA para a aula de Elvira, começa a chover e um estranho fenômeno acontece quando elas passam debaixo do arco-íris, fazendo com que as duas troquem de corpos. A falsa Sandy aproveita para seduzir Gustavo e Boca, e se supervalorizar na carreira da dupla com Junior. Enquanto isso a falsa Patty tenta explicar a história para a galera, que não lhe ouve. É um episódio maravilhoso por nos proporcionar ver Sandy interpretando Patty, com todos seus trejeitos e seu jogo de sedução. As cenas dela com Boca, Junior e Gustavo são surpreendentes e nos mostram uma atuação dela que pouco conhecemos.
2º. Boa Romaria Faz Quem em Sua Casa Fica em Paz
Bebel passa por conflitos em casa e decide ir morar em uma barraca no gramado do CEMA. Ritinha e Beth acabam se juntando a ela. Depois que Camilo intervém, elas desmontam a barraca e montam ao lado do trailer de Basílio. A galera começa a produzir um documentário sobre convivência a partir do dia a dia das meninas na barraca. Após alguns dias, o convívio entre elas se torna insustentável e Basílio não suporta mais o acampamento atrapalhando seus negócios, entrando em guerra com elas. O caos que se transforma esse episódio com a convivência das meninas ao lado do trailer de Basílio e a galera tentando produzir o documentário ao mesmo tempo é maravilhoso. É um daqueles episódios de arrancar as mais gostosas gargalhadas.
1. Um Cara Como Você
Depois que Gustavo recusa ir num jantar que Patty organiza para apresentá-lo à família, ela rompe com ele e passa a ignorá-lo. Clara então decide voltar com ele e pede a Sandy para marcar um encontro às cegas, e ela, a contragosto, concorda. Gustavo pensa que a garota que vai encontrá-lo é a própria Sandy e se surpreende ao ver Clara. Ele a dispensa de maneira carinhosa e na sequência se depara com Patty, que o convence a reatar a relação, enquanto Sandy aparece solitária num clipe na TV do trailer. Um episódio muito especial para o casal Sandy e Gustavo. Aqui fica mais que evidente que ambos estão apaixonados um pelo outro, mas as circunstâncias ainda não permitem a relação. O episódio ainda nos faz recordar a história dele com Clara. O clipe final com “Sua Estrela Sou Eu”, que já começa na televisão do trailer de Basílio, com Sandy solitária e carente em um café, a olhar o tempo, vestindo um sobretudo numa noite fria e chuvosa, é um dos momentos mais inesquecíveis da série.
18 de fevereiro de 2025
15 Melhores Episódios da 3ª Temporada de Sandy e Junior
A terceira temporada da série Sandy e Junior foi ao ar de 1 de abril a 23 de dezembro de 2001, com um total de 38 episódios. Nessa temporada a participação de Sandy foi reduzida na primeira metade devido às gravações da novela Estrela-Guia, que ela protagonizava. Com o romance de Sandy e Gustavo encerrado, a produção parece, a princípio, que ficou meio perdida com o destino amoroso deles, e acabou fazendo Gustavo voltar com Clara. Já Sandy ficou sem ninguém até a saída de Gustavo da série, quando Bruno entrou, mas antes ainda teve uma tentativa mal sucedida de fazê-la se envolver com Festa. É a temporada do vilão Alvinho. No meu ranking de temporadas da série, ela se encontra como a última colocada. Contudo, dentre seus 38 episódios, selecionei os 15 melhores.
15º. Um Certo Doutor Fantástico
Durante a semana de saúde do CEMA, o colégio recebe a visita do médico sanitarista Dr. Moura, que age estranhamente com todo mundo e diagnostica Sandy com um vírus contagioso, a colocando em quarentena. Depois Rebeca e Camilo também são isolados. Bebel desconfia do médico e descobre que ele não é o verdadeiro Dr. Moura, e sim um paciente de um hospital psiquiátrico que fugiu. Enredo batido, mas que consegue se sobressair pela maneira divertida com que o médico aborda as pessoas e convence todos no CEMA de que há mesmo uma epidemia no colégio.
14º. A Máscara de Cada Um
A turma está produzindo um filme sobre Zorro, e Bebel se estressa pelo fato de Carol estar atuando mesmo sem ser aluna, num papel que seria dela. Também se chateia por não darem valor à Basílio, que acaba embarcando nas razões dela e quase fere Junior numa cena de espada. Durante uma reunião do Detonação, sem a presença de Junior, ela sugere que Basílio assuma a liderança do negócio, estremecendo a amizade dele com Junior. Trama interessante. Apesar de Bebel ter se mostrado bem desordeira nessa temporada, são bastante razoáveis seus questionamentos. As sequências do filme também são muito bem produzidas, dando um charme a mais ao episódio.
13º. Arapucas e Armadilhas
Agatha Mel, uma cantora decadente, chega ao CEMA para gravar um clipe com Sandy e Junior, dizendo que irá doar o cachê para um orfanato, mas na verdade quer usar a imagem deles para alavancar sua carreira. Carol avisa a Junior que ganhou uma bolsa numa faculdade na Califórnia e ficará dois anos longe. Alvinho arma um flagra com Agatha para fazer Carol terminar de vez com Junior, e durante um ensaio, Agatha acaba beijando Junior na frente de Carol. A galera desconfia das intenções da cantora e bola um cenário macabro para o clipe dela. Episódio interessante. A sequência de Agatha super empolgada, dançando e sensualizando em volta de Junior é bem divertida.
12º. É Preciso Coragem
Boca está treinando os funcionários do CEMA para o campeonato de vôlei intercolegial. O Detonação recebe uma ordem de despejo do pai de Alvinho que pretende montar um parque aquático no local. Boca coloca os funcionários para lavar a quadra e carregar tijolos. Um ex-colega de Camilo, diretor do colégio da equipe adversária, debocha do treino deles. Carol interfere na negociação e o pai de Alvinho muda o local do parque aquático. O CEMA vence o torneio intercolegial. Episódio com uma boa execução. A sequência de toda a galera andando ao mesmo tempo no fusquinha de Gustavo é hilária. O episódio ainda traz a galera rodando “Irmãos Coragem”, em formato de filme.
11º. O CEMA Faz Cem Anos
Camilo organiza uma maratona para comemorar os 100 anos do CEMA. Junior e Alvinho decidem resolver seus problemas na maratona, mas Alvinho joga sujo e coloca sonífero na água de Junior. Por sorte, Valdete impede que Junior a beba e despeja a água no galão geral, fazendo todos caírem no sono no meio da maratona, exceto Borborema que não havia tomado da água e acaba ganhando, quando Alvinho tropeça e derruba Junior. Episódio com uma proposta bem interessante para celebrar o centenário do colégio. A cena de Patty chegando nos braços do personal trainer é muito divertida.
10º. Enquanto o Tempo Passa
Sandy e Bruno superam sua primeira crise e combinam de passar o fim de semana juntos numa praia deserta, mas um empresário internacional vem ao Brasil para gravar com eles e ela precisa cancelar o passeio. Bruno resolve ir sozinho, mas Patty o segue e furta o celular dele para poder atender as ligações de Sandy, devolvendo em seguida, sorrateiramente. Na volta, Bruno não consegue se explicar e Sandy termina com ele. Episódio focado no novo romance de Sandy com Bruno e no objetivo de Patty em separá-los, mesmo sem nenhuma garantia de Bruno ficar com ela.
9º. Mudou a Primavera ou Mudamos Nós?
Sandy organiza um baile de primavera e Beth não quer participar por não se achar bonita. Ela pergunta a Mau se ele a acha bonita e ele diz que ela é simpática, arrasando com ela. O irmão problemático e mais novo de Camilo está de passagem pelo CEMA em busca de dinheiro e diz a Beth que a acha linda. Os dois acabam saindo juntos e ela o convida para ser seu par no baile. Preocupado, Camilo dá o dinheiro que seu irmão quer e ele vai embora. Beth chega ao baile deslumbrante e no fim acaba se entendendo com Mau e ganhando o concurso. Episódio delicado e um dos raros focado em Beth, revelando a beleza que a personagem esconde.
8º. Príncipes, Princesas e Plebeus
O príncipe Amir Alikabar dos Emirados Árabes Unidos vai ao programa Mais Você contar que quer conhecer Sandy. Na sequência, resolve visitar o CEMA. A galera assusta Sandy sobre as intenções do príncipe e ela se disfarça de flanelinha para que ele não a encontre. Mas quando ela o vê sem o turbante, se encanta por ele, que convida a flanelinha para um pic nic e lhe dá uma joia que daria a Sandy. Episódio peculiar e sensível. Interessante como a trama vai de um suposto sheik invasor a um jovem romântico e idealizador. Muito boa a transformação de Sandy numa flanelinha.
7º. Nome: Sandy Leah Lima
Alvinho organiza a festa de inauguração da sua cantina e contrata um fotógrafo para tirar fotos dele com Sandy para plantar na imprensa que é o novo namorado dela. Na manhã seguinte, os jornalistas tentam invadir o CEMA para confirmar a fofoca. Sandy leva Alvinho até eles para desmentir a situação, mas ele a puxa, fazendo-a escorregar num skate e cair. Ao acordar, ela perde a memória e Alvinho tenta se aproveitar da situação para convencê-la de que eles são mesmo namorados. Episódio interessante, explorando a vulnerabilidade de Sandy com amnésia, diante de uma pessoa mau caráter como Alvinho.
6º. A Mão que Embalança o CEMA
Após o show de Sandy e Junior no encerramento das comemorações dos 100 anos do CEMA, Camilo agradece a colaboração de Sandy e esquece de citar Rebeca, que se sente rebaixada. Sandy procura Camilo para ver a possibilidade da cantina disponibilizar lanche para os músicos da banda, mas só encontra Rebeca, que autoriza não só para os músicos, mas para todos os convidados e pede que Sandy assine a autorização pelas duas. Quando a conta da cantina chega, Camilo chama as duas, mas Rebeca nega a autorização, gerando uma situação extremamente desagradável para Sandy. Um episódio bem construído, focado na inveja e no orgulho ferido de Rebeca, com ótimos embates e conflitos para Sandy.
5º. Uma Assombração em Pânico
Chove bastante e a galera fica ilhada até tarde da noite no CEMA estudando. Sandy recebe uma ligação anônima de alguém dizendo que precisa falar com ela e que sabe onde ela está. As meninas começam a entrar em pânico depois que veem uma bota preta no banheiro feminino. Camilo e Rebeca também recebem ligações misteriosas. Os meninos armam um plano para pegar a pessoa que está ligando, usando Sandy como isca. O plano dá certo e descobre-se que o responsável é o professor Galeno. Ele acusa Rebeca de ter autorizado o lanche na festa dos cem anos do CEMA e colocado a culpa em Sandy. Em seguida, ele começa a delirar, sendo levado por enfermeiros. Episódio com uma ótima atmosfera de suspense e pânico, e um desfecho surpreendente, que finalmente inocenta Sandy da acusação de Rebeca.
4º. Amor, Esse Jogo Perigoso
O CEMA é selecionado para o desafio das escolas no programa de TV Prova Total, onde Bruno Tavolari segue invicto. Bruno chega ao CEMA para gravar algumas chamadas e se mostra arrogante com Basílio, o concorrente da escola, deixando Sandy indignada. Diante da pressão, Basílio desiste e Sandy assume seu lugar. Ele tenta desestabilizar Sandy, mas a garota acaba vencendo a competição. Por fim, ele a parabeniza, pede desculpas e até a convida pra sair algum dia. Episódio que introduz Bruno na série, com o objetivo de ser o novo namorado de Sandy. Boa sacada da produção ao criar o romance deles através da rivalidade e da antipatia. A personalidade de Bruno também é muito bem dosada entre o sarcasmo e a sedução.
3º. Bola Pra Frente, Que Atrás Vem Gente
A produção do programa Galera Radical está procurando um novo apresentador e o CEMA será o ponto de seleção. Sandy incentiva Gustavo a se inscrever e diante da incerteza dele, ela o inscreve. Patty se compromete a convencê-lo a participar. Os testes começam e Gustavo e Alvinho são os finalistas para a última prova de surf. Gustavo vence e terá que se mudar para o Rio, onde o programa será gravado. Sandy e Gustavo tem uma reaproximação, mas ela diz que não atrapalhará o futuro dele e o ama o suficiente para deixá-lo partir. Episódio emocionante da despedida de Gustavo da série. Depois de quase uma temporada inteira afastados, Sandy e Gustavo voltam a se envolver, provando que eles são realmente o melhor casal de toda a série.
2º. A Festa de Valdete/ Ano Novo, Vida Nova
A galera organiza um evento beneficente no CEMA para a festa de natal das crianças carentes da comunidade de Valdete. Alvinho é pressionado para pagar as dívidas do Detonação e rouba o dinheiro de Valdete, quitando a dívida. A galera desconfia, e Patty, equipada com escutas, arranca a verdade dele, revelando também que era a sócia misteriosa dele, para a surpresa geral da galera. Valdete ganha R$ 10 mil reais num concurso do supermercado e realiza uma grande festa para as crianças. O dia da formatura da galera chega e Alvinho tenta seu último golpe, ao roubar a fita da apresentação, mas acaba preso num galpão por Sandy. Episódio final da temporada. É um desfecho emocionante. E embora não seja o fim da série, é a despedida de muitos do elenco e da escola, já que a próxima temporada seria ambientada no Condomínio Mata Atlântica.
1º. Luz, Câmera, Ação (Partes I e II)
A galera produz seu primeiro filme no CEMA, ambientado nos anos 30, chamado “Os Retocáveis”. Alvinho é o gangster da história. Enquanto isso, o trailer de Basílio some e Patty retorna das férias no oriente totalmente zen. Os meninos descobrem o trailer num ferro-velho, e Patty arca com as despesas para resgatá-lo, entrando como sócia. A turma descobre que Alvinho está por trás do sumiço do trailer, por querer abrir um bar concorrente, e Sandy o dispensa do filme. A galera se empenha em abrir o novo negócio, agora chamado Espaço Detonação, enquanto Alvinho tenta atrapalhar. E Sandy consegue com Camilo que a exibição do filme seja no Detonação. Esse eletrizante episódio duplo foi a excelente estreia da terceira temporada. A produção de filmes pela galera deu um ar de sofisticação à série, assim como o grande número de ações que aconteciam no episódio disfarçaram a diminuição da participação de Sandy devido às gravações da novela Estrela-Guia. Foi um começo promissor, o melhor até então, embora a temporada em si não tenha seguido assim ao longo do ano.
21 de fevereiro de 2025
15 Melhores Episódios da 4ª Temporada de Sandy e Junior
A quarta temporada da série Sandy e Junior foi ao ar de 7 de abril a 29 de dezembro de 2002, totalizando 36 episódios. A mais curta de todas. É a única temporada que não é ambientada no CEMA, tendo como pano de fundo o Condomínio Mata Atlântica e o espaço cultural Detonação. Totalmente reformulada, desde a abertura, tema de abertura e conceito geral, a temporada não trouxe mais os personagens Clara, Mau, Dodô e Teca, nem o time de professores, ao mesmo tempo introduziu outro elenco jovem, moradores do condomínio. Com tramas adultas, focadas no dia a dia dos personagens e em conflitos de geração, a temporada se destaca como a mais madura da série. No meu ranking das temporadas, ela se encontra como a terceira melhor. Dentre seus 36 episódios, selecionei os 15 melhores.
15º. A Megera Contra Ataca
Dona Marlene, cada vez mais amarga, chama um fiscal para apreender o jipe de Boca, que não tem alvará, e o coloca na rua. Café defende Boca e ela o demite. Enquanto está de aviso prévio, Café acolhe Boca em sua moradia, mas Dona Marlene descobre e despeja Café por justa causa. Junior leva os dois para trabalharem no seu estúdio no Detonação. Durante uma visita ao estúdio, Gilberto Gil reconhece Café do cenário musical e questiona a ausência dele. Junior então produz um show de Café no Detonação, fazendo dele um sucesso novamente. Episódio muito bem desenvolvido, que marca o fim do trabalho de Café como porteiro do condomínio e a sua retomada da carreira musical.
14º. O Jogo da Verdade
Sandy descobre que Laila foi quem a acusou de ter espalhado que o pai de João está preso e toma satisfação com ela. Mas Laila mente na cara dura, acusando Sandy e a xingando. Sandy dá um tapa nela na frente de todos, inclusive de Junior, pra onde Laila corre. O clima entre Sandy e Junior fica pesado e eles passam a não se falar. Sandy expulsa Laila da academia e João resolve sair também. No fim, com a ajuda de Leila, Junior desmascara Laila, inocentando Sandy. Episódio que marca o fim do jogo para Laila. A partir daqui sua máscara cai e ela não tem mais a quem recorrer para se dar bem. Ótimos embates entre Sandy e Laila e um maravilhoso flagra de Junior em Laila.
13º. Noite Feliz
Sandy organiza sua primeira ceia de Natal longe da família, mas todos tem outros planos. Yoko convida Junior para acampar. Patty não quer sair de casa porque é atacada nas ruas pelas maldades de sua personagem na novela. Basílio está arrasado pela partida de Maria e não quer celebrar o Natal. Bebel vai passar com o novo namorado. Beth em uma maratona de parapsicologia. E Tony com a família. Mas Junior marca uma reunião geral com a galera e todos fazem uma surpresa pra Sandy, com a participação de seus pais. Episódio de Natal já dando início a alguns desfechos da série, que encerraria um episódio depois. Há ainda no episódio, Téo reencontrando sua mãe e Sandy desistindo de vez de Tony, ao perceber que ele só tem interesse financeiro em tudo.
12º. Tudo de Novo no Front
Sandy e Junior vão se mudar para Nova York por um ano devido à carreira internacional e trancam a faculdade. A notícia deixa todos no condomínio arrasados. Basílio vende o casarão e dá parte do dinheiro a Ritinha, Boca, João Pedro e Maria. Patty recebe convite para mais duas novelas. Sandy passa o comando da academia para João. Yoko decide ir pro Japão, mas fica tentada a acompanhar Boca numa viagem pela América Latina. Dona Marlene faz análise com Beth e recebe a visita das suas sobrinhas, Leila grávida e Laila casada com um pecuarista. Antes de partirem, Sandy e Junior fazem um festão no condomínio com autorização de Dona Marlene. Fim da temporada e da série, dando desfecho a todos os personagens e deixando o clima de despedida e encerramento no ar.
11º. Detonação Geral
O dia da inauguração do Detonação se aproxima e Basílio decide se tornar o barman, porém Sandy e Junior ficam inseguros quanto às habilidades dele, e ao verem João Pedro manuseando a coqueteleira e descobrirem que ele já teve experiência antes, decidem colocá-lo como o barman, mas Basílio é contra, acha que João Pedro armou para tomar seu lugar, cria uma briga com Sandy e Junior e ameaça a inauguração e a sociedade entre eles. Episódio focado na necessidade de Basílio em se fazer brilhar no seu negócio, para além da parte administrativa. Abordagem recorrente da personalidade do personagem, que sempre foi muito bom nas finanças, mas inseguro em outras áreas.
10º. A Princesa e o Dragão
Sandy e Junior convidam Yoko para participar do novo clipe deles. Ela, a princípio recusa, mas depois aceita o convite. Sandy faz uma transformação incrível nela, mas Tony e Nico chegam na hora da gravação e tiram sarro dela, fazendo Yoko fugir. Ela se embrenha na mata do condomínio e Junior vai atrás. Anoitece, começa a chover, os dois se perdem e encontram abrigo numa cabana abandonada, onde conversam sobre seus medos. Na manhã seguinte os bombeiros os resgatam. Tony e Nico se desculpam e Yoko finalmente grava o clipe. Episódio que desconstroi a imagem de samurai de Yoko, revelando a beleza oriental escondida da garota.
9º. Essa Gata É Um Perigo
Junior dá uma carona a Laila, mas os dois são parados numa blitz, e Laila implica com o policial, por ele cobrar os documentos de Junior, fazendo os dois serem detidos. Sandy, Junior e Basílio começam as entrevistas para garçom do Detonação e contratam João. Laila resolve se inscrever para garçonete a fim de se aproximar mais ainda de Junior, mas antes pede auxílio a Sandy no teste, queixando-se das dificuldades da sua vida. Leila tenta impedir o plano da irmã e se inscreve para garçonete também, porém, Laila a faz tropeçar no teste, derrubando a bandeja, e no final quem fica com o cargo é Maria. Episódio bem construído, que começa a explorar o potencial diabólico de Laila.
8º. As Aparências Enganam
Basílio está organizando uma festa de música eletrônica no Detonação, mas o DJ contratado cancela de última hora. Ritinha aparece de surpresa no local, com um visual todo repaginado e conta para a galera que aprendeu tudo de discotecagem enquanto esteve fora. Basílio a contrata como DJ, mas ela recusa as fotos para divulgação e revela que na verdade está fugindo do ex namorado. Sandy a leva para seu apartamento, mas ele acaba descobrindo onde ela está e começa a lhe enviar bilhetes ameaçadores e a devolver seus pertences. Eles a escondem no Detonação, mas ele invade o local e acaba se revelando um ser inofensivo, que só queria se despedir, antes de partir para estudar música em Londres. Episódio da chegada de Ritinha nessa temporada, com um ótimo clima de suspense e mistério.
7º. Na Ponta dos Pés
Sandy vem sendo pressionada por sua professora de balé, Olga, a dedicar mais tempo para a dança, ficando estressada e sobrecarregada. Para completar, ela torce o pé ao fazer corrida e precisa usar bota ortopédica por alguns dias. Mesmo assim, Olga a obriga a voltar a dançar para o espetáculo. As duas discutem e Olga a acusa de falta de profissionalismo. Sandy resolve ensaiar sozinha, consegue se recuperar e se apresenta com louvor, mas decide deixar a companhia de Olga para montar a sua própria, no seu tempo. Episódio bonito, focado nos resultados do esforço pessoal para se alcançar os objetivos, e ao mesmo tempo em saber respeitar os próprios limites.
6º. Durma-se Com Um Barulho Desses
Sandy, Junior, Patty, Bebel, Beth e Basílio se mudam para o Rio de Janeiro para fazer faculdade, indo morar no Condomínio Mata Atlântica, que tem como síndica, Dona Marlene, uma senhora conservadora, que mora com as sobrinhas Laila e Leila. Sandy e Junior resolvem fazer uma festa de comemoração no apartamento, mas os irmãos Tony, Nico e Yoko, também moradores do condomínio, espalham convites para um show falso da dupla no condomínio, causando a maior confusão na portaria. Episódio maravilhoso de estreia da temporada, que apresenta o novo cenário da série, onde a galera irá desenvolver as novas histórias, e pincela as principais características dos novos personagens que farão parte dessa temporada.
5º. Artimanhas do Destino
Dona Marlene instala um racionamento de água no condomínio, permitindo o uso por apenas algumas horas, em horários inconvenientes, o que gera revolta na galera. Sandy, Beth, Patty e Bebel organizam um abaixo-assinado, mas não conseguem nenhuma assinatura. Dona Marlene contrata uma governanta. A galera decide ir falar com Dona Marlene e encontra Valdete trabalhando lá. Ao descobrir que Valdete já conhecia a galera, Dona Marlene a dispensa, e Valdete passa a ser disputada por todos, inclusive Basílio e a própria Dona Marlene, que muda de ideia ao perceber que ela pode servir de espiã da galera. Por fim, todos concordam em Valdete trabalhar como diarista para todos. Episódio divertido, que reintroduz Valdete na série após o fim da terceira temporada.
4º. Amigas, Amigas, Negócios à Parte
Beth entra de dieta para passar num teste de um importante comercial. Patty se queixa da falta de trabalho e Junior a convence a participar de um teste para um comercial. As duas acabam descobrindo que estão competindo para o mesmo teste e uma guerra começa entre elas. Patty apela para a dieta de Beth, enchendo a casa de doces, e Beth obriga Patty a fazer todos os serviços domésticos, já que ela está com as contas atrasadas. A briga envolve até Sandy e Junior, com Patty pedindo a Junior pra interfir por ela junto ao diretor do comercial, e Beth pedindo o mesmo a Sandy pra ela. Por fim, nenhuma das duas ganha o teste. Episódio com situações divertidíssimas entre Patty e Beth, enlouquecendo o condomínio pela disputa desse comercial.
3º. S.O.S. Sandy
Várias situações desagradáveis surgem ao mesmo tempo na vida de Sandy. Olga avisa que voltará para a Rússia, João decide sair da academia, Tony viaja a negócios, a figurinista dos shows quer tirar novas medidas porque ela engordou, e ela perde o prazo de um trabalho importantíssimo da faculdade. Com tudo isso, sua cabeça entra em parafuso e ela tem um surto, construindo uma nova realidade, baseada no caos, deixando todos a sua volta perplexos. O auge é quando ela sai com Laila para fazer compras, e na volta, toda repaginada, acaba dando em cima de Basílio, que foge aos gritos. É um episódio bem divertido, por fazer Sandy sair do seu padrão e agir de maneira ousada e imprevisível.
2º. Quem É Vivo Sempre Aparece
Boca chega de surpresa ao condomínio, contando suas façanhas pelo país nos últimos meses, porém ele recebe uma ligação cancelando o próximo trabalho que estava previsto, e sem ter pra onde ir, Basílio o convida pra dividir o casarão com ele. Mas ao chegar lá, ele tem uma crise alérgica e pede asilo a Junior, sem Sandy saber. Depois de roncar à noite e assaltar a geladeira de madrugada, Sandy o pega tomando banho em seu banheiro. Ele vai pra casa de Beth, Patty e Bebel, que o botam para faxinar a casa inteira, e por não aguentar a pressão, ele acaba indo mesmo pro casarão de Basílio. Episódio da entrada de Boca na temporada. O personagem, um dos mais queridos da série, chega causando rebuliço no condomínio e movimentando a vida de todos os moradores.
1º. Agora Eu Sou Uma Estrela
Cansada de não conseguir decolar sua carreira de atriz, Patty pede a Junior para fingir por um tempo que eles estão namorando, até o nome dela circular na imprensa. Junior topa, mas Patty leva a sério demais e causa uma grande bagunça na vida de todos no condomínio. Ela passa a controlar a agenda de Junior e até o que ele deve vestir, desmarca os compromissos dele, destrata as fãs e chega a espalhar na imprensa que Sandy e Junior vão se separar para ele se casar com ela. É quando Junior finalmente desmancha o acordo. É o melhor episódio dessa temporada. As situações que Patty cria, acreditando mesmo ser a namorada de Junior, são muito divertidas. O ponto alto é ela em pé no jipe de Junior, mandando as fãs dele dispersarem, que “ele não é santo de procissão pra todo mundo passar a mão”. Hilário!
12 de dezembro de 2025
15 Piores episódios de Smallville
Embora Smallville seja uma das minhas séries favoritas, repletas de episódios inesquecíveis e emocionantes, é uma série muito longa, com dez temporadas e mais de 200 episódios, o que fatalmente irá gerar, em alguns momentos, episódios mal elaborados e controversos, como toda série longa demais. É o custo por se ter uma série com temporadas muito extensas, seus altos e baixos. E, mesmo amando a série, não posso deixar de falar sobre aqueles episódios em que questionamos o porquê de existirem. Aqueles episódios que atrapalham nossa empolgação na hora de maratonar a série. Consegui identificar de imediato ao menos 30 episódios nesse perfil, mas enumerei aqui os 15 piores, aqueles que definitivamente me incomodam demais. Preparados para o show de tortura? Somebody save me...!!!
15º. Sleeper (Sétima Temporada)
Episódio em que Jimmy banca um detetive em estilo James Bond para investigar Chloe, a mando do FBI, por ela ter invadido o sistema da Agência de Segurança Nacional. É um dos típicos episódios criados só para preencher a grade de uma temporada, sem quase ou nenhuma relevância para o enredo central da série e o desenvolvimento da temporada, como muitos episódios dessa lista. Algumas histórias conseguem se sobressair, mas a grande maioria é um ponto fora da curva, sem acrescentar nada e até prejudicando o andamento da trama. É o caso de Sleeper, que não traz nada de relevante para a sétima temporada e transforma Jimmy, da noite para o dia, de um romântico atrapalhado em um detetive perspicaz, comprometendo a credibilidade do personagem e consequentemente da série.
14º. Slumber (Terceira Temporada)
A nova vizinha de Clark começa a aparecer nos sonhos dele e pedir ajuda contra o viajante, uma criatura encapuzada e sombria, que a arrasta e a carrega sempre. Na verdade esse viajante é a representação do tio dela, que a tem dopado para mantê-la em coma, depois do acidente em que ela perdeu os pais. Quando Clark e Lana começam a investigar, o tio da menina dopa Lana e tenta matá-la. O episódio cansa pelo vai e vem entre cenas de sonhos e realidade, e essa figura sombria me parece mais um artifício dos roteiristas para aproximar o episódio da celebração do Halloween. Talvez a única cena interessante do episódio seja o banho de Lana e Clark no lago, mas era sonho.
13º. Magnetic (Terceira Temporada)
Um garoto apaixonado por Lana adquire o poder de persuação magnética e convence Lana a sair com ele, provocando o ciúme e a desconfiança de Clark. Esse episódio começa até interessante com um show num parque de diversões, mas depois vira uma baboseira com o garoto influenciando as decisões de Lana, que age como uma inconsequente e consegue até ir presa. É um episódio que não acrescente nada ao desenrolar da temporada e ainda irrita com o comportamento irracional de Lana, que diferente do episódio da primeira temporada Nicodemus, onde temos uma Lana sem pudores e divertida, aqui suas atitudes só provocam irritação.
12º. Fortune (Décima Temporada)
Uma das maiores maluquices da série. Além de plagiar descaradamente o filme Se Beber Não Case, o episódio é uma comédia farofa, que em nada lembra a série. Os personagens mudam completamente de estação e passam a agir como se fossem membros de uma série de chanchada. Tudo com a justificativa de que foram enfeitiçados por Zatanna, como brinde à despedida de solteiro de Lois e Clark. O mais curioso é termos um episódio desses na última temporada, com os episódios já se encaminhando para o desfecho da série. Me parece mais uma celebração da série, mas um pouco fora da curva.
11º. Shield (Décima Temporada)
Após Lois partir para o Egito, o Planeta Diário contrata uma nova repórter, Cat Grant, para substituí-la. Um assassino chamado Pistoleiro mira em Cat, mas Clark descobre que o homem tem uma agenda perigosa que envolve o Borrão. Carter Hall aparece no Egito para vigiar Lois e conta a ela sobre sua esposa, Shayera Hall, também conhecida como Mulher-Gavião. Episódio fraco pra ser o segundo da décima temporada. Cat Grant, embora seja uma figura original da DC, é uma das personagens mais insuportáveis que já apareceu em Smallville, e só de ser um episódio focado nela, já deixa claro que é um dos mais chatos.
10º. Escape (Nona Temporada)
Esse episódio tinha tudo pra ser muito interessante. Lois e Clark saem num fim de semana romântico, assim como Chloe e Oliver, e todos acabam indo pra mesma pousada, para a surpresa de todos, principalmente de Clark e Lois, que não sabiam que Oliver e Chloe estavam saindo juntos. Até aí tudo bem, situações divertidas, mas o episódio acaba partindo pro sobrenatural e fazendo o espírito de uma antiga noiva, amaldiçoada a matar homens, possuir Chloe e depois Lois, que acaba se transformando quase numa mutante dos super sentai japoneses e tentando matar Oliver e Clark. Esse artifício leva o episódio à banalidade e frusta toda sua premissa, quebrando a expectativa por algo novo e surpreendente.
9º. Cure (Sétima Temporada)
Nem a participação especial de Dean Cain, de “Lois & Clark, As Novas Aventuras do Superman”, conseguiu salvar o roteiro desse episódio. Dean interpreta Curtis Knox (em referência a Clark Kent), um doutor que diz poder curar infectados por meteorito, e Chloe decide realizar a cirurgia. No entanto, ele mata seus pacientes no intuito de transformar sua esposa em um ser imortal, igual a ele, outra referência ao Superman. É um episódio meio obscuro e de enredo questionável. A premissa inicial é interessante, um médico que cura os infectados e Chloe tentando se curar, mas aí quando parte para as verdadeiras intenções de Knox a história acaba caindo em clichês e mau gosto, desperdiçando até a participação de Dean Cain. Uma pena!
8º. Hex (Oitava Temporada)
Insatisfeita com a sua vida na noite de seu aniversário, Chloe deseja momentaneamente ser Lois, mas Zatanna atende literalmente o desejo de Chloe e ela se transforma em Lois. Enquanto tenta lidar com a situação, outros encontros com Zatanna faz Clark achar que não tem poderes, até tudo se esclarecer e Clark deter Zatanna, que queria trazer seu pai de volta à vida, ao sacrificar outra pessoa. Argumento entediante, sem originalidade. Chloe transformada em Lois é tão brochante que não desperta interesse em acompanhar a história ainda antes da abertura. É um daqueles momentos em que ficamos incrédulos com o gancho de abertura do episódio.
7º. Persuasion (Nona Temporada)
Clark é contaminado por um pó mágico com kryptonita, que inexplicavelmente o faz ganhar o poder de persuadir os outros a fazer tudo o que ele quer. Com isso, sem querer, faz Lois se devotar a ele, agindo como uma perfeita dona de casa e experimentando vestido de noiva pra se casar com ele. O “poder” temporário de Clark atinge outros personagens, de maneira secundária também, até ele conseguir um antídoto. Um episódio bobo, com aqueles poderes que surgem do nada e somem só pra atender um determinado roteiro. O episódio é cansativo e previsível. Ainda consegue gerar risadas em alguns momentos, mas só. Descartável.
6º. Hero (Sétima Temporada)
Pete está de volta à série em participação especial e ganha o poder de elasticidade ao mascar um chiclete com kryptonita, mas ele acaba entrando em perigo, quando Lex o chantageia para invadir o cofre de Lionel. Pete retorna só pra repetir o que ele já fazia com maestria, bancar o amigo chato que apela sempre pela interferência dos poderes de Clark quando entra numa fria. Se os episódios focados em Pete quando ele era regular na série já eram chatos, esse retorno então é insuportável. E o episódio todo ainda foi um mershandising descarado da marca de chicletes. É o pior episódio da sétima temporada. A única coisa que se salva é a trilha sonora, toda composta por belas canções do OneRepublic.
5º. Booster (Décima Temporada)
O Gladiador Dourado, um ambicioso super-herói chega a Metrópolis, e começa a salvar vidas e posar para a imprensa, conquistando a cidade. Durante um dos salvamentos, uma arma alienígena em forma de besouro se funde a um garoto e forma uma carapaça ao redor dele, impedindo-o de controlá-lo, e atacando Metrópolis. Abrindo o top 5, temos um dos episódios mais chatos de Smallville. A ideia de trazer personagens da DC é interessante, mas nem sempre funciona como esperado. A intenção era mostrar a Clark como seria se ele se revelasse ao público, agora já próximo dele virar o Superman, um argumento já até explorado em outras ocasiões, o que não trouxe nenhuma novidade e só nos presenteou com um episódio entediante a apenas três do fim da série.
4º. Committed (Oitava Temporada)
Um joalheiro psicótico, traumatizado pela infidelidade da esposa, agora sequestra noivos e os submete a um detector de mentiras com kryptonita. Primeiro ele sequestra Chloe e Jimmy, e os liberta quando eles passam no teste. E depois pega Lois e Clark, achando que eles iam se casar. Que episódio ridículo! Todo o episódio é montado para Lois revelar a Clark que tem sentimentos por ele. O motivo é válido, mas a ideia toda para se chegar nele foi muito mal desenvolvida. A figura de um joalheiro criando um teste de lealdade entre noivos, e com kryptonita, para poder prender Clark, é das mais surreais, até para Smallville. Forçaram demais pra revelar o começo do interesse de Lois por Clark e o resultado foi um dos episódios mais estapafúrdios da série.
3º. Rabid (Nona Temporada)
Um dos soldados de Zod age por conta própria e libera um vírus no ar que transforma humanos em zumbis. A única maneira de detê-lo é criar um antídoto com o sangue de outro kryptoniano. Depois que Lois é infectada, Chloe implora a Clark que doe seu sangue, mesmo que isso o exponha a Zod. Um dos episódios mais bizarros de toda a série. Depois de explorar diversos gêneros, os roteiristas não deixariam o universo dos zumbis de fora e achariam um jeito de encaixá-lo na série. E assim criaram toda uma encenação pra poder lançar uma epidemia de zumbis em Smallville. O resultado é grotesco. Parece uma paródia de Resident Evil, uma necessidade de explorar o gênero da moda, sem se preocupar se ele tem coerência com a série. Um dos momentos mais vexatórios da série.
2º. Tomb (Quinta Temporada)
O espírito de uma jovem que foi emparedada no Talon passa a possuir o corpo de Chloe, fazendo com que todos acreditem que ela perdeu a sanidade. Quando o assassino descobre que o corpo foi encontrado, ele vai ao Talon e sequestra Lois. Sem dúvida alguma um dos piores episódios de Smallville. Tudo aqui é de mau gosto. A história da garota emparedada no Talon, Chloe sendo possuída por ela e agindo como demente, e depois toda a sequência com Lois, Chloe e o assassino na casa dele. Episódios que espíritos ou outros seres possuem os corpos do elenco geralmente são chatos, a única exceção é o episódio Spirit da 4ª temporada porque parte pro humor. Mas esse aqui é insuportável, a garota é irritante e a confusão que todos ficam com a sanidade de Chloe completa o quadro. A única cena que se salva é Lois queimando incenso no Talon.
1º. Thirst (Quinta Temporada)
Lana se candidata à irmandade da casa de Buffy Sanders, na universidade de Metrópolis, mas suas novas companheiras de moradia são na verdade vampiras e a transformam em uma também, instruindo-a a matar Clark. Enquanto isso, Chloe se candidata a um estágio no Planeta Diário. A maior vergonha de Smallville está aqui. E justamente na melhor temporada da série. É a primeira tentativa dos roteiristas de levar outro universo, aqui o dos vampiros, para Smallville, com resultado desastroso. O episódio é péssimo, tanto a execução como todo o roteiro. As sequências das vampiras na república são porcas e ver Lana envolvida nisso tudo é lamentável. Ele foi uma imposição da Warner na época, que queria episódios temáticos de halloween e natal durante essa temporada, mas ao contrário do episódio natalino Lexmas, que foi um dos melhores de Smallville, Thirst conseguiu a proeza de ser o pior de todos, mostrando que misturar universos tão consolidados não é uma das melhores ideias. Nem a participação de Carrie Fisher, como a editora chefe do Planeta Diário, conseguiu tirar esse episódio do desastre completo.
6 de janeiro de 2026
10 Melhores Episódios da 1ª Temporada de Smallville
A primeira temporada da série Smallville teve início em 16 de outubro de 2001 e chegou ao fim em 21 de maio de 2002, com um total de 21 episódios, a segunda mais curta de todas. Essa temporada tem vários episódios marcantes e histórias interessantes. Eu consigo eleger os dez melhores com muita facilidade. Não é à toa que o programa fez sucesso logo de cara. No meu ranking de melhores temporadas, ela se encontra na posição cinco, ou seja, abrindo o top 5 das melhores temporadas, provando que sua origem continua forte e cativante mesmo com a evolução da história. E assim, vamos direto aos melhores momentos de Smallville em sua primeira temporada:
10º. Leech (Episódio 12)
A combinação de um raio e uma pedra de meteoro faz os poderes de Clark serem transferidos para Eric Summers, quando Clark o salvava de cair de uma represa. Clark precisa se adaptar a viver como um cara normal, enquanto Eric começa a exibir e explorar seus novos poderes, ganhando fama, mas também muitos problemas. O episódio mostra Clark finalmente conseguindo ter uma vida normal, embora ele sinta falta e se preocupe em não poder recuperar mais seus poderes, mostrando que mesmo que ele desejasse a vida toda ser normal, suas habilidades já eram parte de sua identidade. O episódio explora também a família de Eric despreparada para aceitar e ajudá-lo a lidar com seus poderes, salientando a relevância dos Kent na formação de Clark. Ótima abordagem. Nesse episódio também Lex chega próximo a ter certeza que Clark tem algum tipo de poder, mas muda de ideia ao vê-lo machucado de verdade, quando ele estava sem poderes.
9º. Hug (Episódio 11)
Bob Rickman, que tem a habilidade de persuadir qualquer pessoa com um aperto de mão, quer comprar o Rancho Kent para construir uma fábrica de pesticidas. Mas seu ex-sócio, Kyle Tippet, que mora isolado na floresta e também tem a mesma habilidade, ameaça expô-lo se ele não sair da cidade. Clark e Lana acabam brigando por ele ficar do lado de Kyle, contra um possível ataque de Kyle a Lana e a Whitney. Chloe acaba demonstrando seus sentimentos por Clark e o beijando, quando Kyle faz uma demonstração de sua habilidade a eles. E Lex, persuadido por Bob, tenta matar Clark disparando vários tiros com uma arma automática. É um episódio cheio de conflito e já começa numa sequência impactante, quando Bob convence um executivo de se jogar de um prédio. As sequências de Lex tentando matar Clark, embora persuadido, já dá um prenúncio do futuro dos dois.
8º. Hothead (Episódio 3)
Um episódio com muitas camadas. O diretor Kwan quer punir alguns dos jogadores dos Crows por colarem nas provas, mas o técnico Walt só quer saber de vencer sua 200ª partida, e ao descobrir que é capaz de incendiar qualquer coisa com o poder de sua mente, fará de tudo pra obter o que quer. Ao mesmo tempo, Clark desafia seu pai e entra para o time de futebol da escola. Lana abandona as líderes de torcida e tenta trabalho como garçonete. E Lex se vê diante de seu primeiro desafio no controle da fábrica da LuthorCorp, ao se recusar a demitir 20% do pessoal, como determinação de Lionel. Esse é apenas o terceiro episódio da série e já trás muitos conflitos interessantes para a história, como Clark tentando convencer Jonathan de que consegue jogar futebol sem machucar ninguém, Lana começando a sair da figura de princesa e buscando sua independência, e Lex desafiando seu pai e provando que tem competência para os negócios.
7º. Rogue (Episódio 9)
Sam Phelan é um policial corrupto de Metrópolis, que descobre o segredo de Clark e tenta chantageá- lo para obter vantagens nos seus golpes. O diretor Kwan demite Chloe do cargo de editora do Torch, e acaba nomeando Lana, quando ela tenta intervir por Chloe, gerando atrito entre as duas. E Lex vê uma antiga namorada reaparecer em sua vida com um plano para destruir Lionel. Um dos poucos episódios dessa temporada que não tem um infectado por meteoro. O conflito aqui é contra Phelan, que tira a paz da família Kent, fazendo inclusive Jonathan ir preso injustamente por homicídio. Aqui vemos pela primeira vez o segredo de Clark ameaçado e os Kents percebendo que não poderão esconder isso para sempre. O episódio tem um das sequências mais famosas da série, com Clark se jogando contra um ônibus, para evitá-lo de bater. Temos também a primeira vez que uma arma é disparada contra Clark, embora não o atinja.
6º. Hourglass (Episódio 6)
Clark conhece Cassandra Carver no Lar de Idosos de Smallville, uma senhora que perdeu a visão durante a chuva de meteoros e agora consegue ver o futuro, dando a Clark algumas pistas sobre o seu destino, mas ela morre ao ter uma visão do futuro de Lex. Enquanto isso, o idoso Harry Volk cai em um lago cheio de pedras de meteoro e rejuvenesce, partindo em uma missão para matar os descendentes do júri que o condenou por assassinato 60 anos atrás, incluindo Jonathan Kent. Um dos episódios mais emblemáticos dessa temporada. Em uma das visões, Clark se vê diante de um cemitério com os nomes de todas as pessoas próximas a ele nas lápides, como se ele fosse sobreviver a todos. Também temos um vislumbre de uma capa vermelha nos céus e várias pessoas em perigo, que ele irá salvar. Mas a visão mais perturbadora é a de Lex como presidente dos EUA, todo de branco com uma luva preta, passeando por um jardim, que murcha completamente quando ele o toca, fazendo o céu escurecer e começar a chover sangue. Um futuro tão perturbador que mata Cassandra antes que ela pudesse contá-lo a Lex.
5º. Jitters (Episódio 8)
Earl Jenkins está sofrendo de convulsões, que ele atribui a um envenenamento por minerais num laboratório secreto da LuthorCorp chamado Nível 3. Numa tentativa de chamar a atenção de Lionel e obter informações para um tratamento, ele faz os alunos em visita à fábrica de reféns. Lionel e Lex tentam negociar com ele, enquanto Clark localiza o tal Nível 3, que agora é apenas um galpão desativado. Excelente abordagem do episódio, mostrando pela primeira vez que a LuthorCorp faz experimentos secretos com pedras de meteoro. A sequência final é bem emblemática, com Lex observando Clark ser acolhido calorosamente pelos Kents, após o sequestro, enquanto Lionel apenas finge cuidados com ele para a imprensa. Temos ainda a divertida e superlotada “festinha” na casa de Clark, na ausência dos seus pais, com direito a fogos de artifício de Lex. Um grato momento. Uma curiosidade sobre esse episódio é que ele foi o terceiro a ser gravado, mas o oitavo a ser exibido. Creio que o episódio mais fora de ordem que já foi feito na série. Se reparar na abertura dessa temporada só temos cenas dos três primeiros episódios e de Jitters, o oitavo.
4º. Stray (Episódio 16)
Ryan James consegue ler mentes, mas tem sua habilidade explorada pelo seu padrastro e a nova mulher dele, que cometem roubos e até matam. Ryan foge e acaba indo parar na casa dos Kent, depois que é atropelado por Martha e finge amnésia. Enquanto isso, Lex recebe a oferta de seu pai para retornar a Metrópolis. A temporada começa a se encaminhar para o seu fim e somos brindados com esse episódio. Ryan encanta com sua doçura e anseio por uma vida feliz. Passa a ser um irmão caçula de Clark, descobrindo e guardando seu segredo. Em paralelo temos Lex recusando o inusitado convite de Lionel para voltar a trabalhar com ele em Metrópolis. Um convite que só chegou porque Lex acabou entrando na linha em Smallville e deixou Lionel desconfiado das atividades dele. Essa recusa gerará o primeiro cataclisma do final da temporada.
3º. Nicodemus (Episódio 15)
Jonathan perde as inibições, afronta Lex e, armado, tenta resolver seus problemas no banco. Lana muda o visual, dispensa Whitney, seduz Clark e Lex e negligencia o atendimento do Talon. Pete perde a cabeça e tenta matar Lex. Todos exibem comportamentos incomuns após entrarem em contato com uma flor extinta e tóxica, trazida de volta por Dr. Hamilton, no laboratório que Lex financiou. Após o pico de adrenalina, todos caem em um coma que leva à morte, e aparentemente não há antídoto. A mudança de comportamento de Jonathan e principalmente de Lana são os pontos mais altos desse episódio. A entrada de Lana de minissaia e botas pretas no corredor da escola é memorável, assim como o striptease para Clark na piscina. É a primeira vez que vemos uma Lana ousada, sem pudores e é maravilhoso. A cena final com Lana e Clark no moinho de vento também é belíssima.
2º. Pilot (Episódio 1)
O episódio piloto ainda é um dos melhores da primeira temporada. A apresentação dos personagens e as ligações de seus conflitos iniciais são todas muito bem construídas. A ideia de uma chuva de meteoros destruindo a cidade, inclusive sendo a responsável pela morte dos pais de Lana, ao invés de apenas a nave de Clark chegar à Terra, foi genial. A visita de Lionel e Lex à Smallville bem no mesmo dia, sendo a causa de sua calvície, foi outro ponto a favor. As boas ideias continuaram no tempo presente, com Clark atrapalhado e apaixonado por Lana, depois conhecendo Lex ao salvá-lo do acidente na ponte, a descoberta de sua origem, as sequências no milharal, o colar de Lana com kryptonita, tudo muito bem inspirado. A cartilha perfeita para uma série de sucesso.
1º. Tempest (Episódio 21)
Lionel decide fechar a fábrica da LuthorCorp, causando um alvoroço na cidade. Clark, Chloe e Pete se preparam para o baile de primavera. Lex planeja a compra da fábrica com a ajuda dos funcionários. Whitney se alista no Corpo de Fuzileiros Navais e pede que Lana o espere. Roger Nixon encontra a nave de Clark e ameaça expô-lo. Uma tempestade se aproxima da cidade e tira o carro de Lana da estrada. Três tornados se juntam, formando um gigantesco funil que engole Lana com o carro, enquanto Clark mergulha nele para salvá-la. O episódio final da temporada é de tirar o fôlego do início ao fim. Desde o anúncio de Lionel, o prenúncio de uma tempestade se aproximando toma conta de todo o episódio, com Nixon documentando todas as habilidades de Clark, inclusive fazendo a picape dele explodir com ele dentro, Whitney se despedindo de Lana na rodoviária numa cena emocionante com forte ventania, e a nave sendo ativada, pela primeira vez desde a chegada de Clark. A temporada fechou o seu primeiro ciclo com excelência, garantindo o interesse da audiência pela sua segunda temporada.
15 de janeiro de 2026
10 Melhores Episódios da 2ª Temporada de Smallville
A segunda temporada da série Smallville teve início em 24 de setembro de 2002 e chegou ao fim em 20 de maio de 2003, totalizando 23 episódios, a mais longa de todas. Por uma padronização da época, as séries dramáticas da tv americana tinham geralmente 22 episódios por temporada, mas por alguma razão, a primeira temporada de Smallville teve apenas 21, e provavelmente para equilibrar os números, a segunda acabou ganhando um episódio a mais. Essa temporada segue o mesmo modelo da primeira, mas avança alguns arcos na mitologia do Superman, trazendo novas abordagens e conflitos interessantes. Fácil demais também aleger os dez melhores episódios dessa temporada. No meu ranking geral, ela se encontra como a 6ª melhor da série, provando que tem muita influência. Então vamos lá aos seus melhores momentos:
10º. Lineage (Episódio 7)
Rachel Dunleavy, em busca de seu filho perdido com Lionel, aparece alegando ser a mãe de Clark, o que leva os Kents a contarem a Clark os segredos sobre sua adoção. E Lana procura Henry Small, que ela acredita ser seu pai biológico. Nesse episódio voltamos ao piloto da série para ver o que aconteceu depois que os Kents encontraram Clark no milharal. Na volta para casa, Jonathan encontrou Lionel na estrada pedindo ajuda para Lex e os levou ao hospital. Em agradecimento, Lionel providenciou uma documentação falsa de adoção para Clark, em troca de que Jonathan convencesse os irmãos Ross a venderem a fábrica deles a Lionel. Finalmente descobrimos de onde Jonathan e Lionel se conhecem e por que Jonathan nutre tanto rancor dele. Já o suposto filho de Lionel com Rachel, ele diz a Lex que morreu antes de completar um ano, mas depois vemos uma foto de Lionel ao lado de um garoto de seus sete anos.
9º. Fever (Episódio 16)
Martha é infectada por uma toxina desconhecida e o Centro de Controle de Doenças vai inspecionar a fazenda em busca da causa. Clark corre com Pete para retirar a nave do abrigo, mas acaba se expondo também à toxina e cai doente. A Dra. Helen Bryce colhe o sangue de Clark e fica perplexa com o que descobre. A segunda temporada começa a entrar na sua reta final e as sementes da terceira temporada começam a ser plantadas aqui. O sangue de Clark que Helen colhe será um dos grandes conflitos que permearão a nova temporada. É aqui também que Chloe escreve e lê para Clark sua famosa carta de amor “sou a garota dos seus sonhos disfarçada de sua melhor amiga”. Descobrimos que Lex continua investigando os Kents. Ficamos sabendo também que Martha está grávida e os Kents finalmente passam a ter a posse da chave da nave, que tinha sido achada por Lex, roubada por Nixon, perdida durante o tornado, achada depois por Lionel e escondida por Martha.
8º. Calling (Episódio 22)
O Dr. Walden acorda do coma e conta a Lex e Lionel que Clark é um alienígena e precisa ser destruído. Enquanto isso, um encontro romântico entre Clark e Lana sugere um futuro promissor. A sala da Dra. Helen no hospital é invadida e roubam o sangue de Clark. Jonathan, Martha e Clark são os convidados de honra do jantar de noivado de Lex e Helen, mas ela dá pra trás após o jantar, ao contar a Lex que desconfia de que foi ele quem invadiu sua sala. Dr. Walden morre carbonizado numa luta contra Clark. Lionel consegue a coluna no Planeta Diário para Chloe, mas pede uma investigação pessoal sobre Clark. Ela recusa e vai contar a Clark, quando o encontra aos beijos com Lana. O penúltimo episódio prepara o terreno para o fim da temporada. Aqui temos finalmente Lana e Clark começando pra valer uma relação. São dois beijos em um mesmo episódio. Os símbolos da caverna são modificados anunciando que “está chegando o dia em que o último filho dominará o mundo”.
7º. Insurgence (Episódio 12)
Depois de Lex descobrir que Lionel instalou câmeras na mansão, ele contrata uma empresa para grampear o escritório de Lionel na LuthorCorp, mas a equipe está mais interessada no cofre de Lionel e acaba fazendo Lionel e Martha de reféns. Numa tentativa de salvar sua mãe e driblar os policiais, Clark salta do prédio do Planeta Diário para a LuthorCorp. É a primeira vez que o prédio do Planeta Diário aparece na série. Novamente o aniversário de casamento de Jonathan e Martha marcado por um sequestro. Lionel inventa uma reunião com Martha bem no dia que ela iria sair com Jonathan. Aqui ficamos sabendo que Lionel começou a investigar a vida de Clark, ele tem uma pasta confidencial no cofre sobre Clark, além da chave da nave, que tinha sumido no dia do tornado. E ainda há uma boa quantidade de pedra de meteoro refinada. Mas o maior destaque do episódio é sem dúvida o primeiro grande salto de Clark de um prédio.
6º. Vortex (Episódio 1)
O primeiro episódio da temporada começa dando sequência às ações do final da primeira temporada. A nave de Clark sai voando por Smallville e entra no tornado, onde o carro de Lana também se encontra girando com ela e com Clark, que tenta protegê-la. Jonathan segue perseguindo Roger Nixon e os dois acabam presos numa cripta. Lex salva Lionel, depois de hesitar, e autoriza a cirurgia dele. Clark, Lex, Pete e Chloe seguem procurando Jonathan. A cidade vive um caos para atender e socorrer as vítimas da tempestade. Quando Clark finalmente encontra Jonathan, Nixon usa pedra de meteoro para conseguir levar Clark com ele, mas acaba morrendo, quando Lex atira nele para salvar Jonathan. E Lionel acorda cego da cirurgia, culpando Lex. É uma excelente estreia, cheia de ações e conflitos. Aqui Lana começa a desconfiar que Clark tem um segredo que não quer revelar nem pra ela.
5º. Heat (Episódio 2)
O verão chega com uma forte onda de calor, e com ele e a nova professora de biologia, que exala ferormônio, Clark acaba desenvolvendo um novo poder, a visão de calor, mas precisa saber controlá-lo, antes de sair incendiando tudo pela frente. A professora Desirée usa seu poder de sedução com feromônios potencializados com pedras de meteoro para convencer Lex a se casar com ela, e depois convencer Jonathan a matar Lex. Excelente episódio que nos apresenta mais um novo poder de Clark. Uma ótima sacada dos roteiristas em associar a descoberta da visão de calor com o desenvolvimento da puberdade. Clark começa a lançar seus primeiros fogos pelos olhos quando fica excitado. Toda a atmosfera do episódio é focada na onda de calor que caiu sobre Smallville, os personagens estão sempre suados, ventiladores por perto, tornando a chuva que começa a cair no final do episódio, um alívio até para os telespectadores. Genial.
4º. Ryan (Episódio 8)
Ryan está de volta e agora é cobaia nas mãos do inescrupuloso cientista Dr. Garner, no Instituto Summerholt. Clark usa suas habilidades ao máximo para salvar seu jovem amigo telepata, mas um tumor em seu cérebro é mais forte que ele. Enquanto isso, Nell conta para Lana que vai se mudar para Metrópolis. Ryan comove o público desde sua participação na primeira temporada. Aqui o resultado é ainda maior e temos um dos mais emocionantes episódios de toda a série. O jeito carismático, as palavras sempre simples e sábias, sua paixão pelo Anjo Guerreiro, com sua associação a Clark e Lex, ecoam ainda mais forte com a descoberta de sua sentença de morte. Nem mesmo o melhor neurocirurgião que Clark consegue localizar, é capaz de salvá-lo. A cena final com os dois no balão é uma das mais marcantes.
3º. Rosetta (Episódio 17)
Clark passa a decifrar a escrita kryptoniana após enfiar a chave da nave no orifício da parede da caverna Kawatche. O Dr. Walden também enfia a chave na parede, mas acaba ficando em estado catatônico. Depois que Clark grava sem querer um símbolo kryptoniano no celeiro e Chloe publica no Torch, ele passa a receber mensagens do cientista bilionário Dr. Virgil Swann. Através dele, Clark descobre a sua origem, o seu nome de batismo, o nome do seu planeta e fica ciente da sua extinção. Episódio cheio de simbologia. Clark finalmente tem algumas informações sobre a sua origem, sabe que seu nome é Kal-El, que veio de Krypton e que ele é o único sobrevivente de sua raça. As descobertas mexem com suas emoções e o faz refletir sobre seu destino. Para completar a magia, nada menos que Christopher Reeve como o homem responsável por trazer muitas das respostas que Clark sempre buscou. Emocionante!
2º. Exodus (Episódio 23)
A memória de Jor-El fala com Clark através da nave e anuncia que chegou o tempo dele abandonar Smallville e seguir seu destino. Desesperado, Clark rouba uma chave de kryptonita confeccionada por Lionel para destruir a nave, causando uma explosão no abrigo e uma onda de choque enorme, que vira a picape de Jonathan e Martha, fazendo-a perder o bebê. Desolado com a dor dos pais, e com medo de acabar ferindo Lana também, ele decide abandonar Smallville. Usa o anel de kryptonita vermelha, monta na moto e vai embora, deixando Lana aos prantos. Enquanto isso, Chloe aceita o acordo com Lionel para investigar a vida de Clark. E após casar com Helen, Lex acorda sozinho no jatinho, caindo no mar. O fim da segunda temporada é outra grande catarse para a série. Quando finalmente temos Lana e Clark juntos, ele acaba cedendo às ordens de Jor-El e indo embora, depois de causar sofrimento aos seus pais, a Lana e a Chloe, que acaba enveredando num acordo sombrio com Lionel. E ainda temos o destino incerto de Lex. Os ingredientes estão prontos para uma das melhores temporadas da série começar.
1º. Red (Episódio 4)
Clark compra um anel de formatura, sem saber que a pedra dele é de kryptonita vermelha, que tem a capacidade de alterar a personalidade de Clark, transformando-o em um jovem rebelde e inconsequente, que decide usar seus poderes para benefício próprio. Jonathan e Martha se esforçam para reverter a situação, enquanto Lana se deixa envolver pelo “novo” e sedutor Clark. Chegamos finalmente ao melhor episódio da segunda temporada, e também um dos melhores de toda a série. O primeiro contato de Clark com krytonita vermelha nos trás momentos maravilhosos de um Clark Kent sem freios. Ele faz compras caras, muda o visual, provoca briga em bar, seduz Lana, ao mesmo tempo em que sai com Jessie, da qual tenta obter disquetes com informações que valem um milhão de dólares. É a primeira oportunidade que temos de conhecer o Clark Kent sem moral e o que ele seria capaz de fazer com seus poderes se só tivesse ambição em mente. Uma ótima análise comportamental e um excelente momento para a série.
12 de fevereiro de 2026
10 Melhores Episódios da 3ª Temporada de Smallville
A terceira temporada da série Smallville teve início em 01 de outubro de 2003 e chegou ao fim em 19 de maio de 2004, totalizando 22 episódios. Uma das mais bem conduzidas temporadas da série. No meu ranking, ela se encontra como a terceira melhor de todas, ou seja, abrindo o top 3 e mostrando toda a sua potência. Ela já começa trazendo Clark explorando ao máximo seu lado sombrio em Metrópolis, nos proporcionando momentos únicos e maravilhosos. Temos ainda o brilhante fio condutor da conturbada relação de Lex e Lionel se aprofundando com a descoberta do assassinato dos pais de Lionel, e os métodos que ele usa para escapar da acusação e fazer Lex perder a sanidade. E há ainda a terapia de ressureição com o sangue de Clark. Uma temporada espetacular! Vamos aos melhores dos melhores episódios dela:
10º. Crisis (Episódio 16)
Clark recebe um misterioso telefonema do futuro de Lana em apuros e agora tem que correr contra o tempo para evitar que esse futuro aconteça e Adam mate Lana. Enquanto isso, Lex é incriminado pelos assassinatos cometidos por Adam na Farmacêutica Metron e se oferece para ajudar a derrubar seu pai em troca de imunidade. Um episódio intrigante, em que os personagens lutam para driblar o futuro, mas ele insiste em acontecer do mesmo jeito. Temos o desfecho de Adam, que morre descobrindo os poderes de Clark, exatamente o que Lionel queria que ele descobrisse, só que tarde demais. Lex começa seu acordo com o agente do FBI, Frank Loder, que dará muita dor de cabeça aos Kents. E descobrimos que Lionel está com uma doença terminal no fígado.
9º. Truth (Episódio 18)
Chloe invade a LuthorCorp e inala acidentalmente um misterioso gás da verdade, que faz com que qualquer pessoa fale sempre a verdade a ela. Com sua nova habilidade, ela expõe no jornal da escola o passado homicida de uma professora, ganhando a antipatia de todos. E Lionel a convence a usar seu novo poder para ir até os Kents e descobrir o segredo de Clark. No entanto, a inalação desse soro traz consequências fatais e Clark precisa encontrar um antídoto antes que ela descubra a verdade sobre ele ou, pior ainda, morra. Episódio com uma abordagem bem interessante, proporcionando momentos surpreendentes com as revelações que alguns personagens fazem diante de Chloe. Martha conta que teme que Jonathan não seja mais o mesmo de sempre e fala até que Clark reencontrou seu pai biológico. Lana diz a ela que não confia nela. Pete se declara pra ela. E Lex confessa que tudo que mais quis de Lionel era o seu amor.
8º. Legacy (Episódio 17)
Clark descobre que Jor-El está enviando mensagens para Jonathan através da chave da nave. Lionel acredita fazer um acordo com o Dr. Swann e simula uma vistoria do FBI no rancho Kent em busca da chave. Clark acusa Lex da batida quando descobre que ele está ajudando o FBI a investigar Lionel. E Lana desiste do relacionamento com Clark. A temporada começa a se aproximar do seu final e o acordo de Jonathan com Jor-El para liberar Clark para o seu treinamento começa a ser cobrado, deixando Jonathan desnorteado. Numa luta corporal nas cavernas para pegar a chave, ele e Lionel veem a chave voar até a parede e atravessar o maquinário que Lionel colocou para explorá-la, sumindo em seguida, para aparecer no final do episódio com Dr. Swann. O episódio traz o retorno de Christopher Reeve, em mais uma emocionante participação como o Dr. Virgil Swann.
7º. Memoria (Episódio 19)
Lex decide participar de um programa experimental com o Dr. Garner para recuperar as semanas que foram apagadas de sua memória, mas o tratamento trás de volta memórias bloqueadas da infância. Clark tenta impedi-lo, mas é capturado por Lionel e submetido ao mesmo tratamento para que Lionel possa investigar sua origem. Episódio de grande significado para a série. Nele descobrimos que Lex não matou seu irmão Julian, foi a mãe dele, para evitar que Lionel o criasse da mesma forma que Lex e colocasse um contra o outro. Lex assumiu a culpa para polpar a reação de Lionel contra sua mãe. A revelação choca Lionel, fazendo-o perceber que foi injusto com ele todo esse tempo, e que se soubesse a verdade, poderia até tê-lo amado. A outra revelação é a primeira lembrança de Clark sendo colocado na nave pelos seus pais, ele descobre o nome da sua mãe, Lara, e percebe que ela se preocupava se iriam amá-lo.
6º. Perry (Episódio 5)
Uma erupção solar torna os poderes de Clark perigosamente instáveis, justamente quando ele cruza o caminho de Perry White, um jornalista outrora promissor, cuja carreira foi destruída por Lionel Luthor. Mesmo constantemente embriagado, ele acredita que Clark tem poderes e não desiste até provar sua teoria. Enquanto isso, Lex descobre que Perry possui provas incriminatórias poderosas sobre o passado obscuro de Lionel. Ótima introdução do futuro editor chefe do Planeta Diário. Vemos a decadência de um grande jornalista, mas sabemos que ele dará a volta em sua carreira e chegará ao cargo principal do maior jornal de Metrópolis. Interessante também o descontrole dos poderes de Clark que se intensificam ou somem, de acordo com as ondas solares, fazendo-o arremessar um trator da fazenda pra longe.
5º. Relic (Episódio 6)
Clark ajuda Lana a descobrir a verdade sobre quem matou sua tia-avó Louise e descobre que Jor-El esteve na Terra no começo dos anos 60 e que se apaixonou por Louise. Lex descobre que seus avós foram assassinados e começa a suspeitar de seu pai. Ótimo momento da temporada. Viajamos ao passado para encontrar Jor-El em missão por Smallville e se envolvendo com a tia-avó casada de Lana. Aqui ficamos sabendo que Jor-El era tão humano quanto Clark e que ele já esteve na Terra e inclusive conheceu o pai de Jonathan, Hiram Kent, deixando implícito que os Kents não acharam Clark, eles foram escolhidos por Jor-El para criá-lo. Também começa aqui a investigação sobre o assassinato dos pais de Lionel, que vai ser um dos pilares dessa temporada. A ideia de fazer Kristin e Tom viverem Louise e Jor-El deu um charme a mais ao episódio, sugerindo que a ligação entre Kent e Lang vem de longe.
4°. Covenant (Episódio 22)
Uma jovem misteriosa que diz ser de Krypton e chamar-se Kara aparece no rancho Kent, tenta convencer Clark a ir embora com ela e Jonathan revela o acordo que fez com Jor-El. Clark vai depor contra Lionel, para impedi-lo de conseguir sair da prisão por fiança, mas descobre que Lex nunca deixou de investigá-lo e rompe de vez a amizade. Lana parte para Paris. E Clark decide ir embora com a moça. Lionel é condenado, e enquanto raspa a cabeça, Lex cai envenado por uísque, a casa de proteção a testemunha de Chloe e do pai dela explode, surge um sinal kryptoniano de fogo no rancho Kent, Jonathan cai desacordado nas cavernas e Clark surge despido dentro do símbolo da casa de El em um lugar escuro e nevoeiro, com as vozes de Jor-El dizendo que ele irá renascer. O final da temporada mostra a derrocada de Lionel e sua vingança contra Lex e Chloe. Além da partida de Lana de Smallville e da ida de Clark para a sua preparação com Jor-El.
3º. Phoenix (Episódio 2)
Lex Luthor retorna dos “mortos” e enfrenta seu pai e sua esposa. Clark também está de volta a Smallville e tenta reconstruir sua relação com Lana e Chloe, enquanto tenta esquecer seus dias em Metrópolis, mas Morgan Edge recorda seu passado e cobra seus acertos. A continuação do primeiro episódio da temporada e a sua conclusão é um dos grandes momentos. Clark tenta juntar os cacos dos estragos que ele causou na vida de seus pais, de Lana e de Chloe, mas Morgan Edge não deixa ele esquecer. Num dos melhores embates, Clark faz um corte em seu braço com kryptonita para colher seu sangue e entregar a Morgan. Ele ainda explode o caminhão de mudanças onde Morgan o mantinha capturado para levá-lo a Lionel. Muito boa também a estratégia de Lex fazer Helen assumir a autoria da tentativa de matá-lo no jatinho, fazendo os dois reviverem a mesma cena no ar. E por fim, a rendição de Lex perante Lionel, aceitando voltar a trabalhar com ele na direção da LuthorCorp e o abraçando com ternura, pegando Lionel completamente desprevenido.
2º. Shattered (Episódio 8)
Morgan Edge está de volta com nova aparência, após várias cirurgias plásticas. Lex consegue a confissão dele de que ele e Lionel mataram seus avós, mas depois Morgan e Lionel entram em acordo e conspiram para destruir o psicológico de Lex, fazendo-o parecer estar em um surto psicótico. Clark, Lana e Chloe tentam ajudar Lex, mas Lana fica gravemente ferida e Lex é internado no Sanatório Belle Reve. Um dos grandes momentos dessa temporada. Brilhante interpretação de Rosembaum que oscila impecavelmente em estados de consciência e delírios. Ponto alto para a sequência em que Lex presencia Clark parar o carro de Morgan e empurrá-lo para longe, concluindo finalmente que Clark tem poderes. O episódio dá continuidade e desenvolvimento ao desequilíbrio psicológico de Lex, que começou ainda na ilha, no início da temporada, e segue costurando mais alguns momentos importantes ao longo do ano.
1º. Exile (Episódio 1)
Clark vive uma vida de crimes em Metrópolis, assaltando banco, arrombando caixas eletrônicos, usando carro de luxo e frequentando boates badaladas, sob efeito intencional de kryptonita vermelha, numa fuga da realidade. Enquanto aguardam contato dele, Jonathan e Martha enfrentam a hipoteca do rancho. Lionel pressiona Chloe para obter informações de Clark. Lex, dado como morto, acorda numa ilha deserta e trava lutas internas contra um amigo imaginário, enquanto Helen posa de viúva. E a vida de Clark acaba o aproximando de chefão do crime de Metrópolis, Morgan Edge. Finalmente chegamos ao melhor momento da temporada e um dos melhores de toda a série. A sua estreia começa completamente diferente de tudo que estávamos acostumados a ver em Smallville, nos proporcionando momentos icônicos como a invasão do banco com uma moto, os policiais o alvejando e ele explodindo uma viatura. O episódio é tão intenso que seu desfecho fica pro episódio seguinte. Roteiro, direção e desempenho no ápice. Um show de Smallville.
26 de março de 2026
10 Melhores Episódios da 4ª Temporada de Smallville
A quarta temporada da série Smallville teve início em 22 de setembro de 2004 e chegou ao fim em 14 de maio de 2005, totalizando 22 episódios. Uma temporada extraordinária, mas controversa. Há quem ame e quem odeie, mas ela não passa despercebida. No meu ranking ela se encontra como a segunda melhor da série. E os motivos para a vice liderança são vários. A começar pela entrada de Lois Lane, enriquecendo a dinâmica da série com agilidade e humor. O fio condutor é a busca pelas três pedras do poder, que juntas formarão o cristal do conhecimento, que cria a Fortaleza da Solidão. Uma trama fascinante! Na busca pelas pedras estão os Luthors, os Teagues e uma bruxa do século XVII, a Condessa Margaret Isobel Thoreaux, possuindo o corpo de sua descendente Lana. Aqui é onde muitos fãs questionam a temporada, mas eu acho genial esse enredo da bruxa, mostra que há muitos séculos já se conhecia a história das pedras e já se buscava por elas. E os roteiristas mesclam os poderes de Isobel com os símbolos kryptonianos, inclusive com a tatuagem em Lana. É maravilhoso! Temos ainda Clark finalmente entrando para o time de futebol da escola, Chloe descobrindo seu segredo, além do voo mais belo de Clark em toda a série. São muitas camadas nessa temporada e episódios incríveis. Por isso, vamos logo aos seus maravilhosos momentos:
10º. Krypto (Episódio 14)
Lois atropela acidentalmente um cachorro e o leva para a fazenda para se recuperar, mas Clark logo percebe que ele tem uma superforça. Ele investiga e descobre que o animal fazia parte de um experimento abortado da LuthorCorp e que ladrões estão usando os cães para roubar lojas e planejam um assalto a um carro forte. Episódio carismático, que faz alusão ao cachorro de estimação do Superman, Krypto. Lois até o enrola numa toalha vermelha ao fim do episódio, mas não se trata da versão de Smallville dele, apenas de um cachorro com superforça graças a experimentos com kryptonita. Ao fim, ele recebe o nome de Shelby e passa a fazer parte do dia a dia dos Kents.
9º. Unsafe (Episódio 11)
Alicia Baker recebe alta do hospital Belle Reve e vai para Smallville para reatar seu relacionamento com Clark. Inicialmente cético em relação a Alicia, Clark passa a apostar no romance, mas quando o médico dela começa a pressioná-la para abandonar Clark, ela sugere que os dois fujam, e diante da recusa de Clark, ela usa kryptonita vermelha e os dois fogem pra Las Vegas e se casam. Enquanto isso, Lana decide dormir com Jason para reconquistá-lo. Episódio de retorno de Alicia, após a desastrosa passagem na terceira temporada. Temos agora uma Alicia bem mais tranquila e menos agressiva, capaz de se atirar na frente de uma bala para proteger o segredo de Clark, embora não menos determinada a alcançar seus objetivos. Clark sob efeito de kryptonita vermelha é sempre maravilhoso e as sequências deles em Vegas são ótimas.
8º. Blank (Episódio 19)
Kevin, um garoto que consegue fazer as pessoas perderem os últimos segundos da memória, usa seus poderes em Clark, mas acaba lhe causando amnésia total. Chloe assume os cuidados dele, para garantir que ele mantenha seus poderes em segredo, enquanto Clark vai lhe confiando cada poder que redescobre. Ao ver Lana, Clark se apaixona novamente e garante que fará tudo diferente para ficar com ela. Enquanto isso, Lex aproveita a situação para convencer Clark a revelar seus segredos sobre as pinturas das cavernas, e acaba descobrindo que existe uma câmera secreta lá. Episódio interessante, que mostra Clark livre do fardo do seu segredo, confidenciando tranquilamente todos seus poderes a Chloe, que se mantém fiel a ele. Embora Clark desejasse fazer tudo diferente, no final acabou tomando as mesmas decisões que tomaria em plena consciência de sua memória.
7°. Run (Episódio 5)
Após a carteira de Jonathan ser roubada, Clark localiza o ladrão e mesmo com sua supervelocidade, não consegue alcançá-lo. O ladrão, Bart, surpreso com a supervelocidade de Clark também, aparece mais tarde na fazenda e tenta convencer Clark a deixar Smallville para viverem juntos na estrada. Enquanto isso, Lex compra um manuscrito emoldurado de valor inestimável com símbolos kryptonianos, e Clark descobre que ele contém um misterioso mapa oculto. No entanto, Bart rouba o manuscrito de Lex e acaba entrando em grande perigo. Episódio de apresentação de Bart Allen, o futuro The Flash, e início da construção de sua amizade com Clark. Bart é apresentado como um jovem inconsequente, que usa e abusa dos seus poderes em benefício próprio, mas a aproximação com Clark o faz refletir sobre suas atitudes. Momento especial do primeiro encontro de dois super-heróis da DC.
6º. Sacred (Episódio 15)
O Dr. Virgil Swann morre, mas antes envia para Clark a chave da nave, que estava em sua posse. Jason vai para Xangai em busca de uma das pedras do poder e Lex o segue. Clark conversa com Jor-El nas cavernas, que o convence da importância dele juntar as três pedras, e assim ele decide acompanhar Lana a Xangai quando ela descobre que Jason e Lex estão lá. Na China, eles caem nas mãos de caçadores de tesouros que também buscam a pedra e são torturados. A Condessa Isobel acaba assumindo o corpo de Lana novamente e encontra a pedra. Episódio de ambientação e atmosfera inusitadas, que nos leva para a cultura chinesa, com presença de mafiosos e sessões de tortura. Ótimo retorno de Isobel, que dessa vez consegue decifrar o mapa e encontrar uma das pedras. Muito boas também as suas sequências de luta com Clark.
5°. Onyx (Episódio 17)
Após um experimento com kryptonita na LuthorCorp resultar em black kryptonita, causando uma explosão, Lex se divide em dois, com seu lado bom separado de seu lado mau. O Lex mau aprisiona o Lex bom no porão da mansão e inicia seu massacre, tentando matar Clark e Chloe no laboratório, lutando com Lionel e convencendo-o a retornar à sua natureza sombria, ameaçando fechar o Talon a menos que Lana vá morar com ele e enfrentando Clark e os Kents com kryptonita verde. Ele consegue extravasar toda a vilania acumulada dentro dele, revelando a magnitude da sua crueldade sem freios. É nesse episódio que ele profere a célebre frase da série: “eu sou o vilão dessa história”. Um momento importante que mostra bem a dualidade de Lex e profetiza o futuro do personagem.
4º. Spirit (Episódio 18)
O baile de formatura de Clark se aproxima. E depois que a aluna Dawn Stiles, obessecada em ser a rainha do baile, entra em coma em um acidente na estrada, seu espírito começa a passar de corpo em corpo a medida que toca nas pessoas. Passa por Martha, Lana, Lois, Chloe e até Clark, gerando comportamentos inesperados e surpreendentes em todos. Mas o grande destaque do episódio é o clima de puro romance entre Lana e Clark, dançando juntos ao som de “You and Me” do Lifehouse, quando ninguém mais esperava que eles pudessem ainda voltar a ter algum romance e depois de ambos terem dito que não iriam ao baile. Algumas situações merecem destaque também, como Martha agindo como uma adolescente quando é possuída pelo espírito de Dawn, e Lois implicando com o vestido e a posição da flor que o espírito da aluna escolheu pra ela usar.
3°. Transference (Episódio 6)
Para fugir da prisão, Lionel arma uma emboscada para Lex, trocando de corpo com ele, através de uma das pedras do poder, mas Clark é atraído para a prisão e acaba trocando de corpo com Lionel. Ao descobrir que seu novo corpo possui superpoderes, Lionel imediatamente começa a causar estragos em Smallville. Preso sem seus poderes, Clark precisa encontrar uma maneira de recuperar seu corpo para salvar seus amigos e familiares de Lionel. Episódio bastante interessante. Tom conseguiu reproduzir os trejeitos de Lionel e a maneira de andar e falar com muita precisão. As sequências dele descobrindo os poderes de Clark são maravilhosas, assim como as cenas com Lex, Lana, Chloe, Martha e Jonathan. A partir daqui Lionel começa a mudar sua personalidade após retornar ao seu corpo, dando início a uma nova fase de seu personagem.
2º. Commencement (Episódio 22)
O episódio começa num embate maravilhoso entre Lana e Genevieve Teague, que culmina com a Condessa Isobel possuindo Lana pela última vez e matando Genevieve com uma das pedras. O sangue humano na pedra direciona uma nova nave espacial para a Terra, em outra chuva de meteoros, trazendo o caos para a cidade em meio à formatura de Clark. Depois de um ano afastados, Lana e Clark sinalizam um possível retorno, mas o clima de perigo iminente parece não dar brecha aos dois. Clark finalmente junta as três pedras do poder, que formam o Cristal do Conhecimento, fechando o arco no melhor final de temporada de toda a série. Eventos impactantes como a formatura, a nova chuva de meteoros, o desfecho dos Teagues e da Condessa Isobel, as três pedras se transformando no Cristal do Conhecimento e transportando Clark ao polo norte e a chegada da nova nave com seus tripulantes redefinem a série e a moldam para a jornada da melhor temporada que viria no ano seguinte.
1º. Crusade (Episódio 1)
Clark retorna a Smallville como Kal-El, determinado a cumprir seu destino, e parte em busca de um poderoso cristal kryptoniano que Lex obteve numa escavação no Egito. Enquanto isso, Lois Lane chega a Smallville para investigar a morte de sua prima Chloe. Lana curte seu novo namorado em Paris, mas uma misteriosa tatuagem kryptoniana surge em suas costas. Jonathan segue em coma e Lionel precisa lidar com sua nova vida na prisão. O início da temporada é fascinante. Simplesmente a melhor estreia de temporada e um dos melhores episódios de toda a série. A construção do novo fio condutor da trama é muito bem desenvolvida. O voo de Clark, igual um foguete, até o avião de Lex é excepcional. Nenhuma outra vez ao longo de todas as temporadas, Clark voltou a ter um voo tão magnífico quanto esse. As sequências de Lex no Egito e de Lana em Paris trazem um frescor à história, assim como a brilhante entrada de Lois, que com sua inquietação e sagacidade, enriquece a série e reforça o cânon do Superman.
Um contoDe fora do celeiro
setembro de 2026
Na sala de espera
Existia um número que só eu conhecia, e ele morava entre Campina Grande e São Miguel. Começava bem longe do tangível, lá pelo fim das férias, e ia encolhendo a cada volta da escola, um pouco antes do que devia, porque eu sempre descontava o último dia sem esperar que ele acabasse.
Quando chegava a zero, eu disparava rumo a uma porta que ainda jazia trancada e ficava ali, impaciente como numa sala de espera de clínica. Lançava um olhar quase de súplica para minha tia, mas ela apenas negava, como uma recepcionista de poucas palavras. Então, tudo o que me restava era encarar Marlon, que aguardava junto comigo, sentado, varrendo o chão com o rabinho.
Tudo acontecia diante da porta de um quarto onde nada acontecia antes das dez. Porque, às dez, Samuel acordava.
Enquanto esperava, eu revirava mentalmente a mala dele. O que será que ele tinha trazido desta vez da sua aventura? Claro, eu imaginava mais CDs, apesar de não caber mais nada em sua “loja”, que servia até de locadora para mim. Qualquer um de Sandy e Junior que tocasse “Em Cada Sonho” já seria suficiente.
Ou talvez ele tivesse trazido DVDs? Filmes novos para a gente assistir. Por favor, que não fosse mais um “Dois Filhos de Francisco”. Eu queria algo divertido!
Mas nada disso chegava perto do motivo da minha ansiedade. Eu queria saber se ele estava trazendo a nova temporada de Smallville. E logo eu estaria fazendo as contas de quantos dias levaria a nova maratona: uma felicidade matemática que começaria assim que o box fosse desembalado, como quem abre um cofre.
Só precisava da confirmação para pôr em prática os meus dois atos ardilosos. O primeiro ato era moleza. Começava com “Mainha, posso dormir lá em Samuel hoje?” e terminava em pelo menos cinco reais capitalizados nos abençoados pastéis gigantes de Cirilo, ou em incontáveis coxinhas de Paulo das Coxinhas.
O segundo ato era mais complexo. Durante a madrugada, quando um episódio acabava e os créditos apareciam, eu teria que ficar absolutamente imóvel, olhando para a tela, sem dar um pio. Esperava que ele sentisse, na minha indiferença, a normalidade de assistir a mais um episódio.
Às vezes, ele perguntava: “Já são que horas?” Eu olhava o relógio e mentia.
Se no começo eu já tirava meia hora, no final eu sequer olhava mais para o relógio. Respondia e só torcia para que meu blefe não fosse ousado demais.
Teria que funcionar, pois a agenda dele já estaria repleta de outros compromissos: a lapinha e vários filmes de qualidade duvidosa. E eram mesmo! Até que “Marley e Eu” me provou o contrário. Desde então, ironicamente, posso decidir um filme por um critério bem prático: se Samuel tinha o DVD, então tinha que ser bom.
Claro que ele também tinha suas loucuras, como torcer para o Náutico e o Fluminense. Mas é a mesma pessoa que me permite sempre voltar ao Santa Bárbara II quando ouço “Any Time at All” ou “All I’ve Got to Do”.
Ele inevitavelmente voltaria para o lugar de onde vinham os CDs, e eu voltaria a me assombrar com o número que só eu conhecia.
Enfim a porta se abriu.
Colofão
Este volume reúne 162 textos publicados no blog Celeiro do Sam entre 2007 e 2026, com as fotos que saíram em cada post.